quinta-feira, março 04, 2021

Uma choldra

 Não gosto de bater no ceguinho mas, por vezes, o ceguinho merece e... aí vai disto! Hoje estava a ver televisão, era quase a hora da papa. Na TVI dois apresentadores meio mongas iam desfiando os casos do dia: um rapaz que matou o pai à facada, uma idosa que havia falecido num lar ilegal que tentou ocultar o facto aos familiares da defunta. Este com direito a ligação em directo ao local onde um repórter ia começar a debitar as banalidades do costume, começando por repetir exactamente aquilo que havia sido dito em estúdio. Este é o género de televisão que me repugna e mudei de canal.

Fui cair na SIC e, qual não é o meu espanto, também aqui se estava a discutir o caso do filho que esfaqueou o pai. Outros apresentadores (também um homem e uma mulher, imagino que seja necessária a paridade para garantir as boas intenções da estação), outros comentadores (tal como na TVI uns camelos arrogantes a arrotar postas de pescada, como se fossem anjos vingadores). Ainda não estava eu refeito da surpresa de encontrar o mesmo tema quando, mudando de assunto, lá vêm com a história da velhinha e do lar ilegal e ainda, suprema coincidência, ligam em directo para o repórter no local.

Que merda é esta!?

Depois haverá de aparecer um apresentador de telejornal com cara de cu e ar enjoado a dizer que os casos de ansiedade e sofrimento psicológico têm aumentado de forma assustadora entre a população portuguesa. Claro que nos explicam que isso se deve ao confinamento e à puta da pandemia. Duvido que sejam as únicas causas. Esta televisão vampírica há-de ter muitas culpas no cartório e o pior é que, mesmo depois de a pandemia ser controlada e o confinamento ter acabado, esta porcaria vai continuar a sugar os sentimentos das pessoas, contribuindo para o mal-estar generalizado. Com grandes audiências.

Os telespectadores são como os zombies da série The Walking Dead, doidinhos por fincarem o dente em carne fresca. As estações televisivas são como bordéis onde as meninas são oferecidas, não às carícias, mas à dentuça dos consumidores.

Uma choldra.

sexta-feira, fevereiro 26, 2021

Palavras vazias

É diário, já se sabe, bate como um martelinho de São João, poing, poing, poing, nas nossas cabeças, no nosso juízo, no que resta do nosso espaço comum, poing, poing, poing, o martelinho a martelar os números da pandemia. 

O pivô do noticiário debita os números de novos infectados, poing, internados, poing, recuperados, poing, poing, poing, e, raramente sinto as palavras tão vazias, o pivô afirma que "lamenta" os falecimentos da ordem. Diz aquilo com a mesma entoação que aplicaria se falasse da qualidade dos sapatos que tem calçados ou do arroz de pato que  encomendou na tasca da esquina (talvez o arroz de pato o levasse a colocar alguma alma na fala). A banalização do discurso que relata a catástrofe em curso tem este efeito narcótico, este amerdalhamento emocional, deixa-nos à beira da desumanização.

Quando era miúdo sempre me impressionaram as palavras de circunstância. Não sei se sentias o mesmo, amável leitor, mas lembro-me de perceber o vazio do discurso quando o discurso era vazio e de ficar estúpido por não ser capaz de encaixar as coisas. Porque havia uma pessoa de dizer algo que não sentia de forma nenhuma? Porque havia alguma pessoa de fingir ser o que, obviamente, não era? Ah, santa inocência!

Regressado ao tempo presente ressoa na minha mona o poing-poing-poing acima descrito. As questões sobre a motivação de tanta palavra vazia obtêm respostas infelizes. A inocência perdida faz-me perceber que tudo roda à volta de interesses mesquinhos, manipulações mais ou menos evidentes, agendas políticas, campanhas comerciais em curso, dinheiro, dinheiro, dinheiro e poder... um buraco sem fundo, um vazio impossível de preencher.


segunda-feira, fevereiro 22, 2021

Pedagogia do cócó

Andamos todos tão enfronhados nesta coisa da pandemia do Covid que certas notícias de assinalável gravidade nos passam ao lado como bêémedablius a assapar na autoestrada. É ou não inquietante que, segundo estudo recente "cujos dados são relativos a 2020, 67% dos jovens consideram legítima a violência no namoro, dos quais 26% acham legítimo o controlo, 23% a perseguição, 19% a violência sexual, 15% a violência psicológica, 14% a violência através das redes sociais e 5% a violência física."? Caramba, quem é esta gente? São os miúdos que se sentam à minha frente na sala de aula?

Como é isto possível, com tantas campanhas de várias instituições estatais, com aulas de educação sexual, com a proibição de cantar o "atirei o pau ao gato" nos infantários, com vigilância constante sobre os conteúdos dos programas infantis nos canais televisivos, com psicólogos trabalhando em permanência  nas escolas, como é isto possível? Como é possível que tantas crianças que fazem cócó em vez de cagarem sejam tão permissivas à sordidez da violência no namoro?

Fico a pensar que algo tem corrido mal, que talvez estejamos a errar na forma como encaramos a infância. Fico a pensar nos resultados que um estudo deste género teria obtido se tivesse sido feito quando eu era miúdo. Na verdade, fico a pensar que, tal como o outro, "quanto mais conheço os homens (e as mulheres) mais gosto do meu cão". E eu não tenho cão.


terça-feira, fevereiro 16, 2021

Há dias assim

Há dias assim. Acordo com a sensação de que estou a viver uma ficção. O meu dia será o episódio seguinte de uma história inventada, não por alguém, por alguma coisa que desconheço, uma entidade incompreensível que pressinto mas que não consigo abarcar com os meus sentidos limitados.

Ao rememorar os acontecimentos do dia anterior encontro estranhas conexões, coincidências aparentemente impossíveis, como se tudo se encaixasse de forma demasiado premeditada. Sinto isto mas não sou capaz de concluir inequivocamente as razões que levantam as minhas suspeitas. É tudo demasiado vago mas, por vezes, quase palpável. 

Encaro o resto do dia com morna resignação: irei vivê-lo representando este papel para o qual não estou completamente preparado por não ter consciência absoluta do enredo, sabendo de antemão que irei enganar-me várias vezes nas falas, errar algumas marcações, desiludindo o argumentista e o encenador. Lamento, sou fraco actor.

sábado, fevereiro 13, 2021

A vida prolonga-se

Olhar os nossos mais velhos como se nos víssemos ao espelho é uma atitude que carrega uma certa dose de melancolia. Vê-los envelhecer perdendo faculdades físicas e mentais, rever-nos nessas personagens em constante mutação em direcção a um final inevitável, provoca uma angústia adocicada difícil de digerir por completo.

Sabemos que a vida é um ciclo. Mas não estamos preparados para aquilo que ela inevitavelmente nos oferece quando se aproxima do seu termo. No entanto, a nossa capacidade de adaptação permite-nos encarar a coisa com progressiva coragem e, não encontro outra palavra, resignação.

Seja como for, embora gostasse de ser capaz, continuo a não acreditar em Deus mas começo a perceber que a vida se prolonga para lá da morte. A nossa vida prolonga-se naqueles que nos amam e que irão recordar-nos herdando de nós algo que irão transportar consigo e legar aos que vierem depois deles. Nisto acredito porque sei, porque o sinto.

A vida não é eterna mas prolonga-se.

terça-feira, fevereiro 09, 2021

O mundo fede

Por vezes imagino um mundo sem catástrofes: borboletas, céu azul, prados imensos com ovelinhas tosando no remanso de um dia ameno e bem educado. Um mundo lindo: crianças sorridentes, os velhinhos todos com dentadura, um ou outro unicórnio e casas com ar condicionado.Um mundo limpo: baleias azuis, verdes e vermelhas nadando num mar límpido, sem continentes de dejectos plásticos, abelhinhas trabalhando sem parar, zzzz, zzzzzz, zzzzzzz.

Poderia continuar a efabular esse mundo de sonho mas acho que não vale a pena. Cada um pode acrescentar o parágrafo que mais lhe convier que a coisa só pode ficar mais e mais bonita até rebentar de tanta beleza.

Depois caio em mim, olho a TV; arrasta-se o noticiário. Coisa tão feia! Desgraça sobre desgraça. Mortes, desastres, vigarices. Não há notícia que se aproveite. O mundo fede.

domingo, fevereiro 07, 2021

La Strada

Ontem revi La Strada, o filme de Fellini com Giulietta Masina e Anthony Quinn. Tinha dele uma muitíssimo vaga memória, resumida à imagem de Massina com cara pintada de palhaço e um chapéu preto empoleirado na cabeça.

Quando tinha visto o filme? Não consigo recordar. Decerto o vi na televisão, durante a minha infância ou na adolescência, o mais tardar, quando tudo era a preto e branco. Ontem revi-o como se fosse a primeira vez. É isto que o tempo faz às memórias, funde e confunde tudo.

Fiquei a matutar como teria interpretado aquela história triste e sórdida no meu primeiro visionamento. A pobreza de uma Itália meio destruída não me terá espantado pois o Portugal em que eu vivia não era muito diferente, talvez mais pobre ainda. 

Havia saltimbancos também na minha aldeia, embora com menos glamour que Zampanó e Gelsomina. Os "meus" saltimbancos eram Estrela e Delfinzito, um casal improvável de uma mulher gorda e enorme e um homem franzino e magro mas rijo como um varapau. Tinham um filho (não me recordo do nome) que hoje terá aproximadamente a minha idade e também participava nas momices e acrobacias daquela trupe miserável.

O filme tem uma estranha sonoridade, com as vozes desajustadas dos movimentos labiais (Quinn falava italiano?), característica das "italianadas" que tantas tardes e noites preencheram no meu passado. Assim funcionam as memórias, com os acontecimentos correndo desajustados da realidade.

Ontem revisitei esse passado para verificar que está definitivamente esquecido mas não completamente perdido.

quarta-feira, fevereiro 03, 2021

Memória do mundo

Tenho uma vaga recordação de ser criança e brincar. Brinquei muitas vezes sozinho, outras vezes brinquei acompanhado, mas aquilo que recordo é a sensação de plenitude que por vezes alcançava, a sensação de que tudo se encaixava, que todas as coisas encontravam o seu devido lugar tornando o momento uma coisa perfeita. Era a felicidade.

Agora que sou aquilo que designamos por adulto tenho a vaga percepção de que continuo a perseguir aquela sensação que me era proporcionada pelas minhas brincadeirinhas de criança. O patamar é diferente, os meios que tento convocar e organizar são outros, mas o objectivo é o mesmo: alcançar a sensação de plenitude, a sensação de que tudo está no seu devido lugar e que o universo faz sentido. E eu com ele.

terça-feira, fevereiro 02, 2021

Opinar

Ter opinião não me parece coisa fácil. Para construir uma opinião precisamos de muito mais que mero instinto ou impulso incontrolado, precisamos de informação. E tendo acesso a informação precisamos de a validar, comparar dados, reflectir... ter opinião não é coisa fácil.

Mais difícil ainda é quando, depois de uma trabalheira dos diabos para construirmos a nossa opinião, nos vemos confrontados com a possibilidade de estarmos enganados. É lixado. Aceitar o erro pessoal, deitar para o lixo o resultado do trabalho desenvolvido na construção da nossa opinião... é coisa com alto grau de exigência ética e estética. Mas, como diz o povo, "o que tem de ser tem muita força".

Reconhecer e aceitar o erro não deveria ser assim tão complicado por ser coisa tão natural como água da chuva (mesmo quando dizemos que, pronto, estávamos enganados e assumimos o engano com ar de quem não dá grande importância à situação, é complicado). Será o nosso ímpeto competitivo, a nossa ânsia de sermos melhores que os outros o que nos enrola a língua e faz arder a testa quando chega a hora de darmos o braço a torcer?

Voltando um pouco atrás: ter opinião não é fácil e mais difícil será quando nos pagam para a emitirmos publicamente a espaços regulares. Ser comentador, escrever artigos de opinião em jornais e revistas, perorar sobre tudo e mais alguma coisa em debates televisivos, dia após dia, a um ritmo de atleta olímpico, parecem-me actividades ao nível da de um acrobata voador que actua sem rede. A diferença é que o acrobata, falhando o salto, se esborracha no chão; já o comentador, enfiado o pé na argola, faz de conta que não se passou nada e avança decidido, direitinho à próxima opinião.

Há no entanto milhares de pessoas com opinião fácil e imediata. Os opinadores infalíveis parecem incapazes de imaginar que estão errados mesmo quando sustentam que a Terra é plana ou que o Inferno é um lugar verdadeiro. Para estes não há ética nem estética nem nada que os faça duvidar daquilo que lhes atafulha a mente como massa a fermentar. E são tantos!

domingo, janeiro 31, 2021

Ociosidade

Porque sim, porque não, ora porra, porque não talvez!? Procurar a razão, encontrar a mentira, acreditar na verdade improvável, um gajo vai por aí fora, aos tropeções, a marrar nos muros, a encostar cotovelos às paredes, perdidinho que nem sabe. Mas vai; prá frente é que é o caminho! 

Será assim tão importante um gajo ter razão? Quero dizer, ter sempre razão!? Por vezes, isso sei eu bem, é preferível viver uma mentira. Uma certa pobreza de espírito protege-nos do mal... ou faz de nós presas mais fáceis... sei lá, isso que importa? Também não me parece saudável não ter nunca razão. Há quem diga que no meio está a virtude.

Esta reflexão ociosa é própria de um dia em confinamento, sai-me da cabeça por ter pouco mais que fazer que não seja coisa nenhuma.

sexta-feira, janeiro 29, 2021

Abstracção

Ele trazia vozes dentro da cabeça. De onde vinham, de quem eram? Mistério. Primeiro apareceu aquela voz aflautada que falava do tempo e da chuva e do sol; depois uma outra, arrastada e afectada, decididamente uma voz de mulher, que não parava de o corrigir, de comparar os seus modos com os modos de outras pessoas que ele não conhecia, nunca vira nem imaginava como pudessem viver. Havia também aquela voz de barítono que gostava de contar anedotas porcas e aquele miúdo chato que pedia constantemente um copo de água, um copo de leite, uma coca-cola; cada dia chegava, pelo menos, uma nova voz. Ele trazia uma multidão dentro da cabeça.

Sentado com uma chávena de café fumegante sobre a mesa, olhava em frente, concentrado num lugar geométrico algures entre este mundo e o outro. As vozes conversavam  entre si, ele ouvia-as atentamente. O empregado aproximou-se; máscara respiratória, luvas de látex, fato de borracha. Deixou a máquina de pagamento e foi à sua vida. Aquele cliente não aparentava nada de diferente, era exactamente igual aos outros.

A esplanada espalhava-se por toda a praça. Dezenas de mesas, cada uma com um cliente sentado na única cadeira. Empregados rolando, em pé, sobre veículos especiais. Enfiados em pequenos ecrãs, os clientes permaneciam estáticos,  concentrados, alheados do ambiente circundante. Todos eles algures, entre este mundo e o outro.

terça-feira, janeiro 26, 2021

Uma fome

Ler os sinais que nos são enviados pelo mundo circundante pode ser um exercício ingrato para a inteligência de cada um. É uma leitura propícia à emersão dos preconceitos que trazemos arrumadinhos dentro das nossas cabeças. Se queremos acreditar, acreditamos, se não queremos acreditar, negamos.

Se a leitura dos sinais tem a ver com as convicções que nos animam procuramos ratificação e não esclarecimento. É difícil aceitar que estamos enganados quando reflectimos sobre aquilo que, em certa medida, faz de nós o que nós somos, mesmo quando os dados que recolhemos tendem a provar-nos que estamos muito distantes da verdade.

Disse Mário Soares, saudoso pai de Democracia portuguesa, que "só os burros não mudam de opinião". É bem verdade que, em muitas ocasiões, mantemos a nossa opinião por pura e refinada burrice, contrariando o Universo inteiro, se preciso for. Ter razão é alimento necessário à alma humana. Dê lá por onde der. E a nossa alma parece estar sempre esfomeada com uma fome impossível de saciar.

segunda-feira, janeiro 25, 2021

Regresso à gaiola

Regressado ao confinamento (quase) absoluto debato-me com os problemas que se tornam habituais: o espaço da casa transforma-se em mundo, a cidade fica lá fora, toda ela enquadrada por janelas, começo a cirandar pelas divisões à procura de motivação para fazer algo.

O ecrã  da televisão ganha uma importância que, em tempos normais, não teria. O computador parece-me aborrecido, os dias tendem a misturar-se uns nos outros, num rodopio estático e sensaborão. Espero sentir o apelo das artes. Por enquanto... nada!

Por enquanto sinto apenas alguma angústia por não poder viver a vida em liberdade. Imagino que seja este o sentimento do canário na gaiola, caso tenha inteligência para se aperceber da sua condição de cativo, saltando livremente de um poleiro para outro.

quarta-feira, janeiro 20, 2021

Oh, happy day!

Hoje tenho um espaço mental dedicado à partida de Trump. Abre-se finalmente uma pequena brecha na ascenção da extrema-direita que chegou a ser considerada imparável. Continuam alguns gnomos em lugares importantes: Bolsonaro, Netanyhau, Órban, Putin, a lista de malandros ainda mete medo mas, espero bem, a saída de Trump deixa-os um pouco menos fortes e poderá marcar o início do declínio das políticas de ódio.

20 de Janeiro de 2021, um dia para a História, um dia feliz.


sexta-feira, janeiro 15, 2021

Confinamento - parte dois

Começou o segundo confinamento geral. Desta vez as escolas mantêm-se abertas. Saí para comprar o jornal e tabaco, uma actividade que não é reprovada pelas normas em vigor. Apesar do encerramento das lojas, o movimento nas ruas pareceu-me muito semelhante ao dos últimos dias, não notei os efeitos do dever de recolhimento imposto aos cidadãos. 

Será que a propalada banalização do estado de emergência deixa as pessoas menos receptivas à ideia de se manterem em casa? Haverá algum relaxamento generalizado apesar dos números alarmantes de novos contágios e de ocupação de camas nos hospitais? Temo bem que seja isso que está a acontecer.


quarta-feira, janeiro 13, 2021

A normalidade

O novo confinamento geral está a chegar. É um soco na testa. Imagino que muita gente se sinta como eu me sinto, sinto-me acabrunhado. A verdade é que, apesar de tudo, não estava à espera disto. Medidas restritivas, sim, mas confinamento geral... outra vez...

Discute-se a possibilidade de fechar de novo as escolas, por outro lado coloca-se a hipótese de as manter em funcionamento. Não sei se volto para casa ou continuo a contactar directamente com os meus alunos. Fala-se nos vários riscos que pairam sobre toda uma geração de crianças e jovens, desde a saúde mental ao desenvolvimento intelectual e escolar.

Isto deixa-me a pensar nos riscos idênticos que afectaram as gerações de crianças e jovens que cresceram durante o salazarismo. Crescemos, estamos aqui, construímos a nossa vida a cada dia que passa.

A normalidade não existe, de facto. A existência humana, individual ou colectiva, é o resultado da conjugação de uma série de factores que mudam constantemente, é uma hibridização anárquica que flutua nos nossos corações e nas nossas mentes. Com confinamento ou sem ele temos o dever de continuar com as nossas vidas moldando o nosso Ser de acordo com as convicções que nos animam. 

Por mim continuo a acreditar que posso contribuir para construir um mundo melhor para as gerações que se seguem ou, pelo menos, evitar que o mundo se desagregue à nossa volta.


segunda-feira, janeiro 11, 2021

Viver

As portas voltam a fechar-se. Somos todos crianças que não compreendem bem as regras de convivência adequadas, fazemos asneira, somos castigados. Parece ser esta a nova ordem natural das coisas: crianças mal comportadas são confinadas. Não é brincadeira,  é a vida que temos para viver a ser posta à prova e nós a a não sermos capazes de o fazer como imaginamos que gostaríamos.


domingo, janeiro 10, 2021

Luta eterna

Por vezes saem-me da cabeça umas frases que, depois de escritas, ficam como frases feitas. Aqui há dias, comentando um texto do Eduardo Lunardelli no Facebook,escrevi: "quem assina pactos com o Diabo acaba ardendo no inferno".

O texto em questão versava o tema do momento, o assalto ao Capitólio, em Washington. Neste caso o Diabo era Trump mas há muitos mais diabos a ter em consideração, logo à partida o Bolsonaro, outro diabrete de segunda categoria.

Já por várias vezes escrevi textos aqui, no 100 Cabeças, sobre estes dois palhaços maus, não me parece necessário voltar a malhar em ferro tão frio. O que importa sublinhar é que, agora, passados alguns anos em que estes animais exerceram o poder nos respectivos países, começa a tornar-se evidente que os receios de que viessem a revelar-se em toda a sua monstruosidade eram, infelizmente, fundados.

Trump, espero bem, já lá vai. Se houver Justiça irá sentar-se no banco dos réus e, sonho com isso, baterá com os ossos na prisão. Mas há muitos mais diabos por esse mundo fora, ateando as chamas dos infernos onde habitam com os respectivos povos. É a luta eterna entre a luz e a treva, o bem e o mal, a justiça e a mentira soez.

Nos contos infantis o bem acaba sempre por prevalecer.

sexta-feira, janeiro 08, 2021

Trampa

Assisti o assalto do Capitólio via TV, sentado no sofá, confortado pela presença da minha filha e da minha esposa. Talvez tenha sido isso, o conforto acolhedor, que provocou em mim a sensação de que aquilo era merecido. Hordas de bárbaros, incitados por um demente narcisista, invadiam o símbolo da democracia norte americana com um desplante de imbecis ininputáveis; os EUA a colherem a tempestade por eles semeada.

Aquilo foi uma tentativa de golpe de estado. Trump assumiu-se como terrorista de extrema-direita embora me pareça que ele não compreende muito bem o que isso possa ser. O homem é um caso clínico que caminha. Agora começa a ficar isolado nos corredores do poder. Aqueles que lhe alimentaram a demência começam a recuar, assustados pela dimensão monstruosa do animal que apaparicaram.

Fico com a sensação de ter assistido ao princípio do fim do império americano em declínio acelerado. Não sei bem o que esperar dos tempos futuros mas temo que Biden não seja capaz de colar os cacos. A Democracia está gravemente ferida. Resta-nos a União Europeia, os Estados Unidos da América perderam o pé.

domingo, janeiro 03, 2021

Tudo bem o caraças!

"Vai ficar tudo bem" é uma das frases com que se tenta motivar o pessoalzinho no sentido de ajudar à superação da pandemia e de todos os problemas que adicionou ao nosso quotidiano delirante. No meu enviesado entendimento é uma frase de merda.

Antes da pandemia estava muita coisa mal. Demasiada coisa. Como é possível acreditar que, após uma confusão absoluta como aquela que vivemos, vá ficar tudo bem!? A verdade é que tudo isto apenas tem acentuado aquilo que já estava mal. "Quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão".

Acredito que é tempo de reconsiderarmos as nossas prioridades enquanto sociedade.

sábado, janeiro 02, 2021

Revisão

Um dia inteiro bem aquecido e a dormitar deu-me as forças necessárias para (re)ver "Os 7 Samurais" de Akira Kurosawa na RTP 2, um pouco madrugada adentro. Não me lembro quando havia visto o filme, penso que em criança, talvez adolescente? A verdade é que, esta noite, vi-o como se fosse a primeira vez. Lembrava uma ou outra cena, uma ou outra personagem, coisas vagas, quase nem recordações.

Enquanto assistia ao filme pensei várias vezes "que grande cena","grande filme", coisas do género. O cinema quando é bom não perde o encanto e "Os 7 Samurais" (1954) mantém-se intacto em todo o seu esplendor. 

Este é daqueles filmes capazes de fazer o mais sisudo dos críticos de cinema, um daqueles que parecem não gostar de quase nada, riscar 5 estrelinhas a sublinhar uma recensão cheia de sabedoria e provas inequívocas de extraordinária cinefilia. Ainda que não goste, de facto, não pode deixar de considerar esta uma obra clássica. Há coisas assim... que grande cena, grande filme!

quarta-feira, dezembro 30, 2020

2020

Bem vistas as coisas é apenas mais um ano que se vai apagando. Já lá vão dois mil e vinte anos na nossa Era. A civilização egípcia, que se aprende nas escolas com a pirâmide de Gizé como ícone principal, durou mais de três mil, três mil anos, caraças! Quantas epidemias terá suportado além das pragas que lhe rogou o deus dos judeus? O nosso deus.

A pandemia envenena os nossos sonhos? Os sonhos de quem, de quantos? Arruinou o futuro das crianças sírias? Empurrou para o mar vagas incessantes de pessoas que fogem do mundo para dentro dele? A pandemia veio pôr a nu fragilidades e incongruências do sistema capitalista? Alarma-nos para a evidência da decrepitude do nosso modo de vida? Valha-nos Nossa Senhora. Pode ser a dos Aflitos.

Bem vistas as coisas 2020 é apenas mais um ano de merda para a espécie humana e nem sequer podemos ter a certeza que tenha sido o pior. Decerto houve outros bem mais devastadores. A verdade é que a espécie humana não sofre como um todo. O sofrimento é um coisinha muito parcelar, muito parcial e extremamente privada.

Bom Ano Novo.

segunda-feira, dezembro 21, 2020

O acto de criar

Trago pinturas dentro da cabeça que não consigo espremer até à ponta dos meus dedos. São imagens fantasma, ideias perdidas na fronteira, coisas sem forma definida, coisas por nomear, pequenos querubins perdidos no limbo que imploram ajuda para virem até este mundo. Por favor!

Entre o que trago dentro de mim e este mundo existe uma fronteira implacável que é o meu corpo. Fronteira e presídio ou hospício, algo assim, é como me sinto. Impeço a beleza, não premeditadamente, antes por incapacidade de a compreender completamente. E ela fica dentro de mim, não consegue sair.

Trago pinturas dentro de mim que, com extrema dificuldade, vagamente vislumbro. Envoltas numa neblina (que nada tem de mística), as formas hesitam, as cores esbatem-se, peco-lhes o sentido. Para criar é necessário ser capaz de parir.


terça-feira, dezembro 15, 2020

Coisas monstruosas

Muito se preocupam as mentes brilhantes que governam o nosso futuro com as competências das jovens gerações no que à matemática diz respeito. Estão fraquinhos, os putos, no desvendamento dos segredos da linguagem numérica; não pode ser! Precisam de mais horas de aulas, mais tempo de trabalho nas grutas dos números, haja quem lhes martele o juízo com a complexidade das operações que lhes falecem. O resto não interessa muito. A literatura, a arte, a história, coisas menores, universos dispensáveis.

E cada vez mais as jovens gerações vão sendo cada vez menos... jovens? Receio que estejamos a fomentar comportamentos zombies entre a petizada. Absortos nos seus gadgets tecnológicos, imersos em mundos exclusivamente eléctricos e virtuais, com a cabeça atulhada de números: zero um, um um, zero zero, um zero. O mundo, assim descrito, perde a sua dimensão animal, confunde sensações e sentimentos. Ficam pobrezinhos, os jovens. Pobrezinhos que nem pedir sabem, sentados nas soleiras das portas das suas catedrais tecnológicas.

E são estes pobres-de-pedir quem escreve os algoritmos que depois se autonomizam e crescem como divindades absolutas que zelam pelo nosso quotidiano, os algoritmos que a cada dia que passa nos assustam um pouco mais. Tememos a autonomização das máquinas, a dificuldade que temos em ensinar-lhes o que é Ser Humano; tememos a substituição, tememos ser dispensáveis, descartáveis, tememos tornar-nos absolutamente inúteis.

Penso que, na verdade, devemos temer não os algoritmos mas aqueles que os criam. Penso que quem não compreende o Ser Humano somos nós. As máquinas reflectem aquilo que somos e tornam-se coisas monstruosas.

quarta-feira, dezembro 09, 2020

Do auroque ao santo de pau carunchoso (3.º episódio)

(no episódio anterior) A relação entre a nossa imaginação e a nossa capacidade plástica corporizou-se na criação de objectos sagrados ao ponto de precisarmos de construir espaços artificiais que servissem de habitação às representações das divindades. Imagino que tenha sido mais ou menos assim que surgiu a ideia do Templo. A escultura, com a sua tridimensionalidade, revelou-se a técnica mais capaz de revelar as formas divinas.

Adorar um pedaço de madeira ou um calhau transformados em figuras significativas é atitude que implica uma fé imensa. Temos milénios de treino e prática da imaginação para lá chegarmos, olhar um boneco e ver um deus! O esforço necessário para realizar tal transferência de poderes entre o dinamismo universal e objectos inanimados é feito digno de nota, não está ao alcance de qualquer macaco. É um acto de magia.

Curiosamente, os mágicos mais importantes desta história até nem são aqueles que criam os bonecos (os artistas/artesãos), os mágicos mais importantes são aqueles que criam as narrativas em volta dos bonecos (os sacerdotes/shamãs). Seja como for é espantoso todo o poder acumulado em redor de algumas destas figuras.

O boneco adorado é uma materialização do conceito que encerra, uma transposição de energia vinda directamente do cosmos para a nossa mesinha-de-cabeceira, parece-me fascinante. Uma oração ao boneco antes de ir para a cama e depois do chichi, eis uma actividade muito praticada por esse mundo fora.

Nos tempos que correm, nos países onde existe liberdade religiosa, isto não é nada de mais. Mas nem sempre foi assim. Por estranho que possa parecer a adoração da bonecada foi motivo para lutas intestinas e muito boa gente bateu a caçoleta à conta de perspectivas diferentes em relação ao assunto.

(continua)

quarta-feira, dezembro 02, 2020

Até breve

É sempre assim, o aniversário destas 100 Cabeças passa sem eu dar por ele. 

É um aniversário sem festa nem convidados. É uma marca no tempo, sem calendário. Nasceu em 2005 e por aqui continua, em busca de uma idade que seja adulta embora não compreenda bem o que distingue uma idade adulta de outra idade qualquer.

Esta espécie de arquivo de ideias serve-me com rara frequência para resolver um ou outro problema que me vá surgindo no quotidiano. Noutras ocasiões perco-me um pouco em leituras avulsas, reencontrando-me em momentos esquecidos, pensamentos que, por vezes, me surpreendem: "fui eu quem escreveu isto?", surpresas nem sempre agradáveis, nem sempre embaraçosas.

E pronto, vou cortar aqui a raiz a este pensamento, não com um machado (pois a canção ensina que isso é impossível) mas com um até breve.

Até breve.

sexta-feira, novembro 27, 2020

Reunidos


As reuniões online são espaços de comunicação estranhos. Os intervenientes estão todos encaixados em pequenos rectângulos, alinhados como produtos de consumo nas prateleiras de supermercado. Falamos. Um de cada vez. Olhos baixos, olhos em riste, cada um parece navegar nos seus pensamentos. Estamos todos no écrã mas cada um no seu espaço particular. Somos cabeças, troncos, talking heads, tanto quanto posso imaginar alguns poderão nem ter pernas, nem ser pessoas.

O tempo alonga-se. Será consequência deste espaço virtual? Teremos nós uma existência alternativa quando nos enfiamos na rede? Como peixes, como pixels, como crianças largadas na floresta com migalhas de pão no fundo dos bolsos?

"Sua conexão com a internet está instável", o aviso surge num rectângulo cinzento translúcido, as vozes dos outros ganham tons metálicos, gorgolejam como se fossem aspiradas por um ralo virtual, levadas para o fundo deste mar de entulho onde mantemos os nossos pequenos botes a boiar. Temo que haja tubarões e monstros que comem tubarões.

As reuniões online não atenuam a incrível carga burocrática que nos pesa nos ombros como canga a amestrar o boi. Começo a sentir uma ligeira vertigem, uma súbita vontade de ir embora, levantar o cu desta cadeira e pôr-me ao fresco. Desligo a câmara, desligo o som. Fumo um cigarro.

Ir embora não implica sair do lugar.

quarta-feira, novembro 25, 2020

Pensamento perdido

Não terá também a Arte Contemporânea a sua componente mimética? Quero dizer, se até ao pós-modernismo a arte procurou mimetizar o mundo através da representação da forma, não estará agora a tentar mimetizá-lo interpretando outras dimensões da existência (dos objectos, do ser humano) que obrigam à aplicação de processos criativos diferentes? Certamente que a representação de um conceito político, por exemplo, obriga a um processo mental muito diverso daquele que decorre da tentativa de representação de uma natureza-morta. Entre representar artisticamente aquilo que vemos (a natureza-morta) e aquilo que apenas podemos intuir (o conceito político) espraia-se todo um universo criativo difícil de explicar porque, como todos os universos, se encontra em expansão permanente, para lá do infinito.

 

Talvez o pós-modernismo se baseie essencialmente numa tentativa de desmaterialização do objecto artístico mas, talvez, essa desmaterialização não seja completa pois a linguagem artística terá de estabelecer sempre uma espécie de forma material. Mesmo a arte conceptual raramente consegue abdicar de algum tipo de forma materializada uma vez que, de outro modo, dificilmente seria apreensível pelo espectador.

sábado, novembro 07, 2020

Do auroque ao santo de pau carunchoso (2.º episódio)

(no episódio anterior): "A hipótese mais arreigada na nossa tradição imaginativa é a de que os nossos antepassados fariam aqueles bonecos com a finalidade de mimetizarem a sua captura executando umas momices quaisquer com paus e lanças, tanto quanto a imaginação contemporânea nos permite imaginar que fizessem. Certamente dançando em círculos e soltando urros assim à maneira dos grandes símios. Seria aquilo que se chama uma arte propiciatória."

Essa interpretação mostra como é complicado percebermos o que quer que seja que tenha acontecido lá para trás (se no tempo histórico é muito complicado, que dizer daquilo que aconteceu no tempo pré-histórico?), o nosso olhar não alcança tão longe. Talvez possamos colocar uma única certeza: a arte tem sempre uma utilidade qualquer. Seja uma utilidade objectiva ou algo que não faça grande sentido ou que não tenha mesmo sentido nenhum, arte que é arte ajuda a resolver alguma questão, a endireitar um pouco este mundo, implica uma dose de magia, propicia bons augúrios ou ajuda a marcar um trilho em direcção aos infernos que virá a ser percorrido pelos nossos inimigos. A arte nunca é inútil.

Mais adiante, quando começámos a desenvolver a capacidade de relacionar a nossa imaginação com a capacidade de moldar materiais, fossem pictóricos ou escultóricos, os deuses ganharam forma e vieram habitar o espaço connosco. Surgiram estatuetas, espíritos de outros mundos trazidos para o nosso convívio, pedaços de magia absoluta, objectos sagrados, objectos tabu, objectos capazes de rivalizar com o Sol ou com cordilheiras imensas, bosques sagrados, florestas místicas, objectos capazes de ofuscar a Lua, impregnados pela sua magnífica beleza, objectos repositórios da fúria dos ventos, representações abstractas da foça do trovão ou da generosidade de Gaia. 

A relação entre a nossa imaginação e a nossa capacidade plástica corporizou-se na criação de objectos sagrados ao ponto de precisarmos de construir espaços artificiais que servissem de habitação às representações das divindades. Imagino que tenha sido mais ou menos assim que surgiu a ideia do Templo. A escultura, com a sua tridimensionalidade, revelou-se a técnica mais capaz de revelar as formas divinas.

 

(continua)

 

quinta-feira, novembro 05, 2020

Sísifo reinventado

Transformar a sociedade é um trabalho lento e penoso. Deus levou 7 dias a criar o Universo ou lá o que foi, mas nós, comuns mortais limitadíssimos nas nossas capacidades criadoras, andamos séculos para fazermos coisinhas de nada. 

Olhando para o mundo em que vivemos percebemos que vamos atravessando o "tempo do vinho e das rosas". Apesar de toda a fome, toda a miséria, todas as injustiças, nunca o mundo foi tão igualitário, tão rico e tão justo como é agora. É uma espécie de paradoxo mas é um paradoxo em construção. 

A Democracia é um bom exemplo para ilustrar o que tento explicar com este texto: diz-se que é um sistema político imperfeito mas é o melhor que, até agora, conseguimos engendrar. A Democracia nunca está completa, trabalha-se e constrói-se todos os dias, a toda a hora, na tentativa de encontrar um processo que permita melhor "distribuir o mal pelas aldeias".

A qualidade de uma sociedade mede-se pela sua capacidade de proteger as minorias que nela habitam seja no reconhecimento dos seus direitos, seja na capacidade de os fazer valer. Os sistemas democráticos tendem a evoluir nesse sentido. Trabalho complicado.

Custa-me perceber que, tal como aconteceu nos Estados Unidos sob a liderança do Donald, após décadas de lenta construção, baste um burgesso empoleirado no cadeirão do poder para que tudo venha por água abaixo. Faz parte do jogo democrático mas é duro, o todo social plasmado na figura de Sísifo, a pedra levada até ao topo a rolar de novo encosta abaixo. Recomecemos...

E é este o Sentido da Vida: recomeçar, continuar, subir a encosta na esperança de que esta vá crescendo, que o cume fique cada vez mais longe e descobrir o truque. O truque consiste em escavar, aplanar, inventar patamares ao longo da encosta que evitem que a pedra, quando rola, regresse à base da montanha. 

De cada vez que recomeçamos fazemo-lo num ponto mais elevado da encosta. É esse o nosso legado para as gerações futuras: uma encosta cada vez maior e menos inclinada, repleta de pontos de travagem e descanso. Sabemos que o trabalho nunca estará concluído mas não é essa a beleza da existência humana?

segunda-feira, novembro 02, 2020

Do auroque ao santo de pau carunchoso (1.º episódio)

Embora seja por vezes difícil de especificar, é mais ou menos pacífico para o senso comum que os objectos artísticos são criados com a intenção de satisfazerem algum objectivo concreto. Penso poder afirmar que acreditámos desde sempre na magia das imagens criadas pela mão humana. E essa terá sido a finalidade principal de uma infinidade de objectos artísticos criados ao longo dos tempos: a magia.

Esta crendice virá dos tempos pré-históricos, quando os nossos antepassados se esgueiravam para as entranhas da terra, enfiando-se em grutas e buracos, até encontrarem o spot ideal para a execução dos seus extraordinários grafittis.

Nos dias de hoje tentamos imaginar qual seria razão que os levava tão longe e tão fundo para a execução daquelas enigmáticas pinturas. Manadas de auroques à desfilada nos tectos das grutas de Altamira (?) deixam-nos extasiados e como a decoração de interiores estará, à partida, excluída, desatamos a colocar hipóteses para que aquelas coisas ali estejam e tenham acontecido.

A hipótese mais arreigada na nossa tradição imaginativa é a de que os nossos antepassados fariam aqueles bonecos com a finalidade de mimetizarem a sua captura executando umas momices quaisquer com paus e lanças, tanto quanto a imaginação contemporânea nos permite imaginar que fizessem. Certamente dançando em círculos e soltando urros assim à maneira dos grandes símios. Seria aquilo que se chama uma arte propiciatória.

(continua)

 

segunda-feira, outubro 19, 2020

Espiral demencial

Os americanos declaram a relação que imaginam ter estabelecido com Deus  através da célebre formulação "in God we trust" que espalham, principalmente, através das  notas de dólar. É uma cena um bocado à Moisés, na base da "cúnfia", acreditando que Deus, por via da confiança declarada, os beneficiará de algum modo. É uma cena que se estabelece mais num certo espírito mafioso do que propriamente evangélico. Os americanos imaginam Deus como uma espécie de padrinho. Eles confiam em Deus, falta saber se Deus confia neles. 

Os Estados Unidos constroem o seu imaginário numa base estranhamente beata. Os seus dirigentes (de Reagan a Obama) estão constantemente a encomendar a alminha pátria à divindade. Por vezes parece que os EUA são uma teocracia onde o lugar de Deus é ocupado pela notas de dólar. Será tanto assim?

Este voraz deus americano (o dólar) é implacável para com os "loosers" e indecentemente complacente para com os "winners" tornando aquele país (os EUA são um país?) uma imensa esterqueira moral e ética que, por ser o "farol do mundo livre", exporta a sua porcaria para quase todo o mundo.

Nos tempos que correm o "sonho americano" vai perdendo fulgor. O deus dólar esvazia-se perante os nossos olhos como se a democracia americana fosse produto de uma gravidez histérica. A China aguarda o seu momento, placidamente sentada na penumbra da História. E nós? Nós pessoas, nós Humanos, o que podemos fazer além de esperar na sombra, juntamente com a China?


terça-feira, outubro 13, 2020

Manter a coisa simples

Tenho a nítida sensação de que Deus não morreu (shame on you Friedrich Nietzsche). Quanto a mim está vivinho da silva. Só não sei se desapareceu por não Lhe terem renovado o contrato, se meteu os papéis para a reforma. Foi à vida Dele, foi o que foi.

E fez muito bem. Ele sabe melhor que ninguém que a vida (a Existência) é muito mais do que aquilo que experienciamos através dos sentidos se bem que não nos tenha explicado suficientemente em que consiste (estou a falar da vida, da Existência).

Isto de Ser Humano é complicado. Pode ser uma tristeza. Tem-se aquela sensação de orfandade, de abandono... enfim, vou beber um copito de tinto e tasquinhar uns panadinhos de frango enquanto leio qualquer coisa edificante. Daqui a nada vou dar uma aula. São crianças, o meu público, convém que não me estique nas reflexões que lhes proponho.

Manter a coisa simples, eis o segredo do negócio que é viver.

terça-feira, outubro 06, 2020

Como se fôssemos ladrões

Sinto-me estranho nesta condição de professor mascarado perante turmas de alunos, também eles, de cara tapada. Bem posso sorrir, ninguém vê. A comunicação é engasgada, falta a leitura das expressões faciais, agora reduzidas a olhares. Quando um aluno fala sem levantar o braço torna-se difícil perceber qual deles foi. A sala é como um arquivo de pastas com etiquetas (cada aluno tem na mesa uma "placa" com o nome).

Não é fácil trabalhar nestas condições. A verdade é que ser professor nunca foi propriamente fácil. Após alguns anos de experiência, ser professor torna-se natural mas fácil, isso nunca. Seja como for estar na sala com a presença dos alunos, mesmo mascarados, como se fôssemos todos ladrões, é reconfortante após meses de confinamento e ensino a distância.

Deus nos guarde e permita que as aulas se mantenham nestes moldes.

segunda-feira, outubro 05, 2020

O próximo episódio

Não sei bem, sinto-me dividido. Entre optimismo e pessimismo, o meu coração esfrangalha-se. Por um lado tenho fé na Ciência, por outro não acredito que este modo de vida dure muito mais tempo. Decerto morrerei antes do colapso fatal, a derrocada absoluta do sistema capitalista, mas sinto já o leve perfume da desgraça.

A Ciência tem limites? Poderá ser a Ciência a coisa mais próxima da Divindade, caso a Divindade seja mesmo uma invenção gerada no espírito humano pelo terror absoluto que é o da sensação de solidão cósmica? Pode a Ciência criar a Divindade?

Não sei bem, por vezes tenho a sensação de que a vida é coisa de laboratório, que os sentimentos que me animam são de origem artificial, que a História não é mais que um argumento criado por laboriosos escritores nem sempre brilhantes. Por vezes tenho a sensação que cada um de nós é inventado e que o Destino é apenas o próximo episódio.