sábado, maio 09, 2009

A menina e o gato magrinho ficaram em casa a chorar?




O quadro de Picasso (1881-1973), que retrata a sua filha Maya quando tinha dois anos de idade, foi pintado a óleo sobre tela em 1938 e tem um valor que, de acordo com a página electrónica da empresa que realiza o leilão, pode variar entre os 12 e os 18 milhões de euros.
O mesmo intervalo é calculado pela Sotheby´s para a escultura em bronze "Le Chat" (O Gato), com 80 centímetros de comprimento, de Alberto Giacometti (1901-1966), criada em 1951. (texto retirado daqui)


Esperava-se que alguém oferecesse pelos objectos acima retratados aquilo que por eles pediam os leiloeiros. Tanto a menina quanto o gato foram postos a leilão com a esperança (nada secreta) de que pudessem atingir um valor entre 12 e 18 milhões de euros. Ora toma! Mas, népias. Ninguém lhes pegou. O que não quer dizer que não houvesse ninguém que não desejasse levar lá para a sala de jantar um ou outro dos objectos de arte em causa. Não, nada disso! Mas, a verdade é que, seja por causa da crise económica ou da gripe dos porcos, a Sotheby's ficou com os dois objectos nas mãos.

Um salto à página da leiloeira para deitar uma vista de olhos aos resultados do dito leilão não deixa de ser impressionante (ver aqui e aqui as listas de vendas realizadas) mas a verdade é que, nos meios de comunicação, só se fala das que não foram vendidas (curiosamente, na página da leiloeira são exactamente as peças de que não se fala). Por serem as mais caras e as mais mediáticas? Talvez. Ou porque, tal como no caso da gripe assassina ou tantos outros, estamos mais interessados naquilo que pode ser mau do naquilo que pode ser bom e é isso que vende jornais e abre espaços publicitários apetecíveis?

Corot, Signac, Derain, De Lempicka, Miró, Léger, Delaunay, Maillol, Moore, Picasso, Picabia, Giacometti, Klee, Matisse, Chagall, Caillebotte, Vuillard, Redon, Boudin, Jongkind, Gauguin, Pissarro, Gauguin, Renoir, Bonnard, ufa, já estou cansado de passar alguns dos nomes que constam da lista de artistas com obras vendidas no dito leilão. É esmagador saber que andam por aí tantas obras de arte interessantes de que nunca ouvimos falar ou porque são vendidas por preços abaixo do pornográfico, logo não são assunto de interesse, ou porque os autores, apesar de conhecidos na História da Arte, não fazem parte do arsenal de beautyfull people do costume.

Não venderam o gato esfomeado, nem a menina com o barquinho. E se ninguém tiver achado as obras interessantes? E se não tivesse sido uma questão de falta de dinheiro que as deixou na leiloeira, mas sim uma questão de exagero de gosto?

sexta-feira, maio 08, 2009

Hipnótico

Luísa Cruz como Harper Regan


Quero deixar apenas uma opinião rápida: Harper Regan de Simon Stephens, o espectáculo que estreou ontem na Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, é hipnótico. Luisa Cruz é fenomenal, Dinarte Branco tem momentos extraordinários, Cristóvão Campos revela-se e António Cordeiro compõe as cenas com segurança. Os restantes também me pareceram bem mas,como não sou crítico, nem sei que mais posso dizer dos actores. A encenação de Ana Nave confirma tudo o que de bom sabemos a seu respeito. O cenário de Rui Francisco funciona discretamente e os figurinos de Rafaela Mapril dançam sobre os estrados deslizantes. Não me quero alargar muito mas não posso deixar de dizer que me comovi (quase) até às lágrimas, que me ri com uma estranha vontade de não rir e que, no fim, quase parecia estar ainda no início. Caro leitor, se tiveres oportunidade não hesites e vai assistir a este espectáculo. Para quem gosta de Teatro em grande estilo.

quarta-feira, maio 06, 2009

O Senhor dos Desenhos


Desde anteontem que tenho pensado muito em Vasco Granja. É das tais coisas; já me esquecera há que tempos da existência deste homem e, agora que morreu, regressou em força à minha memória. Há situações em que a morte acaba por ser mais justa do que a vida, pois estou convencido que milhares de pessoas estarão na mesma situação que eu.

Todos os que gostam de cinema de animação e de Banda Desenhada e andam na casa dos 40-50 anos se recordam dos programas televisivos em que Granja mostrava com igual paixão os filmes da Checoslováquia e do National Film Board, do Canadá. Foi Vasco Granja quem me apresentou Droopy, um dos heróis mais queridos da minha infância.

Leitor compulsivo de revistas de Banda Desenhada, habituei-me a ler os textos de Granja no Tintin e a comprar as mais variadas edições por ele promovidas. Enfim, Vasco Granja foi uma personagem importantíssima na divulgação das narrativas desenhadas em Portugal. Para mim foi super-importantíssimo pois foi através dessas narrativas que descobri e desenvolvi o meu gosto pelo desenho e, mais tarde, pelas artes plásticas, de um modo geral.

Granja estava meio desaparecido (aqui uma entrevista de 2003). A Banda Desenhada caíu em desuso e um velhote meio maníaco pela idade de ouro das revistas de histórias em quadrinhos não é a personagem mais mediática. E foi esquecido. Até anteontem, data da sua morte. Durante uns dias regressa em força o velho Vasco Granja com a sua voz característica e as palavras meio enroladas umas nas outras. Uma personagem agradável de quem era fácil gostar e que foi responsável por um sem número de coisas maravilhosas que aconteceram a milhares de portuguesinhos de gema.

Enfim, fica bem, Vasco, que nós também.

segunda-feira, maio 04, 2009

A Gripe de Cervantes

Dom Quixote derrubado por um gigante, perdão, por um moinho de vento. Gravura do incomparável Gustavo Doré.


A gripe A, por ter sido mexicana e parente da espanhola, ambas suínas, podia chamar-se, sem grande esforço, Gripe de Cervantes, com muitos e enormes benefícios para todos os interessados. Seria mais elegante para vender produtos farmacêuticos e com probabilidades de fazer manchetes muito mais coloridas nas primeiras páginas por esse mundo fora, potenciando um aumento da venda de jornais.

Toda a gente sabe que, depois da Bíblia, o maior best-seller do planeta e traduzido em mais e saborosas línguas, é o eterno Dom Quixote. Já estás a imaginar, caro leitor, as metáforas e hipérboles geniais que se poderiam engendrar para ilustração da luta entre o Ser Humano e o seu mais recente e temível inimigo, o vírus H1N1.

As últimas notícias revelam que o surto gripal que deixou o planeta à beira de um ataque de nervos estará a entrar em fase de esvaziamento. Olhando os números, 985 casos confirmados com 26 mortes, não sou capaz de evitar uma certa sensação de desconforto. Parece ter havido um alarme desajustado da gravidade da situação. Fica a impressão de que alguém se terá aproveitado da nossa credulidade global para, por exemplo, vender reservas de Tamiflu ou outra patranha do género.

A célebre cena do Cavaleiro da Triste Figura carregando sobre moinhos de vento em louca cavalgada não seria de desprezar, como ilustração do nosso destrambelhamento colectivo. 26 mortes, não diminuindo a dor dos que perderam entes queridos neste ataque do H1N1, parece-me coisa pouca. Ainda por cima não se revelam grandes dados específicos sobre as vítimas mortais. Fala-se apenas de um bébé de 26 meses, única vítima, até à presente data, em solo norte-americano. E os outros 25? Jovens robustos e na flor da idade? Velhos fragilizados? Pessoas com problemas no sistema imunitário? Não sabemos. E a campanha "militar" sob a alçada do general Tamiflu? Devemos agradecer à Roche ter disponibilizado prontamente as suas reservas de Tamiflu, ou deve a Roche agradecer ao H1N1 a sua espectacular entrada em cena que tantos proveitos económicos lhe está a proporcionar num tempo de crise económica global?

Enfim, tal como Dom Quixote, também nós vivemos iludidos por leituras que nos excitam a imaginação até à demência e nos liquefazem a frágil mioleira. Será? Ou não? Sinto-me zonzo com esta suspeita...

sexta-feira, maio 01, 2009

Suspeitemos


Estamos todos a tentar ver a mesma coisa mas parece que somos cegos. Olhamos para o que nos mostram e o que vemos? Aquilo que nos dizem que estamos a ver. Mesmo que o nosso olhar sugira algo diferente. Quanto mais olhamos mais nos deixamos invadir pela estranha sensação de que o que vemos não corresponde exactamente àquilo que sabemos. De tanto focarmos o olhar ali, naquele ponto exacto, estamos a perder a noção do resto, do que está em volta. A realidade serve de camuflagem a si própria. Mistura-se tudo. A forma mistura-se no fundo, o contorno dilui-se na mensagem. Vamos ter de fazer um esforço para olhar em sentido contrário. Mas teremos de nos capacitar que "ver" não é o mesmo que "saber". Quando muito "ver" poderá ajudar-nos a suspeitar. As nossas convicções constroem-se de suspeitas. Suspeitemos.

quinta-feira, abril 30, 2009

Uma foto cubista

Encontrei esta foto (não é própriamente uma foto mas uma montagem por sobreposição ao que pude constatar) da autoria de Pablo Picasso. Trata-se de um retrato do pintor naïf conhecido por Douanier Rousseau. Um estranho retrato, de facto, concebido em 1910, na época em que Picasso e Braque andavam com o Cubismo às voltas nas respectivas cabeças.
A forma como a figura se funde e confunde no (falso) fundo, mostra bem o anseio dos cubistas em criarem imagens que oferecessem uma visão desajustada daquela que a máquina fotográfica tinha para nos oferecer. Este trabalho está de acordo com a idealização pictórica que viria a ser desenvolvida por estes artistas, interessados em contrariar o óbvio, introduzindo na pintura europeia uma dimensão intelectual e mental que, até aí, era inexistente e, como é claro, desconhecida.
Esta imagem mostra também como o Cubismo, apesar do que parece ser o senso comum, não se afastou assim tanto da realidade, antes a interpretou por outras vias. Picasso e Braque, mesmo nas suas obras mais herméticas, representaram sempre pessoas, objectos ou paisagens, nunca tendo entrado decididamente no campo da abstracção pura.
Abriram a porta, é um facto, mas preferiram não ser eles a entrar naquele mundo fantástico da pintura sem objecto que estava ali mesmo à beira. Esse trabalho ficou para outros.
É uma foto deveras curiosa.

segunda-feira, abril 27, 2009

Porcaria

Primeiro foram as Vacas Loucas. Onde elas já vão!? Depois a temível Gripe das Aves. Já desapareceu? Uma e outra a fazerem-nos imaginar situações terríveis. A palavra "pandemia" entrou no vocabulário quotidiano, a fazer com que "epidemia" parcesse brincadeira de crianças. Os telejornais abriram com notícias alarmantes. Morreu mais um aqui, outro ali. Os vírus atravessando continentes, fazendo vítimas a milhares de quilómetros de distância umas das outras. E nós perdidos, a olhar os acontecimentos como espectadores de bancada lateral, num jogo de ténis ao vivo.

Agora (re)surge a gripe suína (aqui alguns dados informativos). Mas a que está a ocupar os nossos novos pesadelos não é a velha gripe suína, antes se trata de uma nova estirpe. Uma estranha mistura de ADN de suínos, aves e seres humanos. Caramba, quem seria capaz de imaginar tamanha monstruosidade? Assustador, de facto.


Esta misturada de ADN dá a impressão de estarmos perante um inimigo não só poderoso como também inteligente. Como se os vírus fossem capazes de estabelecer alianças inesperadas entre eles, esquecendo diferenças fundamentais, com o único objectivo de ganharem a guerra que travam com a nossa espécie pela supremacia à face do planeta Terra.

Para já o alarme é enorme. Andamos todos aflitos, com medo de um inimigo invisível que penetra o nosso organismo para com ele se banquetear.

Tentamos estabelecer estratégias de combate. Medicamentos, vacinas, máscaras protectoras das vias respiratórias. Tudo muito avant-garde, coisas de países civilizados. Talvez estejamos a exagerar no alarme, uma espécie de autoflagelação, tentativa de expiar pecados enormes e antigos. Talvez não haja razão para tanto temor e a ciência tenha respostas capazes de evitar um surto que cause tantos mortos como quando a gripe suína nos visitou nos idos de 1918. Só que nesse tempo ficou conhecida como "gripe espanhola". Esta relação entre suínos e espanhóis nesta coisa de gripes parece-me de mau gosto. Como se isto não bastasse levou-nos Amadeo de Sousa Cardoso em Dezembro de 1918, misturado nos muitos de milhões de vítimas que então se contabilizaram (os números dançam entre extremos demasiado vagos, fala-se em 20 a 40 milhões de mortos!!!).

Depois da "gripe do subprime" vem esta nova desgraça complicar-nos, ainda mais, o passeio. Uma porcaria, esta gripe suína!

sexta-feira, abril 24, 2009

35 anos

25 de Abril? Sempre!

quarta-feira, abril 22, 2009

Elogio da Palavra

imagem de Dave McKean



É difícil explicar como tudo aconteceu. Talvez tenha qualquer coisa a ver com o facto de dizermos que fazemos cocó quando, na verdade, estamos a cagar. Daí a substituirmos a proverbial merda pela inócua caca, vai um passinho de anão. Constatamos que há pedopsiquiatras incomodados com o facto de o Lobo Mau “comer” a Avozinha ou de a velha Tia Chica atirar um pau ao gato. Ouvimos com frequência designar a mentira por “inverdade”. Criamos assim um espaço ambíguo entre o que é e o que não é, entre a verdade e a mentira. Mas como designamos quem profere uma “inverdade”? Arrisco: mentiroso, embora não me pareça que essa designação esteja de acordo com o conceito de inverdade.


Todos sabemos o pântano viscoso que é a língua portuguesa quando utilizada por prestidigitadores habilidosos. Basta pensar na legislação produzida na Assembleia da República, sempre que a letra da lei contraria o seu espírito, nos casos em que a lei acaba por proteger aqueles que pretendia castigar. O feitiço virado contra o feiticeiro? Ou feitiço, simplesmente?


Se formos covardes temos todo o direito de temer as palavras porque, como se vê, uma vez libertas e lançadas ao mundo, elas tomam o destino nas próprias mãos e desobedecem a quem as proferiu. Quantas vezes não ouvimos pessoas a queixarem-se por ser mal interpretadas? Quantas vezes as pessoas se queixam que aquilo que disseram não era o que, na verdade, pretendiam dizer?


Ao que consta, a partir de agora não é aconselhável utilizar a expressão “autista” quando nos referimos a um político bronco ou, simplesmente, casmurro, para não dizer comprometido com alguma posição “inverdadeira”, fazendo de conta que é honesto. E que dizer dos “procedimentos alternativos” e “técnicas avançadas de investigação” para designar a tortura? Como se os santos inquisidores nunca tivessem utilizado a técnica de afogamento nos tempos áureos da igreja católica. Pode o primeiro-ministro utilizar impunemente a expressão “campanha negra”? Cocó em vez de merda, é o que é. Palavras vazias mas cheias de substância.


Temos assim tanto medo de chamar as coisas pelos nomes que verdadeiramente as definem ou, mais candidamente, merecem? Parece que sim. Enrolamos a língua e procuramos uma palavra ou uma expressão que torne a nossa ideia num camaleãozinho simpático, capaz de passar despercebido neste mundo de ambiguidades. Mas o camaleãozinho não deixa de ter a respectiva língua, comprida e viscosa, pronta a capturar a mosca varejeira que é o alvo da nossa ideia.


Escreveu Hugo Ball, na conclusão do inexcedível Manifesto Dadaísta de 14 de Julho de 1916: “Essa maldita linguagem à qual se cola a porcaria como à mão do traficante que as moedas gastaram. A palavra, quero-a quando acaba e quando começa. Cada coisa tem a sua palavra; pois a palavra própria transformou-se em coisa. Porque é que a árvore não há-de chamar-se plupluch e pluplubach depois da chuva? E porque é que raio há-de chamar-se seja o que for? Havemos de pendurar a boca nisso? A palavra, a palavra, a dor precisamente aí, a palavra, meus senhores, é uma questão pública de suprema importância.”


Sejamos livres, sejamos criativos, não há que ter medo das palavras. Utilizemos a palavra conforme o instinto nos ordenar. Ignoremos convenções manhosas e pruridos fedorentos. Vamos falar com imaginação total, colorido absoluto. A palavra só nos ultrapassa se tivermos medo de a usar. Como tudo na vida, de resto.



terça-feira, abril 21, 2009

Uma coisa espantosa


A notícia vinha na secção Pessoas do jornal Público de ontem. É aquela página do jornal em que se remexe um pouco na privacidade de figuras públicas. Umas mais, outras menos. De vez em quando aparecem figuras desconhecidas, personagens mais ou menos bizarras, tal como esta Susan Boyle, uma senhora escocesa com aspecto de jogadora de rugby e uma postura, no mínimo, estranha.


Susan tornou-se súbitamente uma vedeta graças ao seu desempenho num daqueles programas televisivos em que as pessoas comuns tentam impressionar um júri cantando qualquer coisinha. A receita do programa é conhecida e banal. Os candidatos são muitas vezes arrepiantes (embora pareçam não estar conscientes disso) e os elementos do júri divertem os espectadores humilhando aqueles que se atrevem a expor a sua fragilidade. Uma coisa ao nível do Circo Romano onde as feras despedaçam o ego das pessoas.


O vídeo da prestação de Susan Boyle tornou-se um must no Youtube (ver aqui, legendado em Português) e esta dama escocesa de 47 anos, desempregada e, ao que consta, virgem como um passarinho acabado de saír do ovo, transformou-se num fenómeno mediático a nível planetário, uma espécie de Cinderela do século XXI.


O vídeo, que recomendo vivamente, mostra como o preconceito cínico pode ser engolido sem causar dor aparente. Repara como os elementos do júri encaram Susan e a sua brejeirice antes dela começar a cantar e como, depois de ouvirem as primeiras notas, vão avançando num espanto estupidificante. O público passa pela mesma experiência e nós, ao vermos o vídeo, só não apanhamos o mesmo balde de água morna porque já estamos avisados do que iremos ver. Mesmo assim não somos capazes de deixarmos de nos espantar. Digo eu.


Depois... bom, depois há o pormenor de a letra da canção parecer ilustrar toda aquela situação, sublinhando a lição ética, moral e estética que aprendemos com Susan Boyle naquele palco. Não é nada que não soubéssemos: nunca se deve julgar ninguém pela aparência, mas...


Nota: apercebo-me agora de que Susan se tornou verdadeiramente fenomenal. As notícias sobre ela sucedem-se, bem como entrevistas e idas aos programas de TV do costume. Susan está a ser assediada por todo o tipo de hienas e abutres do negócio que imaginam formas diferentes de ganhar dinheiro com esta figura inesperada, tendo até recebido um convite para protagonizar um filme pornográfico. O que reservará o futuro a esta improvável vedeta?



segunda-feira, abril 20, 2009

Santo Alvarez


Não percebo nada de processos de canonização. Estão para mim ao mesmo nível que o uso do preservativo está para o Cardeal Patriarca de Lisboa, ouço falar, explicam-me como se faz mas, na verdade, fica entre o mistério e o desejo de conhecer.

Vem isto a propósito do processo em curso para a canonização de Nuno Álvares Pereira, o muito nosso Santo Condestável que conheci nos livros da escola primária, quando era ainda um catraio de calções curtos e joelhos esmurrados.

A coisa está para se dar um dia destes. Para atingir o estuto de santo é necessário haver milagre comprovado que tenha sido praticado pelo candidato. No caso de Nuno Álvares, os altos chefões da igreja católica que atestam e carimbam estas coisas, dão como provada uma cura milagrosa de uma senhora, cozinheira reformada, Guilhermina de Jesus, de sua graça. A história é, como de costume nestas situações, pouco clara e mantida num certo e conveniente secretismo.

Não quero parecer demasiado cínico mas, ouvi dizer, que a Nuno Álvares Pereira foram atribuídas onze (11) ressurreições e outras maravilhas no tempo em que ele ainda falava e pisava solo pátrio. Mas esses feitos mirabolantes não valeram nada, zerinho, para o processo que agora se conclui. Acabou por ser uma mera cura de um olho queimado por óleo a ferver o que valeu ao nosso Condestável um lugarzinho no panteão dos santos da igreja. Parece-me mal, parece-me injusto e, sobretudo, parece-me que a canonização de Nuno Álvares peca por tardia.

Ainda assim é motivo de regozijo para todos os portugueses que a santidade do homem que malhou forte e feio nos espanhóis na célebérrima batalha de Aljubarrota seja, finalmente, reconhecida.

Mas um processo rocambolesco como este tinha de ter alguma anedota associada ou não fosse este santo português. Os convites enviados pelo Vaticano para a cerimónia de canonização do nosso homem têm uma gralha e o nome aparece em versão espanhola! "Alvarez" em vez de "Álvares", como seria de bom tom. Não é por isso que Dom Nuno fica menos santo, mas que é uma ironia tramada, isso ninguém pode negar.

domingo, abril 19, 2009

“Quero ser teu amigo”






É extraordinário! Ou nem por isso? Quero dizer, é extraordinário que uma "simples" mudança de rostos na liderança dos EUA possa abrir novos canais de comunicação com a Venezuela, Cuba e o Irão, para dar exemplos evidentes. Quem poderia imaginar há apenas meia-dúzia de meses atrás que seria possível estabelecer diálogo entre inimigos jurados, como o eram os países atrás citados?

Este aperto de mão, coisa que todos os políticos fazem para ficarem na fotografia com um sorriso ou um gesto de boa vontade, ultrapassa a banalidade por ter os protagonistas que vemos acima. Mas, com a abertura de espírito que Obama trouxe para as relações internacionais, dentro em breve será de uma tremenda banalidade. Veremos Obama a apertar a mão a Fidel Castro e a Amhadinejad com o mesmo sorriso com que apertará as mãos dos líderes europeus ou chineses, nivelando supostas relações de amizade entre os povos de uma forma que parecia impossível quando Bush, o demónio, ocupava o lugar de presidente dos EUA.

Esta situação mostra até que ponto a imagem é importante no mundo em que vivemos e até que ponto a imagem é uma questão de atitude.


Lá no fundo precisamos de sorrisos e abraços e beijinhos que substituam caras fechadas e punhos apontados à cabeça do adversário. A via do diálogo parece estar de volta apesar de haver ainda alguns figurões que ficam fora do enquadramento destas fotografias.

sábado, abril 18, 2009

A propósito





Na sequência do post anterior, incluído na Tertúlia Virtual de Abril, subordinada ao Prazer, fiquei a matutar porque terei escolhido a Liberdade para ilustrar este tema.
Quando falamos em "prazer" muitas coisas nos assaltam o espírito, normalmente coisas relacionadas com a excitação dos 5 sentidos que marcam as fronteiras do nosso corpo em relação ao mundo circundante. Cenas do género comer, beber, fumar, fazer amor, por aí assim. A Liberdade parece conta de outro rosário. Mas, bem vistas as coisas, o que podemos nós retirar deste mundo se não formos livres?
Ser livre é que se apresenta uma questão complicada. O que poderá definir a nossa Liberdade? Não querendo alogar-me muito, nem parecer um padre a dar sermão aos peixes, diria que a principal condição para sermos livres é não termos segredos escondidos dentro de nós. Se não tivermos segredos podemos pensar livremente e, pensando livremente, podemos sentir-nos livres de facto. Sim, a Liberdade é uma coisa do espírito mais do que do corpo... ou não!?
Problema, problema, é não termos o nosso segredinho inconfessável a roer-nos os calcanhares à consciência. Pois. Será a Liberdade uma impossibilidade?

quarta-feira, abril 15, 2009

Não há maior prazer que a Liberdade de ser livre




LIBERDADE

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa

terça-feira, abril 14, 2009

Bang, bang!


Appaloosa é um western, um filme de cowboys com muitos boys e apenas uma cow (que na verdade é um bull). Trata-se da segunda realização de Ed Harris (o seu primeiro filme foi o excelente Pollock), um actor com estofo e o aspecto certo para dar corpo e vida à personagem de Virgil Cole, um intrépido defensor da lei com cara fechada, marcada e desenhada por rugas fundas, um pouco à maneira do grande Clint Eastwood.

O filme tem uma realização sóbria. Os enquadramentos são exemplares e a reconstituição dos ambientes e cenários parecem-me extraodináriamente cuidadosos.

As personagens ligam-se com segurança numa acção globalmente bem descrita. Não faltam os duelos nem o bando de índios renegados. Lá está uma pianista sedutora e frágil, uma prostituta inteligente e conhecedora das coisas da vida. Os cowboys são violentos mas ingénuos no que toca a questões sentimentais. Uns bébés grandes com pistolas e espingardas nas mãos, como de costume.

Pessoalmente gostei deste Appaloosa mas já li críticas pouco elogiosas. Nada de mais (nem de menos). Nem todos sentem saudades dos velhos westerns ao ponto de se sentirem agradados com os novos.

segunda-feira, abril 13, 2009

Ver a Deus

Explorar aqui o lugar de onde retirei esta imagem


Fui ver a Deus mas Ele atrasou-se e, quando lá chegou, já eu lá não estava. Já eu vinha a caminho desta casa, no meio de filas intermináveis de carros cheios de outros que, como eu, Lhe fizeram visita com marcação para Domingo de Páscoa.

Andei uma semana quase inteira a rolar rodas lá para o Norte. Na 5ª feira Almada-Aveiro-Viseu. Na 6ª Viseu-Porto-Viseu. No Sábado Viseu-Aveiro-Viseu e, finalmente Domingo, Viseu-Almada no meio da confusão toda. Tudo para ver a Deus e Deus atrasou-se, rai's parta! Bom, não convém mentir, porque Deus sabe tudo e sabe bem que vê-Lo era o menos importante dos objectivos destas andanças que antes Dele (muito antes) estão os meus pais.

Ainda assim tive a minha epifania pascal. Foi na estrada, na A25, entre Viseu e Aveiro. Perante uma serra qualquer recortada no horizonte, coroada por nuvens escuras e grandiosas, tive a revelação renovada da consciência do espectáculo mais grandioso do mundo: a Natureza! Viver na cidade, entre prédios e muros e sempre enfiado na resolução imediata dos problemas quotidianos, faz-me esquecer a grandiosidade da Mãe Natureza e do espectáculo constante que ela é. Pensamos sempre que quem vive fora da cidade, coitadinho, está em desvantagem porque longe do bulício citadino "não há nada". Que ideia mais parva! Longe de cidade há tudo o que ali não existe.

Passei estes dias a olhar em volta com os olhos repletos de maravilhas. As cores das estradas secundárias (oh, Deus, os tons de verde!!!), as encostas verdejantes, o céu sempre aberto e aqueles lugares onde nunca bate o sol, as serras, os montes e os vales. A Natureza a prometer mais do que merecemos receber.

Enfim, regressei a casa metido na barriga de uma serpente de carros, um monstro incomensurável a arrastar-se no caminho da estrada, chão cinzento. Cá estou de novo, sentado em frente ao meu PC, a escrever estas palavras.

Deus chegou atrasado e já não lhe beijei os pés, como é de tradição, mas vi-Lhe o rosto que Ele tanto tenta esconder. Vi-O nas serras da Beira Alta, onde ele habita e de onde nunca saiu.

quarta-feira, abril 08, 2009

Mercado volúvel

Piero Manzoni e a sua célebre merda enlatada em 1961


Vem na edição de hoje do Público: "O cenário que se antecipava foi agora traduzido em números: segundo o jornal económico Finantial Times, durante os primeiros três meses de 2009, o mercado da arte sofreu uma quebra de cerca de 35 por cento em relação ao mercado em alta de 2008. O jornal, que faz uma antecipação dos resultados do índex Mei Moses, a sair na próxima semana, diz que a quebra foi acentuada por coleccionadores e investidores atingidos pelo escândalo Madoff. Juntamente com outros bens, muitos dos afectados pela crise tentaram obter fundos com a venda de pinturas, esculturas e obras em fotografia, ainda que por valores muito abaixo do que teriam rendido antes de Setembro último."

A quebra nos valores astronómicos que os objectos de arte atingem no mercado não surpreende ninguém. O navio da economia mete água e há já muitos marinheiros de água doce que atiram ratazanas borda fora, não importa a que preço. Mas as ratazanas, toda a gente sabe, são excelentes nadadoras. Quem não tiver nojo de pegar nestes produtos enjeitados deve aproveitar porque, num cenário de retoma económica, irão, decerto, recuperar o investimento.

É o eterno sobe-e-desce da existência humana, o efeito iô-iô das crises económicas. Quando a crise atraca nas bolsas, os preços de certos bens tendem a cair na realidade. E se caem! Caem com estrondo e por ali ficam, na sombra, a lamber as feridas, esperando um dia mais solarengo que lhes restitua o prazer de existirem.

É curioso verificar que "Segundo os especialistas consultados, as vendas em baixa dizem respeito sobretudo a obras realizadas entre o pós-guerra e a actualidade, o tipo de investimento feito pela elite de Wall Street e semelhantes ao longo dos últimos sete anos.", a arte contemporânea sempre imersa nas terríveis dúvidas que continua a provocar quanto ao seu "real" valor, tanto quanto se duvida do real valor da riqueza "produzida" no mercado de especulação de capitais.

Iremos nós assistir a uma mudança de paradigma no estabelecimento dos rankings de preços dos objectos de arte? A verdade é que perante o descalabro do sistema de especulação de capitais, que deixou à vista de toda a gente a fragilidade fraudulenta de uma legião de especialistas em economia com pés de barro escondidos em sapatos de luxo, algo poderá mudar também entre os especialistas com pés de merda que constroem reputações e iludem os valores dos objectos de arte.

Ainda na mesma notícia pode ler-se que "Já o mercado dos grandes mestres da pintura, a funcionar abaixo do radar do boom de investimento em arte dos últimos anos, terá tido um declínio mais moderado." Não haja dúvidas de que o Tempo (seja lá isso o que for) se encarrega de caucionar o valor das obras de arte. O futuro dirá quais os objectos artísticos que irão resistir e perdurar no mercado. Apesar de todas as injustiças, há sempre uma justiça mínima que sai redondinha dos ponteiros do relógio e cai graciosamente das folhas dos calendários.

terça-feira, abril 07, 2009

Imagens aos pontapés


Olhando melhor para a quela foto que estava no post anterior e vialou para este, há um pormenor interessante. Repara bem na quantidade de máquinas fotográficas que dançam à frente de Barack Obama. A maioria dos manifestantes que aplaudem o símbolo máximo da "hope" tem uma máquina e, como são máquinas digitais, disparam-nas a torto e a direito, captando centenas, milhares, milhões de imagens de Obama.

Desde que o digital entrou em definitivo nos nossos hábitos, passámos a produzir muito mais imagens. Já não temos a pressão de nos sentirmos obrigados a tirar uma foto especial sempre que carregávamos no botão da velha máquina, foto essa que iria ser impressa e, quem sabe, emoldurada, o que, até pelo preço, nos obrigava a procurar um enquadramento especial, uma pose estudada. Agora é o tempo do instanâneo-instantâneo. Fotografamos tudo, sob todos os ângulos possíveis, sem temores nem constrangimentos.

Gostava de ter acesso às fotos que estão a ser tiradas na foto que ilustra este post. Seria decerto um exercício curioso poder compará-las. Descontando as que enquadram apenas a nuca do parceiro da frente, ou só o céu, ou apenas pernas em plano picado, tenho a certeza de que uma coisa havia de ser comum a muitas delas: o sorriso de Obama. O homem ainda arranja algum problema muscular de tanto sorrir. A menos que pratique ao espelho.

domingo, abril 05, 2009

Hope


Obama é um fenómeno de popularidade na Velha Europa. A mesma Europa que Bush tanto desprezava e que por ela foi hostilizado como inimigo figadal.

Haverá uma distância assim tão grande entre o anterior presidente norte-americano e o actual? Pessoalmente creio que sim, que existe uma enorme diferença entre eles, mas há um "pequeno" pormenor que os aproxima, um "pormenor" chamado Estados Unidos da América. Eles são diferentes mas o país por eles representado continua o mesmo.

Obama está em estado de graça. Nem a crise mundial retira brilho à sua presença magnética. O à-vontade com que se move, o aspecto descontraído da sua figura jovem e bem parecida encaixa na perfeição na imagem de Santo Redentor que os europeus desejam mas não encontram entre os seus líderes.

Barack "Hope" Obama, o enviado dos céus, está aí. Passeia o seu esplendor pelo Velho Continente. A sensação de que poderemos encontrar maneira de estreitar laços de cooperação e reencontrar caminhos que nos aproximem dos EUA, revitalizando o mítico Império Ocidental, fazem-nos esquecer que foi esse mesmo Império o causador do abismo actual, a tal Crise assustadora que resultou do primado da Economia sobre a Política.

Não haverá Obama que nos valha se não formos capazes de substituir o paradigma civilizacional que nos condiziu à beira do precipício onde actualmente vacilamos. Ou somos capazes de subjugar o sistema económico à vontade e às necessidades de um sistema polício e social de rosto humano ou então estaremos apenas a dar mais uns passos em direcção ao vazio que nos aguarda de boca imensa e aberta.

Para já, Obama é o campeão da aparência. Aguardemos para verificar se será, também, campeão da substância.

Oxalá seja. Tenhamos "hope"!

quinta-feira, abril 02, 2009

Encher chouriços


Quando ouço falar de cenas como essa reunião dos G-20, percebo com muito maior propriedade a velha expressão portuguesa do "encher chouriços".

Quando era miúdo vi, muitas vezes, as mulheres (não me lembro de ver homens a fazerem esse trabalho) a encherem as tripas do porco com pedaços da sua própria carne (do porco, está bom de ver). As tripas haviam sido lavadas e secas, a carnucha bem temperada, com tempo e sabedoria. Depois era só "atar e pôr ao fumeiro". Ali ficavam as chouriças (na minha terra usa-se o feminino) penduradas junto à lareira que era onde se cozinhavam a maior parte das refeições, numas panelas pretas com três pés de diferentes dimensões, apesar de haver por lá um fogão a gás, se a memória não me falha. As chouriças haveriam de secar o suficiente para depois serem comidas de mil e uma maneiras por quem as pudesse comer.

Vem isto a propósito dos reais poderes dos governantes locais perante as decisões dos mais poderosos. O que fazem Sócrates e os seus ministros quando governam aqui o nosso Portugalzinho senão encher chouriços? Enchem-nos com a carnucha do pessoal cá do sítio e põem-nos a secar, à espera das decisões dos gabirús do G-20. Depois logo se vê no que isto dá. As leis que apadrinham são tão desvairadas, tão estúpidas e canhestras que os cidadãos ficam embasbacados e sem capacidade para perceberem bem o que se está a passar naquelas cabeças ôcas. Sócrates bem se põe nos bicos dos pés mas a sua estatura como estadista não lhe permite ver além dos interesses particulares e pessoais. É pior que mau. Como 1º ministro não vale nada e, como cidadão, vale um pouco menos.

Obama, Brown, Lula, as senhoras Kirchner e Merkel, Hu Jintao, etc e tal, os tubarões mais dentuças deste mar perigoso, dão as ordens. Os resto do pessoal enche chouriços e aguarda. Alguém os haverá de comer. Aos chouriços, não aos tubarões que a esses não há dente que os morda nem consiga trincar.

quarta-feira, abril 01, 2009

Aguardemos...


"Os ricos que paguem a crise!" Quantas vezes esta palavra de ordem foi gritada nas ruas? Gritou-se, gritou-se e... os ricos não só não pagaram crise nenhuma como ainda por cima geraram uma outra com aspecto mais feroz e bem mais devoradora.

As empresas fecham por todo o lado ou reduzem dratiscamente o número de trabalhadores. Em Portugal, por exemplo, os números do desemprego dispararam em direcção à lua e, não tardam, estão a atingi-la. A sociedade civil tenta minorar o problema apelando à solidariedade de todos para que se consiga evitar, pelo menos, a fome entre os que estão mais desprotegidos. Gotinhas de água num oceano ácido. Mas não é só em Portugal que a crise assume o aspecto de um monstro descontrolado. É em todo o mundo ocidental.

Os 20 países mais ricos do mundo resolveram fazer a sua reuniãozinha da ordem em Londres. Má ideia. A capital britânica é um planeta dentro do planeta e está em efervescência. Manifestações para trás e para a frente, a violência assoma à flor da pele e há distúrbios pelas ruas. Sente-se uma instabilidade incrível e nem São Obama nos vale. Estará a nossa sociedade à beira da falência nervosa? Até onde irá tudo isto?

Aguardemos.

Ouço um autocarro lá em baixo, na rua, uma vozinha de criança lá ao fundo, um riso. Por enquanto tudo continua na paz do Senhor aqui, no país dos brandos costumes. A crise não se vê. Instala-se dentro das pessoas, cresce no remanso dos lares, é como um vírus. Teme-se que a segurança pública venha a ser afectada. Já há ministros que falam dessa possibilidade. Parece impossível. Mas quem perde tudo fica sem nada para perder. E isso é o rastilho que cresce à espera de um fósforo que lhe venha fazer companhia.

Aguardemos...

terça-feira, março 31, 2009

Manias do caraças!

Sobre um cubo não há nada a dizer. Um cubo são seis quadrados encostados. Seis faces iguais com arestas. Esquinas vivas a rasgar a pele. Pode ser caixa ou pedra. Com pintas é um jogo de azar. Com janelas é um quarto. Com barras uma cela. Esdrúxulo paralelipípedo.
foto e legenda respectiva do post intitulado... Cubo, of course! Tem 6 "clicks"



Não é meu hábito falar muito de Blogues neste Blogue. Vá-se lá saber porquê!

:-)

Mas não posso deixar passar em claro a oportunidade de chamar aqui a atenção para o Photomelomanias, um dos Blogues alimentados pelo Caçador (identidade alternativa de outras identidades secretas espalhadas pela blogosfera). O Caçador anda por aí desde Dezembro do ano passado e o Photomelomanias abriu portas em Janeiro do corrente, contando com 41 postagens desde que abriu as portinholas. O conceito é simples e não sei se há mais Blogues assim (eu não conheço mais nenhum, mas é bem possível que existam outras gotas assim no imenso oceano da blogosfera). Cada post tem um tema associado a uma fotografia e, por baixo, depoisa da legenda, alinham-se uma série de "clicks" que abrem para filmes (a maior parte deles no YouTube) de alguma forma associados ao assunto em análise. Os filmes são, maioritáriamente, clips musicais mas também podem ser de outra natureza.

Resumindo, um passeio pelo Photomelomanias é sempre um trajecto curioso, com momentos inesperados. Uma visita a fazer, sem hesitações.

domingo, março 29, 2009

Real vulgaridade



Finalmente vi o filme A Turma (Entre les Murs). Vi em casa com a família. Versão DVD: sentado, recostado, deitado. Como sou professor, grande parte da narrativa é-me tão familiar que algumas situações potencialmente mais fortes ou polémicas não me surpreenderam.

O que me pareceu mais marcante em A turma foi, precisamente, o realismo, como se o realizador tivesse recuperado os princípios éticos e estéticos do realismo oitocentista. As personagens, as situações, os cenários, nada têm de transcendente de tão vulgares. Não há a grandeza dos momentos históricos nem o mistério dos contos surrealistas. Vulgaridade vulgar. É tudo.

A Turma é qualquer coisa entre a obra de ficção e o documentário e, pela forma como aborda a linguagem cinematográfica, abre um buraquinho especial para ali se aconchegar sem grandes acompanhantes (pelo menos, assim de repente, não me estou a recordar de outros filmes semelhantes).

O meu amigo Beto Canales do Blogue Cinema e Bobagens, estabelece aqui uma série de princípios segundo os quais deveremos classificar ou abordar críticamente um filme. São 7 itens a ter em conta na classificação da qualidade de um filme. Para ele, A Turma não preenche nem dois e ainda lhe aponta alguns pecadilhos censuráveis.

Talvez o Beto tenha razão. Mas talvez os 7 itens não se possam aplicar sempre, da mesma forma, talvez alguns objectos cinematográficos, pela sua natureza, peçam outro tipo de abordagem crítica. Acredito que assim seja e acredito que A Turma esteja algures num plano diferente. A minha dúvida prende-se com o facto de, como afirmei a abrir este post, a minha profissão me aproximar tanto da personagem do professor e me fazer olhar aqueles rapazes e raparigas com uns olhos muito semelhantes aos que utilizo quando olho os rapazes e raparigas nas minhas salas de aula. Esta situação poderá retirar-me distanciamento crítico, criando uma empatia específica com A Turma, empatia essa que nem sempre consigo estabelecer com os filmes que vejo.

Resumindo, A Turma parece-me um objecto muito interessante sob vários aspectos: o realismo das personagens e das situações, a revelação do ambiente que se vive "entre as paredes" de uma escola, serve para mostrar a quem julga saber o que ali se passa aquilo que, afinal, está muito longe de, sequer, imaginar. Terá defeitos, certamente que os tem. Mas esses o espectador que os descubra por si próprio.

A ver, por professores e não professores, sem compromisso de empatia garantida.

sábado, março 28, 2009

O santo coelho


A embalagem do preservativo é um achado! O gesto do velho Ratz é de desespero e a mensagem um desabafo incontido: "Eu disse não!". Braços ao ar, caraças, que estes gajos não aprendem! São piores que coelhos e não há nada a fazer.
Diz-se por aí que foram enviados 60 mil destes lá para casa do velhote. Não acredito que tenha tempo de os usar a todos no tempo que lhe resta... mas pode sempre tentar!

O coelho dos ovos


Entre todas as personagens que povoam o nosso imaginário colectivo há uma que, pela sua estranheza, sempre me deixou intrigado. Falo do coelhinho da Páscoa. A estranheza vem da relação entre o coelho e os ovos que, segundo uma tradição pouco clara, ele deixa por aí, à espera de quem os recolha. De onde vem esta relação anti-natura?
Procurando no Google (esse oráculo extraordinário) encontram-se referências não muito claras quanto à origem de tão estranha personagem.
A que parece mais lógica, ainda assim, é a de uma lenda que conta a história de uma mulher muito pobre, que não tinha presentes para oferecer aos filhos no domingo de Páscoa. A mulher cozinhou alguns ovos de galinha que depois pintou. Dotada de grande imaginação, teve a ideia de colocar os ovos dentro de um ninho que escondeu no quintal, entre as ervas. Quando as crianças encontraram os ovos, um coelho apareceu por perto e fugiu; as crianças acreditaram que o coelho havia posto aqueles ovos coloridos. Assim terá surgido esta crença que depois se propagou até aos nossos dias. Hoje os ovos são de chocolate e fazem parte de uma tradição comercial que a maioria das pessoas respeita quase religiosamente.
Podia ter aparecido às crianças um cão ou um gato, qualquer coisa assim, e hoje teríamos outro tipo de bicharoco a dar este toque surreal ao nosso imaginário infantil. A credulidade humana não tem limites e alguns adultos terão estado na origem de crenças bem mais bizarras do que esta mas que, com o tempo, se transformaram em factos reais. Faz parte da nossa condição.
Seja como for, o coelhinho da Páscoa, é uma daquelas figuras abstrusas que povoam o nosso universo consumista e que aceitamos com alguma indiferença, sem questionar a sua origem, tal como fazemos com o Pai Natal vermelhusco ou os monstrecos do Halloween.
este post foi originalmente publicado aqui http://jornaljanselmo.blogspot.com/

quinta-feira, março 26, 2009

Drogaria


Será mais um sinal da crise mundial? Ao que tudo indica, os paradigmas do combate ao consumo de droga estão prestes a ser virados de pantanas. Após anos e anos de luta armada contra o consumo de determinadas drogas, chamadas "leves" em que o resultado mais visível foi o aumento continuado do consumo, as cabeças pensantes da nossa sociedade global começam a imaginar outros meios de encarar a questão. Fala-se agora abertamente da possibilidade de despenalizar o consumo ou regular o tráfico de canabis. Estas medidas, já adoptadas em alguns países mais avisados, estão a ganhar terreno ao combate cego que tem sido norma na maioria dos países ocidentais.

Os argumentos contra e a favor são os mais variados. No ponto em que nos encontramos, com as economias em marcha atrás, surgem as contas feitas pelos economistas de serviço que prevêm a possibilidade de ganhos substanciais para os cofres dos estados, caso venha a legalizar-se o comércio de canabis. Contas feitas prevêm-se milhões de lucros mágicos que poderão ser melhor aplicados em benefício da sociedade. Lucrar-se-à com os impostos a aplicar, lucrar-se-à com poupanças em termos de investimento no combate à droga.

Assim como assim, num mundo com milhões de alcoólicos que podem consumir o seu úisque sem problemas de maior, bem como outros milhões de viciados em barbitúricos e outras drogas que se transaccionam nas farmácias, não parece má ideia trazer a doçura da canabis para o universo da legalidade. Basta alargar o conceito de droga.

Será a televisão uma droga? E o açúcar? Talvez o chocolate e a fast-food pudessem entrar no pacote das "substâncias" proibidas. Já estou a imaginar milhões de viciados em MacDonald's a devorarem hamburgueres escondidos atrás de caixotes de lixo, disputando a cães e a gatos uma batatinha frita com ketchup.

Não há nada como acenar com uns maços de notas à frente dos governantes deste mundo, para os fazer mudar de ideias. Em tempo de crise legalize-se a canabis, pois então. Não virá daí grande mal a este mundo. Hoje a canabis, amanhã... quem sabe?

segunda-feira, março 23, 2009

Orações


Pronto, faça-se justiça. Afinal a conversa do Papa sobre o uso de preservativos em Áfirca não devia ser considerada uma vez que, a crer no que se diz por aí, o Sumo Pontífice terá sido levado a pronunciar aquelas enormidades incitado por um jornalista habilidoso que apenas pretendia criar um facto noticioso. O Papa disse muito mais coisas, coisas bem piedosas, mostrando o seu lado bom, de quem se preocupa sinceramente com os males do mundo. Bem me queria parecer que o homem, perdão, o Santo homem, não podia ser tão irresponsável que fizesse daquele tema assunto de conversa por sua livre iniciativa. Uma coisa é o que ele pensa, outra o que ele diz e, ainda outra coisa, é o que faz parte dos discursos oficiais. São tudo coisas diferentes.

O papa despediu-se pedindo ajuda para os mais necessitados, o que é bem mais importante do que pedir preservativos para os mais atesoados. Denunciou a miséria e a corrupção, o que, em Angola, é feito ao alcance de muito poucos. Só mesmo o Papa poderia falar desses temas sem ser imediatamente enviado para fronteira com um carimbo de "indesejado" bem marcado no meio da testa.

Enfim, depois do post em que tão duramente desanquei o Santo Padre senti úm impulso súbito de escrever este, quem sabe iluminado por Deus ou por outra razão qualquer que não sou capaz de explicar. O Papa é o Papa e não pode desejar o mal a ninguém. Pois não?

sábado, março 21, 2009

Uma visita agradável


O Visitante é um filme excelente. Prefiro começar assim, para que tudo fique explicado logo à partida, porque o filme deixou-me com um sorriso nos lábios que regressa, sem esforço, quando me recordo daquilo que vi.

O argumento é envolvente, as personagens perfeitamente credíveis e a narrativa escorreita. Cada imagem é pensada e enquadrada com um rigor estonteante, encaixando-se na perfeição geral sem hesitar nem forçar o olhar do espectador. É tudo melhor que muito bom. Mas há uma coisinha que se destaca extraordináriamente, o desempenho de Richard Jenkins (na foto) que lhe valeu a nomeação para o Oscar de melhor actor que viria a ser atribuído a Sean Penn no papel de Milk. Este gajo é um senhor!

O Visitante é mais um daqueles filmes de baixo orçamento que apostam tudo na narrativa e na profundidade dramática em detrimento do efeito fácil e do jogo rodopiante da câmara de filmar. Conta-se uma história e o espectador entra nela sem precisar de pedir licença.
Entramos no filme como visitantes convidados e sentimos que somos muito bem-vindos.

sexta-feira, março 20, 2009

Um cartoon



Este cartoon foi ontem publicado no Inimigo Público. Os cartoons de António Jorge Gonçalves (e não só os cartoons) proporcionam normalmente excelentes momentos de reflexão. Este "Monster" não foge à regra e tem qualquer coisa a ver com o post publicado neste Blogue com o título de "Cabeça de dossiê". A perspectiva do leitor/observador é a cor-de-rosa.

quarta-feira, março 18, 2009

Shame on you


Não é por nada mas parece-me pouco decente falar daquilo que não se conhece. Quero dizer, não me atreveria a dar opinião pessoal sobre a melhor forma de comunicar com Deus por não ter formação teológica. Tenho cá umas ideias, muito minhas, meio estranhas mas, benza-me Deus, nunca por nunca seria capaz de as impor a quem quer que fosse, não fosse eu estar errado e obrigar alguma alma mais simples a cair no Inferno por culpa da minha visão distorcida.

Nesta ordem de ideias penso que o Papa não devia mandar bitaites sobre questões relacionadas com sexo, muito menos sobre um problema com a gravidade da pandemia da SIDA. Um homem que nunca fez amor não pode imaginar o que isso seja, nem que tenha beneficiado de iluminação divina. Há coisas que o Deus dos católicos prefere ignorar. É um Deus que vira a cara quando não quer ver e permite que o Mal anda por aí a curtir na boa.

Não pretendo comparar-me com o Papa. Ele não o merece. Mas aquelas afirmações assassinas de que a questão da SIDA não se resolve com a distribuição de preservativos tira-me do sério. Ninguém diz que o uso do preservativo resolve o problema, mas ninguém, com um mínimo de honestidade intelectual, pode negar que o atenua. A meu ver, o Papa é uma espécie de preservativo contra o Pecado. Não acaba com ele mas, devidamente utilizado de acordo com a literatura inclusa, pode evitar a sua proliferação descontrolada.

Enfim, só papa a mensagem deste ex-cardeal quem estiver mesmo desesperado e com uma fome de cão. Talvez Ratzinger esteja convencido que passou para outra dimensão da realidade, tendo-se tornado supra-humano, na antecâmara do querubim. Seja lá o que for, não há paciência para tanta desumanidade.

Shame on you, Mister Pope, shame on you!

terça-feira, março 17, 2009

Cabeça de dossiê


Na imagem Josef Fritzl esconde a cara atrás de um dossiê azul durante o seu julgamento em Sankt Poelten. Estranha atitude. Mas, numa personagem como esta, capaz de encerrar a filha num buraco ao longo de décadas, praticando actos inqualificáveis, que poderíamos esperar senão uma nova bizarria?
Há pessoas exageradamente estranhas. Na verdade todos somos estranhos, havendo uma espécie de estranheza média que designamos vulgarmente por "normalidade". Mas é impossível, para cada um de nós, imaginar o que é o outro. Como será estar dentro da cabeça do outro?
Olho para a imagem e sinto-me inclinado a agradecer ao monstruoso Fritzl o facto de substituir a sua face inquietante por aquele dossiê azul. É-me absolutamente impossível imaginar como será estar dentro daquela cabeça de dossiê.

domingo, março 15, 2009

Desejo


O desejo tem um nome, tem um rosto, corpo e vive junto a mim.

sexta-feira, março 13, 2009

Andar aos papéis


No filme de Terry Gilliam, Brazil, há uma personagem interpretada por Robert de Niro, que acaba devorada por um monte de papéis. Esta metáfora de uma voracidade insaciável revelada pela burocracia não é tão exagerada quanto possa parecer, assim, à primeira vista. A burocracia come-nos, de facto.

Come-nos o tempo que temos, come-nos a paciência, beberrica delicadamente a nossa energia e, de sobremesa, despacha-nos a capacidade de trabalho. Quando acaba estamos esgotados. E a burocracia arrota, satisfeita, deixando no ar um leve fedor àquilo que nós somos.

O mais estranho nesta Babel de escritórios sombrios é que somos nós quem a construimos a cada dia que passa. É a nossa incapacidade para lhe resistirmos que permite ao sistema burocrático um crescimento uniformemente acelerado, um universo de perversidade em expansão. O infinito parece ser a única fronteira capaz de o suster e, finalmente, saciar a vontade que tem de tudo encobrir na sua penumbra bafienta.

A forma como hoje dancei atrás de certos papéis, rebuscando montes, pilhas e cadernos de papéis, aparentemente todos iguais, como corei por ignorar a existência de uma certa pasta que era suposto conhecer melhor do que a minha própria família. As vezes que tive de bater à porta, enfiar a cabeça e pedir licença, sorrir embaraçado e, por fim, explodir (um pouquinho) confessando a minha capitulação perante a força desta besta invisível, declarando alto e bom som odesprezo que me merece, toda esta jiga rocambolesca me cansou. Fiquei a sonhar com um desenho que irei fazer e a matutar sobre a melhor estratégia para construir o teste de 2ª feira sobre Impressionismo e Pós-Impressionismo. Depois será necessário introduzir o tema da "Arquitectura do Ferro", construir a biografia de Gustave Eiffel e organizar uma pasta com imagens do seu trabalho.

A burocracia vai-me roendo a alma mas está longe de ma conseguir comer. Um papel timbrado, com três carimbos e duas assinaturas não é uma obra de arte. É um papel.

segunda-feira, março 09, 2009

Domingo


Ontem fui caminhar pelas ruas da Cova da Piedade. Caminhar, apenas, virando nas esquinas sem destino, a cabeça a vaguear juntamente com os olhos; a ver. A banalidade absoluta de um Domingo com sol quentinho, sol de fim do Inverno, a merecer celebração profana, tais são as promessas que traz agarradas e memórias que, com ele, renascem; como flores, como folhas, como ramos que o passado esconde e revela, conforme recordamos ou esquecemos.

Uma velha senhora a secar o verniz das unhas ao sol, com os cotovelos apoiados no parapeito da janela e abanando as mãos, como se estivesse a fazer um gesto de uma coreografia à Michael Jackson; um homem de aspecto derrotado, enfiado num casaco outrora branco e óculos fora de moda que talvez regressasse a casa (uma casa que imaginei vazia), desalentado e com vontade que a vontade fosse outra coisa; uma florista a formigar de clientes (era Dia Internacional da Mulher); um homem enorme, gordo e careca, transportava um vasinho desajeitado com uma flor vermelha a cair para o lado que parecia querer fugir (do homem ou do vaso?); um bando de miúdos a jogar futebol, corados, suados, gritando a plenos pulmões gritos que são vida enorme e cheia de futuro.

Caminhando pelas ruas dei por mim extasiado perante o espectáculo daquela banalidade absoluta, espantado pela riqueza que existe nas coisas que não são nada mas que, todas juntas, acabam sendo tudo, expressões simples da complexidade da vida.

A Cova da Piedade é um sítio feio, de prédios meio decrépitos e horizontes curtinhos, emparedados por fachadas de janelas sujas e todas demasiado semelhantes. As pessoas vestem-se, quase sempre, com roupas de cores escuras, como se se identificassem absolutamente com o espaço que as circunda, e parecem arrastar os pés, como zombies à procura da tumba respectiva. Mas a vida é uma coisa maravilhosa e as suas manifestações são sempre deslumbrantes, mesmo num cenário como este. Talvez ainda mais deslumbrantes num cenário como este. Aqui parece ser complicado encontrar a felicidade. Mera ilusão. Nem sequer é necessário procurar com grande afinco. Basta andar, abrir os olhos e ver.


sábado, março 07, 2009

Watchmen e Happy-Go-Lucky




Ontem vi Watchmen e hoje Happy-Go-Lucky. Assistir a dois filmes tão diferentes num tão curto espaço de tempo é uma experiência curiosa. Watchmen levou-me para um universo impossivel, Hppy-Go-Lucky trouxe-me de regresso a este mundo.


O filme de super-heróis é uma adaptação bastante fiel do comic book que lhe dá origem. O filme de Mike Leigh é uma adaptação bastante fiel da realidade.


É estranho como se pode gostar de dois objectos tão distintos. Mas aconteceu. Um e outro preencheram-me de formas diferentes, ofereceram-me um leque de sensações extraordinariamente amplo, fizeram-me perceber pela enésima vez como gosto de cinema e da sua infinita magia.


Fiquei a pensar nisto de tal maneira que nem sei o que dizer. Portanto, para não dizer o que não sei, não digo mais nada.


quinta-feira, março 05, 2009

Vigilantes

Watchmen no écrã e na págna do comic book


Estreia hoje um filme daqueles que nem toda a gente vai querer ver por ser uma coisa que mete personagens saídinhas de um Comic americano, personagens com fatos ridículos e coloridos, enfiadas em collants e com a cabeça ocupada por problemas mais cósmicos do que cómicos. Estou a falar de Watchmen, pois estou.

Pesoalmente sou fã de loo0nga data. O meu exemplar em papel de Watchmen tem anotado o ano e o local de aquisição: 1990, Livraria do Duque. Há 19 anos!

Lembro-me de se ter dito, naquela época longínqua, que estavamos perante uma obra-prima da Banda Desenhada (ou dos Comics ou das Histórias em Quadrinhos, como quisermos). Absolutamente de acordo. Alan Moore é um autor inventivo que raramente se satisfaz com as coisinhas que já fez (mesmo que sejam enormes ou excelentes) e pretende fazer melhor da próxima vez. Por isso, enquanto houver "próxima vez" para Moore, poderemos estar atentos e esperançados.

Regressando ao aqui e mais daqui a bocado; o filme vem fazendo furor. Como de costume, o trabalho de promoção tem sido eficaz. Vão-se mostrando umas imagens, vai-se "metendo o veneno" na cabeça dos espectadores, a vontade de ver cresce, cresce, cresce. Chovem elogios, os actores confessam o entusiasmo que sentiram por poderem ter feito parte de um projecto de tamanha excelência, enfim, enquanto não for ver, uma pessoa tem a sensação de estar incompleta (a publicidade ainda vai dar cabo de nós!).

Pronto, estreia hoje mas, possivelmente, só irei ver amanhã. Hoje tenho trabalho importante para realizar, não há um buraquinho que seja para permitir uma fuga até à escuridão da sala de cinema.

A minha filha, no esplendor dos seus 15 anos de idade, está impaciente por ir ver o filme. Eu também, confesso e apesar de tudo. Ela já prometeu que irá ver o filme 5 vezes. Eu ainda não prometi nada. Mas se a coisa for mesmo tão extraordinária como a pintam... quem sabe?

quarta-feira, março 04, 2009

Gran Cinema


Deve ser da idade. Clint Eastwood assina mais um filme de grande contenção narrativa e rigor de composição, aquilo a que, em tempos de um outro cinema, mais veloz e sincopado, costumamos chamar "um clássico".

Este "Gran Torino" possui as características que associamos aos "clássicos" (partindo do princípio que estamos a referir a arte produzida no período áureo da Antiguidade): equilíbrio, harmonia, simetria, enfim, a busca de uma forma plástica de contornos nítidos e bem definidos. Não há desvios nem elementos supérfluos. Não há movimentos de câmara desnecessários nem planos estranhamente enviesados. Não há personagens sem espessura nem cenas "para encher" o tempo ou o olhar do espectador. Ali tudo está ao serviço do objectivo principal: narrar uma história. Grande cinema, em grande estilo.

Como se tudo isto não bastasse, há ainda a presença magnética do realizador que é, cada vez mais, um gigante dentro da enormidade dos seus filmes. Ouvi dizer que Eastwood afirmou ter sido esta a sua última aparição no grande écrã, na qualidade de actor. Se foi, podemos dizer que tem uma despedida em grande estilo. Deitado de costas e em posição de Cristo, oferecido em sacrifício para redimir todos os pecados cinematográficos cometidos por gerações de realizadores menos atentos e menos capazes do que ele. Eastwood perdoa-lhes. Estão perdoados.

Um filme, absolutamente, a não perder.

segunda-feira, março 02, 2009

Céu cinzento, vinha vermelha


Que responder ao céu cinzento de um dia que amanheceu pouco esperançado? Nem o café matinal foi capaz de afastar esta coisa, esta espécie de mosca interior que me patinha irritantemente as ideias. As coisas melhoraram um pouco com uma leitura rápida de algumas notas sobre Van Gogh, para a aula que se vai seguir.

Costuma afirmar-se (com toda a propriedade, aliás) que o irmão de Vincent Van Gogh, Theo, marchand de arte e patrocinador do artista, conseguiu apenas vender uma tela de todas as que recebeu em troca do seu patrocínio.

Foi esta "Vinha Vermelha" de 1888, vendida por 400 francos (Theo enviava todos os meses 150 a Vincent). Um raio de luz na vida apocalíptica de Van Gogh que, apesar de procurar a luz com uma sofreguidão extraordinária, passou mais tempo com uma mosca a patinhar-lhe a escuridão da caverna que lhe encerrava o cérebro.

Mmmmh, agora que leio este texto não consigo perceber muito bem onde lhe encontro eu um raiozinho de esperança para o que me resta deste dia. Tenho de ir para a sala de aula. Talvez ali a coisa se ilumine.

domingo, março 01, 2009

A Árvore de Courbet


Pessoalmente, sempre relacionei o título de "A Origem do Mundo" com a semelhança que a meus olhos existe entre aquela imagem do sexo feminino e uma árvore.

Isto leva a que, no meu rebuscado imaginário, tingido por uma educação católica, apostólica e romana, a Árvore do Conhecimento, cenário do Pecado Original, se irmane de súbito com a inquietante visão daquele sexo feminino, tão exuberantemente enquadrado na tela de Courbet. Como se o pintor quisesse sugerir que a origem deste mundo tivera no Pecado Original o seu acto fundador.

Sendo um adepto fervoroso do Realismo, Courbet não era particularmente dado a especulações transcendentais. Terá afirmado que nunca pintara um anjo por nunca ter visto um "Mostrem-me um anjo e eu pintá-lo-ei."

Mas, mesmo assim, e apesar de tudo o que nos últimos dias se disse acerca da pintura de Courbet continuo a ver ali uma árvore. Um símbolo oferecido a uma sociedade machista, o Fruto Proíbido, na abstrusa concepção católica que olha o corpo da mulher como uma fonte inesgotável de luxúria e pecados mortais, capaz de lançar o maior dos santos nas profundezas do Inferno caso ceda à tentação de o provar.

Talvez esta minha leitura de "A Origem do Mundo" tenha algo de púdico por me poupar a olhar para a tela e ver ali apenas uma simples vagina. Reminiscências de uma infância católica? Talvez. Mas é essa leitura que me permite afastar a ideia de que esta tela é, simplesmente, uma imagem pornográfica. Para mim continua a ser "A Árvore de Courbet".