
Quando peguei naquele hamburguer e o trinquei senti uma vertigem. De súbito dei por mim no topo de uma colina esverdeada com o sol a bater-me nas costas. Ao fundo do declive suave que escorria dos meus pés uma manada de... bichos de 4 patas, pastava com a maior das calmas. Eram tão bonitos! O pêlo luzia e o movimento das mandíbulas fazia dos... daqueles bichos, as coisas vivas mais bonitas que alguma vez tivera oportunidade de contemplar. Tão bonitos, tão bonitos que de imediato senti vontade de matar pelo menos um. Era um misto de inveja e de saliva a escorrer-me dos lábios. Corri por ali abaixo como um mamute ou coisa que o valha, de tal modo brutal e pesado que a bicharada debandou sem grande alvoroço, num movimento colectivo mais de fastio que de outra coisa. Trinquei o hamburguer e deixei-me de sonhos parvos.
A carne (era carne acho eu) pareceu-me mais plastificada que da última vez. Sendo carne devia ser carne de... vaca? Aqueles bichos criados em cativeiro e alimentados a rações esquizóides são vacas, não são? Pelo menos têm cornos e tetas e cascos... só podem ser vacas. Apesar do aspecto de total infelicidade e estupidez infinita, são vacas sim senhor! Apesar de nunca terem sabido o que é ser livre, de nunca terem conhecido outra realidade que não fosse a manjedoura à frente do focinho, de nunca terem experimentado as pernas para darem uma corridinha, acho que não faz delas uma espécie de não-vacas! Espero que não.
De igual modo, o facto de eu me alimentar daquela merda, de não plantar as alfaces nem os tomates, de comer maçãs estranhas, todas iguais e sorridentes na sua obesidade impossível, de andar de carro de um lado para o outro, mesmo em trajectos que poderia perfeitamente fazer a pé, não faz de mim um não-homem... ou faz? Bebo água engarrafada, não persigo animais pela savana, compro-os já escortanhados e feitos em pedaços embalados, liofilizados, certificados, mumificados, sem cheiro, nem som, apenas cor. E, mesmo isso não há-de durar muito tempo pois tem um aspecto pouco saudável. O vermelho da carne faz lembrar demasiado o sangue. Selvajaria!
Apesar de tudo lá emborquei o hamburger mais aquelas batatas fritas, tudo regado a cervejola fresca, ainda assim o melhorzinho do menu. Os serviços do Estado esforçam-se por tornar o mais fiável possível a limpeza dos estabelecimentos que nos servem a paparoca bem como dos produtos que metemos para dentro. Cada vez estaremos mais plastificados, limpos e empacotados, como leite de vaca. Isto ainda acaba mal! Numa perspetiva otimista, claro! (esta última frase foi escrita de acordo com o Acordo Ortográfico acabadinho de promulgar por sua Excelência e Coiso e Tal, Presidente desta nossa amada República :-)




Na noite de 9 do corrente assisti a este Stabat Mater e, caramba, que espectáculo! 
































