quinta-feira, março 26, 2026

Borges

    Uma história é contada e abre espaço a uma reflexão. Essa reflexão leva a uma outra história que por sua vez permite imaginar o que aconteceria caso a história anterior não tivesse aquele desfecho; se as coisas não tivessem assim acontecido o mundo seria muito diferente e o espectador seria outra pessoa, não a pessoa que imagina ser e está sentada aí, no seu preciso lugar.

    Estas histórias tão diversas formam uma narrativa única, mais ampla. São como espelhos que são como labirintos que são como uma imensa biblioteca frequentada por um único leitor. Um cego que se desloca com a ajuda da sua bengala. 

    A biblioteca é o mundo e todas as pessoas são personagens ficcionadas, são fantasmas, produtos de uma imaginação infinita. A vida de cada fantasma é um volume guardado na prateleira que lhe foi destinada e tudo está maravilhosamente organizado. Desde o início dos tempos até ao longínquo dia do esquecimento absoluto.

quarta-feira, março 25, 2026

Já foste!

     Já alguma vez tiveste a sensação de que pensaste uma coisa que decerto mais ninguém havia jamais imaginado? Já alguma vez tiveste o peito tão cheio de não-sei-quê que até parecia que eras a materialização da felicidade absoluta? Já alguma vez olhaste para algo que acabaste de fazer, algo que trouxeste de um outro mundo até este, e pensaste que era uma coisa mesmo muito muito fixe que merecia ser admirada, analisada e colocada no pedestal onde se acotovelam as obras-primas da Humanidade inteira? Já alguma vez sentiste de repente um arrepio na coluna vertebral porque te apercebeste de que afinal a tua ideia, a tua felicidade, a tua obra, tu próprio, não passam de falhanços, pequeníssimos rasgos no tecido infinito da Realidade? Que, se calhar, nada disto existe, tudo isto é triste, tudo isto é Fado?

    Caramba, isto é o que em linguagem futebolística se chama "uma entrada a pés juntos"! Um tipo vem lá de trás a correr feito maluco e, sem avisar, sem dizer àgua-vai, completa e absolutamente de surpresa, entra de carrinho e leva tudo à frente. Vai relva, vão botas, vão pernas e caneleiras, o adversário a voar pelo ar aos trambolhões. Catrapunfas! Já foste!

terça-feira, março 24, 2026

Guerra

     Ter a sensação de que tudo e cada coisa se encontra no lugar exacto, eis o princípio fundamental da felicidade. Ver as coisas encaixadas umas nas outras como se o tempo e o espaço formassem um continuum sobre o qual tudo é paz, harmonia e equilíbrio; beleza!

    Imagino que fosse isso o que me levava a ficar dias inteiros deitado no chão a imaginar universos habitados por bonequinhos de plástico enquanto os movia de um lado para o outro, falando por eles, falando com eles, amigos e inimigos que habitavam comigo aquele mundo em constante mutação e no qual eu era Deus, sem sombra para dúvidas. Naquele mundo tudo dependia de mim e eu encarregava-me de fazer com que tudo decorresse dentro da maior das naturalidades, sendo eu a expressão viva da Natureza.

    A memória não consegue ir buscar situações e enredos concretos das aventuras que vivi com os bonecos, recordo apenas uma vaga sensação de felicidade absoluta. Ter o "coração cheio", o corpo todo satisfeito e consciente, pertencer e possuir em simultâneo; é difícil explicar por palavras aquilo que ainda agora fui capaz de sentir, que me fez suspirar, aquilo que eu sei o que é mas não consigo passar com clareza para o teclado, para o ecrã, para ti, a menos que construa uma forma verbal confusa e periclitante, prestes a desabar a cada sílaba.

    Acho que já fui feliz em muitas ocasiões. Imagino que o número de vezes que ri até às lágrimas, as vezes que ri sinceramente a sentir o peito abrir-se para o mundo oferecendo aquilo que sou a quem possa ou queira ver, essas gargalhadas todas poderiam servir para fazer uma contabilidade da alegria que senti ao longo desta minha vida. E depois há a infância, essa espécie de Atlântida, Idade de Ouro, Tempo de Vinho e Rosas, Paraíso... eu sei lá, esse tempo, esse espaço, esse mundo esquecido o qual me oferece esta memória, agora vaga, da felicidade absoluta.

    Olho para a televisão. Vejo mas preferia não ver. Crianças assustadas tentam esconder-se numa folha de papel riscando sobre ela com vigor. O olhar concentrado não esconde a angústia que as rói por dentro. Têm no peito um bicho mau a incomodá-las, um mundo circundante que as ameaça, um céu que desaba constantemente sobre elas, um céu que cai e explode com a brutalidade dos monstros indestrutíveis, dos monstros totais e absolutos, um céu e uma terra que juntos formam a imagem da guerra. Uma guerra com crianças dentro é a coisa mais horrível que consigo imaginar.

    

domingo, março 22, 2026

Tédio

     Há dias assim, em que as coisas parecem não ter brilho. Há dias em puxamos o lustro às coisas mas elas teimam em permanecer baças. Dias assim podem ser uma chatice. Deus nos livre! Mas contra o tédio nem mesmo Deus pode grande coisa. Apesar da sua tão gabada omnipotência, o Criador também sucumbe ao tédio com bastante frequência. Ser pastor e olhar constantemente pelo rebanho... vai lá, vai! Estamos juntos, meu irmão.

    Um gajo tenta combater o tédio mas encontra algumas dificuldades difíceis de ultrapassar. A mais complicada talvez seja aquela que se prende com o facto de não sabermos exactamente com o que lidamos, quero dizer: o que é o tédio, como é ele, onde posso agarrá-lo para lhe torcer uma parte daquilo que o constitui (o nariz por exemplo, ou puxar-lhe os cabelos)? O tédio tem nariz? O tédio tem cabelos? Não sei se me estás a compreender, entediado leitor (ou leitora, não quero parecer algo que não sou).

    Talvez por não sabermos que formas pode o tédio tomar, a gente tenta várias remédios, mezinhas e tratamentos de choque que podem ir da leitura à música, da corrida à contemplação. Vale tudo no combate contra o tédio, alguma coisa haverá de se revelar eficaz.

    Esta plasticidade absoluta, esta identidade secreta, os rumores desencontrados sobre o aspecto, a forma ou as vontades que podem animar o tédio, aparentam-no ao Diabo, esse velho conhecido que também provoca a cada um de nós visões distintas do que é, de quem é, o que quer ou para onde vai. Ninguém sabe e, na verdade, ninguém quer realmente saber. Não existisse o Diabo e a vida correria o risco de vir a transformar-se num imenso e infindável tédio.

quarta-feira, março 18, 2026

Antes do Apocalipse

     Não há volta a dar-lhe, dançamos alegremente em direcção ao abismo. Dançamos como as ratazanas, dançamos como as crianças, o flautista é um fantasma tremendamente real. Vamos hipnotizados, conscientes do mal que nos arrasta de forma irresistível. Como drogados viciados, sabemos o que nos espera mas, mesmo assim, avançamos sem hesitação. Talvez tenhamos esperança que algo aconteça durante a queda que possa ainda resgatar-nos a um futuro de apagamento total.

    Entretanto temos uma vida para viver. Pequenas coisas para tratar, outras para resolver: um dente cariado, uma intimação da repartição de finanças, um cretino a quem temos de afiambrar um valente par de tabefes pelas trombas abaixo, coisinhas assim, o tal quotidiano delirante que não se compraz com o incerto futuro da Humanidade. Antes do Apocalipse tenho de aparar o bigode, lavar os dentes e deixar o despertador para as oito da manhã. Não pretendo chegar atrasado, muito menos pretendo chegar adiantado.

segunda-feira, março 16, 2026

A ampulheta e a clepsidra

     Até pode parecer que estou a ficar meio paranóico. Ou completamente! Pode parecer que estou a ficar meio xéxé e que não me lembro do que disse num post aqui plantado há poucos dias atrás. Pode parecer mas "nem tudo o que parece é" como diz o outro, o Povo. O Povo diz coisas.

    Isto porquê? Cá pra mim, se ainda estás a ler esta coisa não deves estar a perceber nada do que para aqui vou semeando. Mas, dizia, isto porquê? "Mas isto o quê?" pensas tu, desorientado leitor (ou leitora), já com a paciência a escorrer-te do cérebro. - Isto, isto de estar a ficar meio paranóico. - responderia eu, caso estivéssemos a conversar face to face. "Aaaaaah, hóquei..." suspiras tu, mortinho para que esta merda de conversa acabe ou para que, pelo menos, faça algum sentido.

    Pode parecer que estou a ficar meio paranóico pois esta manhã apercebi-me de que penso constantemente na morte embora não pondere com seriedade a possibilidade de vir a morrer dentro de pouco tempo. "E o que consideras tu como sendo pouco tempo?" - perguntas. E eu penso: "Rai's parta este leitor (ou leitora) que já começa a chatear!", e continuo, agora em voz alta - Sei lá. Tenho 63 anos, se viver mais 15, 20 anos, acho justo e, talvez, suficiente.

    E pronto, é um bocado isto. Nos últimos posts tenho reflectido um pouco sobre velhice e envelhecimento. Pelo menos por enquanto a coisa ainda não me deprime mas não tenho a certeza de ser capaz de manter toda esta fleuma durante muito mais tempo... lá está, é tudo uma questão de tempo!?

quinta-feira, março 12, 2026

Meia dúzia de anos

     As pessoas envelhecem muito. Um gajo está meia dúzia de anos sem ver um amigo e quando o reencontra, catrapunfas! Está ali um velho à nossa frente. Entretanto também nós envelhecemos (o amigo poderá estar a pensar exactamente a mesma coisa que nós, numa espécie de simetria mental absoluta) mas como nos olhamos ao espelho com frequência, assistimos ao lento trabalho da força da gravidade sobre os nossos corpos. Cada um de nós só é surpresa para os outros.

    Um gajo olha para o amigo, tão transformado ele está, um gajo pensa: que mudança extraordinária! Qual quê!? Na verdade não haverá muitas coisas tão ordinárias como o envelhecimento. O envelhecimento é da ordem do quotidiano de todas as coisas. Das pedras às formiguinhas, dos planetas aos carapaus, tudo envelhece constantemente. Não há nada que não esteja sujeito às leis do tempo (não do tempo dos relógios mas do outro tempo, o absoluto) e é assim.

    Um gajo está meia dúzia de anos sem ver um amigo e quando o reencontra tem muitas histórias para partilhar com ele. Talvez mais histórias antigas, daquelas que viveram juntos e agora recordam de maneiras diferentes, mais dessas histórias que de outras, novas, vividas separadamente. Seja lá o que for, aconteça o que acontecer, reencontrar um amigo passada meia dúzia de anos é sempre um acontecimento!

quarta-feira, março 11, 2026

Vacas mornas

     O que espera cada um de nós daqueles que nos representam e governam? Que sejam aquilo que neles projectámos, que sejam exactamente aquilo que imaginámos que iriam ser quando deixámos o papelinho a morrer na urna de voto? 

    Haverá aqueles que tentam corresponder ao que deles se espera (pobres diabos) e outros que, uma vez investidos dos poderes que lhes são conferidos pela Constituição, passam a pôr em prática o plano de usufruto do poder que haviam previamente elaborado. Não poderiam ser atitudes mais antagónicas. Duas faces da mesma moeda nunca cruzam o olhar, o que não é o caso, por isso a expressão aqui não se aplica.

    A meu ver há os políticos honestos (o que não significa que sejam bons políticos ou sequer eficazes) e os desonestos (o que não quer dizer que sejam ineficazes mas talvez queira dizer que não são bons políticos). Não há políticos mais ou menos honestos ou corruptos assim-assim. Nesta actividade a ambiguidade ética não é admissível, outros campos da acção humana admitirão alguma imaterialidade de carácter mas não a política.

    Voltando à vaca antes que arrefeça demasiado: António José Seguro é Presidente da República. O que espera dele cada um de nós? Uns não gostam do senhor por ser demasiado à direita, outros odeiam-no por ser socialista, por ser mosca-morta, por ter uma boca estranha, houve até que o apodasse de Tó-Zero. Mas ele lá está, a ser aquilo que é. Ser honesto não é excitante, como me parece ter sido sugerido por Cotrim de Figueiredo quando se tornou evidente que Seguro iria ser eleito? 

    Tantas perguntas, tantas perguntas, pareço uma criança a perguntar na idade dos porquês. Para não me ir embora demasiado depressa aqui deixo mais uma: vivemos um tempo de vacas mornas?

terça-feira, março 10, 2026

Tempos modernos

     Alarvidade e javardice: eis duas palavras mágicas desconhecidas dos adoradores de tiquetoques que, no entanto, definem o universo em que movem as suas mentes. Nota-se um ambiente cada vez mais agreste e menos limpo nos pátios da escola, uma coisa entre a barba por fazer e a mão suja por ter com ela limpado o rabo.

    Os putos crescem no meio da javardice e transformam-se em autênticos alarves. Não me lembro bem se, quando fui puto, as coisas aconteceram do mesmo modo. Não me lembro dos pormenores mas penso poder afirmar que a coisa também não era particularmente limpa. Talvez que crescer na porcaria faça parte da condição humana, o estrume alimenta as raízes das flores mais coloridas e faz as delícias dos escaravelhos mais reluzentes.

    O que nos choca talvez seja o facto de esta alarvidade não ser a nossa e de esta javardice nos parecer exagerada (por estarmos já um bocado velhotes), talvez a coisa não seja assim tão radical. Se pensarmos bem, o mundo que agora construímos e nos parece adequado, fruto do nosso labor, haveria de parecer extraordinariamente agressivo e peludo aos olhos nossos avós, um mundo repleto de alarvidades e muita javardice.

quinta-feira, março 05, 2026

Dizer o óbvio

     Ucrânia, Gaza, Irão. A guerra está por todo o lado. O Grande Imbecil queria o Prémio Nobel da Paz. Como não lho atribuíram amuou e desatou a provocar guerras em todo o lado embora se gabe de que trabalha para lhes pôr fim. Será apenas estúpido ou é absolutamente tolo? O Impostor Laranja não tem noção do que diz, do que faz, não sabe sequer quem é, o Impostor Laranja é um dejecto.

quarta-feira, fevereiro 25, 2026

Animal

     É inquestionável, o presidente dos EUA é um maluco a precisar de medicação urgente e, eventualmente, uma daquelas camisas cujos braços compridíssimos se atam atrás das costas. Um doido varrido!

    Quando era miúdo havia aquelas personagens, os sábios loucos ou os facínoras desalmados que sonhavam dominar o mundo. Eram normalmente representados com um ou outro atributo físico exagerado e uma gargalhada que disparavam ao menor sinal de sucesso nos seus propósitos alucinados. No fim perdiam sempre.

    Trump é uma dessas personagens. Mesmo o seu cabelo, os seus gestos, as danças que executa, a maneira como movimenta os lábios quando fala, fazem dele uma caricatura de um ser humano. É um velhaco. 

    O que surpreende verdadeiramente é a forma como o mundo tende a vergar a mola perante este palhaço mau. A verdade é que tipos como Saddam Hussein ou Kadafi também inspiravam terror e respeito e acabaram de forma triste e miserável. Como será o fim deste animal?

segunda-feira, fevereiro 23, 2026

Da pintura

     A arte de pintura é um Universo. Fazer e pensar, pensar e fazer, a ordem das parcelas não é aleatória, configura momentos muito diferentes, atitudes específicas e resultados que nunca ficam completos, antes se expandem para lá do imaginável; a arte da pintura é um Universo em expansão, como é de bom tom entre os membros da Confraria dos Universos.

    Nos dias que correm, a leitura de qualquer texto relacionado com pintura é capaz de me fazer reflectir sobre questões que me parecem excelentes. Seja a prosa de Francisco de Holanda ou um texto sobre pintura contemporânea, tudo me parece clarinho como água, o que não compreendo à primeira depressa me chega por via do raciocínio; sabe bem.

    Quando frequentei a Escola Superior de Belas-Artes estas leituras seriam mais ou menos como espetar agulhinhas nos olhos ou torcer a mioleira como se de um trapo encharcado se tratasse. A idade proporciona espantosas transformações ao ser humano.

quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Pessimismo

    Andamos tão perdidos! A questão é: alguma vez tivemos um objectivo concreto que compreendêssemos e perseguissemos conscientemente? Continuo a acordar de manhã obrigando-me a pensar de vez em quando no sentido da vida. Continuo a pensar (quando penso, obrigado por mim próprio a pensar) que o sentido da vida é deixar um mundo melhor aos que virão depois de mim.

    Por estas e por outras, por vezes compreendo que o melhor é não pensar. Quero dizer, melhor, melhor, talvez não seja, talvez devesse dizer "o mais cómodo"; o mais cómodo é não pensar. Deixar que alguém pense por nós, deixar que alguém actue em nosso nome, alguém que faça merda. Assim, depois, poderemos culpar esse alguém pelo fracasso, poderemos barafustar, gritar, cuspir na porcaria que nos é oferecida. E tudo fica na mesma ou um pouco pior do que estava.

    Talvez não andemos perdidos. Talvez não andemos, de todo. Talvez estejamos parados; com sorte estamos apenas parados, à espera que aconteça alguma coisa que não seja uma desgraça. Com azar estamos a cair desamparados. Até batermos no fundo.

terça-feira, fevereiro 17, 2026

Menu

     O mundo é uma coisa muito traiçoeira, ora parece fixe, ora parece insuportável; ora docinho, ora avinagrado como vinho deixado ao léu. Vá-se lá saber o aspecto que o mundo vai ter amanhã ou depois. Não se pode confiar nesta coisa, esta bola a rodar no vazio, a rodar sobre si própria enquanto lhe durar a corda. Se ao menos fosse uma coisa estável, estática e plana!

    As pessoas precisam de quem lhes indique o sentido correcto, quem lhes mostre o caminho iluminado nas bermas por leds bem potentes, daqueles capazes de deixar a escuridão intimidada. 

    Uma pessoa isolada à procura da estrada que deverá trilhar é presa fácil para o lobo do desejo, para a hiena do vício ou o escorpião da loucura. É ir logo buscá-lo, trazê-lo para junto de nós, os simples e puros, os escolhidos por Deus. Bem-vindo irmão, estávamos mesmo à tua espera para podermos jantar. És o prato principal.

segunda-feira, fevereiro 16, 2026

Internacional Religiosa

     Não me parece grande ideia fechar a Deus as portas deste mundo. Deixa-se muita gente órfã a precisar de um pai que a oriente, muita ovelha a balir perdida a vaguear pelos baldios da vida. Sem Deus há multidões frágeis como cristal à beira de caírem das alturas e muito filho-da-puta à coca, muita hiena a vaguear na mamuja das sobras que os grandes cabrões, os verdadeiramente poderosos, possam deixar espalhadas pelo chão.

    Cá pra mim o ideal seria encontrarmos maneira de formar uma Internacional Religiosa. Encontrar em cada religião uma elite que acredite realmente em Deus e reunir essas elites num espaço em que pudessem maravilhar-se com as possibilidades da Sua existência. Decerto seriam capazes de construir uma via global atapetada com solidariedade e boa vontade pois é disso que a maior parte dos Deuses advogam... ou não?

domingo, fevereiro 15, 2026

Idoso

     Fui verificar o conceito de idoso e encontrei isto: Segundo a Organização Mundial da Saúde, idoso é todo o indivíduo com 60 anos ou mais. Fiquei chocado! Eu tenho 63 anos!!! Passei a fronteira da idade adulta para "a cair da tripeça" sem sequer me aperceber do que me ia acontecendo. Sou idoso há 3 anos e não sabia. Estou destroçado.

    Quando o meu pai faleceu devia ter suspeitado que a coisa estava para se dar. Mas não pensei no assunto. Ver a minha filha com 32 anos devia ter feito soar algum tipo de campainha interna... mas nada. Ter cada vez menos cabelo ao ponto de ser bem mais careca do que cabeludo, ter o cabelo e a barba a embranquecer todos os dias poderiam ter sido indícios valiosos para que fizesse uma revisão do que sou (não de quem sou). Não o fiz, deixei andar.

    Agora sei que sou um idoso. Pronto, estou informado. 

sexta-feira, fevereiro 13, 2026

Mais velho

     Actualmente cumprimentamos: bom dia! Ou então dizemos: boa tarde, ou boa noite. Depende. Vamos pela positiva, aproximamo-nos de quem não conhecemos com palavras cautelosas mas de bom tom. Somos assim educados, os mais velhos ensinam-nos a ser assim, parece-nos correcto. Quando alguém nos fala devemos manter silêncio, ouvir o que é dito, esperar a nossa vez e retrucar, se for caso disso, ou concordar, seja lá o que for, aconteça o que acontecer, somos incentivados a comunicar, a olhar nos olhos.

    Espero que estes princípios simples se mantenham, pelo menos durante mais algum tempo. Por vezes penso se não estamos às portas de um tempo de "pontapé-na-cona". Os mais velhos são demasiadas vezes considerados empecilhos e a sua forma de ver o mundo, a mensagem que têm para nós, é desvalorizada por não saberem mexer em meia-dúzia de coisitas electrónicas ou artificiais ou lá como se designam esses "gadgets" que enformam o nosso quotidiano delirante. Substitui-se a capacidade de pensar pela capacidade de mexer.

    Apercebo-me de que sou já um dos "mais velhos". Ainda não tinha pensado nisso. 

quinta-feira, fevereiro 12, 2026

IA, man

     Não será pela Inteligência Artificial que os nossos estudantes vão perder o interesse pelo conhecimento. Estou convencido que o que vai tolhendo os jovens espíritos é o excesso de informação. O acesso permanente a fontes de informação (ou a sua possibilidade) funciona como um anestésico da curiosidade. A IA apenas sintetiza, mastiga e regurgita informação que recolhe e processa a uma velocidade diabólica, não é nada de extraordinário em termos de produção de conhecimento, o que é surpreendente (e eventualmente viciante) é a velocidade com que a operação é executada.

    O problema, quanto a mim, é que a curiosidade intelectual está abananada com tanta informação a cruzar os horizontes do conhecimento em linhas rectas que se autodesenham a uma velocidade estonteante, criando uma teia que vai obliterando as nuvens, cujas formas convidam ao sonho e à imaginação. Estou a perder-me em metáforas complicadas quando aquilo que quero dizer é de uma simplicidade absoluta: a IA sufoca a curiosidade intelectual e tende a estupidificar os seus utilizadores. Cabe aos professores e à escola a função de manter a curiosidade intelectual viva e actuante, procurando estratagemas capazes de convencer os jovens a não vegetalizarem. 

    Se a IA for um meio e não um fim, teremos à nossa disposição mais uma ferramenta poderosa capaz de potenciar as nossas capacidades intelectuais. Se nos entregarmos à IA sem espírito crítico e sem curiosidade seremos a breve trecho uma imenso batatal, pasto (ainda mais) fácil para qualquer glutão capitalista.

Mudança de tempo, mudança de vontade

     É um sufoco, uma luta, uma batalha, andamos todos à batatada pela supremacia de uma qualquer ideia que de súbito nos assalta a mioleira, vinda sabe Deus de onde. E grunhimos, rilhamos a dentuça, carregamos na sobrancelha, espetamos o dedo, levantamos a voz numa estridência digna de um tribuno romano; dos sisudos. Com a mão livre seguramos a toga.

    Eu tenho razão, o senhor é um estúpido, quando muito posso conceder que seja apenas imbecil. Os seus argumentos são merda de vaca e o seu discurso cacarejo de galinha. Simplesmente não tem capacidade para compreender os meros fundamentos daquilo que lhe digo; não passa de um ignorante, um pobre de espírito. Ao menos isso, talvez o facto de ser um simplório lhe possa abrir as portas do céu (as portas, que os portões só se abrem para almas de gente que tenha sido importante).

    É tão fácil imaginar insultos. Dizê-los na cara de um interlocutor não é tão imediato como registá-los anonimamente nas redes sociais ou nas caixas de comentários de publicações online. Mas, com algum treino, também se lá chega. Estaremos em vias de substituir a urbanidade pela grosseria, enquanto modo preferencial de contactar com o outro?

quarta-feira, fevereiro 11, 2026

Coisas do diabo

     Este mundo sempre foi pasto de aparências e mentiras. As ilusões sempre engordaram tendo por alimento a credulidade humana mas, temo bem, nunca incharam tanto como incham nos dias que correm e, tudo indica, incharão de forma descontrolada à medida que a Inteligência Artificial for crescendo e substituindo a outra inteligência: a nossa.

    Falta saber se este crescimento, esta ampliação, este incremento, esta medrança da mentira travestida, falta saber se esta coisa tem limite, se a mentira é como o sapo que fuma e, no fim, rebenta numa nuvem fedorenta.

    Já a Bíblia adverte para a capacidade de aliciamento que o diabo possui chegando mesmo Jesus a identificá-lo como "pai da mentira". Falta saber quem é a mãe que, cá na minha opinião, é a mente humana. Assim, a mentira resultaria de uma frenética fornicação do juízo humano por parte de um Lúcifer meio louco de ciúme por si próprio. Resumindo: a mentira surge sempre que o diabo nos fode o juízo. 

    Como se depreende, a mentira não precisa de um motivo mas pode ser premeditada, não precisa de um objectivo específico mas serve bem como arma de arremesso, enfim, a plasticidade da coisa é, de facto, algo com uma dimensão diabólica. 

    Esta pouco subtil reflexão dá a volta e regressa perto do ponto de partida: se a IA se alimenta da credulidade humana e serve tantas vezes ao inchaço da mentira, então a IA é (mais) uma invenção do diabo? Olha, boa pergunta! Responda quem sabe que eu não tenho nada a ver com isto. Talvez seja esta a tal Grande Substituição que certos palonços advogam, a substituição da Inteligência Humana pela artificial...