quinta-feira, março 12, 2026

Meia dúzia de anos

     As pessoas envelhecem muito. Um gajo está meia dúzia de anos sem ver um amigo e quando o reencontra, catrapunfas! Está ali um velho à nossa frente. Entretanto também nós envelhecemos (o amigo poderá estar a pensar exactamente a mesma coisa que nós, numa espécie de simetria mental absoluta) mas como nos olhamos ao espelho com frequência, assistimos ao lento trabalho da força da gravidade sobre os nossos corpos. Cada um de nós só é surpresa para os outros.

    Um gajo olha para o amigo, tão transformado ele está, um gajo pensa: que mudança extraordinária! Qual quê!? Na verdade não haverá muitas coisas tão ordinárias como o envelhecimento. O envelhecimento é da ordem do quotidiano de todas as coisas. Das pedras às formiguinhas, dos planetas aos carapaus, tudo envelhece constantemente. Não há nada que não esteja sujeito às leis do tempo (não do tempo dos relógios mas do outro tempo, o absoluto) e é assim.

    Um gajo está meia dúzia de anos sem ver um amigo e quando o reencontra tem muitas histórias para partilhar com ele. Talvez mais histórias antigas, daquelas que viveram juntos e agora recordam de maneiras diferentes, mais dessas histórias que de outras, novas, vividas separadamente. Seja lá o que for, aconteça o que acontecer, reencontrar um amigo passada meia dúzia de anos é sempre um acontecimento!

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