quarta-feira, janeiro 26, 2022

Tocar como Midas

     O tão celebrado "toque de Midas" mostra bem a estupidez que reina sobre os nossos destinos. A maravilhosa capacidade de transformar em ouro tudo aquilo que a mão toque é, na verdade, uma tremenda maldição para quem a possua. O "toque de Midas" é uma sentença de morte para o seu portador e um risco terrível para quem dele se aproximar. Comer ouro não é possível, conviver com estátuas de ouro um infinito aborrecimento. O "toque de Midas" é um toque mortal.

    O próprio Midas implorou aos deuses que o livrassem daquela maldição mas a nossa sociedade continua a valorizar o dito toque. Somos burros? Sim, somos. Muito burros mesmo. Perante o brilho do ouro tendemos a ficar embrutecidos, a ganância devora-nos a razão. 

    A moral deste mito poderá estar relacionada com a voracidade infinita dos poderosos e a sua infinita capacidade para querer mais e nunca se darem por satisfeitos, mesmo que detenham uma fortuna impossível de quantificar. O mundo está cheio de reis Midas cujo toque transforma as vidas de milhões de pessoas em calvários de miséria.

    Midas não transforma em ouro tudo o que toca. Midas transforma tudo numa mistela de merda, dor e miséria. Este é o verdadeiro dom dos que tocam como Midas.

sexta-feira, janeiro 21, 2022

Amanhã

     Organizar o tempo que há-de vir é tarefa para atenuar as dores causadas pelo presente que se vive. Se o dia de hoje se apresenta pouco prometedor podemos sempre pensar no dia de amanhã, imaginar o mês que vem, apontar no calendário, rabiscar na agenda, esboçar o futuro é calmante.

    O facto de podermos desaparecer pelo caminho nem sequer nos ocorre. Planear o futuro confere-nos um levíssimo perfume de imortalidade, uma garantia de que haverá tempo para lá da noite que se avizinha. E algo para preencher esse devir.

    Como diz a canção dos Ornatos Violeta: "ouvi dizer que o mundo acaba amanhã e eu tinha tantos planos pra depois..."

segunda-feira, janeiro 17, 2022

Imaginação ruminante

    

Saudade morta; técnica mista, tamanho A3; Janeiro de 2022

    A coisa nem sempre é fácil, por vezes é mesmo bastante difícil. Partir para cima de uma narrativa visual sem qualquer plano pré-determinado poderá parecer uma insensatez. Na verdade não é. Na verdade isso faz parte de um processo. Chamo-lhe "hibridização anárquica" e expliquei-o aí atrás num post qualquer (fui procurar e encontrei esse tal post no dia 30 de Julho de 2009!). Releio o texto e fico satisfeito. Parece-me que o processo fica bem explicado.

    Entretanto passaram 12 anos e picos sobre o texto referido e continuo a produzir imagens seguindo o mesmíssimo processo. Criar imagens sem pretexto é uma actividade que me apaixona. Normalmente sou uma pessoa pouco aventureira, gosto de ficar por casa, sou um tipo dado a confinamentos. Se não tiver outras  metas a atingir posso fazer 2 ou três desenhos num dia... ou não fazer nenhum ("ai que prazer não cumprir um dever, ter um livro pra ler e não o fazer").

Diversos títulos; à esquerda a matriz criada segundo o processo de hibridização anárquica em tamanho A3, os outros 2 desenhos são em suporte de papel com 50X65 cm, o do centro a canetas de gel, o da direita com tinta da China.

  Os produtos deste processo anárquico acabam por estar na origem de trabalhos muito mais ordenados, feitos a partir de projecções de fotos que tiro aos ditos desenhos selvagens. Aí a questão coloca-se muito mais ao nível da técnica. Algumas coisas podem ser alteradas (normalmente há alterações) outras acrescentadas. É uma anarquia mais suave.

    Tudo isto é fruto de uma sensibilidade sem freio, deixada a pastar nos prados imensos da imaginação. Uma sensibilidade ruminante e pascácia que me faz pensar sobre a vida intelectual das vacas e das ovelhas. Serão animais assim tão desinteressantes?

domingo, janeiro 16, 2022

Incapacidade

     Por vezes sinto a falta de Fé. Se bem me lembro houve um tempo em tive Fé, penso que em Deus. Hoje não tenho Fé nenhuma, pelo menos nada que possa perceber dentro de mim. Talvez por ser algo que perdi há tanto tempo não lhe sinto grandemente a falta, nem me sinto órfão por não conhecer Aquele que é, em princípio, o meu Deus. Diz o povo que "quem não sabe é como quem não vê".

    Imagino que a minha falta de Fé seja responsável pelo pouco crédito que dou aos que batem no peito durante a missa, que vejo como gorilas em busca de consolo para a sua bestialidade. Quero crer que alguns desses desgraçadinhos instantâneos sejam sinceros e acreditem, de facto, naquele ritual. Também me custa muito imaginar um Deus burocrata, de livrinho em punho, registando o deve-e-haver dos nossos pecados.

    Bem que gostava de ter Fé em Deus, a sério que gostava. Mas não sou capaz.

quarta-feira, janeiro 12, 2022

Eternidade

     É duvidosa a qualidade daquilo que nos é oferecido embrulhado em papel rasqueiro, com o laçarote abatido e as cores comidas pela luz do sol. Pelo embrulho não há ali grande promessa. Um a um vamos evitando deitar-lhe a mão, ninguém quer desfazer o laçarote. Uns assobiam para o ar, outros distraem-se com uma mosca que passa. Mas a coisa está ali. Misteriosa, escondida no meio da sala à vista de toda a gente. Indesejada...?

    Sentado de costas para o embrulho tento desesperadamente alhear-me dele. Mas é complicado. Sinto passos atrás de mim. Será que é agora que vai ser aberto? E se for aberto, o que estará lá dentro? Transpiro um pouco. Não há qualquer som que se assemelhe ao rasgar do papel. Sapatos na alcatifa, peidos nas calças, arrotos nas gargantas... pouco mais.

    Se o  embrulho fosse bonito, se a coisa tivesse um aspecto apetitoso, decerto já alguém haveria reclamado a sua posse. Sinto um impulso. Sinto que não virá mal ao mundo se me levantar dando meia volta, encarando o pacote, avançando para ele. Sinto que poderei rasgar o papel, abrir o embrulho e apoderar-me do que quer que ele contenha. Em princípio, caso o conteúdo seja insuportavelmente repulsivo, poderei sempre rejeitá-lo. Mas, tal como veio assim se foi o impulso.

    Olho de soslaio dois ou três figurões que me estão próximos. Eles olham-me do mesmo modo furtivo. Estamos nisto vai para uma eternidade.

domingo, janeiro 09, 2022

Ambições

     Estando o ano no seu início um gajo tem um ou outro momento de paragem em que lhe dá pra pensar. Pensar na vida, talvez, ou pensar numa coisa qualquer (que acaba sempre por ter a ver com a vida, caso contrário um gajo estaria a ter pensamentos de pessoa morta). Então foi aí que pensei: "sou um artista, ou lá o que sou... um pintor!" pensei um bocadinho melhor no que faço para viver e reformulei: "aquilo não são bem pinturas e eu, bem vistas as coisas, não sou bem um pintor". Pois não.

     Nem pinturas, nem pintor. Desenhos e professor e será tudo muito mais justo, como uns slips no lugar de uns boxers. Pode alguém ser quem não é? Pergunta o Sérgio Godinho. Ser, ser, acho que não, mas pode parecer (que muitas vezes é ainda melhor do que ser), respondo eu, que estou a matutar no Sentido da Vida a ver se descubro alguma promessa de Ano Novo que seja coisa que me não envergonhe. Mas não sai nada. Estou com prisão de mente.

    A páginas tantas já me sinto enfastiado de estar a fingir que sou capaz de me interessar pelo futuro. Não sou. Nem sequer sou capaz de ser ambicioso. Digo eu. Um copito de tinto e uma bela fatia de presunto já me deixariam sorridente. Isso e o meu pai bem disposto, a minha filha sempre jovem e a minha esposa sempre linda e jovial. Ah, caraças, afinal sou muitíssimo ambicioso!!!

sábado, janeiro 08, 2022

Palestrando

     O homem mantinha-se vertical, aparentando uma solidez invejável. Os seus braços desenhavam suaves arabescos e a voz, profunda como o eco de um poço, produzia um efeito hipnótico arrebatador. Na sala todos se sentiam maravilhados. Todos, excepto o homem que se mantinha vertical e desenhava com os braços suaves arabescos.

     As pessoas sentadas em filas de cadeiras perfeitamente alinhadas apresentavam excêntricas deformidades: tentáculos, guelras arquejantes, olhares desorbitados, dentuças amarelentas, beiços salivantes. O homem produzia um esforço sobre-humano para manter a compostura, não perder o fio narrativo, conseguir falar, não gritar, não fugir, não matar.

    A palestra durou exactamente uma hora, conforme o previsto. Quando terminou, o palestrante, ouviu os aplausos e ficou surpreendido por ver que todos os presentes tinham um par de mãos que batiam com maior ou menor entusiasmo. Uma senhora vestida com extraordinário bom gosto sorriu-lhe de uma forma especial. Ele sorriu de volta.

segunda-feira, janeiro 03, 2022

Virar páginas

     Começa um ano novo e toda a gente desata a virar páginas. Imagino que as virem no sentido do fim da narrativa que estão a seguir, sim, porque podemos virar páginas voltando para trás. Da parte que me toca prefiro conceber a minha história numa única página. Uma página grande, imensa, toda riscada com um diagrama caótico e confuso, repleta de pequenos textos, desenhinhos, setas para cima e para baixo, espirais ascendentes, manchas indefinidas, eu sei lá, uma página que seja um mundo, o meu mundo.

    Há dentro de mim discretos desejos que espreitam por detrás de vícios antigos, outros tentam não incomodar os meus sólidos e gordos preconceitos. Sinto o sopro de ténues possibilidades de mudança que, bem vistas as coisas, não dependem tanto da passagem do ano, antes vão brotando de uma passagem do tempo mais vasta, indiferentes às páginas do calendário, agarradas aos ponteiros de relógios  pendurados nas paredes da minha imaginação.

    Se a minha imaginação tem paredes é bom que lhes abra amplas janelas.

    E pronto: cada dia uma página virada, cada promessa uma página a virar, cada mentira uma página rasgada. Imaginamos a nossa vida como se fosse um livro. Quando os livros desaparecerem por completo as vidas dos nossos descendentes serão muito diferentes. Decerto não haverá virar de página no final de cada ano, talvez nem haja nada para ser virado, talvez tudo se organize numa linha recta infinita, como a Recta dos Números. Ou talvez não.

sexta-feira, dezembro 31, 2021

Bom 2022

     O ano acaba mais ou menos como começou. O céu está azul, a natureza mantém-se alheia. No lugar onde estou o silêncio é entrecortado por latidos de cães distantes. Agora até os cães se calaram. Gostava que esta calma se estendesse no tempo.

    Bom 2022.

terça-feira, dezembro 28, 2021

Dúvida

     Um gajo tenta ignorar a morte, fazer de contas que ela não existe, mas o fracasso é total. Quando a morte chega faz os seus estragos e volta e desaparecer, como se não fosse nada com ela. Ficamos tristes, limpamos os despojos, reorganizamos a vida e, com a proverbial ajuda do tempo, regressamos à linha narrativa da nossa existência enquanto aguardamos a nossa vez.

    Sei que escrevi algures, aí para trás, num ou dois ou mais posts, que viver é entreter a morte. Tenho uma forte percepção de que isto faz sentido. E morrer!? O que será morrer? Temos uma visão parcial da coisa, observamo-la deste lado, do lado da vida, como poderemos sequer imaginar o que se passa quando exalamos o último suspiro?

    Poupo-te à descrição das várias possibilidades que me ocorrem. Imaginar o que acontece depois da morte é um pouco mais complicado do que tentar perceber por que razão os nossos antepassados pintavam paredes de cavernas (outra tarefa à beira do absolutamente impossível). No entanto, a imaginação permite-nos lançar hipóteses, podemos até adivinhar! Nunca o saberemos.

domingo, dezembro 26, 2021

Lugar comum

     Uns falam de paz e vão preparando as coisas para fazerem a guerra. Outros postulam a solidariedade e praticam a mais vil avareza. Outros ainda batem no peito e juram amor a Deus mas nada nas suas vidas justifica outra coisa que não seja a profundeza do inferno. Palavras, discursos: tretas! 

    Sabemos bem que "palavras leva-as o vento" mas não conseguimos resistir ao perfume de um discurso enganoso; sabemos bem que "quem vê caras não vê corações" mas babamo-nos perante a imagem bonita de um líder qualquer, mesmo sabendo que se trata de alguém cujas qualidades se ficam pela fotografia. Sorrimos com condescendência perante estes ditados populares (são tão pueris, tão básicos!) mas não aprendemos nada com eles.

    Este mundo é um lugar comum.

terça-feira, dezembro 21, 2021

A palavra infecciosa

     Hoje fiz mais um teste e voltei a chumbar na questão da infecção por Covid. Como diz a minha filha, este é um teste no qual todos preferimos chumbar, ficamos felizes com a reprovação. A minha dúvida é se alguma vez virei a acusar positivo para o vírus e como reagirei caso aconteça.

    Amanhã poderei viajar um pouco mais descansado para passar o Natal com a família. Todos reprovámos no teste! 

    As autoridades pensam em reforçar as medidas de prevenção (ou serão medidas restritivas)? As palavras pesam nos nossos ouvidos e nos nossos cérebros. Uma coisa é prevenir outra será restringir. Uma coisa é aconselhar outra, muito diferente, é proibir. Nunca a comunicação foi matéria tão sensível no nosso quotidiano. A forma como as coisas são ditas pode significar a sua aceitação ou a reprovação absoluta. 

    Toda e qualquer afirmação dispara nas redes sociais com a probabilidade de tornar-se viral, disseminando-se muito mais rapidamente do que qualquer variante da Covid. precisamos de estar avisados, ter a mente vacinada contra a mentira e a estupidez. Falta inventar essa vacina e, mesmo que seja inventada, duvido que haja alguma força económica capaz de investir no seu desenvolvimento e posterior produção.

segunda-feira, dezembro 20, 2021

Factos avulsos

     Fomos nós quem inventou uma rotina para o planeta ou ela existiria mesmo que o habitassem apenas quadrúpedes mais ou menos estúpidos, bípedes ranhosos e cobertos de pústulas, mais uns quantos cardumes de peixes inteligentes? O calendário varia de cultura para cultura. O facto de estarmos à beira do Natal não é igual para toda a gente, nem sequer o Dia de Ano Novo. Biliões de cabeças, umas centenas de sentenças.

    A verdade é que o movimento de rotação mais o de translação não páram, fazem do planeta uma coisa tonta de tanto rodar sobre si, qual dervixe alucinado com pulmões infinitos. O facto de não sentirmos essa vertigem, de não sentirmos a rotação do planeta debaixo dos nossos pés, decerto servirá de prova que o planeta está estático para os que acreditam que vivemos sentados num imenso prato (não sei se de sopa).

    Fazer uma interpretação literal da leitura da Bíblia é das coisas mais divertidas que podemos imaginar. Acreditar que a Bíblia é uma espécie de documento histórico explicativo da nossa espécie e do Universo... bom, isso continua a ser divertido mas, se calhar, dói um bocadinho. O facto é que há milhões de cristãos que engolem aquilo tudo sem sequer precisarem de olear a gorja. É preciso ter muita fé e pouco conhecimento.

    Chegamos ao fim deste textozito com 3 factos indesmentíveis: 1 - o Natal é quando um homem quiser; 2 - o planeta roda e nós rodamos com ele; 3 - benditos os pobres de espírito pois é deles o reino dos céus.

domingo, dezembro 19, 2021

Histórias com galinhas

     O desespero está para o crime como o ovo está para a galinha. É pouco inteligente tentar imaginar o que sente um sociopata a menos que sejamos, também nós, maluquinhos a querer esfodaçar tudo e todos sem dó nem piedade. Não passa pela cabeça de ninguém tentar imaginar o dilema do ovo e da galinha segundo a perspectiva da ave. Como pensará uma galinha?

    Quando um sociopata é apanhado com a boca na botija e metido dentro ficamos todos contentes; menos um filho da puta a andar na rua, sentimo-nos um pouco mais seguros. Mas se repararmos nos líderes mundiais, se nos fixarmos nas cabeças acima das gravatas, nos olhares abaixo dos penteados, vamos descobrir muito sociopata a decidir o futuro dos povos, raposas a guardar os galinheiros!

    As galinhas têm um problema terrível: apesar das asas não conseguem voar. Quando muito conseguem cair com estilo. Muitos galinheiros nem tecto têm por não serem necessários caso o objectivo seja impedir a fuga das galinhas. Ser galinha faz-nos pensar: para que serve ter asas se não pudermos voar?

sábado, dezembro 18, 2021

Sonho de Natal

     Há de novo um certo tom catastrofista na forma como são lidas as notícias nos telejornais.Os pivots lêem os números de novos infectados, internados, acamados, entubados e falecidos e eu ouço: "Ai, Jesus!" ou "Valha-nos Deus!" ou "Vamos todos morrer!" ou "É o bicho, é o bicho, vai-te devorar...", depende do canal e do tom de voz que vai debitando a desgraça como quem serve chocolatinho quente. 

    Parece-me que a ideia é voltar a enfiar o pessoalzinho todo dentro de casa sem ter de decretar confinamento obrigatório. Com o friozinho que se vai instalando até nem é tão má ideia quanto isso mas, sabemos bem, ninguém gosta de ser pressionado, muito menos obrigado a agir desta forma ou daquela. Gostamos de nos sentir livres, Senhores do Destino. Afinal de contas fomos criados à imagem e semelhança de Deus, Nosso Senhor. É legítimo.

        Suspeita-se que a nova variante do bicho, a Omícron, seja mais infecciosa mas menos violenta na forma como nos escangalha por dentro. Ainda faltam dados científicos que sustentem esta perspectiva. Seria interessante que o bicho estivesse a adaptar-se à coexistência com a nossa espécie, oferecendo-nos esta meia trégua mal amanhada do tipo: não vos faço sofrer tanto e vocês deixam-me em paz. Era tão bom se nos pudéssemos sentar a uma mesa com os representantes do vírus e ter uma conversa construtiva sobre o assunto!

sexta-feira, dezembro 17, 2021

Alegoria alegórica

     A fachada estava repleta daqueles caixotes de ar condicionado. Trepavam rumo ao telhado evitando as janelas num estranho bailado estático, todo feito de rectângulos e paralelepípedos, excrescências, saliências e reentrâncias, uma coisa deveras feia de ser vista. Sentado na sua cadeira, voltado para a janela, não tinha maneira de evitar a fachada do prédio em frente a menos que fechasse os olhos, gesto inconveniente na sua actividade de assalariado numa empresa de segurança. Olhos abertos, sinal de profissionalismo.

    Sobre a mesa restavam apenas os seus braços, as suas mãos e o tédio profundo que confundia diariamente com tristeza. As pessoas entravam e saíam sem dar por ele. Se fosse uma estátua produziria, decerto, um efeito semelhante sobre aquela gente apressada e distraída. Ele estava ali mas era como se não existisse.

    O tempo passou, passou e voltou a passar. Nunca acontecia nada digno de nota. Os caixotes continuavam a trepar a fachada agora mais suja, como peças de um Jogo da Glória, as pessoas passavam-lhe à frente como fantasmas, como sombras, como imagens projectadas. Sentiu-se como uma alegoria da Alegoria da Caverna. Até que se convenceu de que não existia.

    Deixou de trabalhar, não há registo dele no Desemprego, o quarto que habitava está para arrendar.

quarta-feira, dezembro 15, 2021

Desamor

     Um gajo faz testes procurando um vírus dentro do corpo. Enfiam-te uma zaragatoa no nariz, uma vez, outra, já está!. Depois vais à tua vida sabendo que mais cedo ou mais tarde (normalmente mais cedo que tarde) irás receber o resultado por SMS ou por email, tanto faz. A coisa começa a tornar-se rotineira. Até agora não recebi notícia de que seja albergue do bicho. 

    "Não detectável", disse o resultado (os resultados também falam!). Num dos vários rodapés, o resultado informa-te que o vírus não ser detectado não significa que não anda dentro de ti à procura de alojamento. Tudo bem, é o "novo normal", ser testado regularmente para poder ir a um concerto, a um jogo de futebol, para poder visitar familiares acamados... zaragatoas na penca, é o que está a dar.

    Sinceramente, quando faço o teste aguardo o resultado com a maior das calmas, ainda não me ocorreu verdadeiramente a possibilidade de estar infectado. Não por ter sido vacinado ou por usar máscara em todas as situações em que tal é aconselhado ou por desinfectar as mãos com frequência, sendo ainda capaz de as lavar a seguir. Não é por nada disso. Apenas não me passa pela cabeça.

    Esta sensação tem qualquer coisa de espírito adolescente: aquela coisa da imortalidade ou lá o que é. Não é que me sinta imortal mas tenho a impressão de que o bicho não morre de amores por mim. Oxalá!

    

domingo, dezembro 12, 2021

Tempos modernos

     O mundo virtual é uma alucinação. A afirmação anterior talvez seja exagerada para pessoas como eu ou, eventualmente, para pessoas como tu, gentilíssimo leitor. É uma afirmação que decorre do facto de ter estado com um grupo de alunos de alunos de 13/14 anos durante 45 minutos numa sala de aula onde o meu único objectivo era o de evitar que eles saíssem porta fora e pouco mais. Tratava-se de uma aula de substituição de uma colega que faltara e fui para a sala munido apenas da minha proverbial boa vontade e da experiência acumulada ao longo de algumas décadas a lidar com grupos deste género.

    Aquilo que há alguns anos atrás seria como uma descida aos infernos tornou-se, nos dias que correm, um passeio pelo Jardim das Delícias. Todos os alunos tinham à sua frente um telemóvel e rapidamente mergulharam nos ecrans passando a surfar suavemente ondas de informação. Fui falando com um ou outro sobre aquilo que lhes captava a atenção. Entre jogos, Instagram e Tik Tok, havia algo de comum a todos eles: a sucessão meio alucinada de imagens contidas em narrativas de duração extremamente curtas.

    Fiquei a saber que, no Tik Tok, um vídeo não pode exceder os 3 minutos e que, os que atingem esse limite, são uma enorme seca. Que nas Insta Stories as imagens são exibidas durante 5 segundos e os vídeos não ultrapassam os 15, sendo que, após 24 horas, tudo é dissolvido no éter virtual perdendo-se para todo o sempre. Quem viu, viu, quem não viu e gostava de ver, tivesse visto. Também os jogos vivem da imagem em movimento contínuo, da variedade de pontos de vista e do resultado imediato. Não há narrativas que se prolonguem muito para lá da seca que é uma "longa metragem" no Tik Tok.

    Este universo narrativo aliado ao da publicidade e ao dos vídeo clips constituem uma frenética cosmogonia paradoxalmente simples. É por aqui que deambulam os cérebros dos nossos alunos. Ora, uma aula ministrada por um professor, com uma duração mínima de 45 minutos recorrendo frequentemente a processos comunicacionais pré-informáticos, ganha contornos de tortura insuportável e, pior ainda, tão desinteressante quanto incompreensível. Precisamos de olhar para o mastodonte dentro da sala.

    Alguma coisa terá de mudar e mudar radicalmente se pretendermos manter algum contacto com a criançada. 

segunda-feira, dezembro 06, 2021

À beira-rio

     Todos os anos sinto algo diferente quando se aproxima o Natal. Desta vez estou a ser suavemente assaltado por uma espécie de nostalgia pela vida. Como? Nostalgia pela vida? Isso faz algum sentido!? Não sei, não me parece que faça grande sentido mas as coisas que sentimos não precisam de fazer sentido, pois não?

    Cheguei mesmo a consultar o dicionário. Nostalgia pela vida é, de facto, algo forçado, mais do campo da poesia que do espaço real, mais do campo da invenção que do verdadeiro. Mas a fronteira entre o real e o imaginado, entre o inventado e o verdadeiro, é, como no espaço geográfico, uma linha virtual, uma fria abstracção. As fronteiras não existem de facto.

    Este Natal não promete grandes coisas, talvez prometa pequenas coisas, não estou seguro. Aliás, este é um dos pequenos mistérios que me vão empoeirando o cérebro: à medida que o tempo passa sinto cada vez menos segurança em relação aos factos da vida, como se tudo fosse cada vez mais relativo e menos concreto. É o encurtamento inexorável do tempo de vida que produz esta liquefação do espaço? É a proximidade da morte que transforma o ar que respiro num imenso Estige? Apuro o olhar, fixo a neblina, parece-me ver uma mancha que avança na minha direcção. Será Caronte navegando a sua escura barca? Revolvo o fundo da algibeira e não encontro uma moeda que seja. Caronte vai ter que esperar.

terça-feira, novembro 30, 2021

Mundo tolo

     Ando de mal com a realidade. Prefiro o sonho absurdo, a coisa impossível. Não tenho bem a certeza mas penso que foi sempre assim. O problema é meu, sei bem que o problema é meu. Isso sossega-me porque, apesar da má relação, dá-me algum conforto perceber que fora de mim as coisas fazem sentido. Se o mundo circundante fosse como aquele que invento e habito, todo impulso, todo improviso, preguiçoso e demasiadas vezes monstruoso, se o mundo à minha volta fosse como aquele que trago dentro de mim, não sei o que aconteceria. Talvez não acontecesse nada de extraordinário. Talvez o mundo monstruoso não seja o meu.