quarta-feira, junho 09, 2021

Macacada

Muita gente fala e avisa que estamos a caminhar em direcção a um abismo de incompreensão entre a esquerda e a direita, que estamos com conversas cada vez mais de surdos e extremadas, muita gente fala e avisa mas parece que ninguém ouve ou dá grande importância à questão. A situação faz-me recordar (ou terei imaginado?) gritaria generalizada na aldeia dos macacos e agressões cruzadas com pedaços de merda arremessados em direcção ao oponente. Vejo merda a voar em todas as direcções. Baixo a cabeça e tento encontrar uma nesga por onde me possa escapulir deixando para trás este merdançal insuportável.

O palco mediático é alegremente entregue aos macacos mais agressivos, aos mais capazes de enterrarem as patitas na merda, aos que não hesitam em guinchar como porcos a serem capados: é deles a ribalta! A sociedade, de um modo geral, gosta de sangue e ama o sofrimento alheio. O discurso institucional está longe de admitir esta ânsia de dor mas todos compreendemos que o que a boca diz é negado pelo cérebro. 

Isto parece muito o cortejo fúnebre das democracias ocidentais.

segunda-feira, junho 07, 2021

TINA que os pariu!

Tenho a sensação de que já utilizei este título num post anterior do 100 Cabeças. Se não foi título foi tema, se não foi tema foi frase.

Vem isto a propósito da vontade manifestada pelos principais dirigentes políticos dos países do G7 em taxar os lucros das grandes multinacionais arranjando forma de lhes secar a artimanha de fugirem com o rabo à seringa indo pagar impostos para paraísos fiscais que os não cobram (!?). Esta minha explicação é um bocado tola pois não compreendo muito bem como funciona a coisa. O que eu percebo é que os poderosos estão a tentar encontrar forma de domarem um pouco a besta selvática do capitalismo.

Decerto são dirigentes muito poderosos que não dependem directamente das tetas das grandes multinacionais para saciarem a suas necessidades de consolo. Vai daí puxam-lhes as calças para baixo e ameaçam-lhes os lucros, que poderão baixar de escandalosamente pornográficos para apenas estupidamente insultuosos.

Para os defensores da ideia da TINA (There Is No Alternative) económica isto é um atestado de menoridade intelectual. Andam há anos a convencer o pagode de que não há alternativa, que os capitalistas são como as enguias e não se deixam apanhar, escapulindo-se ao menor sinal da alarme. No lado oposto muitos se recusaram a aceitar a TINA como uma fatalidade do destino. Aqui está a prova de que até mesmo os capitalistas mais viscosos e arredios acabam por ser apanhados, assim haja vontade política.

O que não estava propriamente no programa era que o método prescrito para caçar enguias no lodo da alta finança fosse criação do próprio sistema capitalista. Ou, por outro lado, o facto de ser o sistema capitalista a inventar uma forma de se travar a si próprio revela a dimensão inimaginável da roubalheira que vem sendo perpetrada há várias décadas debaixo dos nossos narizes.

Termino com toda a convicção: vão prá TINA que vos pariu!

sexta-feira, junho 04, 2021

Ser solidário

É tudo uma questão de olhar o sol a direito ou esperar pela noite para depois abrir os olhos. Entretanto muitos de nós esquecem-se de reparar nos outros, muitos não reparam, sequer, em si próprios. Ofuscados pela ilusão que é estarmos vivos, não damos o devido valor à aproximação da morte.

Procuramos uma posição confortável que nos permita ultrapassar cada dia sem grande sofrimento, de preferência sem sofrimento nenhum. A solidariedade é uma coisa complicada pois poderá perturbar o equilíbrio necessário à ausência de dor e aborrecimento. 

Ser solidário obriga a olhar o sol a direito. Muitos de nós não suportam tanta luz e refugiam-se na escuridão da ignorância. Optamos por um mundo sem luz, tornamo-nos adeptos das trevas.


domingo, maio 30, 2021

Egoísta

A vulgaridade absoluta dos dias que passam é assustadora. A sujidade incomoda, a artificialidade do discurso engarrafa-me o juízo. Não posso deixar de imaginar uma vaca imensa a pastar as cabeças dos congressistas e a mastigá-las naquele movimento característico das vacas que mastigam. Entretanto um raio de sol tenta incomodar a noite que se alegra no silêncio das ruas abandonadas. Como poderia tal coisa acontecer? O sol não sai à noite. A mãe não deixa nem o pai dá permissão. 

Escrever coisas sem sentido não me parece particularmente difícil. Registar ideias concretas de forma inteligível, isso sim, parece-me coisa complicada.

Na verdade não tenho nada a dizer. Fico com a sensação de que estou a roubar o teu tempo por não saber bem o que fazer com o meu, que este é um texto egoísta.

sábado, maio 29, 2021

Milhões

O Governo verte milhões de euros sobre o buraco disto, investe outros tantos no programa daquilo, a União Europeia disponibiliza milhões de euros para apostar na recuperação económica; milhões, milhões, milhões de euros para levantar a Humanidade da cova onde se vai enterrando. 

Lemos as notícias e, sem que nos apercebamos muito bem, sentimos um pequeno alívio: com tantos milhões vai ficar tudo bem ou, pelo menos, as coisas vão melhorar. É domínio do científico, próximo do matemático.

Esquecemos que deitar milhões de euros sobre os problemas, por si só, não os resolve. Os milhões precisam de planos que os canalizem de modo a não irem para o ralo do desperdício. Aí é que a porca torce o rabo ao ponto de ficar um saca-rolhas.

Milhões, milhões, milhões... o problema não será tanto a quantidade de dinheiro a investir mas sim a qualidade do investimento a realizar.

segunda-feira, maio 24, 2021

Sorriso amarelo

As redes sociais têm muitas coisas estúpidas. Parece-me até que têm mais coisas estúpidas do que o contrário. Basta abrir as caixas de comentários a qualquer notícia de jornal por pacífica que nos possa parecer para depararmos com um relambório de insultos e afirmações malcheirosas. As nossas caixas de email são autênticos vazadouros do lixo mais variado. Isto de andar na NET está cada vez mais penoso.

Mas, no meio de toda esta porcaria, há um fenómeno que me intriga: as piadinhas. De súbito, perante um teclado e um ecrã de computador, todos nós nos tornamos potenciais criadores de conteúdos cómicos. Eu próprio já me apanhei em flagrante, muito mais que uma vez, a escrever parvoíces imensas que, depois de ler e reler, me deixam perplexo perante a minha extraordinária cabotinice. Que porra! Fui eu quem escreveu aquilo!?

Quando me apercebo a tempo de ter sido estúpido, apago a patacoada e pronto, caso resolvido. O pior será quando não me enxergo a tempo de pôr o dedo na ferida e a coisa passa, incólume e imbecil, mundo adentro com a minha assinatura a enfeitar o cócó.

Infelizmente a estupidez não é um exclusivo da minha pessoa. 

Quando vejo amigos caindo na esparrela da piadola, dizendo parvoíces do tamanho da autocarros, fico triste. Não tenho coragem de lhes dizer "essa merda não tem piada nenhuma", calo-me bem calado e finjo que acaba ali o problema. Mas não, eu sei que não. O problema não acaba nunca. Antes se eterniza na amarelice dos sorrisos.

segunda-feira, maio 10, 2021

Noite

Não sei bem a cor dos candeeiros. Parecem-me cor de luz. Que coisa mais parva de se dizer! Envoltos pela escuridão da noite sem lua e sem estrelas os candeeiros ganham aquela tonalidade triste, iluminam sem alegria o ladrar dos cães e o ruído dos carros que passam, invisíveis, na auto-estrada. Depois há estes momentos de quase silêncio. Mas não, a ausência de ruído é uma impossibilidade. Um motor que arranca lá por detrás daquele prédio, o marulhar dos carros na auto-estrada, o som da velocidade combina com a cor dos candeeiros.

A noite não descansa.

sábado, maio 01, 2021

Vago

Tenho andado meio perdido. Quero dizer, perdido... perdido, não será bem a melhor forma de me referir ao que se tem vindo a passar comigo nos tempos mais recentes. Sei bem onde estou: não estou em lugar nenhum. Portanto estou longe de estar perdido.

Mesmo o acto de escrever estas palavras me parece algo estrambótico, como se entre mim e o teclado houvesse mais do que espaço, houvesse tempo; mas um tempo estranhamente elástico, um tempo maior do que o mostrador do relógio é capaz de nos fazer compreender. Um tempo que me alonga os dedos e faz das minhas mãos aranhiços  dançantes, aranhiços bêbados, impacientes. 

Talvez isto não faça sentido. Parecem-me apenas palavras, um pouco perdidas umas das outras. Palavras que formam ideias, ideias que chovem como se chovessem sapos.

Este texto é um daqueles que não têm princípio, nem meio, nem fim, embora possa parecer que tem essas coisas todas. Não tem. Entrei nele como aqueles vagabundos dos filmes, cuja acção se desenrola numa América triste e depressiva, que saltam para vagões abertos de comboios em andamento. E seguem viagem com o sol a pôr-se e uma tristeza grande a misturar-se com a esperança em dias melhores. As coisas boas parecem estar sempre no futuro.

E é isto. Perdido na América do meu descontentamento, viajando neste comboio de palavras, imaginando ser alguém que talvez não seja eu... perdido... perdido, não será bem a melhor forma de me referir ao que tem sido a minha vida. A verdade é que o futuro é sempre um pouco mais adiante.

sábado, abril 17, 2021

Rotina quebrada

O mundo virado de pernas para o ar é uma coisa confusa de ser vista. Se porventura já duvidávamos do lugar ocupado pelo nosso corpo em cima do planeta, alterar hábitos e distrair costumes faz dos dias máquinas de lavar minutos, cada hora uma centrifugadora da alma. Nunca gostei de lançar as ideias na vertigem da montanha russa: abrir os olhos aterroriza, fechá-los agonia; os sentidos sempre a tremerem. Para um burguês acomodado, como eu sou, a alteração das rotinas é um purgante que se toma apenas como último recurso.

É assim que se alinham os dias próximos que haverei de viver. Obras em casa, mudança para habitação emprestada, sem os meus livros nem o meu atelier, sem os meus papéis, os meus pincéis, os meus pastéis nem as minhas canetas, sem os meus lápis nem as minhas telas. As coisas que temos por nossas fazem-nos falta mesmo que as não utilizemos todos os santos dias? Até que ponto nos tornamos escravos daquilo que possuímos? São os objectos que me pertencem ou acontecerá o contrário?

Lá se enfileira mais uma coluna de perguntas de merda, como se fossem soldados a marchar entediados para combaterem na minha patética guerra contra o mundo. A verdade é que faço esta luta sozinho, esta guerra que declarei por mero fastio.

segunda-feira, abril 12, 2021

Incompatibilidade

A realidade e a ficção serão da mesma família? Imaginando que sejam, podemos especular o que aconteceria caso se encontrassem num jantar de Natal. Ou nas celebrações pascais. Ou, então, caso se encontrassem por ocasião dos festejos do 25 de Abril. Imaginemos uma dessas ocasiões em que não podemos virar o trombil a um familiar, por muito asco que ele nos provoque, independentemente do facto de termos fundadas razões para fingir que o vemos (ou não), que é transparente ou que o nosso olhar é opaco como o olhar de um calhau.

A verdade é que construímos narrativas mais ou menos complexas. Atribuímos a nós próprios um papel nessa historieta que descuidadamente engendramos e é a partir dessa ficção que imaginamos quem somos, o que fazemos, de onde vimos e, com um bocado de sorte, imaginamos para onde vamos.

Certo é o fim. O buraco na terra, o caixão, a cessação dos sentidos; a isso ninguém foge embora tendamos a acreditar em narrativas que nos prolongam a existência para lá deste mundo mesquinho e merdoso ao qual, com este corpinho, não temos por onde fugir. Somos seres fugitivos enfiados numa gaiola. A morte a todos acaba por abocanhar.

Voltando ao primeiro parágrafo: realidade e ficção encontram-se à mesma mesa. Uma come a sopa, a outra não. Uma senta-se a outra fica de pé. Uma abre os olhos sempre que a outra os fecha e sorri sempre que adivinha uma expressão carrancuda.

Admito que realidade e ficção sejam da mesma família mas, estou convicto, não jogam o mesmo jogo nem que alguém as queira obrigar a fazê-lo.

terça-feira, abril 06, 2021

Apesar das máscaras

É a Primavera! Um passinho em direcção ao renascimento social. O início do desconfinamento chega com o sol e as cadeiras nascem nos passeios como flores, como ervas, brotam da calçada e são ocupadas por pessoas que parecem passarinhos. É a Primavera, tempo de renascimentos, é a Páscoa, tempo de ressurreições, é a sociedade a reaprender ser lugar de convívio entre pessoas.

Apesar das máscaras.

terça-feira, março 23, 2021

Fica pr'amanhã

Queria escrever sobre esta dúvida que me vai roendo as unhas ao juízo: é a guerra um crime? Mas já não sei se o faça, prefiro ouvir uma guitarra eléctrica a rasgar o espaço, a fazer do tempo uma tempestade uma coisa tensa e bela, o tempo da guitarra eléctrica. A guerra que se lixe, o crime que se amanhe, a gente está diluída de tanto confinamento. Caraças.

Queria reflectir sobre se matar quem nos vem matar é passível de ser considerado crime. Mas estou a ouvir os Stooges e essa questão mistura-se num manancial desenfreado de som e fúria e a coisa já não se me afigura tão premente.

"Now I wanna be your dog"... o que me resta pensar quando esta frase me esfuranca o juízo (já sem unhas)? Nada, nadinha, népias, néribi! Agora a minha mente voga nas ondas da guitarra, vai de encontro aos tambores, abana-se nas notas estridentes do piano.

Amanhã preocupar-me-ei.

quarta-feira, março 17, 2021

Desambição

Havias de contar-me o teu segredo para que eu não soubesse o que fazer-lhe. Havias de me olhar com o espanto de quem vê o contemplado não ser capaz de abrir o presente que lhe oferecem. Havias de esquecer-me por não estar à altura de sonhar nem dos teus sonhos.

Nunca fui capaz de compreender o significado de ambição e isso inunda-me com uma timidez imensa capaz de afogar quimeras e ideias enquanto não souberem nadar. 

Não sou capaz de subir esses degraus.

Continuo no trabalho insano de semear coisas incompreensíveis no manto diáfano da poesia. E não compreendo a poesia, por isso lhe escavo as sombras e lhe deito dentro sementes que não conheço. Fico à espera de ver o que ali nasce, o que ali haverá de crescer. 

O que for será; por estranho que surja, por imenso que possa parecer, por mínimo que se revele, o que resultar desta minha desambição irá permanecer.

Não quero descer esta escadaria. Fico aqui mesmo, neste lugar imóvel onde sou.

terça-feira, março 16, 2021

Casa nossa

O sol atrai as pessoas para o exterior das suas casas. O calorzinho de uma Primavera anunciada (a Primavera está quase quase aí) aconchega e faz o corpo relaxar. Assinamos um armistício com o Planeta apesar da pandemia. Juramos amor à Terra, prometemos que tudo faremos para a proteger... de nós próprios!?

Espera lá, ecologista leitor, quando juramos tudo fazer para tornar o Planeta sustentável estamos a ser suficientemente sinceros? Haverá nesta postura um pingo que seja de altruísmo? Quer-me parecer que é uma atitude algo interesseira. O Planeta interessa-nos enquanto espaço habitável para a espécie humana. Sim, é disso que se trata, fazer obras de manutenção na nossa casa por forma a garantirmos condições de habitabilidade por um período de tempo mais alargado.

Na verdade, se metermos a mão na consciência, a Terra estaria bem melhor se a espécie humana fosse menos preponderante, mais incapaz de interferir em tão larga escala com a saúde planetária. Se fosse o Planeta a nossa principal preocupação deveríamos de encarar a possibilidade de um honroso hara-kiri à Humanidade deixando a Natureza na paz do Senhor. Ou então, num extraordinário gesto de auto-reflexão, sermos capazes de prescindir de grande parte das nossas "conquistas civilizacionais", revertendo o modo de pensarmos a vida para níveis pré-industriais. Fauna e flora haveriam de agradecer. 

Como tudo isto nem utópico é, já sabemos, vamos continuar a alargar o sexto continente, o do plástico, a envenenar a atmosfera, a produzir gado numa escala incomportável, etc.e tal. Seja como for, o calorzinho está aí e a primavera irá proporcionar-nos a trégua habitual, iludindo por momentos os fantasmas que nos atormentam.

segunda-feira, março 15, 2021

Um cadáver no meio da rua

Nos últimos tempos tenho andado com a ideia do fim da vida enfiada nos meus pensamentos. Os posts mais recentes dançaricam em volta da morte como um rancho folclórico que arrastasse os pés ao som da marcha fúnebre. Hoje, por volta da uma da tarde vi um homem morto.

Tinha saído de casa atravessando a rua para ir comprar algo que me servisse de almoço. Na paragem de autocarro, mesmo defronte à porta do supermercado, estava uma inusitada aglomeração de pessoas. 

Havia um carro da polícia e dois agentes cá fora, vários cidadãos mantinham-se em pé, como que dependurados pela nuca; divisei o que me pareceu ser alguém esticado no passeio, debaixo da cobertura da paragem, tapado por um plástico muito azul. Os pés estavam à vista. Havia ainda uma mulher sentada no passeio, junto do plástico que reflectia gloriosamente o sol primaveril.

As máscaras não me deixavam ver as expressões faciais mas também não era necessário para perceber que todos estavam constrangidos, tristes, contrastando fortemente com o sol e o canto dos pássaros escondidos na paisagem urbana. 

Percebi que o homem estava morto. Fiquei por momentos a olhar a cena e depois entrei no supermercado. Fiz as minhas compras, paguei na caixa automática e quando saí havia uma carrinha funerária estacionada. Dois homens retiravam um caixão de plástico cinzento que colocaram no chão. Um deles pegou num braço do cadáver, sempre coberto por aquele plástico azul, azulão brilhante sob o peso da luz do sol. A mulher sentada desaparecera, as pessoas haviam-se afastado uns passos como se o corpo sem vida as repelisse suavemente. Voltei as costas e dirigi-me para casa.

Tudo era silêncio, apenas se fazia ouvir o ruído dos motores dos automóveis que passavam. A seguir abriria a porta do prédio, subiria as escadas e haveria de preparar o almoço para mim e para a minha família. Quem foi aquela pessoa que morreu ali, no meio da rua. Que vida estava a ser recolhida pelos gatos-pingados naquele caixão de plástico cinzento, macabra metáfora da nossa existência?

Terei sentido nos dias anteriores a proximidade da morte? Foi isso que me levou a escrever textos tão deprimentes? Nos próximos dias tentarei esquecê-la. Vou tentar focar-me na vida.

sexta-feira, março 12, 2021

Ingenuidade

Há uma certa esperança de que o futuro possa vir a ser melhor do que aquilo que designamos por passado. Essa esperança é o combustível dos sonhos, alimenta mil razões para que não desistamos de ser, que não desistamos de viver. Mas sabemos também que esse tal futuro alberga o dia e a hora da nossa morte. 

Assim, pode parecer paradoxal que ansiemos o tempo do nosso fim, esperando que, algures entre o momento que vivemos e aquele em que seremos coisa morta, haja um tempo de redenção, de concretização de projectos mais ou menos grandiosos que, de algum modo, haverão de nos satisfazer. Fosse a vida coisa eterna e a alegria de atingir um determinado objectivo de vida seria como explodir infinitamente no gozo de continuarmos a ser.

Como resolver esse paradoxo de querermos aproximar-nos do nosso fim enquanto perseguimos as quimeras que inventamos para preenchermos o tempo que vivemos? Continuo a tentar convencer-me que a vida que vivo só faz sentido se contribuir para a construção de uma Humanidade mais completa, mais capaz de conviver com o planeta e consigo própria numa lógica de liberdade individual plasmada no bem comum. Isto exige alguma ingenuidade, mas permite-me continuar a sonhar.

terça-feira, março 09, 2021

(Suspiro)

Cada dia a mais é um dia a menos. Qual o sentido de avançar em direcção a um ponto de paragem absoluto, correr em direcção ao fim? Podemos refrear o ritmo, evitar as rectas escolhendo curvas, dançar um pouco (dançar uma morna) descansando da corrida. A verdade é que nem optando por ficarmos parados evitamos o passar do tempo. O tempo é um tapete rolante que nos conduz até ao dia em que todos os outros dias perdem para nós o sentido.

quinta-feira, março 04, 2021

Uma choldra

 Não gosto de bater no ceguinho mas, por vezes, o ceguinho merece e... aí vai disto! Hoje estava a ver televisão, era quase a hora da papa. Na TVI dois apresentadores meio mongas iam desfiando os casos do dia: um rapaz que matou o pai à facada, uma idosa que havia falecido num lar ilegal que tentou ocultar o facto aos familiares da defunta. Este com direito a ligação em directo ao local onde um repórter ia começar a debitar as banalidades do costume, começando por repetir exactamente aquilo que havia sido dito em estúdio. Este é o género de televisão que me repugna e mudei de canal.

Fui cair na SIC e, qual não é o meu espanto, também aqui se estava a discutir o caso do filho que esfaqueou o pai. Outros apresentadores (também um homem e uma mulher, imagino que seja necessária a paridade para garantir as boas intenções da estação), outros comentadores (tal como na TVI uns camelos arrogantes a arrotar postas de pescada, como se fossem anjos vingadores). Ainda não estava eu refeito da surpresa de encontrar o mesmo tema quando, mudando de assunto, lá vêm com a história da velhinha e do lar ilegal e ainda, suprema coincidência, ligam em directo para o repórter no local.

Que merda é esta!?

Depois haverá de aparecer um apresentador de telejornal com cara de cu e ar enjoado a dizer que os casos de ansiedade e sofrimento psicológico têm aumentado de forma assustadora entre a população portuguesa. Claro que nos explicam que isso se deve ao confinamento e à puta da pandemia. Duvido que sejam as únicas causas. Esta televisão vampírica há-de ter muitas culpas no cartório e o pior é que, mesmo depois de a pandemia ser controlada e o confinamento ter acabado, esta porcaria vai continuar a sugar os sentimentos das pessoas, contribuindo para o mal-estar generalizado. Com grandes audiências.

Os telespectadores são como os zombies da série The Walking Dead, doidinhos por fincarem o dente em carne fresca. As estações televisivas são como bordéis onde as meninas são oferecidas, não às carícias, mas à dentuça dos consumidores.

Uma choldra.

sexta-feira, fevereiro 26, 2021

Palavras vazias

É diário, já se sabe, bate como um martelinho de São João, poing, poing, poing, nas nossas cabeças, no nosso juízo, no que resta do nosso espaço comum, poing, poing, poing, o martelinho a martelar os números da pandemia. 

O pivô do noticiário debita os números de novos infectados, poing, internados, poing, recuperados, poing, poing, poing, e, raramente sinto as palavras tão vazias, o pivô afirma que "lamenta" os falecimentos da ordem. Diz aquilo com a mesma entoação que aplicaria se falasse da qualidade dos sapatos que tem calçados ou do arroz de pato que  encomendou na tasca da esquina (talvez o arroz de pato o levasse a colocar alguma alma na fala). A banalização do discurso que relata a catástrofe em curso tem este efeito narcótico, este amerdalhamento emocional, deixa-nos à beira da desumanização.

Quando era miúdo sempre me impressionaram as palavras de circunstância. Não sei se sentias o mesmo, amável leitor, mas lembro-me de perceber o vazio do discurso quando o discurso era vazio e de ficar estúpido por não ser capaz de encaixar as coisas. Porque havia uma pessoa de dizer algo que não sentia de forma nenhuma? Porque havia alguma pessoa de fingir ser o que, obviamente, não era? Ah, santa inocência!

Regressado ao tempo presente ressoa na minha mona o poing-poing-poing acima descrito. As questões sobre a motivação de tanta palavra vazia obtêm respostas infelizes. A inocência perdida faz-me perceber que tudo roda à volta de interesses mesquinhos, manipulações mais ou menos evidentes, agendas políticas, campanhas comerciais em curso, dinheiro, dinheiro, dinheiro e poder... um buraco sem fundo, um vazio impossível de preencher.


segunda-feira, fevereiro 22, 2021

Pedagogia do cócó

Andamos todos tão enfronhados nesta coisa da pandemia do Covid que certas notícias de assinalável gravidade nos passam ao lado como bêémedablius a assapar na autoestrada. É ou não inquietante que, segundo estudo recente "cujos dados são relativos a 2020, 67% dos jovens consideram legítima a violência no namoro, dos quais 26% acham legítimo o controlo, 23% a perseguição, 19% a violência sexual, 15% a violência psicológica, 14% a violência através das redes sociais e 5% a violência física."? Caramba, quem é esta gente? São os miúdos que se sentam à minha frente na sala de aula?

Como é isto possível, com tantas campanhas de várias instituições estatais, com aulas de educação sexual, com a proibição de cantar o "atirei o pau ao gato" nos infantários, com vigilância constante sobre os conteúdos dos programas infantis nos canais televisivos, com psicólogos trabalhando em permanência  nas escolas, como é isto possível? Como é possível que tantas crianças que fazem cócó em vez de cagarem sejam tão permissivas à sordidez da violência no namoro?

Fico a pensar que algo tem corrido mal, que talvez estejamos a errar na forma como encaramos a infância. Fico a pensar nos resultados que um estudo deste género teria obtido se tivesse sido feito quando eu era miúdo. Na verdade, fico a pensar que, tal como o outro, "quanto mais conheço os homens (e as mulheres) mais gosto do meu cão". E eu não tenho cão.