domingo, maio 18, 2014

Pesadelo dominical

Poderá a Democracia sobreviver a si própria? A abertura dos regimes democráticos permite a proliferação de todo o tipo de agremiações de sacanas e de filhos da puta. 

A mentira (ou "inverdade", como por vezes se diz) passa com facilidade para a opinião pública travestida de verdade inquestionável. O espaço de reflexão colectiva fervilha de propaganda e tende a menosprezar o pensamento estruturado, a frase curta é uma bomba que faz explodir em bocadinhos o pensamento especulativo. A nossa Democracia idolatra a Facilidade e teme a Dificuldade. Assim resvalamos alegremente para uma fossa repleta de merda.

A Economia ocupa todo o horizonte, nada mais parece visível aos olhos da maioria: só vemos dinheiro, sonhamos com dinheiro, desejamos dinheiro. A Solidariedade, base dos regimes democráticos, é olhada com indiferença, quando não com desdém. O mundo Ocidental contorce-se com dores difíceis de suportar num parto que promete trazer a este mundo um qualquer ser social monstruoso.

Assistimos a tudo isto com uma sensação de impotência, um torpor estupidificante, que parece impedir-nos de pensar e agir. A Política perde terreno, afunda-se em contradições e recuos impensáveis perante a Grande Finança. O que vai sair daqui?

quarta-feira, maio 14, 2014

Milagres


Ontem foi dia de comemorar milagre. Saí à rua a olhar para cima, não fosse a Virgem passar por ali e eu, distraído, a não visse. Pensei em todos aqueles milhares de peregrinos que palmilham as estradas de Portugal em direcção a Fátima, terão eles a secreta esperança de dar de caras com Nossa Senhora?

Cansado de olhar por detrás de cada nuvem à cata de uma aparição, lá me orientei por entre os prédios, o lixo, os automóveis e as pessoas com olhar de zombie, penetrando no meu quotidiano delirante com aquela segurança abstracta que define o modo de ser do citadino contemporâneo: "sou um estereotipo", pensei. "Espera, sou um estereotipo que pensa; menos mau."

É bastante frequente ter pensamentos deste tipo, pensamentos que me sossegam, como se desse palmadinhas no ombro a mim próprio: "deixa lá isso, pá, o mundo é uma merda mas tu até nem estás mal"; é assim que nos distraímos dos passos que damos e nos arriscamos a dar de trombas com um santo qualquer?

Talvez não, esta capacidade para a auto-complacência pelo contrário, deve ser coisa para afugentar as bondosas criaturas celestiais. Imagino que um gajo como eu não precise de um santinho que o salve quando se tem a si próprio. Os santos decerto encontram pessoal bem mais precisadinho das suas capacidades curativas.

Ontem foi dia de comemorar milagre mas os milagres são para quem tem a felicidade de tropeçar neles e não para quem deles anda à procura.

domingo, maio 04, 2014

Domingo

Esta gentinha que nos governa não tem classificação possível. Quando frequentei a escola de Belas Artes, nas disciplinas práticas, não havia classificações negativas. Abaixo de 10 a pauta referia apenas “não apto”. 

Assim classifico Paulo Portas, Pedro Passos Coelho e restantes sócios. Não merecem mais, eles não estão aptos para a governação, tentar classificá-los faz de nós piores pessoas pois, com facilidade, caímos no desprezo intestino e no insulto soez. 

Não quero ser como eles, quero ser diferente, eu sou diferente destas coisas, eu sou uma pessoa, tenho princípios, acredito que a vida tem um sentido e que esse sentido é fazer do nosso mundo, da nossa sociedade, um lugar melhor para as gerações que se seguem. Recuso a mentira, acredito na Palavra. Recuso a habilidade retórica, acredito nos Valores.

Se calhar não há saída para o buraco em que vivemos, se calhar a realidade é a Caverna e as sombras são a única possibilidade que temos de apreender a realidade. Se calhar as correntes que nos ferem os tornozelos são o melhor que os deuses têm para nos oferecer. Mas, se tiver de eleger um herói, eu elejo Ulisses e desafio os deuses. Os deuses que se lixem. Que se lixem os nervos dos mercados e que se lixem os cenhos franzidos dos deuses nórdicos, eu sou ibérico, vivo debaixo do sol, dificilmente aceito uma divindade que se alimente da sombra.


Esta gentinha que nos governa não imagina o que sejam divindades. São uma turba de paloncitos engravatados, inebriados pelo pivete do perfume com que tentam esconder o fedor que lhes envolve as almas. Não tenho pena deles, sei que vão arder nas chamas de infernos de 3ª categoria enquanto os demónios que os tutelam tiverem capacidade para pagar a conta do gás. Quando lhes acabar a verba vão rebentar de frio. Terão sempre aquilo que a sua soberba e a sua ignorância lhes reserva. Nem mais nem menos. 

Apesar de tudo o universo rege-se por uma espécie de justiça um tanto complicada, é certo, mas justiça.

domingo, abril 27, 2014

sábado, abril 26, 2014

26 de Abril

Ontem comemorou-se o 40º aniversário da revolução portuguesa de 25 de Abril.Como o número era redondo houve um pouco mais de agitação mediática em volta do muito nosso Dia da Liberdade. Nos últimos anos a coisa tinha vindo a esmorecer um bocadinho mas ontem a festa foi de arromba.

Bom, festa, festa... talvez seja um pouco forçado chamar festa ao que ontem por aí se viu. Manifestações, palavras de ordem, discursos chatos, empolgantes, curtos e compridos, de tudo ao povo foi servido mas a impressão com que se fica é a de que anda o pessoalzinho todo lixado com a forma como o poder democrático está a ser exercido na lusa pátria.

Há mesmo quem se atreva a sugerir nova revolução! Mas que revolução seria essa? Poderia o nosso país voltar à rua para apear um governo, ainda para mais democraticamente eleito? Não me parece que seja uma revolução desse tipo a que poderemos agora almejar.

A revolução terá de ser outra coisa, terá de começar dentro de cada um de nós. Temos de pensar nisso!

sexta-feira, abril 18, 2014

Regresso e fuga

Tanto tempo sem escrever uma linha que fosse aqui, no 100 Cabeças! É a modorra da zumbisfera a inquinar-me a escrita.

Por alguma razão que me escapa dou por mim a teclar de novo nesta coisa. Poderia falar sobre os livros que li, os filmes que vi, as músicas que me impressionaram entretanto. Poderia tentar escrever algo vagamente inteligente acerca das viagens que fiz, das coisas que me encheram o olhar. Mas não.

Escrevo apenas por escrever, escrevo apenas para não deixar morrer esta centésima cabeça que me enfeita os ombros. Só isso, apenas isso. Coisa pouca e nada mais.

Escrevo e parece-me ouvir o eco do ruído das teclas a serem pressionadas pelos meus dedos roídos nas pontas, como se estivesse enfiado num corredor escuro e comprido, um corredor sem tempo nem memória, vazio e pouco limpo.

Paro a função. Não procuro imagem nem faço questão de terminar com elegância.

quinta-feira, março 27, 2014

Beleza

As coisas não têm, obrigatoriamente, que ser belas. As coisas têm, isso sim, de fazer sentido e nós, se fizermos sentido com elas, poderemos compreendê-las. É na nossa capacidade de compreensão que reside a beleza do mundo: descobrir o sentido das coisas faz de nós artistas.

A beleza é uma possibilidade universal e latente. Na verdade todas as coisas do mundo são potencialmente belas  pois todas elas (todas elas) fazem sentido. Uma nuvem é bela, um grão de areia é belo, um monte de merda tem a sua beleza. Um parafuso ou um caracol são fontes de inesgotável beleza. Compete-nos a nós compreender o sentido que estas coisas fazem e descortinar a beleza que possuem.

A beleza das coisas depende muito de quem as vê, ouve, sente; seja um ser humano ou qualquer outro tipo de entidade, animal ou nem por isso. A beleza está aí, em todo o lado, à espera de ser percepcionada. Há, no entanto, milhões de coisas às quais nunca ninguém sentiu, viu ou ouviu o mais leve traço de beleza.

Não sei se não são essas as coisas perigosas...

sexta-feira, março 14, 2014

Numeração humana

Os nazis tatuavam nos judeus que mastigaram em Auschwitz aqueles numerozinhos sinistros como factor de identificação. Uns no braço, outros no peito, estavam todos escritos para não haver confusões.

A nós tatuam-nos uma série de numerozinhos no cartão de cidadão: identificação fiscal, utente de saúde, segurança social e mais uns quantos, um pouco menos perceptíveis mas, decerto, individualizados.

Há também os números das contas bancárias (que alguns de nós tatuam na memória), além dos números dos cartões de débito ou de crédito que funcionam como aquelas tatuagens que saem como brinde nas guloseimas das crianças; aquelas que se "tatuam" com água e vão desaparecendo com o tempo.

Estamos todos escrevinhados, riscados e carimbados, identificados, numerados e chipados. Somos como pombos com anilha electrónica, não damos um passo que não possa vir a ser reconstituído no futuro caso seja necessário alguma autoridade saber onde fomos, por forma a poder decidir o que andámos a fazer.

Virá o dia em que todo e cada ser humano será chipado à nascença, um chip enfiado algures, num lugar de onde seja inamovível. Todos os números guardados bem fundo do ser, o sonho de qualquer sistema burocrático contemporâneo.

Estamos marcados para a vida e, decerto, um dia que nos enfiem num caixote e nos enterrem algures, haveremos de ter um numerozinho qualquer que nos identifique, individualize e permita saber com exactidão onde foram depositados os nossos restos mortais.

sábado, março 08, 2014

Ahoy!

A Ode Marítima, está em cena no Teatro Municipal de São Luiz, em Lisboa, com Diogo Infante a representar e João Gil, sentado sob uma ténue luz, tocando guitarra de quando em vez.

Infante leva o texto de Álvaro de Campos numa viagem ora suave ora lugubremente alucinada. Gil está lá, umas vezes silencioso, outras dedilhando a guitarra de forma irrepreensível.

O espectáculo é excelente.

Ahoy! A palavra, caraças! A palavra...


quarta-feira, março 05, 2014

Aos amigos brasileiros

Capa da edição do Público de 5 de Março de 2014, a ilustração é de Adriana Calcanhoto

Hoje é dia de aniversário do jornal Público, um dos diários portugueses de maior tiragem no país. Todos os anos o jornal comemora o aniversário convidando alguém para ser director por um dia.

Este ano o Público convidou Adriana Calcanhoto e o número de hoje (ver aqui) é totalmente dedicado ao Brasil. Uma visita ao site do jornal permite ver uma série de reportagens, entrevistas e outras peças jornalísticas dedicadas ao que aqui designamos por País Irmão.

Parece-me uma coisa interessante. Adriana Calcanhoto assina um editorial muito bom e, logo a seguir, na página 3, é publicado um excerto da carta de Pêro Vaz de Caminha a el-rei Dom Manuel por ocasião do achamento da Terra da Vera Cruz. Ao longo do jornal, mais excertos vão aparecendo, como se estivessemos a desvendar o Brasil à medida que vamos avançando na leitura. Essa Adriana tem ideias...

Um número de festa com o Brasil em pano de fundo.

terça-feira, março 04, 2014

A pergunta

Nos últimos dias tenho acordado da forma habitual: pronto para dormir, como diz a canção de Manuel da Cruz. À medida que me vou deslocando de modo automático no regresso a este mundo vem-me à cabeça uma pergunta.

A guerra terá começado?

A situação na Crimeia parece explosiva. Russos de um lado, ucranianos do outro, a comunidade internacional a enviar recados. Os meios de comunicação abordam a questão oscilando entre um tom apocalíptico e outro mais optimista. É uma situação estranha. O conflito parece ser inevitável mas ninguém, deste lado do mundo, quer realmente acreditar nessa possibilidade.

E se a guerra estoirar, de facto? Como vai ser? Irão os ucranianos ser abafados pelo exèrcito russo numa batalha desigual? O que farão os Estados Unidos e a União Europeia? Não foi mais ou menos assim que começaram as duas grandes guerras do século passado?

Faço café e torradas, leio mais umas páginas da Trilogia de Nova Iorque de Paul Auster. Vou tomar banho. Depois tenho de me deslocar ao banco (o meu cartão de débito foi engolido por uma máquina que não mo devolveu) e levar o computador a um feiticeiro informático qualquer (o computador pifou, morreu, foi-se), um feiticeiro que, pelo menos, lhe recupere a memória.

É assim; pouco tempo após ter regressado ao mundo real a realidade vai-se transformando em algo próximo, comezinho, vulgar. O futuro deste mundo discute-se lá longe, na Crimeia, mas, para já, as minhas preocupações são outras.

Terá a guerra começado enquanto escrevi estas palavras?

domingo, março 02, 2014

Vénus de Vison

O Teatro em Portugal é ainda uma espécie de coisa estranha, quase secreta. Basta olhar a programação cultural nas páginas dos jornais para perceber que a oferta é cada vez mais rara e ir a uma sala para constatar que não é propriamente um fenómeno de massas.

Não sou um espectador particularmente assíduo mas assisto a um número razoável de espectáculos, principalmente em Lisboa e Almada. Raramente saio desiludido.

Na passada quarta-feira fui ao Teatro Aberto (aqui) onde está em cena Vénus de Vison (ver aqui). A sala tinha aproxiamadamente um terço das cadeiras ocupadas. No final os actores foram brindados com uma merecida ovação. Ana Guiomar e Pedro Laginha formam um par extremamente competente, atingindo momentos de representação de uma intensidade assinalável.

Um espectáculo despretensioso que merece a tua visita, caro leitor.

sexta-feira, fevereiro 28, 2014

Uma alegoria

Her (uma História de Amor, na versão portuguesa) é um filme que nos coloca perante uma estranha história de paixão assolapada.

A acção evolui num ambiente moderadamente futurista onde as calças dos homens são demasiado subidas na cintura e a maioria anda de mala a tiracolo pelas ruas da cidade. É um mundo tecnológico e os computadores rondam o interior das cabeças das personagens.

A narrativa desenrola-se num tom melancólico, oscilando entre momentos de comédia e momentos de alguma tensão dramática. Joaquin Phoenix tem um desempenho excelente, como é seu hábito, Amy Adams e a voz de Scarlett Johansson cumprem os respectivos papéis com brilhantismo. Banda sonora a preceito e realização impecável de Spike Jonzee. Deve dar para perceber que gostei bastante do filme.

A história é de amor, como o subtítulo em português sublinha a traço grosso, um amor improvável entre um ser humano e outro que não se percebe muito bem o que é. Parece-me uma alegoria, por vezes quase pueril, sobre o que somos e aquilo em que nos estamos a transformar.

Uma visão plausível do futuro (do presente?) das relações entre seres humanos  e outros... objectos. Ou talvez vice-versa...




segunda-feira, fevereiro 24, 2014

A Princesa Jornalista


Eu não sei, sinceramente, não sei grande coisa sobre esta menina. Estou em crer que seja uma mulher. Grande. Uma grande mulher. Não a conheço nem creio que alguma vez venha a conhecê-la pessoalmente. Leio-a. Há muito tempo que a leio nas páginas do jornal Público.

De há uns anos para cá que ela foi para o Brasil. Agora escreve sobre o Brasil. Está no Brasil, vive no Brasil e escreve sobre a sua estadia, a sua vida, a vida do Brasil (olha ela rindo com seu Jô ali na foto).

Os textos de Alexandra Lucas Coelho vão sendo publicados semanalmente no suplemento 2, que acompanha o jornal todos os Domingos e podem ser lidos aqui, no blogue Atlântico-Sul, o título da sua página semanal na tal revista.

Alexandra é uma Princesa Jornalista. Não precisa de ter tido pai que fosse rei, a realeza de Alexandra é daquelas que se conquistam pela excelência.

Se eu vivesse no Brasil ia ficar feliz por ter uma Princesa assim a viver no meu país. Como vivo em Portugal fico triste por não ter a minha Princesa mais perto. Assim sendo vou vendo o Brasil (onde nunca fui) através dos seus olhos maravilhosos.

Que coisa extraordinária!

sexta-feira, fevereiro 21, 2014

Apolos

Oh, quantas vezes esquecemos, quantas vezes ignoramos as divindades! É como com as fadas nas histórias infantis: se não se acredita nelas acabam por desfalecer e, no extremo, batem as botinhas e vão desta pra melhor. Adeus, até nunca mais...

Deus, o Tal, o Verdadeiro, o dos judeus, Jeová, acho, já sente, de vez em quando, uma tontura (com tanta vírgula não admira). Nada de muito grave, mas convém verificar os níveis de confiança na própria existência. É que, para nós, mortais, a Fé é uma coisa interior, pessoal e intransmissível. Quando alguém diz que tem Fé só nos resta acreditar e aceitar, ainda que a não tenhamos.

Mas Deus, o Tal, omnipotente e omnisciente, sabe bem da sinceridade de cada um, não tem como se auto iludir. E Jeová desfalece, toma vitaminas, vai ao ginásio e consulta um homeopata após sair da sessão de acupunctura mas a coisa está, definitivamente, a ficar feia. Os crentes são menos crentes do que seria suposto e já não O temem como deviam. Já foste, Jeová!

Isto vem a propósito da recente descoberta de uma estátua de Apolo no fundo do Mediterrâneo, resgatada por um pobre pescador palestiniano (ver aqui).

Apolo, um deus meio esquecido (entrada da Wikipedia) que regressa às bocas do mundo após ser pescado e trazido à superfície dos noticiários mundiais. Mas o que me chamou particularmente a atenção foi o lençol sobre o qual deitaram a imagem do dito para lhe tirarem as fotos da praxe: um magnífico estampado de Schtroumpfs (ou Smurfs, como lhes chamam agora).

Alguns milhares de anos separam a estátua de Apolo do Schtoumpf Amoroso ou da sensual Schtroumpfina estampados no lençol mas, quis o acaso (ou o capricho de algum deus), que viessem a encontrar-se numa imagem que corre mundo, comovente e improvável fusão de imaginários culturais.

Isto é uma das coisas que me fascinam: a hibridização anárquica de referências e imaginários, o universo de informação visual que está à nossa disposição, mesmo à frente dos narizes que nos guiam os passos, à espera de um olhar, à espera de uma visão, imagens prontas a usar, imagens ready made, que temos apenas de ser capazes de recontextualizar e... voilá!

Apolo e os Schtroumpfs, uma torrente de ideias...

terça-feira, fevereiro 18, 2014

Para a minha filha

Mais do que ler poesia é escrevê-la.
Mais do que escrever poesia é vivê-la.
Ainda que nunca rime.

sábado, fevereiro 15, 2014

Viva Dada!



Ontem fui assistir ao concerto dos Mler If Dada no CCB. Passaram mais ou menos 30 anos desde a última vez que os tinha visto actuar ao vivo. De lá para cá tinha ouvido os CD's, principalmente "Coisas que fascinam".

Sinceramente, quando entrei na sala já ia à espera de algo transcendente mas estava longe de imaginar um espectáculo de tal forma magnífico! Sentadinho na confortável cadeira dei por mim a sorrir embasbacado, embevecido, completamente rendido. Terei viajado no tempo? Estou em crer que sim.

Anabela Duarte foi de uma expressividade deslumbrante, Nuno Rebelo mostrou o seu virtuosismo instrumental e genialidade enquanto compositor. A banda foi irrepreensível A sala veio abaixo várias vezes e sempre se reergueu pois havia mais música, mais espectáculo, mais milagres para acontecer.

Quando terminou a função o público ovacionou em pé os extraordinários artistas durante largos minutos. Toda a gente sorria embasbacada, embevecida, toda a gente a sorrir. Cá em baixo e lá em cima, no palco. Uma coisa mais do que bonita, um verdadeiro acontecimento Dada!!!

sexta-feira, fevereiro 14, 2014

Namoros

Hoje é dia de trabalho rotineiro para o Cupido em que ele faz horas extraordinárias. É suposto que ofereçamos coisas que, de algum modo, simbolizem e comemorem o amor.

Essas coisas terão um carácter pessoal, pequenos símbolos privados, significados secretos que apenas a nossa outra parte seja capaz de compreender. Pode ser um pedaço de tecido, uma música, uma simples palavra, um sorriso. O amor é assim, uma coisa extremamente complexa que se caracteriza pela sua extraordinária simplicidade.

Quem ama sabe o que deve oferecer: amor.

Há também a parte mercantil na comemoração deste denominado Dia dos Namorados. Os apaixonados recorrem às lojas para comprar o tal objecto simbólico. Mas, como se criam símbolos do amor que possam ser produzidos e comercializados em massa? Qual o denominador comum da paixão transformada em objecto?

Multiplicam-se os objectos em forma de coração ou decorados com coraçõezinhos de todos os tamanhos e o vermelho predomina. O amor comercial é de um kitsch a toda a prova, o gosto duvidoso dos objectos que se comercializam nesta data é proverbial.

Não é o amor sempre ridículo? Não são as palavras de amor algo que nos escapa boca fora e que só dizemos quando nos encontramos em estado de total estupefacção perante o mundo olhado desde o olhar cego do nosso coração?

O amor não tem cérebro, talvez por isso seja tão avassalador.

sexta-feira, fevereiro 07, 2014

Ai, Miró!


Há 40 anos era muito pior. Há 40 anos uma percentagem assustadora dos nossos não sabia ler nem escrever embora fosse capaz de fazer contas. Uns contavam pelos dedos outros faziam contas de cabeça. 

Há 40 anos poucos (mas mesmo muito poucos) dos nossos sabiam quem era Miró que ainda por aí andava a fazer coisas daquelas. Há 40 anos o nosso Secretário de Estado da Cultura actual já sabia ler e, decerto, já saberia escrever.

Muitos de nós passavam uma fome de cão e tinham de se meter no comboio para “as franças” de garrafão em punho e chouriço no bolso. 

Há 40 anos éramos um povo de pobres labregos, um país sem estradas nem comércio e, apesar de termos já muitos ladrões de fato e gravata, estávamos longe de atingir os níveis de corrupção de que hoje nos orgulhamos nas reuniões da Internacional Capitalista. 

Há 40 anos Portugal era a preto e branco, hoje já vai havendo uns arco-íris a espreitar detrás da porta do armário. Há 40 anos éramos governados por um bando de velhacos hoje… bom, hoje somos governados por um grupo de senhoras e senhores que me abstenho de classificar.

Há 40 anos foi-nos permitido sonhar que a Educação haveria de pôr muita coisa no lugar que nos parecia devido mas não fomos capazes de imaginar que, 40 anos e 26 ministros mais tarde, a Educação haveria de ser considerada novamente um empecilho.

Hoje, como há 40 anos, poucos dos nossos (mas ainda assim muitos mais do que há 40 anos) têm consciência de quem foi Miró e o que fez enquanto por aí andou. Hoje o Secretário de Estado sabe ler, escrever e assinar despachos (deve ser lixado representar a Cultura num governo como este!). 

O pessoal já emigra de avião, com uma revista científica debaixo do braço. Hoje temos muitas autoestradas e o Presidente da República, embora pouco mais faça que descerrar placas comemorativas, é eleito, efectivamente, por nós. Continuamos a ter muitos tubarões aldrabões mas isso é fado de um país que vive junto ao mar. 

Miró faz-me pensar no resto, no que era realmente importante e ficou por cumprir. As 85 telas do mestre apenas servem para mostrar quão surreal é o mundo em vivemos. O “caso” Miró lembra a quem pode a urgência de uma verdadeira revolução, uma revolução Dadaísta, que faça dos urinóis deste mundo peças de arte nas quais possamos mijar à vontade, aliviando a bexiga à boleia do alívio da alma. 

A sensação com que fico é que, 40 anos depois de termos imaginado um país decente e de alguns de nós, que ainda por aí andam, terem sonhado com isso, falhámos completamente o nosso objectivo. 

Somos um povo que habita um país falhado. Precisamos de recomeçar tudo de novo mas agora os meninos maus ficam de castigo e os mais estúpidos não podem ser chefes de nada.

quinta-feira, janeiro 30, 2014

Momento introspectivo


Ensinar a desenhar é uma coisa divertida. É como fazer uma viagem com a diferença de que, no mundo real, quando viajamos para algum lugar, esse lugar, em princípio, existe e está lá, à nossa espera. No mundo do ensino do Desenho, o lugar para onde vamos ainda não existe; imaginamos que vá existindo, à medida que avançamos.

Um dos maiores desafios para não nos perdermos na floresta (por onde sempre temos de meter quando vamos em frente na aprendizagem das coisas do Desenho) é sermos capazes de verbalizar o que nos corre pela cabeça ao tentar explicar qualquer coisa ao jovem aluno. É como se fossemos construindo a estrada à medida que a vamos pisando.

Descobrir palavras capazes de dizer coisas que (ainda) não existem e que, mesmo depois de ditas, podem continuar a não significar nada que se compreenda, exige, mais do que imaginação, alguma inconsciência.

Sim, para ensinar Desenho não podemos ser completamente sãos da cabeça (pelo menos no sentido em que normalmente se aponta a sanidade mental característica de uma sociedade economicista que é o sermos pouco mais que um calhau com laivos de Humanidade) recomenda-se até uma certa dose de infantilidade e uma dose razoável de erudição visual.

Isso é fundamental porque, quando nos faltam as palavras e aquelas que inventamos se parecem demasiado com coisas banais, há sempre a possibilidade de recorrer a uma referência visual adequada à situação. E, com um computador por perto, o Santo Google fornece-nos todas as imagens com a velocidade instantânea de um dinossauro raptor.

Quando dou aulas de Desenho sinto-me frequentemente fora do tempo. Imagino que seja isto a Fonte da Juventude.