Macacos Sábios
Ver os mais altos responsáveis pela governação deste país
aplaudir a actuação da polícia nas cenas de porrada a que todos assistimos em
directo nos canais de televisão é algo pornográfico. Cavaco e Passos primeiro
não tinham visto nada, não se podiam pronunciar sobre os acontecimentos.
Mais
tarde, imagino que após terem visionado aquele espectáculo edificante, só
puderam aplaudir o ataque indiscriminado das forças policiais sobre as pessoas
que se encontravam defronte às escadarias da Assembleia, cada vez mais símbolo
da vergonha do nosso regime político.
Tudo aquilo foi estranho.
Foi estranho ver meia dúzia de
energúmenos a desfazer a calçada e a atirar pedrada após pedrada, horas a fio,
sobre uma fila de polícias de choque em postura cristã, como se oferecessem a
outra face. Coitadinhos.
Foi estranho ver os bandidos a rir, a fazer pontaria,
impunemente, alguns de cara bem destapada, sem que houvesse a mínima reacção
das forças que, por comodidade, continuamos a chamar de “forças de segurança”
mas que, quando se atiram à populaça, se transformam em forças de agressão.
Foi
estranho ver os manifestantes que se colocaram em frente aos polícias apedrejados,
quais escudos humanos, pondo em risco a sua integridade física (ó Cavaco, ó
Passos, e uma palavrinha de apreço para com estes cidadãos?).
Os polícias foram atiçados, quais mastins sem açaimo, sobre
os populares. Agrediram muitos que, é evidente para qualquer pessoa que tenha
assistido aos desacatos, mesmo que pela televisão, não tinham atirado pedras,
nem garrafas, nem petardos. Prenderam uns quantos, acusados de resistência e
ofensa à autoridade.
Há tantas imagens filmadas, tantas fotografias, tantas
testemunhas oculares que decerto não será difícil provar se os que agora foram
presos participaram, de facto, naquele triste espectáculo.
Tudo isto foi demasiado estranho.
Habitual foi, apenas, a
forma histérica e desproporcionada como os polícias agrediram a torto e a
direito quem lhes apareceu pela frente. Os responsáveis pelas calhoadas não só
as praticaram como lhes deu na real gana como ainda se pisgaram dali para fora na
maior das impunidades.
O que já não foi tão estranho foi que, após um dia de greve
geral em vários países da Europa, num dia em que a CGTP apresentou uma série de
medidas de combate à crise que até Bagão Félix considerou dignas de atenção nas
páginas deste jornal, se tenham focado os holofotes nos pobres polícias,
vítimas de um bando de arruaceiros, como se mais nada tivesse acontecido.
A
quem aproveita toda esta ópera bufa? Com governantes deste calibre, assistir ao
“espectáculo da democracia” é como ver um filme de “bunga bunga”. Ou pior
ainda.
Carta enviada à Directora do jornal
Público (sem as imagens)