terça-feira, janeiro 15, 2013

Europa



Ao que parece há uma grave cisão na Europa. O edifício abre brechas por todos os lados mantendo-se forte na cúpula e fraco nas fundações. Entre o povinho, os que não têm negócios de especulação de capitais nem sabem o suficiente de mitologia ou cultura Clássica, a maioria parece estar-se nas tintas para o “sonho europeu” ou para a “Europa da Nações”, o povo não parece estar ligado a este tipo de coisas sem valores.

Já os grandes capitalistas, banqueiros, demais agiotas e sanguessugas de serviço, vão mostrando algum entusiasmo no aprofundamento das políticas de união económica e monetária que lhes permitam manter o dente canino bem ferrado na nossa tão maltratada jugular.

Os governos, essas matilhas meio desengonçadas de miúdos com bandeirinhas na lapela, a fingir que têm ideologia política para lá do fundamentalismo económico, tudo fazem para manter o actual estado das coisas: lucros privados, prejuízos nacionalizados. A cúpula está firme, os alicerces abanam com a mais suave das brisas.

O povo parece estar mais interessado no pão que no circo, daí que seja previsível a queda de uns quantos palhaços caso não se consiga encontrar um método mais eficaz de distribuir as migalhas que vão sobrando na mesa da chularia.

A União Europeia não passa de um aleijão democrático, para mal dos nossos pecados económicos.

sábado, janeiro 12, 2013

Heróis

Nietzsche declarou a morte de Deus, Fukuyama proclamou o fim da História. Os Stranglers cantaram o fim dos heróis.

Procurando um herói no firmamento das estrelas mediáticas da actualidade é, de facto, complicado encontrar alguém que se enquadre no conceito. É como se o heroísmo fosse da categoria dos milagres bíblicos ou do tempo em que os animais falavam.

Sem heróis é difícil exemplificar a universalidade dos valores e sem valores só há bandidos.

Um herói não é obrigatoriamente uma pessoa inteligente. Se o não for terá de compensar essa falha aparente com uma fé determinada ou com sensibilidade suficiente que lhe permita discernir entre aquilo que é universal e aquilo que é vulgar, mesquinho, particular e interesseiro.

O herói bate-se pelo bem comum, derrota os bandidos que pretendem impor a sua visão totalitária fazendo triunfar os valores universais.

Dêem-me um herói para os nossos tempos, apontem-mo, indiquem-no ao mundo. Ou será que os Stranglers tinham razão?

quarta-feira, janeiro 09, 2013

Verdade, realidade e o resto

Já noutras ocasiões aqui se reflectiu sobre a não coincidência entre aquilo que sabemos ser verdade e a realidade que conhecemos.

As deformações causadas pela colocação do observador em relação a um objecto e a perspectiva segundo a qual aborda questões e problemas, nem sempre são levadas em consideração e, por isso mesmo e não só, o resultado de uma reflexão redunda em opinião, que não é sinónimo de verdade.

Confuso, não é? Também me parece.

Vem esta conversa algo obtusa a propósito de uma notícia que, à primeira vista, mais não é que um fait divers, a notícia sobre uma "misteriosa guerra dos portugueses na Índia que só existiu na Wikipedia" (ler aqui).

Sempre que consultamos o oráculo Google, esse semideus do mundo virtual, é usual sermos conduzidos, em primeira opção, direitinhos às "páginas" da Wikipedia.

Ali encontramos informação gratuita e variada sobre os mais abstrusos assuntos, desde o ponto-de-cruz à mecânica quântica, da vida sexual das minhocas à melhor forma de construir uma bomba nuclear.

Tudo nos é oferecido espontaneamente, automaticamente, dispensando o trabalho de pesquisar diversas fontes, de comparar informação e opiniões antagónicas, oferecem-nos o mundo já mastigado, regurgitado e pronto a engolir sem mais trabalho que não seja o de abrir a goela.

Qualquer texto mais complexo e menos esquemático que nos surja nas ruelas esconsas deste mundo "internético", qualquer leitura que nos obrigue a mais que meio minuto de concentração é, por nós, quase imediatamente rejeitada. Não temos tempo, não temos paciência, não há espaço mental para pensar e ninguém nos paga para isso.

A gente ou "like" ou então nada!

Na ilusão de que temos ao nosso dispor uma imensidão infinita de conhecimento e sabedoria engolimos a maior das patranhas misturada na mais profunda das verdades reveladas. É tudo a mesma coisa, não há distinção entre uma colherada de merda e uma garfada de fillet mignon. Sabe tudo ao mesmo, tem tudo o mesmo odor, não temos de mastigar; apenas engolimos.

O conflito de Bicholim está aí, é uma pequeníssima fraude. Que mal pode dali vir a este mundo?

terça-feira, janeiro 08, 2013

Saúde!

Manoel de Oliveira está de regresso a casa. Com 104 anos de idade o velho cineasta continua a desenvolver projectos ininterruptamente e não parece haver maleita que o atrase.

Fascina-me a longevidade lúcida de certas pessoas. Continuar a dirigir projectos cinematográficos aos 104 anos de idade mostra que não há prazo de validade para as nossas capacidades criativas. O exemplo de Manoel de Oliveira é inspirador: a paixão pelo trabalho é como água da Fonte da Juventude.

Este homem dá sentido à esperança.


domingo, janeiro 06, 2013

O russo


Esta historieta rocambolesca da troca de nacionalidade tem feito correr mais tinta do que, se calhar, devia. Pessoalmente não sei se me espante. Na verdade nunca liguei muito a Depardieu, cuja principal qualidade sempre terá sido, a meu ver, o nariz torto e uma figura grotesca que ele equilibra com uma imagem afável. O tipo parece bonzinho.

Pelos vistos não é tão bonzinho como parece e, com um nariz daqueles, quando lhe sobe a mostarda perde a compostura.Trocar a cidadania francesa pela russa parece-me um pouco andar de cavalo para burro, mas o vil metal fala alto e cada um sabe de si.

A fazer fé numa notícia que acabei de ler num jornal desportivo online, ter-lhe-á sido oferecido o lugar de Ministro da Cultura de uma república russa, a Mordóvia. Isto é que é subir rápido na vida!

Nunca tinha ouvido falar da Mordóvia (o nome presta-se a jogos de palavras brincalhões) mas, pelos vistos, o lugar de Ministro da Cultura lá para aquelas bandas dispensa a necessidade de falar a língua local. Imagino que, tal como diz Depardieu, seja um sítio onde há uma democracia muito bonita.

Na verdade Gerard Depardieu sempre foi russo! Embora na imagem não se note, pois está caracterizado como Rasputine e, por isso, tem o cabelo escuro, o actor ex-francês tem o cabelo russo. Sempre teve.

sexta-feira, janeiro 04, 2013

Ano novo

A tentação para a auto-comiseração é grande mas, sendo tentação, é possível que seja pecado. Andar para aí, a chorar pelos cantos, até que pode dar jeito. Sempre esvaziamos a merda dos sacos lacrimais e ficamos com o olhar mais límpido, lavadinho.

Após termos chorado tudo o que havia para chorar e lamentado o que havia para lamentar, das duas uma: ou repetimos a coisa ou cagamos nisso.

Repetir o choradinho em loop não atrasa nem adianta. Estando feito, é meter no saco e atirar ao rio com duas pedras a ajudar que descubra o fundo.

Cagando nisso (assoado o nariz e esfregados os olhos) é tempo de pensar uns segundos no que se segue. O que vem aí? Aí vimos nós, aos saltos, com botas e pés pesados! Acautelem-se os que não são dos nossos!

quinta-feira, janeiro 03, 2013

Acordando

Um cartoon de Luís Afonso publicado num dos últimos dias do ano passado. 
O humor quer-se assim, meio torto, meio azedo com uns pozinhos de açúcar.

Clicar na imagem para ver melhor

VerTV

Um estudo daqueles estudos que nos põem a olhar para coisas que não nos lembraríamos de ver se não fossem, precisamente, esses estudos, vem revelar que o consumo de televisão em Portugal aumentou brutalmente no ano que expirou aqui há três dias atrás.

Tentando explicar os dados recolhidos, relaciona-se o consumo de TV com a crise económica e a falta de dinheiro para aceder a outros bens culturais (partindo do princípio que a TV pode ser considerada um bem cultural, assim, por atacado).

Os portugueses vão (ainda) menos ao teatro, ao cinema, assistem a menos concertos, viajam menos, fecham-se mais em casa e abrem a janela da TV para olhar o mundo. Já não eram grandes leitores mas, com o dinheiro a desaparecer no pagamento de impostos e de contas mensais, a venda de livros também tem descido vertiginosamente.

Podemos concluir que a crise nos empobrece das mais variadas formas sendo o empobrecimento cultural um facto inquietante. A pobreza do espírito poderá abrir as portas do céu mas isso só importa depois de morrermos, na hora de prestar contas ao Criador. Enquanto por cá andamos, a indigência cultural aproveita, principalmente, a quem pretende aproveitar-se de nós.

Um povo embrutecido, agarrado às telenovelas e aos reality shows, que recolhe informação preferencialmente nos telejornais e que é bombardeado com anúncios publicitários, tende a criar narrativas perigosamente simplistas do mundo que o circunda.

Um povo assim está pronto para a faca, carne fresca para ser retalhada pelos gulosos que, depois, ainda nos roerão os ossos, caso estejam com disposição para isso. A crise é um autêntico tsunami social.

segunda-feira, dezembro 31, 2012

Bom Ano de 2013

Estava para aqui a ponderar a possibilidade de desejar um bom Ano de 2013 a quem ler estas linhas. Em Portugal o sentimento geral é de grande apreensão sobre o que o Novo Ano nos poderá trazer. Há razões fundamentadas que sustentam todos os nossos receios mas, como diz o povo, a esperança é a última coisa a morrer e, enquanto tiver um soprozinho de vida, devemos acarinhá-la.

Assim sendo, desejo a todos que não desliguem a máquina que vai evitando a morte cerebral da esperança. Enquanto ela não bater completamente a bota teremos ainda uma hipótese de ver 2013 trazer-nos algo que não apenas desespero e desconfiança.

Corações ao alto, hoje (pelo menos hoje) é dia de festa!

sexta-feira, dezembro 28, 2012

A lista

No atropelo dos dias a correr todos para ver qual deles chega primeiro ao último do ano fazem-se as habituais listas.

Refiro-me às listas dos melhores filmes, dos melhores livros, dos melhores dos melhores do ano, discos, personagens e acontecimentos, um caleidoscópio de factos e ideias difícil de conceber quando não se tem a eloquência cultural de um crítico jornalista.

Invejoso como sou, não quero ficar atrás das luminárias que tudo leram, tudo viram e ouviram, ganhando dessa forma uma autoridade que não tenho mas que posso fingir que tenho. A inveja tem destas coisas.

Como sou desorganizado e  chego muitas vezes tarde e a más horas ao conhecimento exigido (se frequentasse o Facebook com maior regularidade talvez me safasse) vou aqui lavrar uma lista digna da minha soberba. É possível que algumas das coisas que constam desta lista nem tenham saído este ano, não há problema.

Assim:

O melhor filme do ano foi "Vergonha" daquele gajo com nome de actor mas que é realizador e foi artista plástico. Mas também gostei muito de "Tabu" do muito nosso Miguel Gomes e poderia citá-lo antes do outro. É uma questão de pedantismo cultural...

O melhor disco (dos que ouvi) foi "Blunderbuss" de Jack White. Decerto me estão a escapar montes de coisas interessantes mas, assim de repente, não me ocorre outro o que deve fazer deste o que mais me impressionou.

O melhor livro que li este ano... caraças, esta é mais complicada. Sei que "Mel" de Ian McEwan saiu em 2012 e é um grande livro. Também me agradou "A Boneca de Kokoschka" de Afonso Cruz mas, vejo agora, que já foi editado em 2010. E depois? Li uma mão-cheia de bons livros, "O Varandim seguido de Ocaso em Caravangel" de Mário de Carvalho foi editado este ano e também poderia figurar no topo. Fico por aqui que já estou a ficar confuso.

Termino a minha singela lista com a escolha do melhor palhaço ou o maior palhação, não interessa muito para o caso. Esta é fácil e difícil: entre Miguel Relvas e Pedro Passos Coelho venha o Diabo e escolha. De preferência que escolha os dois e os leve com ele.

Até breve e boas listas.

quinta-feira, dezembro 27, 2012

Um desejo

O Natal passou, vem aí o último dia deste ano. 2012 sempre vai acabar com o mundo, aparentemente, intacto ou, pelo menos, apenas um pouco menos saudável. Nada de muito preocupante.

Desejar um Novo Ano feliz soa a conversa mole, conversa de circunstância. O melhor é não o fazer. Fico-me por um desejo mais sincero, caro leitor, quanto ao Novo Ano, desejo, apenas, que lhe sobrevivas. Dê lá por onde der.


sexta-feira, dezembro 21, 2012

Viva o Mundo!

E pronto, é oficial, o mundo acaba (acabou?) hoje.

Já tantas vezes morto e enterrado, o mundo renasce sempre, transformado, como larva que gera borboleta que gerará nova larva e nova borboleta e outra larva, por aí fora, até que alguma borboleta não encontre mais céu para voar nem raio de luz para disputar. O que não é o caso.

Alguns sinais, discretos mas perceptíveis, provam a morte do mundo: a caixa de correio vazia em vésperas de Natal; o frenesim apático de inteligência que anima os corpos que cruzam o centro comercial em velocidade de cruzeiro fantasma; a falta de esperança no novo ano que se aproxima à distância de poucos dias...

O fim do mundo não é, ao contrário do que pretendem alguns fanáticos alarmistas e maus realizadores de cinema, uma sucessão fantástica de calamidades que tudo arrasa em explosões espectaculares e multidões em fuga para lado nenhum, gritando como manadas de vitelos desmamados. Não. O fim do mundo é uma coisa secreta que acontece todos os dias. Dentro de cada um de nós, fora da realidade comum.

O mundo que hoje acaba (acabou?) é um cadáver há muito adiado. Anunciar o seu fim nos meios de comunicação social apenas tornou visível essa mortezinha quotidiana, faz ver a quem não tem olhos como as coisas são frágeis e transitórias. Nada de mais, mera banalidade essa: a agonia de um planeta inteiro dentro de cada um de nós.

E pronto. O mundo morreu, viva o mundo! É tempo de continuar a viver.

segunda-feira, dezembro 17, 2012

A morte como Bela-arte

"Mata-os suavemente" é um filme que tenta fixar uma estranha forma narrativa, sobrepondo duas camadas, duas linhas narrativas, em simultâneo.

Por um lado seguimos os acontecimentos que vão constituindo o quotidiano sombrio das personagens, por outro acompanhamos, através da TV e de um ou outro "outdoor" a campanha eleitoral que marcou o fim do reinado de Bush e a ascensão de Obama à presidência dos EUA.

Há sempre uma espécie de eco, um eco da realidade histórica, que se sobrepõe ao fio narrativo e ficcional do argumento. O resultado é, por vezes, elegante, noutras ocasiões resulta num grosseiro sublinhar daquilo que está, evidentemente, retratado perante os nossos olhos.

Talvez resida aqui alguma fragilidade, uma certa incapacidade de manter um discurso equilibrado, como se o realizador ora considerasse o espectador como alguém inteligente ora estivesse a dirigir-se a um imbecil, incapaz de compreender certas subtilezas narrativas.

Em termos formais pareceu-me muito bom. Os enquadramentos e as sequências visuais têm momentos perfeitos. Quando a cena exige contenção e simplicidade, ela está lá, quando o realizador sente necessidade de estilizar a acção ao ponto de a transformar em mero artifício não hesita em fazê-lo. A violência tem momentos de uma beleza pungente, quase comovente, que divide com situações de uma crueza selvagem.

Uma última palavra para os desempenhos dos actores, merecendo destaque a prestação de James Gandolfini, um assassino a perder a mão e o jeito. Os outros, com Brad Pitt à cabeça, vão todos em grande estilo.

Enfim, um filme a ver com o agrado que formos capazes de sentir perante um objecto predominantemente sombrio.

sábado, dezembro 15, 2012

Massacres

Os massacres de inocentes sucedem-se a um ritmo estranho nos EUA (ver aqui lista). Os assassinos, nitidamente loucos varridos, dedicam a sua fúria desconcertante para os mais variados grupos.

Em Agosto um gajo abateu seis cidadãos e feriu outros três, cuja particularidade, inquietante para a sua mente perturbada, era o uso de turbante sikh. Pouco tempo antes, em Julho, um outro maluco assassinara a tiro de metralhadora 12 espectadores de um cinema no Colorado (e feriu mais 59) que se preparavam para assistir à estreia do mais recente filme do Batman.

Os assassinos suicidam-se, são abatidos ou apanhados e condenados, isso não interessa muito para o caso. A questão é: porque acontece isto tão regularmente em território norte americano?  A resposta parece ser óbvia: porque um gajo pode ir, por exemplo, ao barbeiro e, entre um corte de cabelo e uma manicure, comprar uma arma automática com munições sem ter que explicar a ninguém o desejo de possuir tão macabro brinquedo.

É conhecido o poder dos fabricantes de armas nos EUA (se fosse só nos EUA...) e a sua inacreditável capacidade para perpetuar a venda livre de pistolas, metralhadoras e bazucas lá na terra deles. O argumento económico pesa, e de que maneira, para manter esta situação selvagem.

Tudo isto configura uma metáfora poderosa do estado civilizacional a que chegámos. A morte é fácil mas o dinheiro flui... já a vida parece demasiado cara para ser preservada. A morte é, de longe, mais barata e lucrativa do que a vida.

quarta-feira, dezembro 12, 2012

Olha para mim


Há pessoas a quem a necessidade de atenção obriga a fazer coisas estranhas.

Aquele rapaz caminhava com os gestos gingões que deve ter visto nos maus da fita de um qualquer vídeo de hip hop de quarta categoria, um vídeo daqueles, cheio de gajas boas e cantores atarracados sob o peso de correntes de ouro, anéis enormes e bonés colocados às três pancadas, encavalitados no cucuruto forrado com lenço colorido. 

É um passo em cadência embriagada, ao ritmo de uma música imaginária, que lhe desorganiza o peso dos pés e das pernas, que confunde aos nossos olhos a força da gravidade. Desloca-se enredado na teia daquele complexo jogo de forças invisíveis, a serpentear dos calcanhares às nádegas, das nádegas à ponta dos ombros, a parecer que cai, mas não cai, a pisar o chão com demasiada força após um movimento da perna que parecia suave e gracioso.

Esse rapaz acompanha um outro que, não sendo tão estiloso no andar, tem uma característica complementar. Vai agarrado a um telemóvel, debruçado para dentro dele, teclando furiosamente com o polegar direito. Fala alto, como se tivesse um megafone incorporado e tem um aspecto algo patusco de aspirante a presidiário, uma dureza construída à força e demasiado óbvia. 

São dois bonecos de um museu de cêra dos horrores domésticos, dois animais de estimação a quem falta o dono, a quem falta quem lhes dê atenção e os leve a mijar no fim de mais um dia sem outra coisa que não seja exibir o aspecto duvidoso, como se isso fosse uma grande (e única) qualidade. 

Olho para eles e penso "nunca ninguém lhes disse que eram bonitos, nem mesmo quando foram pequeninos". E não vou ser eu quem lhes diz isso. Eles nunca vão ser bonitos. Se era atenção que eles queriam, aqui a têm.

domingo, dezembro 09, 2012

Aniversário

Aqui há uns dias atrás o 100 Cabeças cumpriu o 7º aniversário. Como de costume nem me apercebi (a data de nascimento deste blogue é algures para os finais de Novembro) e venho assinalar a efeméride com o atraso habitual.

Muito se tem falado da falência da Blogosfera (chegou mesmo a surgir o termo Zumbisfera) e das razões que levam a esse suave desvanecimento. A leitura de "O ÚLTIMO BLOG e outras blogagens" veio recordar-me uma série de questões relacionadas com a motivação do "blogueiro" e as dificuldades de encontrar e manter leitores (a parte em que o Eduardo expõe as características que considera essenciais para que um Blogue seja capaz de "prender" leitores é muito interessante).

Realmente, as dúvidas e as questões enrolam-se constantemente umas nas outras e vão fazendo com que o "blogueiro" ora seja assíduo, ora se sinta algo desmotivado e vá fazendo gazeta à escrita.

Seja como for, já lá vão 7 anos a "blogar" e, para ser sincero, não estou a ver o fim próximo para esta coisa. Será teimosia, ego desmesurado, simples ingenuidade ou outra coisa qualquer. A verdade é que o 100 Cabeças passou a fazer parte de mim (ou terei sido eu que passei a fazer parte dele?).

Parabéns (atrasados) a mim próprio, o 100 Cabeças!

sexta-feira, dezembro 07, 2012

A força da Palavra

Joaquim Benite

Há dias em que só me apetece dizer "foda-se"!

Expressão profundamente grosseira, de uma deselegância próxima da boçalidade camponesa que enformou a minha mais tenra infância, "foda-se" é mais do que uma palavra, foda-se é um estado de espírito.

Foda-se a morte, foda-se a vida, fodam-se os mortos e fodam-se os vivos. Dita assim muitas vezes, a palavra foda-se tem qualquer de catártico, esconjurando fantasmas e traumas com uma eficácia desarmante.

Dizer foda-se muitas vezes e de forma apropriada poupa-nos uma ida ao psiquiatra e faz-nos evitar a cartomante da esquina. Foda-se é uma expressão libertadora que contribui para a poupança de uns dinheiros que, de outra forma, seriam (mal) aplicados em terapia desnecessária.

Anteontem faleceu o Joaquim Benite, ontem o eterno deixou de fazer sentido com a morte de Niemeyer. Dizer a palavra (foda-se) ajuda a aliviar a sensação de que há fantasmas que o Inverno liberta e ficam por aí a reclamar vidas a que pensam ter direito, mesmo do outro lado do mar oceano onde nem sequer faz sentido que se morra por não estar o frio que aqui se faz sentir.

Foda-se.

Dickens intuiu a coisa com o seu Scrooge e os fantasmas natalícios. Mas, como era um homem bem educado, não utilizou, no seu conto imortal, a palavra mágica: foda-se. Convenhamos que é a palavra que falta ao conto para que seja uma obra-prima absoluta e não aquilo que realmente é, uma extraordinária obra-sobrinha.

Termino este mal-humorado post com a sugestão: leitor amigo, experimenta dizê-lo alto - FODA-SE. Se porventura não sentiste um leve sopro libertador, então repete, di-lo mais alto, grita-o se necessário for. O mundo não merece mais do que isso. Estranhamente, também não merece menos.




quarta-feira, dezembro 05, 2012

Milagre zumbisférico

Recebi um exemplar de  "O Último Blog e outras blogagens", uma espécie de milagre contemporâneo em que o virtual se transmuta em objecto palpável.

Mais credível que um deus que se fez carne ou aqueloutro que se fez livro, o milagre acima referido tem o cunho do Eduardo Lunardelli que, estou em crer, dispensa qualquer tipo de apresentação aos leitores eventuais deste meu post.

Ler "O Último Blog" é como surfar na internet só que num "book" verdadeiro, com folhas de papel e letras impressas. A sensação é estranhamente agradável, até porque não é todos os dias que temos a possibilidade de confirmar um milagre verdadeiro e é reconfortante confirmar que coisas dessas acontecem fora da estreita vigilância dos polícias do Vaticano.

"O Último Blogue e outras blogagens" é um milagre zumbisférico.

Post Scriptum Juntamente com o referido livro-milagre chegou também a colectânea de poesia intitulada Poema [entre chaves] onde o Eduardo reúne alguns dos poemas que vem postando lá no Varal de Ideias.

sábado, novembro 24, 2012

Você está aqui

Para sabermos ao certo aquilo que queremos talvez tenhamos de simplificar o leque das nossas opções. Precisamos de um desenho simples, uma linha clara preenchida com cores planas, sem sombreados ou modelações complexas. Mais De Stijl e menos Dada.

Será que apenas após compreendermos a clareza essencial da estrutura das formas (e do raciocínio) podemos aventurar-nos em loucuras visionárias sem corrermos o risco de perder o tino?

Toda a simplificação resulta de um afastamento. Um olhar afastado permite desenhar um mapa. A nossa capacidade de abstracção faz o resto, confere-lhe sentido. Consultando a linha que representa a rua onde caminhamos deslocamo-nos no sentido pretendido. Fazemos isso dentro da nossa cabeça e, em simultâneo, caminhando sobre os nossos pés. É um exercício de abstracção absoluto e, no entanto, intimamente relacionado com o mundo real.

Também para compreendermos o que se passa com a nossa sociedade necessitamos de afastamento. Analisar o tempo presente é demasiado confuso, estamos dentro dele e ainda ninguém conseguiu desenhar um mapa conceptual que o possa resumir. Estamos demasiado envolvidos.

A História é um exercício de análise do passado que permite delinear formas simples e mais ou menos lineares. O historiador concentra-se na representação de determinados aspectos e passa-nos uma imagem que somos capazes de compreender (ou pelo menos imaginamos que somos capazes de compreender).

Traçar o mapa dos acontecimentos recentes mostrando a cada um de nós em que ponto da nossa História individual nos encontramos e para onde podemos dirigir-nos sem que percamos o fio à meada é algo do domínio da utopia mais absoluta. Caminhamos às cegas, avançamos por instinto e ninguém pode garantir que não estamos a recuar ou a deslocar-nos em círculos.

Imagino que seria interessante poder olhar um mapa do tempo presente (com indicações seguras em relação ao tempo futuro e mostrando com correcção o caminho até aqui percorrido) e ter aquela indicação que é habitual nos mapas turísticos, com um círculo vermelho bem destacado e a frase mágica "você está aqui".

sexta-feira, novembro 23, 2012

Sonhar não é igual a dormir!

Pergunto a mim próprio porque insistem certos pensadores, alguns intelectuais e muitos bestuntos pretensiosos em afirmar que o mundo resvala para o abismo, que perde qualidades éticas e estéticas, que, em suma, se vai desvanecendo a idade do vinho e das rosas que teremos em mãos e deixamos escorrer entre os dedos como areia fina a procurar solo horizontal defronte ao mar?

Para que esta imagem pudesse materializar uma vaga realidade que fosse, necessário seria que o nosso mundo alguma vez houvesse tido como principais qualidades a ética ou a estética. Isto alguma vez terá acontecido?

O mundo não está menos ético ou menos estético pela simples razão de estes valores nunca foram características dominantes. A mistura ponderada de ética e estética, essa eterna utopia da "Beleza", demanda mais nebulosa ainda do que a do Santo Graal, é uma espécie de mito democrático nascido no horizonte longínquo da mais antiga das grécias que somos capazes de convocar na nossa desorganizada memória colectiva.

O mundo não está mais nem menos, está exactamente na mesma, como a lesma. Talvez o problema não seja a realidade mas sim as expectativas que construímos na tentativa de conseguir um objectivo comum. Imaginámos que poderia haver uma mais equitativa distribuição da riqueza? Está bem abelha.

"O sonho" soa quase igual a "o sono" que, como bem entendemos, estão longe de ser uma e a mesma coisa embora soem de forma perigosamente idêntica aos nossos ouvidos. Quantas vezes sonhamos acordados e dormimos sem sonhar?

sexta-feira, novembro 16, 2012

Pornografia



Macacos Sábios

Ver os mais altos responsáveis pela governação deste país aplaudir a actuação da polícia nas cenas de porrada a que todos assistimos em directo nos canais de televisão é algo pornográfico. Cavaco e Passos primeiro não tinham visto nada, não se podiam pronunciar sobre os acontecimentos.

Mais tarde, imagino que após terem visionado aquele espectáculo edificante, só puderam aplaudir o ataque indiscriminado das forças policiais sobre as pessoas que se encontravam defronte às escadarias da Assembleia, cada vez mais símbolo da vergonha do nosso regime político.

Tudo aquilo foi estranho.

Foi estranho ver meia dúzia de energúmenos a desfazer a calçada e a atirar pedrada após pedrada, horas a fio, sobre uma fila de polícias de choque em postura cristã, como se oferecessem a outra face. Coitadinhos. 

Foi estranho ver os bandidos a rir, a fazer pontaria, impunemente, alguns de cara bem destapada, sem que houvesse a mínima reacção das forças que, por comodidade, continuamos a chamar de “forças de segurança” mas que, quando se atiram à populaça, se transformam em forças de agressão.

Foi estranho ver os manifestantes que se colocaram em frente aos polícias apedrejados, quais escudos humanos, pondo em risco a sua integridade física (ó Cavaco, ó Passos, e uma palavrinha de apreço para com estes cidadãos?).

Os polícias foram atiçados, quais mastins sem açaimo, sobre os populares. Agrediram muitos que, é evidente para qualquer pessoa que tenha assistido aos desacatos, mesmo que pela televisão, não tinham atirado pedras, nem garrafas, nem petardos. Prenderam uns quantos, acusados de resistência e ofensa à autoridade. 

Há tantas imagens filmadas, tantas fotografias, tantas testemunhas oculares que decerto não será difícil provar se os que agora foram presos participaram, de facto, naquele triste espectáculo.

Tudo isto foi demasiado estranho. 

Habitual foi, apenas, a forma histérica e desproporcionada como os polícias agrediram a torto e a direito quem lhes apareceu pela frente. Os responsáveis pelas calhoadas não só as praticaram como lhes deu na real gana como ainda se pisgaram dali para fora na maior das impunidades.

O que já não foi tão estranho foi que, após um dia de greve geral em vários países da Europa, num dia em que a CGTP apresentou uma série de medidas de combate à crise que até Bagão Félix considerou dignas de atenção nas páginas deste jornal, se tenham focado os holofotes nos pobres polícias, vítimas de um bando de arruaceiros, como se mais nada tivesse acontecido. 

A quem aproveita toda esta ópera bufa? Com governantes deste calibre, assistir ao “espectáculo da democracia” é como ver um filme de “bunga bunga”. Ou pior ainda. 

Carta enviada à Directora do jornal Público (sem as imagens)

quarta-feira, novembro 14, 2012

Olha aí!

O Eduardo tinha prometido e cumpriu! Do mundo virtual para o mundo que imaginamos como sendo o real aí está O ÚLTIMO BLOG e outras blogagens. Há quem ainda não tenha lido e tenha gostado. É a literatura da Zumbisfera a invadir o espaço habitado pelos seres humanos (e restantes animais domésticos). Para quem tenha dúvidas: a blogosfera existe MESMO!
Vou querer ler.

sábado, novembro 10, 2012

China

Tenho seguido com interesse e avidez as reportagens de Paulo Moura que vêm sendo publicadas no jornal Público ao longo dos últimos dias com reflexos no blogue Repórter à Solta. (também aqui)

É um relato de viagem com contornos épicos. A escrita de Moura tem uma limpidez rara e a forma como organiza descrições de acontecimentos e informação recolhida junto das pessoas que foi contactando, fazem destas reportagens peças muito interessantes para tentarmos um rabisco que nos permita vislumbrar uma migalha da imensidão que é a China.

No jornal de hoje a peça de Moura termina de forma elucidativa.
Tao Feiya, professor de História Cultural na Universidade de Xangai, quando questionado sobre o que considera que a China tem para oferecer ao mundo, remata uma série de considerações afirmando que "Os chineses sempre foram pobres ao longo de milénios. Essa é uma das suas características mais marcantes. Por isso desenvolveram valores de trabalho, de honradez. Nenhuma família gosta de ter um filho ou um marido preguiçoso. É uma vergonha. Esses valores, de simplicidade e trabalho, talvez sejam o que a China tem para ensinar ao mundo".

Olá China.

domingo, novembro 04, 2012

Manhã cinzenta



Eu acho que ando triste mas tenho a impressão que não sou só eu quem está triste, parece-me que o país inteiro exala tristeza em suspiros profundos que depois se espraiam por aí como vento morno soprado do norte de África.

Dizer que Portugal, um país, está triste, pode parecer metáfora barata mas, a bem dizer, é o mesmo que dizer que os mercados, que são mercados, estão nervosos.

Já não bastava a Portugal a crise, agora também o céu insiste em manter-se cinzento e a chorar com frequência. Quanto aos mercados basta olhar para aqueles gajos que trabalham nas bolsas, a gesticular como se estivessem a ser electrocutados, a esbracejar como se estivessem a ser atacados por um enxame de vespas furiosas.

Este país está a precisar de consulta psiquiátrica mas não tem dinheiro para pagar a factura nem há psiquiatra à altura dos nossos problemas colectivos. Já os mercados parecem ter acalmado. Ao que se diz por aí eles acreditam que vamos pagar a nossa dívida. Talvez seja essa a fonte desta nossa tristeza… a calmaria dos mercados…

PS O Zé continua à espera que alguém se digne a operá-lo. A manhã continua cinzenta...