sábado, maio 08, 2010

Um pensamento confuso


Ontem realizaram-se eleições em Inglaterra. Quero dizer, na Grã-Bretanha que os escoceses e os galeses também votam naquela eleição. Ou melhor, votou-se no Reino Unido, uma vez que a Irlanda do Norte é considerada parte da coisa e não um país ocupado e por lá também há quem tenha direito a votar. Pronto, deixando de lado precisões escusadas e irritantes, quero eu dizer que se votou para eleger o parlamento inglês.

A percentagem de participação dos eleitores até foi interessante, 65,1%. Bem bom! Mas, segundo as notícias, houve centenas (milhares?) de eleitores que deram com o narizinho na porta da sua "polling station" e não puderam enfiar o boletim na urna. As mesas de voto encerravam às 22 horas lá do sítio e, segundo as regras, depois dessa hora só pode votar quem tiver o boletim na mão. Rezam as crónicas que, conforme os locais, houve diferentes atitudes. Uns meteram o pessoal todo dentro dos edifícios, outros distribuiram boletins aos que faziam fila lá fora permitindo-lhes que votassem e, finalmente, houve quem simplesmente mandasse para casa os eleitores que esperavam pela sua vez que, assim, não puderam exercer o seu direito fundamental.

Ok. Este episódio deixou-me a pensar numa coisa. Se em Inglaterra (ou Grã-bretanha, ou Reino Unido) as coisas se passam assim, como será no Iraque ou no Afeganistão, só para citar dois exemplos recentes de democracias enxertadas em territórios sem tradição democrática? No fim o que conta são os números, as percentagens e os deputados eleitos. Mas o sistema parece não funcionar lá muito bem (lembram-se como Bush foi eleito com aquela vigarice das recontagens dos votos na Florida?).

As perguntas são incómodas:

A Democracia existirá de verdade?

A eleição democrática tem alguma possibilidade de funcionar na realidade, sem trafulhices nem erros grosseiros?

Ou será que o sistema é mantido apenas para garantir a aparência de que funciona?

Estaremos a viver num mundo de faz-de-conta onde o que importa é que a Economia funcione de acordo com o seu desregramento inumano e predador?

Mais uma vez sinto que a Verdade e a Realidade coexistem mas é impossível que coincidam. São coisas diferentes e a vida é algo que se passa algures entre elas. A Verdade é o que nós imaginamos e a Realidade é aquilo que acabamos por receber em troca dos nossos sonhos. É confuso não é? Também me parece.

quinta-feira, maio 06, 2010

Olá, tás fixe?


O Papa está por aí a rebentar, não tarda. Já se sente aquele frenesim do costume, com os crentes mais fanáticos a mostrarem a quem quiser ver como são devotos e pios e bons e tudo o mais. E que quem não fôr como eles não merece sequer um sorriso, por amarelo que seja.

A forma como a visita papal está a ser encarada pela sociedade portuguesa mostra que somos mesmo um país à parte. Fecham escolas, fecham hospitais e repartições públicas, fecha tudo menos as lojas que vendem santinhos e as roulottes de bifanas e couratos que a oportunidade de negócio é santa. Isto numa república laica, onde a igreja ocupa um lugar ambíguo que parece ser maior ou menor conforma há ou não há Papa na costa.

Quando chegar o bispo de Roma vai ser uma lufa-lufa de personagens públicas a fazerem ar de santinhas, a quererem mostrar como são mais papistas do que ele, para o labrego ver e o papalvo engolir.

Enfim, avizinham-se dias de grande histeria colectiva que em nada ajudam a compor o estado lastimável da nação portuguesa. A menos que o Papa faça um milagre que nos salve do caos económico. Isso é que era! Mais tarde, quando Ratzinger morresse, sempre teriam um bom motivo para a canonização do costume.

quarta-feira, maio 05, 2010

E se... talvez.


Pensando bem e olhando de relance para o mundo em que vivemos fica a dúvida sobre para que raio de merda serve afinal a escola. Não falo apenas do falhanço na transmissão de conhecimentos que referi no post anterior. Falo da escola em si, enquanto lugar de aprendizagem.

Num mundo tão avassaladoramente mediatizado como o nosso, essa transmissão de conhecimento está dispersa. A Wikipédia é uma espécie de escola e serve às mil maravilhas as aspirações de rápida resolução de problemas dos jovens, ansiosos por se libertarem dos enfadonhos deveres do trabalho escolar. Tão rápido e fácil quanto simples e superficial.

Talvez tenha sido sempre assim. Talvez tenhamos procurado durante séculos uma fórmula que permitisse o conhecimento instantâneo e o tivéssemos descoberto agora, com este mundo virtual onde nos encontramos. Resolvemos o problema mas a solução não parece particularmente elegante. Talvez a evolução social contemporânea implique esta espécie de boçalidade intelectual. Terá sido sempre assim? Não terei eu parecido um labrego selvagem aos olhos dos meus professores? Temo bem que assim tenha sido.

A escola está a tornar-se obsoleta? Os miúdos consideram-na um excelente local de socialização mas uma tremenda seca enquanto local de aprendizagem. Talvez tenham razão.

Criámos um mundo em que o divertimento e o lazer são as aspirações máximas dos seres humanos. Trabalhar árduamente para alcançar objectivos determinados está a perder glamour. Quem trabalha são os otários. Os cidadãos com maior sucesso são aqueles que levam uma vida despreocupada com volumosos rendimentos, não sendo muito importante a sua origem. A vigarice e a ladroagem são toleradas se tiverem sido cometidas por uma boa razão. O enriquecimento rápido e sem limites é, aos olhos da maioria, uma boa razão. Contra isso a escola não tem argumentos eficazes. A ética e a moral são coisas próprias de utopias modernistas. Este mundo é pós-moderno.

Aliás, como sabemos, o exemplo vem de cima. Somos diáriamente confrontados com o despudor dos poderosos e daqueles que nos governam. Os negócios fraudulentos, a ineficácia dos sistemas de justiça, tudo nos mostra que o problema não está na escola. Afinal esses ladrões que agora nos governam foram nossos colegas, frequentaram as mesmas escolas que nós, aprenderam pelos mesmos livros. E qual é o resultado? Este mundo de merda em que vivemos, incapazes de cumprir as tais utopias democráticas que ganharam forma de contorno em meados do século anterior.

Resumindo e concluindo: o problema principal reside na fraca qualidade dos materiais com que deus construiu o ser humano. O futuro só será prometedor se não for mais do que uma refinada mentira. Sobra o presente.

terça-feira, maio 04, 2010

Tá-se


Algo está a funcionar ao contrário! Na escola ensina-se como é benéfica uma alimentação saudável, estuda-se a roda dos alimentos com sucessivas adaptações ao mundo contemporâneo e... cada vez se consome mais açúcar e junk food e os putos vão-se elefantizando a olhos vistos. A Europa é um planeta gordo, território para gente XXL.

Ne escola insiste-se na leitura dos clássicos. Camões, Fernando Pessoa, José Saramago, Sophia de Melo Breyner Andresen, citando apenas alguns dos autores portugueses mais massacrados. Resultado? Os putos mal sabem soletrar a palavra lei-tu-ra, lêem cada vez menos e escrevem aquelas mensagens de SMS e quejandos, cheias de kapas e abreviaturas abstrusas. O vocabulário aproxima-se perigosamente de um limite aceitável e está atolado em expressões pouco interessantes mas de suculenta sonoridade. Tipo: tipo, bué, iá, tá-se...

Dizem-nos que, além do Português, é com a Matemática que se completa a coluna vertebral de uma educação eficaz mas os putos ficam extasiados quando um professor faz uma conta de dividir no quadro. "O Stôr sabe fazer essas contas com casinha!" disse-me um aluno do 12º ano, a dias de entrar numa Faculdade qualquer, quando calculávamos as médias no final do ano passado.

Enfim, a lista segue por aí fora, como um rio de ignorância correndo furioso em direcção ao mar do conhecimento. Há qualquer coisa que não bate certo. O que a escola ensina parece ser o que os alunos conhecem pior. Conclui-se que a escola, de facto, não consegue ensinar o que pretende. Talvez ensine outras coisas que nem sequer suspeita que ensina. Ensinará? Os alunos talvez sejam os mais habilitados a responder a esta estranha questão mas, como sempre, não estão nem um pouco interessados. Muito menos me parecem preocupados.

Tá-se.

sexta-feira, abril 30, 2010

Colóquio aí na parede, pleeeease...


(na sequência do post anterior)

E se o vírus dos "tags" que infesta as paredes da cidade estiver relacionado com esta ânsia de estar constantemente a registar imagens de nós próprios? Como diz José Gil, e se a necessidade de "inscrevermos" a nossa existência no universo que habitamos nos leva a procurar todas as formas possíveis de darmos notícia de nós próprios?

Camões deixou a frase imortal e perfeita: "E aqueles que por obras valerosas Se vão da lei da Morte libertando", escreveu-a num tempo em que apenas aos heróis era reservado um lugar no edifício complexo do nosso imaginário colectivo. Mas "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades".

O ambiente da cidade, saturado de prédios, saturado de pessoas, de ruído, de lixo, de automóveis, é assombrado pela suprema saturação da informação global. O ambiente virtual, repleto de pequenos lugares mais ou menos visíveis, gera constantemente heróis instântaneos que se libertam não da Lei da Morte mas da Lei do Anonimato Absoluto.

Warohl tinha falado de algo vagamente semelhante a isto quando profetizou que no futuro todos teríamos direito aos nossos 15 minutos de fama. Esse tal futuro é hoje e, como percebemos, coisa não é bem assim mas a metáfora "warohleana" cumpre-se de certa forma a cada momento que passa.

Os "tags" são geralmente mal vistos pelos cidadãos comuns. Sejam eles mais ou menos artísticos, demonstrem mais ou menos capacidade técnica de quem os inscreve nas paredes da cidade, são quase sempre considerados como lixo, meros elementos de poluição visual num universo saturado de todo o género de poluições.

Imagino que para os seus criadores, os "tags" surjam com a maior naturalidade. Qual é o problema de pintar nas paredes? Afinal de contas está-se a criar um pequeno espaço ordenado no meio do caos visual circundante! O artista contribui para o "embelezamento" da cidade (pelo menos na sua óptica) apesar de ninguém lhe ter encomendado a obra. Além disso satisfaz a sua necessidade de se colocar no centro de uma certa narrativa urbana, faz parte de uma espécie de sociedade mitológica das pequenas divindades de lata de spray em punho, divindades com uma capacidade especial para gerar formas coloridas.

Finalmente (até porque este post já se alonga e não teria fim à vista se dissesse tudo o que me falta dizer) importa considerar que toda esta arte de rua, vista deste lado que é o lado de fora, carece de uma reflexão mínima sobre si própria. O "tag" parece-me uma coisa menor, uma masturbação esforçada (pelo individualismo da mensagem, pela falta de conteúdo e pela solidão que implica o acto), algo desinteressante em termos colectivos e vagamente satisfatório mesmo quando encarada sob o ponto de vista de quem o pinta. Mas, admito, posso estar redondamente enganado.


Esta noite, às 21,30, cumpre-se a 2ª sessão do colóquio sobre graffiti organizado pelo Ateliê de Artes da Escola Secundária Anselmo de Andrade. A primeira parte do colóquio teve lugar a 16 de Abril. Hoje como no dia 16, a coisa dá-se no Fórum Romeu Correia em Almada, na sala Pablo Neruda.

quinta-feira, abril 29, 2010

Imagens a metro


Domingo de manhã na loja da FNAC há sempre (ou quase?) uma sessão de contos infantis. Umas senhoras muito simpáticas levam um livrinho e, no pequeno palco repleto de "pufos" coloridos com criancinhas a enfeitar cada um deles, contam uma historinha. Os pais espalham-se pelas mesas do Café FNAC enquanto os infantes fruem a magia do momento. Uma ilha de humanidade no oceano de informação eléctrica que submerge constantemente cada um de nós. Os bébés também.

No final costuma haver lugar a troca de ideias com os espectadoreszinhos (estranha esta palavra! Será que existe? Passa a existir...) que, para acabar a função, fazem uns desenhos ou algo do género. Lindeza!

No Domingo passado calhou estar presente com o jornal e uma chávena de café assentes no tampo da mesa. Durante o desenrolar de toda a cena havia pais com máquinas fotográficas a disparar sobre as cabecinhas dos bébés. Plano picado, plano rasante, americano, grande plano, uma lufa-lufa de clics perante a total indiferença dos fotografados.

Dei por mim com a chávena de café suspensa nas pontas dos dedos e a boca aberta, hesitando entre enfiar um golo goela abaixo e o espanto de constatar que aquelas criancinhas convivem com as máquinas fotográficas com mais naturalidade do que conviveriam com um cão ou com um gato. A máquina fotográfica está, assim, ao nível do animal doméstico.

Os bébés nem sentem os clics, não lhes passam cartão, ser fotografado é menos que nada. As máquinas digitais aligeiraram de tal modo o disparo fotográfico, democratizaram-no tanto que, mesmo para os fotógrafos, o clic parece mais fácil do que nunca. Disparam-se dezenas, centenas (não quero abusar dizendo que se disparam milhares) de fotos em menos que nada. O mundo, já de si uma fonte de imagens, vê-se soterrado em reproduções incessantes de si próprio.

A relação destes cidadãozinhos com a imagem terá de ser substancialmente diferente daquela que os pais deles desenvolveram. Não me parece que o velho álbum de família resista muito mais tempo. Desaparecem definitavamente os fotógrafos que andavam pelas praias ou junto aos monumentos e ficam apenas as fotos automáticas disparadas por um robô escondido quando visitamos um daqueles locais de culto do tipo montanha russa ou museu de cêra.

É o mundo a acomodar-se a si próprio na mudança.

quarta-feira, abril 28, 2010

Próximo do fim


A crise; a bancarrota; o chão enegrecido pelo sangue sêco; uma página a mais; a água; um olho caído; o vôo da gaivota sobre o parque de estacionamento. Páro um momento. O écrã iluminado; trafulhice; o político; a pomba da paz com um colete anti-bala; o carro; a casa; o jornal; o calor... tanto calor! Não me passa nada pela cabeça. Fumo outro cigarro (nunca podemos fumar duas vezes o mesmo cigarro!). Levanto-me e caminho um pouco; escrevo com um pé sobre o outro, como se fosse um flamingo a fingir. Abano ligeiramente a cabeça. Estou cheio de informação, como um ovo cheio... daquilo que enche os ovos. A mulher curvada sobre o carrinho de bébé; a árvore; o cãozito a ladrar quando me viu; as pilhas gastas; os pincéis; a pintura.... o dia de amanhã.

O dia de hoje está próximo do fim.

sábado, abril 24, 2010

Um Profeta


Na 4ª feira passada lá fui ver "Um Profeta", o filme vencedor do Grande Prémio do Júri no ultimo Festival de Cannes. Duro e frio como um muro de granito, conta a história de um rapaz árabe que se faz homem no ambiente pouco prometedor de um prisão francesa.

A fotografia tem uma luz dominante demasiado baça, a acentuar a ausência do brilho dos bons sentimentos que atravessa toda a narrativa.

Malik, a personagem central, não chegou a conquistar-me. Observei-o sempre com um certo afastamento, como (imagino) um cientista observa o comportamento de uma cobaia durante uma experiência de rotina. Levei o filme todo a pensar "onde é que esta merda vai parar?", incapaz de me identificar com quem quer que fosse naquela galeria de cromos atirados para os confins da colecção da espécie humana.

O filme é eficaz. O argumento é convincente e os actores, principalmente Tahar Rahim no papel de Malik, resolvem com excelência a representação das personagens. Falado em francês, árabe e corso (que me pareceu uma mistela de francês com italiano) "Um Profeta", apesar de longo, nunca ameaça enfastiar o espectador. Um filme a ver, não digo que com prazer, mas a ver... com curiosidade. Pelo menos. Muito bom, caraças.

sexta-feira, abril 23, 2010

O Belo


Era apenas uma pequena viagem de automóvel dentro da cidade. Uma daquelas que se fazem quase de olhos fechados, das que nem tempo dão para articular dois pensamentos seguidos ou ouvir qualquer coisinha na rádio. Distraídamente.

O cruzamento, entre uma rua que sobe e desce para quem vai em sentido contrário e que corta uma outra, meio inclinada para um dos hemisférios, lá estava no seu lugar de permanência. Aproximei-me vindo de cá. Do outro lado vinham dois carros. Na passadeira, logo à entada da rua inclinada, dois peões preparavam-se para meter os pés no asfalto zebrado. Eram um rapaz daqueles que agora se parecem todos uns com os outros, de boné branco coberto pelo capuz de um blusão vermelho tipo "gangsta" e uma senhora velhota, meio tombada para o lado do saco de plástico que lhe pendia numa das extremidades. Outro carro se aproximava, vindo da minha esquerda.

Um carro, dois carros, duas pessoas, mais o meu carro, todos os objectos se dirigiam para o mesmo ponto com velocidades variáveis e, tudo indicava, iriam atingi-lo em simultâneo sem um semáforo que lhes intermediasse os movimentos.Desastre?

Não; maravilha!!!

Graças a um conjunto meio difuso de factores (desde a experiência quotidiana dos intervenientes às regras do Código da Estrada) o momento de colisão transformou-se numa situação de rara beleza, em que todos os elementos se cruzaram com suavidade, quase sem pararem. Uns abrandaram graciosamente, outros aligeiraram os passos e, aquele momento em que nos cruzámos uns com os outros, momento decerto único nas nossas existências, foi simplesmeste deslumbrante, tal a fluidez dos movimentos.

Ordem, equilibrio, proporção, alguns dos principais atributos da Beleza tal como a demandavam os clássicos estavam ali presentes. Agora posso afirmar, com uma audácia prima afastada da audácia de Marinetti, "um cruzamento na cidade ao início da tarde é mais belo que a Vitória de Samotrácia".

terça-feira, abril 20, 2010

Um pouco de sol


Está um tempo assim a dar para o mais ou menos, entre o esperado e o que poderia levar ao desespero as almas mais instáveis. Ora chove, ora faz sol, as pessoas, como de costume, queixam-se que "o tempo anda maluco", talvez por não saberem falar de mais nada com tamanha convicção.

Ainda me lembro (se bem que vagamente) de estudar as estações do ano. Andava eu de calções e media menos de um metro e meio de altura.

Eram quatro. Magníficas e imutáveis, perfeitamente caracterizadas em sábias palavras enformadas na mais prosaica experiência de vida: Primavera, Verão, Outono e Inverno. O mundo a fazer sentido, o universo perfeitamente ordenado. Penso que a sucessão metódica das estações que aprendíamos a papaguear com alguma elegância na velha escola primária, servia também para provar a existência de Deus. A coisa vista assim dava Dele a imagem de um cientista com queda para a matemática e possuidor de uma alma de artista, capaz de criar as coisas mais maravilhosas, ainda que bem temperadas de horrores climatéricos inomináveis e outras bizarrias que não vêm agora a propósito.

Mas, naquela época, o mundo era mais pequeno. Melhor dizendo, era um mundo incompleto. Faltavam-lhe satélites a rondar constantemente o globo suspenso no cenário divino e faltava-lhe a INTERNET. Não havia tantos aviões a ligar os continentes e a levar tudo e todos para todo o lado. Era um mundo menos histérico, mais desinteressante, menos consumido.

Podiam morrer centenas de pessoas numa enxurrada no Brasil ou uns milhares num tremor de terra no Chile que um gajo continuava a dormir descansado por não ter maneira de saber nada do que por essas bandas se passava. Deus é que sabia de tudo, os homens não. Não tinham nada a ver com isso. As notícias chegavam como ecos de um passado mais ou menos distante. O terror levava muito mais tempo a ganhar uma forma que assustasse.

Agora não. Agora estamos sempre à espera da grande notícia do dia, a grande catástrofe que pode surgir online a todo o momento. Ele é o vulcão que tapa o céu com um cobertor de cinza ou a falência eminente do estado português. A extinção de mais uma espécie exótica na selva do Bornéu ganha uma familiaridade inesperada, comparável à da morte de uma vizinha velhota.

Mas, não terá sido sempre assim? Não houve sempre vulcões e falências um pouco por todo o lado? Espécies que se descobrem, que morrem ou são esquecidas? O Caos do mundo não existe desde a eternidade?

O problema, o nosso problema, é que agora estamos constantemente ligados ao Caos e não temos cabeça para lidar com isso. Os nossos cérebros simplesmente não têm capacidade para lidar com as torrentes de informação que os submergem. E nós afogamo-nos a cada minuto uma e outra vez, todos os minutos que passam.

Primavera, Verão, Outono, Inverno. Não é preciso ser um cientista para perceber que nem sempre foi assim e que, decerto, em breve irá deixar de o ser. Dêem-me um pouco de sol pela manhã e já poderei ser feliz mesmo debaixo de uma chuvada intensa que venha inundar a parte da tarde.


domingo, abril 18, 2010

Terrorismo vulcânico


Um vulcão com um nome impossível de pronunciar acaba de protagonizar uma autêntica acção terrorista com prejuízos avultados para as economias europeias em geral e para as companhias de aviação em particular.

Foi no sul da Islândia (que é como quem diz: no extremo norte da mítica Europa) que o planeta voltou a vomitar. Desta vez uma tremendíssima nuvem de cinza que ensombra o Velho Continente, a fazer lembrar um espectro de outras épocas, esse despertado pela ira das classes trabalhadoras perante a emergente gula do monstro capitalista... mas isso é outra história pois vem nas páginas dos livros de História. Não foi fenómeno natural apesar de ter sido resultado de um muito compreensível reflexo animal.

Ainda aqui há uns meses atrás a Islândia tinha deixado o mundo de queixo caído por termos visto a sua Economia, essa adulada deusa contemporânea, a mostrar um corpo disforme e frágil, repleto de chagas e pústulas fedorentas, quando as célebres agências de rating nos asseguravam tratar-se de uma moçoila formosa, de rijas tranças loiras e rosadas carnes firmes fosse nos pés ou fosse na cabeça. Uma coisa boa e confiável. Mera ilusão de óptica e cegueira capitalista, como se veio a perceber.

Desta vez a gelada Islândia vomitou com desprezo para os céus uma muito compreensível nuvem de indignação, a mostrar que o planeta se está a cagar para os bichitos saltitantes que puluam no seu dorso. A cinza cuspida pelo Eiafialaiocul (a grafia é minha para tentar uma coisa que se leia) faz temer prejuízos mais avultados para as companhias aéreas do que os provocados pelo famigerado atentado de 11 de Setembro contra as torres gémeas de Nova Iorque. As imagens que mostram milhares de pessoas espalhadas pelos aeroportos de todo o mundo, reféns da cinza voadora, lembram-nos como é frágil a organização cronometrada da economia mundial.

Fala-se do célebre Efeito Borboleta, embora neste caso se trate de um Efeito Vulcão, e de como um acontecimento localizado pode provocar ondas de choque tremendas um pouco por todo o lado.

Ninguém escapa aos reflexos do fenómeno natural. Seja o turista acidental ou o chefe de estado em passeio oficial, todos são afectados e, de súbito, vêem-se obrigados a pôr os pés no chão já que os céus ficaram intransitáveis. Regressamos a um mundo mais terra-a-terra, literalmente, e aquela doce vertigem da deslocação em velocidade sobre-humana que os aviões nos oferecem a preços de saldo, foi reduzida a uma marcha lenta nos costados terrestres do planeta em automóvel ou comboio, muito mais dispendiosa e limitativa.

Aqui há uns anos valentes Stanislaw Lem imaginou um mundo em que todos os computadores tinham crashado definitivamente, atirando a humanidade de regresso a um estado pré-histórico que provocaria, em última análise, a sua própria extinção e escreveu um contozinho (de que não recordo o título) a ilustrar tão apocalíptica visão.

Esta vulcânica situação, provocado por uma acção de terrorismo natural, mostra-nos como é etéreo e perecível o nosso modo de vida, como ainda estamos longe de conseguir dominar e orientar os destinos da Natureza em proveito próprio. Não estamos longe, é absolutamente impossível!

Na verdade, a realidade contemporânea e pós-moderna não passa de uma ilusão.

sexta-feira, abril 16, 2010

Comentários


Este post traz para a frente do blogue o conjunto de comentários a este outro, do dia 14 do corrente. A troca de ideias é uma coisa maravilhosa.


Eduardo P.L disse...
Mais uma vez: Esta faltando indignação, e quanto ação..., só agem os INDIGNADOS!INDIGNAI-VOS
11:55 AM
Eduardo P.L disse...
Seu post, por oportuno, foi para o Ladinho do Varal de hoje!Abçs
12:00 PM
Caçador disse...
O que vale é que temos um Plano de Estabilidade ou lá que merda é aquilo, e por isso ainda há fé.
1:09 PM
Tiago Alves disse...
Vi este cometário no YouTube, num dos vídeos relacionados com o da deputada e penso que se adequa ao post:" Hoje não é o estado que trabalha para o povo. O povo é que trabalha para o estado. Roubaram o que é nosso. "Será que é mesmo isto que anda a acontecer ? Será que andamos a trabalhar para Partidos, Estado ou até mesmo em nome de uma coisa que se chama "democracia" ?Lucro, lucro, lucro. Contas no fim do mês e PEC's para entreter. Números que ninguém percebe muito bem o que significam, vozes partidárias contra e a favor, a confusão chega a ser tal que acabamos por não querer saber. Deixa andar.E soluções ?Haverá melhor sistema que a democracia ? Mas aquela democracia a sério, não é esta dos partidos, políticos, analistas e libertinagem mascarada de liberdade de impressa que depois é censurada.Aquela a sério, aquela do "demo + kratos".
4:31 PM
Beto Canales disse...
A democracia é o pior sistema de governo que existe, exceto todos os outros
5:20 PM
Lina Faria disse...
Que roubaram nosso Estado de Direito se sabe.Também é facil falar em indignação e nada fazer vivendo em seus mundinhos elitistas.A Cidinha é ótima. Sempre foi e sempre soube do porque foi eleita.Acabo de discutir com um taxista sobre o direito humano. Como explicar que o carro está para servir o homem, por exemplo, e não o contrário?Que o objetivo do Estado é o homem, não ao contrário?Penso que a questão está, não no dna mas na formação de caráter, sim.Imagem instigante a ilustrar!
9:39 PM
Rui Sousa disse...
Rui, eu acho que há pessoas que criam ilusões e depois desiludem-se. Nunca ouvi ninguém dizer que a democracia era um poço de virtudes, antes pelo contrário, houve até quem dissesse que era o pior dos sistemas com excepção de todos os outros. As expectativas que cada um cria têm que ser geridas pelo próprio. A democracia é isto mesmo que nós temos, com todos os defeitos e virtudes, temos é que saber jogar o seu jogo. As regras são claras, todos nós sabemos como isto funciona… e é assim em todos os países, todos eles têm os mesmo problemas que nós temos aqui, só que há países que são mais ricos que outros e por isso quando o estado é fraco o país não se ressente tanto como em Portugal, porque a economia e a justiça continuam a funcionar ( vejam o caso da Itália ). Lembremo-nos que no inicio a democracia ( na Grécia ) até compreendia a existência de escravos e só uma elite participava ( nesse aspecto até evoluímos ). O problema é que hoje criamos uma classe média enorme na Europa e essa classe média tem a fasquia elevada. Como é que se sustenta uma sociedade assim? O mundo não aguenta. Basta dizer que na teoria somos todos contra a pobreza mas se algum dia a China ou a Índia tiverem ¼ da população a viver com se vive na Europa o mundo rebenta logo ( e se tiverem liberdade de expressão e puderem fazer greves, então ainda rebenta mais cedo do que pensamos )……. Mas que a Cidinha foi um verdadeiro “ show de bola “ como se diz no Brasil, lá isso foi. Venham mais como esse.
9:50 AM
Eduardo P.L disse...
Rui,vou ignorar o comentário dessa "senhora" que teima em me desafiar!INDIGNAI-VOS SIM! Estejam em que "mundinhos" estiverem.
1:07 PM
Silvares disse...
Eduardo, grato pela atenção. Estejamos em que mundinho estivermos, em volta haverá sempre o grande mundão que nos permite a tal indignação. Rimou!

Caçador, não há plano que nos valha enquanto a macacada andar à solta nesta selva.

Tiago, a democracia a sério ainda tem de ser inventada e só se poderá inventar se trabalharmos por ela. Diáriamente.

Beto, essa aí foi de Mr. Churchill, estou em crer. O facto de ser o melhor não significa que não tenha de ser melhorado! É que, sendo o melhor, ainda se parece demasiado com um monte de merda!

Rui, a democracia é uma espécie de "work in progress" e este "progress" não tem de significar, obrigatoriamente, consumo desenfreado. Na palavra democracia interessa-me particularmente o "demo".:-)
Lina, transformar o DNA social é um trabalho quase impossível. Quase, não totalmente.

É amanhã


Graffiti, colóquios 16 de Abril e 30 de Abril de 2010,

sextas-feiras, às 21,30,

Fórum Romeu Correia em Almada,

sala Pablo Neruda.

A primeira sessão será apresentada por Luís Miranda e Rui Silvares, a partir dos exemplos de J. Michel Basquiat, Keith Haring e Banksy e da sua utilização dos espaços públicos como suporte e cenário para o seu trabalho. Nesta sessão discutir-se-á o aspecto de intervenção e de "arte pública" que o graffiti pode ter e as suas possíveis ligações com o campo da arte.

Na segunda sessão discutir-se-ão os aspectos de arte emergente, arte marginal, alternativa aos centros institucionais que "controlam e definem" a actualidade e a pertinência dos percursos artísticos, ou a possibilidade do graffiti se referir fundamentalmente a uma tentativa de afirmação de grupos urbanos, sem intencionalidade ou conceito estético, produzindo poluição visual e descaracterização de espaços. Nesta sessão os graffiters serão convidados a mostrar os seus exemplos de trabalho e a apresentar as suas ideias e propósitos de trabalho.

Organização Ateliê de Artes da Anselmo e F4.

Apoio CM de Almada.

quarta-feira, abril 14, 2010

Cadáver anunciado

clica na imagem (pintura de Banksy)

(na sequência do post anterior)

Assistimos um pouco por todo o planeta a uma crescente desilusão dos cidadãos perante as instituições democráticas que eles próprios elegem. Os parlamentos estão repletos de personagens pouco recomendáveis. O poder económico dita a sua lei e a corrupção ganha mil faces diferentes. As questões de solidadriedade social são frequentemente atiradas para um plano secundário, esvaziando de sentido o sistema democrático. A ditadura dos interesses económicos não é saudável nem para a sociedade nem para o planeta. Tudo morre e seca em redor das chamadas democracias capitalistas.

Perante este panorama cinzento e mal cheiroso os cidadãos sentem uma impotência cada vez mais raivosa que poderá transformar-se em revolta. Durante quanto tempo conseguirá o poder continuar a manter as classes médias em condições de suportar o actual estado das coisas? É como se alguém tivesse armado uma bomba relógio que já está em contagem decrescente para a grande explosão. Resta saber quando vai explodir e arrasar a democracia tal como agora a conhecemos (ou imaginamos que ela é).

Estaremos nós a assistir ao retrocesso da democracia? Está a democracia doente e a definhar sem que exista cura possível para a sua maleita? É como se a democracia tivesse contraído um cancro que a está a roer por dentro. Ainda estamos longe de inventar uma cura para tão tenebroso mal. Muito longe mesmo. Não sei se vamos a tempo de recuperar este cadáver anunciado.

terça-feira, abril 13, 2010

Viva a liberdade de expressão!



O meu peito enche-se de um estranho ar puro quando ouço estas palavras de Cidinha Campos. O mês de Abril em Portugal é cheio de significados políticos. Dentro de dias comemoramos o 36º aniversário da Revolução que nos criou expectativas enormes em relação à possibilidade de uma sociedade democrática. Expectativas essas que, a cada ano que passa, vão esmorecendo até restar apenas uma caricatura da esperança que tivemos. Então surgiu esta senhora, surgiram estas palavras, esta paixão, este arrebatamento, esta beleza quase selvagem e, da primeira vez que ouvi, as lágrimas chegaram-me aos olhos. Não sei quem é esta senhora, estou longe de compreender a política brasileira. Mas não é preciso mais nada. Basta ver e ouvir Cidinha para sentir a chama que se reacende. A paixão pela vida e pela liberdade de expressão encontram aqui um momento bem alto. Viva Cidinha!

sábado, abril 10, 2010

Uma aventura no mundo perdido


O centro comercial continua a surpreender-me constantemente. De cada vez que me desloco a esta Babilónia sensorial dou por mim meio perdido a olhar para o ar (espero que de boca fechada). Hoje, mal saí das escadas rolantes que me içaram desde as catacumbas do estacionamento automóvel até ao primeiro piso de lojas, dei de caras com um écrã em fundo, colocado junto ao tecto da entrada para a FNAC.

Não sou capaz de recordar que imagens dançavam dentro daquele rectângulo luminoso, fixei apenas movimento e cor. Em simultâneo senti a música ambiente que preenchia todos os espaços vazios da imensa galeria comercial, saída de secretas fontes que jorram incessantemente. Imagem e som constantes, sem destinatário específico, presenças absolutas nos sentidos dos transeuntes que, como gado tecnológico, nos deslocamos ao longo daqueles prados onde crescem bens de consumo que pastamos indolentemente.

Estamos convencidos que a produção e difusão de imagens é dirigida a públicos-alvo específicos e bem determinados mas este tipo de comunicação indiferenciada põe em causa este pressuposto. Além de representar um consumo de energia continuado, este género de comunicação não se adequa exactamente às pessoas que o recebem. Tal como não recordo as imagens no écrã, sou incapaz de dizer que tipo de música ecoava por ali. Era apenas ruído. Ruído visual e sonoro. Lixo.

Vivemos uma sociedade de consumo absoluta. E produzimos megatoneladas de lixo. São as garrafas e todo o tipo embalagens de plástico, os jornais e revistas, as pilhas, os restos de comida e as imagens e os sons que deitamos constantemente para o espaço em volta dos nossos corpos. É como se tivéssemos uma necessidade insana de preencher todo o espaço numa atitude de horror ao vazio. Eliminamos metódicamente a linha do horizonte, recortando-a em milhentas imagens sobrepostas.

Somos como fantasmas vogando numa imensidão caótica formada por todo o género de detritos que nos empapam o cérebro e nos vão retirando a possibilidade de sermos aquilo que éramos e nos transformam numa coisa que somos mas não sabemos bem o que seja!

quinta-feira, abril 08, 2010

Obra prima


Finalmente vi "O Laço Branco", um excelente filme sem qualquer sombra de dúvida. É tudo tão bem feito que não há nada que eu possa acrescentar às críticas elogiosas que tem merecido. Há, no entanto, um pormenor que me deixou a pensar. As crianças actuam de uma forma absolutamente assombrosa. Percebe-se que foram superiormente dirigidas. Que histórias lhes terão contado para que elas tivessem atingido os níveis de representação que nos deixam de boca aberta quando vemos as suas cenas?

A capacidade de representação das crianças é espantosa. Como se encontram a meio caminho entre a brincadeira de faz-de-conta e o faz-de-conta da vida adulta, são capazes de coisas extraordinárias. Em "O Laço Branco" há momentos para lá do comovente. Não apenas nas cenas interpretadas pelas crianças, é verdade, os actores adultos também conseguem superar o muito bom. Mas, como comentava um amigo meu durante o intervalo, onde foram buscar um grupo de miúdos tão bom? O realizador (a direcção de actores é também de Michael Haneke?) é um autêntico mestre!

Seis estrelas em cinco possíveis!

segunda-feira, abril 05, 2010

Férias são férias!


Após uns diazinhos do mais completo descanso passados lá mais para norte, entre montanhas e com uma Primavera pouco calorosa, regresso ao remanso do lar para completar estas férias que tão bem têm soado aos meus ouvidos.

Leitura e filmes, pouco mais me tem preenchido as horas, e conversas intermináveis sobre as coisas que acontecem ou aconteceram ou poderão vir a acontecer, conversas enroladas e pachorrentas com aquelas pessoas de quem gosto mais do que das outras pessoas todas juntas. Antes de ter viajado vi "Visto do Céu", título português para o filme "The Lovely Bones" do realizador neo-zelandês, Peter Jackson, aplaudido pela triologia de "O Senhor dos Anéis" (de que também revi a primeira parte e um pedaço da segunda, em DVD).

Trata-se de um filme que me pareceu curto para tanta história. Fiquei com a sensação que Jackson não consegue encaixar uma narrativa fluente e equlibrada no tempo "normal" de um filme de longa metragem. Talvez precisasse de outra triologia para conseguir expor todas as personagens com a eficácia merecida e deixar correr a história de forma perfeitamente consequente. Há ali apontamentos de grande vigor que acabam por se diluir em quase nada (a personagem da avó interpretada por Susan Sarandon, por exemplo) num filme que tenta equilibrar o negrume de um certo horror com o brilho luminoso da possibilidade de redenção de uma vida após a morte tenebrosa.

As cenas passadas no Além resvalam perigosamente em direcção ao poster mais kitsch que se possa encontrar na parede do quarto de uma adolescente mimada. Algumas dessas cenas são mesmo de um tremendo mau gosto (digo eu) e divergem estranhamente da maioria dos planos e sequências passadas no "mundo real" que mostram um Jackson bem mais capaz e com um olhar interessante sobre aquilo que connosco partilha no écrã.

Enfim, um filme razoável, em tons predominantemente angustiantes, com fortes probabilidades de marcar um público adolescente mas que acaba por enfastiar um adulto menos receptivo a fotografias tipo "pôr-do-sol-com-palmeiras-e-mar-plano" como é o meu caso.

Vi mais filmes (uns melhores, outros nem por isso) mas guardo a conversa para amanhã que esta aqui já vai um pouco longa de mais.

quarta-feira, março 31, 2010

Caçar bruxas (Paradoxo 2)


Atente-se nas declarações que abaixo transcrevo retiradas desta notícia:

Anteontem à noite, o bispo auxiliar de Lisboa, D. Carlos Azevedo, falou dos casos de pedofilia entre membros do clero. Citado pela agência Lusa, afirmou: "É algo que nos faz ter vergonha que tenha acontecido. O povo de Deus sabe distinguir aquilo que são os falhanços de alguns membros do clero daquilo que é a vivência do mistério de Cristo e da vida em igreja e em Deus." Mas, acusou, há uma "campanha, que se transforma quase numa obsessão, numa caça às bruxas".

É interessante que D. Carlos Azevedo tenha utilizado a expressão "caça às bruxas" para vitimizar os padres acusados ou suspeitos de práticas pedófilas.

Por um lado está a colocar esses padres num plano pouco católico, comparando-os com bruxas, por outro lado está a reprovar a própria instituição que representa, uma vez que a igreja católica foi responsável pela caça e execução em praça pública de muitas bruxas por esse mundo fora, assunto que, na maior parte das vezes, prefere ignorar ou, mais simplesmente, esquecer. Pode ainda estar a referir-se aos processos levantados nos Estados Unidos nos anos 40 e 50 do século passado, contra os supeitos do "crime" de pertencerem a organizações de inspiração comunista.

Ultimamente a hierarquia católica tem-se desdobrado em pedidos de desculpas aos judeus, às crianças abusadas... não me lembro de ter ouvido um pedido de desculpas às mulheres-bruxas (ou aos homens-bruxos que também os há!).

São as célebres voltas que o mundo dá. Num dia estamos aqui, no outro podemos muito bem estar ali, no lugar onde anteriormente estava o outro, o inimigo odiado, transformando-nos nele próprio sem sabermos muito bem como nem porquê. O mundo está repleto de estranhos espelhos.

O cristianismo prega o perdão e, sempre que podem, as igrejas que se dizem suas guardiãs lá vão perdoando. A questão que queria deixar é esta: será que, não sendo católicos, podemos perdoar tudo, mesmo as monstruosidades mais abjectas como são estes crimes desumanos contra os fracos e os desamparados?

segunda-feira, março 29, 2010

Paradoxo (1)


O interior do automóvel era, no mínimo, luxuoso. A qualidade do som disparado pelas colunas (em sistema surround) não deixava nada a desejar que não fosse, talvez, outro artista. Ali dentro, tinhamos a sensação de pairar acima da rua, como se as rodas do carro não tocassem o solo.

Segurança, elegância, comodidade, não havia anúncio publicitário capaz de fazer justiça ao veículo maravilhoso em que as nossas cabeças vogavam, esquecidam das partes pesadas do corpo. O som vomitado pela aparelhagem troava nos ouvidos dos passageiros como uma tempestade de Verão acabadinha de fabricar lá nas alturas.

"God save the queen"... berrava o gajinho na parelhagem, "... and her fascist regim!" concluia, com guturais espasmos da sua garganta ensandecida.

O carro continuou a navegar o céu, impassível. "No future, no future, no futuuuuuuurrrreeee....", no meio de um tal luxo asiático haveria alguém capaz de dar crédito ao furioso vocalista no CD? Ok, ok, não há futuro, pronto. Deixa lá essa merda.

sábado, março 27, 2010

Dia Mundial do Teatro

Num Dia Igual aos Outros

Não sei se os dias do calendário chegam para tantas datas comemorativas. Hoje é o Dia Mundial do Teatro. Ontem não sei se houve alguma comemoração especial. Mas sei que há um dia para a Árvore, outro para a Mulher, um dia da Água, um dia para a Biodiversidade, etc., etc. e tal, por aí fora, comemoram-se as mais variadas maravilhas e mistérios do planeta e outras coisas que tais.

Voltando ao dia de hoje; em Portugal não se cobram bilhetes nos teatros (não sei se em todos ou se apenas na maioria) e é de bom tom rumar a uma sala próxima. Da parte que me toca irei ao Teatro Extremo, em Almada, rever "O Libertino", o texto demolidor do defunto Luiz Pacheco encenado pelo António Olaio e agora interpretado a solo pelo André Louro. Encenador e actor são meus bons amigos, o autor uma personagem que muito admirei pelos seus dotes literários. Uma comemoração que se anuncia pacífica, feita de reencontros.

Na 4ª feira fui mais uma vez ao Teatro Nacional D. Maria II, desta vez para assistir a "Num Dia Igual aos Outros" em exibição na pequena Sala Estúdio. Nuno Lopes e Gonçalo Waddington representam um texto arrebatador com uma competência extraordinária. O cenário e a proximidade física entre espectadores e actores fazem deste espectáculo uma experiência única. A não perder, caso se tenha oportunidade de assistir. Mais que muito bom, apenas extraordinário!

sexta-feira, março 26, 2010

A Natureza violada


Tenho-me estado a aguentar mas já não sou capaz de conter mais uma ou duas frases sobre o assunto.

Há quem pense que tenho maus fígados contra a igreja católica apostólica romana e que, levado por esse desprezo, essa inimizade, acabo, por vezes, sendo injusto e demasiado agressivo para com tão santa instituição.

E quem assim pensa pensa muito bem e com razão; a igreja católica causa-me náuseas convulsivas desde há muitos anos, desde que tive idade suficiente para pensar fora do ambiente místico em que fui criado. Ambiente esse que me levava a acreditar que havia um tipo barbudo (talvez mesmo barrigudo) pendurado no paraíso, a vigiar constantemente todos os meus passos, a anotar (com uma caneta de tinta permanente) todas as minhas faltas e ignorando com desdém os meus sucessos, uma vez que quando eu cometia uma boa acção não fazia mais do que a minha obrigação.

Os padres sempre me pareceram uma espécie com animais muito diferentes e variados. Como convivi com alguns de perto posso afirmar sem que me trema a voz que nem todos merecem o castigo que lhes é imposto quando abraçam a vocação.

A imposição da castidade é, talvez, a maior violência que se pode exercer contra um ser vivo. Aos gatos a gente sabe o que se lhes faz quando se quer impedi-los de fazerem o que não queremos que eles façam. Aos padres deixa-se-lhes ficar o instrumento do pecado, constantemente acicatado pelo desejo que arde como um fogo sagrado. Todos nós sabemos como arde quando pega fogo!

Desde sempre ouvi histórias de padres com filhos. Olhem o magistral O Crime do Padre Amaro, um retrato perfeito da tortura que é contrariar a natureza humana naquilo que ela tem de mais puro. À força de tanto torcer a natureza humana dos jovens candidatos ao sacerdócio, acaba-se por correr o risco de lhes retorcer o cérebro e infectar a alma. Muitos deles acabam doentes.

A pedofilia não pode ser encarada de ânimo leve e esta escandaleira que agora se descobre sobre as práticas sexuais doentias de um número demasiado significativo de padres católicos obriga-nos a questionar várias coisas.

Porque razão esta prática nojenta foi ocultada, ignorada e, tantas vezes, perdoada pela hierarquia da igreja católica com o actual Papa bem metido no assunto, enterradinho até às orelhas? Estes gajos não temem a Deus, duvido mesmo que acreditem na Sua existência.

Porque razão se insiste em fazer de homens coisas que não existem na natureza, impedindo-os de realizarem a plenitude do seu ser através da consumação do acto sexual?

Esta história macabra só vem confirmar a validade das reservas que muitos, como eu, mantêm contra esta puta babilónica disfarçada de paradoxo. Há coisas que não existem e outras, simplesmente, não podem existir de todo. Abram os olhos, façam dos padres seres humanos como os outros, deixem de violar constantemente a Natureza.

quarta-feira, março 24, 2010

Vertigem matinal


O título da notícia assusta um pouco: "Um quinto da população (portuguesa) tem doença mental". Chiça, é muita gente e o país é tão pequenino... Pousei o jornal e rodei o olhar à minha volta.

Na mesa em frente um casal aí pelas bandas dos cinquenta e muitos comia o pequeno-almoço. Reparei que o homem devia ser muito baixinho pois os pés tocavam o chão com a ponta dos sapatos. Tinha uma pele avermelhada e os olhos papudos, muito inchados. A senhora, atrás de uns óculos estranhos e debaixo de um penteado a condizer, mastigava a torrada com o olhar fixo no infinito da parede. Não trocavam palavra, pareciam comunicar através da mastigação ponteada com um ou outro slurp na chávena de café-com-leite. A notícia fazia sentido.

Despeguei a atenção do casal e fui deitar os olhos num velho que, tal como eu, lia um solitário jornal. O homem estava totalmente concentrado na leitura. Curvado sobre a mesa, ajeitava os óculos de vez em quando naquilo que poderia ser um tique. Seria aquele gesto automático indicador de algum tipo de perturbação mental a pedir droga prescrita por um médico especializado?

Ao balcão uma mulher jovem falava alto demais sobre qualquer coisa que não me interessou. O volume da conversa pareceu-me desajustado mas lembrei-me que o seu interlocutor, o dono do café, é um pouco duro de ouvido o que explicava aquela trovoada verbal.

Estava eu neste exercício voyeurista quando me apercebi do que estava a fazer, a olhar as pessoas, desconfiado e sugestionado por uma notícia de jornal. Envergonhado, virei a página de forma um tanto desajeitada e li uma pequena nota que informava que "A Samsung anunciou ontem o lançamento, no final deste mês, da primeira televisão com tecnologia 3D a chegar ao mercado português. Trata-se de um "marco histórico", disse o director da unidade de electrónica de consumo da Samsung, Filipe Carvalheiro, que permitirá passar de uma "atitude passiva" para uma dinâmica "interactiva e imersiva" de ver televisão." É mesmo disto que estamos a precisar! É bem possível que os portugueses andem deprimidos e desorientados por lhes faltar a possibilidade de uma atitude mais interactiva e, sobretudo, imersiva quando olham para a televisão, quais bois contemplando um magnífico palácio.

Mais descansado voltei a olhar as pessoas em volta que me pareceram bem mais dinâmicas e... normais, por assim dizer. Tal como eu.

segunda-feira, março 22, 2010

Mas onde é que eu já vi isto?



Como o Rei Édipo até acabou cedo, eu e a Ana resolvemos dar um saltinho até uma sala de cinema para vermos o mais recente filme de Woody Allen, "Whatever Works"("Tudo Pode Dar Certo" na versão portuguesa), completando dessa forma uma noite de Sábado na companhia dos clássicos da cultura ocidental.

Eu sei que um filme de Woody Allen nem sempre é um filme de Woody Allen, mas, neste caso, é exactamente um filme de Woody Allen. "Tudo Pode Dar Certo" tem todos os ingredientes mais comuns da filmografia do judeu baixinho e neurótico mais conhecido no mundo do cinema. É uma comédia ácida, com um conjunto de personagens que se cruzam e descruzam em situações com aquele grau de comicidade que ora nos faz sorrir, ora nos provoca o riso, embaladas em diálogos imaginativos e cheios de conteúdo que a escrita de Allen tão bem materializa. Enfim, um filme a anos-luz do sorumbático "Sonho de Cassandra" ou do magnífico "Match Point". Woody Allen recentrado na contemplação da profundidade do seu umbigo imenso. A coisa tal como ela é.

A ver com o gosto e o prazer do costume.

domingo, março 21, 2010

Alguma coisa faltou

Édipo em 1º plano(Diogo Infante) com uma difusa Jocasta mais atrás (Lia Gama)



Ontem à noite assisti à versão de Rei Édipo em exibição no Teatro Nacional D. Maria II. "A partir de Sófocles", informa o programa, esta peça resulta da interpretação feita por Jorge Silva Melo da imortal tragédia imaginada pelo grego.


Na minha perspectiva (que está longe de ser a de um espectador de teatro assíduo) a coisa vale essencialmente pela interpretação de Diogo Infante, no papel principal. O actor/director do Teatro Nacional mostra toda a sua categoria e manda à merda as vozes de burro que se insurgem contra o facto de ser ele o protagonista, acumulando com a responsabilidade de dirigir o monstro do D. Maria.


Quanto ao espectáculo, propriamente dito, houve coisas que não me soaram lá muito bem. Pareceu-me haver demasiada parra para tão pouca uva. Tantos actores, tantos músicos, tanto alarido em volta da excelência da adaptação e encenação de Jorge Silva Melo, haviam criado em mim uma expectativa porventura exagerada. Se calhar foi isso que me deixou um pequeno vazio quando acabaram as ovações da ordem e os actores regressaram aos bastidores. Se não estivesse à espera de algo verdadeiramente fora do comum talvez o tom destas linhas fosse diferente.


Este Rei Édipo pareceu-me bastante corriqueiro em termos de soluções narrativas, havendo mesmo um ou outro momento que me deixaram a nítida sensação de estarem ali apenas "a encher" espaços deixados vagos por vazio de ideias. Ou talvez fosse resultado de alguma auto indulgência do criador principal. Não sei. Talvez seja isso, na verdade é possível que não saiba do que estou a falar, correndo o risco de cometer algum grosseiro erro de leitura, alguma injustiça típica de quem não conhece por dentro o trabalho dos outros.

O que posso dizer é que esteve longe de me deslumbrar. Só isso.

sexta-feira, março 19, 2010

Traduções

O velho Errol, o Robin da minha infância (era a preto e branco, aqui está num belo cinemacolor)


Um dos meus heróis favoritos era o Robin dos Bosques. O meu avô autorizava-me sempre a comer a perna de frango "à Robin dos Bosques"; ou seja, permitia-me comer com as mãos o que, na minha infância, era um gesto de extrema liberdade; poder fazer tal coisa na companhia de adultos... e era isso que Robin significava: liberdade. Ele personificava o eterno lutador, alguém que defende uma causa pondo em risco a própria vida. Os alegres companheiros do herói completevam-no em qualidades e defeitos. Havia o abade, gordo e beberrão ou João Pequeno, um gigante hercúleo capaz de extraordinárias proezas físicas. Para lá de tudo isto Robin era ainda um homem apaixonado o que sublinhava o romantismo da personagem e da sua história. Quantas vezes revi Robin e Lady Mariam de mãos dadas, apertadas de encontro ao peito, olhando-se como se estivessem a contemplar as profundezas de um oceano escarlate?

Robin dos Bosques, quanta saudade...

Recentemente apercebi-me de um pormenor que me havia escapado ao longo de todos estes anos. No original trata-se de Robin Hood. Hood? Soava-me mais como Wood. Que raio de coisa significa Hood? Consultado o dicionário dá-se a revelação: "hood" significa "capuz". Então... Robin dos Bosques é, na verdade, o Robin do Capuz!? Ai, que susto! Como foi possível engolir este erro durante tantos anos? Claro, como Robin e os companheiros vivem escondidos numa floresta, não é difícil aceitar o nome de Robin dos Bosques. O tempo, a distância e uma tradução retorcida, podem construir uma imagem aparentemente intocável que, na verdade, é uma quase-mentira.

Tudo isto me fez recordar aquela primeira cena do filme "Snatch", quando um grupo de assaltantes disfarçados de judeus comentam uma anedota que diz que o cristianismo é uma religião fundada num erro de tradução. Os falsos judeus riem dizendo que a palavra que esteve na origem da designação de Maria nos evangelhos actuais significava, no original, mulher jovem (ver aqui explicação clara e objectiva).

Este tipo de erros só podem ser ultrapassados quando atingimos a idade adulta e começamos a questionar certas situações que, enquanto andamos a brincar e a saltar pela vida fora, não sentimos necessidade de pôr em causa. Isto mostra bem como uma mentira repetida até à exaustão acaba por se confundir com a verdade. Mesmo que a mentira seja (aparentemente)involuntária e de contornos (eventualmente) inocentes, é preciso ter muito cuidado com ela pois nunca se sabe quando poderá vir a estar na base de todo um culto religioso.

quinta-feira, março 18, 2010

Sangue


Os vampiros estão na moda. Séries de televisão, filmes, livros, artigos, revistas, o mundo parece enternecido com as intermináveis variações a partir da figura do conde Drácula. Não tarda haverá vampiros em peluche para ajudar a adormecer criancinhas, embaladas por sonhos arrepiantes de seres sobrenaturais com dentinhos proeminentes.

A apropriação do monstruoso vampiro pelos exploradores do universo adolescente parece-me abusiva. O monstro perde em carisma o que ganha em vulgaridade e falta de espessura. A figura hiper-romântica do Drácula de Bram Stroker, aquele que morre na contemplação da mulher amada, adaptado às sagas novelescas para consumo das massas acaba coberta de ridículo e presta-se a variações verdadeiramente apalhaçadas. O vampiro perde a aura de ser extraordinário e único para se transformar numa personagem digna daqueles filmes impossíveis com o Elvis Presley a protagonizar jovens palonços por quem todas as rapariguinhas desfalecem.

Esta vaga sangrenta que tem coberto os mass media de subprodutos intragáveis guardava um desenvolvimento inesperado,este no palco do mundo real. As recentes manifestações de rua em Banguecoque, capital da exótica Tailândia, arrasaram de vez o imaginário popular, deixando os vampiros de ficção em muito maus lençóis. Os manifestantes oferecem aos repórteres de imagem de todo o mundo um autêntico festim macabro quando recolhem e derramam nas ruas centenas de litros de sangue humano em sinal de protesto contra os governantes locais.

É uma espécie de auto-vampirismo contestatário e sacrificial carregado de um simbolismo abstruso que, decerto, é lido de forma diferente conforme o país ou o continente onde as imagens são mostradas.

Retiradas do contexto tailandês, as imagens ganham outras dimensões quando lidas na Europa urbana ou na China rural. Um habitante da Amazónia decerto verá naqueles rios de sangue um augúrio diferente do que um camponês das estepes russas. O espectáculo do sangue a correr nas ruas asfaltadas de Banguecoque é uma coisa estranha que merecia um estudozinho iconológico sobre o impacto das imagens televisivas no mundo globalizado.

Os vampiros reais, aqueles que vivem dissimulados entre nós, decerto ficam a salivar perante tamanho desperdício.

quarta-feira, março 17, 2010

O buraco da fechadura


Ontem assisti a algo que nunca tinha assistido. Vi, perante os meus olhos arregalados, uma pessoa a ser acossada com perguntas complicadas e demasiado íntimas ao ponto de se esconder mais fundo dentro de si própria a cada nova investida. Uma, duas, três, quatro, muitas perguntas, demasiadas perguntas, algumas repetidas até próximo da exaustão. E a pessoa em questão a encolher-se lá dentro, a fechar-se, a baixar a cabeça e a torcer os dedos finos das mãos pequeninas até me deixar a sensação de que espreitava o mundo como se os seus olhos fossem o buraco de uma fechadura.

A situação em si não é relevante nem eu sinto capacidade ou direito de a referir directamente. O que me impressionou foi o tempo que a coisa durou. Como se houvesse ali uma suspensação absoluta, um momento sem fim, uma coisa morna que nunca iria aquecer ao ponto de entrar em ebulição. Chegou mesmo a incomodar-me aquela busca de refúgio dentro do próprio indivíduo, aquela capacidade obstinada de ouvir e não responder, aquela doçura sofrida de guardar fundo as razões de tanto aparente sofrimento.

A pessoa em questão, após grande resistência, lá foi abrindo um pouco a porta daquilo que a incomodava. Não muito. Uma frestazinha apenas. Mas, no fim da história, continuou a espreitar, apenas, o mundo que respira cá fora. Como se o seu corpo fosse uma sala fechada a sete chaves onde deambula uma alma esperançosa na descoberta de algo que ninguém sabe ainda o que é.

domingo, março 14, 2010

Grandiosidade e vulgaridade


É a comunhão proporcionada por uma narrativa comum a um grande grupo de pessoas que nos permite sentir como fazendo parte de um todo. Seja num concerto de rock, num jogo de futebol, numa manifestação de rua ou na missa de Domingo. Quando a multidão se unifica, quando a voz do indivíduo se mistura com as vozes de todos os outros e se eleva em coro, ele sente o corpo a expandir-se, a alma a crescer, ele faz parte de algo muito maior, uma coisa grande e grandiosa. Está-se próximo do extâse.

Ele é igual a mim e igual a ti. Nós somos ele e somos uma coisa única, capaz de vencer tudo ou sermos derrotados juntos. Aí reside a beleza da coisa. A sensação de pertencer a algo maior que o próprio mundo sem deixarmos de ser quem somos. Podermos perceber que há muitos mais indivíduos que pensam e agem de maneira semelhante à nossa.

Esta ideia aplica-se também ao discurso artístico, à criação de obras capazes de comunicar com um grande grupo de pessoas, obras que não se esgotam numa complexidade exasperante, tão característica de certas criações contemporâneas. A obra de arte, para o ser, terá de proporcionar ao indivíduo a possibilidade de romper a cortina de significados que a cobre, terá de permitir que o indivíduo a complete através do exercício da sua capacidade de leitura.

Uma grande obra de arte oferece-se a um grande número de indivíduos, permitindo a comunhão do grupo no mar dos seus significados. Uma grande obra de arte transporta consigo uma narrativa comum.

Quando uma obra é hermética e deixa o observador eternamente de fora, a rondá-la, perplexo perante a incapacidade de a compreender, falha o que deveria ser o seu objectivo primordial: comunicação. É uma vulgar obra de arte e nunca uma grande obra.

quarta-feira, março 10, 2010

Da loucura


Tenho reparado que aqueles que normalmente designamos como loucos são personagens obcecadas com alguma coisa. Obcecadas a tal ponto que tudo o que não contribui para a sua crença particular se torna supérfluo. É por isso que os loucos têm aquele brilhozinho nos olhos. É o brilho da certeza absoluta.

Quando estamos seguros de nós próprios e sabemos que aquilo é assim mesmo e não há que duvidar, os gestos tornam-se fluídos, a língua desata-se-nos e as palavras jorram num contínuo avassalador. Sentimos alegria, ficamos eufóricos, as coisas fazem sentido. O mundo fica completamente redondo e nem os pólos são chatos.

Os outros olham-nos de soslaio com um sorrisinho maroto. Vêem-nos loucos porque estamos loucos. Loucos de alegria. A loucura é uma alegria incontrolável provocada por uma súbita compreensão do mundo que nos rodeia. Quando experimentamos essa sensação nunca mais voltamos a ser o que éramos. Nem nós, nem o mundo, nem nada.

sábado, março 06, 2010

Dias santos


Há dias assim, dias santos. Dias que acontecem mesmo sem que tenha chegado o Domingo nem a Páscoa, dias que não precisam de nada disso para serem assim mesmo: santos. Hoje foi dia santo para mim.

Estava eu a resolver uns quantos assuntos pendentes, agarrado a esta coisa, tropeçando na NET, escrevinhando textos, respondendo a e-mails, actualizando outros blogues com mais cabeça, quando ouvi sons lá em baixo que mostravam que as minhas meninas se preparavam para ver o filme "Ligações Perigosas" de Stephen Frears. Como os assuntos que tinha em mãos estavam adiantados e longe de serem urgentes, resolvi descer as escadas só para ver a primeira cena do filme. Desci. Sentei-me. Vi a primeira cena. Melhor dizendo, revi a primeira cena e a segunda e a terceira, enfeitiçado revi todo o filme.

Já perdi a conta às vezes que vi "Ligações Perigosas". Mais que cinco, seguramente, e menos que dez, disso estou certo. O deslumbramento do guarda-roupa, a perfeição dos desempenhos dos actores, a fluidez exemplar da narrativa, são algumas das razões que me fazem rever o filme com tanto prazer, quase avidez. Estou certo que o tempo, numa situação como esta, não passa. O tempo paira simplesmente, como um pássaro levado pelo vento. Quando o filme acaba, catrapum! O pássaro cai com estrondo. Mas não se magoa.

Agora estou de regresso às minhas obrigações (com este parêntesis, para escrever este post), calmamente e revigorado. A arte, seja a sétima ou outra qualquer, tem esta capacidade de santificar os dias que vivemos.

sexta-feira, março 05, 2010

Disney obscuro




Ontem fui ver a nova versão de Alice no País das Maravilhas, a mais recente obra de arte cinematográfica de Tim Burton. Como tem sido norma de há uns tempos para cá com os filmes de grande consumo, Alice é em 3D e o espectador não se safa de usar uns óculos especiais para poder enfiar-se no interior da tela. Para quem está a ficar pitosga, como é o meu caso, o artefacto não dá muito jeito, mas... adiante.


Tratando-se de um filme realizado para a casa Walt Disney, Alice tem alguns pormenores que parecem não terem sido coisa de Tim Burton. O desenlace final ou a dança do Chapeleiro Louco são objectos algo estranhos ao tom global do filme que dá assim para o obscuro.


O argumento recupera as personagens do costume mas dá-lhes umas voltas inesperadas. Burton parece querer restituir aos contos infantis aquela estranheza um pouco cruel que os caracterizava no tempo em que os animais falavam e não se pensava em termos políticamente correctos. As personagens têm características assombrosas. Desde o magnífico Chapeleiro de Depp à desconcertante Rainha Vermelha de Helena Bonham Carter, passando pelas figuras animadas como a Lebre de Março, cada personagem desempenha momentos delirantes.


O cenário e os artefactos de cena têm um grau de pormenor e uma inventividade deslumbrantes. As peças de mobiliário são desopilantes. É difícil descrever o que me vai na cabeça.


Fiquei com a impressão que o filme talvez dispensasse os efeitos 3D sem perder muito com isso. Abreviando: um filme espectacular para fãs e não fãs do mestre Burton, uma releitura felicíssima da obra de Lewis Carrol. Apesar dos tais momentos em que Tim Burton parece lutar consigo próprio é uma obra marcante no imaginário deste início de século.


Bravo Tim!!!

quinta-feira, março 04, 2010

Uma coisa pastosa


A notícia não é de primeira página, é quase secreta (ler aqui). Mas é uma notícia ilustrativa do modo como a nossa sociedade se vai tornando, a cada dia que passa, numa coisa cada vez mais pastosa e peganhenta.

O universo editorial português foi recentemente engolido pela editora Leya que adquiriu e amalgamou numa casa só uma série de editoras que vinham construindo o universo dos livros em Portugal. A ASA, a Caminho, a Dom Quixote, entre outras, foram adquiridas por este gigantezito editorial, vergadas a uma lógica de mercado que obedece à célebre Lei de Lavoisier.

Certamente embalados pela visão magnífica do físico francês, os responsáveis da Leya resolveram destruir um número considerável de obras literárias que se encontravam armazenadas. A razão: dificuldade de colocação das ditas obras no mercado. Um objectivo: reconverter o papel dos livros em pasta de papel para futuras edições do Grupo Leya. Também nesta natureza plastificada que é a sociedade de consumo nada se perde, tudo se transforma.

A tal notícia revela que: Dezenas de milhar de livros da autoria de Jorge de Sena, Eugénio de Andrade, Eduardo Lourenço e Vasco Graça Moura, publicados pela ASA ao longo da última década, foram destruídos recentemente pelo Grupo Leya. Atente-se nos autores referidos e fica-se com uma ideia da amplitude do acto.

A lógica neoliberal e pós-moderna justifica a atitude. Afinal o Grupo Leya tem o lucro como principal (único?) objectivo para a sua existência. É a lógica de que tudo é descartável e tem um prazo de validade, que a volatilidade das modas comanda o mundo que vamos habitando. Nos tempos que correm a lógica consumista encurta o tempo de vida útil de todos os objectos sejam eles telemóveis, pares de sapatos ou livros. Não há distinção. As coisas são feitas para serem consumidas num curto espaço de tempo.

A questão que se coloca é: e a nossa sociedade também é objecto de consumo? Tem um prazo de validade? A Democracia também pode destruir-se para fabricar um sucedâneo que se lhe assemelhe vagamente mesmo que seja mais uma coisa pastosa?

terça-feira, março 02, 2010

Uma coincidência



Não sei bem porquê, esta tarde cedi a um impulso antigo. Finalmente decidi-me a adquirir o DVD de "O Gabinete do Dr. Caligari", o mítico filme expressionista de 1920.

Tenho uma certa curiosidade por filmes desta época. "Metropolis", "Nosferatu", "O Couraçado Potemkin" ou "Ivan, O Terrível", são títulos que fazem parte da minha pequena colecção particular.

De imediato me entreguei à tarefa de visionar "O Gabinete..." e qual não foi o meu espanto quando a cena final me remeteu para... "Shutter Island"! Não vou aqui expor as razões da estreita relação que estabeleci entre os argumentos destes filmes para não estragar a surpresa de possíveis espectadores do filme de Scorcese. Quem já tiver visto "O Gabinete..." poderá avaliar esta minha insinuação se se deslocar a uma sala de cinema próxima para ver Leonardo Di Caprio a franzir o sobrolho nas cenas finais de "Shutter Island". O que me espanta (ou talvez nem isso) é a coincidência. "Shutter Island" foi a minha última visita a uma sala de cinema e "O Gabinete..." uma curiosidade antiga que só agora foi satisfeita. Ele há coisas...

segunda-feira, março 01, 2010

Enterrados


A satisfação dos portugueses com a democracia bateu no fundo. Eles que são tendencialmente de esquerda e não gostam de maiorias absolutas de um só partido. Têm reservas ao monopólio dos partidos e gostariam de participar mais. Em menos de 40 palavras é o que se pode concluir do estudo "Representação política - O caso português em perspectiva comparada", organizado pelos politólogos André Freire e José Manuel Leite Viegas, do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE. (ler mais aqui)

Só quem anda a dormir não seria capaz de perceber esta onda de insatisfação. O nosso sistema político benificia os poderosos e arrasta na lama as ilusões de uma sociedade mais equilibrada e igualitária. O Zé Povinho já não usará o chapelito que Bordalo Pinheiro lhe deu nem terá aquele jeito especial para o manguito, mas continua a ser comido e cagado com o mesmo desprezo de sempre. E isso não pode ser agradável, muito menos ser aceite com indiferença.

A partidocracia estabelecida é uma choldra. Somos governados pela escória da sociedade que os jornais continuam a apelidar de "elite". Mas qual elite, qual cara... puça! Basta olhar para a cáfila ministerial ou para as hienas nos cargos mais altos da Função Púb(l)ica para perceber que, com esta gentalha no comando dos destinos da nação, não há fundo no poço em caímos.

Sinto-me desorientado. É evidente que o sistema político se esgotou numa teia de interesses mesquinhos e saloios. Que somos enganados e esgadanhados por uma cambada de moleques mal jeitosos, saídinhos das clientelas partidárias. Uns putos de merda, incapazes de olhar para lá dos seus compridos narizes de Pinóquio. Mas o mais grave é que, no actual estado de coisas, eles são a alternativa a si próprios. Ou seja, podemos saltar da firgideira mas iremos caír, inevitavelmente, no fogo deste inferno mole que se desfaz um pouco mais a cada dia que passa.

Não estou a ver solução nenhuma que prometa um mínimo de ilusão benfazeja. Cada vez menos acredito que possamos saír deste atoleiro em que estamos enterrados até ao pescoço. É só lama por todos os lados (ir aqui para ter uma imagem mais completa).