quinta-feira, março 05, 2009

Vigilantes

Watchmen no écrã e na págna do comic book


Estreia hoje um filme daqueles que nem toda a gente vai querer ver por ser uma coisa que mete personagens saídinhas de um Comic americano, personagens com fatos ridículos e coloridos, enfiadas em collants e com a cabeça ocupada por problemas mais cósmicos do que cómicos. Estou a falar de Watchmen, pois estou.

Pesoalmente sou fã de loo0nga data. O meu exemplar em papel de Watchmen tem anotado o ano e o local de aquisição: 1990, Livraria do Duque. Há 19 anos!

Lembro-me de se ter dito, naquela época longínqua, que estavamos perante uma obra-prima da Banda Desenhada (ou dos Comics ou das Histórias em Quadrinhos, como quisermos). Absolutamente de acordo. Alan Moore é um autor inventivo que raramente se satisfaz com as coisinhas que já fez (mesmo que sejam enormes ou excelentes) e pretende fazer melhor da próxima vez. Por isso, enquanto houver "próxima vez" para Moore, poderemos estar atentos e esperançados.

Regressando ao aqui e mais daqui a bocado; o filme vem fazendo furor. Como de costume, o trabalho de promoção tem sido eficaz. Vão-se mostrando umas imagens, vai-se "metendo o veneno" na cabeça dos espectadores, a vontade de ver cresce, cresce, cresce. Chovem elogios, os actores confessam o entusiasmo que sentiram por poderem ter feito parte de um projecto de tamanha excelência, enfim, enquanto não for ver, uma pessoa tem a sensação de estar incompleta (a publicidade ainda vai dar cabo de nós!).

Pronto, estreia hoje mas, possivelmente, só irei ver amanhã. Hoje tenho trabalho importante para realizar, não há um buraquinho que seja para permitir uma fuga até à escuridão da sala de cinema.

A minha filha, no esplendor dos seus 15 anos de idade, está impaciente por ir ver o filme. Eu também, confesso e apesar de tudo. Ela já prometeu que irá ver o filme 5 vezes. Eu ainda não prometi nada. Mas se a coisa for mesmo tão extraordinária como a pintam... quem sabe?

quarta-feira, março 04, 2009

Gran Cinema


Deve ser da idade. Clint Eastwood assina mais um filme de grande contenção narrativa e rigor de composição, aquilo a que, em tempos de um outro cinema, mais veloz e sincopado, costumamos chamar "um clássico".

Este "Gran Torino" possui as características que associamos aos "clássicos" (partindo do princípio que estamos a referir a arte produzida no período áureo da Antiguidade): equilíbrio, harmonia, simetria, enfim, a busca de uma forma plástica de contornos nítidos e bem definidos. Não há desvios nem elementos supérfluos. Não há movimentos de câmara desnecessários nem planos estranhamente enviesados. Não há personagens sem espessura nem cenas "para encher" o tempo ou o olhar do espectador. Ali tudo está ao serviço do objectivo principal: narrar uma história. Grande cinema, em grande estilo.

Como se tudo isto não bastasse, há ainda a presença magnética do realizador que é, cada vez mais, um gigante dentro da enormidade dos seus filmes. Ouvi dizer que Eastwood afirmou ter sido esta a sua última aparição no grande écrã, na qualidade de actor. Se foi, podemos dizer que tem uma despedida em grande estilo. Deitado de costas e em posição de Cristo, oferecido em sacrifício para redimir todos os pecados cinematográficos cometidos por gerações de realizadores menos atentos e menos capazes do que ele. Eastwood perdoa-lhes. Estão perdoados.

Um filme, absolutamente, a não perder.

segunda-feira, março 02, 2009

Céu cinzento, vinha vermelha


Que responder ao céu cinzento de um dia que amanheceu pouco esperançado? Nem o café matinal foi capaz de afastar esta coisa, esta espécie de mosca interior que me patinha irritantemente as ideias. As coisas melhoraram um pouco com uma leitura rápida de algumas notas sobre Van Gogh, para a aula que se vai seguir.

Costuma afirmar-se (com toda a propriedade, aliás) que o irmão de Vincent Van Gogh, Theo, marchand de arte e patrocinador do artista, conseguiu apenas vender uma tela de todas as que recebeu em troca do seu patrocínio.

Foi esta "Vinha Vermelha" de 1888, vendida por 400 francos (Theo enviava todos os meses 150 a Vincent). Um raio de luz na vida apocalíptica de Van Gogh que, apesar de procurar a luz com uma sofreguidão extraordinária, passou mais tempo com uma mosca a patinhar-lhe a escuridão da caverna que lhe encerrava o cérebro.

Mmmmh, agora que leio este texto não consigo perceber muito bem onde lhe encontro eu um raiozinho de esperança para o que me resta deste dia. Tenho de ir para a sala de aula. Talvez ali a coisa se ilumine.

domingo, março 01, 2009

A Árvore de Courbet


Pessoalmente, sempre relacionei o título de "A Origem do Mundo" com a semelhança que a meus olhos existe entre aquela imagem do sexo feminino e uma árvore.

Isto leva a que, no meu rebuscado imaginário, tingido por uma educação católica, apostólica e romana, a Árvore do Conhecimento, cenário do Pecado Original, se irmane de súbito com a inquietante visão daquele sexo feminino, tão exuberantemente enquadrado na tela de Courbet. Como se o pintor quisesse sugerir que a origem deste mundo tivera no Pecado Original o seu acto fundador.

Sendo um adepto fervoroso do Realismo, Courbet não era particularmente dado a especulações transcendentais. Terá afirmado que nunca pintara um anjo por nunca ter visto um "Mostrem-me um anjo e eu pintá-lo-ei."

Mas, mesmo assim, e apesar de tudo o que nos últimos dias se disse acerca da pintura de Courbet continuo a ver ali uma árvore. Um símbolo oferecido a uma sociedade machista, o Fruto Proíbido, na abstrusa concepção católica que olha o corpo da mulher como uma fonte inesgotável de luxúria e pecados mortais, capaz de lançar o maior dos santos nas profundezas do Inferno caso ceda à tentação de o provar.

Talvez esta minha leitura de "A Origem do Mundo" tenha algo de púdico por me poupar a olhar para a tela e ver ali apenas uma simples vagina. Reminiscências de uma infância católica? Talvez. Mas é essa leitura que me permite afastar a ideia de que esta tela é, simplesmente, uma imagem pornográfica. Para mim continua a ser "A Árvore de Courbet".

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Poder bruto

A capa da discórdia, terão os polícias lido "pornografia"?


Nestas histórias de censura que temos vindo a observar, não sei se ria, se sorria ou faça cara de cú! O que é comum a estes actos censórios, venham eles de Bruxelas, de Braga, de Torres Vedras ou da Merdaleja, é a desfaçatez com que os agentes do poder exercem o poder que detêm.

Não é só ignorância, é também incúria. Não é só falta de conhecimento, é também falta de capacidade e de qualidade para exercer o poder. A mesma procuradora-adjunta que censurou o carro alegórico no Carnaval de Torres (ler aqui) deu o dito por não dito e voltou atrás. O que ontem era condenável, hoje já o não era. O que mudou para justificar semelhante recuo?Também em Braga a PSP actuou e depois tentou emendar a mão. Primeiro argumentou que confiscara os livros (ler aqui)por recear desacatos na via pública. Ou seja, em vez de meter na ordem os mongas que ameaçavam os vendedores de livros, a polícia resolveu levar os objectos provocatórios para a esquadra. Que merda de forma de manter a ordem e fazer prevalecer a lei! Mais tarde a chefia da PSP acabou por reconhecer que metera a pata na poça, devolvendo os livros e tentando explicar uma coisa que não precisa de ser explicada. A censura não se confunde com nada. A estupidez com quase nada.

É isso que me assusta, ser governado por um bando de estúpidos nem sempre inofensivos que atiram primeiro e perguntam depois, ao morto, quem é ele e como se chama.

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Este país fica onde?


Aqui há uns tempos foi a questão da peça de escultura criada por um tal David Cerny (este artigo, ilustrado por dois vídeos, dá uma ideia interessante do objecto) por ocasião da entrada da República Checa para a presidência da União Europeia. A coisa era feia e corrosiva, portadora de um humor para lá da capacidade de encaixe de muito boa gente e... pimba! Perante os protestos enérgicos da Bulgária (como é que um país, entidade algo indefinível, protesta?) e outros, menos convictos, de mais alguns países novos em folha nesta União, li algures que o artista e a entidade empregadora lá decidiram que o melhor era cobrir a parte "má" da peça com um pano preto (imagem acima). Estamos perante um acto da mais pura e dura das censuras, algo que, imaginava eu, seria absolutamente impensável no espaço da União Europeia. Santa ingenuidade.

Agora tivemos esta situação rocambolesca dos policias que confiscaram meia-dúzia de livros com uma reprodução de "A Origem do Mundo" de Courbet na capa, com o argumento de que pretendiam "apenas" evitar desacatos na via pública. Risível.

Numa ou noutra situação estamos perante sinais nítidos de barbárie cultural. A arte, seja boa ou má ou nem por isso, não é pão para qualquer boca. O pior é quando aqueles que detêm o poder são mais broncos que o minimamente aceitável e desatam a cobrir de vergonha a nossa civilização, obrigando-a a retroceder até à caverna da sua estupidez individual.

É urgente debater publicamente a questão da liberdade de expressão. Se o não fizermos, quando dermos conta, teremos por aí milhares de panos pretos a cobrirem a arte que for "má" e milhões de polícias ignorantes a confiscarem tudo o que lhes pareça confiscável.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

O Leitor


Hoje fui ver este filme. Kate Winslet ganhou o Oscar de melhor actriz graças ao seu desempenho n'O Leitor. Dá que pensar; O Leitor e o facto de o Oscar ter sido atribuído a Kate Winslet.

O filme é perturbante. Tem um ritmo narrativo pouco acelerado (para não dizer lento), as elipses são quase circunferências e os silêncios de algumas personagens em determinadas cenas podem deixar o espectador algo desorientado. Talvez seja mais justo dizer que podem deixar o espectador entregue a si próprio, abandonado na imensidão das suas próprias dúvidas.

O drama que se instala na sala de projecção de O Leitor, envolve toda a gente e aperta um bocadinho a garganta, puxa bastante pela lágrima, enfim, deixa um gajo sem saber muito bem se vale a pena abrir o saco lacrimal e deixar correr. Por acaso não abri o meu, mas houve muita gente que não fez questão de poupar no choro.

Quanto ao Oscar de Winslet... pronto! É bem atribuído mas poderia ter ido parar a outras mãos (estou a lembrar-me do desempenho de Meryl Streep em A Dúvida, por exemplo) e ninguém se escandalizaria. Fica a impressão de que os critérios para a atribuição do homenzinho dourado não são exclusivamente artísticos. Mas seria ingenuidade imensa pensar que assim fosse, que a Academia se regia por rigorosos critérios cinematográficos para premiar os melhores da indústria a cada ano que passa.

Resumindo, um filme a ver por quem não receia a sua própria sensibilidade. Quem tiver medo de se sentir incomodado por possuir um coração demasiado mole e desprotegido perante as grandes revelações da alma é melhor acautelar-se; pode ficar seriamente apaixonado por O Leitor.

terça-feira, fevereiro 24, 2009

Mesmo sendo Carnaval...


A notícia aí está. Um misto de anedota inocente e bocarra de mau gosto, boçal no modo e na intenção, fica na fronteira daquilo que é aceitável em época de Carnaval.

A Polícia de Segurança Pública, vulgo PSP, fez uma apreensão notável. Foi em Braga, terra de arcebispos e padres bombistas elevados a heróis nacionais, cidade onde o Libertino passeou o seu esplendor, Braga "A Idolátrica", foi ali, na impoluta capital do Minho, que a PSP apreendeu meia-dúzia de exemplares de um livro que teria na capa "A Origem do Mundo", pintura de Gustave Courbet, emérito artista francês do século XIX, tido como principal representante da corrente designada por Realismo.

Um bracarense menos crescido, tanto cultural quanto politicamente, exigiu que os exemplares que exibiam a tenebrosa tela na capa, fossem imediatamente retirados do campo de visão público. Perante a recusa dos organizadores do evento, o dito guardião da moral foi-se queixar para a esquadra da polícia. A PSP, lenta ou omissa em tantas ocasiões que por vezes até nos esquecemos que é um corpo policial, viu aqui oportunidade para resgatar a sua imagem e avançou pela Feira do Livro em Saldo, a decorrer na Praça da República até ao próximo dia 8 de Março, para resgatar a decência e a moral católica. Sem tremor nem sombra de dúvida (nem mandato judicial) 3 polícias confiscaram os livros em causa com o argumento de se tratar de pornografia exposta em local público. Ora, todos sabemos que isso não pode ser. Pornografia em quiosques de venda de jornais ainda vá que não vá, mas numa Feira do Livro é perversão!

Mesmo sendo Carnaval esta história é mesmo de mau gosto. Basta um parvalhão qualquer torcer o nariz a uma capa de livro para esse livro ser censurado, retirado de circulação e aqueles que o tentam vender ou comprar serem humilhados publicamente? Que porcaria é esta?

Os exemplos de censura merdosa e mesquinha, originada pela ignorância boçal das autoridades, surgem de vez em quando para nos recordarem que o poder é exercido por seres com muitas limitações, seres exactamente como nós (ou talvez nem tanto) e que precisam, também eles, de ser metidos na ordem. Estes polícias deviam ser castigados pela sua ignorância estupidificante. Como mostram uma falta de cultura que envergonha muitos ignorantes por esse país fora, os polícias envolvidos nesta anedota de mau gosto deveriam ser obrigados a frequentar um curso intensivo de História da Arte do século XIX. Talvez perante uma Vénus de Antonio Canova se sentissem mais sossegados e pudessem compreender a atitude arrasadora de Courbet ao pintar "A Origem do Mundo".
Já depois de ter publicado este post chegaram notícias frescas sobre o desenrolar do "caso". Ler aqui e também aqui para saborear a delícia de tanta bondade revestida com estupidez caramelizada. Um bom-bom de portugalidade pura! Purinha mesmo, como só a Santa Maria.

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Tubarão-palhaço


Hoje li, num artigo de opinião no jornal Público assinado por Helena Matos, a frase que se segue: “O facto de vivermos cada vez mais os avanços da medicina e a hospitalização da morte levam a que cada um de nós se confronte com o temor de ficar a vegetar.” A expressão “hospitalização da morte” é deveras interessante.

A nossa capacidade de aguentar ténues fios de vida, ligando um corpo mais morto que moribundo a uma máquina qualquer, é sinal de desespero perante a incógnita da morte. Há quem fique anos para ali, não sabemos bem onde, algures entre lá e cá, entre o ser vivo e o ciborgue, com um coração que continua a bater sem cérebro desperto que o possa acompanhar. Uma coisa entre um monte de carne, ossos e veias, algo que não sabemos bem se ainda tem por dentro alguma coisa que possamos chamar de alma, uma coisa entre isso e um ser artificial, que consome electricidade em substituição de outras fontes de animação vitais.

Entretanto, algumas páginas antes, sublinha-se com algum espanto uma afirmação de Alan Greenspan (na ilustração), ex-presidente da Reserva Federal norte-americana e ex-sumo-sacerdote da religião antropófaga do capitalismo selvagem. “Em alguns casos, a solução menos má é que o Governo assuma o controlo temporário [de alguns bancos em dificuldades]”. Estarei a ler mal ou isto significa que, para este tubarão envelhecido, é desejável que haja nacionalização da banca em tempos de crise e liberalização quando as vacas engordarem de novo? Significará isto que é necessário recuperar a saúde do sistema capitalista contando com a colaboração das instituições públicas, nacionalizando os bancos durante um certo período de tempo para que, mais tarde e quando tudo estiver de novo nos eixos, se voltem a entregar às sociedades anónimas que nos sugam a vida e a mais-valia do nosso trabalho? Este gajo está xexé?

Resumindo, Greenspan sugere que hospitalizemos a morte do capitalismo selvagem na esperança de que possa regressar à vida, remoçado e pleno de entusiasmo? Os prejuízos são públicos até voltar a haver lucros que sejam entregues ao controlo dos privados?
Sinto-me angustiado. O monstro capitalista está todo entubado, ligado a mil máquinas de reanimação económica e outras tantas que o mantêm em estado vegetativo mas parece piorar a cada dia que passa. Qual a melhor solução? Desligá-lo da corrente? Mantê-lo acamado na esperança que volte a ser (pior) do que era?

Ai, ai, não sou capaz de me decidir. Se da minha opinião pudesse valer a vida ou a morte do mostrengo havia de ganhar uma insónia permanente. Como sou mais um entre milhares de milhões que para aqui andam, de um lado para o outro sem perceber bem o que se passa, o melhor que tenho a fazer é dar cordinha aos sapatos e ir uns dias para longe de tudo isto. O Carnaval aproxima-se. É tempo de virar o mundo às avessas.

terça-feira, fevereiro 17, 2009

O Tempo (perseguição sem fuga)

Na praia, Édouard Manet


«O tempo que, tal com a sociedade, se julgava ser imutável, parece acelerar com a Revolução Industrial e as transformações e progressos que ela propicia. O presente, até então sob o peso de todo o passado, vira-se para o futuro. (...) O tempo da modernidade é o presente, distinto do passado e do futuro e simultaneamente portador dos dois. Esta nova concepção do tempo leva o homem a atribuir um valor específico à época em que vive.
Para o artista trata-se de produzir obras que correspondam à sua época e, jamais, à arte de épocas anteriores, tal como era ensinada na Escola de Belas-Artes, base do academismo.»

in 1848-1905, A Arte no Século XIX de Nicole Tuffelli, Edições 70, páginas 8-9


Nem de propósito! Ao preparar uma aula sobre o Impressionismo deparei com este texto. Se o tivesse encontrado antes do dia 15 certamente o teria postado na Tertúlia Virtual. Como só hoje o tratei, só agora aqui chega. Muito a tempo, convenhamos, mostrando que o tempo não é bem aquilo que pensamos.

O tempo artístico, então, é uma tremenda baralhação. As obras de arte ultrapassam-no com maior ou menor facilidade, confundem-no, brincam com ele tanto quanto o respeitam rigorosamente.

Mas não é disso que estou a falar. Na verdade não estou a escrever sobre nada. Estou apenas a dar notícia de um momento... fora do tempo.

:-)

domingo, fevereiro 15, 2009

Tempo

O Merdanauta
acrílico e esferográfica sobre capa de caderno preto

O tempo é uma mentira que inventámos para preenchermos os dias que vivemos.

Se o tempo existisse de facto não teríamos tempo para mais nada que não fosse ele próprio. O próprio tempo. Seríamos escravos do tempo. Trabalharíamos em função do tempo. A nossa vida haveria de ser regida por medidas de tempo tão específicas que o mais ínfimo dos momentos não nos poderia pertencer, sendo propriedade do tempo.

O tempo é uma mentira que inventámos por não sermos capazes de suportar a verdade. E a verdade é que o tempo não existe!

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Um conto de fadas contemporâneo


"Quem quer ser bilionário" é um conto de fadas, uma história infantil contada a um público heterogéneo. Utilizando uma linguagem narrativa perfeitamente adequada ao mundo mediático que nos submerge, Danny Boyle parece ter encontrado (finalmente?) um forma eficaz de ir ao encontro do grande público.

A forma como a história vai sendo desfiada(em flashback), as cenas cortadas e recortadas em planos curtos e montados em rápida sucessão, à maneira dos vídeo clips, cenas com saturação de cor extrema, a banda sonora poderosa, actores escolhidos com felicidade e acerto (vejam-se as crianças!) tudo isto se conjuga num filme capaz de apaixonar multidões.

O facto de a acção se centrar num programa de TV cujo formato é popular em todo o planeta (toda a gente já viu aquele programa produzido no seu próprio país e na sua língua materna) ajuda a entrar na história com o pé direito e muita segurança. Depois, lá no fundo, narra-se uma aventura sobre o velho mito do amor eterno, com príncipes e princesa, tendo por cenário uma miséria exótica e a possibilidade de ascender na escala social graças a um conjunto de acasos extraordinário. O protagonista acaba por vencer mas apenas por acaso. O amor sincero é protegido pelos deuses? Parece que sim.

sábado, fevereiro 07, 2009

Actores







O filme A Dúvida tem um elenco extraordinário. Não é preciso ser um especialista para o descobrir. É óbvio. Meryl Streep ou Phillip Seymour Hoffman são nomes que de imediato conferem um selo de qualidade ao trabalho que desempenham. E, em A Dúvida, vão alto.
Já as actrizes "secundárias" constituem motivo de espanto. Amy Adams, no papel de jovem freira que se esforça até ao limite por imaginar a realidade, está em muito bom plano; mas Viola Davis, representando a mãe de um jovem aluno do colégio onde se centra a acção do filme, está num plano extraterrestre!

A densidade e intnsidade das representações são o sumo deste filme realizado pelo dramaturgo que escreveu a peça em que se baseia. Talvez por isso, a câmara concentra-se nas faces e nos corpos dos actores, como se o resto fosse (e é) mero acessório. É um filme sobre pessoas que pretende aprofundar a exposição da fragilidade humana quando se trata de construir modelos concretos daquilo que imaginamos ser a realidade. Confuso, não?

Apesar de ser bastante modesto sob o ponto de vista da realização, A Dúvida é daqueles filmes que, quando termina, nos deixa a sensação de ter sido extraordinariamente curto. Na verdade tem 104 minutos mas pareceu ter acabado depressa demais.

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

O cupido de Santa Comba



Depois desta série nunca mais poderemos olhar Salazar do mesmo modo. Algumas imagens passam a ter outra dimensão.
De cima para baixo: com Carmona, com aquela rapariguinha e com Franco. Afinal o homem era um cupido de seta sempre pronta!


Ainda não estreou mas já promete ser a maior mistificação dos últimos tempos. "A Vida Secreta de Salazar" está aí a romper e vai oferecer aos olhos de todo um povo estupefacto uma imagem do Botas absolutamente inesperada. Afinal de contas, o mito do homem púdico, temente a Deus e que só se apercebia que tinha uma pixota de cada vez que não se distraía com alguma oração especial quando ia mijar, não passa disso mesmo: um mito.

Desenganem-se os que pensavam que Salazar era um velho carcomido pelo ódio à existência e à liberdade humana. Qual quê! Aquele ser vivo não era nenhuma pileca, antes um verdadeiro garanhão que cobria todas as fêmeas que lhe passassem à distância de um braço.

Veja-se uma frase promocional da coisa: «Esta mini-série de 180 minutos (dividido em dois episódios de 90’) resulta do choque entre a narrativa propagandística, que a francesa Christine Garnier popularizou em livro, e as diferentes tramas amorosas protagonizadas pelas outras mulheres cujos corações foram atingidos pela flecha do Cupido de Santa Comba Dão.» Caramba! Já tinha ouvido chamar muita coisa ao velho das botas, mas "cupido de Santa Comba Dão", essa é muito forte e completamente nova.

Enfim, a coisa promete. Um Salazar cheio de vigor (quem diria?) envolvido com mulheres muito mais belas do que alguma vez ele sonhou que pudessem existir (veja-se aqui, meu deus!!!), que mais nos falta descobrir na constante descoberta que é a vida reescrita dos bandidos deste nosso Portugal? Que surpresas nos reservam ainda os produtores de audiovisual dos canais privados? Cenas escaldantes entre o Cardeal Cerejeira e o seu amigo Cupido de Santa Comba? O Anjo de Portugal a ser sodomizado pelo Demónio feito gente que, ao que parece, foi, afinal, o velho António de Oliveira, enquanto debita um rosário completo? Perante uma surpresa deste calibre tudo podemos esperar. Ou não?

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Interior Luxuoso


Ao saltar para a página do Público online dei de caras com esta notícia. Lux Interior morreu com 62 anos de idade. Não deixa de causar uma certa impressão na boca do estômago o facto de a notícia estar na secção de "cultura" (Ouvi e vi o vídeo de "What's inside a girl?" 3 vezes seguidas só para matar saudades. Saudades mortas.)

Os Cramps foram uma das bandas que me ajudaram a suportar o fim da adolescência sem ser assaltado por uma vontade incontrolável de me atirar abaixo de uma ponte. Sempre que era assaltado por essa fatalidade ouvia uns temazinhos dos Cramps e pronto, voltava tudo ao sossego habitual. Havendo Cramps neste mundo, todos os adolescentes de finais dos anos 70 podiam respirar um pouco mais aliviados.

A música desta banda constituída por horripilantes personagens tem qualquer coisa de hipnótico que nos faz desejar manter os faróis ligados mesmo que estejam a apontar e a iluminar algo que preferíamos não ver ou, pelo menos, ignorar. Uma espécie de alegria de viver ao contrário.

O 100 Cabeças envia condolências a Poison Ivy, viúva de Lux.

A partir de agora resta-nos ouvir o som arrasador dos Cramps e continuar a sorrir e a abanar a cabeça enquanto tentamos segurar os pézinhos que teimam em bater e as pernas que não sossegam de tanto quererem dançar.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Um pensamento que não chega a sê-lo. É envelope.


Parece-me conveniente afastar da cabeceira da cama os fantasmas que sejam da família de outras pessoas. Não estou disposto a deixar-me assombrar por eles. Na maior parte dos casos nem sequer os conheço. Não podem meter-me medo.

Prefiro entreabrir a porta e espreitar os meus próprios fantasmas. Quem sabe, uma noite destas lhes entrego as chaves dos meus sonhos?

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Um filme dos antigos


Milk é um filme que conta uma história (Será isto digno de nota? Faz sentido esta afirmação?). Veloz e construído de forma sólida, conta com a extraordinária interpretação de Sean Penn (Oscar para o melhor actor?).

Sendo um filme biográfico centrado na figura de um activista gay, Milk acaba por constituir um hino à democracia americana. Harvey Milk nunca desiste de fazer valer os direitos da comunidade gay, utilizando todos os meios que a Democracia coloca à sua disposição, até atingir, finalmente, os objectivos a que se propõe.

O registo cinematográfico utilizado por Gus van Sant é escorreito e claro como água. No final sai-se do cinema com a sensação de que há esperança nas virtudes do sistema democrático e que, contra ventos e marés, é possível triunfar sobre as forças obscuras dos fundamentalismos mais empedernidos. Sai-se também com a sensação de que é possível fazer cinema sem grandes efeitos especiais nem explosões nem planos de centésimos de segundo montados uns a seguir aos outros numa sucessão alucinante.
Um bom filme, com um elenco excelente.

Na noite em que assisti à projecção de Milk a lotação da sala estava esgotada. Apesar de ser uma sala pequenina (uma das salas Vip das Amoreiras) é de assinalar este facto.

domingo, fevereiro 01, 2009

No veleiro do 3º andar


Lá fora o temporal desespera. Ele chove, ele faz vento, bate, açoita, geme e grita. Parece capaz de continuar naquilo a noite toda. A vizinha do andar de baixo vem até à minha porta. Não usa a campaínha, bate com os nós dos dedos, a imitar a borrasca, mas com menos vigor, menos ímpeto, outras motivações a fazem assim bater, devagarinho. Que há uma toalha no estendal a esbarrar-lhe na janela da cozinha. Coisa essa que a incomoda. Compreendo. Que a toalha poderá voar para dentro da tempestade e perder-se lá para o meio daquele inferno de ruas encharcadas, levada por um dos pequenos rios que agora correm ladeira abaixo, como diabretes a brilhar sobre o asfalto.. Que está bem, que me desculpe. Vou já resolver isso, boa noite. Olhe que se vai molhar todo, que se há-de fazer (que raio queria ela que eu fizesse?)? Muito obrigada. A vizinha regressa ao seu buraco por baixo da minha toca. Somos muitos, demasiados, apinhados como formigas, como baratas, enfim, apinhados como insectos. As janelonas da marquise estremecem, abanadas pela ventania e picotadas pelas gotas de chuva que o céu atira cá pra baixo como se fossem setas. Que hei-de fazer (que raio queria a vizinha que eu fizesse?)?

Abro a janela. Sou um marinheiro em luta com as velas açoitadas pela tempestade, encarrapitado no mastro grande, a tentar por na ordem panos que esvoaçam encharcados, irritados e enlouquecidos pelo vento. A chuva é fria como o caraças e as peças no estendal estão enroladas. São difíceis de controlar. A luta é intensa. Sinto-me a cavalgar as ondas. Mas estou apenas no 3º andar, a levar com a chuva nas trombas, com o cabelo encharcado e as mangas do casaco molhadas. Não me parece que a toalha citada estivesse sequer perto de bater na janela da senhora mas ela é assim mesmo. Simpática. E preocupa-se comigo (que me ia molhar, pois.) e já não é a 1ª vez que se queixa das toalhas. É para aí a centésima vez. E por muito que me queira imaginar num veleiro em pleno mar alto, por muito que queira brincar um pouco como se tivesse outra vez 10 anos de idade, a verdade é que não consigo. Esta não é brincadeira que me apetecesse brincar. Já não sou capaz de entrar nestes filmes a fingir que a realidade, quando é uma merda, não é a merda que parece.

Quando termino o meu acto heróico estou a dizer mal da vida, sinto a cabeça gelada (espero não ficar doente) e estou perfeitamente ciente dos anos a que por cá ando. Decido descalçar as botas e enfiar os pés numas pantufas. Ao menos isso.

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Dúvidas


Aquilo que me enche de dúvidas é o facto de sentir tantas certezas.

terça-feira, janeiro 27, 2009

Mondrian vai ter de esperar


"A arte, por ser um mero artifício, necessário apenas porque falta beleza nesta vida, vai desaparecer à medida que a vida ganhe beleza (...) Hoje em dia a arte é da maior importância porque há que demonstrar plasticamente, isto é, de uma maneira directa e livre da nossa concepção individual, as leis que fazem surgir a vida verdadeiramente humana." Estas palavras, atribuídas a Piet Mondrian, configuram uma das maiores utopias da modernidade. A utopia de que a humanidade haverá de encontrar, no seu percurso em direcção a Não-Sei-Quê, uma forma de manifestação colectiva absoluta e ideal. A ser assim, a arte e a vida, um dia, serão uma e a mesma coisa. A própria vida, materializada na construção da coisa social, será uma manifestação artística, uma realização total de beleza, caracterizada pelos atributos clássicos daquilo que é belo: equilíbrio, simetria... harmonia. Ética sinónimo de estética? Lindo!

Ontem, ao ler uma reportagem sobre o rescaldo da guerra em Gaza, deparei com o seguinte pedaço de texto, da autoria de Alexandra Lucas Coelho: "O Parlamento de Gaza fica no meio da cidade. Quem estaciona o carro nas traseiras pensa que já não há Parlamento, tal a destruição. (...) Por exemplo, o hemiciclo podia ser uma instalação de arte contemporânea, com os retratos dos deputados ainda emoldurados em cima das mesas, cobertas de areia e cacos, enquanto emaranhados de metal e tubos pendem do tecto, semiderrubado."

No início do século XX a reflexão sobre arte ainda permitia imaginar um mundo belo, limpo, recticulado, equilibrado.; harmonioso. Cem anos volvidos, nós, os que vivemos o início do século XXI, temos da arte e do seu significado um entendimento substancialmente diverso daquele que enformou as utopias modernistas. Para nós os atributos da beleza clássica (quase) deixaram de fazer sentido. Habituados a viver num mundo de excessos e contrastes violentos, já não nos comovemos tanto com a simplicidade abstracta do geometrismo neoplástico de Mondrian. Estamos mais inclinados para linguagens violentamente românticas como a de Bacon, por exemplo. Uma vez que interiozámos os conceitos contemporâneos herdados dos ready-mades de Marcel Duchamp, podemos ver na sala semi-destruída do Parlamento de Gaza uma imagem de contornos artísticos pós-modernos. Vemos na sua ruína o resultado da aplicação de "leis que fazem surgir a vida verdadeiramente humana" tal como a entendemos nos tempos que correm. Essa lei já não tem (nem aspira a) nada de equilibrado ou simetricamente harmonioso. A lei que caracteriza a vida verdadeiramente humana nos tempos que correm é a da brutalidade assimétrica, da desarmonia cultural e do desiquilibrio de forças entre os ricos e os pobres, entre os que se autoproclamam filhos de deus e aqueles que sabemos que não passam de meros filhos-da-puta.

Vivemos dias complicados, tempos de desacerto e desilusão. A utopia modernista afunda-se cada vez mais na massa viscosa da pós-modernidade. As rectas perfeitas de Mondrian e os seus campos de cores primárias absolutamente contidas quebram-se para abrirem caminho à poesia caótica escrita à força dos mísseis e rende-se à musicalidade tenebrosa das metralhadoras e das pás dos helicópetros que pairam na paisagem como agoirentas aves, anunciadoras da proximidade da morte.

Mondrian vai ter de continuar à espera. Para sempre?

domingo, janeiro 25, 2009

Sessão Dupla (parte 2) e uma crítica de merda



Hoje fiz nova sessão dupla com a família num centro comercial com 15 ou 16 salas de cinema, nem sei quantas tem. A boa experiência da semana passada fez com que não houvesse hesitações. As hesitações surgiram na hora de escolher os filmes.

Yes Man (Sim!) apareceu com algumas reticências mas ficou. Depois, ponderando horários e sequências várias, hesitámos perante Austrália, inclinámo-nos para Vicky Cristina Barcelona mas a sequência, por qualquer razão, não parecia correcta e não satisfazia realmente nenhum de nós. Um pouco "a medo" propus A Onda. Aceite a proposta avançámos corajosamente para o filme de Jim Carrey.

Sim! é uma "daquelas" comédias em que Carrey se sente melhor que peixe na água. Além do pormenor de que, na sala, estávamos apenas eu e as minhas acompanhantes. Parecia homecinema! O filme tem algumas cenas cómicas de antologia. O resgate do suicida ou o combate nas traseiras do bar fizeram-me rir. Sim, rir, verdadeiramente. No fim todos demos o tempo por bem empregue, seja lá isso o que for. A seguir, meia hora mais tarde, viria A Onda. E com ela um banho de surpresas.

A propósito deste filme, procurei as críticas dos críticos do Público que estão aqui. É um exercício interessante lê-las e tentar perceber como o mesmo objecto pode ter interpretações tão díspares. Pessoalmente inclino-me a concordar com Jorge Mourinha e, mais uma vez, a crítica de Luís Miguel Oliveira quase me dá vontade de cuspir para o lado. Enfim.

A Onda é um filme bem lançado, com uma montagem convincente aliada a uma banda sonora adequada. A mensagem central é clara e passa com total eficácia para o espectador. A minha filha, que é uma adolescente de 15 anos, ficou impressionada com o que viu. Isso, para mim, é a prova mais completa da qualidade do filme. Bem pode Luís Miguel Oliveira ir pregar para o deserto. Cá em casa, por exemplo, ninguém lhe liga. A verdade é que eu sou o único com paciência para ler a porcaria que ele escreve e, confesso, leio-o apenas porque não gosto. Não o conheço e, se o vir, nem sei quem ele é. Mas tenho um prazer mórbido em ler as críticas dele. Não é masoquismo. Não. É exactamente o contrário.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Tudo é nada

Andar por aqui. Visitar blogues. Deixar comentários (ou não). Responder. Olhar. Sorrir (ou não). Tantos assuntos esbarram uns nos outros que fico sem saber o que comentar neste post. É então que decido comentar isso mesmo. Isto mesmo. Ou seja, não comentar nada. Embora isto seja alguma coisa (um pouco difícil dizer que coisa é esta).

Ando há vários dias a pensar no Hartismo que encontrei aqui, no Varal de Ideias, mas ainda não ganhei fôlego para poder discursar sobre o assunto. Hartismo... é uma coisa interessante. No dia 15 deste mês fui ao Porto ver a exposição de Juan Muñoz e nem sequer falei aqui do assunto. É muita coisa. Durante a viagem, ao ler o jornal, encontrei a história do David Cerny e pronto. A escandaleira do artista checo dá mais interesse que a arte prazenteira e fácil de engolir 8na foto) do malogrado Muñoz. Depois passei o fim-de-semana a trabalhar arduamente num projecto que não é meu mas ao qual não hesitei em entregar todo o tempo que foi necessário. E mais uma leiturinha rápida, um novo livro espectacular sobre iluminura medieval. Caramba, acontece tanta coisa, há tantos assuntos que, no fim, escrevo sobre todos sem escrever nada sobre nenhum deles. Nem Gaza, nem Obama, esse ser que faz da justiça poética uma coisa de carne e osso. Por se chamar Hussein como o outro e ser o 1º presidente não-branco (não vejo nele um preto) de um país do bloco ocidental capitalista . É o 1º não é? Enfim, chego ao fim deste post como se ainda estivesse no início. E depois, o mundo não é redondo?


segunda-feira, janeiro 19, 2009

2 filmes 2


Em cima Angelina Jolie transtornada, em baixo Brad Pitt transfigurado. "O Estranho Caso..." tem alguns efeitos especiais desconcertantes. Ver a cabeça de Pitt num corpo minúsculo é um deles. Em "A Troca" há um miúdo que faz uma cena de cortar a respiração. É uma cena em que confessa algo a um polícia durante um interrogatório. Vão ver e depois digam-me o que pensaram...

Na sexta-feira passada eu e a minha família mais chegada (mulher e filha) fizemos uma tarde/noite cinéfila de alta qualidade. Fomos assistir a "O Estranho Caso de Benjamin Button" , realizado por David Fincher (a crítica a que este link dá acesso não me convence nem um bocadinho mas gosto de confrontar opiniões divergentes) e, depois de um jantar em que comentámos o filme e nos rimos com outras coisas, regressámos para ver "A Troca", de Clint Eastwood.

Gostámos de ambos. Na verdade íamos dispostos a gostar de ambos. Não só porque os dois realizadores são "velhos amigos" da família mas também porque os protagonistas são actores que nos agradam vai para mais que muito tempo. O casal Jolie/Pitt a mostrar muito mais do que atributos físicos e fotogenia, a mostrar talento a rodos e um encanto especialíssimo. Se juntarmos a senhora Blanchett que contracena com o senhor Pitt em "O Estranho Caso..." temos um naipe de actores de fazer trincar pipocas como se fossem caviar. Com vodka.

Não quero aqui misturar os dois filmes (que têm registos diversos e ambientes muito próprios) mas há algo que os une, na minha óptica, evidentemente; a excelente qualidade de ambos.

Filmes rigorosos na "mise en cène" e na construção dos cenários, com direcções de actores cuidadosíssimas (talvez melhor no filme de Eastwood). Filmes capazes de prender o espectador na cadeira, de emocionar e mexer com cada um de nós, na medida em que estivermos dispostos a deixar-nos mexer, a deixar-nos seduzir, a deixar-nos ir para dentro de uma narrativa cinematográfica. E, no fim de cada um deles, saímos menos vazios do que entrámos. Isso eu posso garantir-vos!

sábado, janeiro 17, 2009

A censura tem sempre o mesmo focinho!




A coisa caiu como um balão de água, não chegou a rebentar como se fosse uma bomba. Um tal de David Cerny, artista plástico, checo por nascimento e, segundo argumentou, também na forma como exercita um certo sentido de humor, muito característico da sua terra natal, rebentou inesperadamente nas bocas do mundo.

A presidência checa da União Europeia contratou o polémico artista plástico com a finalidade de "alindar" a fachada do seu edifício sede, em Bruxelas. A ideia, ao que parece, seria que Cerny ficava obrigado a contactar 27 artistas plásticos, um em cada estado membro da União, por forma a recolher as suas visões individuais sobre o país de origem. O resultado seria uma espécie de imagem (ou forma) que sintetizasse uma perspectiva individual sobre a característica simbólica capaz de identificar o modo de ser ou de pensar ou de sentir de cada país, que pudesse ser materializada num objecto a exporaos olhos do mundo. O resultado foi a peça intitulada "Entropa" que se veio a revelar algo absolutamente inesperado.

Cerny utiliza uma linguagem visual extraordináriamente agressiva. A forma como resumiu simbólicamente alguns dos países da União deixou os seus dirigentes à beirinha de um ataque de nervos. Os búlgaros não gostaram de ver o seu país representado por uma retrete e manifestaram-se ainda antes da inauguração (no passado dia 15) exigindo que a dita peça fosse retirada. Compreendo. Também os eslovacos e os polacos deram largas à indignação e pediram explicações à presidência checa da União pelas liberdades artísticas de Cerny.

Tudo isto me trouxe à memória a célebre polémica das ilustrações dinamarquesas do profeta Maomé que deixaram o mundo fundamentalista islâmico em polvorosa. Na altura muitas foram as vozes que se levantaram em defesa da liberdade de expressão enquanto valor fundamental das democracias ocidentais. Seria interessante que, nesta situação, as mesmas vozes e a mesma indignação fossem audíveis e visíveis. É que, no dia imediato aos inflamados protestos de búlgaros, eslovacos e polacos, o governo checo e Cerny, pediram publicamente desculpas se eventualmente ofenderam alguém. Mais, li que se comprometiam a retirar as peças ofensivas, cedendo a um acto de censura, pura e simples.

Se as coisas se resolverem desta forma só poderei fazer um comentário: esta União é uma merda e ficou bem representada por uma merda de artista e a Bulgária foi a imagem mais fiel que Cerny concebeu nesta escatológica peça escultórica. Não está em causa a "beleza" do objecto. É horrível, mesmo em fotografia. O que está em causa é a nossa capacidade para aceitar a liberdade de expressão. A censura, venha ela de onde vier, tem sempre o mesmo focinho horroroso e não há argumento que lhe embeleze a tromba.


terça-feira, janeiro 13, 2009

Fruindo a contemporaneidade artísitca


Perante a extraordinária formulação de Duchamp, o espectador/fruidor do objecto de arte contemporânea ganha uma posição de grande responsabilidade na conclusão do processo comunicacional.

Olhando o urinol titulado como A Fonte, a primeira reacção interpretativa, a mais óbvia, é ver no próprio urinol o objecto sugerido pelo título. Mas, numa segunda passagem de olhos sobre o conceito associado, surge uma dúvida e abre-se uma pequena porta, uma outra direcção.

E se A Fonte não for o urinol mas o próprio observador? Como!? O observador? Sim, exactamente: o observador!

Uma das consequências da perspectiva dadaísta sobre a produção de obras de arte é que o observador/fruidor já não pode manter uma atitude passiva perante o objecto que observa. A "elevação" do objecto observado à categoria de obra de arte depende muito da capacidade (ou da vontade) do observador para o considerar como tal.

É o observador que funciona como fonte de onde brota a arte, é nele que reside, em potência, toda a dimensão artística. Só precisará de fazer um pouco de força, derramando a sua sensibilidade sobre o objecto que este lha devolverá, transformada em revelação artística, o resultado da sua fruição. Tal como proponho na ilustração (clicar para leitura mais eficaz), o observador/fruidor é A Fonte, o urinol serve apenas de veículo à sensação e sensibilidade artísticas.

Simples, não é?

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Fontes


Transcrevo a frase do "Escrito na Pedra" do suplemento de ontem do jornal Público, o P2, que era assim: "A arte tanto pode morrer do excesso de rigor quanto da extrema liberdade." frase atribuída a Henri Lefebvre, sociólogo francês, 1901-1991.

Ilustro este post com duas "fontes" célebres; a de Ingres, pintada em 1856 e a de Duchamp, idealizada em 1917. A reflexão fica a teu cargo, caríssimo leitor. As minhas opiniões, acabo de as guardar a sete chaves. São opiniões minhas. Só minhas. Muito minhas, mesmo!

domingo, janeiro 11, 2009

Vazio e frio

Zebras na neve e no gelo (Amesterdão, Dezembro de 2005)


Está um frio do caraças! Quando as preocupações se prendem com o aquecimento global, um tempo destes é má publicidade para a causa. A verdade é tenho as mãos meio geladas e nem sinto as pontas dos dedos nas teclas. Detesto aquecedores eléctricos e não gosto deles animados com botijas de gás. Não tenho "aire acondicionado" em casa e, aqui no sótão onde vou escrevendo estas palavras, o frio morde no Inverno e o calor vomita sobre as pessoas uma coisa quente quando estamos no Verão.

O sol faz de contas que aquece e brilha lá fora, sem convicção. As notícias também parecem ter congelado. O mundo está assim, tipo frigorífico, à espera de algo que possa derreter as desgraças mais visíveis e evidentes, ansioso de uma primavera que nos devolva a esperança em qualquer coisinha que seja.

Tenho o cérebro meio desligado. Parece que está debaixo de uma camisola de lã. Tenho uma camisola de lã dentro da cabeça, o que é incómodo. Não sou capaz de pensar, de tal modo estão geladas as cabeças dos meus dedos. Enfim, vou parar de escrever. Não vale a pena escrever numa tarde como esta. Vou meter as mãos nos bolsos e viver intensamente não fazendo nada. Vou olhar pela janela. Isso será qualquer coisa.

sexta-feira, janeiro 09, 2009

Este gajo tinha uma costela portuguesa!

Warhol é um nome derivado de Warhola. Caíu-lhe o "a". Andrew subtraiu-se em Andy. Andy Warhol é nome de um dos ícones maiores da Pop Art americana (e, por extensão, da Arte Pop mundial). Os pais de Andy foram da Eslováquia para os States e o pimpolho já nasceu por lá. No entanto, ao ler a frase acima reproduzida, não pude evitar uma exclamação de espanto (nem me lembro se não levei a mão esquerda a tapar a boca com os dedos esticados): quem fala assim só pode ter uma costela portuguesa, do Alentejo. Não há que errar! Tal como Cristóvão Colombo seria originário de Cuba, a verdadeira, a alentejana, tese que o imortal centenário Oliveira se esforçou por tornar verosimilhante no seu filme Cristóvão Colombo - O Enigma, também Warhola teria fortes probabilidades de possuir vestígios de indolente portugalidade nos seus genes mais profundos. Aquela frase encerra uma tal sabedoria, mostra uma tão arrebatadora visão da condição humana que só pode ter origem nalguma curva de ADN com passagem por solo luso.
Não sou genealogista e amanhã já me terei esquecido disto mas estou convicto de que uma investigação imparcial à árvore da família Warhola iria colocar alguma das suas raízes próxima da planície alentejana, terra de heróis, poetas, camponeses, dirigentes comunistas, cantores inigualáveis, grandes latifundiários, etc., etc., e artistas plásticos de créditos firmados!

quarta-feira, janeiro 07, 2009

Desenho corrigido


Vinha do lado de lá. Pequenino, mão dada na mão da mãe. Vinha debaixo de um gorro colorido que lhe aconchegava as ideias. O olhar, perdido entre todas as coisas que queria ver e talvez nem soubesse que via, trazia agarrado aquela expressão confiante de quem não sofre mais do que comer meia dúzia de colheres de uma sopa de legumes. Atravessou a rua, assim dependurado da asa do seu anjo protector, anjo por sua vez protegido por óculos escuros e cachecol. Atravessou olhando através do mundo, perfurando as coisas com os olhos, mergulhado no cálido torpor dos sonhos que a mais tenra infância nos permite sonhar. Dependurado, passou por mim. Dependurado continuou e, decerto já poisado, algures ele continua.

terça-feira, janeiro 06, 2009

Orar a um deus que não é nada


A guerra na Faixa de Gaza é uma coisa complicada. Levanta tantos problemas éticos e provoca uma tão grande confusão na cabeça de um gajo que, como eu (como nós) vive a situação à distância, através de imagens e notícias, que a opinião balança constantemente para um lado e para o outro.

Ora dou por mim a compreender as razões da invasão israelita, ora me sinto indignado com a brutalidade e desproporção de forças em confronto. Ora compreendo a insegurança vivida nas cidades israelitas sob o fogo banalizado dos rockets do Hamas, ora compreendo a insatisfação do milhão e meio de habitantes da Faixa de Gaza, prisioneiros naquele verdadeiro campo de concentração a que chamam casa.

Haverá alguma solução possível que esteja de acordo com os princípios humanistas que, quero acreditar, norteiam a nossa vida deste lado do planeta? Não acredito. A solução, se existir, não passa pelos gabinetes europeus. O ponto a que se chegou já só parece admitir uma solução que passe pelo aniquilamento de alguma das forças em confronto. Talvez o Hamas esteja em piores lençóis.

Mas o Hamas funde-se na população civil com extrema facilidade e lutar com ele, atingi-lo, implica a morte de inocentes. Um problema complicado. O que fazer?

Sentadinho num belo sofá, com o meu computador à frente dos olhos e o leve ruído do tráfego que murmura vindo lá de baixo, do sossego agitado das ruas de Almada, estas palavras que escrevo não têm qualquer significado. A minha opinião não tem qualquer justificação que não sejam algumas coisas em que acredito porque como sobremesa e as minhas preocupações quotidianas não se prendem com o terror de nenhuma guerra à porta de casa.

Ouço e leio contendas acaloradas com a Guerra em Gaza por pano de fundo. Mas, pensando bem, não é essa guerra que se discute aqui por estas bandas. São outras questões, ideologias, convicções, fézadas que se têm e se tentam colar ao que ali acontece. Mas que podemos nós saber da dor de um palestiniano fechado no seu apartamento em Gaza enquanto o céu desaba sobre a sua cabeça? E que podemos nós saber do desespero de um israelita a quem caíu um rocket no quintal?

Em ocasiões como esta só nos resta rezar. Mesmo que não acreditemos em deus.

domingo, janeiro 04, 2009

Eles estão entre nós


Já não bastava terem os portugueses oferecido ao mundo os mulatos, ainda tinha de ser descoberto em território nacional este esqueleto de menino que tanta tinta fez correr. O designado "Menino do Lapedo", cujos restos mortais foram desenterrados perto de Leiria, sugere a possibilidade de estarmos perante mais um caso de mestiçagem protagonizado pelos nossos antepassados. São dois eminentes estudiosos destas coisas, João Zilhão e Erik Trinkaus, que colocam a possibilidade do "Menino do Lapedo" «como o resultado de um possível processo de mestiçagem entre Sapiens e Neanderthalensis:
"Com efeito, alguns aspectos como a dentição, a robustez dos ossos dos membros ou as proporções relativas da tíbia e do fémur mostram características próprias dos neandertalenses. Pelo contrário, outros como a dentição, o queixo ou as proporções e morfologia da bacia, são claramente próprios dos homens de tipo anatomicamente moderno."
».

Aqui há uns anos tive a possibilidade de convidar a arqueóloga Cidália Duarte para promover na minha escola um colóquio sobre este tema. A descoberta do esqueleto ainda estava "quentinha" e a exposição que Cidália fez sobre tão interessante hipótese foi excelente. A conclusão, se bem me recordo, seria que o Homem de Neanderthal não terá sido extinto, como se pensava. Na verdade, caso a hipótese de mestiçagem fosse verdadeira, esse robusto homem pré-histórico teria subsistido em gerações e gerações de habitantes da Península Ibérica, até aos nossos dias. O Homem de Neanderthal estaria entre nós. Quer dizer, haveria fortes probabilidades de, dentro da sala onde decorria o colóquio, algumas pessoas possuirem traços genéticos destes seres de outra era.

A hipótese tem gerado imensa controvérsia e está longe de constituir doutrina aceite nos meios científicos mas, temos de concordar, que se trata de uma ideia elegante e, por assim dizer, politicamente correcta.

Aceitando esta história como boa e verdadeira, muita coisa se explicaria sobre o comportamento troglodita tão comum entre nós, portugueses, pequenotes homens do sul.

Ahahahah, esta é forte!

sábado, janeiro 03, 2009

Calmaria

Paul Auster passeando no Central Park



Saí de 2008 a ler O Jogo do Anjo e entrei em 2009 a ler As Loucuras de Brooklyn. Acabei há umas horas a leitura do livro de Paul Auster, um romance luminoso com final sombrio. Estas férias estão no fim. Já sei que quando recomeçar a dar aulas, as minhas leituras irão centrar-se em excertos de obras relacionadas com a História da Arte, em pesquisas mais ou menos desorganizadas sobre este ou aquele artista, esta época ou outra qualquer que seja necessário abordar na próxima sessão. Regressarei a um mundo de letras confuso e fragmentado que deixa pouco espaço à leitura compulsiva com que devorei os dois livros referidos na primeira frase do post.

Tenho mais uns quantos romances de Auster para ler. Descansam na prateleira, provocam-me e estimulam a minha imaginação. Poderei resistir-lhes? Espero não ter forças para tanto.

As Loucuras de Brooklyn são um hino à grandeza das vidas banais, um épico das coisinhas pequenas. A leitura deste livro encheu-me de coragem e pacificou-me o espírito. Agora sim, o ano de 2009 pode começar. Estou pronto para dançar com passos seguros ao som da sua música desconhecida... seja qual for o tom, seja qual for o ritmo.

quinta-feira, janeiro 01, 2009

Um olhar descuidado


2008 chegou ao fim. Como habitualmente fazem-se balanços do que foi e aconteceu e marcou e se considera digno de registo. Como tantos outros tento fazer uma retrospectiva sobre as coisas que me vêm à memória, procurando imagens ilustrativas na imensidão da grande divindade, o Google.

Desisto perante a confusão que de imediato se instalou na minha cabeça. Factos, imagens, pessoas, mistura-se tudo numa amálgama informe e impossível de ordenar de forma satisfatória. Constato que a qualidade da minha memória é um pouco pior do que me lembrava. Nada de mais.

Nunca poderia fazer justiça a todos os que me marcaram ao longo de 2008, nem referir todos os acontecimentos que me garantiram serem História, com "H" grande, a merecerem livro para estudo das gerações vindouras. Qualquer tentativa de registar um balanço de 2008 resultaria mais esburacada que a praia de Okinawa naquele dia que a gente sabe.

Obama e o rebentamento da crise do subprime são notícias recentes. Mas o preço do petróleo na montanha-russa ou a morte de Luiz Pacheco já se misturam um pouco em neblinas sebastianistas. Outros óbitos, menos mediáticos (nada mediáticos) desembarcam sorrateiramente nesta praiazinha que se me vai formando na memória.

As manifestações de professores ainda estão frescas mas já sei que em 2012, se ainda por cá andar, não vou conseguir colocar essas marchas gloriosas na prateleira correspondente, nem recordar os nomes daqueles dois secretários de estado rastejantes e sebosos. Enfim, os balanços valem o que valem. Valem pouco.

Na verdade, o passado recente não parece merecer mais que um olhar descuidado. Não tem ainda o fôlego do acontecimento histórico, nem o sopro de morte da coisa que caíu num buraco escavado no chão da memória colectiva. É uma coisa assim-assim, uma sardinha enlatada em tomate com molho picante, um golo marcado com a mão num jogo de futebol, uma rapariga bonita que ficou feia de tanto querer ser ainda mais bonita.

Enfim, um óptimo 2009, seja lá isso o que for.




para ver uma selecção de imagens do ano que findou clicar aqui. recomenda-se a activação das legendas.

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Votos de Ano Novo


Para o Ano Novo que aí vem desejo que todos consigamos perceber com precisão cirúrgica quanto amamos e quanto odiamos.

Que o amor e o ódio se confundam numa coisa só.

Que essa coisa seja suficientemente forte de modo a permitir-nos escolher com clareza os caminhos que trilhamos sem falsidades e com toda a honestidade que os nossos corações forem capazes de suportar.

Bom Ano Novo para todos. Para os que amo e, também, para aqueles que odeio.

terça-feira, dezembro 30, 2008

2009 está quase aí (parte 3)


Esta sequência de posts está decerto influenciada pela leitura de O Jogo do Anjo, de Carlos Ruiz Záfon. Ofereceram-me o livro no Natal e, contrariando a minha habitual lentidão, li-o em dois dias apenas. Eu sei que é fácil gostar das histórias de Zafón, que a sua escrita escorre pelo cérebro como gelatina de sabor a tutti-frutti escorre goela abaixo, que as suas personagens só dizem coisas extraordinárias e fazem afirmações estonteantes, mesmo nas situações mais simples e, aparentemente, banais. Eu sei. E é precisamente por isso que gosto de o ler. Não terá a densidade de floresta virgem longe de ser desmatada que tem a escrita de Lobo Antunes, por exemplo, nem a profundidade de um Ian McEwan, decerto. Será literatura de cordel, doce como açucar em pó, mas lê-se de um fôlego e, no fim, é uma desilusão que tenha acabado.

Espera lá, o que é que eu queria dizer quando comecei este post? Ha, já sei, estava a falar da sequência misteriosa dos meus últimos posts. Pois é. Já vou no 3º com "2009 está quase aí" no título e ainda não fiz os meus votos de Ano Novo. E também não é agora que irei fazê-los. Só amanhã. Não quero estragar alguma magia que a formulação dos ditos votos possa ter. Quem sabe se antecipá-los ao último dia do ano não lhes retira força e eficácia? Não quero arriscar porque tenho muita fé naquilo que vou desejar para o próximo ano. Espero que seja um ano cheio de magia... ooops, isto contará como voto de Ano Novo? Ainda não queria...

segunda-feira, dezembro 29, 2008

2009 está quase aí (parte 2)

Banksy, evidentemente
(pelo menos é o que está registado... e parece!)

Não quero ser como as concorrentes a Miss Mundo: "O meu maior desejo é que haja paz e concórdia em todo o planeta e que a pobreza desapareça e as criancinhas sorriam para a fotografia", tretas dessas. Não tenho peito para tanto.

Também não quero desesperar como os que imaginam que o fim do mundo tem nova data. Agora fala-se no dia doze do décimo segundo mês de 2012. Os profetas da desgraça sempre encontram um número redondo que lhes meta medo.

Não quero ser demasiado bom nem demasiado mau. Não quero ser demasiado crédulo nem tão incrédulo como é costume. Gostaria de encontrar um ponto de equilíbrio, um lugar comum que não fosse tão evidente quanto seria de esperar. A banalidade consciente não é tarefa fácil. Fácil é dizer que tudo está mal ou acreditar em alguma força extra-humana capaz de orientar o universo num inesperado caminho de paz e amor, enviar para o nível do desconhecido a providencial capacidade de fazer um trabalho que é nosso. Cristo não vem e, caso apareça, nada garante que seja bem recebido.

Quero acreditar que posso mudar o mundo. Quero acreditar que tu podes e queres mudar o mundo. É nisso que deposito a minha fé bem como deposito a minha razão. Na nossa capacidade de mudarmos o mundo nas pequenas coisas que dependem das nossas acções.

Estou quase a chegar lá. Mais um dia e poderei declarar os meus votos para o próximo ano. 2009 está quase aí!

domingo, dezembro 28, 2008

2009 está quase aí


Miró. Personagens na noite guiadas pelo rasto fosforescente dos caracóis

Precisamos de algo que nos faça sonhar. Precisamos de algo em que acreditar, algo que dê um sentido à nossa existência. A religião desempenha esse papel para milhões de pessoas. Ampara e reconforta nos momentos de desespero, ajuda a perspectivar um futuro melhor. O meu problema é que as religiões tendem a enviar a esperança para outro mundo, numa outra vida. Não gosto da ideia.

Outros procuram conforto na possibilidade de existirem ideias suficientemente puras e perfeitas que possam ordenar a nossa existência individual e colectiva de modo a que todos possamos ser felizes neste mundo. Esta postura parece-me mais atractiva.

Seja como for, pela fé ou pela razão, precisamos de valores o mais universais possíveis, valores que possamos perseguir no nosso quotidiano que nos dêm a sensação de que existe justiça para todos e não apenas para alguns.

O ano está a chegar ao fim e é tempo de fazer votos para o próximo. Ainda tenho 3 dias para pensar nisso. Não quero precipitar-me. Já tenho algumas ideias mas ainda não vou formular os meus votos para 2009. Amanhã ou depois. Ou depois. Ainda há tempo para sonhar mais um pouco.

sábado, dezembro 27, 2008

Passeando



Insula Dulcamara, 1938

sexta-feira, dezembro 26, 2008

Foi Natal


O Natal passou. Foi um dia magnífico, passado em família entre comidas, bebidas e muito riso. É quase estranho o facto de nos sentirmos tão felizes. A verdade é que a felicidade nasce do convívio. A família reunida é uma felicidade infinita. As curvas da vida fazem-nos desencontrar uns dos outros, daí que um dia no calendário para marcar reunião geral tenha fortes probabilidades de proporcionar essa felicidade sem limites. Não há nada a provar, não há constrangimentos nem jogos de pose nem mentiras. Apenas alegria por estarmos outra vez juntos. O Natal foi assim, mais uma vez. É a isto que eu chamo um "santo Natal", é isto que é a santidade: felicidade pura sem necessidade de contrato assinado.
Um beijo a todos.

domingo, dezembro 21, 2008

Jornal de Domingo-Parte 2


O texto de António Barreto no Público de hoje, intitulado "Tudo como dantes, nada como dantes", vem lá das profundezas.

Não resisto a registar a passagem final: «(...) Há 30 ou 40 anos que as populações aspiram às delícias da vida moderna. Os que já lá chegaram querem mais e não renunciam. Os que ainda não chegaram consideram uma suprema injustiça serem agora travados. Foram condicionados pelos mais poderosos aparelhos de publicidade e informação que a humanidade jamais conheceu. A propaganda política deu uma ajuda poderosa. Há décadas que os governos, as televisões, a imprensa e os grandes grupos económicos comungam um punhado de ideais que presidiram à nossa vida colectiva. Para usar o lugar comum conhecido, o ter substituiu o ser. O critério da vida é vencer. Sempre, a qualquer preço. Vencer significa derrotar e liquidar os outros. Quem vence tem razão. E tem razão porque vence. É a democracia no seu pior. Maior. Mais alto. Mais depressa. Mais pesado. Mais forte. Mais rápido. Já não se trata de jogos olímpicos, eles próprios transformados em feira de animais. Trata-se da vida quotidiana. Para se chegar lá, ao "topo", para se ser "líder", tudo o que se pode fazer deve ser feito. Incluindo aldrabices, ilegalidades, golpes, mentira, publicidade enganosa e corrupção. Tudo o que justifique ganhar votos, vender mercadoria e eliminar os rivais, não só pode ser feito, como deve ser feito. Sob pena de ser designado na praça pública por perdedor, incapaz ou parvo. E ninguém quer ser parvo

É isso mesmo. Como disse no comentário ao comentário do Ogre no post anterior «Os portugueses ainda estão a aprender a ser pobres no mundo da abundância. Quando tiverem aprendido o suficiente para se tornarem ricos é possível que a abundância acabe. É o Fado do costume.» Isto não é pessimismo, garanto. Estou até bastante bem disposto, juro! Por enquanto ainda faço parte do grupo de previlegiados que podem vestir-se de Pai Natal (e usar só uma almofadinha para fazer a barriga) distribuindo uns presentes pelos familiares e alguns amigos. Tal como António Barreto. É o descanso de uma vida sem dificuldades de maior que permite esta leitura tão clara e objectiva. A fome distorce as perspectiva e tolda o olhar.