quarta-feira, julho 23, 2008
O que é arte?
Este texto de Desidério Murcho saíu no Público de ontem. Parece-me um texto interessante que tem o dom de colocar a velha questão "O que é a arte?" sob diversos pontos de vista, enquadrando convenientemente a questão de cada vez que é colocada.
Murcho conclui o seu texto propondo que todos nós sabemos muito bem o que é a arte mas quando tentamos explicar o nosso ponto de vista entramos num labirinto sem saída. Poderemos então concluir que uma coisa é sabermos do que se trata e outra, completamente diferente, verbalizarmos a nossa intuição. Concordo.
Na minha óptica o problema reside na natureza da arte. Ela escapa ás nossas palavras porque não pertence ao domínio do verbalizável. Um pouco como Deus, também a arte carece de uma forma que se possa expor através da simplicidade tosca das palavras. Quando muito poderemos tentar aproximações, frases interessantes, poemas ou aforismos que possibilitem ao outro um vislumbre do que nós pensamos saber.
A arte é coisinha do mundo das ideias e, como tal, poderemos encher páginas e mais páginas de volumosos calhamaços sem nunca conseguirmos a definição desejada. Nem um pouco mais ou menos.
A arte pratica-se e frui-se. Tentar explicá-la será sempre uma tarefa inglória e escorregadia. A arte está dentro de nós e tão fundo que tentar encontrar a definição que tantos procuram é como procurar o Santo Graal ou um comboio na linha do horizonte quando estamos na praia a olhar o mar.
Enfim, este texto (e tantos outros) são belos exercícios filosóficos mas, num tema como este, nem mesmo a Filosofia nos poderá satisfazer. Ou poderá?
terça-feira, julho 22, 2008
Ipirangueando

segunda-feira, julho 21, 2008
Animalidade empacotada

Quando peguei naquele hamburguer e o trinquei senti uma vertigem. De súbito dei por mim no topo de uma colina esverdeada com o sol a bater-me nas costas. Ao fundo do declive suave que escorria dos meus pés uma manada de... bichos de 4 patas, pastava com a maior das calmas. Eram tão bonitos! O pêlo luzia e o movimento das mandíbulas fazia dos... daqueles bichos, as coisas vivas mais bonitas que alguma vez tivera oportunidade de contemplar. Tão bonitos, tão bonitos que de imediato senti vontade de matar pelo menos um. Era um misto de inveja e de saliva a escorrer-me dos lábios. Corri por ali abaixo como um mamute ou coisa que o valha, de tal modo brutal e pesado que a bicharada debandou sem grande alvoroço, num movimento colectivo mais de fastio que de outra coisa. Trinquei o hamburguer e deixei-me de sonhos parvos.
A carne (era carne acho eu) pareceu-me mais plastificada que da última vez. Sendo carne devia ser carne de... vaca? Aqueles bichos criados em cativeiro e alimentados a rações esquizóides são vacas, não são? Pelo menos têm cornos e tetas e cascos... só podem ser vacas. Apesar do aspecto de total infelicidade e estupidez infinita, são vacas sim senhor! Apesar de nunca terem sabido o que é ser livre, de nunca terem conhecido outra realidade que não fosse a manjedoura à frente do focinho, de nunca terem experimentado as pernas para darem uma corridinha, acho que não faz delas uma espécie de não-vacas! Espero que não.
De igual modo, o facto de eu me alimentar daquela merda, de não plantar as alfaces nem os tomates, de comer maçãs estranhas, todas iguais e sorridentes na sua obesidade impossível, de andar de carro de um lado para o outro, mesmo em trajectos que poderia perfeitamente fazer a pé, não faz de mim um não-homem... ou faz? Bebo água engarrafada, não persigo animais pela savana, compro-os já escortanhados e feitos em pedaços embalados, liofilizados, certificados, mumificados, sem cheiro, nem som, apenas cor. E, mesmo isso não há-de durar muito tempo pois tem um aspecto pouco saudável. O vermelho da carne faz lembrar demasiado o sangue. Selvajaria!
Apesar de tudo lá emborquei o hamburger mais aquelas batatas fritas, tudo regado a cervejola fresca, ainda assim o melhorzinho do menu. Os serviços do Estado esforçam-se por tornar o mais fiável possível a limpeza dos estabelecimentos que nos servem a paparoca bem como dos produtos que metemos para dentro. Cada vez estaremos mais plastificados, limpos e empacotados, como leite de vaca. Isto ainda acaba mal! Numa perspetiva otimista, claro! (esta última frase foi escrita de acordo com o Acordo Ortográfico acabadinho de promulgar por sua Excelência e Coiso e Tal, Presidente desta nossa amada República :-)
domingo, julho 20, 2008
Um filme tão simples só pode brilhar!
Já lhe tinha pegado uma vez. Quase o trouxera para casa mas, por qualquer razão, acabou trocado por outro filme qualquer. Ontem, no Videoclube (mas se já não há cassetes de vídeo...) voltei a reparar na caixinha de ONCE. Como não vi mais nada que me agradasse lá lhe peguei, desta vez a decisão de o trazer para casa estava tomada. E trouxe.
Sinceramente não fazia a mínima ideia do que estava realmente a fazer ou do que iria ver. Muito menos ouvir! ONCE foi uma surpresa agradável. Trata-se de um musical estranho e pouco usual. As personagens quase são mais reais que nós prórpios e o registo cinematográfico, por vezes, dá a sensação de estarmos perante um documentário ou um filme caseiro.
A narrativa desenrola-se com clareza e suavidade numa Dublin pouco exuberante e, aparentemente, realista. E é de realismo que se pode falar quando se fala de ONCE. Uma espécie de realismo mágico, com a magia a deixar-se vislumbrar na forma positiva como as personagens se empregam na perseguição dos seus sonhos. Mesmo que isso as impeça de serem felizes, ou totalmente felizes. Confuso? O melhor mesmo é ver o filme. Vale a pena.
sábado, julho 19, 2008
Sonho de uma tarde de Verão
Imagem de Alexandre quinta-feira, julho 17, 2008
Como sardinhas na lata

terça-feira, julho 15, 2008
O melhor lugar do mundo

Viva Banksy!!!
Banksy é um misterioso artista de rua. A sua identidade tem sido resguardada da curiosidade mediática ao ponto de a vaga possibilidade de ter sido descoberta constituir notícia.
Tenho uma profunda admiração por este grafiter anónimo. Não é só a qualidade plástica dos seus stencils que me fascina, é também o facto de se assumir como uma sombra num mundo de vedetas vazias sempre em busca das luzes dos holofotes que o faz merecer a minha admiração.
A fazer fé nas notícias que têm vindo a público nos últimos dias, Banksy será um tal Robin Cunningham, um Robin Hood da arte contemporânea que nos tem oferecido algumas das imagens mais críticas e interessantes do mundo que nos rodeia.
Seja ele quem for é um artista enorme com lugar assegurado nos compêndios que estejam a ser elaborados. Banksy é o protótipo do artista urbano e, até ver, o mais criativo e influente dos artistas contemporâneos. Por muito que isso custe aos críticos de arte frequentadores de vernissages e escrevinhadores de textos melífluos para publicar em suplementos dominicais.
Viva Banksy!!!
Segue as hiprligações...
segunda-feira, julho 14, 2008
Caramba!!!
Ontem foi noite de ida ao cinema em grupo familiar. Esposa, filha e sobrinha acompanharam-me (ou foram por mim acompanhadas) numa incursão cinéfila sem grandes expectativas. Quer-me cá parecer que a ida ao cinema foi mais porque estávamos juntos, um pretexto para mantermos a agradável proximidade, do que por estarmos impacientes para assistir a este "O Orfanato" realizado pelo catalão Juan Antonio Bayona.É disto que eu gosto. A surpresa total, o impacto inesperado de uma bofetada com luva branquinha de cetim, mais carícia que agressão. O filme revelou-se excelente a todos os níveis.
Seja o argumento, a realização, a montagem ou o som, seja o que for é bom. A interpretação da personagem principal pela actriz Belén Rueda é o toque de classe final para um filme quase perfeito com Geraldine Chaplin a entrar em cena de mansinho e de costas, qual Nosferatu "murnauiano".
Entre o filme de terror e o drama familiar, a narrativa cresce e revolta-se contra si própria, dá cambalhotas e descansa em planos silenciosos interrompidos com súbito estrondo de fazer o espectador saltar na cadeira. Literalmente. Enfim, como de costume não sou eu que me vou alongar na descrição do enredo, não saber nada sobre o que se vai passar é um condimento importantíssimo para se poder desfrutar em pleno deste filme com um final cor-de-rosa sangue.
Absolutamente a não perder!
Na noite de 9 do corrente assisti a este Stabat Mater e, caramba, que espectáculo! Maria João Luís rebenta com as costuras da representação teatral num monólogo perfeito com o dedinho maroto de Jorge Silva Melo na encenação. O espectáculo, integrado no 25º Festival de Teatro de Almada, teve lugar no São Luís, em Lisboa. Um espaço agradável, uma representação de outro planeta e uma ovação estrondosa a fechar uma noite de teatro memorável.
Caramba!!! Tanta qualidade em tão pouco tempo ainda acaba a provocar-me alguma overdose de prazer inteligente (!? que raio quer isto dizer!?) mas se tiver que ser, seja! Overdoses assim não devem fazer grande mal à barriga.
domingo, julho 13, 2008
Voltando à vaca fria

quarta-feira, julho 09, 2008
G8, G5 e o resto do mundo

segunda-feira, julho 07, 2008
domingo, julho 06, 2008
A Pop triunfa!
É um fenómeno. Na minha adolescência era simplesmente impensável ouvir a música de que o meu pai gostava. E vice-versa. Nos gostos musicais residia, aliás, um dos principais motivos de discórdia. É que atrás dos gostos musicais vinham as roupas, os "penteados", a pose e as atitudes. Tudo colidia, tudo fazia as mais incandescentes das faíscas.Lixo
De imediato se levantam vozes indignadas que gritam impropérios contra vozes vibrantes de júbilo e saudade. Umas vozes soam da esquerda, outras respondem, vindas da direita, e nisto se anda, a discutir uma coisa de somenos, no meu entender.
Querem erguer uma pirâmide para encerrarem a memória da múmia salazarenta? Que ergam. Querem fazer romagens de saudade com os bracitos esticados em saudações nazi-fascistas? Que façam. Para o Santacombadenses será pretexto para abrirem mais uma tasca ou outra, podendo dedicar-se com maior afinco ao seu desporto favorito, a copofonia à desgarrada. Seja tinto ou seja branco uma só palavra de ordem: CHEIO!
Os bêbados lá do sítio terão mais uma razão para se embebedarem, para horror da beatas e dos chefes de família benfiquistas. Todos os salazaristas unidos na vontade de louvar saudosamente a memória do seu santinho mumificado, o Tóino das Botas. Se é isto que o povo lá do sítio deseja, se é com isto que alguns vendedores de sonhos fatelas acenam ao pessoal para desenvolver o turismo local, qual é o problema?
É claro que eu vivo bem longe de Santa Comba e só vou à minha terra natal, Viseu, uma meia-dúzia de vezes por ano. Não terei de aturar a boçalidade perigosa de tudo quanto é skinhead, ávido de encontrar outra razão para existir que não seja a sua estupidez natural, em romaria a esse santuário da mesquinhez pequenina que será, inevitavelmente, um museu dedicado ao Botas. Para os Santacombadenses que sintam náuseas perante o espectáculo degradante dos neonazis em pleno esplendor será complicado. Mas aqui, como noutras situações, deverá prevalecer a decisão da maioria.
Penso que um museu dedicado ao Ministro-Sopeira não dará muito mais que uma tasca infecta com "nacionalistas" gordos e tatuados a mijarem contra as paredes enqunto entoam hinos à estupidez humana. Se é isso que Santa Comba deseja que o tenha. E lhe faça bom proveito. Afinal de contas é sempre doloroso mas necessário decidir onde localizar os aterros sanitários destinados a despejar o lixo. Neste caso o lixo da memória recente de Portugal.
sábado, julho 05, 2008
Uma história de abutres
O mundo está mesmo a andar às voltas e, de quando em vez, damos por ele de cabeça para baixo. A recente notícia de que há abutres a atacar animais vivos na Beira Baixa mostra como anda tudo às avessas.sexta-feira, julho 04, 2008
A águia americana tem problemas...

quarta-feira, julho 02, 2008
Época de home video



terça-feira, julho 01, 2008
Corredores
segunda-feira, junho 30, 2008
Uma foto
Esta foto de Sérgio Azenha apareceu aqui há uns dias no jornal Público. O 1º ministro parece olhar para o horizonte. Por trás um poster completa a mensagem. Podemos ver, meio desfocado, Tom Cruise em Missão Impossível III. Sócrates, o nosso Tom Cruise, olhando para um horizonte virtual, empenhado em cumprir a missão de fazer de Portugal um farol que ilumine a perigosa costa da Europa. Vai Sócrates, dá-lhe com força!
sábado, junho 28, 2008
'El Coloso' del Prado no lo pintó Goya
GOYAAsensio Juliá, "El pescadoret" (Hacia 1798).
Óleo sobre lienzo. 56 x 42 cm.
Inscripciones: Inscripción, ángulo inferior izquierdo: "Goya a su amigo Asensi".
Colección Thyssen Bornemisza (Lugano, Suiza).
Pronto, é oficial, a verdade hoje é um pouco diferente daquilo que era anteontem. Os peritos espanhóis declararam em definitivo que 'El Coloso' del Prado no lo pintó Goya. Esta historieta é exemplar.
Atente-se no seguinte parágrafo (vai em espanhol que se lê com a mesma fluência que se fosse em português): "Manuela Mena, jefa de Conservación de Pintura del siglo XVIII y de Goya, aludió hoy a cuestiones "estilísticas" para constatar que la obra "se aleja de Goya completamente". Argumentó así la existencia de "pinceladas dudosas", "incoherencias luminosas", "falta de precisión" y "trazos no acabados" para desvincularla del pintor aragonés. "En mi opinión, el cuadro es de otra mano a la de Goya", manifestó." Não é espantoso? Agora que se sabe que não é de Goya apontam-se erros e defeitos técnicos de palmatória na execução da obra. "Incoerências luminosas" e "pinceladas duvidosas (?)" é muito bom. As coisas que as pessoas conseguem dizer quando falam de pintura!
Após a descoberta das iniciais de Asensio Juliá algures na zona inferior esquerda da pintura, recorrendo a raios X, os "expertos" do Museu do Prado finalmente confirmaram uma suspeita que traziam a roer-lhes a alma desde 1991, segundo rezam as crónicas. "O Colosso" foi pintado pelo discípulo, não pelo mestre.
Curiosamente (ou talvez não) o reconhecimento da autoria de "O Colosso" faz nascer um interesse renovado sobre a figura, até aqui obscura e olimpicamente ignorada, de Asensio. Certamente irá haver uma busca mais cuidada de obras por ele realizadas, uma catalogação mais rigorosa de algumas pinturas atribuídas a Goya e teremos motivos para celebrarmos um "novo" artista espanhol.
É fixe, acho eu, que Asensio renasça assim, saindo finalmente das sombras negras do esquecimento. O simples facto de Goya o considerar um amigo (segundo a inscrição no retrato que pintou do seu discípulo e que ilustra este post) faz dele um novo herói no meu (extenso) catálogo de heróis.
quarta-feira, junho 25, 2008
Viva a Pintura!

Uma historinha exemplar para desanuviar o ambiente em, pelo menos, umas noventa das cem cabeças.
Li hoje no jornal que "O Colosso", uma das obras-primas atribuídas ao meu mais que adorado Goya (tenho por este mestre uma admiração que ultrapassa tudo o que possa dizer ou escrever) afinal pode não ter sido pintado por ele (ver também aqui).
terça-feira, junho 24, 2008
Pessimista do caraças!
Olhei para os posts anteriores e fiquei um pouco incomodado comigo próprio. São posts amargos, com uma conversa afiadinha, tipo alfinete, a espetar, a dar alfinetadas por tudo e por nada. São posts que pretendem ser bem-humorados mas que, na verdade, são azedos como leite não-pasteurizado e com um sentido de humor, por vezes, duvidoso.
Estarei a ficar velho e rezingão? A precisar de arejar a corneta? Um pouco de optimismo não me faria mal nenhum... ou faria? Caraças, lá estou eu a voltar ao mesmo.
A duvidar.
A duvidar sempre da possibilidade de que as coisas possam correr bem, convencido de que há sempre uma muito maior probabilidade de as coisas correrem pior do que sou capaz de imaginar.
Tristongo, cabeça baixa, careca derrotada, apercebo-me de que sou um gajo muito pessimista. Estou frito porque assim hei-de ser triste como uma noite sem lua e sem estrelas, uma noite só toda de escuridão e mais nada. Triste. Mais triste não deve haver.
Será por ter nascido Capricórnio e me terem dito que o meu ascendente é igualmente Capricórnio? Duplamente Capricórnio deve ser coisa bera, a solicitar dúvidas duras como rocha e sorrisos levados pela mais discreta das brisas.
Que fazer então? Como poderei ser optimista? Deve haver comprimidos para combater a coisa ou, pelo contrário, comprimidos que avivem a outra.
(suspiro)
Mas, espera lá, ó coisinho! Porque carga de água hei-de querer ser optimista? Haverá algum mal irreparável no meu dulcíssimo pessimismo? Estou cá a matutar no problema e não vejo qual seja o mal de ver sempre o lado menos brilhante da questão. Ser optimista é coisa de ovelha quando põe olho no carneiro.
Pronto aí, amigos meus, retiro o que disse e afirmo o contrário, de modo a que tudo fique como se este post não tivesse chegado ao 100 Cabeças. Só o deixo aí para marcar posição. Eu sou um pessimista do caraças!
Haaaaa, como sabe bem...
Fado

segunda-feira, junho 23, 2008
Ser uma página

sexta-feira, junho 20, 2008
Seis perguntas, respostas zero

quarta-feira, junho 18, 2008
Milagre!

domingo, junho 15, 2008
A regra é: obedecer

sábado, junho 14, 2008
Vampirismo

sexta-feira, junho 13, 2008
Acontecimento

quarta-feira, junho 11, 2008
Cristalzinho quebradiço

Mas temos de fazê-lo com a urgência das questões que deviam ter sido resolvidas anteontem.
terça-feira, junho 10, 2008
Vá-se esconder, Sr. Presidente!

sábado, junho 07, 2008
Não conto lá voltar tão depressa

O Rock in Rio é uma daquelas coisas que vale a pena experimentar. Há camisas que dizem "Rock in Rio, eu vou", ontem vi muitas que, apesar de estarmos lá dentro, diziam "Rock in Rio, eu fui" (talvez pudessem dizer, eu estou aqui:-) antecipando já o dia depois. O dia da ressaca.
Uma feira imensa, cheia de gente a andar de um lado para o outro, a levantar poeira, como na canção da senhora Sangallo, onde há demasiadas coisas a fazerem barulho ao mesmo tempo. Por exemplo, é um tanto desagradável assistir ao excelente concerto dos Clã (no palco mais pequenino) com o "unx, unx, unx" da pista de dança a fazer de tapete ao som da banda da incendiária Manuela Azevedo (esta mulher é uma força da natureza!).
Muito Rock na sessão de ontem. Mais Rock do que o habitual naquela espécie de rio de gente com margens de lago e que, por isso, corre perdido, sem ter onde ir que não seja ali mesmo. Um rio que escorre para dentro de si próprio. Deixemo-nos de esquisitices: ontem foi uma sessão especial do festival. Os Muse são qualquer coisa de absolutamente extrordinário, os OffSpring põem o rolo compressor em funcionamento e vão por ali fora, os Linkin Park (os mais estranhos e obscuros dos 3) acabaram por soar de forma algo agressiva aos meus ouvidos. Após uma boa mão-cheia de horas de concertos e confusão, nem outra coisa seria de esperar. Mas é sempre mágico assistir à comunhão dos espectadores uns com os outros e todos com a banda no palco, cantando a plenos pulmões cada hit logo a partir do 2º ou 3º acorde. Arrepiante.
Apesar de tudo, não conto lá voltar tão depressa. Será necessário algo de muito (mas mesmo muito) especial para me levar a meter os patins de regresso ao Rock in Rio. É que, por altura da próxima edição, a minha filha já poderá ir sozinha e não vai precisar do conforto de saber que, no meio daqueles milhares aparentemente infinitos, estão duas personagens que são os pais, para o que der e vier.
Não deu e não veio. O ambiente é surpreendentemente pacífico. É nítidamente uma festa o que para ali vai. Uma celebração pagã, festejando todos aqueles deuses e semi-deuses do panteão da cultura Pop do novo século.
Estar ali (sóbrio) dá que pensar.
(o vídeo aí em cima é de uma actuação ao vivo dos Muse, algures e nem sei quando. Tem um som mesmo mau (a voz mal se entende)e dá uma imagem pálida daquilo que foi a portentosa exibição de talento na noite de ontem. Pálida até porque as imagens deste vídeo foram captadas sob a luz do dia e todos sabemos como a noite é capaz de fazer brilhar as estrelas! Há mais uns quantos vídeos no menu deste, melhorzinhos. Se tiveres pachorra e gostares de Rock'n'Roll do melhor, explora a coisa porque vale bem a pena.)
quarta-feira, junho 04, 2008
Sindicalismo
Não me lembro de ver os sindicatos com um olhar tão vesgo como os vejo agora. Sou sindicalizado na FENPROF vai para uma carrada de anos, tantos quantos tenho de professor. Até hoje fiz dezenas de greves, mesmo em situações nas quais discordava das razões apontadas pelos dirigentes do meu sindicato. Por uma razão de solidariedade laboral (e social e política...) não gosto de me ver ao espelho com cara de "amarelo" fura-greves. Mas, no caso concreto do meu sindicato, há razões de sobra para protestar além das que se prendem com os salários ou a progressão na carreira. Faria de bom grado uma greve por tempo inderteminado até conseguir condições de trabalho dignas tendo em vista a melhoria da qualidade do ensino nas escolas públicas. Menos alunos por turma, melhores equipamentos (adequados ao mundo tecnológico) etc e tal. Mas não. Insistimos em barafustar apenas por razões que não colhem na opinião pública. Só nos mexemos quando nos metem a patorra no bolso. A imagem pública degrada-se, os que são prejudicados pelas nossas acções reivindicativas pensam que apenas nos movemos em função do vil metal. Será um facto? Eu próprio tenho as minhas dúvidas mas não é isso que me fará entregar o cartão que guardo na carteira com orgulho indisfarçado.O movimento sindical enfraquece a cada dia que passa. O trabalho precário, os "recibos verdes", a falta de perspectivas de carreira laboral afastam os trabalhadores dos sindicatos. Os patrões reclamam mais poder para nos darem uns valentes pontapés no cú e os partidos do "arco do poder" no nosso país fazem o jogo deles. Estamos feitos ao bife!
A comunicação social contribui fortemente para esta imagem progressivamente negativa, retocando sem pudor a informação que veicula. Estaremos a assistir ao canto do cisne dos sindicatos, tal como estamos habituados a conhecê-los? É bem possível. E depois? Depois será um longo e inóspito deserto que teremos de atravessar com os abutres a sobrevoarem, vigilantes, a nossa difícil caminhada.
Será necessário repensar o movimento sindical, despartidarizá-lo e encontrar-lhe um novo rumo para as lutas que com eles travamos. Isso ou a morte anunciada. Para gáudio de neoliberais e outras aves tão pouco raras quanto eles.
terça-feira, junho 03, 2008
segunda-feira, junho 02, 2008
É qualquer coisa
É estranho, complicado, difícil de explicar. É qualquer coisa, impossível dizer que coisa. As imagens, repetidas até à exaustão, da multidão de emigrantes que aguardava a chegada dos nosso queridos matraquilhos da selecção nacional em terras suiças deixa qualquer um de cabeça à roda.Ele era no aeroporto, na estrada onde rolava o autocarro da selecção e, finalmente, nas ruas de Neuchâtel. Dezenas, centenas, milhares de pessoas vestidas com as camisolas vermelhas da equipa de futebol de Portugal, aguardavam o efémero momento da passagem do veículo para explodirem numa gritaria eufórica, histérica, mesmo. E depois, aliviados, sorriam, parecendo confusos com a sua própria reacção, zonzos de uma emoção impossível de verbalizar. Aquilo que vai lá dentro parece poder expressar-se apenas com os tais gritos e aquele esbracejar frenético. Portugal, Portugal, Portugal. Uma espécie de alegria, ao que parece.
São portugueses e isso revela-se naquela fé estranha. Umas vezes na Nossa Senhora de Fátima, outras no Cristiano Ronaldo, são parte deste povo que espera ainda o regresso do Desejado. Somos parte deste povo que não sabe fazer um país de forma organizada, que não se compreende a si próprio nem ao mundo que o rodeia. Este povo capaz apenas de ter fé. Uma fé cega e doentia, uma coisa inexplicável. Uma sensação terrível que cresce dentro do peito e só pode saír numa gritaria descontrolada, a sensação de ser português e pertencer a este povo meio esquecido no fim do Velho Mundo.
Sinceramente, tanta maluquice, tanta tolice, comove-me até às lágrimas. Ver e ouvir aqueles emigrantes com os seus sotaques variados, a língua atrapalhada pela convivência com outras línguas estrangeiras. Gente tão simples que até dá dó. E a mi dá-me dó porque sou igualmente simples, igualmente maluco e igualmete tolo. Sou um deles e eles são como eu.
Eu sei que os jogadores são isto e aquilo. Que o futebol etc. Eu sei que isto é irracional e destemperado. Sei perfeitamente. Mas gosto. E sinto aquela coisa cá dentro. E tenhovontade de gritar. Só o não faço por pudor e porque seria estranho desatar aos gritos para um écrã de TV.
Mas no próximo Sábado não me perdoo. Vou estar a roer as unhas, assistindo ao jogo com a Turquia e só quero que Portugal ganhe, nem que seja com um golo marcado com os tomates por um defesa adversário. Vou certamente chorar, seja qual for o resultado. E porquê? Sei lá porquê!É qualquer coisa!
domingo, junho 01, 2008
Histeria sonhadora






