segunda-feira, março 20, 2006

Primavera


Printemps,
Frühling,
Primavera,
Spring...
... diz o calendário que chegou hoje.
Não vi ainda as andorinhas. À porta da nossa casa encontrámos o gato da fotografia. Hirto e seco como um pedaço de cortiça. Sombria promessa do calor que está para vir, preto, ainda por cima. A coisa mais preta que o 1º dia da Primavera ns trouxe não foi uma puta de uma andorinha, não senhora! Foi aquele corpo de gato que o gato já lá não parece estar.
Não sei se, por estar morto, será jura de menor azar. Sei que incomoda olhá-lo. Está com um esgar retorcido a desgraçar-lhe a boca, como se suportasse uma dor profunda. Uma dor sem tempo nem nome nem nada mais que a morte, os olhos cerrados, a darem ênfase ao cadáver. Não o tirámos dali.
Talvez mais logo, quando passarem os gajos da recolha do lixo... será que o levam?
Como será a decomposição do bicho, ali, em plena calçada? Onde andam os insectos que se encarregam deste tipo de trabalhos? As formiguinhas diligentes ou outros que tais, onde andam?
Haverá algum puto marado que brinque com a morte daquele cadáver? Ainda lá estará, a morte? Talvez a gozar o fim da sétima vida do bicho. Terá sentido de humor, a morte?
Para primeiro dia de Primavera não está mal. Depois disto não vejo grandes possibilidades de encontrar coisa pior nos dias mais próximos.
Celebrar a Estação da Vida com uma ofertazinha macabra da Dona Morte é, apenas, inesperado. Não quer dizer mais nada que não seja isso mesmo: um gato morto.

sábado, março 18, 2006

Vergonha

Sinceramente, palavra de honra! Tenho tentado olhar para o novo Presidente da República com outros olhos que não estes, os que trago desde que me conheço.
A verdade é que nunca gostei do homem. Sempre o considerei um cêpo, sem cultura nem sentimentos de gente, uma espécie de coisa ruim que nos saíu em sorte num dia de azar infinito.
Mas, admito, tudo isto pode ser uma "questão de pele" capaz de gerar um preconceito inultrapassável por muitos anos que viva (eu ou ele, ou ambos os dois). Posso estar tão irritado com a vitória do senhor Silva que não sou capaz de ver como são belos os sentimentos que o animam nem saudáveis as ideias que (dizem) lhe dançam na cabeça mais uma valsa que uma dança macabra. Raios e coriscos, não sou capaz! Não consigo acreditar.

Continuo a vê-lo como um tipo cinzento, incapaz de um gesto criativo, de uma visão minimamente iluminada por uma velazinha que fosse, um pequeno sopro de inteligência. Nada!
Sou capaz, apenas, de vislumbrar um tipo mais vaidoso desde que foi eleito para o cargo actual e, por isso mesmo, ainda mais cego e inchado, convencido de que as coisas acontecem por serem inevitáveis e não por serem fruto do intelecto.
Na perspectiva cavaquista do universo, o homem existe para confirmar a existência de si próprio. A forma como os acontecimentos evoluem depende exclusivamente de uma vontade superior, extra-humana, uma espécie de super-divindade económica, um ser sem corpo nem substância que dita o destino da humanidade: a sua própria extinção graças à superioridade da boçalidade avarenta que governa o universo e o criou à sua imagem e semelhança.

Cavaco não é mais que um profeta de segunda linha desta besta travestida de divindade. Um daqueles que será surpreendido quando perceber que nem mesmo para ele haverá misericórdia quando o seu deus do dinheiro vier cobrar o que considerar que lhe é devido. Aí teremos outra vez aquela careta que Cavaco inventou quando lhe perguntaram o que pensava das declarações de Santana Lopes sobre a sua candidatura a Belém. A imagem perfeita do homem que nos irá representar no mundo.

Vergonha! Vergonhaça da grossa!!!!

sexta-feira, março 17, 2006

Uma fábula fatela

Foi há tanto tempo!
Foi?
Tenho uma vaga recordação. Houve um jornal Dinarmaquês que, afinal, era um pasquim de extrema direita, que quis mostrar aos muçulmanos como se pode blafesmar deste lado da barreira mais ou menos visível que separa os nossos mundos.
Mas a blasfémia é uma coisa perigosa pois nunca se sabe se deus terá ou não morrido. Pode estar apenas doente e de baixa ao trabalho ou próximo da idade de reforma e o melhor será ter cuidado e respeitinho.
Pelo menos o deus muçulmano parece ter ainda muita força na verga e manter aquele pessoalzinho todo debaixo de olho. Todo... quer dizer, quase todo, porque afinal de contas os gajos matam-se uns aos outros com uma fúria difícil de perceber para nós, infiéis blasfemos de um modo geral. E, se alguém deve ter vergonha, somos nós, por não acreditarmos que deus está vivo e de boa saúde, capaz de meter na ordem os que sairem da linha e não andarem direitinhos, como manda a lei.

Na verdade, verdadinha, a coisa caiu assim como que para os lados do esquecimento e só quem viu a sua embaixada queimada ou levou alguma calhoada no toutiço ainda se lembra do que terá causado tanta celeuma. A merda dos cartoons!

Manifestações, queimas de bandeiras e imprecações, o folclore mediático do costume, tudo tão vago e balofo como um sapo fumador que estoira numa nuvem de fumo sem ter tempo para contrair um cancro ou outra coisa que valha a pena, uma dessas coisas que provam como deus castiga os que se portam mal e dá prendinhas no Natal aos que se portaram bem.

Resumindo: queria apenas lembrar que não se deve provocar gratuitamente quem acredita em deus só porque deus teima em não dar provas da sua suposta existência (bem pelo contrário). Também não devemos pensar que a fúria muçulmana contra o jornaleco dinamarquês foi orquestrada por um maestro merdoso e com pouco jeito para segurar a batuta e muito menos devemos imaginar que houve exagero na forma como as notícias sobre este quase-acontecimento histórico foi tratado entre nós, porque a nossa imprensa reflecte a singeleza dos justos que caracteriza a nossa civilização bem como o nosso exemplar modo de vida.

Talvez tudo isto não tenha passado de uma fábula estúpida e fatela que acontece num tempo em que os animais ainda falam, só que nós não sabemos disso por não percebermos bem o que são animais. Nem o que é falar.

quinta-feira, março 16, 2006

Um cromo

Estou a ouvir a voz do líder do PSD (como é que o gajo se chama?) lá dentro, a saír da TV (Marques Mendes, como pude esquecer-me!?).
A voz vai caindo, monótona, sem chama nem convicção. Parece estar a dar um recado da mãe à vizinha do rés-do-chão. Se falhar alguma coisa ainda leva um estalo.
Lá vai falando, falando, falando, sempre naquele tom lamacento.

Qual poderá ser a onda de semelhante personagem? O que o anima? De onde vem e para onde pensa dirigir-se? Gajos como ele fazem-me sempre pensar que tem de haver algo lá por trás, escondido onde não se pode ver nem saber... algum segredo sobre o combustível que põe o motor do desejo político a funcionar.


Não me parece que vá a lado nenhum.
Tem pinta de líder a prazo, cromo de queimar em fogo lento com requintes de malvadez.
Com um opositor deste calibre pode o Sócrates dormir descansado.

Será que não há mais ninguém com vontade de nos governar? Já não basta o novo presidente de todo o Portugal?
Se é dos partidos políticos que podemos esperar os futuros dirigentes ainda vamos ter de aturar muitos caretas alegres!

Nós... nem por isso.

quarta-feira, março 15, 2006

eDUCAÇÃO Artística

É de modas.
De vez em quando fala-se de educação (dispensa bem o "E") e pronto, é como abrir uma caixinha de Pandora.
Desta vez é de educação artística que se faz a conversa, por ter havido um encontro internacional sobre essa coisa que decorreu na Gulbenkian, durante uns dias.
Causa uma certa vertigem a quantidade de declarações de amor e etc. que se fazem nestas ocasiões. Que a arte é tão importante como as ciências, que o indivíduo é como se tivesse alma perneta caso não conheça os feitos dos grandes criadores artísticos, sei lá, é como se um rio tentasse saír todo de uma vez pela torneira do quintal da avó. Um perigo!
Lamentavelmente, quem se dedica ao ensino dessa coisa sabe bem que o problema é como a hidra da lenda do Hércules e já tem mais cabeças do que a floresta da Amazónia tem árvores.
Mas acho engraçado. Sempre gostei de palhaços, mesmo dos mauzitos, com pouca piada desde que tivessem nariz vermelho e falassem brasileiro com sotaque mexicano.

domingo, março 12, 2006

Amiga Frida

Hoje lá consegui visitar a amiga Frida, apesar de muitos outros estarem na mesma disposição e o fazerem também.
Confirmei as suspeitas de que ela estaria exactamente como a imaginara. Fraquinha, fraquinha, frágil como um fio de água a escorrer de uma torneira mal fechada. Demasiado fraca para suportar tanta esperança nela depositada.

Um bom negócio, esta casinha temporária onde se encontra a amiga Frida, de visita e esperando visitas. As pinturas expostas são, quase todas, de uma simplicidade amadora. Mal pintadas, desenhadas com dificuldade, as imagens alinham-se timidamente, ponteadas por fotografias para disfarçar a falta de consistência que tudo aquilo tem (ou não tem).

A coisa quase deu para o torto, dentro do meu coração, quando desemboquei na parte da casa onde prantaram três manequins do mais piroso que se poderia encontrar entre as coisass pirosas que o mercado tem para oferecer a clientes pirosos. Os bonecos vestidos com trajes que a amiga Frida poderia ter usado quando foi coisa vivente, enfrentavam uma encenação de uma espécie de enterro macabro com bonequinhos-esqueletos, como no filme de Eisenstein mas sem graça nenhuma por parecerem ter sido adquiridos na loja ao lado da outra, onde foram desencantar os manequins.

Esta exposição é fraca.
A obra de Frida Kahlo poderá permitir melhor do que isto, mas esta... o melhor é ir ver.
Por 5€ se entra e sai dali mais ou menos com a mesma carga de bagagem dentro da cabeça. Acrescenta pouco, eventualmente poderá mesmo retirar alguma coisa.

Não fosse o drama que a amiga Frida viveu e nos mostra de forma tão pueril e sincera e muitos haviam de reclamar o dinheiro de volta na bilheteira. Um flop, amiga Frida, estão a servir-se do teu sofrimento para te exporem como uma curiosidade, uma aberração de feira.

Talvez um dia te possa ver com melhor cara e outros olhos.

sábado, março 11, 2006

O regressado

Ele aí está de novo. Ex-Paulinho das Feiras, ex-Ministro da defesa, ex-líder do PP, ex-uma série de coisas que fazem dele coisa nenhuma. Uma espécie de camaleão-fantasma capaz de tirar o sono a muito boa gente e aconchegar os lençóis a muito sacana descarado.

Das suas acções e segredos (in) confessáveis há só um que eu daria tudo para conhecer. Não falo da forma como ele descobriu que foi a Virgem, dita Nossa Senhora de Fátima, quem intercedeu a favor das areias das praias portuguesas ao enviar o a maré negra do crude do Prestige para a costa galega. Isso não é segredo nenhum já que os iluminados falam frequentemente com seres de outros mundos, é um traço que os caracteriza e distingue dos comuns mortais.

Não. O que eu gostava mesmo de saber e conhecer eram as provas irrefutáveis da existência de armas de destruição massiva escondidas no Iraque. Lembram-se? O então ministro garantiu, jurou a pés juntos que tais provas não só existiam como eram um documento eloquente e arrepiante para a visão dos humanos mais puros e castos. Ele, um dos especiais da raça branca-católica-apostólica-romana, não tinha dúvidas portanto não restava espaço para dúvidas. O mundo ficou siderado e avançou destemido para a invasão do infernal Iraque convicto da justeza da acção. Portas tinha falado.

Até hoje continuamos à espera de, pelo menos, saber que provas eram aquelas. Ao que parece a coisa terá sido forjada e o Paulinho enganado na sua boa-fé. Ele e o seu companheiro da altura, o inefável Barroso. Estes dois idiotas úteis (acredito que tenham acreditado nas mentiras que Bush lhes colocou à frente do nariz) acabaram longe do Governo de Portugal.

Barroso lá está, no seu altarzinho de Bruxelas. Paulocas foi condecorado pelo Secretário de estado Rumsfeld, decerto como sinal de gratidão pelo suas tristes figuras sempre que se tratou de dizer "yes" ás políticas militares agressivas impostas pelos EUA.

Agora o homem está de volta. Entra de mansinho e com cara de mau como é costume. Vai desfiando banalidades num novo programa televisivo estranhamente intitulado "O Estado da Arte". Será que o Portas se reclama, agora, artista? Talvez até faça sentido já que a sua actuação na coisa pública se constitui como um verdadeiro "projecto" à maneira do artistas conceptuais.
Os episódios citados (a Virgem e o Desvio do Crude e As Provas Irrefutáveis) são pálidos exemplos do que este artista é capaz de criar.

Um dia destes ainda embrulha Cavaco Silva em papel de seda e manda-o para Vladivostoque, sem selo de correio e com a graça de Deus.
Amen.

quarta-feira, março 08, 2006

O Planeta dos Morcões


A nossa Democracia está em falta. O sistema político saído da Revolução de 1974 não foi capaz de criar condições propícias ao desenvolvimento efectivo da população portuguesa.
É evidente que as condições de vida globais da maioria dos portugueses são hoje muitíssimo melhores do que eram há 30 anos atrás. Já não há crianças descalças, de eterno monco a dançar-lhes nas arcadas do nariz, mendigando pelas ruas com esgotos a céu aberto (pois não?). Mas essa melhoria verificou-se, de um modo geral, entre a população europeia e com outra qualidade na maioria dos nossos parceiros da União. Isso parece, hoje, parte de um processo inevitável, um avanço quase automático do sistema capitalista mais ou menos travestido de Estado Providência, mais ou menos disfarçado de Socialismo Democrático, o que lhe quisermos chamar.

A nossa falta, a falha maior da nossa Democracia, está vergonhosamente retratada naquilo que fizemos ao nosso sistema de ensino. Na sofreguidão do combate ao modelo Salazar-fascista, baseado na crença de que os pobres de espírito serão felizes numa outra existência, uma vez que nesta, a felicidade já tem dono e foi comprada, convictos da bondade “Rousseauniana” da classe operária e do deslumbramento dos camponeses perante o esplendor das primeiras letras, os novíssimos pedagogos da nação lusitana atacaram a ignorância e o analfabetismo à pedrada e ao bofetão, sem subtileza nem inteligência nos processos. Os resultados são os que podemos constatar.

Ao longo destes 30 anos pós-revolução, a evolução das mentalidades foi, a bem dizer, mais uma distorção que uma evolução. Saídos de uma brutalidade rural e fundamentalista católica, os portugueses mergulharam de cabeça em pleno consumismo desenfreado com o Estado Providência a servir de almofada. Largámos Deus e o ditador de Santa Comba Dão para abraçarmos o capitalismo e a União Europeia. Sem tempo para pensar nem tempo para aprender. Basta ver, a título de exemplo, os níveis de endividamento e incapacidade económica para satisfazer compromissos assumidos por um número inacreditável de famílias portuguesas, para percebermos que anda por aí muita gente que não sabe usar uma máquina de calcular e muito menos sabe fazer contas ou planear com tino o seu quotidiano. Ninguém lhes ensinou ou estiveram distraídos nas aulas? Serão vítimas de professores de Matemática abstencionistas! Ou talvez a Escola tenha estado demasiado ocupada a explicar-lhes outras coisas, a prepará-los para longas carreiras académicas que acabaram quase sempre ao fim de 9 anos, para os mais perseverantes. Por muito que alarguemos a escolaridade obrigatória só poderemos daí retirar algum benefício se, primeiro, formos capazes de mostrar ao grosso da população qual o papel de uma escola.

Para o português comum a escola funciona mais como depósito para as suas crias do que local de aprendizagem. Isto porque, sendo reconhecidamente uma selva, Portugal aprende-se nas ruas, na falcatrua, na manhosice, aprende-se no golpe de baú que há-de ser a salvação do cidadão já que, a trabalhar honestamente, todos sabemos que ninguém enriquece. Há sempre a fezada do Totoloto… É triste, mas parece ser verdade. Os mais desfavorecidos pela “sorte” cobiçam os sinais exteriores de riqueza dos seus ídolos (esses sortudos) que enfeitam as capas das revistas e são capazes de tudo para parecerem ser aquilo que nunca serão.

Por um descapotável e um apartamento no centro podem (podemos) até vender a alma ao diabo. A prestações.

domingo, março 05, 2006

Importações

Easter Bunny meets The King, acrílico sobre papel 2005, RSXXI

Cada um tem o jejum que merece ou está disposto a guardar.
Os árabes devotos respeitam o Ramadão, católico que se preze faz da Quaresma ponto de muitíssima honra.

É por isso que o Carnaval, deste lado da Linha Invisível, se faz de excesso e delirium tremens. Os foliões deviam estar a precaver-se para a longa travessia quaresmal, como camelos alinhados na beira de um lago antes de um passeio no deserto. Mas não. Toda a gente sabe que os excessos carnavalescos são uma ínfima parte do regabofe infindável em que transformamos a nossa existência. Como diz a canção: "Carnaval é quando um homem quiser e não faz mal se for vestido de mulher!"

Como passam os nossos reflexos árabes pelo seu Ramadão? Como é o período de jejum do outro lado do espelho? Será tão rigoroso como parece quando vimos as imagens habituais do mundo islâmico? Tanta miséria e tanto sangue não deixam adivinhar grande folga prá folia.

Como será no Dubai?

Por cá nem os católicos são ainda o que já foram. Qual jejum qual caneco! É ver tudo a dar à dentola com uma fúria de marabunta desenfreada. Cozidos à portuguesa, feijoadas repletas de carne de porco, gordura a escorrer da panela e do canto da boca. A gula do costume.

Sinceramente tenho alguma dificuldade em enquadrar a figura do Coelhinho da Páscoa.
De onde vem aquele mostronço?
Um coelho que põe ovos? Que puta de aberração! Ainda por cima são ovos de chocolate.
Como querem que um gajo aguente os rigores do jejum quando nos oferecem a tentação assim, embrulhada num pele de coelhinho adorável?

Como já não sou católico desde antes da adolescência deixei de me preocupar com o fogo do Inferno e estou-me (ainda mais) a lixar para a Quaresma. Mas o coelho intriga-me.
É bom ou mau?
Põe os ovos ou tem contrato com a Kinder?
É diabólico?
Oferece as guloseimas à borla ou quer algo em troca?

Cá pra mim o bicho é tipo São Valentim ou mesmo coisa vinda das mesmas bandas de onde nos chegou o Haloween.Um daqueles produtos de importação para vender mais qualquer coisa ao pessoal, fazendo-nos crer que se trata de alguma tradição vadia que veio para ficar entre nós.

Grande treta de conversa...

Ainda tenho 1 sonho ou 2


Os Pop Dell'arte continuam a ser um fenómeno sem paralelo no universozinho da música portuguesa.
Sem querer esquecer ou desmerecer outras bandas interessantes (Mler If Dada, GNR, quem mais?) nem ignorar a grandeza incomensurável de José Afonso, continuo a deslumbrar-me com a sonoridade incomparável de João Peste, Sampayo e companhia.
A recente edição de uma colectânea da obra da banda veio reavivar as memórias. E aí estou eu aos saltos dentro do cérebro que me serve de habitação.
João Peste é, no universozinho dos meus heróis, uma espécie de divindade, um Pã assustador e tonitruante, pronto a sobressaltar o viajante na curva da esquina com a surpresa do seu sopro. Fica a minha admiração e o meu tributo.

sábado, março 04, 2006

Se...

E se a imagem que temos do Islão não for mais que um tremendo logro? Se por trás daqueles gajos enfurecidos e assustados com os castigos divinos houvesse um bairro repleto de famílias a passearem ao sol carrinhos com bébés redondinhos de chucha da Chicco entalada nos sorrisos?
E se os prédios que se vislumbram em fundo, para lá dos turbantes saltitantes, estiverem repletos de electrodomésticos made in Germany e brinquedos de plástico made in China, com donas de casa em avental absortas das coisas que fazem a vida, mergulhadas na trama de um novela indiana?
E se por trás da ignorância e do fanatismo religioso houver pessoas capazes de fazer o almoço sem estar a pensar na melhor maneira de fritar os miolos a um inimigo imaginário?
E se a imagem que recebemos do Outro, do Árabe, não fosse mais que uma construção falsa, ainda por cima insípida e falha de imaginação?
E se a imagem que temos de nós próprios fosse, também, produto artificial de uma sociedade tablóide?
E se, para cúmulo dos cúmulos, Deus, afinal, existisse e resolvesse vir pôr ordem nesta merda toda? Com uma bomba atómica em cada mão...

sexta-feira, março 03, 2006

Duas coisas


Primeira coisa: vi hoje (quantas vezes já vi eu esta merda?) um manifestante muçulmano na Índia dizendo que não queria Bush no seu país. Ele (o manifestante) e os seus amigos (outros como ele) são avessos à presença do Presidente americano porque é responsável pela morte de muitos muçulmanos. Grande novidade! A conversa do tal manifestante mais a responsabilidade do tal presidente nas tais mortes.
Gostava de ouvir a opinião do dito indiano relativamente à morte de muçulmanos no Iraque ás mãos de outros muçulmanos.

O repórter terá colocado esta questão ao afogueado manifestante? Decerto que ele estará tão indignado com a carnificina terrorista quanto eu ou o meu caro leitor. Mas ficamos na dúvida, na ignorância, ficamos apeados na distância que nos separa culturalmente e naquela que os meios de comunicação social vão cavando implacavelmente. O ódio (podemos falar de ódio?) que nutrimos uns pelos outros é alimentado da ignorância em que vivemos.

"O sono da razão engendra monstros" reza a gravura do imortal Goya. Pois engendra. Somos nós, adormecidos, com a pança cheia de coisa nenhuma.

Segunda coisa: Vejo-me e desejo-me para explicar aos meus alunos de História da Cultura e das Artes, 11º ano de escolaridade (por enquanto ainda não-obrigatória) conceitos básicos relacionados com o Cristianismo. A cagar e a tossir lá vamos avançando, como bois a lavrar terra com arado de madeira.

Entretanto (o programa da disciplina é longo e implacável) abordamos o capítulo relativo à "Europa sob o signo de Alá". A estranheza é semelhante. Os meus alunos estão mais ou menos a cagar-se para o assunto. E a tossir também.

É tudo a mesma coisa. Ignorância e indiferença. Os meus parcos conhecimentos sobre tão complexos períodos históricos revelam-se impotentes para despertar a curiosidade e alimentar o tão desejado espírito crítico que deveria germinar nas mentes da catraiada.

Nós consumimos. Os árabes são consumidos.

Entre uns e outros a caricatura de Deus.

quinta-feira, março 02, 2006

O que devíamos ensinar ás criancinhas

O endividamento acima das suas possibilidades económicas de uma percentagem significativa das famílias portuguesas mostra como, de um modo geral, o bom povo lusitano ainda não compreendeu as regras de funcionamento da sociedade de consumo.

A verdade, verdadinha, é que saltámos de uma ruralidade saloia e miserável para uma pós-modernidade igualmente saloia e igualmente miserável. 30 anos após o 25 de Abril e 500 reformas do ensino depois, esquecemo-nos de que a escola tem, também, a função de preparar os cidadãos para a vida activa, explicando-lhes as trivialidades da existência em sociedade.

Mas não, apostamos em querer ensinar tudo ás criancinhas, logo ali, desde a mais tenra idade (actualmente, o currículo do 7º ano de escolaridade tem 14 (!!!???) disciplinas diferentes!!!). Isso mostra como, na realidade, nos estamos a borrifar. Não queremos ensinar-lhes nada. Ainda por cima não temos tempo para estar com elas (com as criancinhas) e fazemos de conta que está tudo bem. As ruas já não são o que eram, os putos prantam-se defronte aos écrãs e encontram aí, na TV, na NET, nas consolas de jogos, o amigo que falta, o progenitor incansável, a avózinha simpática, o puto fatela que lhes deixa o nariz a pingar sangue depois de um tremendo soco na fachada.

Assim não vamos lá. As igrejas foram substituídas (para pior) pelos centros comerciais, o consumo é compulsivo, sem regra nem tino, como mostram os tais números sobre a falta de pagamento de avultadas quantias que levam as famílias a perder investimentos mal feitos, destapando contas por fazer, histórias de uma estupidez boçal reveladoras de uma falta de preparação incrível.

Os modelos sociais são os que existem através das capas das revistas, coisas do género Castelo Branco ou Lili Caneças. Tivemos um aviso sério quanto ao estado a que chegámos quando Santana Lopes alcançou a chefia do governo mas parecemos de novo entregues ao estado catatónico que nos caracteriza enquanto povo. É tempo de tentarmos poupar as criancinhas.

Uma sugestão: passemos They Live (Eles Vivem), de John Carpenter, nos jardins infantis em vez do Bambi e outras tretas do género. Temos de preparar as criancinhas para aprenderem a distinguir a verdade da realidade e isso com carácter de urgência.

A começar amanhã. (Amanhã é já hoje e amanhã hoje será ontem).

quarta-feira, março 01, 2006

Bed time for democracy*

Este gajo está a deixar a República Portuguesa à beira de um ataque de nervos.
Trapalhada sobre trapalhada, falta de personalidade gritante e uma dignidade semelhante à de um armário de cozinha, fazem dele um palhaço triste da nossa Democracia. O pior é que tende a arrastar o próprio sistema democrático para o registo bufo que vem pautando os anos que já leva à frente da Procuradoria Geral da República.

Alapado ao lugar que ocupa, não descola nem por nada deste mundo. Se tivesse um pingo de dignidade, há muito que se tinha posto na alheta. Os maus serviços prestados ao país serão recompensados com reforma e mordomias devidas aos titulares destes cargos, que as merecem independentemente da qualidade dos serviços prestados.

A historieta do "envelope 9" é mais uma grave machadada desferida na Democracia portuguesa. O processo tem sido conduzido com a habitual falta de frontalidade (há que dizê-lo, onde estava este gajo no 25 de Abril?) e, para encobrir a vergonhaça que é a Procuradoria orientada por este "senhor", põe-se de pantanas a liberdade de imprensa.

Com personagens destas em lugares determinantes para o bom funcionamento do sistema democrático temos uma imagem aproximada da qualidade da nossa democracia. 30 anos após o 25 de Abril seria de esperar um sistema político mais democrático e menos entregue ao cinzentismo intelectual dos titulares de cargos públicos.

Já vai sendo ridículo dizer que a nossa é "uma jovem democracia" a menos que aceitemos as teorias correntes que alargam até à velhice o período da adolescência. Afirmar que "é uma democracia consolidada" não passa de uma piada de mau gosto na qual Souto Moura é personagem principal. Daquelas que dizem as partes parvas da piada.

*Título de um álbum dos Dead Kennedys

terça-feira, fevereiro 28, 2006

O buço de Frida Khalo

A pequena multidão que se deslocou ao CCB no Domingo faz da exposição de 26 pinturas e mais umas coisas relacionadas com a vida de Frida Khalo um fenómenozinho no nosso acanhado universo artístico.

Anteriormente constituiram sucessos assinaláveis as exposições, em Serralves, das obras de Andy Warhol, Bacon e Paula Rêgo.

Haverá algo de comum entre estas exposições?

Atente-se, a título de exemplo, na actual exposição da pintora mexicana.
Mais do que a qualidade da sua pintura, o público conhece (ou pensa conhecer) a personagem. A obra funcionará mais como um espelho, através do qual o espectador poderá confirmar a imagem que construiu da sua autora.

O espectador eventual, amador de pintura ou simples consumidor de suplementos dominicais de semanários, sente-se preparado para encarar as obras de Frida pois estas aparecem-lhe descodificáveis na sua brutalidade simples.
São suficientemente explícitas para não produzirem grandes problemas conceptuais e suficientemente "naifs" para tornarem suportável a visão de certos horrores que, num registo mais académico, poderiam tornar-se chocantes ou mesmo insuportáveis à vista do espectador leigo.

Há assim uma espécie de aproximação da pintura à notícia tablóide. "Coluna desfeita produz obra-prima!" ou qualquer coisa deste género. Isto retira uma carga erudita desconfortável que tantas vezes acompanha o fenómeno artístico e, embora a pintura de Frida Khalo seja tão áspera e agressiva como as instalaçõs de Hirschhorn, revela-se muito menos (quase arriscaria dizer, nada) hermética e próxima das experiências de vida do consumidor.

E o que tem isto de comum com as outras exposições atrás citadas?
Bom, todos os artistas referidos são personagens quase literárias. O ícone Pop, o pintor maldito e a genialidade lusitana temperada pelos nevoeiros londrinos ombreiam com a masculinidade feminina do buço de Frida. São todos suficientemente humanos para serem queridos e, sobretudo, compreendidos.

Isto coloca uma questão: o que esperamos nós da obra de arte?
Será identificação? Talvez.
E, se for assim, ficam os robôs de Leonel Moura postos de parte do universo da criação artística?

As questões conceptuais da arte continuam a ser pasto de pequenos rebanhos de seres algo estranhos, algo raros, mas que existem. Disso não tenhamos dúvidas.

Entretanto admiremos o buço de Frida (quando a febre baixar e as filas forem menos embaraçosas).

domingo, fevereiro 26, 2006

67 cêntimos


Hoje de manhã fui até ao CCB. Ainda me resvala a língua quando desdobro a sigla e, sem querer, chamo-lhe Centro Comercial de Belém. Garanto que é sem maldade.

Como noutras ocasiões dispunha-me simplesmente a preencher um espaço de tempo, de outra forma vazio. Já que ali estava dirigi os meus passos para a entrada da exposição dedicada a Frida Khalo prevendo uma visita mais ou menos rápida, sem grandes expectativas quanto à qualidade do assombro que me pudesse aguardar.

A surpresa foi a fila que se estendia desde a bilheteira até à porta. Fila bem compacta, produzindo um ruído característico, uma espécie de zumbido aveludado ecoando de mansinho, a mostrar que aquelas pessoas eram, como eu, burgueses razoavelmente educados apreencherem um espaço de tempo, num Domingo de manhã, de outro modo vazio.

Nunca tinha visto semelhante burburinho naquele espaço. Quase parecia a Tate Modern ou o Prado em dia de inauguração. Como queria apenas preencher um espacinho vazio e não transformar um momento em alguns minutos demasiado longos. dei meia volta.

Saí de novo para o sol. Reparei que grande parte dos visitantes falavam espanhol (seriam mexicanos?) e vestiam roupas tipo catálogo da La Redoute o que dava um aspecto muito suave e cómodo ao ambiente geral.

Regressei para junto das minhas acompanhantes (mulher e filha). Enquanto elas se dirigiram à Bertrand para namorarem algum livro interessante, fui beber uma bica à cafetaria. Aí prolongava-se o ambiente geral do Centro. Mais burgueses, mais roupinhas jeitosas e aquele suave zumbido geral de quem fala num tom apropriado a qualquer espaço e situação.

A surpresa do dia foi o preço do café. 67 cêntimos! Não 60 nem 70, mas 67 cêntimos!!! Que raio de conta terá conduzido áquele preço? Aquilo deve dificultar os trocos, complicar as contas, baralhar os espíritos. Rebusquei os fundos da algibeira e lá descobri umas quantas moedinhas de 1 cêntimo que me permitiram entregar ao sizudo empregado, por detrás da máquina registadora, a quantia mágica que ali corresponde a uma chávena de café.

Enquanto aguardava civilizadamente a minha vez de ser atendido pensei um pouco no assunto. Conclui que 67 cêntimos devem correponder a um qualquer limite máximo, deduzido pelo cálculo exacto de um gestor ambicioso.

67 cêntimos!!!
Quanto orgulho não deverá proporcionar ao seu autor tão extravagante preço.
67 cêntimos!!!
Aquilo é quase uma expressão de Beleza!
Na verdade expressa bem a teoria mais portuguesa de Portugal inteiro que é ilustrada (como seria de esperar) no popularíssimo ditado que garante que "grão a grão, enche a galinha o papo". Neste caso, cêntimo a cêntimo e sem galinha na equação.

Aqueles dois cêntimozinhos distorcem a realidade e lançam o visitante estrangeiro na vertigem do espaço mental do português. É nas coisas pequenas que encontramos expressão para a nossa fé. Tal como " a mulher e a sardinha se querem da mais pequenina" (!!!???) e outras máximas do género, naqueles dois cêntimos a mais (ou serão 3 a menos?) confirmamos a dimensão genial do empresário português.

Seja lá como fôr, a verdade é que não cheguei a visitar a amiga Frida, mas ficou a promessa de lá voltar. Até porque desejo experimentar de novo a vertigem daqueles extraordinários 67 cêntimos!

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Revolução/evolução


As coisa mudam!
Todos sabemos que as coisas mudam. Oh, sim, e como mudam!

Estão diferentes.
Tranformam-se ou transformaram-se, já não são iguais ao que eram.
Algumas coisas nem sequer são parecidas com aquilo que foram, de tal modo mudaram.

Gostamos de comentar a mudança, de a observar. É curioso ser espectador.

Os problemas começam a surgir quando somos actores num processo de mudança.
Principalmente se a nossa actuação implica alterações nos hábitos e rotinas que havíamos adquirido ao longo do tempo.
O lento e dócil, o saboroso passar do tempo que confirma a solidez das coisas que tomamos por reais.

Actuar na mudança, pela mudança ou mesmo contra ela, exige esforço, envolvimento, quebra de rotinas. Incómodo.

Um dia mais tarde, ao olharmos para trás, talvez possamos compreender o que se passou, qual foi o nosso papel.

No presente, a falta de distância relativamente aos acontecimentos, a dor efectiva (não a sua memória) provocam uma estranha vontade de afastamento.
A mudança que se lixe!

Amanhã falamos... ou não.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

O robô-caveira


Leonel Moura convidado pelo Museu de História Natural de Nova Iorque (AMNH) a criar um robô pintor para a sala da humanidade.O AMNH tem em curso um projecto de renovação de vários módulos expositivos, entre os quais se destaca a sala dedicada à humanidade. A abertura está prevista para finais do corrente ano. A sala da humanidade apresentará um percurso desde os primórdios até aos dias de hoje. De forma a representar algumas das questões que as novas tecnologias colocam, em particular com o aparecimento da robótica e das máquinas inteligentes, o AMNH convidou Leonel Moura a apresentar uma proposta de instalação permanente com um robô pintor.Considerando que, mais do que outros, um robô capaz de produzir a sua própria arte questiona de forma profunda a natureza do ser humano.

Esta será uma questão fundamental.
Podem as "coisas" produzidas por um robô ser consideradas obras de arte?
Na foto Leonel Moura olha o parceiro de aventura como Hamlet olha a caveira.
Sobre o palco, a atenção dos espectadores suspensa da mais célebre das frases: "To be or not to be..." e a luz do projector queima a pele do actor, um suor ligeiro evapora-se e sobe em direcção ao céu virtual que é o da teia, sobre as tábuas.
Apesar de sabermos que tudo não passa de teatro, de representação, os corações batem mais depressa ou acomodam-se na dúvida aveludada que ganha contornos firmes, quase verdade, quase mentira, de tão sólida.
É a beleza a surgir, lá do fundo, vinda do quase nada.

Leonel Moura anda a brincar com a arte. A arte agradece, farta de ser olhada sempre da mesma maneira, sempre como comércio, como espelho mágico, sempre uma feira de vaidades.
Com a chegada dos robôs artistas podem as premissas mudar?

Aguardemos os próximos episódios.

http://www.lxxl.pt/artsbot/index.html

sábado, fevereiro 18, 2006

Comentário (Olaio)


Na sequência do comentário que deixaste no "100 Cabeças" quero apenas dizer-te que os pruridos islâmicos causados por eventuais ofensas à superioridade da sua visão religiosa me causam náuseas. Da mesma forma, as (pouco) discretas manobras da Opus Dei contra a versão cinematográfica do Código da Vinci, são provas de que o monstro de intolerância prepotente das religiões está apenas adormecido. Qualquer pretexto serve a estes animais para saírem da toca e virem abocanhar-nos as canelas.
Nesta história dos cartoons não tenho dúvidas de que há um aproveitamento perigoso e premeditado de certas forças obscurantistas que tentam dividir o Ocidente naquilo que ainda tem de puro e defensável que é o desejo de liberdade conseguido através da separação clara entre religião e estado.
Não me comovem os gemidos rancorosos dos mullahs e outros que tais, tal como não me comovem os gemidos dos padrecas da Opus Dei. Pessoas que não respeitam a liberdade alheia (que não respeitem a sua própria é lá com eles mesmo que seja masoquismo) não merecem o meu respeito. Daí que a reacção exagerada e orquestrada da "rua" árabe contra o Ocidente de uma forma geral, encapotada pela "crise dos cartoons" me ponha de pé atrás e mãos à frente, em posição defensiva.
O que me cheira a petróleo são latidos como os do Freitas, ou da Administração Bush, que querem parecer anjinhos no meio da trovoada. Metem um bocadinho de nojo.
Os árabes foram invadidos, humilhados, derrotados, etc.? Azarucho! Afinal de contas também já tiveram a sua Era e não consta que tenham sido tão mansos como os cordeiros quando dominaram a Península Ibérica (para só dar um exemplo). A História não morreu. Isso é treta pós-moderna para consumo de Yuppies enfadados com o quotidiano da empresa. A História está aí, perante os nossos olhos, em todo o seu horrível esplendor! Só que nós temos consciência de que estamos a vivê-la e, do "outro lado", os fanáticos religiosos nem sequer aceitam que tal coisa exista (vê só a interpretação iraniana do Holocausto!).
Para eles só existe "O" livro. Eu cá ainda ontem estive a ler O Homem Aranha.
Um abraço.

(na imagem o Rato Mickey é representado como um evangelista, à maneira dos manuscritos iluminados da Idade Média... elucidativo, não?)

Rui Silvares

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Deus havia de ser dos nossos

No tempo em que os animais falavam foi importante haver quem impusesse visões ordenadas das coisas que compunham o mundo e a existência. A religião funcionou, então, como Lei e permitiu a sobrevivência da espécie humana. Os deuses foram criados para nos protegerem do mundo hostil e, sobretudo, de nós próprios.
Houve sempre povos que reclamaram para si favores especiais das divindades. Alguns ainda hoje o reclamam. E fazem oferendas e matam os próprios irmãos só porque interpretam de forma diferente a suposta mensagem divina. Os fanáticos andam por aí ao cheiro e são atraídos quando sentem o odor de merda e sangue misturado. Acorrem, de imediato, como hienas.
Agora que triunfámos sobre a barbárie e sobre a própria divindade, somos livres. As divindades deixaram de fazer sentido e tornaram-se desnecessárias. Somos bem capazes de tomar conta de nós próprios e dispensamos o paternalismo do criador que inventámos.
Deus não morreu, simplesmente nunca existiu como sabemos. Como sempre soubemos.
No mundo actual a religião não tem mais o papel regulador das sociedades, tornou-se um arcaísmo. Paz à sua alma.
Mas o mundo, longe de estar globalizado, está partido em pedaços. Se vivemos a era tecnológica deste lado do planeta, outras zonas existem onde a religião continua a prevalecer sobre a inteligência. Esse problema poderá tornar-se verdadeiramente preocupante a médio prazo.
O Império Romano tem sido recordado a propósito daquilo que designamos por Crise dos Cartoons. Todos sabemos como se desgregou a Ocidente como um baralho de cartas por jogar. Ao cair o poder imperial, a Europa mergulhou num período letárgico esquecendo toda a herança cultural clássica que acabou usurpada pela hierarquia cristã que veio a impor a sua lei por muitos e longos séculos.
Agora que nos conseguimos libertar, mais uma vez, do jugo dogmático e castrador da religião não podemos permitir que um bando de fanáticos venha cuspir sobre as tumbas dos que fizeram da grandeza do espírito humanista o destino da Europa.
Deus, se existisse, haveria de estar do nosso lado.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Somos DEVO!


A história de Abraão é exemplar. A divindade revela sadismo e mesquinhez. O homem mostra uma dimensão imbecil e crédula que todos sabemos possuir mas preferimos ignorar. O anjo cumpre o habitual papel de mensageiro e pouco mais. Já Isaac não passa de uma vítima inocente , tão relevante como a ovelha que surge vinda dos limites da imagem. Tudo para mostrar, a quem quiser ver e acreditar, onde pode conduzir a fé.

À beira do abismo, ao crime eminente. Pouco mais longe, muito mais perto.

Ao estar disposto a sacrificar o próprio filho para satisfazer uma ordem do seu deus, sem resistir, Abraão toma uma atitude próxima da do radical fundamentalista que oferece o filho em sacrifício com um cinto de bananas de dinamite. Em nome de Alá. Em nome de uma crença infundada numa entidade improvável.

Andamos a discutir questões relacionadas com a nossa liberdade individual por causa de crendices deste género? Porra, não pode ser!

Como diz a canção dos DEVO "Deus fez o homem mas usou o macaco para o fazer" e remata com a pergunta/resposta que dá título ao álbum: "Nós somos homens? Somos DEVO!"

Ora nem mais! A humanidade não merece muitos de nós e muitos de nós não merecem a humanidade. O resultado é a extinção dos orangotangos.

domingo, fevereiro 12, 2006

Sombria profecia

Quer-me cá parecer que há alguém (ou talvez alguma coisa) que anda a alimentar-se do que não devia.

Há alguém (ou alguma coisa) gulosa do mal-estar alheio, que cresce e se sente mais confortável quando a miséria avança, seja na versão material ou cultural, a miséria é para este alguém (ou alguma coisa) um pitéu saboroso.

Esta coisa (ou Alguém, com maiúscula) devora-nos a alma e atira os restos aos bichos que mantém como animais de estimação. Estou convencido que estamos perante um caso de polícia ao nível do Divino. Anda um deus qualquer, estúpido ou enlouquecido pela sífilis, a estragar ainda mais a humanidade.

Lá vai o tempo em que sonhei que o mundo estava todo ao contrário por não haver quem se interessasse pela posição relativa das coisas no Universo. Andava a estudar Geometria Descritiva no mais elevado grau de dificuldade, o que explica tal alucinação. Mas, apesar dos miolos fritos no lume brando da Geometria, havia algo de inquietante na visão dos meus sonhos.

Deus era afinal o Diabo que, com as manhas que todos sabemos possuir, nos havia convencido de ser bom e bem intencionado ao ponto de lhe chamarmos Deus do Amor e outras patetices do género. Assim se explicava tanto mal e tamanhas maldades a assolarem a tristeza deste mundo, ainda por cima premiada por multidões submissas a encherem os templos de lamentos e outras coisas semelhantes a orações rezadas num zumbido de mosca.

O mundo estava ao contrário! Na verdade, uma vez que o mundo é esférico, isso não deveria constituir surpresa nem provar rigorosamente nada de importante. A não ser que entre Deus e o Diabo a diferença resida, apenas e lamentavelmente, numa questão de posição e perspectiva.

Chiça penico, convenhamos que os meus sonhos de adolescência não foram particularmente saudáveis, mas também, perante o quadro actual, até que poderão ser considerados sonhos cor-de-rosa (desde que não sejam rosas de paixão que aí já a cor é outra!).

Sim, pois, e tal e coiso, "Venha o Diabo e escolha", "Valha-nos Deus", pátati, pátatá, a religião regressa em força para cumprir a sombria profecia de João Paulo II para o jovem século que agora vivemos.

Disse ele que este seria o século da religião.
Querem lá ver que o homem, afinal, era bruxo!

sábado, fevereiro 11, 2006

Manipulados


A manipulação das consciências alheias é uma espécie de desporto para os fundamentlistas islâmicos.
Praticam-na com volúpia e mestria.

Ao que parece, esta treta toda à volta dos cartoons dinamarqueses não passa disso mesmo: uma treta de merda! Mais do que preparado pelos fazedores de milagres mediáticos de serviço para os lados do Oriente, o embuste pegou de tal modo que nos pôs a discutir o sexo dos anjos... outra vez.

Sempre que nos aparecem nos écrans uns planos apertados mostrando uma turba de gajos enfurecidos a berrar e a esbracejar como loucos pensamos "Lá estão os árabes!"

Os árabes? Mas que árabes?
Serão palestinianos ou libaneses? Talvez sírios ou de outra nacionalidade qualquer. E que fazem eles? Estão sempre em protesto, a queimar bandeiras? Representam todo o mundo árabe? A sua razão de existir é apenas destilar veneno contra o satã ocidental? Como nos vêem eles? Serão capazes de distinguir a Dinamarca da Inglaterra ou de Portugal? O que somos nós? Uma multidão de comedores de hamburgueres, infiéis maldosos, prontos a beber petróleo por uma palhinha?

Andam a brincar com a nossa percepção da realidade e nós nem nos apercebemos como estamos a ser manipulados! Nós, deste lado, e eles, do outro. Há quem faça deste ódio, que cresce e se desenvolve como um incêndio num palheiro, o principal objectivo das suas vidas. E esses estão a alcançar os fins a que se propuseram.

Em nome de quê? No interesse de quem? Será tudo uma questão de fanatismo religioso puro e duro? Contas antigas por ajustar? A coisa ultrapassa a minha capacidade de compreensão, o que também não é grande admiração.

Arco recto

Ao ler a crónica de Nuno Crespo para o Mil Folhas sobre a Feira Internacional de Arte de Madrid, com o título Arte ou mercado?, sente-se uma leve desilusão do escriba por não haver grandes novidades.

Desde que a originalidade se tornou um atributo do objecto artístico que há uma ânsia de surpresa difícil de satisfazer. O artista é visto como um inventor de formas inéditas, de técnicas inimaginadas, uma espécie de mago conceptual mais profícuo que a própria divindade.

Este desejo do inédito resvala com frequência para um discurso plástico vago e, predominantemente, formal. Num universo desta natureza, o pintor e o escultor tornam-se anacrónicos, as linguagens e técnicas clássicas perdem consistência e arriscam-se a ser fastidiosas para quem procure com avidez a tal novidade estonteante.

Os críticos, ansiosos por encontrarem uma obra que lhes permita estabelecer um discurso, também ele, inovador, acabam a escrever no vazio, a comparar o que vêm com aquilo que viram e o que desejavam ter visto (mas que não sabem se existe ou tem possibilidade de existir).

A consciência da História da Arte torna-se demasiado presente e demasiado pesada. A tentativa de fazer História (pelos artistas) e de narrar a própria História estando dentro dela (pelos críticos) é confundida com estranheza e originalidade. Uma obra que mereça referência (um acto histórico de quem faz e de quem narra) tem de ultrapassar as barreiras do "já visto" e do "já feito". Como se fosse possível, 100 anos depois, recuperar o espírito das grandes vanguardas artísticas do início do século XX. Não é.

Só a distância permitirá construir a História. Apollinaire fez a apologia dos pintores cubistas. Hoje falamos de Picasso e Braque nas aulas de História da Arte. Um pouco de Gleizes, mais de Juan Gris. Estaremos esquecidos de alguém? Haverá justiça nestas referências? Quantos artistas foram ignorados, quantos ficaram fora do comboio dourado dos mitos da arte contemporânea? Quantos não foram suficientemente arrojados para surpreender os olhos dos que escreveram a História daquele tempo?

Todos os anos haverá uma nova Arco, carregada de artistas excelentes que ali se deslocam para venderem os produtos do seu trabalho. Arte ou mercado? Quem se preocupa com isso? Afinal de contas a arte foi (e será) sempre um mero negócio mesmo quando os artistas se transcendem, para nossa felicidade.
Quem não vende não se vê.
Quem não se vê é como se não existisse (mesmo que exista).

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Uma questão de fé

Curiosa a forma como um jornal iraniano pretende "responder" à provocação dos badalados cartoons com Maomé.

O anunciado concurso internacional para caricaturar o Holocausto tem veneno q.b. e vai baralhar muita cabeça por esse mundo fora.

À boa maneira dos judeus a resposta árabe é do género "olho por olho, dente por dente", neste caso é mais "cartoon por cartoon".

Estão no seu direito mas, ao responderem desta forma, não estarão a justificar aquilo que tanta indignação lhes causou?

O presidente iraniano (não consigo fixar o nome do homenzinho) aplaude a iniciativa já que, na sua elegante perspectiva, o Holocausto não passa de um mito, um embuste com a única finalidade de mandar os judeus para onde estão agora.

Embuste por embuste, mito por mito, as religiões não ganham nada quando tentam confrontá-las com a história.

Simplificando: as fotos (entre infindáveis documentos incontroversos do Holocausto) mostram com crueza e a eloquência que só as imagens possuem aquilo que foi a barbárie nazi.
Já para provar as andanças de Maomé e o seu carácter divino pouco (arrisco mesmo, nada!) há que nos garanta um rasto de verdade.

O mesmo se passa, por exemplo, com John Smith, o profeta mormon, os videntezinhos de Fátima e outros representantes desta classe profissional.

Fica-se com a fé o que, convenhamos, não é lá grande coisa.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Memória Visual














No último filme de Woody Allen, Match Point, a acção desenrola-se em Londres.

Escrito e realizado pelo clarinetista de óculos esquisitos, este será um dos melhores filmes que já foi capaz de engendrar.

Um argumento interessante, um conjunto de actores dirigidos com excelência e eficácia narrativa. Que mais podemos pedir para nossa felicidade?

Quem se dispuser a assistir a este filme certamente dará o seu tempo por bem empregue (se for do género de pessoas que se preocupam em não perder tempo, como se isso pudesse valorizar a nossa existência de alguma forma).

Numa das cenas fulcrais surge, por um cagagésimo de segundo, um stencil de Banksy (semelhante ao da imagem). É uma daquelas imagens que só é vista por acaso, talvez só repare nela quem já a tenha visto antes. E, no entanto, tem um significado explícito no momento da narrativa em que é incluída. Um pormenor.

Ou Allen pediu a Banksy (ou a um aderecista, mais simplesmente) para executar naquele exacto local aquele grafitti ou a escolha dos décors foi minuciosa e feliz.

Coisinhas como esta fazem a diferença. E, se Match Point já me havia impressionado positivamente dentro da sala, agora, com tempo e distância, mais me convenço que se trata de um excelente filme. Até os mongas dos críticos do Público se desfazem em estrelas e bolinhas perante a mestria do velhote.

Em que cena surge este grafitti? Só vendo.
Sabendo que esta imagem faz parte da película penso que seja impossível passar desapercebida.

Bom filme.

domingo, fevereiro 05, 2006

Metamorfose


"Os Estados Unidos também quebraram o silêncio. "Estas caricaturas são evidentemente lesivas para as crenças muçulmanas", declarou o porta-voz do Departamento de Estado, Justin Higgins, citado pela AFP. "Apelamos à tolerância e ao respeito de todas as comunidades, das suas crenças religiosas..." blá, blá blá.

Haverá limites para a hipocrisia?
Onde está o respeito proclamado quando se fecham a sete chaves prisioneiros na escuridão de Guantanamo? O que estão a fazer com aqueles desgraçados? Não consigo evitar imaginar cenas do tipo X Files.
Experiências aterradoras com cobaias humanas, como n'O Ovo da Serpente.
Porque se recusam estes matrecos a assinar os acordos respeitantes a um Tribunal Internacional?

Onde está este proclamado respeito quando se invadem países soberanos sem dizer água-vai atirando-lhes para cima com quanta merda o exército americano tem à mão de semear? Afinal de contas convém não esquecer que os EUA são o Grande Satã no imaginário islâmico, onde os ocidentais, de um modo geral, são ainda confundidos com os franj dos exércitos invasores das Cruzadas, maioritariamente constituídos por Francos.

Sendo assim, quem querem estes cordeirinhos de cauda peluda e caninos desmesurados amansar com tal conversa? Imaginam que poderão começar a atirar o odioso papel de Grande Satã para cima de outros? Para cima dos dinamarqueses, por exemplo?

Pela primeira vez, em muitos anos, as bandeiras queimadas em frente ás câmaras de filmar nas ruas do mundo islâmico não foram americanas nem israelitas. Estará a Administração Bush a imaginar ali uma fresta por onde possa escapulir-se, libertando-se da odiosa pele de Satã, numa metamorfose radiosa que possa fazer renascer os EUA numa nova pele, sedosa e sedutora, que conquiste os corações dos árabes?

Quem sabe?
Os conselheiros de Bush já deram provas de terem uma imaginação delirante.

E o querido George acredita estar investido de uma missão divina.

Lamentável

"Não farás para ti qualquer imagem nem nada semelhante ao que existe nos céus, na terra ou nas águas que ficam debaixo dela; não te curvarás diante delas, nem as servirás: porque eu, o Senhor teu Deus, sou um deus ciumento, que castiga a maldade dos pais nos filhos, até à 3ª e 4ª geração daqueles que me aborrecem; e faço misericórdia aos milhares que me amam e guardam os meus mandamentos."

Êxodo (20, 4-6)

A liberdade de expressão não é uma imagem de marca das religões. A natureza dogmática das crenças religiosas impede vozes discordantes e ameaça com terríveis castigos toda a blasfémia. A criação de imagens, como se pode constatar pela transcrição de uma passagem do Antigo Testamento, foi expressamente proibida por Deus.

Esta questão levou a violentas disputas na história do cristianismo. O triunfo dos que defendiam o papel pedagógico das imagens, como via de conhecimento para as hordas de iletrados que enxameavam (e continuam a enxamear) os templos, foi devastador no Ocidente católico e todos nós estamos bem familiarizados com as obras de arte sacra que marcam a nossa cultura e a nossa civilização.

A produção de obras de arte sacra foi um factor determinante para a difusão da fé católica apesar das reservas de algumas igrejas. Entre os ortodoxos cristãos cristalizou na representação dos ícones, com regras rígidas e supervisão apertada dos doutores da igreja. Para os protestantes o papel das imagens é muito menos importante e olhado de soslaio.

O medo da idolatria está na base de todas as reservas relativamente à produção de imagens naturalistas. A escultura, em particular, foi durante muito tempo demonizada por estar relacionada com os cultos pagãos.

Não é de admirar que a questão ressuscite, de tempos a tempos, voltando a incendiar os peitos mais fundamentalistas com o ardor da pureza da fé.

Num mundo globalizado onde a imagem é mãe de todas as coisas não há espaço para discussões serôdias como a que está a ser gerada pela questão dos cartoons dinamarqueses. Se não houvesse um fundamentalismo cego e retrógrado tão enraízado no mundo muçulmano, esta patetice só nos faria sorrir.

O problema é que esse fundamentalismo existe e toda esta historieta lamentável é aproveitada para abanar a nossa liberdade de expressão.

Os fanáticos religiosos no mundo árabe passaram à acção violenta. Multiplicam-se as agressões a embaixadas da Dinamarca e a boçalidade furiosa está à solta.

Lamentável.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Cartoon

Liberdade com limites é a do pássaro na gaiola. Pode voar mas não faz mais do que saltitar do fundo da gaiola para o poleiro, dali para as grades, de novo para o fundo da prisão. Quase sempre até à morte.

Quem não compreende que a liberdade não pode ser limitada não é um ser livre. E quem não é livre tende sempre a limitar a liberdade, que é coisa alheia.

Não conheço a palavra do profeta Muhammad (paz esteja com ele). Conheço a palavra de Cristo (paz na Terra aos homens de boa vontade).

Sei que em nome de Cristo se cometeram algumas das maiores atrocidades que a mente humana foi capaz de engendrar. Mas não O confundo com aqueles que usurparam (e ainda usurpam) o Seu nome.

Vejo como também o nome de Muhammad (paz esteja com ele) serve de véu a contínuas humilhações da integridade humana e, apesar de não conhecer os fundamentos da sua pregação, estou convicto de não lhe ser feita justiça sempre que se mata e assassina invocando o seu nome.

Quando os homens se escudam com o nome de Deus ou dos seus profetas para darem largas à torpeza e à maldade que lhes vai na alma e corre nas veias, estão a emporcalhar inapelavelmente a palavra que dizem respeitar. Acabam por transformar Deus na gaiola e os homens em canários sem pio.

Só não compreende isto quem não percebe a própria incapacidade de ser livre.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Escuteiros do Amor

Parece que há quem nos ofereça o coração a troco de nada. Há quem nos queira tanto bem que somos inacapazes de perceber o alcance de tão inexplicável paixão. Os problemas começam a surgir quando insistimos em recusar a oferta. Mesmo que o façamos educadamente, como nos ensinaram as nossas avós.

O ofertante insiste com o sorriso benemérito a descair ligeiramente para o amarelo. Que não, não queremos, que dispensamos, basta-nos bem o coração que temos e os outros que já conquistámos, mesmo os que entretanto fomos perdendo pelo caminho. Tá-se bem assim, muito obrigado e tal... mas o outro começa a dar sinais de impaciência. Espeta-nos um coração sangrento defronte do nariz e faz aquele gesto que os nossos antepassados navegadores faziam quando estendiam uma mão cheia de contas coloridas em direcção aos aborígenes que iam encontrando por aí. Eu não estava lá mas vejo o gesto. Um empurrãozinho do pulso com o cotovelo cúmplice, entre o hesitante e o esperançoso.

Fica lá com essa merda, ó matreco, é o que me passa pela cabeça, mas a sombra da minha avó não me permite tal indelicadeza. Começo então a pensar na possibilidade de aceitar aquela coisa, embora não esteja muito bem a ver o que possa fazer com ela. Só para dar uma alegria ao escuteiro mais à puta que o pariu, que de santo nem a paciência tenho. Meço um gesto de hesitação e ponho-o em prática. Noto uma esperança imediata a bater no peito límpido do meu interlocutor. Estou quase a receber na mão o palpitante pedaço de asno que me é tão insistentemente ofertado.
No último momento retiro a manápula, viro costas e afasto-me.
Que porra, sou alguma instituição de solidariedade social? Se o gajo quer fazer caridade que vá para um movimento cívico ou outra merda qualquer que esteja a dar.

Sinceramente, ó meus caros compinskas, não há pachorra para os escuteiros do amor nem para as suas mensagens de esperança num mundo melhor, repleto de poesia encadernada em capa dura com lombada forrada a pele de camelo.

Vão chatear o Camões!

terça-feira, janeiro 31, 2006

Fundamentalites



Aqui há dias foi notícia a pretensão da Opus Dei em pressionar quem de direito no sentido de classificar para maiores de 16 anos a versão cinematográfica do Código da Vinci.

Na sua qualidade de guardiões da pureza da fé católica, estes fundamentalistas religiosos argumentam que a obra de Dan Brown (que não li ainda nem sei se algum dia vou ler) distorce a verdade dos evangelhos criando confusão nas mentes mais imberbes. Acham eles que as crianças não estão preparadas para distinguir a verdade da mentira, a realidade da ficção. Partem do princípio que os evangelhos adoptados pela igreja católica são intocáveis e inquestionáveis.

Num regime de liberdade religiosa estão no seu pleno direito ao emitirem uma opinião. O que transparece desta pretensão é a sanha fundamentalista que anima estas personagens ao ponto de proporem a censura de opiniões contrárias à fé que os anima. O rótulo de "maiores de 16" parece-lhes, decerto, castigo pouco severo, mas a sociedade democrática não lhes permite mais do que isto.

Uma outra notícia sobre as reacções descabeladas de alguns países islâmicos em relação à publicação de alguns cartoons num jornal dinamarquês e, posteriormente, num outro, norueguês, merece também alguma reflexão.

Os cartoons em questão (dois deles na imagem) representam Maomé em cenas consideradas mais do que sacrílegas. A coisa bateu mesmo mal nas cabeças mais afundadas nos turbantes bafientos do fundamentalismo.

A Arábia Saudita foi ao extremo de retirar o seu embaixador de Copenhaga e a Líbia encerrou a sua missão diplomática naquela cidade. O Egipto poderá tomar atitude do género.
Na Faixa de Gaza houve mesmo quem se desse ao trabalho de cercar a representação local da União Europeia, exigindo desculpas da Dinamarca e da Noruega, como se os governos tivessem alguma responsabilidade editorial num país democrático. Queimaram bandeiras na rua e tudo, como de costume.

Este episódio mostra como estamos longe uns dos outros e somos incapazes de nos entendermos em aspectos básicos. No islão as imagens são olhadas com uma desconfiança doentia e a religião é mais que o ópio do povo, é autêntica poluição intoxicante. No ocidente temos direito a máscaras anti-gás mas não estamos livres de algumas tentativas de impor a crendice à razão.

O poder das imagens ultrapassa o valor banal que lhes atribuimos. Estamos de tal modo familiarizados com elas que nos esquecemos da sua função primordial: a magia.

Quando riscamos uns cornitos na fotografia de uma pessoa de quem não gostamos ou lhe pintamos uma barba comprida, estamos a praticar uma pequena magia, à maneira do que, julgamos, os caçadores paleolíticos faziam aos bisontes representados nos tectos das cavernas.

Vivemos numa civilização de imagens. Esquecemos que há quem as proíba ou impeça a sua livre produção. Isso é, simplesmente, inconcebível nos dias que correm a ocidente.

O mistério da arte persiste.

domingo, janeiro 29, 2006

Uma questão diabólica!

Um ex-seminarista italiano pôs um padre em tribunal alegando que este tem andado a abusar da confiança do povo por afirmar que Jesus Cristo é uma personagem histórica.

Segundo o antigo seminarista, ateu convicto nos tempos que correm, não há provas que sustentem a tese do padre. O juíz encarregue de ditar sentença neste caso, na cidade de Viterbo, a norte de Roma, pede tempo para matutar na questão.

A lei italiana condena os que explorem a credulidade alheia usando subterfúgios fraudolentos. Estaremos perante uma situação desse género?

Quem pode, com toda a certeza, garantir a veracidade dos textos evangélicos adoptados pela Igreja Católica? A verdade, verdadinha, é que nenhum dos evangelistas pôs sequer as vistas em cima de Jesus, tendo os textos sido escritos, supostamente, por inspiração divina muitos anos após a morte daquele que muitos consideram o Filho de Deus.

Essa crença é sustentada pela Fé e pela tradição religiosa. Além do mais, os Evangelhos, tal como os conhecemos nos tempos que correm, estão completamente adulterados por séculos de traduções manhosas, sujeitas a todo o tipo de erros e interpretações abusivas, como é do domínio público.

Aguardemos serenamente a sentença do Doutor Juíz. Talvez declare a inexistência de Deus e aplique multa ao Papa por andar a abusar da confiança e credulidade de milhões de católicos por esse mundo fora.

sábado, janeiro 28, 2006

Portugal Pós-Moderno

No Editorial de O Público de 31 de Maio de 2005, Corpos Especiais, assinado por Eduardo Dâmaso podemos ler, a abrir, que “é essencial a modernização do aparelho produtivo”.
Fico a pensar que “o” Modernismo não chegou a passar por aqui. As utopias modernistas, que estiveram na base da Europa da União, foram fundadas na crença da possibilidade da melhoria das condições de vida das populações, cada vez mais urbanas, através do desenvolvimento do tecido produtivo apoiado num racionalismo funcionalista. A organização da sociedade tendo por modelo os princípios estéticos do Modernismo (“ornamento é crime” de Adolf Loos, ou “a forma segue a função” de Louis Sullivan, para dar dois exemplos paradigmáticos) transformados em princípios éticos das instituições democráticas, nunca foram, sequer, ponderados entre nós. O Estado Novo e Salazar encarregaram-se de fazer do nosso país um imenso pardieiro, habitado por saloios mais ou menos ricos com uma maioria decididamente miserável. A democracia foi adiada até a um ponto insuportável que viria a rebentar em Abril de 1974. Ou seja, Portugal falhou o Modernismo, reentrando na história da Europa após o período revolucionário que este jornal nos tem recordado diariamente na coluna “Memória, 30 anos de PREC”.
Dâmaso continua, mais à frente, “o mundo é reformado todos os dias pela acção avassaladora do capitalismo e não das velhas categorias ideológicas(...)”. As velhas categorias ideológicas que serviram de motor ao modernismo, as utopias socialistas, nunca conseguiram vingar na realidade, e começam a dar nítidos sinais de falência, inevitáveis nas promessas sempre adiadas. Vivemos uma era Pós-Moderna e Portugal veio cair, direitinho, dentro dela. De país atrasado, analfabeto, de matriz rural dominante, Portugal passou a uma sociedade consumista, sem fase de adaptação nem aprendizagem criando alegremente “(...) uma sociedade de mercado rendida ao valor implacável do dinheiro onde tudo se compra e vende, destituída de valores sociais e de uma solidariedade básica entre gerações” parafraseando o citado editorial.
Temo que seja esse o retrato apropriado, não só do nosso país, mas da actual União Europeia. A vitória do “Não” no referendo Francês vem pôr a descoberto a ausência de ideais, a impossibilidade de uma Internacional dos Cidadãos à maneira das vanguardas do século XX. A História não tem retorno. Assistimos estupefactos a uma transformação implacável dos princípios básicos da nossa sociedade. Não há Cristianismo que nos valha nem utopias sociais que resistam à voragem consumista em que nos deixámos enredar. Não há tradição cultural Greco-Latina que nos una num mundo globalizado, onde predominam confrontos ditados pelos mais atávicos dos ódios.
Penso que seja isto o Pós-Modernismo de que “(...) o possibilismo reformista de Blair(...)” será mais um sintoma de maleita que medida profilática.
Sem uma verdadeira tradição democrática, diariamente traída por uma classe política e dirigente que aprendeu a ler, a escrever e a contar nos bancos da mais cinzenta das escolas salazaristas, Portugal afoga-se num mar de incongruências formais e éticas, completamente desnorteado e sôfrego, sem nada que possa satisfazer esta ânsia de justiça e bem-estar que todos sentimos. E, no entanto, a classe dirigente não é mais que um reflexo de nós próprios, os eleitores.
Será isto o Pós-Modernismo? O triunfo da imagem sobre o conteúdo, a lei da selva embrulhada em papel de veludo? Cordeiros que ladram e lobos que miam? O Modernismo agoniza lentamente e, das suas cinzas, emergirá algo novo. Mas o Novo não será, necessariamente, mais brilhante, justo ou agradável. Será apenas outra coisa. Talvez seja já isto!

Texto escrito em Junho de 2005

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Mistério de peso

Andam a gamar esculturas enormes em Londres e arredores.
Sejam elas em bronze e não há tonelada que lhes valha.
Há quem as leve como se fossem bibelots na estante da vizinha.

Os jardins e parques da capital inglesa têm sido aliviados das peças com alguma regularidade.
Segundo a bófia lá do sítio, as esculturas são levadas para desmantelamento e fundição com a finalidade de retirar do bronze o cobre usado na produção das obras de arte.

O preço do cobre disparou nos mercados internacionais já que a indústria chinesa de componentes electrónicos está a absorver grandes quantidades deste material.

Prefiro imaginar que há um mostronço qualquer a plantar esculturas no quintal como se fossem beterrabas. É mais poético.

Na verdade, a redução de esculturas aos seus componentes essenciais não é uma novidade. Ao longo da História, em épocas de crise e grande necessidade, a coisa foi praticada em obras interessantíssimas (pensa-se).
Um bom canhão e respectivas munições sempre deram mais jeito que um deus grego em pose complicada.

Não há-de ser nada!

terça-feira, janeiro 24, 2006

O dia depois


Democracia é isto mesmo.
O povo vota e depois vai à sua vidinha, tratar da fome e do descanso, enquanto os poderosos se entretêm a governar os destinos.

A partir de agora temos, em Portugal, novos tratadores de destinos. Cavaco na cadeira dos leões será uma experiência bizarra. Lado a lado com o ministro que de filósofo só tem o nome, formará uma estranha parelha para puxar a carroça da nação.

Se fizerem ambos força na mesma direcção talvez a carroça se mova. Resta saber qual o sentido do movimento da parelha. Pelas provas anteriormente dadas não sou capaz de me entusiasmar nem um bocadinho.
Problema meu?
Decerto e sem dúvida. Mas problema de tantos outros e, nem todos, como eu.

Há quem pense que estes dois são faces distintas de uma mesma moeda. A "boa moeda" da política, na singular terminologia cavaquista. Quanto à "má moeda" estará esquecida lá no fundo da algibeira, à espera de melhores dias para voltar à circulação.

É nisto que o meu povo crê.
É disto que desconfio com quantos dentes tenho ainda na boca.

Afinal, a eleição do presidente não me tirou o sono. Antes pelo contrário. Fico satisfeito.
Ao que parece dormirei descansado até ao fim dos dias que me restam.
Até ao derradeiro sono.

Baril.

domingo, janeiro 22, 2006

O ano do Burro


Não há espaço para o burro no calendário chinês. Ao que tudo indica este será um exclusivo do povo português.

As projecções para resultados das eleições presidenciais que começam a chegar apontam a forte probabilidade de termos Cavaco como supremo magistrado da nação.

Fica provado que um povo se vê reflectido no espelho eleitoral de forma implacável. Perguntava a Bruxa Má se haveria alguém mais bela do que ela. O povo português perguntará se há algum povo mais burro do que ele. Vale-nos o espelho ser mudo.

Cavaco será eleito, ao que tudo indica, por ser capaz de não ter uma ideia que seja ou, admitindo que há mais do que um Tico e um Teco entre a sua população de neurónios, ser capaz de evitar mostrá-las a quem tenha a infinita paciência de o ouvir.

A repetição até à náusea de lugares-comuns e frases balofas deu frutos. Cavaco é incapaz de articular um discurso coerente de forma livre e espontânea. O povo adora-o. Cavaco não lê um livro, não vê um filme, não vai ao teatro, o povo está ao lado dele. O povo revê-se nele!

É triste fazer parte deste povo e, em dias como este, é mesmo embaraçoso. Como poderei amanhã olhar para o espelho sem pensar na tal pergunta? Espelho, fica calado e evitas-me 7 anos de azar (bem bastam os próximos 5).

Ao que tudo indica começa hoje o Ano do Burro.

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Limpeza

"Empresa de limpeza que destruiu escultura chegou a acordo com artista"!!!
Este título, de uma notícia do Público de 5ª feira, 19 de Novembro, não passava despercebido.
A coisa acontecera em Dezembro de 2004 durante uma exposição de arte contemporânea no Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz.

Uma peça da autoria de um tal Jimmie Durham intitulada As Frases foi então terrívelmente mutilada por uma... empregada de limpeza! A dita peça consistia num lavatório artísticamente partido com os fragmentos do estilhaço cuidadosamente espalhados pelo chão. A senhora da vassoura cumpriu a sua função e levou os pedaços quebrados para o lugar que lhe pareceu mais apropriado. Caixote do lixo com eles!

Nada de mais, bem vistas as coisas! O caso foi notícia em vários media já que se tratava de uma boa anedota, colocando a arte contemporânea no devido lugar. O senso comum triunfava sobre o dragão da "intelectualite". Sorriso largo na cara da populaça.

A coisa ficaria assim mesmo se não houvesse um seguro, como é normal nestas situações. O mais curioso é que a empresa de seguros (a notícia não diz qual) considerou que a responsabilidade não poderia ser atribuída à sua cliente, a FigueiraLimpe, apesar desta assumir que tinha sido culpada.

Aqui reside o principal motivo de reflexão nesta historieta.
Quem será então o culpado, no entender da seguradora? Talvez o artista, por se atrever a apresentar tão estapafúrdia obra de arte! Não é espantoso?

Valeu à Estética a administração da FigueiraLimpe que, a despeito da atitude da seguradora, resolveu proporcionar a Jimmie Durham a possibilidade de reconstruir As Frases financiando o artista nessa acção.

Já estou a ver um lavatório novo a chegar a casa do artista, prontinho a ser martelado.

Quanto à seguradora, só espero que não seja a minha.

terça-feira, janeiro 17, 2006

Tolera...



... se fores capaz.
Tolera o monga que está a fazer-te perder a paciência.
Tolera a chuva.
Tolera a comichão enquanto aquela tal pessoa fala contigo. Coçar as partes nesta ocasião não seria o gesto mais elegante.
Tolera a fome, tolera a gula, tolera os chapéus foleiros e os elefante fedorentos.
Tolera a jaula onde se escondem os grilos e a gritaria dos vizinhos.
Tolera o roxo e as mãos encarquilhadas pelo banho.
Tolera tudo o que fores capaz de tolerar já que, não tarda nada, vais rebentar como uma bomba e, o mais incómodo, é que a coisa vai saber-te bem!

O mais complicado de tudo é saberes que não poderás nunca perceber o mundo como o monga (o gajo está mesmo a fazer-te perder a puta da paciência!) porque não estás dentro dele. Os olhos dele verão o mesmo que os teus vêem? O roxo que te irrita será assim tão roxo para ele? E a gritaria? Talvez a ouça com tonalidades musicais ou nem sequer se aperceba já que está entretido a foder-te o juízo.

Tolera o que fores capaz de tolerar mas não te deixes enganar.
Talvez seja a única coisa que não valha a pena... tolerar.

Thomas Hirschhorn

Tem um nome impossível, com dois "HH" consecutivos.
É um artista de ascendência suiça com trabalho à vista no Museu de Serralves.

Aquilo é uma coisa difícil de tragar. Trata-se de uma exposição antológica.
Salas e salas repletas de lixo e frases escritas à mão em folhas de papel ou tarjas de pano, tudo com muita fita cola castanha, com um aspecto miserando.

Não é nada bonito, não senhora, é horrível!
No entanto...

O espectador é colocado perante o grande dilema de ver ou olhar. É ele (somos nós) quem tem de decidir sobre a validade da coisa. Não há escapatória possível.

É uma arte... punk?
Talvez, talvez.

A ver.

Suspeita

Portugal tem um grave problema de desenvolvimento.

Fala-se por aí que devíamos pôr os olhos na Finlândia, aprender com a Irlanda ou copiar o modelo Chinamarquês mas, qual quê! Nada parece valer-nos, nem a Virgem Maria, outrora uma poderosa aliada que parece andar arredia de tal modo nos temos visto privados de milagres.

Onde estará a raíz do problema?

Estou em crer que, lá no fundo, o nosso maior problema são os portugueses.

Oxalá esteja enganado.
Dia 22 de Janeiro vou poder confirmar (ou não) esta dolorosa suspeita.

terça-feira, janeiro 10, 2006

Elites

Andamos a abusar da palavra.
Elite significa o que há de melhor numa sociedade ou num grupo.

Quando falamos nas elites que nos governam das duas uma: ou são os gajos mais capazes que estão à frente dos destinos da nação ou, dos que estão dispostos a cumprir essa função, estes são a fina flor. Mauzito, não?

Se, por exemplo, o Jardim representa a elite governativa tamos conversados. Mais, se o Cavaco for eleito estaremos perante o vértice do ângulo mais agudo da pirâmide das elites portuguesas?

Convenhamos que o nosso país não fica grande coisa na fotografia.
Diz-me quem te governa, dir-te-ei que Democracia é a tua.

Ao leitor fica a responsabilidade da resposta.

terça-feira, dezembro 20, 2005

Veneno


Eles estão ali, no écran, e debatem, debatem, mas não me chegam a entusiasmar.
Esta pré-campanha promete uma longa seca de ideias e dispensava bem a campanha que se vai seguir.

Adivinha-se um massacre indecente às nossas inteligências nos tempos mais próximos. Se pudesse saltava já direitinho para o dia 22 de Janeiro e ia votar. Guardava apenas uns diazinhos que me vão encontrar longe daqui, sem as fronhas destes dois mais as dos outros a enfeitarem-me as manhãs, sem declarações bombásticas nem rasteiras no escuro.

Pelo que vejo o ogre Cavaco está poderoso no seu papel de cordeiro e o velho Soares mais fracote a fazer de lobo. Nem o velho morde nem o outro é suficientemente tenro para ser mordido.

Começo a acreditar piamente na hipótese de Sócrates ter ido buscar Soares ao remanso da reforma para o queimar no fogo lento desta secosa que agora começa a tomar contornos de coisa insuportável. O primeiro ministro prefere Cavaco como cara-metade e, não tendo cara-de-pau suficiente para o apoiar, desencantou à pressa este velhote com a chama a apagar-se nitidamente.

Sócrates encheu o copo de Soares com veneno. E o velho, convencido da sua superior inteligência, faz figura de palonço e vai bebendo, bebendo, até estoirar em desatino.

Tá mal!

domingo, dezembro 18, 2005

O deserto


Tenho andado a matutar nesta coisa da arte ser para todos ou nem por isso.

Se é preciso frequentar as belas-artes para não nos sentirmos como bovinos numa saleta em Serralves vou ali, já venho.

Afinal de contas de contas haverá algum fundo de verdade na percepção de Leonel Moura sobre a possibilidade uma arte sem artista, realizada pelos seus robôs pintores (na imagem uma observadora parece esmagada pela evidência do objecto de arte), ou aquilo é mais ou menos como a história das pulgas acrobatas?

O estucador é um artista? O marceneiro? O artista conceptual? Onde começa e onde acaba a fronteira desta coisa? Um retábulo na parede do museu é mais empolgante que um golo do Sporting no écran plano pendurado na parede da tasca da esquina? Ainda haverá quem se preocupe verdadeiramente com esta treta?

Desde que a arte deixou de se debruçar sobre narrativas comuns e se deixou cair no interior do artista, passando a "ilustrar" a sua interioridade, a sua interpretação particular, a sua percepção, a intuição, etc., começou a travessia do deserto. A arte perde-se demasiadas vezes no mais tenebroso deserto, o deserto das ideias e germina uma estranha floresta de poses mais ou menos fotogénicas.

Não sei se tudo começou no Romantismo, se no Simbolismo, não sei sequer se alguma vez começou ou se terá, até, acabado entretanto. O que sei é que, no deserto, a arte se transformou em algo menos claro, mais místico e críptico. No entanto as dúvidas permanecem.

Não foi sempre assim? Alguma vez a arte deixou de ser elitista? Alguma vez foi verdadeiramente popular? Quando? Em que época?
Alguma vez esteve fora do deserto?

segunda-feira, dezembro 12, 2005

Os debates entre os cãodidatos à presidência da república têm sido um sinal dos tempos. Na verdade não são debates, são outra coisa qualquer para a qual ainda não foi encontrada designação a preceito.

Os oponentes estão de ladecos um pró outro e só falam com os entrevistadores ou moderadores ou... enfim, com quem têm à frente, como é normal. Os contactos entre eles são em diferido e, caso pretendam olhar-se nos olhos, vêem-se obrigados a retorcer-se quais enguias na ponta do anzol.

Começa a chatear o pessoal que estejam sempre a dizer a mesma coisa, respondendo a questões circulares que rondam os mesmos temas com a única diferença de serem formuladas pelos pivots das várias estações que organizam os ditos debates.

Vão mudando as parelhas mas o discurso é mais ou menos o mesmo, como as rábulas dos palhaços nos circos de antigamente. O rico, branco, de lágrima pintada na bochecha e o pobre, de nariz vermelho e chapéuzito amarrotado. Mudavam os circos, mudavam os homens debaixo das figuras, mas as anedotas pouco variavam e pouca piada tinham. Ou então eram cómicas e era eu percebia mal o alcance da coisa!

A coisa resume-se ao embrulho. O conteúdo é dispensável. Anunciam-se os debates como se de combates de boxe se tratasse e aproveitam-se os intervalos para publicitar prendas de natal e sabonetes.

Cavaco é o paradigma da coisa. Fala sem dizer nada o que, convenhamos, é feito considerável. Caso venha a ser eleito será a imagem reflexo dos eleitores. Vazio, inculto e com um penteado que mete medo.

domingo, dezembro 04, 2005

Santidade


Não deixa de ser intrigante.
Como podem os milagres acontecer sem que saibamos ou tenhamos notícia?
Então não é que o defunto João Paulo II curou milagrosamente uma mulher (não sei onde, nem isso interessa) pelo que vai ser canonizado não tarda nada? Sinceramente nunca tinha ouvido qualquer referência a tão extraordinário acontecimento até ter lido uma discreta notícia no Público há um ou dois dias atrás.

Já suspeitava que a personagem tinha boas relações com o Além desde que garantiu ter visto a Virgem Maria a desviar a bala com que um palonço qualquer o tentou matar antes do tempo. Presunção e água benta, cada toma a que quer, diz-se por aí.

Depois veio a pífia revelação do 3º segredo de Fátima onde, supostamente, a Virgem já tinha mostrado à pobre Lúcia uma cena tipo Holywood, série B, que metia o Papa a levar no toutiço e um anjo a regar almas com um regador que mictava sangue e outras patranhas do género. O texto do segredo, ainda por cima, tem um estilo a beira da 4ª classe (antiga).

Catellan apanhou bem a soberba deste futuro santo na sua escultura/instalação.
Para a posteridade fica a imagem de um homem que acreditava estar num lugar especial entre os demais.

sábado, dezembro 03, 2005

Blogue, blogue, bloooogue.


Li algures que no século XIX, quando a imprensa surgiu em força e em forma houve um boom terrível e todos os que puderam ou tiveram o impulso, publicaram o seu jornalzinho, a sua página, o seu panfleto, foi uma festa!

Assim me quer parecer, acontece nos dias que correm com esta coisada dos blogues. É uma verdadeira pequena maravilha qualquer marmanjo poder verter no esquecimento do espaço virtual o que muito bem lhe passa pela santa cachimónia.

Da parte que me toca fui resistindo até mais não poder. Aqui vou deixando este palavreado sem qualquer feed back nem intenção especial que não seja isto mesmo. Tem o seu quê de adolescente e talvez seja esse o encanto irresistível.

Já quando apareceram as rádio piratas me envolvi numa das mais obscuras que emitia em Almada, talvez apenas para o prédio em que tinhamos montado o emissor. Era a Rádio Besouro e eu passava a semana a preparar um programa de uma hora que ninguém ouvia a não ser o locutor, mas isso era o que menos importava.

Este blogue tem o condão de me fazer escrever, uma actividade que muito prezo mas que me provoca ondas de preguiça que, normalmente, transformo em absolutamente nada.

Lembro-me de ter lido na introdução à colectânea de contos Cyberpunk, Mirroshades (Reflexos do Futuro na inqualificável tradução em português da colecção Argonauta, publicada em 1988) um entusiasmado Bruce Sterling considerar o poder incontrolável da fotocópia como uma arma potente da contra cultura Pop, uma forma de afirmação das culturas urbanas alternativas. Ganda Bruce, como estavas longe de imaginar esta cenaça que agora temos em mãos.

Será possível que estejamos perto de encontrar o Significado da Vida?
Será esse o nosso destino, verter tolices para o mundo virtual? Encher o planeta com palavras luminosas, cobrir o mundo de informação inútil?

Bah, quem se importa com isto? O que importa o que quer que

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Realismo/Naturalismo














Uma imagem para reflectir.

O autor é Mark Tansey e o título da obra "The Innocent Eye Test", óleo sobre tela de 1981.

Pessoalmente, quando olho esta imagem, só me apetece dizer... múúúúúú.