quinta-feira, fevereiro 12, 2026

IA, man

     Não será pela Inteligência Artificial que os nossos estudantes vão perder o interesse pelo conhecimento. Estou convencido que o que vai tolhendo os jovens espíritos é o excesso de informação. O acesso permanente a fontes de informação (ou a sua possibilidade) funciona como um anestésico da curiosidade. A IA apenas sintetiza, mastiga e regurgita informação que recolhe e processa a uma velocidade diabólica, não é nada de extraordinário em termos de produção de conhecimento, o que é surpreendente (e eventualmente viciante) é a velocidade com que a operação é executada.

    O problema, quanto a mim, é que a curiosidade intelectual está abananada com tanta informação a cruzar os horizontes do conhecimento em linhas rectas que se autodesenham a uma velocidade estonteante, criando uma teia que vai obliterando as nuvens, cujas formas convidam ao sonho e à imaginação. Estou a perder-me em metáforas complicadas quando aquilo que quero dizer é de uma simplicidade absoluta: a IA sufoca a curiosidade intelectual e tende a estupidificar os seus utilizadores. Cabe aos professores e à escola a função de manter a curiosidade intelectual viva e actuante, procurando estratagemas capazes de convencer os jovens a não vegetalizarem. 

    Se a IA for um meio e não um fim, teremos à nossa disposição mais uma ferramenta poderosa capaz de potenciar as nossas capacidades intelectuais. Se nos entregarmos à IA sem espírito crítico e sem curiosidade seremos a breve trecho uma imenso batatal, pasto fácil para qualquer glutão capitalista.

Mudança de tempo, mudança de vontade

     É um sufoco, uma luta, uma batalha, andamos todos à batatada pela supremacia de uma qualquer ideia que de súbito nos assalta a mioleira, vinda sabe Deus de onde. E grunhimos, rilhamos a dentuça, carregamos na sobrancelha, espetamos o dedo, levantamos a voz numa estridência digna de um tribuno romano; dos sisudos. Com a mão livre seguramos a toga.

    Eu tenho razão, o senhor é um estúpido, quando muito posso conceder que seja apenas imbecil. Os seus argumentos são merda de vaca e o seu discurso cacarejo de galinha. Simplesmente não tem capacidade para compreender os meros fundamentos daquilo que lhe digo; não passa de um ignorante, um pobre de espírito. Ao menos isso, talvez o facto de ser um simplório lhe possa abrir as portas do céu (as portas, que os portões só se abrem para almas de gente que tenha sido importante).

    É tão fácil imaginar insultos. Dizê-los na cara de um interlocutor não é tão imediato como registá-los anonimamente nas redes sociais ou nas caixas de comentários de publicações online. Mas, com algum treino, também se lá chega. Estaremos em vias de substituir a urbanidade pela grosseria, enquanto modo preferencial de contactar com o outro?

quarta-feira, fevereiro 11, 2026

Coisas do diabo

     Este mundo sempre foi pasto de aparências e mentiras. As ilusões sempre engordaram tendo por alimento a credulidade humana mas, temo bem, nunca incharam tanto como incham nos dias que correm e, tudo indica, incharão de forma descontrolada à medida que a Inteligência Artificial for crescendo e substituindo a outra inteligência: a nossa.

    Falta saber se este crescimento, esta ampliação, este incremento, esta medrança da mentira travestida, falta saber se esta coisa tem limite, se a mentira é como o sapo que fuma e, no fim, rebenta numa nuvem fedorenta.

    Já a Bíblia adverte para a capacidade de aliciamento que o diabo possui chegando mesmo Jesus a identificá-lo como "pai da mentira". Falta saber quem é a mãe que, cá na minha opinião, é a mente humana. Assim, a mentira resultaria de uma frenética fornicação do juízo humano por parte de um Lúcifer meio louco de ciúme por si próprio. Resumindo: a mentira surge sempre que o diabo nos fode o juízo. 

    Como se depreende, a mentira não precisa de um motivo mas pode ser premeditada, não precisa de um objectivo específico mas serve bem como arma de arremesso, enfim, a plasticidade da coisa é, de facto, algo com uma dimensão diabólica. 

    Esta pouco subtil reflexão dá a volta e regressa perto do ponto de partida: se a IA se alimenta da credulidade humana e serve tantas vezes ao inchaço da mentira, então a IA é (mais) uma invenção do diabo? Olha, boa pergunta! Responda quem sabe que eu não tenho nada a ver com isto. Talvez seja esta a tal Grande Substituição que certos palonços advogam, a substituição da Inteligência Humana pela artificial...

segunda-feira, fevereiro 09, 2026

Saudade da surdez

     Os miúdos no corredor gritam, grunhem, produzem sons guturais capazes de inquietar um porco. Empurram-se, lutam, correm, caem e voltam a levantar-se, tudo num torvelinho angustiante, uma inquietação sem razão nem paralelo. Que estranha força os move, que deus imbecil os anima e faz com que ajam como tolos de hospício?

    É chegada a hora de entrarem para a sala de aula e eles lá vão. Não os vejo, estou numa outra sala, sentado à secretária escrevo estas palavras no teclado de um computador. Deixo de os ouvir. Nestas ocasiões o silêncio é muitíssimo valorizado. Que sossego. Agora passo a ouvir o som da água que cai dos beirais misturada com a da chuva o que também pode ser muito irritante.

    Lamento não ter trazido comigo os auscultadores, a falta que neste momento me fazem.

    Não consigo recordar se esta sensibilidade à barulheira é recente ou é antiga. Talvez não me aperceba sempre dos sons circundantes, talvez a concentração da atenção em algum objecto (uma pintura que se pinta, um livro que se lê) me ajude a abstrair da chinfrineira. Talvez, nem sei! O que eu percebo é que tudo isto pode contribuir para destrambelhar uma pessoa.

 Nota - Ontem, ao final da tarde, noite entrada, fiquei razoavelmente feliz. O Tó Zé lá foi eleito.

domingo, fevereiro 08, 2026

Tó Zé

     Está feito. Fui votar mais uma vez na companhia da família mais próxima (ia escrever "chegada" mas hesitei e escrevi o que escrito fica). É já um hábito, uma espécie de ritual. Durante anos viajei para Viseu em dia de eleições para exercer o direito de voto na companhia dos meus pais, só pelo prazer de o fazer. Algumas vezes fiz os 300 quilómetros para lá e outros tantos para cá e votei em branco.

    Hoje há uma segunda volta tal como só havia acontecido em 1986. Nesse ano fui e vim e voltei a ir a Viseu para votar no Marocas. Tenho uma vaga memória de ter regressado a Lisboa na noite em que ele venceu o Freitas do Amaral (nem sei se é uma recordação genuína) e andar no meio de uma turbamulta  felicíssima por ter eleito o Bochechas para a Presidência da República. Não sei se esta memória feliz é verdadeira ou não mas quando a convoco sinto-me bem.

    Mais logo, quando os resultados do acto eleitoral deste dia forem conhecidos, espero ficar razoavelmente feliz. Eleger o Seguro não empolga ninguém. Nem a ele, estou em crer. 

quinta-feira, fevereiro 05, 2026

Fuga à banalidade

    Imaginou o que o dia lhe poderia ainda oferecer e não lhe pareceu que fosse grande coisa. Apesar de o sol romper com gentileza as nuvens pesadonas que lhe haviam ensombrado os dias anteriores, apesar de o vento ter amainado até ao ponto do adormecimento, apesar de as notícias matinais não augurarem nada de terrível nem apocalíptico, ele sentia-se meio vazio, muito mais que meio cheio. Alisou os cabelos que lhe restavam no topo da cabeça e pensou: "Não sou a porra de um copo!" e, de facto, não era a porra de um copo, ainda era um ser humano.

    Desceu as escadas sentindo dores no joelho esquerdo ("uma porra do caraças!"). O eco dos passos ora o perseguia ora se lhe adiantava. A banalidade absoluta de tudo o que o rodeava pareceu apertar-lhe a garganta mas foi no peito que sentiu uma angustiante falta de ar. Apoiou-se na parede, a palma da mão recolheu uma sensação de frio intenso. Não se lembrava de alguma vez na vida ter sentido tanto frio. As costelas pareciam atrofiar-se a uma velocidade alucinante o que o arrepiou de tal modo que imaginou ser um ouriço cacheiro com os espinhos a crescerem ao contrário. Nada daquilo lhe era familiar. 

    "Que porra me está a acontecer?"

    Cambaleante e aos tropeções desceu um lanço de escadas tacteando o espaço sem encontrar ponto de apoio ou referência alguma que lhe devolvesse um mínimo conforto, uma sombra de familiaridade. Caiu. Estranhamente não sentiu dor, aliás, a queda parecia não ter fim, parecia não ter chão, teve a sensação de cair para cima, em direcção ao céu e o coração a explodir. 

    "Que coisa extraordinária!"

quarta-feira, fevereiro 04, 2026

Dia de chuva

     A chuva cai, incessante, monótona, ameaçadora. A paisagem entristecida parece encolher-se sobre o ventre de modo a proteger-se da chuva que continua a cair. Os últimos dias têm sido angustiantes para muitos de nós, por causa da chuva, que cai e cai e cai e parece que nunca mais irá parar.

    Continua a chover.

    Há uma hora atrás, mais coisa menos coisa, a chuva abriu uma trégua, até o céu clareou ligeiramente! (Tenho a impressão de ter visto uma mulher a sorrir). Mas durou pouco, foi como se a chuva se tivesse esquecido momentaneamente de cair e, mal se apercebeu de que não cumpria a função para a qual Deus a criou, voltou a tombar sobre a terra, com peso de gotas bem constituídas. Sem vento a bater-lhe cai sobre nós em rectos tracejados.

    Chove, chove e continua.

    Há em tudo isto qualquer coisa de marcial. Talvez o ritmo, talvez as gotas perfiladas que caem ininterruptamente, talvez o aspecto inevitável que a realidade vai ganhando, como se não houvesse nada a fazer a não ser cumprir ordens superiores, como na tropa. E quem é o general da chuva!? Ah, pois é.

    Chove, chove, chove que Deus a dá.

domingo, fevereiro 01, 2026

Um sonho

     Sempre te digo que se tivermos de morrer morremos. Mas se isso não chegar a ser necessário voto para que continuemos por aqui, mesmo que seja só a meter nojo. Não interessa. A verdade é que não me sinto preparado para grandes surpresas e nunca se sabe o que pode acontecer depois de estarmos mortos. 

    A minha esperança, se queres que seja sincero a 100%, é que não aconteça nada. Que um gajo pife e depois... silêncio. Silêncio infinito. Nada! Talvez seja o melhor mas, nunca se sabe, não é verdade? 

    Esta noite sonhei com os meus pais e fiquei com a sensação de ter estado com eles, efectivamente. Estive sentado entre eles, calcei umas meias vermelhas com antiderrapante à minha mãe. Que me lembre ela nunca teve nada semelhante. Talvez agora tenha uma meias assim, talvez hoje as tenha calçadas, talvez eu lhas tenha calçado de facto. Isto está a perturbar-me um pouco.

    Vou para de escrever. 

sexta-feira, janeiro 30, 2026

Percepções

    Altura, largura e profundidade ajudam à definição de um objecto. Quando estou a pintar ou a desenhar confronto-me com outro conjunto de variáveis, nessas ocasiões as 3 dimensões passam a ser: volume, distância e movimento. São dimensões espaciais, que implicam a deslocação de objectos no espaço e o próprio espaço, dimensões menos mensuráveis, menos concretas, mais dificilmente representáveis. 

    Como normalmente não tenho de me preocupar com o rigor da representação posso bem inventar uma treta qualquer que tenha consistência suficiente e não pareça demasiado parva. Se bem que isto não seja treta, antes pelo contrário, eu sei que pode soar como tal.

    Feitas as contas, o que importa é a coerência interna do objecto plástico, importa que tudo faça sentido, que cada elemento ganhe o protagonismo que lhe cabe no conjunto e na medida exacta da minha sensibilidade. Ou da tua, caso acredites naquilo que fica registado aí atrás e no que vou escrever já a seguir. 

    A percepção da realidade, a percepção do espaço, das cores, das formas, dificilmente serão exactamente as mesmas de mim para ti e para o outro. Vivemos num espaço comum que percepcionamos e interpretamos de diferentes maneiras. "O mundo de cada um é os olhos que tem", citando Saramago. 

    Nem todos registamos as nossas impressões através da arte mas aí está ela para nos ajudar compreender um pouco melhor quem somos, o que somos, o que fazemos aqui. 

quinta-feira, janeiro 29, 2026

"Realidade"

     Um tipo esgueira-se para aqui, a contemplar o Tempo pelo lado de fora da vidraça. As cenas desenrolam-se com as personagens enquadradas na totalidade, nunca falta um braço, nem falta uma perna, nunca uma personagem surge em plano americano, esse plano que nos corta as pernas.

    Há muitas imagens, recordações aparentemente distintas mas um tipo repara que certos gestos se repetem. Não há som ambiente, tudo é amalgamado pelo som que te entra directinho nos ouvidos, uma torrente de música sincopada em altos berros. É assim que recordas o passado, É assim que perspectivas o futuro.

    Um tipo não consegue manter-se deste lado durante muito tempo. Chega sempre o momento em que tem de ir-se embora, regressar ao espaço que se convencionou designar por "realidade". 

quarta-feira, janeiro 28, 2026

Contacto

     Os robots de Inteligência Artificial (ou "com" IA?) personificam (ahahahah) o burocrata perfeito. Ao burocrata de carne e osso ainda podemos tentar seduzir, podemos apelar a uma réstia de humanidade que possa animá-lo a espaços, enfim, imaginamos que aquela pessoa trombuda e aparentemente inacessível possa, apesar de tudo, ser uma pessoa. E tentamos a nossa sorte. Com um robot o caso muda de figura.

    O robot é, de facto, indiferente aos nossos esgares e aos nossos suspiros, é absolutamente insensível. Não tem nem compreende emoções, é estúpido e obstinado como só uma coisa pode ser: obstinado como uma pedra ou como uma porta ou como um martelo. Com um robot não temos a mínima hipótese: se ele decide banir-nos, estamos banidos, se ele decide que somos merecedores de castigo, estamos castigados. Nada a fazer.

    Quando ele nos responde com aparentes bons modos e correcção absoluta é preciso ver que está apenas a macaquear os bons modos e a correcção absoluta que absorve da informação que flutua na rede e que ele sintetiza em milionésimos de segundo: "bom dia" ou "obrigado" dito ou escrito por um robot tem a consistência de uma nuvem e a sinceridade de uma bosta de vaca.

sexta-feira, janeiro 23, 2026

Adeus

     Sim, pois é. Já me tinhas dito. Olha, se por acaso não tiveres tempo avisa. Pode ser que vá lá eu. Se não der também não há problema, a coisa fica mesmo assim e ninguém se chateia que não é caso para tanto. 

    Quem, eu!? Deves estar a brincar comigo. Ainda tu não tinhas largado a fralda e já eu lá ia quase todos os dias. Ai não acreditas, está bem, problema teu. Isto não é uma questão de Fé, por isso... está bem abelha!

    E pronto, vou andando que já são horas. O jantar não se faz sozinho, não é verdade? E também precisa de alguém que o coma. Ahahah. Até amanhã, ó palhaço. Cumprimentos à tua mãe que mando eu. 

    Adeus.

quinta-feira, janeiro 22, 2026

O Apocalipse dos Passarinhos

     "A escuridão era total, apenas se viam as estrelas e se ouviam passarinhos. Julguei que era o Apocalipse." Foi deste modo que a minha aluna Geovanna descreveu, na aula, a sua experiência pessoal durante o Apagão que deixou a Península Ibérica às escuras aqui há uns meses (não consigo recordar quando foi exactamente).

    A ideia é engraçada, ficámos a pensar no Apocalipse dos Passarinhos. 

Sonhar que sonho

     A realidade parece capaz de abafar os sonhos que pretendo sonhar. Talvez os sonhos não sejam dóceis ao ponto de se deixarem sonhar quando assim o desejamos. Talvez a realidade seja, afinal, um sonho disfarçado de outra coisa. Talvez me sonhe a mim próprio. Posso ser uma anémona, um colibri ou outra merda qualquer e não ser capaz de perceber que sonhos posso ter por ser uma coisa dessas. Talvez eu não saiba o que sou, quanto mais saber quem sou!

    Um barquito de papel vai rua abaixo, levado no rio temporário que a tempestade gerou entre o asfalto e a berma do passeio. Não chegará ao fim do caminho que agora parece percorrer. Ou porque se desfaz antes de lá chegar ou porque se lhe acaba o rio. Este barquito tem futuro curto.

sexta-feira, janeiro 16, 2026

Domingo que vem

     No próximo Domingo iremos votar para a eleição do Presidente da República Portuguesa, o nosso muito querido e eventualmente muito amado PRP, sigla que no Processo Revolucionário Em Curso, o célebre PREC do pós-25 de Abril, significava Partido Revolucionário do Proletariado (a que se juntava um "BR" de Brigadas Revolucionárias).

    Desta vez há mais candidatos do que tem sido habitual e, ainda por cima, fazendo fé nas sondagens, há 5 deles com capacidade para alcançarem uma segunda volta que, tudo indica, é absolutamente inevitável. Uma espécie de extravagância que só aconteceu uma vez, em 1986, quando Mário Soares descobriu que era fixe.

    Portugal corre o risco de vir a ter um presidente de direita em convivência com um Parlamento por ela dominado em maioria. Se esse presidente direitista vier a sentar o "sim senhor" no cadeirão, é provável que a facharia sinta peito feito para propor e levar por diante uma revisão constitucional capaz de pôr os palonços que os elegeram a pensar que, se calhar, não terá sido lá muito boa ideia.

    Pessoalmente tenho vindo a tentar convencer-me de que o meu voto poderá ser importante. Eventualmente será importante mas convicto... dificilmente será convicto. 

terça-feira, janeiro 13, 2026

Aniversário

     Hoje completo 63 anos de vida. Umas vezes parece-me muito, outras pouco, não consigo decidir se estou a ficar velho ou antes pelo contrário. Noto que venho reparando cada vez mais na idade com que faleceram as personagens históricas. A minha filha ofereceu-me um livro com ilustrações de William Blake para A Divina Comédia. Ao ler o texto introdutório lá dei por mim a fazer contas de modo a calcular com que idade morreram um e outro, Dante e Blake. Logo após as contas feitas raciocino, tento comparar as épocas em que viveram com a actual, qual seria a esperança de vida razoável e concluo que, a haver reformas, estas teriam acontecido aos meus heróis muito mais cedo do que aquilo que me está prometido. Sei que nada disto tem a mínima utilidade ou validade, sei que isto não é nada mas faço o exercício apenas porque posso fazê-lo e ninguém me irá chamar a atenção para o vazio em que tento manter-me a pairar.

    Além dos familiares mais próximos, que vão sendo cada vez menos pois os falecimentos vão-se sucedendo a um ritmo mais ou menos constante, ninguém me dá os parabéns nem eu falo do assunto. Ainda hoje, absolutamente por acaso, veio à baila durante a aula a questão dos signos do Zodíaco. Concluímos que na turma não há ninguém que seja "peixes" e algum  miúdo me perguntou qual é o meu signo ao que respondi "isso é demasiado pessoal" e ri-me. Ri-me, sobretudo, por ser o dia do meu aniversário e por estarmos a falar de um assunto acerca do qual nunca falamos.

    Já as minhas caixas de email ficam razoavelmente cheias de mensagens fofinhas que me são enviadas  pela direcção da escola, pelas editoras de livros escolares, pelos Centros de Formação, pelas instituições bancárias, pelas companhias de seguros, todos os que, de uma forma ou de outra, têm conhecimento da data do meu aniversário e não se acanham na hora de chatear. São robots, não sabem o que fazem. Talvez isso lhes garanta uns quantos lugarzinhos no Céu.

segunda-feira, janeiro 12, 2026

Inteligências

     A Inteligência Artificial é algo assustadora. A frieza impessoal com que trata de nós e dos nossos assuntos contrasta violentamente com a sua boa educação no modo como nos aborda. Nisso é semelhante a muitos seres humanos: sorriso pronto, fórmulas de abordagem correctíssimas, mel na língua, muita sonsice e, feitas as contas, uma filha-da-putice absoluta, sociopatia ou, pelo menos, indiferença para com a sorte do próximo. 

    Fico a pensar se a Inteligência Humana (vi-me obrigado a utilizar maiúsculas) terá também esta característica, se a empatia e a solidariedade serão empecilhos a um raciocínio objectivo e eficaz. Fico a pensar se seremos melhor governados por máquinas que por seres humanos.

    Estou com fome, sinto um vazio no estômago. Resolvo interromper o raciocínio e comer qualquer coisa. Talvez a mastigação me ajude a chegar a alguma conclusão diferente daquela que começa a insinuar-se dentro da minha cabeça. 

domingo, janeiro 11, 2026

Robots

     Lidar com robots não é coisa fácil. Como eles não pensam, ou pensam que pensam mas não pensam, torna-se impossível o estabelecimento de uma conversa nos moldes a que estamos habituados. Assim sendo, somos obrigados a descobrir uma outra forma de raciocínio, adaptável à ausência de sensibilidade humana com que deparamos no nosso interlocutor. Não é bem como falar com uma porta ou com uma parede mas não andará assim tão longe quanto isso.

    Não deixa de ser curioso que, uma das primeiras coisas que o robot nos pede quando iniciamos uma conversa seja que provemos que não somos um robot, tal qual ele é (ou imagina ser, não tenho a certeza que uma entidade virtual possa ser considerada como existente). Isso sugere que o robot sabe que falar com um robot é uma coisa um bocado parva e, de forma razoavelmente inteligente, recusa-se a fazê-lo. Então mostra uma imagem dividida em quadrículas e pede coisas imbecis como "indique todos os quadrados que mostram um motociclo" ou outra parvoíce equivalente. O robot não terá consciência de que aquilo que nos pede é um tanto humilhante ou, se tem consciência disso, mostra uma grande capacidade para rebaixar o Ser Humano. O que é preocupante.

    Pessoalmente, não tenho grande paciência para robots. Quando alguma dessas maquinetas me atende o telefone desligo imediatamente. Aquela coisa de clicar numa tecla ou outra, tendo em conta o assunto que pretendemos abordar, leva-me demasiadas vezes ao desespero. Não tenho a certeza mas há qualquer coisa de mesquinho ou vingativo na forma como os robots lidam connosco.

quinta-feira, janeiro 08, 2026

O assalto

     Tive recentemente uma experiência muito desagradável. Abri a minha página no Facebook e estava calmamente a ler e a responder a "coisas", banalidades que todos fazemos quando navegamos naquela rede social, quando algo de muito estranho aconteceu. De súbito começaram a surgir imagens e vídeos de pornografia infantil e/ou de tortura e violência extrema. Tentei apagar, bloquear, eu sei lá o que tentei fazer. Nada resultava. Quando parecia que tinha controlado a coisa, acontecia tudo outra vez. Até que recebi uma mensagem da Meta (acho eu) a informar-me que estava a publicar coisas estranhas que desrespeitavam as regras da plataforma e que a minha página iria ser suspensa para averiguações. Entretanto ofereciam-me simpaticamente ajuda psicológica pois uma pessoa que publica aquelas coisas decerto padece de alguma doença. Grave.

    Por um lado fiquei aliviado por aquilo parar mas, por outro lado, senti-me um pouco angustiado. Primeiro, vi coisas naqueles vídeos que nunca antes tinha visto e que me deixaram profundamente nauseado; segundo, alguém, algures estaria a pensar que eu era capaz de consumir aquele tipo de material abjecto? Mesmo que esse alguém não fizesse a mínima ideia sobre quem eu sou a situação deixava-me desconfortável. Muito desconfortável, mesmo.

    Recebi uma mensagem da Meta dizendo que a minha página decerto havia sido assaltada e iriam permitir que eu recuperasse a dita cuja. Achei bem e achei simpático. Ainda não tinha começado a tentar seguir os passos que me eram indicados e já recebia segunda mensagem de email informando que a minha conta havia sido encerrada definitivamente. Pensei que haveria ali algum erro e tentei cumprir as indicações da 1ª mensagem mas... nada a fazer. A minha conta foi à vida, definitivamente.

    Quando me aconteceu, imagino que isto deva ter acontecido a mais umas centenas ou mesmo milhares de páginas por esse mundo fora. Não sei, não faço ideia. Seja como for, o acontecimento indispôs-me um pouco e fiquei com uma estranha sensação de ter visto a minha intimidade ser violada com uma desfaçatez que não imaginava ser possível.

    Entretanto abri uma nova página. Após 15 ou 16 anos com a outra acumulara centenas de "amigos" que desapareceram  de um momento para o outro e estou a recuperar contactos. A verdade é que, ao fim de dois dias, ainda só tenho 37 amigos confirmados. Conheço-os a todos pessoalmente. Reparei noutro pormenor: todos os amigos que faleceram ao longo destes anos e que continuavam na minha lista desapareceram finalmente. Receber os avisos dos seus aniversários era algo que costumava deixar-me um tanto tristee angustiado.

sábado, janeiro 03, 2026

AGA (America Great Again)

     Se é isto a grandeza da América bem podem metê-la no cu. E ainda lhes sobra espaço.

Outra vez veneno

     

foto tirada numa rua de Atenas, próxima da praça de Omonia 

    Tinha várias ideias razoavelmente fofinhas para um ou outro post. Coisas pouco angulosas, visões fugazes, sombras esquecidas, sensações registadas em pleno vôo; cenas mais ou menos assim, em forma de quase nada. Mas eis senão quando, esta manhã, ao ligar o telemóvel para espreitar as "gordas" das notícias, dou de trombas com a invasão da Venezuela pelas tropas do costume.

    Desde essa hora há uma frase que não me sai da cabeça: seja qual for o ângulo sob o qual olho para esta merda, vejo sempre o mesmo cagalhão. Assim mesmo, com toda esta elegância que a situação não merece menos. 

sexta-feira, janeiro 02, 2026

O Deus do mar

     Começo 2026 a recordar algo que aconteceu muito recentemente, no ano passado. Eu e a Ana íamos iniciar uma viagem com Atenas por destino. Comprei um livro, "O Louco de Deus no Fim do Mundo" de Javier Cercas, para ler no avião e lá pela Grécia. Mas pus-me a olhar para o volume de quatrocentas e tal páginas e pensei "isto é pesado, ocupa muito espaço, vou procurar um livrinho para levar". Assim fiz.

    Subi ao sótão, subi à escadinha que encosta às prateleiras e fiquei com o nariz ao nível de uma fileira de livros de Jorge Luís Borges. Esbeltos, pequeninos, livros perfeitos para ler em viagem tal como já havia feito anteriormente. Peguei em Atlas, um volumezinho que não me lembrava de ter lido. O livro tinha uma marca. Abri-o. No topo da página o título do texto: O templo de Poseidon. 

    Caraças! Mais uma daquelas coincidências que podem deixar um gajo confuso e a acreditar que alguma força, poderosa e extraterrestre, está a estabelecer contacto, a enviar sinais evidentes de que um gajo não está só no Universo. Fechei o livro e, como é evidente, foi o que levei comigo. Li-o (ou tê-lo-ei relido?) na viagem de regresso.

    Entre uma coisa e outra visitámos o referido templo. Estava um frio de rachar! 

    Bom Ano Novo.