quarta-feira, dezembro 31, 2025

Amanhã

     O ano de 2025 tropeça e cambaleia em direcção ao seu fim. Envelhecido. desiludido, enganado por tudo e por todos, vê incumpridas todas as promessas que fez e lhe foram feitas. O logro do costume. Mais logo haverá um Novo Ano e a euforia irá invadir corações e empolgar espíritos; novas promessas serão juradas, abraços, beijos e foguetório. O Futuro resume-se a um ritual vazio de conteúdo.

    Amanhã será tudo aparentemente novo. Por um ou dois dias ainda iremos acreditar que uma data no calendário transporta consigo poderes mágicos e capacidades transformadoras mas, dentro de uma semana, mais um ou dois meses, já teremos esquecido tudo, de tal modo voltámos a mergulhar na espuma dos dias.

    Poderias perguntar-me: mas isso é bom ou é mau? A minha resposta não seria satisfatória pois nada disto faz sentido por aí além. Talvez tudo seja apenas um sonho. Talvez acordes antes de bater a meia-noite.

quarta-feira, dezembro 24, 2025

É Natal

     São como enxames de mosquitos numa zona pútrida: são aquelas mensagens de Natal e Boas Festas que te enviam lojas, comerciantes e várias instituições que, por vezes, desconheces em absoluto. Querem continuar contigo porque se preocupam, querem oferecer-te alguma coisa excepcional e irrecusável porque te amam, enchem-te as caixas de correspondência com frases feitas e imagens repugnantes que escorrem falsidade por todos os lados.

    Apagas sem ler, afastas aquelas coisas incómodas com enfado mas, algum tempo depois, lá estão outra vez. Podem ser de outras lojas, de outros amigos fictícios, mas são sempre a mesma ranhosice. Não queres aquilo, não conheces aquelas coisas mas elas não te deixam em paz; são mensagens após mensagens após mensagens, demasiado personalizadas, abusivas, como se houvesse algum grau de intimidade, algum segredo entre ti e o fantasma digital que te envia aquela merda.

    É Natal. Todos os que imaginam poder vir a tirar algum tipo de proveito de uma relação que não existe te declaram amor e interesse, te prometem mundos e fundos e ficam à espera não sabes bem de quê. Não fosse a tua família e isto poderia ser o início de uma grande desgraça.

domingo, dezembro 21, 2025

Perguntas

     Tenho a impressão que já anteriormente escrevi o que vou agora escrever: os textos deste blogue são como mensagens deitadas ao mar em garrafas à espera que as encontres e tenhas curiosidade de ler o que vai lá dentro. Ok, mas qual o interesse que poderás ter em semelhante leitura e qual o meu objectivo em pretender esperançadamente que o faças? Há perguntas que mais vale não colocar.  

    Com os meus desenhos e pinturas passa-se mais ou menos a mesma coisa ou, pelo menos, algo muito semelhante. Vou produzindo obras a um ritmo elevado se bem que não a um ritmo constante. Serão dezenas por anos (chegarei à centena, ultrapasso esse número?). Em 99% dos casos trabalho sobre papel pois não tenho atelier ou armazém que suporte tanta produção noutro tipo de superfície. Pinto, desenho e... vai para o monte, para a pasta, é tudo devidamente organizado e arrumado ficando ali, em suspensão, à espera, como animal selvagem escondido na selva. Para quê? Porquê? Há perguntas que são escusadas.

    Uma página no Facebook e outro blogue acabam por servir de repositórios para grande parte das coisas que vou produzindo. Escrevo, desenho, pinto, vou deixando os resultados por aí como o Polegarzinho deixou um rasto de migalhas no chão da floresta para não perder a noção do caminho para casa. Haverá pássaros que devorem os meus sinais e me façam, um dia, perder por completo? Há perguntas simplesmente estúpidas.

    Enfim... acho que vou começar uma nova pintura e não vou colocar qualquer questão sobre este impulso. 

quarta-feira, dezembro 17, 2025

Gostar ou não gostar

     Gostava muito de ser capaz de organizar ideias suficientes que me permitissem trabalhar o mesmo texto ao longo de dias, semanas, meses, anos, quem sabe? Gostava muito de ser um escritor capaz de ir além de meia-dúzia de linhas emaranhadas em ideias confusas. Quem sabe?

    Por vezes uma ideia aparece-me de repente, assim como imagino que o anjo tenha aparecido à Virgem, puf! Materializa-se uma coisa que no milésimo de segundo anterior era como se não existisse. Ainda eu não pude percebê-la, ainda o pó provocado pela materialização não assentou, e já a ideia referida se escapule por entre as pernas das mesas e das cadeiras, deslocando-se rente ao chão com uma velocidade que, embora me deixe seguir a forma não me permite vislumbrar muito mais do que um vulto. O coelho da Alice? O Beep-beep? O Alien bebé do 8º passageiro?

    Gostava muito de conseguir focar a minha atenção por mais de 5 minutos e 5 linhas quando tento explanar algo ou alguma coisa através da escrita. Gostava de não me comportar como uma criança numa loja de brinquedos imaginários... não gostava nada.

domingo, dezembro 14, 2025

Os merceeiros do Apocalipse

     Empolgados no segredo dos seus sonhos pelo mito do Paraíso descrito nos livros sagrados, alguns dos nossos antepassados recentes, sobreviventes dos horrores da Segunda Guerra, quiseram construir o Jardim aqui na Terra. Foi assim que começou a construção daquilo a que hoje chamamos União Europeia.

    A sensação de justiça e segurança social atrai para este sonho gentes de todas as latitudes. Eles vêm de países ricos, de países pobres, de países assim-assim, seduzidos pelo sonho cristão quase tornado realidade. Milhões de não-cristãos, convertidos ao ideal das Escrituras sem disso se darem conta. Apesar de continuarem a frequentar as suas mesquitas e sinagogas, os cativados imigrantes vão-se transformando numa outra coisa. De tal modo que os filhos dos seus netos não terão memória de quem foram.

    Eis que o terrível mito do anti-Cristo vai ganhando corpo mas, inesperadamente, não é um ser terrível, não são 4 cavaleiros, são merceeiros do Apocalipse, comandados por um tonto imbecil. Um velho gordo e narcisista, com um penteado impossível para disfarçar a careca, como se a estupidez e a ganância pudessem esconder-se numa caverna sustentada a laca.

    Compreendemos agora como as narrativas épicas do passado e a grandeza dos heróis que erigiram este mundo pode ter sido exagerada e orientada pelos próprios. Na verdade, sempre tivemos o destino traçado apesar de isso ser uma impossibilidade cósmica.

     

sexta-feira, dezembro 12, 2025

Permanecente

     Sinto a tentação de me fechar ao mundo como se fosse uma espécie de berbigão monstruoso. Fechar-me, vedar a frincha com indiferença pegajosa e deixar-me estar, isolado, a olhar o escuro com os olhos abertos como se estivessem fechados. Ficar assim, muito quieto, sem nada para fazer, sem fazer nada.     

    Na escuridão absoluta em que agora me encontro tento reflectir sobre quem sou, o que faço aqui, de onde venho, para onde vou, essas coisas básicas sem as quais dificilmente somos alguém ou, sequer, alguma coisa. Mas no escuro nada se reflecte, tudo é a mais profunda sombra. No escuro dificilmente sou.

    Começo a arrepender-me de ter desejado tal enormidade. Decido não ceder à tentação. Continuo aqui, a luz do sol a derramar-se sobre a minha alma; exposto à merda e à mentira, tento equilibrar o corpo sobre as pernas, tento manter alguma dignidade humana. Continuo aqui, a ser o que consigo ser ainda que não saiba bem o que isso é. Permaneço, apesar de tudo, permaneço.

segunda-feira, dezembro 08, 2025

Loucura e culpa (2)

     Leio entrevistas, ouço doutores a reflectir sobre a questão e mais comentadores do que os necessários tentando encher minutos de programação com palratório incessante sobre as razões que estão na origem deste movimento aparentemente imparável que é o que vem corroendo e destruindo a Democracia e o Estado Social na Europa. Citam-se autores, académicos, estudiosos, analisam-se tabelas, folhas de excel e sondagens, reflecte-se muito longamente para produzir informação que, caso pudesse ser colocada numa balança, decerto corresponderia a muitas toneladas de coisa nenhuma.

    Fala-se, fala-se, fala-se e os nazi/fascistas avançam inexoravelmente, conquistando as mentes dos jovens, um mistério inexplicável que talvez tenha explicação. É que os analistas ou são demasiado eruditos e não conhecem a baixa cultura popular, a versão actualizada da Pop Art, ou são demasiado burros e centrados em si próprios, o que os torna incapazes de verem o que está ali mesmo à frente das respectivas nariguetas. 

(continua mais uma ou duas vezes, talvez três) 

sábado, dezembro 06, 2025

Sinopse revelada

    O Último Reich


    O Último Reich resulta de uma adaptação de Terror e Miséria no III Reich, a peça de Bertolt Brecht, que levamos à cena em 2026, setenta anos após a morte do dramaturgo alemão. A estrutura da nossa adaptação é semelhante à do texto integral: uma sequência de cenas e situações independentes umas das outras que têm como pano de fundo um contexto unificador.      

    Reflectimos sobre a banalidade do mal, sobre nações e impérios que assentam alicerces nas vidas de pessoas comuns, sobre formas de sobreviver à estupidez e manter a sanidade, sobre coisas insignificantes que ganham contornos improváveis, o Efeito Borboleta a soprar nos ventos da História. 
 

    Rui Silvares 
    Almada, 4 de Dezembro de 2025

quinta-feira, dezembro 04, 2025

À procura da sinopse escondida

    Reflecte-se sobre o facto de a História não ser inevitável, sobre o facto de o Destino ser um mito, sobre não existir nenhuma pele humana sobre a qual uma qualquer Entidade tenha escrito a sangue a narração das vidas de cada indivíduo que calca o planeta. 

    Reflecte-se sobre o princípio de que as coisas acontecem como resultado de acções humanas que podem orientar-se neste ou naquele sentido, conforme as vontades, individuais ou congregadas, dos que constroem as grandes narrativas que servem de guias à nossa sociedade. Deus não tem nada a ver com isto.

    Reflecte-se sobre a ideia de que as grandes nações e os impérios poderosos assentam os seus alicerces sobre a força e o ímpeto de pessoas comuns. As coisas mais insignificantes podem ganhar contornos improváveis, é o Efeito Borboleta. Assim, uma nação obscura e em dificuldades pode renascer e transformar-se numa força avassaladora até que começa a perder a força do impulso inicial, abranda e, por fim, pára ao descobrir que os sonhos de glória acabam todos exactamente da mesma forma.

 

quarta-feira, dezembro 03, 2025

Loucura e culpa

     A culpa é dos políticos, dos partidos políticos, das suas políticas, dos jornalistas e do jornalismo, principalmente das redes sociais. A culpa é, sobretudo, das redes sociais e da maneira como a informação surge e se move nas redes sociais: no Tique Taque, no Instagram, no Facebook e por aí fora, todos canais possuídos por tenebrosos capitalistas, verdadeiros vampiros, autênticas personagens de Banda Desenhada, da categoria dos génios loucos ou dos simplesmente loucos, daqueles que, caso fossem pobres, seriam internados numa instituição qualquer e por lá esquecidos ou andariam a pedir esmola nas estações de metro e a comer ratazanas ao pequeno-almoço, génios com aquela loucura que os faz imaginarem-se capazes de dominar o mundo.

    A culpa da imparável ascensão de ideologias que repugnam pessoas da minha idade não é culpa fácil de atribuir. Aponta-se a Educação ou a falta dela, a aparente falência do sistema democrático, a incapacidade de distribuir a riqueza, a solidão de indivíduos que se fecham em suas casas e se vão transformando num híbrido, parte humano, parte vegetal, que vai perdendo a capacidade de sentir empatia, essa coisa já declarada horrível por Elon Musk, esse ser vivente que respira e tem a mioleira mais frita que uma batata belga. A culpa, desta vez, não pode ser atribuída ao macaco.

(continua)

domingo, novembro 30, 2025

Ubu, és tu?

    


    Ontem aconteceu o lançamento da minha versão de Rei Ubu, a obra-prima de Alfred Jarry, esse escritor tonto como uma barata. O facto de ter tido o trabalho de transformar a obra de Jarry em algo parecido com aquilo que ontem foi posto à venda, faz de mim quase tão tonto como Jarry, talvez um pouco menos pois até os tontos podem aprender qualquer coisa com o exemplo alheio. Diz-me os tontos que admiras, dir-te-ei que tonto és.

    A coisa deu-se no Salão das Carochas, ali em cima, em Almada Velha. O Zé Xavier Ezequiel, na sua qualidade de editor, apresentou a cena, o segundo livro editado pela Tordesilhas, uma editora ainda bebé. A sala estava bem composta e tive oportunidade de debitar umas quantas falsas banalidades. A Ana Nave também falou um bocadinho e depois a Josefina Correia e o Carlos Dias Antunes leram a primeira cena de Rei Ubu, as partes das personagens que eles próprios haviam interpretado em 2017, aquando da apresentação desta coisa em palco: a Josefina como Mãe Ubu, o Carlos como Pai/Rei Ubu.

    No fim assinei uns quantos exemplares, que o Ezequiel vendeu a quem os quis comprar, com uma caneta que a Ana Saltão me emprestou. Eu, que ando sempre com, pelo menos, uma caneta no bolso, esqueci-me de a(s) transportar comigo logo ontem, logo naquele dia. Tivemos ainda a possibilidade de beber umas garrafas de vinho e tasquinhar umas coisas secas (bem agradáveis). Enfim, foi uma espécie de festa. Até o meu irmão apareceu! 

sábado, novembro 29, 2025

Diferentes aspectos

     Olhava a mulher sentada de soslaio ou olhava de soslaio a mulher sentada? Não me recordo muito bem mas o seu aspecto não me deixou indiferente. Parecia ser um homem que se foi esquecendo da saudade a vida inteira e nem para tio ficou por não ter ninguém que se lembre dele, que saiba quem ele é, por não ter ninguém que o reconheça. O olhar dele não era amigável nem curioso nem desinteressado, apenas inquietante. Mais à frente uma rapariga com uma mala enorme estacionada ao seu lado auto-fotografava-se fazendo uma boquinha que dava ao seu rosto o aspecto de um rabo anguloso com um olho do cu protuberante.

domingo, novembro 23, 2025

Ser tolo não é fácil

     O Mundo é tão variado, há pessoas tão estranhas, tão extraordinárias, tão... tão... tão... pessoas! Oh, como poderei alguma vez dormir descansado sabendo as coisas espectaculares que vou perder de cada vez que fecho os olhos e desligo para aquela espécie de suspensão da vida, para o sono... para o sonho! Ah, o sonho. O Sonho! O sonho: fácil é sonhar todas as noites, difícil é lutar por um sonho. Forte. O sonho representa a realização de um desejo. Chiça. É preciso força para sonhar e perceber que a estrada vai além do que se vê. Ora toma! 

    Agora estou indeciso: devo dormir (e sonhar) ou ficar acordado (e ver o mundo)? Seja qual for a minha decisão estarei sempre disponível para a maravilha. A dormir ou acordado, prometo ser um guerreiro da Alma, um paladino do Coração! Ah, o Mundo, ah, o Sonho, ah, o caraças!

sábado, novembro 22, 2025

Ter ou não ter

     Tenho opinião! Sim, essa questão não me é completamente estranha e, pensando um bocadinho, tenho opinião. Talvez não seja a mais informada ou a mais avisada mas é uma opinião sincera, na minha cabeça é uma verdade verdadeira. Juro...

    "Quem mais jura é quem mais mente" diz o dito. Teremos de considerar isto como sendo produto de algum tipo de pensamento merecedor de crédito? Talvez não, talvez não seja coisa para levar a sério. Não sei bem, não tenho opinião. Nem quero saber. Quero que se lixe!

quinta-feira, novembro 20, 2025

Rotina matinal

     

    Estou a fazer uma pintura. Começou por ser uma imagem única à qual resolvi acrescentar outras duas, laterais, com as mesmas dimensões da primeira: 100X70cm. O título, "My Sweet Lord". No "painel" central há uma luz que irradia do  alto, sugerindo uma forma cónica ou triangular, luz essa que anuncia actividade divina que se desenrola fora do campo de visão do observador. O que se passa ali, no alto? Não sei, não estou a ver.

    Todas as manhãs olho e observo a pintura durante, pelo menos, meia hora. Tenho uma passadeira com um ângulo de visão aproximado ao desta foto e caminho uns quantos quilómetros a olhar o, agora, tríptico. Surpreendo-me sempre que exerço esta actividade, surpreende-me a forma como o tempo se expande enquanto caminho, olho e sonho. Passo tempo de qualidade comigo próprio.

    Estas caminhadas contemplativas têm qualidades transformadoras que não consigo explicar (nem carecem de explicação), basta-me usufruir da coisa. Todas as manhãs. O dia que segue corre bem.

domingo, novembro 16, 2025

Lutas, jogos e esquinas

     Uma das coisas que gosto de fazer é deixar comentários nas caixas do jornal Público online. A maior parte das vezes fico com a sensação de quem ninguém leu ou, pelo menos, deu atenção ao que opinei. Deixar aqueles comentários é como tegar paredes ou mijar nas esquinas à maneira de cães e gatos. E eu opino, eu cago, eu mijo. Porque posso. 

    Deixo aqui alguns desses comentários. Descontextualizados ganham dimensões porventura inesperadas:

    O texto sintetiza o problema com clareza. Temo que a luta entre os educadores e as máquinas esteja a ser perdida pelos seres humanos. Em breve assistiremos aos resultados dessa luta. 

    Ora aqui está um belo motivo de reflexão para aqueles que andam para aí a ronronar que não faz sentido falar em luta de classes. Faz lá agora! Isso de renomear os trabalhadores como "colaboradores" é uma das coisas mais patéticas que o capitalismo já ensaiou mas que vai fazendo o seu caminho sem problemas de maior nos meios de comunicação social que, como todos sabemos, estão ao serviço da esquerda. 

    Estranha situação em que todos parecem querer atingir o mesmo fim e nada de concreto acontece. No meio desta teia complicada alguém está a falhar ou a querer falhar. 

    Pronto, não é preciso ficarmos assim, foi só um jogo de futebol. Roí a unha do indicador direito à espera que o Félix fosse lavar o cabelo, não estava era a contar que o senhor do côco perdesse as estribeiras. Apesar de tudo, um gajo está sempre à espera de um rasgo individual de um golito, de um milagre, qualquer coisa só que hoje... nada. Nadinha. Népias. É assim mesmo. Amanhã estará tudo bem outra vez.

    E por aí abaixo, como uma cascata a bater nas rochas com vontade de as transformar em seixos, em areia, em nada. 

quinta-feira, novembro 13, 2025

Sonhar

     Sonho. Sonho com o passado, imagino futuros, o presente esgueira-se, desliza como uma enguia... talvez mais como moreia ou tubarão martelo. Foge-me com uma facilidade aterradora mas não me tira o sono; e eu sonho. Sempre que acordo sei que sonhei mas não consigo recordar nada, não recordo nadinha. Népias. São assim os meus sonhos: recordações absolutamente vazias, coisas que sei que aconteceram mas que não faço a mínima ideia de qual foi o seu aspecto. Não é doença mas também, sempre te digo, não contribui grandemente para melhorar a minha saúde. No entanto eu sonho.

segunda-feira, novembro 10, 2025

Sombras frias mais adiante

     A questão não é "se", a questão é "quando"? Quando acabará o "mundo" tal como o conhecemos. A nossa civilização é insustentável, o colapso acontecerá. Inevitavelmente. Posto isto, Deus não me parece assim tão grande.

    Todos os grunhos, todos os vilões, os ditadores, os exploradores, os maiores cabrões, todos perecerão lado a lado com os tótós, os bonzinhos, os torturados e os explorados. É tudo farinha do mesmo saco!

    Por vezes ponho-me a pensar no que fariam os habitantes de Pompeia no minuto anterior ao início da fatal erupção vulcânica. Grandiosidade, banalidade, alegria, tristeza, honestidade e roubalheira, tudo levado, tudo queimado, ultrajado e soterrado por toneladas de calhaus, cinza e lava ardente. Ainda hoje andamos a desenterrar memórias então perdidas. 

    A questão não é "se", a questão é "como". Como irá acontecer? 

sábado, novembro 08, 2025

Turbulência

     Eram apenas bonecos mas existiam no caderno, no mundo do caderno eram coisas reais. Os bonecos existiam realmente no interior do caderno embora estivessem limitados à página onde foram desenhados. Mas existiam. Os bonecos. Eram verdadeiros, dentro do caderno, existiam. Eram coisas reais.

quinta-feira, novembro 06, 2025

Construtor

     Olhar para trás pode causar um torcicolo. Quando tentamos recordar o passado estamos a arriscar um torcicolo na memória (ia escrever "na alma" mas mudei de ideias quando martelei as teclas). Talvez seja por isso que costumamos ajeitar as memórias à imagem que fazemos de nós próprios, pintamos um passado bem mais bonitinho do que ele terá sido. 

    Será que essa atitude auto-complacente altera, de facto, o  tempo que ficou para trás? Ou, se ficou para trás, o tempo é imutável? O tempo desloca-se agarrado aos nossos pés, como se fosse uma sombra? Isso explicaria a atitude de Peter Pan, a tentar recuperar a sua sombra, Peter Pan a ser um menino para sempre.

    Correndo o risco de provocar à minha alma um torcicolo olho para trás mas dou com o nariz num denso nevoeiro. Não consigo andar em direcção ao passado, fico ali assim, especado, a tentar vislumbrar alguma coisa. Não é fácil. De vez em quando percebo um corpo em movimento, adivinho uma silhueta. Se, por acaso, alguma coisa se aproxima de mim ao ponto de se tornar visível depressa avalio da necessidade de a ver com clareza ou ser melhor fechar os olhos. Construo a minha história.

domingo, novembro 02, 2025

Resumindo seis décadas (e uns trocos)

     Estive demasiado ocupado a viver ou a tentar viver, não tive tempo para a Arte. Ser artista foi coisa que restou, suspensa, na borda do prato. Ainda hoje não sei se a coma se a deite no caixote do lixo da minha história pessoal. 

    Estive demasiado ocupado a perseguir quimeras, fadas, sonhos, a tentar dia após dia fugir deste mundo em direcção a outro. Qualquer outro. A minha falta de critério levou-me a sítios horrendos na maior parte das vezes mas também tive a sorte de vislumbrar um ou outro paraíso. Unicórnios nunca encontrei. Bruxas? Muitas.

    Uma noite houve uma bruxa francesa com aquele característico cheiro adocicado a suor que me disse que eu era (sou) um monge que falhou a vocação. Naquela época eu carregava forte e feio no álcool e quando tive essa interacção com a dita bruxa devia estar já bem aviado. Mas a frase ficou e a ideia regressa de vez em quando para me relembrar o passado.

    Numa outra ocasião houve um gajo intratável com quem partilhei uma sala de trabalho numa casa onde arrendávamos quartos separados a uma senhora decadente, um gajo, dizia, que me apresentou a alguém (impossível lembrar-me a quem) dizendo: este gajo é um génio com quem partilho casa. "Um génio"!? Uau, nunca me esqueci dessa situação. Esse gajo (vão 4 gajos neste parágrafo embora, na realidade, sejam apenas dois) é a única pessoa, que me lembre, com a qual deixei de falar por completo. A única pessoa com quem cortei relações de forma abrupta e consciente. Até hoje, já lá vão uns bons trinta anos.

    Estive demasiado tempo ocupado a tentar não enlouquecer, a tentar não me afundar na filha-da-putice. Nem sempre tive sucesso mas as mazelas são quase nenhumas e os danos permanentes quase não se notam. Hoje imagino-me feliz. 

quarta-feira, outubro 29, 2025

Futurismo

     A sensação instalou-se e nada poderá desalojá-la: o destino da humanidade é mais curto do que se poderia imaginar há apenas duas ou três décadas atrás. Talvez a coisa não seja assim tão radical, haja esperança. Talvez fiquem por aí uns quantos, para semente. Talvez restem pequenas comunidades de seres humanos capazes de resistir e repovoar o que restar de território habitável. Talvez haja esperança para a existência de Deus.

    Parece-me indiscutível que as divindades, tal como acontece com as fadas, dependem daqueles que nelas acreditam para que possam existir. O que será de Jeová sem as Suas criaturas, os Seus altares, as Suas testemunhas? 

    Assim, esta correria vertiginosa da nossa espécie em direcção ao abismo civilizacional parece-me uma espécie de suicídio divino. Talvez as tribos amazónicas que não sabem o que é o aquecimento global ou o continente de plástico, que desconhecem Jeová, Alá e outros aleijões do género, que nunca viram um gajo como eu ou como tu, pacientíssimo leitor, talvez essas tribos venham a reinar no planeta tendo como adversários o crocodilo e a pantera, verdadeiras divindades da floresta.

    Talvez a Bomba nunca chegue a ser lançada.

terça-feira, outubro 28, 2025

Solubilidade

     O céu fechou-se de súbito. O sol não foi para ali chamado e o dia ficou semelhante a uma noite qualquer. O vento a marulhar nas folhas das árvores confundiu-se com o ruído da chuva a cair. O ar não estava frio, sentia-se um leve calor. Que fazer? Devia esperar que a chuva amainasse ou meter pés ao caminho? Não lhe apetecia tomar uma decisão por isso ignorou o problema, fez com que não existisse. Não existindo problema ficava tudo bem; a escuridão, a chuva, a temperatura ambiente.

domingo, outubro 26, 2025

Abandono

     Acorda triste sem saber porquê. Cumpre as rotinas com sinceridade. A tristeza mantém-se, é como se lhe roesse as unhas dos pés. Sentado, mastiga o pão, bebe o café. Tem o olhar fixo na parede em frente. A parede é verde desmaiado. Sente-se fraco. Sente-se ainda mais triste.

    Levanta-se. Apetece-lhe terrivelmente um cigarro mas deixou de fumar há nove meses. Esta constatação traz-lhe  uma ideia estúpida à cabeça. Sente-se pior. A tristeza matinal vai-se transformando em auto-comiseração. O que fazer? Continuar a cumprir religiosamente a rotina não lhe parece ser suficiente. Não há salvação possível.

    Volta-se para a estrada. Os carros passam deslocando-se com velocidade comedida. Fica assim durante algum tempo: estático, absorto, fantasmático. Por fim resolve dar um passo em frente. Abandona o local.

sábado, outubro 25, 2025

Coisa(s)

     É uma coisa estranha: agora estamos aqui, um minuto depois deixamos de existir. Agora falamos, pensamos, somos ouvidos, um minuto depois somos feitos apenas de silêncio, estamos mortos. Se porventura somos fruto de um plano e trabalho divinos o sentido da narrativa escapa-nos por completo. Não faz sentido nenhum. E os padres (pelo menos os católicos) defendem a sua posição recorrendo à problemática insolúvel dos "mistérios" e dos "caminhos do Senhor" para nos explicarem que não há explicação nenhuma que seja minimamente satisfatória. É tudo coisa lá da cabeça de Deus.

    

quarta-feira, outubro 22, 2025

Felicidade e descanso

     Todos os dias um gajo fica à espera de mais uma enormidade, outra filha-da-putice vinda do lado de lá do Oceano. Ele é o cafézinho, os flocos, o pão com manteiga ou o croquete e o trampas a perorar na sua rede social muito apropriadamente designada por "truth". É rotineiro.

    Por cá o aprendiz de feiticeiro continua a inchar, como sapo que fuma. Cada vez mais vaidoso, mais cheio de si, a lamber as beiças constantemente como se perante a possibilidade de abocanhar o poder não conseguisse evitar salivar como um porco defronte à lavagem, o trampas nativo vai fazendo o seu caminho.

    Custa-me um pouco dar de trombas com esse gajo a cada curva, ao dobrar de cada esquina, todos os dias a sua figura move os lábios e pisca os olhos nos ecrãs de TV; um gajo cheio de tiquetoques e conversa da fazer boi dormir, a repetir até à náusea as mesmas tretas. Fartei.-me.

    Desde há um par de dias a esta parte que sempre que o imbecil aparece no ecrã mudo de canal ou tiro o som ou desligo a TV e me entrego a actividades mais edificantes do que estar pasmado a olhar para um cagalhão. Sinto-me muito mais feliz, mais descansado.

segunda-feira, outubro 20, 2025

El-rei Pançudo

     Traduzir um texto resulta sempre numa interpretação. Traduzir o Rei Ubu ultrapassa a ideia anterior para trás e para a frente (com duas voltas completas sobre o nariz do espectador/leitor utilizado à laia de eixo de impossível simetria). Em breve será editada a versão que fiz para a Arte 33 que a Ana Nave encenou e levou ao palco do Teatro-Estúdio António Assunção em Novembro de 2017. Onde? Em Almada, caraças!

    O texto vai ser editado pela Tordesilhas, editora do José Xavier Ezequiel com lançamento previsto para o próximo dia 29 de Novembro no Salão das Carochas. Onde? Em Almada, gâmbias de Deus! A coisa dar-se-à um pouco antes da reposição de Uma Pedra no Sapato, peça da Arte 33, encenada pela Ana Nave, escrita por mim e pelo Francisco Silva, peça que integrará a 29ª Mostra de Teatro. Mostra de Teatro de...? De Almada, eu seja corno!

    Se tudo correr como previsto haverá leitura de uma cena pela Josefina Correia no papel de Mãe Ubu e pelo Carlos Antunes a fazer de Pai/Rei Ubu. A proposta é que leiam logo a 1ª cena cena que começa com o Pai Ubu a declarar altíssimo e muito bom som: TRAAAAMPAAA! (e não "merdra"... que raio de merda é merdra?)

    Depois havemos de beber umas garrafas de tinto e, talvez, uma garrafita de branco. Ah, como é refrescante a liberdade de expressão. 

sábado, outubro 18, 2025

Sinceramente

     Os dias vão passando e um gajo sente a imunidade que o hábito lhe vai conferindo. Ouvir aquela voz já não provoca uma revolta imediata, tal como ler mais aquela mentira travestida de notícia já não faz o coração disparar a toda a brida. Não, o tempo tudo cura, diz-se, ou qualquer coisa do género. Ou, se não cura, o tempo, pelo menos, endurece a nossa capacidade de lidar com a monstruosidade.

    A colecção de cromos monstruosos vai alargando. Trump, Meloni, Orbán, Farage, Abascal, Le Pen, Milei, Putin, Netanyahu, Bolsonaro, etc. Como parar esta gente alimentada a milhões por uma legião de sacanas ricaços? Como reverter esta onda destruidora que submerge a espécie humana e se desinteressa de proteger os seus habitats? 

    A escrita deste post é banal, é fraquinha, não empolga mas é sincera. 

quinta-feira, outubro 16, 2025

O performer

     Foi doloroso mas a Arte assim o exigia. O prego penetrou-lhe a palma da mão esquerda. Ele próprio o martelou. A mão direita ainda hesitou um pouco no momento de exercer a vontade que a animava mas uma vez atirado o martelo sobre a cabeça do prego já nada mais fazia sentido. O mundo parou.

    A dor lancinante disparou em todas as direcções no interior do seu corpo. Aquilo doeu e continuou a doer. Mas artista que se preza não desiste perante as adversidades, a Arte está acima de tudo, como o Deus de Bolsonaro. Ali permaneceu, pregado, um fio de sangue a escorrer parede abaixo, o coração a bater-lhe a mil à hora, a cabeça a rodar, a zunir, confuso que estava.

    A pequena multidão que acorrera à chamada pareceu estupidificada pela violência da performance. Num primeiro momento, sem reacção, congelou mas logo estalou num aplauso magnífico. O Artista sentiu o aplauso, comoveu-se, uma lágrima correu, fez uma pequena vénia dificultada pela posição em se encontrava, pregado à parede. A Arte é Vida. E vice-versa.

quarta-feira, outubro 15, 2025

Viva la muerte

     Cada vez mais penso na morte. Não penso naquilo que me espera para lá do meu corpo. Não, não penso nisso. Penso na morte enquanto ponto final. Fim da linha. Penso em coisas que nunca fiz e talvez gostasse de fazer, penso na decrepitude do corpo e evito imaginar a perda de faculdades mentais. Estes pensamentos não me deixam triste ou deprimido, pelo menos por agora.

    A morte enquanto ponto final de um livro que sou eu. Um livro que, depois de escrito, será guardado numa gaveta qualquer ou metido entre milhares de outros numa prateleira imensa de uma estante infinita. Um livro para esquecer passado algum tempo, quando aqueles que me amaram perecerem também.

    Estes pensamentos podem ganhar consistência e fazer algum sentido até que uma merda qualquer, uma mensagem sêca e mesquinha, até que alguma coisa vem esvaziá-los da poesia que quase chegaram a ter. O mundo real é demasiadas vezes uma decepção absoluta.

terça-feira, outubro 14, 2025

Simplicidade (por favor)

     É tão estranho ser capaz de ser simples. Eu, que sou um gajo complicado, salivo de prazer quando encontro imensidões integradas numa frase, mundos inteiros numa linha só. Mas não sou nada assim, bem antes pelo contrário. Aqueles que amo que o digam, aqueles que amo podem explicá-lo, aqueles que amo sabem bem do que falo. Aqueles que por mim são amados.

    Por vezes encontro-me com a simplicidade. Olá, tudo bem? Tratamo-nos cordialmente e pouco mais. Cada um segue o seu caminho. Até amanhã. Não estou certo de que a admiração que por ela sinto seja recíproca, nem sequer tenho a certeza de estar a fazer algum sentido enquanto vou descendo os degraus da escadaria deste texto. Lá mais em baixo há qualquer coisa mas a esta distância ainda não consigo perceber-lhe os contornos. Estamos demasiado afastados.

    A simplicidade não me corre nas veias. Quando dou por ela está parada. Começo a suspeitar que a simplicidade, em mim, é uma estátua.

terça-feira, outubro 07, 2025

Encontrar desculpas

    Ia ter que encontrar uma explicação para justificar a sua atitude. Não seria tarefa fácil. Além de uma história plausível iria ter de encontrar o tom de voz adequado, a pose, o olhar... nada poderia ser deixado ao acaso. O acaso nem sempre resolve as coisas como seria de esperar, muito menos as resolve da melhor maneira. Tem dias!

    Por muito que puxasse pela cabeça não lhe ocorreu nenhuma ideia genial. Ali estava, sentado, transpirando como um cavalo. Contorcia os dedos das mãos com tanta força que, diz quem viu, parecia não ser capaz de os desembaraçar assim que pudesse sossegar um pouco. Tornar-se-ia um ser estranho, caso isso acontecesse, os dedos entrelaçados de tal maneira que não conseguisse separá-los nunca mais. No caso de tal desgraça sempre poderia tornar-se curiosidade numa feira de aberrações que algum jovem empresário pudesse, um dia, vir a criar. Uma vida inteira a tentar desfazer-se.

    Não conseguiria pedir desculpas se primeiro não fosse capaz de as encontrar. Encontrar, até, as supostas culpas, eis algo que lhe estava a ser penoso. Sentia-se confuso, sentia-se perdido: "já nem sei bem o que sou..." rodopiou os olhos e continuou: "... sei perfeitamente quem sou, até consigo recordar o meu código postal, mas não faço a mínima ideia daquilo que sou." Fez uma pausa e concluiu: "Não tenho a certeza dos meus limites". Fosga-se!

    Pensamentos deste calibre não contribuíram nada para a saúde mental do indivíduo.   

domingo, outubro 05, 2025

Livros

     Aqui há dias concluí a leitura de "O caçador de histórias", de Eduardo Galeano. Nunca antes tinha lido nada do escritor uruguaio que adorava futebol (e que, tal como me aconteceu, sonhou vir a ser futebolista quando crescesse). Foi uma experiência repleta de momentos luminosos.

    Um ou dois dias antes de ter começado a caçar histórias na companhia de Galeano tinha lido "Tsunami", da autoria de Alexandre Dale que, na minha cabeça, continua a ser O Poeta. Foi o primeiro livro editado pela nova editora, Tordesilhas, do meu amigo José Xavier Ezequiel. No lançamento do livro tive oportunidade de explicar a minha perspectiva da coisa ao próprio autor que me disse algo do género: "pois, não pensei nisso". E eu a pensar que tinha descoberto a razão da coisa, o estratagema do autor... tiro ao lado, tiro ao lado, tiro ao lado; alvo limpo e sem furos.

    Ontem comprei o mais recente livro de Ian McEwan.

sexta-feira, outubro 03, 2025

Melhor pensar na morte da bezerra

     Anteontem senti um apelo mórbido vindo lá detrás do meu cérebro; resolvi googlar "pessoa idosa". Mais valia ter ficado quieto. Fiquei a pensar no caso e na coisa. 

    Ontem fui até à porta da embaixada israelita em Lisboa e participei na manifestação a favor do povo palestino. Senti-me bem. 

   Descontando a descida da Avenida da Liberdade por ocasião do 25 Abril,que me lembre, já não participava numa manifestação há um bom par de anos e aquela, ontem, foi saudavelmente selvagem. Pareceu-me haver muita gente jovem. Quando alguém, no palco, lembrou que "há 30 anos participámos em manifestações semelhantes a esta por Timor" pensei que uma grande parte dos manifestantes de ontem ainda não teriam nascido ou, se participaram nessas manifestações, fizeram-no ao colo ou às cavalitas dos pais, como aconteceu com a minha filha.

    Hoje pela manhã dei por mim a reflectir sobre as questões que registei acima. E, pela primeira vez, pensei: eu não estou a lutar por um mundo melhor para viver, eu luto por um mundo melhor para morrer. E agora, que já são quase duas da tarde, penso: valha-me Nossa Senhora.

segunda-feira, setembro 29, 2025

Distopia

         Sentiu vontade de reclamar mas o bom senso recomendava silêncio. A mulher sentada ao seu lado mantinha os olhos baixos, parecia uma estátua. O negro no banco à sua frente olhava fixamente a janela do comboio subterrâneo, quando muito via-se a si próprio. Reflectia. O comboio gritava e rugia caverna fora na sua barulheira habitual. Rodou discretamente os olhos tentando perceber as reacções dos seus companheiros de viagem. Todos os que conseguiu ver pareciam evitar mostrar a mínima emoção. O ambiente pesava como chumbo.

        Quando as portas se abriram, na estação seguinte, levantou-se e saiu rapidamente para a plataforma. O ar estava quente, pairava um cheiro metálico. A carruagem fechou-se e o comboio, insensível, arrancou de novo. Chiou e guinchou, ganhava balanço para mergulhar de novo na escuridão do túnel. Levava dentro dele toda aquela dor, a injustiça, a crueldade, o mal. Sentiu-se aliviado por não ter de continuar a assistir ao terrível espectáculo. Sentou-se. As pernas tremiam-lhe demasiado para que pudesse continuar a caminhar.

     

sábado, setembro 27, 2025

Um prego no ego

     Podia ir por aí fora e inventar meia-dúzia de tolices como se estivesse possuído (ou conluiado) com alguma Ninfa. Mas não. Mas não. Decido ficar-me por onde estou sem armar ao pingarelho que já não tenho idade para isso nem vejo qual poderia ser o interesse.

    Bem vistas as coisas, estou com um daqueles ataques de pedantismo que por vezes me acometem, que me deixam o ego inflamado, a precisar de intervenção cirúrgica eficaz que o reduza uma vez mais à sua proverbial insignificância. Não sou poeta nem a poesia me convence. 

quarta-feira, setembro 24, 2025

Um momento

     Talvez não tivesse tomado a melhor opção. Talvez pudesse ter evitado aquilo. Talvez, talvez, talvez. Talvez fosse estúpido estar agora a lamentar-se. Deus ofereceu-lhe aquele coração de manteiga e ele não pôde rejeitá-lo. É o que é, o que sempre foi: um filho da mãe sensível como um Ursinho Carinhoso. 

    Soube naquele momento que havia de carregar aquela cruz para o resto da vida.

    Mirou o sangue na sua mão esquerda. Sentiu uma apatia tão grande ...! Era como se tivesse sido transformado em montanha, como se agora fosse a porra do cabrão do Adamastor. Precisava de pisgar-se dali para fora mas sentia as botas pregadas ao chão; não conseguia tirar os olhos da sua mão esquerda. Veio-lhe à memória a canção de Nick Cave, Red Right Hand, o que lhe provocou uma dolorosa convulsão na barriga, uma espécie de riso violentamente abafado pela mágoa. A mão vermelha era, afinal, a esquerda. 

    Pela janela entrava o canto de um pássaro e o ar estava fresco. Aquela podia ter sido uma manhã tranquila, um Domingo igual a outros. Mas não, tudo acontecera de forma inesperada e agora ali estava ele meio aparvalhado, a mão esquerda pingando sangue e uma tristeza tão grande no peito que parecia ter dentro uma ratazana ávida de liberdade. 

domingo, setembro 21, 2025

Anonimato

     Quando realizamos algo que no nosso imaginário é digno de nota devemos ficar desiludidos caso a cena não tenha sido observada por, pelo menos, mais uma pessoa? Logo naquele momento, precisamente quando conseguimos ultrapassar medos e limitações, nem um parzinho de olhos a observar? Ora porra, é preciso ter azar! Saber que conseguimos não é recompensa suficiente?

sábado, setembro 13, 2025

Centenário

    Quando eu fizer 100 anos há quantos anos estarei já morto e enterrado? E se estiver vivo??? Caraças, grande cena. Se estiver vivo serei decerto uma espécie de múmia: sem cabelo nem gordura, dores nos ossos e nos músculos, se ainda respirar não sei se quererei estar consciente do que for. Talvez a demência seja uma defesa contra a decrepitude absoluta do corpinho.

    Mas, estar vivo é hipótese académica que não levo a sério. Por isso mesmo talvez seja tempo de ir pensando em nomear uma comissão organizadora dos festejos em memória do que eu fui (e ainda virei a ser enquanto por cá andar). Nunca é tarde e raramente é cedo demais para uma cena destas. 

quarta-feira, setembro 10, 2025

A manada

     Tacatum, tacatum, tacatum, uma manada de filhos-da-puta disparada avenida abaixo leva tudo à frente: árvores, viaturas, crianças, velhinhas, animais de estimação, nada escapa ao galope desenfreado da manada. Tacatum, tacatum, tacatum. Um tipo de boné e capote alentejano avança destemido em direcção ao centro da avenida e levanta um braço. Tacatum, tacatum, a manada não parece abrandar (não abranda de facto, antes ganha mais e mais balanço) mas o compadre não arreda bota: ali está, qual estátua neorrealista, braço erguido e olhar confiante, um leve sorriso a desenhar-se-lhe num canto da boca, ah valente! Tacatum, tacatum, tacatum, nenhum dos filhos-da-puta se acerca a menos de 10 centímetros do nosso herói, passam por ele em correria como um rio se afasta respeitoso ao encontrar ilhota que lhe faça frente. É um milagre? Não, é uma cambada de filhos-da-puta na qual, apesar de investirem em manada, não há um único que tenha tomates para experimentar atropelar o compadre alentejano. Se algum o fizesse havia de o deixar todo partido, estendido no asfalto a sangrar e a dizer mal da vida. Como se fosse um forcado azarado. Tacatum, tacatum, tacatum, lá vão eles, desenfreados em direcção a um futuro que é só seu.

terça-feira, setembro 09, 2025

Tempos

     Estava aqui a pensar que as coisas nunca acontecem como podiam acontecer, acontecem sempre um bocadinho acima, um nadinha ao lado, acontecem assim mais ou menos o que faz com que aconteçam sempre de outra forma. Nunca acontecem como podiam, acontecem sempre como deviam acontecer. A Ordem acima de tudo.

    Há quem acredite no destino. Muita gente sente-se esmagada pelas previsões que as cartas revelam ou os acontecimentos que o alinhamento dos astros permite entrever, a vida a acontecer antes de ter acontecido. É como aquela adivinha estúpida da pescada que antes de ser já o era, qualquer coisa deste género que tenho fraca memória seja para o que for quanto mais para adivinhas estúpidas.

    Tenho saudades de ser criança e nem sequer pensar em merdas como estas. O futuro era tão pertinho! As coisas aconteciam ali mesmo, naquele momento e quando brincava era eu quem determinava o rumo que levavam. Conseguia fazer com que tudo encaixasse na perfeição, uma perfeição que só eu era capaz de imaginar. E não havia cá tangas.

domingo, setembro 07, 2025

Ãoão

     Se por acaso tivesse uma pedra no bolso havia de resolver a questão com rapidez e deselegância. Uma calhoada bem assestada ali mesmo, no meiínho daquele par de cornos, e seria vê-lo a rodopiar sobre uma pata, ao redor de uma perna e depois a despencar com majestade, como se fora uma saca de merda, a despencar em cheio na calçada: catrapunfas! Já foste!

    Se por acaso fosse um pouco mais moreno (teria de ser mesmo muito mais do que sou) ninguém diria que vim do Norte, todos pensariam que era do Sul que eu era. Mas não. Fui presenteado com uma pele que parece lavada com lixívia, sardas como se fosse cagado das moscas e um cabelo que não se percebe que raio de cor ele tem. Logo sou celta, nunca mouro, sou judeu, nunca cigano. Verdade, verdadinha não me sinto ser nada disso nem sinto ser aquilo que não sou. Sinto-me muito eu. É quanto basta.

    Se por acaso tivesse um animal de estimação dificilmente seria um gato e nunca, mas mesmo nunca, poderia ser a porra de uma serpente. Gosto muito de cães. Talvez até gostasse de ser um cão. Não sei, não tenho bem a certeza. Os cães são fixes.

Erupção momentânea

     Há acidentes que, por acidente, não chegam a acontecer. Desgraças semeadas que não chegam a medrar no campo das angústias. Há coisas do diabo que não chegam a sê-lo e o diabo que se lixe. Olhando o passado tão longínquo quanto me foi possível, pude apenas observar longuíssimas sombras de coisas esquecidas. E, se nada disto faz sentido, um fantasma abeirou-se do meu ser e tentou compreendê-lo. Talvez não tenha sido capaz, talvez tenha perdido o interesse. Foi-se embora. Abandonou-me sem sequer me ter lambido as mãos. 

quinta-feira, agosto 28, 2025

Eles vivem

 

    Eles vêm aos milhares. Ocupam as nossas casas, ficamos sem tecto, fugimos do centro para a periferia. Eles têm hábitos estranhos, deixam atrás de si um rasto de detritos sólidos, sujam as ruas e bebem demasiado. Deslocam-se como zombies arrastando malas barulhentas. O céu da cidade é uma autoestrada em hora de ponta. 

    Eles vêm aos milhares, carregados de dinheiro para gastar em todas as direcções. Muitos vêm para ficar. Compram casas e apartamentos que pagam a preços, para nós, inacreditáveis o que nos transforma em pobres de um dia para o outro. 

    É a tão temida Grande Substituição de que ouço falar há uns quantos anos. O nosso país está a ser retalhado e vendido. Nós, os portugueses de bem, estamos a ser substituídos por gente rica, não importa de que raça ou de que cor. Desde que tenham dinheiro são bem-vindos.

terça-feira, agosto 26, 2025

Súbita iluminação

 Ama o próximo como se fosse o teu cão.

Sono

     As coisas pareciam-lhe estragadas, como se a vida tivesse prazo de validade, tal qual as ervilhas enlatadas ou os iogurtes. O próprio acto de respirar o incomodava como se não fosse natural. Estava demasiado consciente. 

    Já tinha compreendido havia bastante tempo uma verdade básica: que a consciência é uma arma de auto-destruição demolidora. Descodificar com exactidão os mais ínfimos sinais emanados pelo mundo que nos rodeia leva qualquer ser humano às portas da loucura mais rapidamente do que arde um fósforo. Talvez por isso seja dos pobres de espírito o reino dos céus.

    Virou-se para o outro lado ajeitando a cabeça na almofada. Esperava o sono pois sabia que quando ele viesse seria como se morresse. A noite levá-lo-ia. Estaria de regresso pela manhã, talvez revigorado, talvez esquecido, talvez livre de pensamentos deprimentes.

segunda-feira, agosto 25, 2025

Não somos borboletas

     Um ser destrambelhado preso num labirinto e que devora gente jovem; um ser monstruoso com cabeça de touro e, talvez por isso, incapaz de compreender a sua relação com o mundo... será o Minotauro uma metáfora da eterna adolescência?

    Quando finalmente somos capazes de compreender que precisamos do outro para ficarmos completos, quando finalmente não devoramos aquele que nos parece apetitoso, então ultrapassamos o estado de adolescência e entramos naquilo que desajeitadamente designamos por "idade adulta". Isto pode acontecer após 14,15, 16 anos de vida ou pode acontecer aos 70 ou 80, não há uma idade específica que determine a transformação. Não somos borboletas.

segunda-feira, agosto 18, 2025

Elogio da preguiça

    A preguiça devia fazer parte da Declaração Universal dos Direitos Humanos. O Artigo 23 diz que temos direito ao trabalho e o 24 que todo o ser humano tem direito a repouso e lazer bem como tem o direito a férias (remuneradas!). Quanto à preguiça nem uma palavra.

    A preguiça sempre teve má imagem entre aqueles que se julgam imunes aos seus encantos. A preguiça é vista como um mal social e os preguiçosos tendem a ser ostracizados por quem não o é ou não pode sê-lo. Mas tudo me parece um bocado exagerado.

    Nos últimos tempos tenho sido frequentemente atingido por ondas de preguiça irresistíveis que me deixam pregado à cama com uma ventoinha a refrescar o espaço em volta. Durmo belas sestas e à noite volto a dormir como se não houvesse amanhã. Leio umas poucas páginas de um livro qualquer e estou pronto para viajar no esquecimento do sono. Um descanso...

    Poderia fazer outras coisas, preencher as minhas tardes com actividades mais interessantes do que estar de papo para o ar e dormir? Acho que sim, eventualmente. Não tenho a certeza. A verdade é que me sinto bem a preguiçar como um valente. É aproveitar enquanto é tempo. Em breve terei de me render e desistir desta vida de sossego absoluto.  

sábado, agosto 16, 2025

O homem que comia bananas

     "Comediante" é o título de uma obra de Maurizio Cattelan que consiste em... acho que se disser que é "aquela" banana o tolerante leitor perceberá imediatamente do que falo. É uma banana colada à parede com um pedaço de fita-cola cinzenta (soa melhor "prateada"). Meu deus! Isto é arte? Vou colar uma banana na parede da sala... etc. As reacções são variadas e, na maior parte das vezes, desinformadas. A história de "Comediante" é muito simples mas não é dela que pretendo falar neste post.

    A obra de Cattelan já foi comida, pelo menos, três vezes sendo que as duas últimas (a derradeira na exposição de Serralves) foram autoria de um cidadão holandês, ou neerlandês, como agora é de bom tom dizer, Peter van Druten de sua graça. Ao que parece, van Druten reclama ser autor de uma intervenção artística. Teremos aqui um artista contemporâneo em potência?

    A primeira parte da obra de van Druten aconteceu em Metz onde, acometido de um impulso incontrolável, decidiu descolar a banana da parede, descascá-la e comê-la. Segundo o potencial artista, Cattelan ter-lhe-á dito que deveria comer também a casca e a fita uma vez que fazem parte da obra. Vai daí, o súbdito de Guilherme Alexandre viajou até até à "Inbicta" e morfou segunda banana. Ao que parece, desta vez, não terá conseguido comê-la na totalidade uma vez que casca e fita-cola são mais difíceis de mastigar.

    E por aqui me fico se bem que esta fábula tenha mais contornos pitorescos e extrapolações interessantes. Termino com uma proposta de título para a acção/performance/obra de van Druten: O Palhaço.

sexta-feira, agosto 15, 2025

Erudição

     Gostava tanto de ser um erudito. Caramba, se gostava! Se não desse tanto trabalho haveria de ser um erudito. Sendo assim, não sou. Não posso ser, não consigo. Faltam-me toneladas de páginas, quilómetros de palavras, imensidões que nunca olharei, reflexões que nunca poderei fazer. Tenho pena.

    Ultimamente talvez este meu secreto desejo esteja discretamente a perder força dentro de mim. Não é por nada, apenas que a erudição tem vindo a perder valor na bolsa de activos da popularidade. Ser bronco parece estar a dar muito mais do que mostrar algum tipo de conhecimento e capacidade de reflexão. Ainda assim não invejo os broncos por serem o que são. Mas faço de conta que não penso nesses assuntos.

    Como, lá no fundo, um gajo quer ser qualquer coisa desde que isso lhe confira alguma popularidade e a erudição anda pelas ruas da amargura... bom, talvez eu possa pensar numa outra opção. 

    Num tempo em que o homem mais poderoso do mundo é um mentecapto em nítida regressão, um homem que se aproxima da amiba a cada dia que passa, será natural que os toscos, os estúpidos e os imbecis se sintam vingados. Os intelectuais, os eruditos, essa gentalha que tem a mania que sabe coisas, tem aqui a prova viva de que a boçalidade e a ignorância mais rasteira podem constituir e enformar o poder mais poderoso. Toma!

    E pronto. Se calhar não é assim tão deprimente saber que nunca poderei ser um erudito. Talvez eu possa ser um estúpido imbecil e sentir-me realizado com isso. 

quarta-feira, agosto 13, 2025

Um imenso adeus

     Pensar nem sequer provoca dor! Antes pelo contrário. Não pensar, sim, é doloroso e provoca tantas desgraças que parece bruxaria. Agir sem pensar (ou desprezando o pensamento) provoca estranha agitação nas ondas da realidade e traz para as praias deste mundo lixo variado e muito difícil, se não mesmo impossível, de reciclar. "O sono da razão engendra monstros", compreendeu Francisco de Goya, as praias da realidade estão a deitá-los por fora.

    Sempre fomos estúpidos. A nossa espécie tem a capacidade de engendrar artefactos maravilhosos à mistura com os inevitáveis monstros e isso vai disfarçando a nossa infinita estupidez enquanto espécie. Somos qualquer coisa entre o imbecil e o génio que se reinventa incessantemente sem nunca parar para pensar. Agimos de forma impulsiva e desregrada. Não pensamos o suficiente sobre as consequências das nossas acções.

    Adeus. 

terça-feira, agosto 12, 2025

Perutz

     Senti uma súbita necessidade de contradizer o meu post anterior. Confesso que o escrevi sem pensar no que fazia e o resultado é um pouco nefasto. Não queria dizer aquilo, antes pelo contrário. Não penso assim, a construção das frases peca por ser tão infantil, o remoinho do tempo baralhou-lhes o sentido e nada daquilo poderia, alguma vez, existir fosse em que universo fosse tentado.

    Dito isto passo a explicar que acabei de ler O Marquês de Bolibar, de Leo Perutz, e não fiquei maravilhado. Já O Cavaleiro Sueco, do mesmo autor, me deixou à beira de ficar descalço. Nas badanas e contracapas os editores colocam frases de alguns dos meus heróis literários: "O exemplo perfeito de um romance fantástico no seu estado puro", terá dito Jorge Luís Borges de forma que me parece um tanto exagerada. Italo Calvino terá sido outro leitor devoto deste escritor austríaco nascido em Praga (!!). Enfim, com estas conversas lá me convenceram a ler dois romances que, não fossem estas vozes de fantasmas queridos, dificilmente seriam objecto da minha atenção.

    Sim, há nestes romances qualquer coisa de extraordinário, algo de maravilhoso, mas em doses homeopáticas. Para me satisfazer teria de ser algo mais brutal, mais animalesco. Seja como for, caso não conheças este escritor, experimenta lê-lo, errático leitor. Talvez O Cavaleiro Sueco seja entrada mais apetecível mas, diz quem sabe, O Marquês de Bolibar é obra-prima. 

Tenho dito

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sábado, agosto 09, 2025

Babel (texto corrido, escrito à primeira e sem revisão, provavelmente uma xaropada)

    Podíamos ter sido tanta coisa que não fomos! Mas acho que isso não retira nem um bocadinho à grandeza dos nossos actos. É uma grandeza grandiosa, uma grandiosidade construída sobre a força da vontade que temos quando a coisa arde dentro de nós e não sabemos muito bem como lidar com ela. E essa força empurra-nos em todas as direcções e nós vamos, deixamo-nos ir porque isso é bom e temos a sensação de estar a fazer qualquer coisa que é fixe. E fazemos. E depois esquecemos que fizemos aquilo e damos por nós já a fazer uma outra coisa. E vivemos assim, fazemos dessa construção o nosso modo de vida, trabalhamos nas fundações da Torre de Babel sem sabermos que estamos precisamente ali, na base de todas as coisas que hão-de um dia acontecer.

    Quando olho para trás tenho, por vezes, esta sensação de grandeza, de plenitude, quase me sinto realizado. Mas logo me assalta o homenzinho cristão que habita algures entre as minhas orelhas e vem bichanar-me aos ouvidos palavras sensatas e absolutamente equilibradas que me mostram como sou insignificante e não valho nem a ponta de um chavelho do diabo mais escanzelado do inferno. E eu penso "quero que te fodas, eu fiz coisas, caraças!" E regresso ao meu sonho e sou outra vez um operário a martelar calhaus do tamanho de autocarros e percebo perfeitamente tudo o que dizem os outros gajos e as outras gajas que andam por ali a cirandar, a cumprir o plano de um arquitecto que nunca vimos, não fazemos a mínima ideia de quem seja, mas acreditamos piamente no plano que elaborou para a construção da puta da torre. Arriba!

    A memória do dilúvio corrói a mente de todos, é um pesadelo que nos tira o sono e nos mantém a trabalhar mais de 24 horas todos os dias que deus ainda não arredondou bem esta coisa da lua e do sol e os horários são coisas mais complexas do que deviam. Os dias ainda não estão bem acabados e a torre vai por aí acima que é uma beleza de se ver. Cansados? Sim, mas orgulhosos da obra que vamos realizando. Quanto mais longe estivermos da terra mais seguros nos sentimos que este deus é muito fixe, é muito fixe mas meto um medo do caraças! O gajo é meio descompensado e o pessoal já não confia nele como confiava. Vamos muito mais pelo arquitecto que nos mostra planos claros e não parece zangar-se quando fazemos merda ou preguiçamos um bocadito.

    Podíamos ter sido artistas contemporâneos no século XX, poetas no século XIX, construtores de catedrais góticas, pintores no Renascimento, curadores de arte no século XXI, podíamos ter sido tanta coisa que não fomos. Mas andámos por lá, na Torre de Babel até deus se chatear por não ter percebido nada. Por ter imaginado que queríamos aproximar-nos da morada dele! Fogo! Nós queríamos era ficar longe das águas caso caísse outro dilúvio ou viesse um tsunami que varresse tudo. E lá veio a confusão das línguas e a Torre ficou assim mesmo, inacabada. Ainda assim um espectáculo, um regalo para a  vista.

    Hoje falo português, um pouco de francês e inglês. Arranho espanhol e é tudo.