"Um espectro paira sobre a Europa, o espectro do comunismo." Começava mais ou menos assim o célebre Manifesto Comunista da autoria de Marx e Engels, publicado em Fevereiro de 1848.
O espectro pairou, rondou, sobrevoou o espaço europeu mas nunca chegou a materializar-se, de facto. Ficou-se por algumas tentativas mais ou menos abstrusas, abortos horrendos que nunca fizeram justiça à essência do espectro em causa.
Hoje é outro fantasma que ensombra os sonhos dos europeus. É o fantasma da única Internacional que verdadeiramente triunfou, o da Internacional Capitalista. "Proletários de todos os países, uni-vos!" exortavam os autores do Manifesto. Olhando os dias que vivemos podemos constatar que a única verdadeira união a que este mundo assistiu não foi a dos proletários, foi a dos seus amos.
É triste observar a derrocada do sonho europeu, visto de dentro. Imagino que, olhado de outros ângulos, visto do lado de fora, o caso não seja dramático. Visto dos países que outrora designámos como o Terceiro Mundo, visto dos países que outrora colonizámos e explorámos, talvez este ocaso Europeu tenha cores garridas e tons de festa que contrastam fortemente com o cinzento a pender para o negro nocturno que a coisa ganha cá em casa.
Houve quem acreditasse que o destino da Europa seria o de espalhar o pensamento Humanista pelo planeta. Afinal fomos apenas capazes de infectar os outros com a gula capitalista e, agora, pagamos o preço devido pela nossa soberba civilizacional.
O Capital não tem Pátria nem sonha com um mundo melhor. O espectro paira sobre a Europa. O resto do mundo pode esperar pela sua vez.
segunda-feira, março 25, 2013
sábado, março 23, 2013
O “ensebentado”
Cavaco Silva passa
grandes temporadas calado. Ele diz que tem de trabalhar e, por isso, não tem tempo para falar ao povo. Sinceramente não me parece que se cale por estar a trabalhar, uma
coisa não implica a outra.
Parece-me que se cala para não falar do sorriso das vacas, para
não fazer piadas torpes sobre o valor do seu próprio silêncio ou da sua reforma, que mal lhe permite fazer face às despesas do quotidiano. Apesar de tudo, de vez em quando, resolve falar de cátedra.
O nosso Presidente sente-se seguro quando fala daquilo que
vem nos livros e que, segundo o seu ponto de vista, é palavra divina. Cavaco
não parece capaz de pensar um bocadinho que seja, para lá daquilo que os livros
ensinam sem escorregar no seu próprio discurso. Não parece capaz de aprender
com os erros nem fazer o mais ténue exercício de imaginação. Ou vem nos livros
e pode aprender-se, ou não vem nos livros e é incompreensível, impossível de
acontecer.
Sempre me fez confusão o conceito islâmico de que Deus se
transformou em Livro, o Sagrado Corão. Segundo essa tradição Deus “enlivrou”.
Na efabulação católica Deus encarnou, o que parece, à partida, mais aceitável. Quando
olho para Cavaco Silva, fico com a sensação de que também ele é a transformação
de um livro em pessoa.
Ou, melhor, sendo ele um emérito professor de Economia
será a personificação de uma sebenta. Cavaco Silva “ensebentou” em Presidente.
Talvez isso explique a razão pela qual quando ele pretende explicar-se aos
mortais comuns o faça sempre daquela forma que nos parece desastrada mas que,
na verdade, é uma forma críptica de comunicar, apenas ao alcance de um pequeno
punhado de iniciados.
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quinta-feira, março 21, 2013
Vergonha
Cumpriu-se ontem o 10º aniversário da invasão do Iraque pelas forças ocidentais comandadas pelo exército americano.
Há dez anos atrás o debate foi violento e apaixonado. Estive do lado dos invasores embora discordasse em absoluto com a guerra e tivesse a certeza de que a manipulação da opinião pública fazia de nós pouco mais que simples marionetas.
A afirmação anterior pode parecer contraditória; como pude estar do lado dos agressores discordando das suas aviltantes razões? Mera questão geográfica e civilizacional, creio. Ainda hoje sinto alguma vergonha por isso.
Fiquei absolutamente dividido. Odiei profundamente todos os mentirosos que nos empurraram para essa aventura irresponsável liderada por um louco demente como George W. Bush mas não podia sentir compaixão por um tirano odioso como Saddam Hussein.
No meio de tudo o que se seguiu as vítimas foram, como seria previsível, todos os inocentes que sofreram na pele a violência e a morte. Agora, guerra finda, o Iraque continua a ferro e fogo. A exportação do sistema democrático, imposto à força da bala e da bomba, frutifica do modo que todos conhecemos.
O balanço dessa guerra não podia ser mais negativo.
Há dez anos atrás o debate foi violento e apaixonado. Estive do lado dos invasores embora discordasse em absoluto com a guerra e tivesse a certeza de que a manipulação da opinião pública fazia de nós pouco mais que simples marionetas.
A afirmação anterior pode parecer contraditória; como pude estar do lado dos agressores discordando das suas aviltantes razões? Mera questão geográfica e civilizacional, creio. Ainda hoje sinto alguma vergonha por isso.
Fiquei absolutamente dividido. Odiei profundamente todos os mentirosos que nos empurraram para essa aventura irresponsável liderada por um louco demente como George W. Bush mas não podia sentir compaixão por um tirano odioso como Saddam Hussein.
No meio de tudo o que se seguiu as vítimas foram, como seria previsível, todos os inocentes que sofreram na pele a violência e a morte. Agora, guerra finda, o Iraque continua a ferro e fogo. A exportação do sistema democrático, imposto à força da bala e da bomba, frutifica do modo que todos conhecemos.
O balanço dessa guerra não podia ser mais negativo.
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terça-feira, março 19, 2013
Pai babado
Como hoje é Dia do Pai deixo aqui o link para uma página do Facebook onde a minha Filha vai colocando alguns desenhos da sua autoria.
Sou um pai babado!
:-)
Sou um pai babado!
:-)
domingo, março 17, 2013
sexta-feira, março 15, 2013
segunda-feira, março 11, 2013
Um cadáver em tribunal
A notícia surpreende pela situação extraordinária que descreve: "Sergei Magnitski é o primeiro morto a ser julgado na Rússia" (ler aqui). Não sei se há muitos mortos a serem julgados em tribunal por esse mundo fora mas, a fazer fé na notícia, na Rússia é estreia absoluta.
O caso é rocambolesco. Magnistski foi contratado para provar que o seu ex-patrão era um vigarista que lesara o erário público russo em vários milhões mas, ao investigar o caso, o agora réu-defunto concluiu que havia vigarice, sim, mas os bandidos eram outros. Para seu azar o líder da bandidagem era um polícia.
Magnitski, advogado de profissão, acabou preso e após uns meses de cativeiro sem acusação formal (nunca foi mais do que suspeito) apareceu morto na penitenciária onde o haviam engavetado. O caso complica-se com acusações de que o advogado trabalharia para o MI6 britânico, a aprovação de uma lei pelo congresso norte-americano que impõe sanções de vária ordem a todos os implicados, tendo Putin retaliado com a suspensão de um acordo que permitia a adopção de crianças russas por cidadãos dos EUA.
Pergunto-me qual será o desfecho deste processo. Que tipo de condenação poderá ser aplicada a um cadáver? O que está aqui a ser julgado? Qual poderá ser o objectivo disto? Tudo indica que Putin e os seus "muchachos" querem apenas limpar alguma porcaria atirando responsabilidades sobre a memória de alguém que não poderá defender-se.
De uma coisa está livre o defunto; não poderão condená-lo à morte. Quando muito poderão desenterrá-lo do cemitério e voltar a sepultá-lo num recinto prisional para sempre.
O caso é rocambolesco. Magnistski foi contratado para provar que o seu ex-patrão era um vigarista que lesara o erário público russo em vários milhões mas, ao investigar o caso, o agora réu-defunto concluiu que havia vigarice, sim, mas os bandidos eram outros. Para seu azar o líder da bandidagem era um polícia.
Magnitski, advogado de profissão, acabou preso e após uns meses de cativeiro sem acusação formal (nunca foi mais do que suspeito) apareceu morto na penitenciária onde o haviam engavetado. O caso complica-se com acusações de que o advogado trabalharia para o MI6 britânico, a aprovação de uma lei pelo congresso norte-americano que impõe sanções de vária ordem a todos os implicados, tendo Putin retaliado com a suspensão de um acordo que permitia a adopção de crianças russas por cidadãos dos EUA.
Pergunto-me qual será o desfecho deste processo. Que tipo de condenação poderá ser aplicada a um cadáver? O que está aqui a ser julgado? Qual poderá ser o objectivo disto? Tudo indica que Putin e os seus "muchachos" querem apenas limpar alguma porcaria atirando responsabilidades sobre a memória de alguém que não poderá defender-se.
De uma coisa está livre o defunto; não poderão condená-lo à morte. Quando muito poderão desenterrá-lo do cemitério e voltar a sepultá-lo num recinto prisional para sempre.
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segunda-feira, março 04, 2013
Dadaísmo eleitoral
O resultado das eleições italianas enervou os mercados e
muitos políticos de carreira. Parece que eleger um palhaço como Beppe Grillo
desagrada aos que acreditam que a Democracia só funciona se forem sempre eles a
desempenhar os papéis de maior relevo, em alternância, é bom de ver. Por cá
PSD/CDS e PS torceram o nariz à coisa. Sim, porque a Democracia tem custos,
como fez notar Zorrinho, o Relvas de Seguro, que pensa que é um Audi de alta
cilindrada que lhe confere credibilidade. Quanto a palhaços ficamos
conversados.
As manifestações contra a Troika e os seus Miguéis de
Vasconcelos juntaram muitos milhares de portugueses em protesto pelas ruas da
nação. Os manifestantes foram tantos e tão variados que, nos últimos actos
eleitorais, muitos deles terão, inevitavelmente, votado ora em Relvas, ora em
Zorrinho ou noutros seres vivos de idêntico calibre. Pelas ruas os portugueses arrastaram
no passado Sábado a sua amargura, mas o que irão fazer quando forem de novo
chamados a cumprir o frete do voto? É que, se somos governados por gente que
ninguém suporta, é preciso ver que esses governantes foram legitimados por
sufrágio universal e voto popular. Quantos dos que hoje protestam a liderança
de Passos Coelho votaram nele ainda ontem?
Desde que vivemos em Democracia (se exceptuarmos o PREC)
sempre fomos governados pelos partidos chamados do Arco do Poder. A cada novo
governo as negociatas foram a norma, umas vezes cor-de-laranja, outras
cor-de-rosa, com o camaleão CDS a raspar o fundo ao tacho. Agora até o PCP se
vem juntar à indigna interpretação da “lei” da limitação de mandatos. Cada qual
defende como pode a respectiva capelinha.
O que vamos nós, tristes manifestantes de fim-de-semana,
fazer quando formos de novo chamados a escolher os nossos homens-do-leme? Até
que ponto estaremos dispostos a arriscar uma votação tão dadaísta como a que
elegeu Beppe Grillo para o parlamento italiano? Cantar a Grândola é bonito,
comove até às lágrimas, mas não chega. É preciso inventar uma nova canção e
arriscar um futuro diferente.
Carta enviada à directora do jornal Público
terça-feira, fevereiro 26, 2013
Ladroagem
Quem diria que ainda havíamos de assistir ao roubo de graffitis? Uma das muitas pinturas murais de Banksy foi roubada em Londres e depois posta à venda num leilão em Miami! (ler aqui)
Enquanto continuamos a discutir se as pinturas nas paredes das cidades são ou não são obras de arte, já vai havendo quem não esteja interessado nas conclusões do debate e faça negócio (ou tente fazê-lo) roubando pinturas das ruas a que pertencem.
Banksy é um fenómeno a todos os níveis.
Enquanto continuamos a discutir se as pinturas nas paredes das cidades são ou não são obras de arte, já vai havendo quem não esteja interessado nas conclusões do debate e faça negócio (ou tente fazê-lo) roubando pinturas das ruas a que pertencem.
Banksy é um fenómeno a todos os níveis.
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sexta-feira, fevereiro 22, 2013
Vazio
Era um miúdo impaciente por poder baptizar um desenho ou uma pintura qualquer que ainda não tinha feito com o título de "sem título". Isso parecia-lhe excelente, sinal de uma maturidade irreverente, algo digno do seu inocente desprezo pelas coisas do mundo.
Nunca compreendi porque é que uma obra sem título necessita de uma etiqueta a comprovar que o título não existe. Se não tem título não seria muito mais significativo ignorar o assunto? A ausência de etiqueta seria, a meu ver, suficientemente eloquente.
É que "sem título" é um título. Ainda por cima banal, talvez o mais repetido de todos os títulos.
Nunca compreendi porque é que uma obra sem título necessita de uma etiqueta a comprovar que o título não existe. Se não tem título não seria muito mais significativo ignorar o assunto? A ausência de etiqueta seria, a meu ver, suficientemente eloquente.
É que "sem título" é um título. Ainda por cima banal, talvez o mais repetido de todos os títulos.
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domingo, fevereiro 17, 2013
Grunhidos
Cada vez mais nos fazemos entender por grunhidos. O nível de linguagem utilizado na comunicação vai descendo, descendo, descendo, até se perceber que não há fundo onde possa bater, apenas um poço que parece não ter fundo, uma queda infinita, asas que vão perdendo as penas, uma morte que nunca chega a morrer-se.
"Like", "iá", "tipo", "coiso", "giro", as palavras perdem densidade, perdem conteúdo, o significado reduz-se a quase nada (ou mesmo a nada, absolutamente). A comunicação é cada vez menos verbal, a imagem substitui o verbo, mas, ainda assim, é uma imagem fugaz, um lampejo, uma luz cintilante que se perde imediatamente nas trevas do grunhido animalesco. Não vemos, olhamos apenas para saber se "like" (quase sempre) ou se "don't like" (uma raridade).
Os grunhidos visuais ocupam o horizonte estético e fazem perigar o entendimento do ético. A arte visual balança na ignorância dos olhares destituídos de um verdadeiro e consciente espírito crítico. Vivemos a barbárie.
Quando grunhirmos, apenas, os porcos terão triunfado!
"Like", "iá", "tipo", "coiso", "giro", as palavras perdem densidade, perdem conteúdo, o significado reduz-se a quase nada (ou mesmo a nada, absolutamente). A comunicação é cada vez menos verbal, a imagem substitui o verbo, mas, ainda assim, é uma imagem fugaz, um lampejo, uma luz cintilante que se perde imediatamente nas trevas do grunhido animalesco. Não vemos, olhamos apenas para saber se "like" (quase sempre) ou se "don't like" (uma raridade).
Os grunhidos visuais ocupam o horizonte estético e fazem perigar o entendimento do ético. A arte visual balança na ignorância dos olhares destituídos de um verdadeiro e consciente espírito crítico. Vivemos a barbárie.
Quando grunhirmos, apenas, os porcos terão triunfado!
quarta-feira, fevereiro 13, 2013
Arrivederci!
Tal como a esmagadora maioria dos mortais também eu fiquei de queixo caído com a notícia da renúncia de Bento XVI ao cargo que Deus lhe confiara. Deus, decerto, terá sido o 1º a saber (Terá Ele sabido ainda antes do próprio Ratzinger? Estou em crer que assim foi.)
Bento XVI coloca uma nova questão: entre a dimensão humana e a divina fica o quê? Sim, porque João Paulo II mostrou à humanidade que o corpo humano não tem capacidade para conter a divindade.
O Papa Wojtyla penou a bom penar nos últimos tempos em que desempenhou o papel de representante de Deus na Terra. Torto de doença, decrépito e extenuado, carregou a cruz da sua suposta divindade até ir desta para melhor.
Imediatamente elevado à categoria duvidosa de Santo após bater a caçoleta, João Paulo II foi a imagem inequívoca da fragilidade dos mitos. Ratzinger veio colocar um ponto final a este exagero de forma. Ao renunciar, o Papa confessa-se humano e poupa-nos à desumanidade da mitologia católica apostólica romana.
Finalmente, no momento da despedida, Bento XVI ganha alguma da pouca admiração que o meu preconceito lhe poderia jamais dispensar. "Adeus ó vai-t'embora" como diz o povoléu. Que a vida te seja, finalmente, leve, ó Papa.
Bento XVI coloca uma nova questão: entre a dimensão humana e a divina fica o quê? Sim, porque João Paulo II mostrou à humanidade que o corpo humano não tem capacidade para conter a divindade.
O Papa Wojtyla penou a bom penar nos últimos tempos em que desempenhou o papel de representante de Deus na Terra. Torto de doença, decrépito e extenuado, carregou a cruz da sua suposta divindade até ir desta para melhor.
Imediatamente elevado à categoria duvidosa de Santo após bater a caçoleta, João Paulo II foi a imagem inequívoca da fragilidade dos mitos. Ratzinger veio colocar um ponto final a este exagero de forma. Ao renunciar, o Papa confessa-se humano e poupa-nos à desumanidade da mitologia católica apostólica romana.
Finalmente, no momento da despedida, Bento XVI ganha alguma da pouca admiração que o meu preconceito lhe poderia jamais dispensar. "Adeus ó vai-t'embora" como diz o povoléu. Que a vida te seja, finalmente, leve, ó Papa.
domingo, fevereiro 10, 2013
Lendo
Já há algum tempo não refiro por estas bandas os livros que vou lendo. Desde a última vez que o fiz e esta, onde volto a fazê-lo, li vários romances, contos e novelas, alguns que muito me agradaram, outros mais ou menos.
Mas agora estou a ler (finalmente) "Os Detectives Selvagens" (entretanto o "c", por ser mudo, vai caindo) de Roberto Bolaño, o único dos seus romances editados em Portugal que me faltava ler.
Escrevo este post porque hoje de manhã, quando lia mais algumas páginas, ocorreu-me que "genial", perante esta obra, é uma palavra que se esvazia de sentido. Dizer que "Os Detectives Selvagens" é uma obra genial é o mesmo que não dizer nada.
Durante a leitura sinto-me como aquela personagem de "Citizen Kane", o tipo que faz a investigação e que, para o espectador, nunca é mais do que uma sombra que se entrevê de costas.
Sinto-me um tipo que está ali, a recolher informação e que vai avançando numa complexa trama de testemunhos e acontecimentos como se vivesse um sonho (ou vários sonhos, uns dentro dos outros) sem saber onde irá ser conduzido no final; que maravilha estará reservada ou que horror inominável irei, por fim, encontrar?
Este é um livro que desejo que nunca acabe. Se houvesse a possibilidade de possuir um objecto literário interminável e eterno, se pudesse ter esse objecto para me acompanhar ao longo do que a vida me reserva, seria uma coisa como esta.
Mas agora estou a ler (finalmente) "Os Detectives Selvagens" (entretanto o "c", por ser mudo, vai caindo) de Roberto Bolaño, o único dos seus romances editados em Portugal que me faltava ler.
Escrevo este post porque hoje de manhã, quando lia mais algumas páginas, ocorreu-me que "genial", perante esta obra, é uma palavra que se esvazia de sentido. Dizer que "Os Detectives Selvagens" é uma obra genial é o mesmo que não dizer nada.
Durante a leitura sinto-me como aquela personagem de "Citizen Kane", o tipo que faz a investigação e que, para o espectador, nunca é mais do que uma sombra que se entrevê de costas.
Sinto-me um tipo que está ali, a recolher informação e que vai avançando numa complexa trama de testemunhos e acontecimentos como se vivesse um sonho (ou vários sonhos, uns dentro dos outros) sem saber onde irá ser conduzido no final; que maravilha estará reservada ou que horror inominável irei, por fim, encontrar?
Este é um livro que desejo que nunca acabe. Se houvesse a possibilidade de possuir um objecto literário interminável e eterno, se pudesse ter esse objecto para me acompanhar ao longo do que a vida me reserva, seria uma coisa como esta.
sexta-feira, fevereiro 08, 2013
Ataque terrorista?
Uma mulher "atacou" a célebre pintura de Delacroix "A Liberdade Guiando o Povo". A putativa terrorista acercou-se da obra, indefesa, e aplicou-lhe uma tão violenta quanto enigmática inscrição a marcador: "AE911" (ler aqui).
Este género de ataque é mais ou menos comum. Muitas foram as obras que, ao longo da história, sofreram mutilações ou outro tipo de alteração ao seu aspecto físico. Basta ver a quantidade estátuas romanas ou gregas (ou mais ou menos uma coisa ou outra) que se nos apresentam sem braços, com os olhos furados ou os órgãos genitais simplesmente arrancados à força de alguma martelada certeira.
Intervir directamente sobre um objecto exposto ao público confere ao acto uma visibilidade imediata, ainda para mais na nossa sociedade hipermediatizada e com a informação a viajar a uma velocidade próxima da velocidade da luz.
As intenções da "terrorista" de Lens (onde a obra de Delacroix se encontra temporariamente exposta) tem o seu quê de enigmático. Fosse qual fosse a intenção da senhora vândala, a verdade é que o seu acto correu mundo num instantinho e pôs muito boa a gente a rebuscar explicações para a tal inscrição.
A questão que se coloca é: será inteligente publicitar estes ataques? Se a intenção do atacante é publicidade o sucesso é estrondoso! E se ninguém falasse sobre o assunto?
Escrevo a frase anterior e constato a incongruência deste post. É que, de forma mais ou menos consciente, sinto-me cúmplice deste acto de terrorismo o que faz de mim (e, já agora, também de ti, caríssimo leitor) parte activa de um processo que, à partida, condeno (condenamos).
Será tanto assim?
Este género de ataque é mais ou menos comum. Muitas foram as obras que, ao longo da história, sofreram mutilações ou outro tipo de alteração ao seu aspecto físico. Basta ver a quantidade estátuas romanas ou gregas (ou mais ou menos uma coisa ou outra) que se nos apresentam sem braços, com os olhos furados ou os órgãos genitais simplesmente arrancados à força de alguma martelada certeira.
Intervir directamente sobre um objecto exposto ao público confere ao acto uma visibilidade imediata, ainda para mais na nossa sociedade hipermediatizada e com a informação a viajar a uma velocidade próxima da velocidade da luz.
As intenções da "terrorista" de Lens (onde a obra de Delacroix se encontra temporariamente exposta) tem o seu quê de enigmático. Fosse qual fosse a intenção da senhora vândala, a verdade é que o seu acto correu mundo num instantinho e pôs muito boa a gente a rebuscar explicações para a tal inscrição.
A questão que se coloca é: será inteligente publicitar estes ataques? Se a intenção do atacante é publicidade o sucesso é estrondoso! E se ninguém falasse sobre o assunto?
Escrevo a frase anterior e constato a incongruência deste post. É que, de forma mais ou menos consciente, sinto-me cúmplice deste acto de terrorismo o que faz de mim (e, já agora, também de ti, caríssimo leitor) parte activa de um processo que, à partida, condeno (condenamos).
Será tanto assim?
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terça-feira, fevereiro 05, 2013
Decadência civilizacional
Primeiro, o governo, quer legislar de forma a acabar com as smartshops onde o povo miúdo e os adolescentes encontram drogas maradas ao preço da chuva e, assim, aliviam a alma aos fins-de-semana.
Já se sabe que, de vez em quando, há uns quantos que vão parar ao hospital e os mais azarados podem mesmo ir bater com as costelas no fundo do buraco. Mas qual é o problema? São baixas colaterais na guerra contra a Crise, vítimas inocentes da luta contra o Tédio.
Da mesma forma que há crianças e velhos que são espalhados, aos bocadinhos, nas montanhas afegãs ou nas planícies paquistanesas, também aqui, no cú da Europa, há danos colaterais que se lamentam mas não podem evitar. Cada um tem a guerra que pode, alguns têm a guerra que merecem.
Mas, como se isso não bastasse, vem o governo investir ainda mais abaixo: querem fazer uma nova lei que proíba a venda de álcool a menores de 18 anos. Meu Deus!!! Que barbaridade é esta? Cortam nas drogas, cortam no álcool, o que vai restar à juventude nesta vida!?
O mundo está perdido.
Já se sabe que, de vez em quando, há uns quantos que vão parar ao hospital e os mais azarados podem mesmo ir bater com as costelas no fundo do buraco. Mas qual é o problema? São baixas colaterais na guerra contra a Crise, vítimas inocentes da luta contra o Tédio.
Da mesma forma que há crianças e velhos que são espalhados, aos bocadinhos, nas montanhas afegãs ou nas planícies paquistanesas, também aqui, no cú da Europa, há danos colaterais que se lamentam mas não podem evitar. Cada um tem a guerra que pode, alguns têm a guerra que merecem.
Mas, como se isso não bastasse, vem o governo investir ainda mais abaixo: querem fazer uma nova lei que proíba a venda de álcool a menores de 18 anos. Meu Deus!!! Que barbaridade é esta? Cortam nas drogas, cortam no álcool, o que vai restar à juventude nesta vida!?
O mundo está perdido.
sábado, fevereiro 02, 2013
Noites Brancas
"Noites Brancas" é o título da exposição patente na Fundação de Serralves que reúne um número muito significativo de obras de Julião Sarmento.
Pintura, escultura, vídeo, instalação, fotografia, a visita permite uma visão ampla e diversificada da obra deste artista considerado um dos nomes maiores da arte contemporânea portuguesa.
Estive lá ontem com os meus alunos em visita de estudo. Fiquei bem impressionado.
A exposição encontra-se aberta ao público até ao próximo dia 3 de Março.
Pintura, escultura, vídeo, instalação, fotografia, a visita permite uma visão ampla e diversificada da obra deste artista considerado um dos nomes maiores da arte contemporânea portuguesa.
Estive lá ontem com os meus alunos em visita de estudo. Fiquei bem impressionado.
A exposição encontra-se aberta ao público até ao próximo dia 3 de Março.
quarta-feira, janeiro 30, 2013
Morrer aos bocadinhos
A notícia é triste: Fecho de salas da Castello-Lopes deixa Açores, distrito de Viana e cinco cidades sem cinema. Além de significar mais umas dezenas de pessoas no desemprego representa uma espécie de regresso ao passado ou mais atrás ainda que o passado.
Desde que me lembro sempre houve uma sala de cinema perto de mim. Pelo menos uma, como era o caso do velhinho Cine Rossio que preencheu o meu imaginário ao longo da mais tenra infância e adolescência, quando vivia na cidade de Viseu. Depois (não sei bem quando) surgiu o Cineclube de Viseu que funcionava em salas mais ou menos improvisadas, com condições de projecção um tanto manhosas mas que passava filmes magníficos (foi numa dessas sessões, sentado numa vulgar cadeira de sala de jantar que vi, pela primeira vez, Andrei Rubliov, talvez o filme da minha vida).
É evidente que o mundo mudou, o acesso a filmes tornou-se algo banal. Primeiro com as cassetes de VHS, depois com os DVD e agora com a imensidão do mundo virtual online a relação dos indivíduos com a 7ª arte transformou-se; democratizou-se mas também perdeu qualidade.
Toda a gente sabe que não há nada como ver um filme numa sala de cinema. Vê-lo em casa, sentado no sofá ou deitado na cama com um laptop nos joelhos não tem comparação. É como ver uma pintura de Ingres ao vivo ou numa reprodução fotográfica, na melhor das hipóteses ficamos com uma vaga ideia sobre a qualidade do objecto.
O fecho de uma sala de cinema é sempre triste. É como ver o mundo a morrer aos bocadinhos. Já agora penso que seria de criar uma situação de excepção nestas zonas, cinematográficamente empobrecidas. Enquanto não houver possibilidade de a população ter, de novo, acesso a salas de cinema, ao menos que se permita a pirataria e o download ilegal seja legalizado. É o mínimo que se pode fazer pelos cidadãos.
Desde que me lembro sempre houve uma sala de cinema perto de mim. Pelo menos uma, como era o caso do velhinho Cine Rossio que preencheu o meu imaginário ao longo da mais tenra infância e adolescência, quando vivia na cidade de Viseu. Depois (não sei bem quando) surgiu o Cineclube de Viseu que funcionava em salas mais ou menos improvisadas, com condições de projecção um tanto manhosas mas que passava filmes magníficos (foi numa dessas sessões, sentado numa vulgar cadeira de sala de jantar que vi, pela primeira vez, Andrei Rubliov, talvez o filme da minha vida).
É evidente que o mundo mudou, o acesso a filmes tornou-se algo banal. Primeiro com as cassetes de VHS, depois com os DVD e agora com a imensidão do mundo virtual online a relação dos indivíduos com a 7ª arte transformou-se; democratizou-se mas também perdeu qualidade.
Toda a gente sabe que não há nada como ver um filme numa sala de cinema. Vê-lo em casa, sentado no sofá ou deitado na cama com um laptop nos joelhos não tem comparação. É como ver uma pintura de Ingres ao vivo ou numa reprodução fotográfica, na melhor das hipóteses ficamos com uma vaga ideia sobre a qualidade do objecto.
O fecho de uma sala de cinema é sempre triste. É como ver o mundo a morrer aos bocadinhos. Já agora penso que seria de criar uma situação de excepção nestas zonas, cinematográficamente empobrecidas. Enquanto não houver possibilidade de a população ter, de novo, acesso a salas de cinema, ao menos que se permita a pirataria e o download ilegal seja legalizado. É o mínimo que se pode fazer pelos cidadãos.
domingo, janeiro 27, 2013
Porquê?
Enquanto assistia a "Django Libertado", o mais recente filme de Mr. Tarantino, ia perguntando a mim próprio: "Porquê?" Qual a razão do falatório, da polémica, da discussão? O que tem este filme que outros de Tarantino não tiveram? Estão lá o sangue aos baldes, a violência súbita e desconcertante, as personagens carismáticas, os diálogos geniais, as citações ao cinema que Tarantino gosta de citar. Nem mais nem menos, exactamente assim, e, no entanto...
Talvez a polémica seja uma jogada de marketing. Deve ser isso. Sempre que um filme vem rotulado como polémico há mais espectadores interessados em ver... deve ser isso.
"Django Libertado" é um filme bastante razoável mas não chega aos calcanhares de "Sacanas sem Lei". É um filme que se vê com agrado e tem uma das melhores cenas que vi nos últimos tempos (a discussão entre os membros de um bando do Ku Klux Klan sobre as deficiências no fabrico dos capuzes com que cobrem as cabeças).
Fez-me recordar os western spaghetti, mostrou mais uma vez a mestria de Tarantino na encenação e trabalho de câmara... um bom filme, pronto, é bom, não apenas razoável como disse lá mais para trás mas não é uma obra-prima. Digo eu mas... quem sou eu para o dizer?
Talvez a polémica seja uma jogada de marketing. Deve ser isso. Sempre que um filme vem rotulado como polémico há mais espectadores interessados em ver... deve ser isso.
"Django Libertado" é um filme bastante razoável mas não chega aos calcanhares de "Sacanas sem Lei". É um filme que se vê com agrado e tem uma das melhores cenas que vi nos últimos tempos (a discussão entre os membros de um bando do Ku Klux Klan sobre as deficiências no fabrico dos capuzes com que cobrem as cabeças).
Fez-me recordar os western spaghetti, mostrou mais uma vez a mestria de Tarantino na encenação e trabalho de câmara... um bom filme, pronto, é bom, não apenas razoável como disse lá mais para trás mas não é uma obra-prima. Digo eu mas... quem sou eu para o dizer?
quinta-feira, janeiro 24, 2013
Opinião nublada
Aqui há dias fui, finalmente, ver "Cloud Atlas" a uma sala de cinema perto de casa. Fui com um pé atrás devido a críticas pouco elogiosas ou, no mínimo, críticas pouco entusiásticas. Não sei bem, parecia-me haver algum frio em volta do filme, uma ligeira sensação de desconforto.
Na sala, durante o visionamento, posso dizer que as baixas temperaturas que eu receava não se confirmaram, antes pelo contrário. É um filme visualmente muito interessante e com um ritmo narrativo estranho mas envolvente.
A caracterização das personagens tem apontamentos muito interessantes (no final é aconselhável ficar na sala para ver a apresentação de todas as personagens e respectivos intérpretes) e o constante cruzamento de tempos diferentes não chega a desconcertar. No final tudo se concretiza com razoável sentido.
Resumindo: um filme a ver com olhos limpos e sem preconceitos. Penso que a experiência valerá a pena.
A terminar, uma curiosidade: na China o filme está a ser exibido com cortes significativos (40 minutos menos). Ao que parece, certas cenas de cariz mais sexual (o filme é, nesse aspecto, bastante pueril!) foram retiradas por ordem dos censores do Império do Meio (ver aqui).
Na sala, durante o visionamento, posso dizer que as baixas temperaturas que eu receava não se confirmaram, antes pelo contrário. É um filme visualmente muito interessante e com um ritmo narrativo estranho mas envolvente.
A caracterização das personagens tem apontamentos muito interessantes (no final é aconselhável ficar na sala para ver a apresentação de todas as personagens e respectivos intérpretes) e o constante cruzamento de tempos diferentes não chega a desconcertar. No final tudo se concretiza com razoável sentido.
Resumindo: um filme a ver com olhos limpos e sem preconceitos. Penso que a experiência valerá a pena.
A terminar, uma curiosidade: na China o filme está a ser exibido com cortes significativos (40 minutos menos). Ao que parece, certas cenas de cariz mais sexual (o filme é, nesse aspecto, bastante pueril!) foram retiradas por ordem dos censores do Império do Meio (ver aqui).
quarta-feira, janeiro 23, 2013
Reunião
Imagino uma reunião magna num aprazível castelo em ruínas, algures na Transilvânia. Os participantes têm séculos de existência (não de vida) e possuem uma sabedoria milenar que escapa à compreensão dos comuns mortais. Em cada compartimento um caixão forrado a veludo vermelho.
Estes senadores do Planeta Terra mostram visíveis sinais de cansaço; já viram tudo, viveram tudo, sabem tudo. Toda esta sapiência lhes confere uma autoridade especial, eles têm o know how da sobrevivência, sabem perfeitamente o que devem fazer para controlar o andamento do mundo que nos rodeia. E controlam-no de acordo com os seus interesses.
O pormenor aborrecido é que, para garantir a sua sobrevivência, estes Senhores do Tempo, estes Mestres da Vida, necessitam de beber sangue; sangue fresco. Humano, de preferência. Muito sangue.
Imagino uma reunião magna da elite económica do nosso planeta.
Estes senadores do Planeta Terra mostram visíveis sinais de cansaço; já viram tudo, viveram tudo, sabem tudo. Toda esta sapiência lhes confere uma autoridade especial, eles têm o know how da sobrevivência, sabem perfeitamente o que devem fazer para controlar o andamento do mundo que nos rodeia. E controlam-no de acordo com os seus interesses.
O pormenor aborrecido é que, para garantir a sua sobrevivência, estes Senhores do Tempo, estes Mestres da Vida, necessitam de beber sangue; sangue fresco. Humano, de preferência. Muito sangue.
Imagino uma reunião magna da elite económica do nosso planeta.
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