domingo, janeiro 30, 2011

Os dias passam, continuam a passar. Terminei a leitura de um livro e comecei a de outro. Vi filmes que nunca vira. Visitei uma exposição. Tenho feito coisas. E não sinto o impulso de falar delas aqui, no 100 Cabeças. O que se passa? Não sei bem, embora ande a pensar nisso.

terça-feira, janeiro 25, 2011

Espelho meu


Havemos de conseguir ultrapassar a nossa condição de macacos especiais. Macacos que falam e riem e dançam e que conseguem imaginar-se diferentes daquilo que na realidade somos: simples macacos complicados.

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Tunísia


Imolem-se, berrem, barafustem e mandem o ditador às urtigas mas, por favor, façam a vossa revolução durante a época baixa. Obrigado.

domingo, janeiro 16, 2011

O medo



“O vírus da gripe A é o predominante em Portugal, tendo sido identificado em 63 por cento dos casos analisados no âmbito da vigilância epidemiológica da síndrome gripal do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge.” Esta notícia recente passou despercebida, quase uma nota de rodapé. Ninguém se sobressaltou nem houve alarme social. Está tudo tranquilo.

O ano passado por esta altura uma notícia deste género seria capa de todos os jornais diários e haveria profecias desgraçadas na abertura de cada serviço noticioso nos 3 canais de televisão em sinal aberto. Nesses dias longos artigos vasculhavam o medo colectivo e lançavam o pânico entre a população. O ano passado assistimos e vivemos uma das maiores campanhas mediáticas jamais lançadas na aldeola global, promovendo não uma vedeta pop ou um novo gadget tecnológico mas um vírus tão terrível que estava aí para nos fazer pagar os mais negros dos nossos pecados.

Porque estamos agora tão indiferentes ao dito vírus? Estaremos vacinados contra o medo? Não. Não estamos vacinados contra o medo, longe disso. As capas dos jornais e o serviços noticiosos na TV apenas mudaram a face do objecto que nos inquieta e nos tira o sono. Agora é a crise económica ou o juro da dívida pública. As pessoas sobressaltam-se, o alarme social berra, esganiçado e estridente, o mundo parece rodar ao contrário. Quem nos vale? Quem nos salva?

A comunicação social deixa-se levar (ou tem algum interesse?) nestes mind games em grande escala e transforma-se mais em veículo da paranóia do que em algo que a combata. A comunicação social alimenta o medo e o medo alimenta-se de nós todos, come-nos a vontade e o entusiasmo. Andamos perdidos, como baratas tontas.

O medo é a forma mais eficaz de tolher a liberdade. Uma sociedade amedrontada fica à mercê de homens providenciais e aceita a imposição de leis excepcionais que, de outra forma, recusaria com veemência. O medo faz de nós carneiros e nós, em vez de fazermos ouvir a nossa voz, limitamo-nos a balir. Somos animais para abate, seres vivos descartáveis. Os corpos, quando deixam de ser animados por sonhos, não valem nada. A nossa sociedade precisa de sonhos. Basta de ter medo.

carta enviada ao director do jornal Público

sábado, janeiro 15, 2011

Dúvida existencial


Quando compro um bilhete de teatro, o que estou eu a pagar para além daquele pedaço de papel? Que troca acabo de efectuar? É um mistério dentro da minha cabeça. Um mistério irresolúvel, confesso, uma coisa que imagino próxima do que é uma experiência mística. Mais logo talvez encontre alguma coisa parecida com uma resposta a esta dúvida que nunca antes tinha colocado nas prateleiras do meu pensamento embora sempre lá tenha estado mas mal arrumada.

quinta-feira, janeiro 13, 2011

Caveiras

A caveirinha


Na minha adolescência utilizávamos uma expressão que já esquecera e recordei hoje, a propósito de mais uma notícia sobre o trabalho artístico de Damien Hirst. A expressão era "o mais caveira" para designar alguém digno de admiração, alguém que se mostrava capaz de causar espanto fosse pelas suas atitudes, fosse pela sua capacidade de expressar ideias; "aquele gajo é o mais caveira, caraças!"

Hirst parece querer ser o mais caveira no mercado da arte. Depois da sua célebre obra "For the Love of God", uma caveirona em platina, coberta por 8 601 diamantes de 1 106 16 quilates (não percebo bem o significado destes números) a mais cara obra de arte portátil de todos os tempos, volta ao ataque com uma caveirinha revestida com 7 105 diamantes rosa e 1 023 diamantes brancos com o título "For Heaven's Sake". Hirst citando-se a si próprio, como é bom de ver.

Estas caveiras valem balúrdios, somas incalculáveis, algo que, no mercado da arte, pode muito bem acontecer. Mas, no caso das caveiras de Hirst, o valor é mais objectivo que noutros casos. Um urinol que vale milhões não entra na cabeça de ninguém; caveiras incrustadas com diamantes são imediatamente compreendidas. Assim não custa perceber o valor de uma obra de arte.

Como seria de esperar, esta caveirinha de bébé, lá causou alguma polémica. Algumas pessoas sentiram-se ofendidas com o brilhante objecto, principalmente pessoas que perderam filhos e não engolem o gesto artístico de Hirst. Este género de reacções nunca deixa de me surpreender. Há sempre alguém pronto a desatinar  seja qual for a razão ou a situação, há sempre alguém com um protesto à porta da boca. Hirst talvez agradeça ou simplesmente ignore tais protestos. Afinal de contas ele é o mais caveira!

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Um ano depois


A notícia não é surpreendente: "Um ano depois do terramoto, Port-au-Prince é uma cidade em ruínas" (ler aqui). Lembras-te, benevolente leitor, como o teu coração saltou apressado, faz agora um ano completo? Quando viste imagens tenebrosas de uma cidade caída sobre si própria com milhares de pessoas fechadas lá dentro? Durante alguns dias daquele mês de Janeiro não se falou de outra coisa.

A comunidade internacional, condoída da condição miserável do povo haitiano, jurou solidariedade, prometeu ajuda, mobilizou fundos e começou a obra de reconstrução do país. Durante algum tempo o Haiti entrou-nos pela casa dentro através da janela mágica da televisão e nós, cidadãos do mundo global, sentimos angústia e preocupámo-nos com aquele inferno revelado.

Depois... bom, depois o mundo, como é costume, continuou a rodar. Devagarinho, como só os planetas sabem fazer. Outras catástrofes aconteceram (não me lembro quais), novos acontecimentos mais ou menos espantosos ocuparam a paisagem da janela mágica, e o Haiti foi caindo para dentro de si próprio, esquecido e novamente abandonado à sua sorte. Triste sorte de país miserável e impossível.

O mundo global é assim mesmo: autofágico. Alimenta-se  principalmente das suas desgraças e, de vez em quando, lá come um ou outro acontecimento feliz à sobremesa. O consumo mediático é de tal forma voraz que não há desgraça suficentemente grande para resistir a mais que uma mão-cheia de dias  nos cabeçalhos dos jornais.

As desgraças alheias chocam-nos por momentos mas logo as esquecemos para nos ocuparmos com outras coisas mais preocupantes, as coisas mesquinhas do nosso quotidiano delirante. Mais do que a reconstrução do Haiti hoje preocupei-me com a necessidade absoluta e urgente de cortar o cabelo.

E fui ao barbeiro.
Ali, na cadeira almofadada, as questóes a abordar foram outras. Tu sabes, leitor, como são as conversas no barbeiro. Duram o tempo de um corte de cabelo e são moles, sem pingo de interesse, nem têm o glamour horripilante de uma boa notícia sobre uma catástrofe violenta. Conversas de merda, apenas e mais nada.

Quando saí para a rua recebi a benção do solzinho de inverno a bater-me na minha nuca destapada. Senti-me muito, mas mesmo muito, melhor.

domingo, janeiro 09, 2011

Ser Humano


Tentamos provar a nós próprios que não existe aquilo a que vulgarmente se chama "choque de civilizações". Esforçamo-nos por imaginar que as diferenças culturais profundas entre o Ocidente, democrático e capitalista, e o Islão, fundamentalista religioso e entregue aos caprichos de Alá, não são como feridas em putrefacção, antes se assemelham a cicratizes mais ou menos limpas de infecção. Não é fácil acreditar numa coisa destas.

O desconhecimento da realidade longínqua é quase tão grande como o da realidade que nos é próxima e familiar. Por muito que nos esforcemos na tentativa de encarar a diferença como algo normal, há coisas que nos fazem saltar as tripas para junto do coração. A notícia de uma manifestação a favor da manutenção da pena de morte por blasfémia, realizada no Paquistão (ler aqui), atinge-me como um soco no focinho.

Lendo bem a notícia vemos que foram apenas 20 mil os manifestantes, número que é uma ninharia até num país pequeno como é Portugal. Fazemos a toda a hora manifestações muito maiores. O que me choca não é o número mas o motivo. E penso "que se lixem!". Se é o que querem têm o direito de o ter. Ou não?

São coisas como esta que mostram como é impossível manter aquilo que designamos por Direitos Humanos. São coisas como esta que me mostram com clareza que "Ser Humano" é um conceito e não uma condição universal a todos os que, como eu, pertencem a esta espécie animal. Valerá a pena fazer guerras por causas deste género?

quarta-feira, janeiro 05, 2011

O dia em que choveram pássaros

 Um tordo-sargento chovido do céu

Em algumas localidades dos EUA o ano novo entrou de rompante, agitando a cortina de tule que cobre o nosso mundo com aquele aspecto que chamamos "realidade". Nesse dia (nessa noite) choveram pássaros.

O fenómeno de animais que chovem sobre nós não é novo e existem relatos variados com explicações que vão do sobrenatural à ciência mas que, sejam elas quais forem, não evitam o nosso espanto nem a maravilha absoluta.

Chuva de ratos, de rãs, de serpentes, de peixes ou, como terá acontecido no Brasil em 1968, de carne e sangue, não podem deixar ninguém indiferente, seja qual for a explicação.

No caso destes pássaros que choveram mortos a hipótese mais aceitável parece ser a de que foram sujeitos a uma experiência traumática, eventualmente provocada pelo rebentamento de fogo de artifício. A ser assim, os pássaros morreram de medo e desorientação. Uma coisa horrível.

A notícia deixou-me a pensar como será estar numa cidade sujeita a um bombardeamento nocturno. Uma chuva de bombas será, decerto, a mais aterradora de todas as chuvas. Que efeito provocará uma chuva de bombas nas pessoas, que ficam inquietas com uma simples cacimbada de tordos-sargento?

segunda-feira, janeiro 03, 2011

Amores sem fronteiras


Portugal sempre foi conhecido no estrangeiro pela forma como nós, os indígenas deste país, recebemos aqueles que nos visitam. Recebêmo-los com largos sorrisos e a esperança que eles gostem de nós.

Nem sempre são razões de interesse que estão na base dessa atitude. Parece-me um sentimento genuíno, alargado a uma grande parte da população. Talvez seja o facto de sentirmos que o nosso país é uma coisa atirada para um canto, perdido nos confins da Europa continental quase a caír no oceano. Tão próximos ficámos do Atlântico que passou a ser, também ele, parte do nosso chão e por aí fomos, a fugir dessa Europa madrasta que sempre pareceu escorraçar-nos.

Nos últimos tempos temos assistido a provas de simpatia extrema por parte dos nossos governantes. Primeiro foi o ministro da economia, Teixeira dos Santos, a ir dar umas beijocas e uns abraços aos amigos chineses. Agora o próprio Sócrates, esse expoente máximo do sorriso aberto (escrevi "aberto", não escrevi "franco") e primeiro entre os nossos ministros, foi mostrar a Dilma, a presidenta brasileira, como o Brasil é importante para nós e como Portugal pode ser importante para o Brasil.

Há por aí uns mal intencionados que sugerem que esta simpatia extrema dos nossos governantes não será genuína, que leva muita água no bico. Que serão a riqueza e a enormidade destes países, Brasil e China, que nos fazem sonhar com a vaga possibilidade de tirar Portugal do lamaçal económico em que se encontra atolado. Talvez... mas a gente até que gosta deles. Só esperamos, pelo menos, que eles gostem igualmente de nós.

sábado, janeiro 01, 2011

3 coisas 3



Ora cá estamos nós em pleno ano de 2011. Assim, à primeira vista, está muito parecido com 2010 (tive a impressão de que hoje a noite caiu mais depressa). Sei que, pelo menos, uma coisa será nova: pela primeira vez desde que me lembro o meu ordenado será reduzido.

Ao invés do habitual anúncio de um tímido aumento tenho a certeza de uma substancial redução. Ora isto é uma novidade. Não posso garantir que seja uma boa novidade mas também não posso negar que promete um ano novo com alguma originalidade.


No passado dia 30, ainda no ano velho, fui ao cinema ver Stone, um filme sem acção, apenas actores dialogando, representando, com vozes em fundo radiofónico, em reflexão constante sobre temas religiosos que servem de tapete ao restante argumento. Um filme interessante, com Ed Norton a brilhar extraordinariamente, bem suportado por um Robert De Niro no seu registo habitaul, sólido e pouco versátil. Depois temos Milla Jovovich que é uma espécie de joker, a carta que, não fazendo parte do baralho, está lá e, quando é jogada, transforma as coisas. Uma palavrinha ainda para a excelentíssima senhora Frances Conroy (ponho este link para que possas confirmar quem ela é) que ajuda (e muito) à eficácia global deste objecto cinematográfico. A ver.


Finalmente uma palavrinha para o futuro próximo. No dia 23 do presente mês iremos a votos para eleger o Presidente da nossa República das Bananas. Anda-se para aí a dizer que Cavaco Silva não vai dar hipóteses aos adversários, que são favas contadas e pronto. Porra! Que isto não faça desarmar aqueles que, como eu, têm vergonha de ser representados por aquele ser vivo. Mesmo que ele ganhe não vamos deixá-lo sossegadinho, a fazer o seu habitual número do anjinho papudo (que não é, nunca foi e muito menos alguma vez virá a ser).
Sei que as alternativas não são muito brilhantes mas existem. Como tal é importante que nos envolvamos na campanha, que escolhamos um candidato e votemos. Cavaco não pode continuar a passar entre os pingos da chuva sem se molhar. Vamos molhar esse gajo.

sexta-feira, dezembro 31, 2010

2010... 11


De que andas tu à procura quando não procuras nada?
Há, na tua cabeça, ecos de coisas que te esqueceste de pensar.
Amanhã é um novo ano, coisa de calendário.
Que te seja leve, é o meu desejo.
Beijos e abraços.

quinta-feira, dezembro 30, 2010

Ler


Acabei de ler o romance "Estrela Distante" de Roberto Bolaño. Se "2666" me tinha impressionado favoravelmente, com este 2º livro do autor chileno decidi ler tudo o que encontrar assinado por ele. O gajo escrevia de uma forma assombrosa. Quando leio Bolaño é como se estivesse a ler as coisas que gostaria de ter sido eu  a escrever, forma e conteúdo, e é perante a grandeza da sua escrita que compreendo como me falta arte e, sobretudo, como me falta vida. Resumindo, percebo como me falta tudo!

Diz o ditado que "não há bela sem senão"; e o senão nesta história de contornos felizardos é a edição que me foi oferecida no dia de Natal. A coisa saiu com a chancela da Teorema e além de uma capa assim a dar para o muito ranhoso tem um conjunto de gralhas e descuidos vários, capazes de irritar o mais santo dos leitores, pormenores que sugerem que a edição foi feita à pressa ou então com falta de tempo.

Nada que impeça a leitura deslumbrante de mais esta história negra como a noite escura, contada com um brilho capaz de ofuscar a luz do sol. Decerto exagero nos elogios, mas não faz mal, Bolaño merece o exagero.

segunda-feira, dezembro 27, 2010

Coisas redondas


Aproxima-se o final de ano e surgem as tradicionais listas das coisas mais importantes do ano. Ele são os 10 melhores livros ou as 100 pessoas mais glamorousas, as 50 medidas do governo para atacar a crise, listas sempre compostas por números redondos.

Não encontramos os 11 melhores discos nem os 27 cientistas mais relevantes no panorama internacional. Nada disso. As listas têm sempre 10, 50, 100 elementos, como se esses números encerrassem alguma espécie de magia sobrenatural (que a magia do costume, a magia do quotidiano, não impressiona por aí além).

Esta redondice numérica deixa-me sempre a pensar que há-de haver por aí muita injustiça. Ou alguém (ou alguma coisa) entra na lista indevidamente, só para arredondar, ou então cai fora por estar a estragar a beleza da coisa.

A partir de agora vou dedicar-me a procurar as coisas (ou as pessoas ou o que quer que seja)  que estão a mais ou a menos nestas listas, as pontas indesejadas ou os elementos integrados apenas para embelezar.

Nesta minha nova busca descobri que a elaboração de tais listas redondas é, por si só, absolutamente redundante. Percebi que as listas são feitas apenas porque sim e apenas não seriam feitas porque não.

Daí que este post seja, tal como essas listas, uma espécie de coisa nenhuma, uma coisa redonda e imperfeita, como apenas as coisas redondas podem ser. A minha busca acabou mal tinha sido iniciada.

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Plásticos

Os homens dos anúncios publicitários não têm pêlos. Não têm pêlos no peito, nem na cara, nem nas pernas, são pelados. Mais barbeados que o rabinho de um bébé, tão lisos e limpos como o chão de um corredor de hospital futurista. São avatares do homem que aí vem, o homem que já quase existe e não tarda em chegar. Representam a imagem do homem desejado pela sociedade de consumo pós-industrial.

Seja por obra e graça do Photoshop ou da depilação a laser, são homens-bonecos, próximos da coisa de plástico, como se fossem todos clones do namorado da Barbie, reproduções baratas de estátuas gregas para vender a pataco. A invenção desta new thing parece dizer-nos ao ouvido: vê lá se te aperaltas e te deixas de merdas pois isso é que é importante e faz a felicidade brilhar. Revoluções? Isso é coisa de tipos feios e barbudos, cheios de pêlos, como os macacos.

Como será o Pai Natal, sem barba nem barriga de cerveja, representante de uma masculinidade lisa como um saco de plástico?

sábado, dezembro 18, 2010

Uma suspeita

Não sei se sentes o mesmo que eu, caro leitor. Eu sinto que, apesar de o tempo passar e ir deixando marcas no meu corpo, alterando-me o aspecto exterior, por dentro, naquilo que, penso, seja a minha alma, não noto alterações tão profundas quanto as rugas que agora me desenham o rosto. Lá no fundo (cá no fundo) continuo a ter os impulsos e os anseios que sempre tive  desde que me lembro de me lembrar de alguma coisa.

Na essência não me parece que esteja assim tão afasatado quanto seria de esperar daquilo que fui em criança. Suspeito que sou, que todos somos, crianças envelhecidas, crianças grandes, mas crianças.

Inventamos formas de imaginar que o crescimento do corpo implica o crescimento da alma. Que a idade adulta é muito diferente da imperfeita adolescência, que a adolescência é demasiado próxima da infância, mas cada vez mais me convenço que as coisas não são assim tão claras, muito menos são evidentes.

A idade adulta apenas dificulta a aceitação de que continuamos com desejos e impulsos infantis. Queremos continuar a ter tempo livre para brincar mas, como isso é complicado, passamos a transferir o espírito das nossas brincadeiras infantis para as relações de trabalho, para o quotidiano delirante que vivemos. Porque a vida é um eterno delírio.

Se assim for, mas posso perfeitamente estar enganado, fica explicada a razão de tanto desmando na superficie do planeta, tanta confusão e desgoverno nas nações, fica explicado o falhanço da sociedade patriarcal em que nos vamos, paulatinamente afundando. Os grandes chefes de estado não são mais que crianças tristes e angustiadas, os donos das empresas multinacionais são como adolescentes maldosos e rassabiados, todos eles, todos nós, saudosos do amor materno e do conforto uterino, memória para sempre perdida.

Imagino que a solução para os males do mundo seja entregar, de uma vez por todas, o poder às mulheres. Apenas uma mãe poderá por em ordem as nossas cabeças desorientadas de crianças.

sábado, dezembro 11, 2010

O sintoma


O “Caso Assange” está a deixar atrás de si um rasto de destruição do tecido democrático que poucos conseguiriam imaginar aqui há uns meses atrás. Mas essa destruição não é o que está a degradar a democracia. O que a Wikileaks tem vindo a destruir com uma eficácia robótica é o véu difuso que cobre aquilo a que chamamos “democracias capitalistas”, deixando a céu aberto alguns esgotos fedorentos que nos têm sido apresentados como canalizações seguras de água potável.

Muita gente se insurge contra o facto de Assange apontar baterias ao império americano deixando fora da vergonha que tem exposto os “impérios do mal” chinês ou russo. Essas pessoas afirmam que se está a destruir um dos mais preciosos bens das “democracias capitalistas” que é o segredo em que se fabricam discutíveis negócios diplomáticos, como se a falta de escrúpulos e a gula dos mais poderosos fosse uma espécie de direito divino a que nós, os basbaques da ordem, não temos o direito de assistir.

Não vejo esses a questionar o facto de o nosso Estado Social estar a ser assassinado pela concorrência desleal entre economias que assentam em paradigmas opostos. Abrimos os mercados internacionais à concorrência feroz entre sistemas que nada têm em comum no que diz respeito aos direitos dos trabalhadores. Por isso vemos com a maior das naturalidades as empresas multinacionais a “deslocalizar” os seus centros de produção para países onde trabalho é sinónimo de escravatura, atirando milhares dos nossos para o desemprego e a miséria e achamos normal. São as regras do jogo. O lucro tudo justifica da mesma forma que o segredo diplomático. Os fins justificam os meios. Isto não me soa nada democrático.

A Wikileaks é um sintoma da doença que vem corroendo as democracias ocidentais, não é a doença, em si. O que temos agora perante os nossos olhos é a evidência de algo que há muito suspeitávamos, o declínio do nosso império planetário é imparável. Fecha-se o ciclo de dominação do Ocidente iniciado com as viagens marítimas dos europeus e o seu superior desenvolvimento tecnológico, político e social que culminou no domínio colonial sobre o resto do mundo. Com o fim dos impérios coloniais estamos agora, teoricamente, em pé de igualdade com aqueles que explorámos e humilhámos ao longo de séculos. É tempo de ajuste de contas e a porrada que estamos a levar não é bonita de se ver, aqui deste lado.

A Democracia à moda da Grécia Antiga, que foi o nosso orgulho e a nossa bandeira durante a segunda metade do século XX, está toda esburacada e mais suja que uma fralda de recém-nascido. Já não faz sonhar ninguém nem mobiliza multidões de idealistas convictos. Vendemos a Democracia ao capital e o que temos em troca é esta deterioração do nosso modo de vida em função de uma natural ascensão de países não democráticos à condição de potências dominantes num mundo economicamente globalizado. Trocámos um ideal de civilização por uma sociedade selvagem alindada por uma mão-cheia de gadgets tecnológicos, onde os grandes comem os pequenos sem remorso nem a mais pequena sombra de hesitação.

O que a Wikileaks está a fazer é apenas despertar a consciência que temos da decadência do império.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Sossego ou medo?


Toda esta história em volta de Assange me deixa a pensar em várias coisas, nem sei bem qual delas a mais desagradável.

Fico a pensar que  toda a histeria democrática com que bombardeamos regularmente os chineses por não permitirem um espaço de informação e comunicação aberto e sem censura não passa disso mesmo, histeria. Histeria e cinismo porque, afinal de contas, a liberdade de expressão não é assim tão radical como se pensa.

Penso também que o sonho de uma sociedade aberta e governada por personagens interessadas no bem comum é mais um pesadelo que outra coisa. Lá por trás anda tudo metido em cenas pouco edificantes e o que passa para os canais de informação convencionais são meros contos fantásticos. Quando alguém mete a boca no trombone e deita cá para fora hsitórias verdadeiras que desconstroem os tais contos fantásticos está a arriscar a pele. Isso não deveria acontecer mas, como podemos constatar com o caso de Assange, é o que acontece, de facto.

Finalmente, uma dúvida: o que é melhor para as sociedades democráticas, saber o que se passa ou viver na ignorância e na ilusão? A ignorância sossega, a verdade assusta?

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Em fuga no espaço virtual


O amigo Assange está feito num oito. Realmente não sei bem do que estava ele à espera ou de que estavamos nós à espera que lhe acontecesse a ele e ao seu terrível site da Wikileaks. Após os verdadeiros assaltos à imagem da administração norte americana e aos abanões que as revelações da Wikileaks têm dado à credibilidade (ou, pelo menos, à seriedade) de uma parte dos dirigentes mundiais, o que poderia Assange esperar da vida?

Perseguições, é bom de ver. Perseguições a ele e ao seu site que vem sendo empurrado e apagado aqui e ali, pelo espaço virtual fora. O que a Wikileaks faz não é particularmente elegante. A discussão em torno dos métodos e dos conteúdos tem sido grande. Mas, não sendo elegante, tem a eficácia de uma martelada no dedo grande do pé.

Assange anda por aí, em fuga. Martelou demasiados dedões e com demasiada força. Esperemos que consiga continuar a escapar-se e  a dar marteladas a torto e a direito.

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Finalmente, um pouco de beleza no mundo!


O trabalho da Wilkileaks é como um raiozinho de sol a aconchegar uma abelhinha que retira o pólen a uma delicada flor num imenso prado, outrora verde. A beleza da coisa tem também a ver com o facto de haver já dissidentes da Wikileaks que criticam a actual orientação do site por se centrar demasiado nos EUA e se manifestam dispostos a criar outro site do mesmo género, coisa linda como esta mas com vistas mais alargadas, depreende-se.

Entretanto a Interpol emitiu um mandado de captura internacional contra Julian Assange que lhe terá escapado à justa ainda esta manhã, ou ontem, ou lá quando foi. Não pode haver uma coisa bonita que não desperte a inveja ou a falta de sentido estético dos mongas que governam este mundo. Anda tudo doido por deitar a pata ao bom do Julian, o esteta.

Assange verteu uma boa dose de beleza neste mundo a desfazer-se em merda ao destapar a fossa, mostrando o aspecto real da coisa; feiosa, miserável, mesquinha, uma monstruosidade, é o que é o mundo que nos encaixa nos nossos corpos e oprime as alminhas que os animam.
Espero que Assange escape e continue a produzir estes momentos únicos de beleza resplandescente.