sexta-feira, novembro 05, 2021

A Lei

    O fim de uma coisa significa o início de outra? Haverá um encadeamento de situações mais ou menos catastróficas que se estenda infinitamente? O mundo a desenrolar-se diante de si próprio, magnífico e sem fim, indiferente aos deuses e à sua mútua destruição?  

    A Lei de Lavoisier é a única verdade comprovada. Teremos apenas que extrapolar da Natureza para o Universo: "No Universo nada se cria, nada se perde, tudo se transforma". Transforma-se a matéria, transforma-se o sonho, transforma-se a realidade, nunca nada é como é eternamente.

segunda-feira, novembro 01, 2021

Yupi

    Hoje é aquele dia confuso. Os mais velhos chamam-lhe "de todos os santos" ou "de finados", é o dia dos mortos. Ontem foi o "halloween", para a pequenada. Há aqui uma quase sobreposição nas datas e uma certa confusão nas celebrações. 

    O "halloween" é uma importação um bocado forçada que confunde os mortos com monstros e a putalhada confunde monstros com gulodices. A celebração da memória dos antepassados acaba por misturar-se com uma parada de monstrecos estapafúrdios, numa espécie de Entrudo meio imbecil e fora de tempo. 

    O 31 de Outubro acaba por ser um dia um bocado tolo. Não é nosso, nem sequer pode ser ainda considerado uma tradição. É como substituir as touradas por rodeos e fazer de contas que foi sempre assim, tudo com chapéus de caubói a gritar "yahoo" nas bancadas e a comer "hot dogs" enquanto na arena os touros são montados e não espetados com farpas nem pegados por tipos com calças demasiado apertadas nos tomates.

    Mas pronto, é o tal mundo global onde tudo era de plástico mas agora vai passar a ser de algum material alternativo que permita cores berrantes e brilhos despropositados. Um dia seremos todos americanos e gordos como bisontes pelados. 

    Yupi.

Luta desesperada

    É muita hipocrisia. Dizemos que queremos salvar o Planeta, como se o Planeta dependesse de nós. Deveríamos dizer que queremos salvar a nossa Civilização, nem sequer a Espécie Humana mas sim o regime capitalista que nos devora.

    Pessoalmente não estaria muito para aí virado, salvar o capitalismo, mas a verdade é que estou viciado no modo de vida que este regime me permite. Não imagino outro modo de vida. Temo o desaparecimento de certos luxos, uns maiores outros menores; impressionam-me o desaparecimento de outras espécies animais, o aquecimento global, os continentes de lixo flutuante mas continuo a viajar no meu carro a gasóleo e a utilizar os meus sacos de plástico. 

    Sei que as grandes empresas e aqueles que delas beneficiam a um nível que nem sou capaz de imaginar, vão fazendo com que me sinta culpado por ser um dos milhares de milhões de Seres Humanos que poluem o planeta. São capazes de me tornar inimigo de mim próprio. 

    E eu luto contra mim. Umas vezes ganho, outras vezes perco a luta. Luto todos os dias, desde que acordo até que fecho os olhos e mergulho no universo dos sonhos. Sou um lutador incansável. Umas vezes ganho, outra vezes perco. Luto comigo próprio, sinto cada golpe e respondo na mesma moeda. É uma luta desesperada.

sexta-feira, outubro 29, 2021

Fome e sede

    Continuamos a necessitar de alguém que exija o impossível. Se ficarmos pela reivindicação daquilo que o mundo está disposto a oferecer-nos, se nos conformarmos a esperar a benevolência dos coiotes sociais, então estamos fritos, amigo leitor. Estamos fritos.

    Há muito que aprendi a pedir 1000 se espero obter 100 ou mesmo 10. Lutar pela mais tremenda das utopias é a única forma que temos de nos abeirarmos de um mínimo de justiça social. Ser modesto na exigência é coisa de católico alienado, é coisa de quem espera retribuição na outra vida, quem espera recompensa depois da morte. Eu estou vivo e interessado em viver o melhor que possa.

    Peço desculpa, Senhor, mas não acredito na bondade dos ricos, não acredito na magnanimidade dos poderosos. Acredito apenas na fome e na sede de justiça.

terça-feira, outubro 26, 2021

Tempestade

    A alegria é uma tempestade na alma que quando amaina fica um mar chão de tristeza.

    Então atiramos o olhar lá para a linha de horizonte na esperança do regresso de um relâmpago seguido de eufórico trovão.

    Lá vem, de novo, tempestade. É a alegria que regressa.

quinta-feira, outubro 21, 2021

As ruas do meu sonho

Não vejo ninguém passeando nas ruas do meu sonho. Longas sombras marcam o fim do dia, fronteira nocturna. Pairamos na penumbra. Ruas vazias, solitários cães à sorte abandonados. Comboio que ecoa no esquecimento. Espaço metálico, melancólico vidro sujo sobre alcatrão infinito. Estão vazias, as ruas do meu sonho. E tu não voltas, o regresso é impossível. Nunca mais serei o que já fui. Nem mesmo nas ruas do meu sonho.

sexta-feira, outubro 15, 2021

O pedido

     Agora via como fora ridículo ao puxar o lustro aos galões por serem galões tão modestos; o latão não tem o esplendor brilhante da pepita de ouro. Imaginava o constrangimento do outro que, quando o olhou, parecia ter vontade de chorar - decerto não o imaginara  tão mesquinho nos sonhos, tão servil no momento de pedir - via-lhe agora nos olhos o choro a transformar-se em riso. Entre a compaixão e o gozo a distância de um momento.

    Arrependeu-se tanto de ter aberto em si aquela janela debruçada sobre o horizonte de quem é. Caíra-lhe o céu, ficou-lhe a sombra. Pediu ao chão que se lhe abrisse debaixo dos pés mas o chão, indiferente, permaneceu. Há coisas que nunca mudam. Quando nascemos no meio do estrume dificilmente nos habituaremos às discretas nuances do perfume.

     Não sabia se havia de chorar, gargalhar ou fugir dali para fora. Ficou o silêncio, especado no soalho que brilhava como louco batido pelo sol do meio-dia.

    

sábado, outubro 09, 2021

Fugir

     Todos nós sentimos uma ou outra vez um certo fastio em sermos quem somos. Quem nunca se cansou de viver consigo próprio que atire a primeira pedra! Falando por mim: não é raro querer fugir da minha própria companhia. O problema reside em que estratagema experimentar na tentativa de evasão.

    Os truques disponíveis não são assim tantos nem particularmente eficazes e insistir na fuga poderá ter resultados catastróficos. O melhor será fazer tentativas esporádicas.

    Quando, por vezes, a fuga é coroada de sucesso sentimo-nos reis do mundo, por um momento que seja. Mas há um problema irresolúvel: acabamos sempre por regressar. Ao nosso corpo, à nossa vida, enfim, é impossível fugirmos daquilo que somos.

    Parece-me insofismável afirmar que o corpo acaba sempre por triunfar sobre a mente. Mesmo quando alguns de nós perdem a noção do Ser acabam a vegetar dentro de si próprios, como cães perdidos a farejar num cemitério; não é fuga, é esquecimento.

    Resta-nos então a morte, esse imenso mistério.

Nota: tenho andado a ler Nada a Temer de Julian Barnes, uma longa reflexão sobre a morte.

sexta-feira, outubro 08, 2021

Matar a fome

     É possível uma pessoa ter baixas expectativas em relação a um certo acontecimento e, ainda assim, ficar desapontada com o seu desfecho? Sim, claro! Porque não? É aquela cena da Lei de Murphy ou lá o que é. Estás lixado? Espera e verás o que é bom e o que é bonito.

    É possível sentir desapontamento e, ainda assim, fingir que está tudo a correr da melhor forma possível? Também. Será uma espécie de ironia positiva, o sarcasmo ao serviço das coisas boas. E das bonitas. É um gajo a torcer o volante durante o despiste na tentativa de evitar aquilo que já está a acontecer naquele momento. Deve uma pessoa desistir perante o inevitável? Nunca! Jamais!

    Resumindo: podemos viver em simultâneo o pior e o seu contrário? Depende de ti, acho eu. Depende da tua capacidade para engolires sapos imaginando-os príncipes encantados (no caso da Lei de Murphy) ou imaginando-os belos frangos assados. Tudo depende da tua capacidade te enganares a ti próprio, enganando o mundo que te rodeia.

    Pela conversa vejo que já te perdeste há um bom bocado e que aquilo que dizes deixou de fazer sentido logo no primeiro parágrafo.

    Porra! Nunca te deixas enganar!

    A tua capacidade para te enganares a ti próprio não é particularmente brilhante.

   Estou com fome. Vou comer qualquer coisa.

quinta-feira, outubro 07, 2021

Robots

    Muito raramente lá aparece um comentário neste blogue. Abro a caixinha e... é mensagem de um robot. Não fico desiludido, nem desalentado, nem acabrunhado, nem antes pelo contrário. Estou habituado ao eco silencioso da zumbisfera, sei que poucos humanos se deslocam nesta ruína abandonada. Dou por mim a sorrir e a pensar como será quando o mundo "real" ficar assim, semelhante à zumbisfera, um habitante aqui, outro ali, sobrevivendo de memórias e ténues esperanças. Quando encontrar um robot na rua for tão reconfortante como encontrar a nossa tia velhinha que já não víamos há um ror de tempo.

    Estes robots que habitam as caixas de comentários têm dois tipos diferentes de personalidades (a expressão aplica-se a robots?): uns tentam convencer-te de que ficaram agradados com o teu blogue e teriam todo o prazer em que retribuísses a visita; outros atacam logo com um lugar virtual, sem conversas prévias nem qualquer tipo de simpatia artificial, impõem-se sem rebuço. Sim, porque neste mundo tudo corre o risco de se tornar artificial, mesmo nós.

    Seja como for podes apenas ignorar o robot, não é relevante. Por enquanto podemos virar-lhes as costas, fingir que não existem. Será assim para todo o sempre?

quarta-feira, outubro 06, 2021

Na fronteira

Sinto-me a existir cada vez mais próximo de uma fronteira que separa aquilo que sou daquilo que esperam que eu seja. Essa fronteira sempre esteve lá mas o longe vai-se fazendo perto. O passar dos anos é caminho que vai sendo feito e parece-me que avisto já a guarita do guarda alfandegário.

Estar mais velho provoca-me situações de alguma vertigem, algum desconforto. Principalmente quando estou com pessoas mais jovens e conversamos. Seja qual for o tema há sempre uma história a propósito que posso contar. A sério? Que seca! Talvez devesse calar a boca, mas não, dou por mim e já avanço em passo de corrida história adentro. Arrependo-me sempre tarde de mais.

Depois começa a acontecer-me não ter a certeza se já contei aquela história àquela pessoa.

O guarda alfandegário tem uma farda cinzenta (ou será azul clara?) e está a ler um jornal enorme, com folhas que parecem lençóis. Uma ligeira brisa dificulta-lhe a leitura e ele parece irritado. Acho que me vou sentar um pouco e esperar que tudo passe ou, pelo menos, que tudo acalme. Então será tempo de avançar.

segunda-feira, outubro 04, 2021

Cínico

Estava para aqui a pensar que o exotismo é algo exageradamente valorizado e que a banalidade nem sempre merece o desprezo que lhe atiram à cara. Pensava também que nem a riqueza é assim tão apetecível. Por cada rico que se pavoneia neste mundo há milhares (ou milhões) de miseráveis que lhe enchem a peida. Estava para aqui a pensar que muito do glamour que nos preenche o imaginário tem o brilho de lixo polido com luva branca. E muito do lixo que atiramos ao rio acaba a flutuar.

Não estou a fazer grande sentido, e depois? Fazer sentido não depende de mim. Depende de ti, depende de nós.

Estava para aqui a pensar que a vida não tem assim tanto valor porque se tivesse havíamos de olhar uns para os outros com olhos mais límpidos e coração mais aberto. Se a bondade verdadeiramente importasse não seríamos tão cínicos.

Talvez o problema resida na certeza de que um dia vamos todos morrer.

Caramba! Que coisa, que conversa tão banal. Que pobreza, que discurso tão sujo! Quanto cinismo, benza-me Deus!!!

sexta-feira, outubro 01, 2021

Ser zombie

Ser um zombie e saber o que se é custa e dói. Nem sempre me apercebo dessa minha condição de morto-vivo (umas vezes mais morto outras nem por isso) mas a sensação está lá, alojada nalguma prega do meu cérebro. Zomzomzomzomzom, a moer, a moer, a moer, zom, zomb, zombi, zombie!

Quando a coisa bate, olho em volta e vejo. Vejo os outros que, como eu, arrastam os pés, caminhando todos na mesma direcção, olhares vazios, caras pálidas uns, apáticas outros, narizes a apontar ao peito, muitos. Raspamos a plataforma com as solas dos sapatos, dos ténis, das botas, das sandálias, a variedade dos trapinhos dá-nos uma falsa sensação de individualidade.

Não! Somos todos iguais perante a morte, na putrefacção e na morte. Aquele já não tem nariz, o outro perdeu parte do couro cabeludo, a senhora do vestido vermelho precisa de encontrar umas pernas ou então nunca mais vai sair dali. 

Talvez até fosse divertido.

sexta-feira, setembro 24, 2021

Conversa de merda

Se pudesse fazer acontecer aquilo que desejasse... um acontecimento apenas, aquilo que desejasse, como o Aladino... seria eu capaz de pensar no planeta e esquecer o corpo que me alberga? Se pudesse salvar a Humanidade invocando um milagre qualquer (que de momento não me ocorre) ou, em alternativa, pudesse garantir uma vida magnífica para mim próprio nos anos que me restam e para a minha descendência enquanto durar a Eternidade... qual seria a minha escolha?

Suspendo por momentos o acto de pensar. Retomo a actividade e percebo que estou a fazer uma reflexão de merda. Vou visitar aquela exposição ou fico em casa? Esta sim, é uma dúvida importante no futuro imediato.

terça-feira, setembro 21, 2021

Morte aos feios!

Nos últimos dias tenho matutado sobre as qualidades exigidas (ou não) aos candidatos às eleições autárquicas do próximo Domingo. Sendo esta a disputa eleitoral mais abrangente, a que exige um maior esforço popular de participação em termos de disponibilidade para o exercício de cargos na "coisa pública", era de esperar que surgissem uns quantos cromos. Perfeitamente natural.

Não estava era preparado para a enormidade de certos cromos que vão aparecendo. Alguns são maluquinhos de camisa-de-forças, sem tirar nem pôr.

Para ser professor é-me exigido um certificado de "robustez física e mental". Ok, eu sei como esse documento é lavrado, mas não deixa de ser uma exigência que tenta evitar que as crianças fiquem expostas a algum maluquinho-de-hospício. E para ser presidente da junta? Pode um candidato ser completa e absolutamente lunático? Pelos vistos pode.

Estou para aqui preocupado com meia dúzia de juntas de freguesia e uma ou outra câmara municipal perdidas no portugalzinho profundo, quando os dois maiores exemplos de malucos perigosos eleitos o foram para a presidência da república. Do Brasil e dos Estados Unidos. Nestes casos com a agravante de terem sido eleitos dois sociopatas narcisistas e, ainda por cima, feios pra caralho. 

Caso para proclamar a "morte aos feios"?

sexta-feira, setembro 17, 2021

No future

No future. A velha palavra de ordem que tanto me fez saltar e espernear quando era ainda um teenager sem juízo que pudesse ignorar parece estar de regresso. O contexto é outro, a envolvência muito diferente mas, imagino eu, a sensação de vazio que ora te põe em pulgas ora te deixa prostrado é decerto semelhante.

Nos anos 70 o problema era a Guerra Fria e a iminência de uma guerra nuclear que arrasasse o planeta de um momento para o outro. Esta pressão constante fazia com que fosse urgente viver tudo, "a vida num só dia", aproveitar cada minuto para rebentar a cabeça e explodir em delírio permanente. A música punk é uma boa metáfora de como nos sentíamos.

Neste final do primeiro quartel do século XXI o problema é a certeza da degradação das condições de vida sobre o planeta devido à poluição e às alterações climáticas. Embora saibamos qual o final anunciado devido aos constantes spoilers produzidos pelos cientistas sobre a História da Humanidade, não somos capazes de evitar o desastre. A nossa sociedade global já não consegue travar a tempo de evitar o mergulho no precipício.

Antes o temor da morte súbita, agora a certeza da morte lenta. Isto não são invenções ou delírios juvenis, são coisas que acontecem. O Ser Humano não tem hipóteses de ser outra coisa a não ser predador de si próprio. Somos como o tal escorpião que atravessa o rio no lombo do sapo.

terça-feira, setembro 14, 2021

Magia a preto e branco (outras vezes com cores)

                                           Monstro, canetas de gel sobre papel, 50X65cm

 

Tenho receio de ser mal compreendido. Tenho receio de ser demasiado bem compreendido. Do mesmo modo, tenho receio de eu próprio não ter compreendido. O melhor é deixar cada um compreender aquilo que for capaz de compreender e não pensar mais nisso, deixar a coisa passar e fazer outro desenho. É sempre assim, após realizar um desenho começo a pensar no seguinte. 

É como um rio de imagens que nasce algures dentro da minha cabeça e corre por mim abaixo até me encontrar as pontas dos dedos e as canetas, os pincéis, os pastéis, os lápis, os tubos de cola, as tesouras, as superfícies de suporte. Aquilo vai tudo de enxurrada! Plof, catrapumbas, slooooosh... as imagens ganham forma e têm sempre um título.

Forma e conteúdo, técnica e narrativa. Esta magia é maravilhosa. O que está ali, naquele papel, naquela imagem? Tantas coisas, tantos mundos, tantas histórias diferentes. Esta magia é maravilhosa...


terça-feira, setembro 07, 2021

Mais um dia no reino da tua cabeça

O dia hesita em começar apesar de trazer a minha cabeça ligada há já uma hora, um pouco mais ou menos. Arrasto-me para aqui, empilho meia-dúzia de livros, deslizo para ali, enfio uns desenhos numa pasta e fecho a caixa de lata dos pastéis de óleo. Sento-me em frente ao computador e vou escrevendo isto. O dia já começa a deitar a cabecita de fora mas continua receoso de mostrar o corpo inteiro. 

Não espero nada de especial deste dia. Imagino que ele tenha o mesmo sentimento em relação a mim. Sinto-me estúpido quando digo que "é um dia igual aos outros" porque um dia nunca é igual a nenhum outro. Os dias são sempre diferentes, talvez os haja parecidos mas iguais? Isso nunca. 

Será por isso que muitos de nós se predispõem a vivê-los, um dia atrás do outro, na esperança que aconteça algo de surpreendente, algo inspirador, algo que faça sentido ou que confira algum sentido ao facto de estarmos vivos. Arrastamo-nos para aqui e trocamos dois dedos de conversa com o vizinho de baixo, deslizamos para ali e bebemos um cafézinho na esplanada, sentamo-nos em frente ao rio e ficamos uns momentos a fitar a linha do horizonte. Estas coisas acontecem.

sábado, setembro 04, 2021

Do sarcasmo

Por vezes sinto uma vontade descontrolada de ser ácido, sarcástico e usar as palavras como pequenas marretas nas cabeças de algumas pessoas que, por uma razão ou por outra, me foram desagradáveis. Sinto um ligeiro remorso mas sabe tão bem que não evito fazê-lo. De forma nenhuma!

E lá vem o problema: o facto de me ser aprazível zurzir tolices na paciência de outras pessoas dá-me esse direito? E se os outros me responderem à letra? É bem feito. E se me responderem fora do contexto com insultos directos e deselegantes? Já não me parece tão bem feito, mas acontece. O jogo do sarcasmo tem regras que se intuem mas que não estão ao alcance de qualquer macaco. Há demasiada gente com o sentido de humor de um armário de cozinha, gente que não é capaz de encaixar uma boca marada sem reagir atacando à bomba.

A meu ver precisamos de exercitar o sarcasmo com maior regularidade e outra paixão. Precisamos de ensiná-lo nas escolas, de veiculá-lo nos meios de comunicação social, precisamos de o estudar praticando-o. Estarei a ser sarcástico à medida que vou escrevendo este texto? Não sei e se soubesse também não te dizia.

 

segunda-feira, agosto 30, 2021

Questão fundamental

Já alguma vez sentiste uma vontade tremenda de acreditar em Deus mas, apesar da imensidão do teu desejo, não seres capaz? Tu a esforçares-te por acreditar e... nada! A quem poderás atribuir a culpa de tão rotundo falhanço? Se Deus existe decerto que a culpa é Dele.

Sim, eu sei, é como fazem os putos, nunca têm culpa de nada, estão sempre a procurar outro a quem possam atribuir responsabilidades. Mas se formos de facto filhos de Deus estaremos apenas a deixar correr o marfim, a sermos aquilo que somos. Já Ele, tenho as minhas dúvidas de que ande a cumprir as Suas obrigações enquanto Pai da Humanidade.