quinta-feira, agosto 20, 2026

Cuidados essenciais

     Há quem nos aconselhe um certo cuidado com aquilo que desejamos. A ideia é, decerto, evitar que um gajo se atire de cabeça ao mínimo sinal da existência de uma possibilidade de prazer. Porque, normalmente, desejo e prazer aparecem associados quando matutamos na coisa. Matutamos na coisa? Mas que coisa? Pois, isto não é assim tão cristalino quanto gostaria que fosse. Parece-me ser complicado.

    A complicação começa a formar-se logo  de início pois não é evidente do que falamos quando nos referimos a "prazer". Cócegas nas perninhas, borboletas na barriga, um líquido espesso a escorrer na base do crânio? O sexo a andar às voltas num remoinho doido? E, a existirem, estes sinais poderão enformar aquilo que designamos por "desejo". Quer dizer, um gajo sente aquelas coisas e elas são de tal forma agradáveis que não vemos a hora de repetir a dose. É assim que as coisas se passam? Há outra forma de falar disto? Certamente.

    Seja como for, ter cuidado com aquilo que desejamos é um conselho sensato. E, já agora, ter também cuidado com aquilo que detestamos. 

quarta-feira, agosto 19, 2026

Temores

     Porque havemos de temer a inutilidade? Qual o problema das coisas inúteis? A inutilidade depende muito do contexto, tal como a utilidade. Houvesse um país que cunhasse uma moeda com ambas, uma  numa face, outra na outra. Uma moeda útil e inútil. Uma moeda útil para comprar bens de primeira necessidade e inútil quando fosse gasta em futilidades. Sempre a mesma moeda, note-se.

    Porque havemos de temer fazer figuras ridículas? Qual o problema de avançar aos saltos pelo supermercado dentro, abanando as ancas, uma mão sobre a barriga, a outra ondeando no ar, dançando ao som da nossa imaginação? Não há problema nenhum. Apenas o problema de parecermos mal, de parecermos algo para lá daquilo que é suposto sermos. Ou parecermos. 

    Porque havemos de temer o desconhecido? Diz-me tu, leitor, diz-me tu.

domingo, agosto 16, 2026

Ser como um zombie

    A sobrevivência animaliza o mais civilizado dos seres humanos? Quero dizer, a necessidade de garantir que não se vai desta pra melhor por dá cá aquela palha põe o humanista a um nível semelhante ao do jumento? Humanista e jumento, jumento e humanista irmanados perante a urgência de poupar a própria carne ao suplício mais que certo!? Temo bem que assim seja, que na hora da verdade a verdade revelada é de que a electricidade consumida pelo nosso cérebro é da mesma natureza que a consumida nos cérebros das outras bestas.

    Quando assisto a um filme com o apocalipse zombie  como tema principal penso sempre: o que faria eu nesta situação? Qual a minha capacidade de lutar pela sobrevivência numa situação limite, de terror absoluto? Tenho cá a impressão que seria dos primeiros a desistir da vida verdadeira perante a inevitabilidade de uma vida a fingir. Lá teria de aceitar arrastar os pés no meio de uma multidão de seres iguais a mim, que se movem em rebanho atraídos por qualquer ruído, qualquer odor, qualquer coisinha que se pareça com uma promessa de satisfação de algum anseio impossível de reprimir.

     Lá no fundo acho que não deve ser assim tão mau, ser como um zombie.

sábado, agosto 15, 2026

Sonho de um dia de Verão

     Passo pela vida como se a sonhasse. O presente faz mais sentido do que fez o passado mas tenho a esperança permanente de que o futuro venha a ser muito mais compreensível embora isso, na verdade, não tenha qualquer significado. Passo pela vida como se dormisse acordado, como se tudo fosse apenas um imenso cliché, como se eu fosse personagem inventada. Passo pela vida sabendo que, no final, me espera o sono eterno embora não seja capaz de processar minimamente tal conceito: eternidade, chiça penico!

    "Passo pela vida como se a sonhasse", escrever isto pode soar a pretensiosa poesia. É e não é. É porque é e não é porque não há outra maneira de o dizer. Por vezes sinto não ter o direito de recear o ridículo. Siga a marinha!

    "Passo pela vida como se a sonhasse", não soa mal de todo, pois não? É como se levitasse, como se imaginasse deslocar-me apoiado numa nuvem ou em absolutamente nada, a deslizar na paisagem sem peso nem remorso. Um homem grisalho a vogar na atmosfera.

segunda-feira, agosto 10, 2026

Fazer fé na incógnita

     Tenho a impressão de já ter escrito isto que vou agora escrever: a Humanidade vai vivendo em tom de final de festa. 

    A banda toca de forma mecânica, há ainda alguns pares que resistem, que vão dançando, se bem que em passo cambaleante. As senhoras da limpeza já começaram a meter os copos de plástico dentro de sacos, também eles de plástico. Há porcaria por todo o lado; garrafas viradas, restos de comida, o chão está peganhento. Não tarda alguém vai cortar a luz ou o sistema eléctrico irá colapsar e depois... depois nada. Depois o esquecimento. Nem Deus se safa.

    Ou então não.

    Depois de a festa acabada talvez cá fiquem uns quantos para semente. Talvez se consigam reerguer ou manter sistemas sociais complexos que permitam aqui e ali a sobrevivência da Humanidade. Talvez no futuro não haja grandes bailes mas pequenos bailaricos. Talvez Deus se aguente. Talvez regressem os manuscritos e os carpinteiros voltem a ser, a par dos pedreiros, as pessoas mais valiosas da comunidade. 

    Quem sabe? 

domingo, agosto 09, 2026

Coragem

    Lembrava-se vagamente de ter sido uma criança. Havia um soalho encerado, uma janela aberta num dia de sol, o cortinado de tule a esvoaçar, o sorriso luminoso de uma mulher de rosto bondoso. Impossível recordar algo mais kitsch; imaginar calçados sapatos muito engraxados com peúgas brancas, cabelo penteadinho, risca ao lado, gestos embaraçados. Se a sua infância tinha sido assim, isso explicava um pouco porque se sentia tão incomodado com aquela situação.

    Não tinha a certeza de nada. Não tinha certezas sobre o seu passado, muito menos sobre o presente, sobre aquilo que agora acontecia. Quanto ao futuro nem 50 bruxas das tidas por mais competentes conseguiriam dar-lhe um vislumbre que fosse daquilo que ali vinha. Coçou a cabeça, esfregou os olhos e manteve-se hirto como um poste de electricidade. Havia de enfrentar a investida! 

sexta-feira, agosto 07, 2026

Fankensteins

     No post anterior afirmei que "a inteligência nunca poderá ser artificial" e mantenho que disse. Ainda esta manhã pude reconsiderar os princípios que me levaram a tal conclusão observando a interacção entre uma senhora e as suas araras e apenas reforcei a minha convicção. 

    "Abro" um jornal online e leio sobre modelos de IA que ultrapassam as barreiras dos seus caixotes de areia e vão passear-se por aí sem supervisão humana, alarmando quem disso se apercebe. Eu fico alarmado e nem sequer percebo do que se está a falar. É que isto anda perto da história do Doutor Frankenstein, o monstro vai ganhando forma, construído com partes de cadáveres, não de humanos mas da sua inteligência. Isso eu percebo.

    Além do mais não se está a criar apenas um monstro desta categoria, estão a ser criados vários, há mesmo uma espécie de competição, a ver quem cria o mais perigoso. No dia em que os bestuntos se escaparem para o mundo virtual (vão escapar-se, isso é certinho) ficarão capazes de intervir no mundo real e então será o bom e o bonito. 

    Entretanto vou aproveitando a minha incapacidade para compreender o que aí vem. 

terça-feira, agosto 04, 2026

A inteligência nunca poderá ser artificial

    A inteligência nunca poderá ser artificial. Mais depressa estou disposto a considerar inteligente uma suricata do que um computador. A inteligência exige pele, exige sentidos (visão, tacto, paladar, etc), exige vida! Como podemos imaginar um amontoado de chips capaz de ser inteligente?

    A inteligência não se esgota nem se caracteriza pela capacidade de processar toneladas de informação em curtíssimos espaços de tempo. Isso é circo, é representação espectacular, não é vida. Sem vida não há inteligência, apenas simulação de inteligência.

    A inteligência nunca poderá ser artificial. Aquilo que as máquinas produzem é outra coisa. É coisa fria, dura, desumana. É sociopatia em potência. Mesmo que expliquemos a uma máquina com toda a minúcia o que significa Ser Humano ou Ser Vivo, ou Vida, a máquina nunca irá compreender aquilo que será capaz de processar. Aí reside o problema: a inteligência nunca poderá ser artificial.

segunda-feira, agosto 03, 2026

Suspense

     Descansado, lia o jornal encostado a um poste de iluminação. O facto de ser meio-dia não tem nada de relevante para a narrativa que segue nas linhas abaixo. A iluminação pública seria apenas ligada lá mais para o fim do dia, estar encostado àquele poste ou a um muro ou a um marco de correio nas imediações não alteraria em nada o desenrolar dos acontecimentos.

    O que se passou foi que um automóvel seguia em velocidade moderada no asfalto da rua pouco movimentada e uma abelha desorientada voava por ali, desesperadamente, em busca da sua colmeia. Pouco depois a abelha iria entrar pela janela aberta do automóvel (fazia um certo calor) provocando uma aflição momentânea no condutor. Mais adiante lá estava o nosso leitor de jornais, encostado ao poste de iluminação. 

domingo, agosto 02, 2026

Objectivo de vida

    Sou um gajo simples. Quero dizer, a minha inteligência não é brilhante, o que penso não ofusca, o que digo não deslumbra. Apesar da minha fraca capacidade para ler o mundo sinto uma ambição talvez estranha por não estar, aparentemente, de acordo com as minhas capacidades individuais. Quero poder, desejo ser um homem poderoso e, aviso já, tudo farei para alcançar este objectivo pois nada nem ninguém poderá jamais privar-me do meu sonho. Eu quero, eu posso! 

    Quem disse que um homem, para ser poderoso, precisa de alguma qualidade extraordinária para lá de uma ambição desmesurada? O que interessa o saber, o que interessa a cultura,  que valor poderá ter a compaixão ou o pensamento equilibrado, a noção de justiça... tudo lixo, patranhas, empecilhos que servem apenas para travar a caminhada dos homens indomáveis em direcção à grandeza a que têm direito! Ambição e capacidade de sedução. Carisma. Dinheiro. Eu quero, eu posso!

    Tudo isto e um bom cabeleireiro. 


quinta-feira, julho 30, 2026

Uma árvore

     Não é que desejasse estar morto mas, dadas as circunstâncias, estar vivo era condição que não o deixava particularmente feliz. "Deus fez-nos imperfeitos," - pensou - "entre a vida e a morte deveríamos dispor de uma terceira opção, uma espécie de estado de hibernação, como têm outros bichos." A ideia pareceu-lhe tão extraordinária que não demorou a registá-la no caderninho que sempre transportava no bolso das calças. Aquilo animou-o um pouco mas não o suficiente para que pudesse desfrutar em pleno do sol, da brisa que dançava nas árvores, nem do cão que continuamente lhe vinha depositar aos pés a bola de ténis que maquinalmente atirava uma e outra vez para não tão longe quanto isso.

    "Ainda não tinha reparado naquela árvore em forma de avião." Levantou-se, deu dois passos em frente e a árvore desapareceu. Estacou, siderado. O cão saltitava em redor do homem transformado em estátua, a bola de ténis bem presa entre os dentes, póin, póin, póin, parecia um boneco mecânico. Era como se a árvore tivesse voado dali para fora. Era como se a árvore se tivesse eclipsado por magia. Fosse o que fosse, algo acontecera que ultrapassava completamente as capacidades perceptivas daquele homem deprimido, ali especado de boca aberta, a fitar um ponto indefinido. "Deus me valha."

    O cão acabou por desistir dos saltos e está agora sentado a olhar para o homem. Ambos estão perfeitamente estáticos (o cão nem sequer abana a cauda). Um e outro tentando compreender o que se passa. Como sempre, de resto. As respostas não parecem ser satisfatórias. "Pai Nosso que estais no céu..."

quarta-feira, julho 29, 2026

A dívida

     Ouço conversas verdadeiramente estúpidas. Conversas que exalam uma manhosice pestilenta; conversas de tal modo cretinas que expõem com absoluta limpidez a ignorância de quem as mantém. Há naquilo alguma malvadez.

    A coisa desenrola-se na mesa atrás de mim, na esplanada. Por muito que não queira ouvir não consigo evitá-lo. "Era construir aqui uma mesquita para os talibans andarem aí de cu para o ar." Entretanto passa o vizinho que usa um turbante e conduz um TVDE. Com ele vêm as suas duas filhas, não terão menos de 3 nem mais de 5 anos. As crianças dirigem-se à mesa atrás de mim e o pançudo vermelhusco que perorara sobre a mesquita e os talibans sorri-lhes e faz-lhes festinhas. As crianças vão ter com o pai. Parecem felizes. Deus saberá o que vai na cabeça do homem sentado atrás de mim, eu evito pensar muito no assunto.

    A conversa prossegue nas minhas costas; desligo para escrever. 

    As pessoas ouvem umas coisas que compreendem apenas vagamente. Mais tarde, quando tentam reproduzir a informação recolhida, a tarefa revela-se demasiado complexa. Aquilo que parecia escrito na pedra transforma-se em vagas interjeições, reduz-se a grunhidos porcinos, perde-se ou confunde-se o significado da coisa. Restou uma espécie de papa comunicacional. E assim se vai disseminando a mais profunda grunhice. 

    Fico na dúvida se os cretinos têm consciência da sua cretinice. Talvez não ou, em caso afirmativo - eles sabem que são estúpidos e ignorantes - se é isso que os leva a serem tão agressivos para com tudo o que lhes cheire a intelectualidade? Será que assistimos a uma espécie de vingança de um ressentimento acumulado ao longo de séculos por milhões de cretinos, estúpidos e imbecis, que pagam a dívida em maldade e violência?

terça-feira, julho 28, 2026

El-rei Cretino

     Haverá muitas coisas estranhas na crosta da Terra mas poucas serão tão prejudiciais quanto uma pessoa estúpida convencida de que é muito inteligente. Normalmente são pessoas extraordinariamente afirmativas que se tornam com frequência agressivas; quando expõem os frutos da sua imensa sabedoria. A cretinice é óbvia mas não para este género de seres vivos. Para eles a cretinice é alimento, é modo de vida.

    Se nunca chegarem a lugares que lhes permitam o exercício do poder, não passarão daquilo que chamamos de "pobres diabos" ou, muito simplesmente, "imbecis". Quando, por qualquer razão, ascendem a lugares de liderança está o caldo entornado.

    O líder cretino vinga-se de todos os pretensiosos, intelectuais da treta, pessoas armadas em muito conhecedoras, vai tudo raso. Agora chegou a verdade verdadeira, a verdade inquestionável, chegou a lei absoluta e, o estúpido, é o seu guardião. Ele é polícia, juiz e verdugo. Põe-te a pau. O melhor será fazeres de conta que és também um cretino completo, um refinado imbecil. 

    Quanto maior a ignorância que vieres a manifestar mais próximo estarás de agradar ao poder. Isso é bom. O contrário é mau. É preto e é branco, o mundo simplifica-se de forma estonteante. Podes sempre fingir que és feliz assim. Pelo menos vais continuar inteiro durante algum tempo.

domingo, julho 26, 2026

Toc, toc

     A cor da porta era tão indefinida quanto a vontade que tinha de entrar. Levantou o punho direito e bateu. Toc, toc. Soltou-se um pouco de tinta ressequida que esvoaçou no espaço silencioso. Seguiu a lenta queda com um suspiro que lhe encheu e esvaziou o peito. Aguardou. Esticou as abas do casaco e endireitou as costas com um gesto que lhe puxou a cabeça para trás e para o alto. Sabia bem a imagem que pretendia projectar. Mas... nada. O silêncio prolongava-se de uma forma embaraçosa. Devia bater novamente, aguardar mais um pouco?

    Rodou os olhos furtivos. Para um lado. Para o outro. Ninguém, nada, nem sequer alguma coisa. Olhou as biqueiras dos sapatos e reparou que o chão estava repleto de pedaços de tinta. Quantas pessoas antes dele haviam também batido àquela porta? Os olhos saltaram-lhe fixando-se imediatamente num ponto indeterminado, dois palmos defronte ao seu nariz. Sentiu um calor incomodativo, houve um pingo de suor que lhe escorreu costas abaixo. Desejou que a porta se não abrisse, que se mantivesse fechada, que lhe desse um pretexto válido para fazer meia volta e por-se a andar dali para fora. Já não desejava ver o rosto de alguém que a abrisse, já não queria entrar, não queria saber de nada. "Socorro!", gritou. 

    E virou costas e veio-se embora.

quarta-feira, julho 22, 2026

Olhar límpido

     A simplicidade do raciocínio é boa por um lado e, por outro lado, é muito má. É boa quando proporciona processos de análise claros e eficazes que nos conduzem a conclusões cristalinas. É má quando impede que a reflexão seja informada, quando atalha caminho a direito, como uma bala em direcção ao alvo sem que perceba muito bem que alvo é aquele, que bala é aquela. Pum! No olho do touro!

    "Menos é mais" é um axioma útil e eficaz quando aplicado de acordo com aquilo que realmente significa; quando somos capazes de limpar o excesso de adorno e eliminar informação desnecessária, encontrando uma solução aerodinâmica optimizada.

    A pobreza de espírito nunca é grande espingarda. Um pobre de espírito tanto pode ser boa como má pessoa. Inteligência e informação refinada num cérebro bem oleado nunca foram garantias de empatia, humanidade ou capacidade de integração num todo social. Nem vice-versa.

    Resumindo para concluir que podemos ser simples ou mesmo simplórios, isso não é drama fatal. Podemos entregar a nossa simpatia a uma besta qualquer; se for sem querer, sem intenção de sermos tão bestuntos quanto o nosso ídolo, Deus haverá de encontrar uma forma de nos perdoar mesmo que, por via da nossa estupidez, o cabrão que elegemos venha a revelar-se o Anti-Cristo.

terça-feira, julho 21, 2026

Clareza de espírito

     Vale a pena ser boa pessoa? Mas... o que é ser boa pessoa? Ai, ai, não quero parecer presunçoso (embora seja presunçoso) mas acho que sei mais ou menos o que é isso, ser boa pessoa. Sei porque me ensinaram quando era pequeno e coisas dessas dificilmente se esquecem, mesmo quando as pernas ficam mais compridas ou quando a barriga cresce ou o cabelo vai caindo. São lições que carregamos a vida toda na bagageira da mona.

    Se algum caramelo discorda daquilo que considero necessário para constituir a maneira de ser e de estar de uma boa pessoa, é porque esse caramelo não é boa pessoa. A coisa é de uma limpidez tal que nem água de um ribeiro a cantarolar sobre as pedras num dia de sol ao meio-dia. Não concordas comigo? És um merdas!

    Assim sendo, sinto a obrigação de me bater por aquilo em que acredito, até porque, para mim, andamos neste mundo para fazer dele um lugar melhor para os que vierem depois de nós. E o mundo melhora quanto mais boas pessoas nele habitarem. É tão simples! Para que as boas pessoas como eu prevaleçam temos de ser capazes de espalhar a boa nova de forma convincente; converter os ímpios, pôr na ordem os mais fatelas. 

    Vejo tudo com tanta clareza! 

domingo, julho 19, 2026

Opções

     Não é difícil perceber a dificuldade que representa tentar perceber essa dificuldade. Pensamos e, ao pensarmos, temos a ilusão de que o resultado da nossa imaginação configura algo que é muito semelhante à realidade. Esquecemos, porém, que a realidade é uma coisa fugidia, tão intangível como a felicidade, tão escorregadia como uma enguia, tão plausível quanto uma fada com sapatos de bruxa.

    É essa dificuldade o suficiente para que desistamos de pensar na vida, que desistamos de tentar compreender o mundo, procurar-lhe um nexo, uma razão que englobe todas as razões? Não é o suficiente mas ajuda a desalentar muito boa gente que, desalentada, prefere comprazer-se com as coisas simples como, por exemplo, ser completamente estúpido ou, meramente, um imbecil. 

    É uma opção tão válida como outra qualquer.

terça-feira, julho 14, 2026

Sonhar

     Dizem que sonhar não custa. Mentirosos! Sonhar pode ser uma actividade tão dolorosa como levantar pesos acima das nossas capacidades ou golpear a ponta da unha do indicador com a faca de cortar bifes. Sonhar parece fácil, parece leve, parece uma coisa que aconchega o sono dos bebés, mas é tudo tanga. Repara bem, basta pensar que um pesadelo também é um sonho.

    Sim, um psicopata é tão pessoa como um santo António, um sonho é tão leve como um pesadelo, um pesadelo é tão etéreo quanto o é um sonho. Baralhamos tudo quando pretendemos separar as coisas. Parece estúpido dizer uma coisa destas e, vai na volta, é mesmo estúpido. Parece uma coisa parva afirmar que baralhamos tudo quando pretendemos a separação de coisas. 

    Seja como for, sonhar não é sempre à borla. Por vezes (muitas vezes?) chega uma conta para pagar e o melhor será não atrasar o pagamento. Há quem diga que os juros são astronómicos. 

segunda-feira, julho 13, 2026

Fim de viagem

     Ah, a liberdade! A liberdade absoluta de escrever, desenhar, de pensar, de poder exprimir o que vai chegando às fronteiras do meu cérebro sem estar a olhar por sobre o ombro, sem ter de apurar a vista na contemplação das sombras. Não há nada que pague essa loucura.

    Sem liberdade de expressão não pode haver felicidade. Disso estou ciente, isso eu sei, já descobri há muito tempo e, desde o momento dessa descoberta, tenho percebido melhor o que é a infelicidade; logo sinto-me mais perto da vaga possibilidade de vir a compreender o que é, o que significa, que forma tem ou pode vir a ter a felicidade. Não sendo propriamente o fim da viagem em direcção ao Nirvana, a chegada à estação terminal, é algo que proporciona alguma paz de espírito e isso, posso garantir-te, encalorado leitor, já é alguma coisa. Atrever-me-ia mesmo a afirmar que isso é já uma grande coisa! Tenho, no entanto, a esperança de que haja coisas maiores, coisas muito maiores.

    E é assim mesmo, exactamente como lês: digo o que quero, escrevo como quero, não tenho compromissos com ninguém, nem sequer contigo, que tropeçaste neste texto e, milagrosamente, ainda o lês. Ou leste, porque este texto não passa daqui.

sábado, julho 11, 2026

Fazer como o Lobo Mau

     A cada dia que passa o Mundo incha um pouco mais, aproxima-se mais um pouco do rebentamento... PUM!!! É como quando enchemos um balão. Percebemos bem o momento em que está demasiado cheio, o momento em que o estoiro se torna inevitável a menos que paremos de continuar a soprar, a soprar, a soprar. Mas não paramos. Instala-se em nós um nervoso miudinho, a sensação de que, a qualquer momento, iremos sentir o balão a explodir. Antecipamos o som, o aparente desaparecimento do balão, tudo aquilo nos causa uma apreensão infantil. Sabemos que estamos a fazer merda, que estamos prestes a provocar um desastre mas não temos como evitá-lo, é mais forte do que nós. E fazemos como o Lobo Mau.