segunda-feira, agosto 26, 2024

Dúvida existencial

     Há coisas assim, coisas que se alimentam de si próprias e como que ganham vida se bem que a não tenham. Tantas pequenas merdinhas podiam ser compradas por tuta-e-meia! Coisinhas de comer como batatas fritas, tiras de milho, baldes de gelado, a escolha era muita e variada. 

    Ele alimentava a Angústia e o Desespero com igual desvelo e sentido de justiça. Engordavam juntos, os três. E, enquanto o seu corpo ganhava peso e volume, a suas protegidas floresciam imparáveis! O ecrã da TV por horizonte, a vida a entrar num declive acentuado e ele, implacável, continuava sempre, sem temor e sem remorso.

    Não será isto o Inferno?

quinta-feira, agosto 22, 2024

Um raio de luz

     O tempo tinha passado e ele imaginava não ter muito futuro. Nada fazia adivinhar que o fim estivesse próximo mas, como se diz, a idade não engana. Que fazer? 

    Pensou que seria agradável desfrutar de pequenos prazeres: uma musiquinha, um livro divertido, outro desenho, talvez numa superfície mais generosa. Mas, para quê? Para viver, ora essa! 

    Tudo isto lhe passava pela cabeça quando um raio de sol forçou passagem e iluminou o copo sobre a mesa. A estranha sombra que projectou distraiu-lhe os macaquinhos no sótão e ele sorriu para si próprio.

segunda-feira, agosto 19, 2024

Comunicação

    Estivera tanto tempo calado que havia esquecido o dom da fala. Observando uma mulher que passava no caminho, ao fundo da ravina, quis chamá-la. Abriu a garganta, abriu a boca, encheu os pulmões de ar e emitiu um som absolutamente aterrador. Lá em baixo a pobre mulher desatou a correr como se fosse doida, levantando uma nuvem de poeira que poderia confundir-se com a nuvem produzida por um pequeno exército em debandada.

    Abatido pelo resultado da desastrada tentativa, o eremita regressou à escuridão do seu buraco e meditou. Meditou durante muito tempo. Ao que se sabe a meditação não lhe restituiu o dom da fala mas levou o eremita a tomar a decisão de regressar ao convívio dos seus semelhantes. 

    Ainda hoje pedia esmola junto ao templo, protegido pela sombra da muralha. Todos julgam que ele é mudo. 

    Continua a meditar.

quinta-feira, julho 25, 2024

Impasse

    Contar uma história não é tarefa fácil, principalmente quando não temos a mínima ideia da história que queremos contar. Sim, porque uma coisa é querer contar uma história e outra coisa, bastante diferente, é sabermos que história é essa. Nesta situação encontramo-nos num impasse.

    No entanto, um impasse, este impasse, pode constituir um ponto de partida razoável para contarmos uma história. Imaginemos um início, uma primeira frase: "Ela queria contar uma história mas não sabia que história contar."

    Partindo daqui quem sabe onde poderemos nós ir parar!?

terça-feira, julho 23, 2024

Questão de perspectiva

     O espelho insistia em manter-se discreto; não reflectia, não especulava. Olhava-o com disfarçada insistência, de soslaio, tentando passar despercebido mas ele, o espelho, não reflectia. Nem especulava. Era como se eu não existisse apesar da consciência que me habitava (e ainda habita) e me fazia acreditar estar aqui.

    O problema prendia-se, exactamente, com esse tal "aqui". Aqui no mundo físico? Aqui, no mundo virtual? Ou aqui, reflectido no espelho?

    Uma vez que o espelho se recusava a devolver-me o olhar que lhe oferecia duvidei do meu ser. Imaginei-me vampiro, fantasma, imaginei ter passado para um qualquer estado de existência desconhecido e sem expressão física. Senti já ali não estar.

    Foi então que decidi avançar na direcção do espelho, interpelá-lo frontalmente, oferecer-me sem receio à prospecção que ele faria do meu rosto, do meu corpo, do meu ser. Desse por onde desse, fossem quais fossem as consequências, enfrentei-o.

    Ali estava o meu eu reflectido. Afinal não era um fantasma, nem nada daquelas coisas mirabolantes que imaginei; era eu mesmo, o ser habitual e imperfeito, o bicho, o homem, as mesmas dúvidas, as mesmas rugas, os olhos no lugar devido. O espelho não me reflectira por mera questão de perspectiva.

sábado, julho 20, 2024

Uma igreja na floresta

     Era uma vez um Pato casado com um Gato, juntos tiveram um filho a quem chamaram Cão. Viviam junto ao mar, numa floresta de árvores azuladas atapetada de estranhas flores. Viviam felizes a ladrar, a miar, a grasnar, a floresta ecoava alegria e boa disposição, o mar trazia nas ondas coisas agradáveis.

    Um dia o Cão conheceu o Tubarão e ficaram amigos. De quem eles não gostavam era do Pinguim, não simpatizavam com ele nem um bocadinho. Apesar de todos os esforços que fazia para soar bem educado, o Cão e o Tubarão achavam que o Pinguim era um convencido de merda por andar sempre de fraque; fizesse frio ou calor, nunca tirava a fatiota de cerimónia. Palonço!

    Fosse como fosse, tudo corria bem na floresta: vida fácil, alimento abundante, sol ou sombra, secura ou humidade, tudo consoante as necessidades de cada um e ninguém metia o nariz onde não era chamado. Um paraíso. Até que um dia Deus reparou na floresta e lembrou-se que a tinha esquecido. Como é apanágio de um Ser tão perfeito e completo, decidiu agir visto que tinha ideias muito específicas sobre o que era bom e o que era mau e, ao contrário dos habitantes da floresta, Deus não se estava a cagar.

    O Pato, o Gato, o Cão e o Tubarão não percebiam nada do que Deus lhes impunha. O Pinguim percebia mais ou menos. Farto de tentar explicar-se e não ter sucesso, Deus nomeou o Pinguim como seu sacerdote e incumbiu-o de zelar pela ordem e desenvolvimento das coisas divinas na circunscrição daquela floresta (onde nunca nada havia faltado). Nem alimento, nem comodidade, nem boa disposição. Ali o que mais faltava era tristeza, era violência ou falsidade absoluta.

    Deus nomeou o Pinguim seu sacerdote e lá foi, regular as vidas de outros animais, noutras florestas. A floresta de árvores azuis ganhou uma igreja que era coisa que nunca antes ali existira e da qual nunca ninguém tinha sentido falta nenhuma. Nem Deus.

    A partir daquela aquisição supérflua, a influência do Pinguim cresceu de tal maneira que o Gato, o Pato e o Cão, seu filho, fartos de tanta regra, tanta admoestação e castigos imbecis, se mudaram para perto da fronteira com o deserto. O Tubarão foi perseguir focas para outras paragens. O Pinguim inchou, inchou e ficou tão gordo que deixou de pôr uma pata que fosse fora da igreja. Mas isso já é uma outra história. A Girafa que a conte.

terça-feira, julho 16, 2024

Coisas que acontecem

     Não sei se também te acontece, há dias em que nada me convence e quase nada me comove. Dias em que não acredito em ninguém, em que não suporto a grandeza de gestos magnânimos e nem sequer chego a indignar-me com a baixeza de espírito que caracteriza certos estúpidos e a maior parte dos filhos da puta. Dias como este, em que escrevo as palavras que agora lês.

    Sinto uma espécie de vazio chato, um vazio mau. É mais um bicho que se me alojou ali entre o peito e o estômago e não me deixa sossegar, um bicho que me aperta o coração a ponto de eu soltar suspiros que há muito mantinha prisioneiros da minha boa disposição que entretanto vai tendo dificuldade em se manter equilibrada na única perna que lhe resta.

    Apetece-me fazer alguma coisa, seja o que for? Não. Não me apetece fazer nada mas ainda vou ter que me levantar, vestir uma roupa mais decente, sair de casa e ir ao teatro ver uma peça cuja perspectiva não me entusiasma por aí além. 

    A esperança é que esta aparente valente seca tenha um efeito regenerador, que a deslocação me desperte um pouco, que o teatro me anime, enfim, a esperança é que a vida aconteça e que o tal bicho vá chatear outro. Não sei se já te aconteceu.

sábado, julho 13, 2024

Ser (o fantasma)

     Pode a invisibilidade crítica provocar azedume ao ponto de causar forte azia e levar o invisível (o fantasma) a vociferar que nem um porco? Pode. Pode o anonimato levar o anónimo (o fantasma) a desesperar ao ponto de pensar em largar os pincéis e dedicar-se à pesca com cana e anzol? Pode. Pode a falta de reconhecimento público fazer crescer dentro do ignorado (o fantasma) uma inveja biliosa que ele confunde com injustiça? Claro que sim, pode.

    Pode um gajo persistir em fazer pintura, desenhar, imaginar e sonhar, década após década sem que nada de relevante aconteça e ele (o fantasma) se vá esquecendo de quem foi, fique confuso com aquilo que é e, apesar de tudo, deseje ser algo diferente (do fantasma) um dia que ainda está para vir. Sim, pode (que aborrecido). "Pode alguém ser quem não é?" Isso, agora...

quinta-feira, julho 11, 2024

Reflexão indolente

     O discurso da crítica, estou a pensar na crítica das artes plásticas mas penso que a coisa se pode estender a outros géneros de expressão artística, vive muito do gosto pessoal de quem critica. É pouco justo? É. É potencialmente faccioso? Sem dúvida. Parcial? Vale a pena continuar a desfiar as contas deste rosário? É tudo isso e um par de botas. 

    Mas, outro aspecto interessante deste, chamemos-lhe: universo, é o facto de haver muita arte produzida por muitos artistas que, simplesmente, não existe (nem a arte nem o artista). Ou melhor, existe num limbo muito particular que é o da invisibilidade crítica. Como se rompe este véu que impede o público de ver o que está em causa? Também não sei.

    Na verdade tenho cá a impressão de que as coisas poderiam ser de outro modo, poderiam ser diferentes, poderiam... mas não são. São assim mesmo e eu, continuo a dizer a minha (já velha) frase: eu sei que não existo, no entanto estou aqui.

quarta-feira, julho 10, 2024

Amizade genuína

     Será a solidão o mais assustador dos problemas que um ser humano pode encontrar ao longo da vida? Há quem diga que não tem medo da morte mas que a perspectiva de viver uma vida solitária sim, é coisa que lhe provoca desarranjo intestinal. 

    Nos tempos que correm não sei bem o que possa ser considerado "solidão". Todos nós temos dezenas, senão mesmo centenas, de amigos no Facebook. Eles nunca irão abandonar-nos, nunca ficaremos sós. Logo, a solidão parece-me um falso problema (há ainda o Instagram,o TikTok, eu sei lá que mais!).

    A menos que a ausência de toque, de calor humano, a ausência efectiva de um corpo real na nossa zona de acção seja considerado "solidão", o mundo virtual encarrega-se de nos preencher o dia-a-dia, encarrega-se de nos oferecer um objectivo de vida (ou vários). 

    O computador, o objecto em si, é um amigo (tocamos-lhe, sentimos o seu calor, ouvimo-lo, falamos com ele e através dele...), o computador é um amigo e um amigo fiel, diria eu!

    Fico já por aqui, não te chateio mais: se pretendes uma amizade efectiva e genuína olha bem para o objecto que tens à tua frente (se estiveres a utilizar um telemóvel também serve) e sorri-lhe. Ele merece-te e tu merece-lo a ele. Sejam felizes!

terça-feira, julho 09, 2024

Gravidade

     Por vezes dou por mim muito longe de mim próprio. Logo a seguir é como se acordasse subitamente de um vôo planante sobre o meu corpo e nele caísse vertiginosamente, por ele sugado como só o nosso corpo nos pode sugar quando, por momentos, o havíamos esquecido. Slurp! Estou de regresso.

    É difícil explicar por palavras estas coisas que parecem não acontecer mas que acontecem. É como quando estou a desenhar ou a pintar. Nessas ocasiões é bastante comum perder-me na floresta dos minutos. Entro na floresta e logo me deixo envolver pelo silêncio, pela frescura, pela doce escuridão do seu espaço. E pinto como se caminhasse, sonho como se escrevesse, divago como se alma e corpo fossem coisa única; ocasiões houve em que tive a sensação de sermos coisa universal, ínfima parte do Todo.

    A lista das maravilhas é mais extensa, sei que é, mas de momento estou incapaz de acrescentar mais o que quer que seja. A realidade é a força da gravidade do espírito.

segunda-feira, julho 08, 2024

A Santa oculta

     Estou numa posição que não me permite ver o écran, ouço apenas as vozes que saem da televisão. Passa um noticiário. A pivot fala de alterações climáticas, refere temperaturas abrasadoras algures, um pouco ou muito longe daqui. Depois refere um ataque russo a Kiev sublinhando o número de mortos. A sensação que tenho é que ambas as notícias soam a coisas distantes, algo que não nos acontecerá aqui, no cu da Europa.

    Os mísseis russos, por enquanto, não me parecem ser coisa a temer. Já a caloraça... se vivesse no interior talvez começasse a pensar mais seriamente no assunto. 

    Os noticiários internacionais dão sempre a sensação de que aqui no cantinho estamos seguros, estamos protegidos. Concluo que, embora na cabeça do povão seja a Nossa Senhora de Fátima quem olha por nós, é a Geografia quem nos protege verdadeiramente. A Santa Geografia.

    É de ponderar a possibilidade de escrever uma cartinha ao Papa a sondar o que poderá Sua Santidade pensar sobre tão abstruso e delicado assunto.


sexta-feira, julho 05, 2024

Bestas

     O espaço virtual coloca-nos perante estranhas situações que, com o passar do tempo, se vão tornando menos estranhas. Uma dessas situações é o que acontece quando "encontramos" um estranho e com ele estabelecemos contacto. Pode acontecer, por exemplo, na caixa de comentários de um jornal. O nosso interlocutor reduz-se a uma designação (raramente o nome verdadeiro da entidade) e um pequeno texto escrito no qual emite a sua opinião (ou algo parecido) relativa a uma notícia ou, aí está, a uma opinião que nós próprios publicámos.

    Quando entramos em diálogo a coisa pode tomar caminhos inesperados. A ausência de contacto físico impele com frequência os dialogantes a tomarem atitudes menos civilizadas e muitas vezes a conversa descamba. É aí que a coisa se torna interessante ao mostrar que, escondidos na sombra do anonimato virtual, somos bestas em potência.

sexta-feira, junho 28, 2024

Apropriações

    


    Há uma tradição que põe na boca de Picasso a frase: "bons artistas copiam, grandes artistas roubam". A ironia desta afirmação é ainda maior se considerarmos que a frase nem terá sido ideia original do próprio Picasso. 

    Recentemente Banksy ampliou o divertimento  ao escrever a frase, ligeiramente alterada - "bad artists imitate..." - sobre uma "pedra" assinada pelo pintor malaguenho, riscando-lhe o "Pablo Picasso" e escrevendo por baixo "Banksy".

    Há aqui todo um conjunto de subtilezas aparentemente premeditadas (mudar "bons artistas" para "maus artistas" no caso de Banksy ou a apropriação de uma frase alheia em jeito de auto-elogio por Picasso, um efeito de "loop"...) que nos permitem reflexões curiosas sobre situações que nunca antes nos haviam prendido a atenção. Mas, não é para isto que serve uma obra de arte?

    Poderia agora propor um exercício de reflexão algo oportunista e um tanto preguiçoso: será a frase citada um objecto artístico? Poderemos estar perante um exemplo de arte conceptual? É toda a arte conceptual? Sim, eu sei, já lá vão três perguntas mas, as perguntas só não são como as cerejas porque nem sempre vêm aos pares.

quarta-feira, junho 26, 2024

Um livro muito grande

     Ler e reflectir, eis o combustível necessário no início de cada dia. Bom, acompanhando o pão-nosso, que de barriga absolutamente vazia não se pensa tão bem como se pensa. "O mundo livre" de Louis Menand é um compêndio brutal, excelente objecto de consulta.

    A quantidade de informação aproxima-se do delírio mas, tomada em doses homeopáticas, revela-se tão suave como pêlo de coelhinho. Apesar de umas quantas falhas editoriais, perfeitamente ignoráveis, a leitura deste tijolo (1108 páginas) faz-se em velocidade de cruzeiro e perna bem traçada. 

    O papel da edição da Penguin/Elsinore (ou será vice-versa?) é perfeito para um livro tão volumoso. Permite abrir as páginas sem a necessidade de estar sempre atento à resistência do papel que faz voltar a folha para trás e é surpreendentemente leve. Apesar do aparente desconforto até que nem se lê mal estando o leitor deitado.

    Enfim, grande livro! Sob todos os aspectos. Um livro muito grande.

domingo, junho 23, 2024

Próximo horizonte

     E pronto, a coisa estava feita. Não tendo a certeza se havia conseguido fazê-la bem feita, arrumou com grande precisão os objectos e fechou a caixinha com o cuidado habitual. Clic! 

    Olhou em volta. Algumas pessoas abandonavam lentamente o local, outras conversavam, havia também as que estavam ali como se fossem estátuas. Pôs a caixinha debaixo do braço, inclinou a cabeça com humildade exagerada e avançou na direcção da porta.

    A mulher bonita da 2ª fila olhou-o nos olhos e sorriu. Ele sorriu de volta enquanto aconchegava a caixinha com a mão esquerda. Não falaram, aparentemente não tinham nada a dizer um ao outro. Claro que não! E ele saiu. 

    Na rua, calor; e também uma caminhada curta com destino ao próximo horizonte.

domingo, junho 16, 2024

O "tempo" como lugar

     Em geometria aprendi (ou será que ensinei?) que "um ponto é um lugar geométrico". Ou seja, um ponto não é um toque rápido do lápis ou da caneta sobre uma folha de papel, um ponto não é uma bolinha, um ponto é, na verdade, uma abstracção. Abstracção essa que nos é indicada por um conjunto de coordenadas (abcissa, cota e afastamento, no caso da Geometria Descritiva).

    Mais tarde li a frase genial de Paul Klee dizendo que "uma linha é um ponto que foi passear", etc., por aí fora, o mundo vai-se-me revelando num compromisso entre linguagem e poder de visualização. A capacidade de verbalização a ser capaz de gerar imagens e intuições poéticas que disparam em todas as direcções dentro da minha cabeça e se projectam no espaço através dos meus olhos. O corpo ainda e sempre um empecilho que ambiciono dominar na tentativa de traduzir em objectos palpáveis aquilo que me vai na alma.

    Hoje pensei que o tempo é também um lugar no espaço, não exactamente como o ponto, mas com um tipo de coordenadas completamente diferente, tipo esse que não consigo precisar, nem um pouco mais ou menos. Isto a propósito do conceito de tempo na criação artística e da sua influência decisiva naquilo que os artistas criam. As coordenadas do tempo a determinarem o aspecto do objecto artístico de um modo eventualmente semelhante ao que as coordenadas de um ponto podem significar na determinação da orientação de um recta no espaço.

    Há intuições nas quais acreditamos piamente ainda que sejamos absolutamente incapazes de provar a sua validade.

terça-feira, junho 11, 2024

Contorno perfeito

     As coisas aparentam ser o que parecem. Assim, à primeira vista, não vês nada de extraordinário, a luz do sol é branca e revela as coisas com sinceridade absoluta. As formas desenham-se límpidas e perfeitamente definidas perante os teus olhos; é a realidade. Mas, por detrás das cores vibrantes da realidade, estende-se o manto translúcido da verdade (isto faz-me lembrar alguém ou alguma coisa...).

    A verdade não rejeita mas também não exige ser iluminada pelo sol. Semicerras os olhos e começas a perceber que a forma das coisas não é definida exclusivamente pelo seu contorno preciso e perfeitinho. E vem-te à memória aquela frase das bruxas. Não é sem algum receio que perscrutas as sombras e aí encontras todo um universo que vais adivinhando.

sábado, junho 08, 2024

Não tenho a certeza que existas

     O sol hoje não se deixa ver, está escondido. Devo dizer que "não está bom tempo"? Porque o céu sobre a cidade tem uma tonalidade cinzenta uniforme devo afirmar: "está mau tempo"? Ou será necessário que chova para poder ser tão dramático nas minhas considerações sobre o estado da meteorologia?

    Já deves ter reparado, refinado leitor, que, não tendo nada de mais interessante para dizer, me dedico a escrever umas quantas inanidades sobre o "tempo". E porquê? - perguntas tu. Porque posso. Então e eu? - voltas a questionar. Não tenho a certeza que existas, volto a responder-te.

    E ficamos assim, hesitantes sobre quem está do outro lado, se está alguém ou alguma coisa, se nada existe para lá do que trazemos dentro do crânio.

sexta-feira, junho 07, 2024

Dilema paradoxal anedótico

     O conceito de "criação" como sendo um atributo divino parece-me uma refinada palermice. Isto porque o próprio conceito de "divino" me parece ser uma invenção humana. Ficamos assim num daqueles dilemas paradoxais que redundam em anedota, do género da célebre cena do ovo e da galinha.

    O que apareceu primeiro, Deus ou o Homem? A resposta é tão simples quanto óbvia.