sábado, janeiro 06, 2018

Confusão interna

Há por aí muita gente com anseios de governação. Querem ser quem manda, quem orienta, quem aponta os horizontes para os quais deveremos apontar as nossas pencas. Em nome de quê? Quem lhes espevita a vontade de assim serem? Que coisa lhes acende a vaidade necessária à ambição?

Não sei, não compreendo. A alguns logo lhes vislumbramos o rabalhão gordo, a vigarice a iluminar-lhes a beiça luzidia. Mas outros há que não, que nada transparecem quando se lhes olha a gula das riquezas. São movidos apenas pelo sonho de mandar, pelo desejo de serem adorados, pela soberba de pisarem a vermelha passadeira?

Por vezes penso que melhor seria não haver Governo. Outras vezes dou por mim a desejar um Governo bem mais forte que o que há. Dança-me o entendimento em passos tão largos que por vezes me sinto muitíssimo estúpido. Fico confuso e desalentado. Não sei, não compreendo.

Olhando alguns desses ambiciosos cidadãos, ouvindo a torrente de palavras que largam boca fora, como se fosse um rio imparável na busca de um mar que desconhece, sinto uma espécie de raiva que não quero. Preferia o desprezo mas não posso, não consigo, não sei, não compreendo.

sexta-feira, janeiro 05, 2018

Fim de tarde cinzento (escuro)

Não sei se é de agora, se é coisa que venha já lá de trás, de tresantontem; não sei se é coisa nova, se velha. Está aqui. Agora mesmo. Está lá fora.

É uma histeria, um reboliço, gritaria, inquietude, uma boçalidade alarve, um ruído constante, irritante, com picos de estridência e trovões ocasionais de vozes mais grossas, encontrões nas portas, não sei bem. Estou cá dentro.


terça-feira, janeiro 02, 2018

Uma dúvida existencial



Estive a rever os meus desenhos de 2017. Foi um ano de grande produção, desenhei como raras vezes me lembro de o ter feito. Provavelmente foi o ano da minha vida de maior produção artística,criei dezenas de peças, ultrapassei, seguramente, a centena. Porquê?

Sim, por que razão se passou isto em 2017? Não é um número redondo, fiz 54 anos, não tive nenhuma exposição especial... o que me levou a desenhar tanto e de forma tão continuada?

De há uns anos para cá que, quando penso no tempo que já vivi, constato uma coisa óbvia: já lá vai muito mais de metade do tempo que tenho guardado na caixinha do meu destino. Já lá vão dois terços ou mais, como saber o tempo que me resta?

É essa dúvida que começa a mexer com os motores da minha existência quotidiana e me torna um pouco ansioso, quase muito, no que diz respeito à produção artística que imaginei ser capaz de conceber e transformar em objectos palpáveis? Será por isso que 2017 foi um ano tão produtivo?

Mal posso esperar por 2018.

segunda-feira, janeiro 01, 2018

Olá, outra vez

E pronto, hoje é o tal ano novo. Um dia sucede a outro e... punfas: passou um ano! Um ano inteiro metido no intervalo incomensurável que trauteia entre o final da 24.ª hora de um dia e o primeiro segundo da primeira hora de outro. É uma coisa pífia, um nada grandioso, um momento onde se descarregam sonhos como lixo a ser despejado numa grande lixeira. Daqui a nada já esquecemos a maioria.

A rua está tão sossegada. Antes fosse prenúncio dos tempos que se avizinham mas, amanhã, o trânsito ansioso, as pessoazinhas apressadas, o fulgor paranóico do quotidiano regressará em força para mostrar que um novo ano é sempre o prolongamento do velho. Nada mais.

Ainda assim, seja como for, que tenhas um novo ano cheio das banalidades que costumam desejar-se, ó meu muito caro leitor.

sexta-feira, dezembro 29, 2017

Tempo fora do Tempo

O tempo entalado entre o dia de Natal e o de Ano Novo é uma coisa em suspensão, são dias que não existem. Está tudo à espera que venha a noite de passagem de ano. As horas arrastam-se e as pessoas ora estão de férias, ora não estão. Mesmo as que trabalham já não trazem as ideias dentro da cabeça, já as atiraram lá para diante, para o dia 2 ou 3 do ano seguinte porque dia 1, decididamente, é um dia a menos no calendário, dia de Santa Ressaca.

Sinto uma certa propensão para a irritação. Apetece-me escrever coisas agressivas, arrasar tudo, dizer mal de todos. Ando carrancudo, a destilar maus fígados. Refugio-me no atelier, a desenhar. Faço mais uns quantos desenhos negros, revejo os antigos, aproveito para passar em revista o trabalho recente.

Tento distrair-me enquanto aguardo que o tempo regresse no seu fluxo normal.

terça-feira, dezembro 26, 2017

26 de Dezembro

26 de Dezembro é um dia como os outros mas com alguns pormenores um pouco lixados. É o dia das trocas, entre outras coisas.

Filas de pessoas com saquinhos que transportam prendas para troca. Coisas que se ofereceram a alguém que já tinha coisas iguais (ou equivalentes), prendas que se receberam com um sorriso nos lábios e algum desprezo no coração, várias são as razões que levam os consumidores a entrar nas lojas com sacos nas mãos, um pouco ao contrário do que é habitual (sair delas com os tais sacos pendendo).

Não é bem uma ressaca mas anda lá perto. O Natal do Consumo é, de facto, uma boa merda.

quinta-feira, dezembro 21, 2017

É Natal

Sopra uma ligeira brisa. Imagino que venha da Lapónia embrulhada em papel estampado com renas de narizes vermelhos como papoilas. Sopra sobre a fila de carros ordenados em formato de serpente que se enfiam na barriga do centro comercial. Carros com pessoas dentro que têm desejos dentro de si, imensa matriosca natalícia: centro comercial, carros, pessoas, desejos, por esta ordem.

A brisa é fresquinha, agradável, um friozinho limpo que ajuda a compor a época que atravessamos. Imagino o Pai Natal, balofo, vagamente bonacheirão, um pouco desagradável nos modos porque responder a tantas solicitações não deve ser pêra doce. Além do mais é necessário meter na ordem todos aqueles duendes que trabalham afanosamente para que o trenó esteja pronto e preparado no dia certo.

Sobrevoar o mundo inteiro a descer por chaminés não é propriamente a profissão ideal para um gajo com problemas de obesidade. Se não fosse distribuidor de presentes o que faria o Pai Natal para pagar as contas? Talvez pudesse tentar uma carreira na publicidade. Teria ele um sucesso semelhante ao Cristiano Ronaldo ou à Charlize Theron?

Sopra esta brisa, quase vento, que confunde o calor do sol, o Menino Jesus a competir com o Astro-Rei, como é costume. A santidade a bater-se com sentimentos profanos e ansiedades consumistas... é Natal!

terça-feira, dezembro 19, 2017

Matemática desaplicada

Vivo entre multidões. Grandes ou pequenas multidões, todos os dias me movo dentro de algum grupo de pessoas. Tenho o hábito de as olhar, por vezes distraidamente, outras vezes de forma mais atenta. Imagino que haja ocasiões em que olho as pessoas de forma demasiado atenta mas... adiante.

Ontem, no centro comercial (essa multidão transmutada em edifício mastodôntico), reparei numa mulher que me fez lembrar uma outra, uma ex-colega que havia visto há coisa de uma semana durante uma travessia do Tejo. Não é habitual ver essa ex-colega mas aquela tal mulher pareceu-me de tal modo semelhante a ela que imaginei a possibilidade de serem irmãs.

Um pensamento assim é indolência cerebral, não tem a mínima importância. Continuei e, três passos adiante, ai caramba! Vejo a minha ex-colega a cumprimentar um amigo.

Ali estava ela, logo após me ter lembrado que uma mulher (que talvez nunca mais me aperceba de ter visto) poderia ser sua irmã ou algo do género. Logo após me ter lembrado de uma pessoa que raramente vejo e à qual mal me dirijo, uma pessoa cuja existência rara e dificilmente me ocorre, catrapunfas! Ali estava ela.

Ok, ok, eu sei, mas que merda de história é esta? Registo-a aqui apenas porque, quando vi a minha ex-colega a conversar mansamente com o amigo, me ocorreu uma pergunta: que possibilidade estatística havia de acontecer uma coisa destas? Lembrar-me de uma pessoa através de outra e ela aparecer-me imediatamente a seguir?

Soubesse eu alguma coisa para lá da Aritmética simples e talvez pudesse especular sobre a tal possibilidade estatística mas a Matemática nunca foi das minhas relações mais próximas.

Releio o que acima ficou escrito e apetece-me perguntar: esta coisa não tem interesse nenhum, pois não?

domingo, dezembro 17, 2017

Sensações

Estou a reler a "História Universal da Infâmia" de Jorge Luís Borges. É maravilhoso! Sempre que leio Borges é como se ouvisse uma voz dentro de mim (não é dentro da minha cabeça, nem dentro do coração, é dentro de mim, algures, eventualmente num pé ou no fígado, não consigo precisar).

Acontece com Borges como acontece com Bolaño ou com Paulo Varela Gomes ou Teresa Veiga, acontece com certos escritores de língua portuguesa ou castelhana (traduzida). Sinto vozes quando leio estes autores.

Com Ian McEwan, por exemplo, ou Paul Auster, não sinto vozes, viajo para lugares específicos. São espaços arquitectónicos que me envolvem (ou serão paisagens?).

Fico a pensar que os autores de língua latina me falam e os anglófonos me transportam.

terça-feira, dezembro 12, 2017

Ditados populares

Olhar a nossa sociedade com uma lente de aumentar não é nada boa ideia. A menos que tenhamos um cargo importante, que implique análise e decisão da coisa pública, melhor será padecer de uma certa miopia.

Quando a imprensa nos empresta uns óculos graduados e nos põe à frente do nariz certas cenas menos recomendáveis lá temos nós de olhar e ver. Ver é, por vezes, uma coisa extremamente desconfortável.

Quando vemos essas tais cenas horrendas ficamos a pensar no que não vemos, ficamos a pensar na bicharada imunda que se desloca nas sombras húmidas do anonimato.

"Longe da vista, longe do coração", diz o povo.
Longe do coração e longe do cérebro, longe de tudo, direi eu (que também sou povo): "quem não sabe é como quem não vê"... e vice-versa.

segunda-feira, dezembro 11, 2017

Rabo de fora

Não há nada mais estúpido do que ordenar a existência humana segundo padrões de comportamento pretensamente estabelecidos por uma divindade. É que, para podermos aceder aos desejos, objectivos e imposições do Ser que nos é superior, temos de aceitar uma qualquer intermediação. Para acedermos à informação necessária temos de confiar em quem no-la transmite. Isto é "bullshit", como dizem os outros.

Acreditar que a Bíblia contém a Palavra é uma patetice, baixar a cabeça em presença da Torah, crer no Corão... mais patetices. E por aí adiante. O mais perigoso nem é a literatura inclusa nestes livros, o perigo reside nas mentes distorcidas daqueles que estão encarregues de interpretar os textos de forma a que nós, comuns mortais, possamos obedecer cegamente a... a qualquer coisa difusa que eles vislumbram lá pelo meio das palavras, pois que misteriosos são os caminhos de todos os Senhores.

A Fé tem razão de ser. Mas obedecer cegamente a um exército de imbecis investidos de um poder fantasmático que lhes confere o poder de nos enviar direitos para uma Eternidade repleta de penas e castigos ou, pelo contrário, oferecer-nos as delícias de um paraíso que está sempre muito para além da nossa capacidade de imaginação, obedecer aos padres sejam eles de que cor ou credo forem, isso é uma violação que executamos sobre nós próprios.

Eu gostava de acreditar em Deus mas não sou capaz. Cada vez mais O vejo como sendo um gato. Um gato grande, gordo e pouco educado, escondido atrás do sofá mas com aquele enorme rabo de fora.

sexta-feira, dezembro 08, 2017

Mundo profundo

Pensamentos disparados por um cupido velho cruzam o horizonte dominado por um batatal que ninguém se deu ao trabalho de colher. Estou sentado na carapaça de uma tartaruga inerte. Crianças brincam displicentemente com objectos que, vistos daqui, me parecem ossos esbranquiçados pelo uso. É um sonho que me esqueci de ter sonhado.

domingo, novembro 26, 2017

Censurado

Leio o jornal, os suplementos dominicais, as revistas em papel acetinado, leio posts no facebook, artigos de opinião, prosas engraçadotas, palavras ditas nos bicos dos pés e há uma palavra que se esgueira até ao topo do meu pensamento: FODA-SE!

Devo estar maldisposto.

sábado, novembro 25, 2017

Um certo terror

Quanto mais por aí ando mais me convenço de que estar vivo é temer ser ignorado. Nada aterroriza mais um ser humano do que a irrelevância, a transparência absoluta do Ser. Sermos olhados e termos a sensação de que  aquele olhar nos trespassa que somos camaleões perfeitos que nos confundimos com as paredes com os placards publicitários com os faróis apagados dos automóveis. Ah, horror dos horrores, não sermos nada é muito pior que não sermos ninguém!

domingo, novembro 19, 2017

Globalização

Esta coisa da globalização é uma teia complexa tecida a fio de merda. Desde o início da coisa (lá para os noventas) que logo se percebeu o logro que nos era enfiado goela abaixo. A globalização era, apenas, a globalização da economia, essa deusa-puta.

Globalizava-se a facilidade de circulação do capital mas nada se fazia em termos sociais ou políticos, por exemplo. Melhor dizendo, as questões sociais e políticas deveriam moldar-se nos altares da deusa-puta e mais nada.

Passadas duas décadas (ou três) o resultado previsto confirma a monstruosidade da coisa: uma percentagem cada vez menor de cabrões detém uma percentagem cada vez maior da riqueza produzida. A desigualdade é cavalgante.

Os ricos não têm nacionalidade ou, melhor dizendo, a riqueza é a sua nacionalidade sejam eles originários de onde forem.

Fomos bem enganados, como patinhos que sabem bem nadar, cabeças para baixo, rabinhos para o ar. Agora assistimos em pânico ao desabar das estruturas sociais e agitamos braços e bandeiras em desespero. Estaremos a tempo de inverter a desgraça?

domingo, novembro 12, 2017

Memória

A memória é uma coisa estranha; inventa-se a si própria, autonomiza-se, deixa-me sem saber o que de facto aconteceu, leva-me a acreditar mais nela do que em mim. A memória é como um animal de estimação a tiranizar o dono: quem possui o quê?

A memória é como água perdida numa estrutura arquitectónica, a furar, a encontrar sempre um buraquinho por onde passar, a inundar os espaços mais largos: a memória é uma inundação inesperada e surpreendente.

Tenho uma memória tão subtil que sou levado por ela a acreditar que é fraquinha, que não tem poder, que falha. A minha memória é tramada. Prega-me partidas constantemente. Sinto-me indefeso perante as suas traquinices. É ela quem me constrói o passado mas não lhe permito que me influencie o futuro. Acho eu...!

sábado, novembro 11, 2017

Este nosso Ubu


Adaptar o Rei Ubu para o Teatro na Gandaia foi a coisinha mais apaixonante que me foi permitida experimentar desde que ando a fazer pelo teatro. A princípio senti-me um pouco (muito) intimidado; era o respeitinho a fazer-me tremer as manitas sobre o teclado, o não querer defraudar o autor, nem a tradição, muito menos a grandeza da coisa, enfim, estava um tanto ou quanto acagaçado. Li versões que fui encontrando, observei longamente milhentas imagens das milhentas encenações que pululam nas páginas da Net, nada me descansava, antes pelo contrário. Quanto mais penetrava o espírito da coisa mais me parecia estar com o rabo à mostra. Sentia uma espécie de frio nas nalgas, o nariz enregelado mas… eu seja corno, havia que meter mãos à obra e deixar pruridos merdosos no fundo da gaveta: ou bem que somos homens ou então somos ratos ou outra merda qualquer, gâmbias de Deus!
Acredito piamente que a arte é uma massa informe (uma coisa plástica) que se encontra eternamente em suspensão à espera que alguém lhe deite a unha e faça dela uma coisa nova. Uma forma artística depende do tempo e do lugar em que vê a luz, não há vacas sagradas. Traduzir um texto é sempre reescrevê-lo. Perante o Ubu não havia que temer. Afinal de contas trata-se de um texto tão desopilante que se pode fazer dele quase tudo o que se queira desde que se mantenha fidelidade absoluta à brutalidade daquele gajo hediondo que tem como objectivo principal viver acima das suas possibilidades à custa do sofrimento alheio. Uma personagem clássica, aquele Ubu.
Como referências tinha o exemplo da banda que dá pelo nome de Pére Ubu e o dos punks de um modo geral, admirava de toda a minha alma os dadaístas nas suas múltiplas e corrosivas formas de expressão artística (ah, o grande Dada Max!), sentia-me capaz de fazer alguma coisa concreta e consequente com aquela massa plástica que o texto de Jarry colocava à minha frente, só me faltava o atrevimento que, confesso, não será o meu ponto mais forte nem mais óbvio. Lá me convenci a meter mãos à obra; primeiro titubeante, às apalpadelas, depois, à medida que ia avançando, cada vez mais convicto e mais feliz por me permitir a liberdade de comungar daquela intemporalidade maravilhosa que ia descobrindo a cada passo. Quando terminei percebi que participara na gestação de uma coisa selvagem.
Entreguei o texto à Ana Nave confiando na sua capacidade de dar vida ao texto mais abstruso, a sua extraordinária capacidade de fazer o teatro acontecer. Agora havia que aguardar.
Passaram meses de ensaios. Domingos e segundas-feiras. O grupo de actores foi-se ajustando, tal como o texto. A tal massa informe a ganhar contornos visíveis. A Rafaela Mapril tornou reais as figuras das personagens com esplendorosos figurinos, o Zé Rui iria ser o responsável por esculpir o espaço cénico a golpes de luz, tudo se conjugava daquela forma próxima da magia que é própria do Teatro.
Quando assisti ao primeiro ensaio geral fiquei embevecido. Apesar de todas as irregularidades e arestas por limar a coisa tinha a força que imaginara: grotesca, excessiva, brutal, potencialmente repelente mas plena de força, carregada de um vigor e de uma boçalidade capazes de incomodar os espíritos sensíveis, tal qual imaginara que poderia ser. Acredito que o resultado deste trabalho apaixonado não envergonharia o próprio Jarry, passe a imodéstia.
No dia da estreia compreendi que das duas uma: o espectador iria amar aquele objecto teatral ou odiá-lo, não me parece que a magnífica representação de todos os actores que estiveram em palco possa ter proporcionado sentimentos próximos da indiferença aos que assistiram, sentados na plateia do António Assunção.
Não há agradecimentos a fazer. O Rei Ubu não se agradece, faz-se!

segunda-feira, novembro 06, 2017

Bom tempo

O sol brilha, faz calor, a cidade vive mais um dia sossegado. Está bom tempo.

Chove a cântaros, as pessoas passam encolhidas debaixo dos guarda-chuva, os carros circulam com dificuldade. A cidade vive um dia difícil. Está mau tempo.

É assim que consideramos o estado meteorológico: sol é bom, chuva é mau. Nada mais estúpido do que esta apreciação egoísta e inconsciente.

Sem chuva não tarda a faltar água. Aliás, o país vive há anos em situação de seca mais ou menos severa, extrema em certas zonas do território. Apesar de ainda não sentirmos essa escassez nas torneiras das nossas casas, quem vive fora das cidades e precisa de água para a agricultura ou para satisfazer as necessidades dos animais que cria sente uma angústia crescente.

Fiz uma viagem até à Beira Alta. Depois de sair da A1, entrando pela IP3 dentro, comecei a ver os efeitos devastadores dos incêndios que assolaram o país, naqueles dias em que, na cidade, fez um tempo maravilhoso. Ali, no interior do país, foram dias infernais, dias de muito mau tempo.

Talvez devêssemos pensar um pouco mais quando classificamos o tempo que faz. Nos dias que correm, para que o tempo seja bom, estamos desesperadamente necessitados de chuva. Precisamos de muita chuva, imensa chuva, para que os próximos dias sejam esplendorosos. 

quarta-feira, novembro 01, 2017

Afectos

Muito se tem por aí falado de afectos nos últimos tempos. A questão da forma como os políticos reagiram à tragédia contínua dos incêndios e das mortes por eles provocadas é uma questão muito pantanosa.

Costa não mostrou consternação adequada, já Marcelo foi autêntica Madalena  e muito comoveu o nosso povo. Encontrou-se ali uma nesga de oportunidade para desenvolver duvidosa narrativa com os afectos como pano de fundo.

Nunca gostei de velórios nem de funerais. Talvez porque não tenho a certeza de como é suposto comportar-me nesses momentos de dor. Tenho lágrima fácil e comovo-me com facilidade perante a dor alheia mas não sei medir se é muita dor ou se é poucochinha.

Quer-me parecer que esta história é coisa que mete muita lágrima de crocodilo. Não confio em pessoas que choram com excelência e no momento exacto. Os crocodilos usam gravata preta.

sábado, outubro 28, 2017

O perfume

Começa a cheirar a PPD e fica muita gente um pouco doida, um pouco inebriada. É como se a Primavera chegasse no lugar do Inverno, montada nele, a sorrir, disparando sorrisos na direcção da populaça.

Nota-se nas páginas dos jornais, nas entrelinhas, nos noticiários, nos discursos de gente boa (e de gente má também), enfim, sente-se a possibilidade de um Renascimento. Até já se fala outra vez do "arco da governação" e do bom que era o PPD e o PS serem outra vez amigalhaços. Ou ainda numa super-geringonça que metesse ao barulho os partidos todos, de esquerda e de direita e os que são nem uma coisa nem outra, uma espécie de grande cozido à portuguesa. Com todos, como o bacalhau.

O que me surpreende nesta história que agora se desvela é a facilidade com que se criam narrativas mediáticas e se dá a volta a um tão grande número de pessoas só assim, com um estalar de dedos.

Dizia o outro que venderia com a mesma eficácia sabonetes ou presidentes de república. Basta um bom perfume para que um monte de merda quase mude de figura.