sexta-feira, janeiro 15, 2010

Romantismo, século XXI


Uma casa abandonada, negra por fora, como se as paredes tivessem sido pintadas com a noite, surgiu-me hoje na cabeça, já o dia se começava a despedir da chuva e do vento. O frio permanecia. Ler o jornal tem destas coisas. Saltamos de texto em texto, viramos as páginas e mudamos abruptamente de cenário e de argumento, com protagonistas muitas vezes sem face nem passado. A maior parte deles sem futuro. Amanhã o jornal irá para o saco de restos deste mundo com destino certo para o contentor da reciclagem.

Já me estou a perder. Foi a casa abandonada que me surgiu na cabeça a motivar este texto que não sei onde irá parar nem percebo muito bem de onde surgiu. Escrevê-lo é como passear numa ruela esconsa de um bairro pouco recomendável. Voltemos à casa arruinada.

A vida que ela já teve, a alegria que lhe iluminou as paredes por dentro e deixou sorrisos em quem passava na rua lá fora, tudo isso já nem recordações são. Restam apenas esquecimento e ervas daninhas, janelas partidas e portas desengonçadas. A casa está a meio caminho entre um passado remoto e uma eternidade a prazo.

A casa é uma metáfora do nosso planeta. E é isso que dói perceber. O mais certo é que lá fora, no espaço sideral, nem sequer passará nada nem ninguém que possa sentir saudade ou nostalgia do que fomos. E, mesmo que passasse, como iria recordar a humanidade ao olhar o nosso planeta decrépito e arruinado? Ao olhar a casa em ruínas quem se lembra das formigas?

quinta-feira, janeiro 14, 2010

Na sequência do post anterior


Nem de propósito! Após a leve reflexão aqui ontem colocada sobre o discurso ecológico dos mais altos represnetantes da igreja católica, um pouco por toda a parte, eis que surgiram ecos da reacção do Vaticano relativamente ao filme "Avatar":


Vaticano critica ‘Avatar’
O jornal L’Osservatore Romano e a Radio Vaticana, ambos ligados ao Vaticano, qualificaram o filme Avatar, de James Cameron, como simplista e criticaram-no por trazer doutrinas modernas que promovem o culto à natureza como substituto da religião.O porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, disse que embora essas avaliações sejam apenas resenhas cinematográficas, sem peso teológico, elas refletem a visão do papa Bento XVI sobre os perigos de converter a natureza numa “nova divindade”. O pontífice tem falado frequentemente sobre a necessidade de proteger o meio ambiente, mas advertindo que não se pode equiparar o ser humano com outros seres vivos, para não cair num neo-paganismo.


Parece existir uma certa necessidade de marcar território por parte do Vaticano. Como de costume, a igreja vem com a conversa de que está tudo muito bem mas quem sabe e pode discursar sobre as coisas do mundo com autoridade é ela própria. É por estas e por outras que a igreja ora avança ora recua nas suas intenções de se afirmar como força de liderança nas grandes causas da humanidade deste lado do planeta religioso. Nos tempos que correm não há grande pachorra para aturar atitudes autoritárias mal disfarçadas como são, normalmente, as que o Vaticano nos vai oferecendo, mesmo quando não lhe pedimos nada. A crítica cinematográfica não é, de todo, o ponto mais forte dos "masters" do Vaticano.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Outra dúvida


Nos últimos tempos a igreja católica tem produzido um discurso cada vez mais atento a questões ambientais. Primeiro foi o Cardeal Patriarca de Lisboa, agora o próprio Papa. Como nem um nem outro são gajos para dar ponto sem nó isto é estratégia pura (e dura?).

Parece-me natural que a igreja se preocupe com questões sociais e ambientais. Afinal de contas está aí para proteger as nossas almas e como elas se escondem dentro de nós enquanto se passeiam neste mundo pretenderá que estejam em bom estado quando chegar a hora de se passarem para o Outro Lado. Vai daí, chegou a hora de lutar pela conservação do planeta. Limpinho!

No entanto dei por mim a pensar se a razão desta nova consciência ecológica não terá um alcance mais longo, se a verdadeira preocupação não será muito mais abstracta que a mera conservação das almas no banho-maria das nossas existências.

Sendo o Deus dos católicos uma emanação de nós próprios, simultanemante Criador e Criado, a Sua existência dependerá tanto da nossa como a nossa depende da existência Dele. Assim, caso a espécie humana entre em declínio até à extinção, Deus irá para o limbo connosco no dia em que o último crente for riscado da face da Terra. Será?

Bento XVI lá vai debitando discurso, exigindo medidas que garantam a inversão da tendência para a destruição do meio ambiente. Saúda-se a preocupação do Sumo Pontifíce, mas será ela dirigida a nós?

domingo, janeiro 10, 2010

A certeza de ter dúvidas


Um grande escritor, um pintor extraordinário, um compositor maravilhoso, qualquer um deles pode, a qualquer momento, produzir uma obra de merda. Não custa quase nada, basta-lhes estarem num dia não ou andarem com a cabeça ocupada com outras cenas, exteriores à grandeza eloquente a que habituaram os seus admiradores. Um café demasiado amargo pode fazer abortar o pensamento de um génio. As coisas que nos proporcionam prazer, que são belas ou perfeitas, nem sempre surgem do mesmo modo perante os nossos olhos. Um ângulo errado, uma luz inapropriada, uma aparelhagem mal equalizada, pequenas coisas que estragam coisas enormes, grãos de areia capazes de emperrar a mais complexa das máquinas. Nós também podemos estragar o trabalho de um artista genial. Com a nossa indiferença, a nossa ignorância ou, muito simplesmente, quando já consumimos tanta arte excelente que não somos capazes de meter para dentro nem mais uma letra, uma nota ou um acorde vibrante de cor sem a seguir regurgitarmos tudo numa torrente de enfado.
Toda esta verborreia a propósito de ter lido A Música do Acaso (The Music of Chance), de Paul Auster. Quem já leu compreenderá onde quero chegar. Quem quiser compreender onde quero chegar terá de ler este livro. Mas poderá acontecer que nada disto faça qualquer sentido. Estou em crer que é o mais certo.

sábado, janeiro 09, 2010

Perturbador


O filme "A Estrada" é de uma beleza terrível. Desde o argumento à fotografia, passando pela meticulosa construção dos cenários e adereços, tudo contribui para a criação de um ambiente opressivo e angustiante que os desempenhos dos actores acentuam e prolongam para lá do suportável (Viggo Mortensen em grande estilo e Robert Duval, na sua pequeníssima aparição, simplesmente grandioso) .

Para lá do suportável? Sim, o filme não me parece aconselhável a almas demasiado frágeis nem a pessoas com estômagos sensíveis. É uma obra, no mínimo, perturbadora.

A beleza tem destas coisas. O filme é quase perfeito na sua dimensão narrativa. Sublime? Anda lá perto.

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Lhasa



Morreu Lhasa de Sela. Não há grande coisa a dizer que não sejam lugares comuns acerca de uma cantora que de comum não tinha nada. Escrevo este post apenas para que aqueles que nunca tiveram a felicidade de a ouvir possam agora fazê-lo. Vale bem a pena.
Aqui pode ler-se um pequeno artigo sobre Lhasa. Paz à sua alma luminosa.

domingo, janeiro 03, 2010

Encontro casual em dia de tempestade


Desde há uns quantos anos que nutro pela obra pictórica de Francis Bacon uma admiração fanstasmagórica. Vi uma grande exposição dos seus trabalhos em Serralves, depois tive a sorte de voltar a admirar pinturas de Bacon quando estive em Nova Iorque e agora, nesta minha visita a Dublin, voltei a cruzar-me com o bonacheirão pintor irlandês.

Foi na Dublin City Gallery, The Hugh Lane, onde está patente ao público Francis Bacon, A Terrible Beauty. Trata-se de uma exposição com alguns aspectos bastante curiosos, destacando-se a recriação do estúdio do pintor com toda a sua inacreditável confusão e lixaria, uma imagem de marca. Tentam também mostrar alguns dos elementos de trabalho e inspiração do mestre Bacon, nomeadamente extensas colecções de fotos de onde se destacam as de Muybridge.

Telas recortadas, telas inacabadas, rabiscos parecidos com desenhos (muito poucos, Bacon não desenhava?), recortes de revistas e lixo. Muito lixo. Perante aquela profusão de coisas meio escanifobéticas não resisti e saquei da máquina fotográfica para uma fotozinha (a ilustrar este post). Não havia mais ninguém na sala mas, mal premi o botão, apareceu um gajo pequenino e mal penteado que me disse numa voz fininha "no pictures, sir"(vá lá, sempre me tratou por 'sir'). Eu ainda tentei um "I'm using no flash" (qualquer coisa assim que o meu inglês não desliza com grande perfeição, nem no gelo de Dublin). O gajinho manteve a cara fechada como um molusco viscoso e continuou a abanar a cabeleira oleosa. Pronto, o que tem de ser tem muita força.

Continuei a minha visita sem fotos mas sempre fiquei um pouco mais íntimo de Francis Bacon, um dos meus heróis da pintura.

sábado, janeiro 02, 2010

Longa se torna a espera (na sequência do post anterior)


Já estou em casa. O vôo da Aer Lingus acabou por saír de Dublin com 6 horas de atraso. Tivemos sorte, acho eu, outros vôos foram cancelados o que é muito mais chato do que estar a secar sabendo que, no fim da espera, havemos de olhar a passarada de cima, para lá do negrume das nuvens.

Dentro do avião as hospedeiras de vôo executam aqueles gestos explicativos do funcionamento dos cintos de segurança e da localização das saídas de emergência, uma exibição de bailado contemporâneo que já não via há uns tempos, desde que algumas companhias aéreas passaram a utilizar vídeos e aviões mais modernaços que este onde viajei.

A espera prolongou-se, dentro do avião, até à exaustão. Havia muitas crianças que, quando entrámos, cantarolavam alegremente, decerto entusiasmadas por uma certa agitação de sinal positivo dada pelos adultos, aliviados por saberem que, mais tarde que cedo, haveriam de deixar o frio aeoroporto irlandês. Mas, passado algum tempo, como as rodas do avião se mantinham quietas e coladas ao solo, a nervoseira foi ganhando terreno e as cantorias foram sendo substituídas por pequenos ensaios de choradeira que ameaçavam choro massivo.

Esta situação levou-me a reflectir sobre os mecanismos da impaciência e as flutuações do estado de espírito provocadas pela espera. Como tinha desligado o telemóvel fiquei sem relógio e o tempo foi perdendo sentido. Teriam passado 10 minutos ou uma hora? Impossível saber. É como sermos analfabetos num mundo mediatizado e repleto de mensagens escritas. Para ali estamos, sentados, com um cinto de segurança meio estúpido que não podemos desapertar sem que uma senhora fardada nos venha admoestar como se fossemos miúdos apanhados a cometer alguma asneira.

Quando finalmente o avião levantou para voar de regresso a Portugal senti uma espécie de alívio. Afinal os frágeis mecanismos de um mundo civilizado e mais ou menos previsível ainda funcionavam. A incerteza da barbárie continua apenas do lado de lá da porta. À espera de entrar.

sexta-feira, janeiro 01, 2010

Preso no aeroporto

Escrevo este post no aeoroporto de Dublin onde me encontro a secar por causa do mau tempo. Este teclado nao tem acentos nem cedilhas nem nada daquelas coisinhas bonitas que caracterizam a nossa escrita artistica. Bom, o que se passou para estar aqui com esta conversa da treta? Nevou. caiu um nevao sobre Dublin e, segundo o taxista que me trouxe ate aqui numa velocidade que mais parecia estarmos a atravessar uma ponte suspensa sobre um precipicio, nao havia memoria de tal coisa. Agora para aqui estou sem saber ainda se voo hoje de regresso a casa. Tenho 1 min e alguns segundos para terminar este post. sempre vou dizendo que as ruas de Dublin sao prodigas em chicletes fossilizadas, luvas perdidas das suas irmas e guarda chuvas destruidos. Dublin detesta guarda chuvas.

sexta-feira, dezembro 25, 2009

O Sexo, o Natal e a economia



Hoje é dia de Natal. Em muitos lares por este Portugal adentro a televisão substitui a lareira e é para ela que se dirigem todos os olhares das famílias reunidas em seu torno. Mais logo a TVI irá transmitir o filme O Sexo e a Cidade. Não há Pai Natal naquele filme, nem Reis Magos nem Presépio, nem nada que se relacione com a quadra festiva que aquece os nossos corações. Este (in)significante fait-divers faz pensar nas distantes origens desse canal televisivo, originalmente atribuído à igreja católica, num processo mais milagroso que transparente. Lembram-se? Eram os primórdios dos canais independentes do poder político que prometiam um mundo novo no panorama televisivo. Com 4 canais, afiançavam-nos então, teríamos diversidade, variedade e competição, benesses do mercado livre. Volvidos todos estes anos o que podemos constatar? Que os canais, na sua luta insana para captarem investimento publicitário, se acotovelam com novelas, concursos imbecis e telejornais infindáveis, numa amálgama fedorenta, uma papa indistinta e massificadora. Fomos enganados?

Esta constatação pode alargar-se a outros domínios. O poder político, por exemplo. Também aqui ficamos com a sensação de que entre os chamados “partidos do arco do poder”, o PS e o PSD, há uma sobreposição absoluta de objectivos, comportamentos e discursos. A falência das ideologias tornou-os tão semelhantes que ninguém vê grande diferença entre um e outro quando ascendem ao cadeirão do poder. Uma vez aí sentados, os líderes destes partidos abrem os dossiês da roubalheira e ficam deslumbrados, como miúdos num hipermercado em vésperas de Natal. É a economia, dizem-nos, a economia obriga a fazer isto e a esquecer aquilo, garantem-nos. Estaremos a ser ludibriados?

Afinal de contas em que ficamos? A democracia sobrepõe-se à economia? O poder político pode orientar-se por princípios humanistas ou a frieza dos números tudo justifica? Fica a sensação de que a massificação boçal é o único caminho possível para a nossa sociedade. Sejamos boçais, se não nos resta outra opção. Pode ser que O Sexo e a Cidade não seja tão mau filme quanto isso e sempre constitui uma alternativa ao velho James Stewart franzindo a testa em Do Céu Caiu Uma Estrela.

domingo, dezembro 20, 2009

Outro planeta


Fui assistir a Avatar, o novo filme de James Cameron. Como sempre evitei ler as críticas e passei ao lado dos making of, tentando entrar na sala em condições de desfrutar ao máximo aquilo que o realizador tinha para me oferecer.

Apesar de tudo levava na cabeça algumas ideias feitas (não é possível evitar totalmente o bombardeamento de informação mediática à volta de uma das produções mais aguardadas de sempre que traz o título de "filme mais caro da história do cinema"); esperava uma experiência visual fora do comum (com óculos especiais para imagem 3D) e não tinha grandes expectativas em relação ao argumento. O que não esperava era um mergulho tão profundo na ilusão do planeta Pandora. Ao longo das mais de duas horas do filme, a sala esteve submersa no mais completo silêncio, como se o avatar nos transportasse a todos na superfície estonteante daquele planeta de sonho. O espectador participa da experiência visual como se a coisa funcionasse de facto.

Quanto ao argumento nada de mais (nem de menos). Uma história clássica embrulhada numa roupagem nova. Mas de tal modo nova que tudo ganha uma dimensão épica arrebatadora.

Caro leitor, se por acaso tens o espírito suficientemente limpo para acreditares num mundo surreal, não percas este filme. Se, pelo contrário, és céptico e pretendes algo mais que seres levado pela mão num passeio fantástico, deixa-te ficar em casa ou vai à sala do lado. Não entres em Pandora, a Terra é o teu lugar.

sábado, dezembro 19, 2009

O alecrim e a manjerona



Os machos portugas, conhecidos pela profundidade obscura das suas cavernas cranianas, têm agora mais um tema para debater entre duas imperiais, além dos jogos de futebol e as gajas boas que passam lá fora, iluminadas por este frio sol de Inverno. Mais, as gajas boas também podem discorrer sobre o tema, ultrapassando a banalidade das observações sobre as roupas de marca ou a musculatura depilada dos machos que estão encostados ao balcão da cervejaria, degustando as suas imperiais apesar da temperatura gélida que apressa o passo a aperta o casaco às curvas do corpinho lindo.

Tudo parece entrar numa nova ordem, mais calma, mais justa e abrangente. Parece? Engano nosso! De um lado e de outro caem bombas sobre os legisladores. Os homossexuais querem mais. Os outros (!?) queriam menos. Uns querem ter direito a adoptar crianças e que o contrato que venham a assinar seja visto como um casamento igual aos outros; do lado de lá recolhem-se assinaturas que levem o país a votar em referendo sobre tão íntimo assunto.

Sinceramente tudo isto me parecem guerras do alecrim e da manjerona, coisas de pessoal narigudo e sem outros afazeres que não sejam o de meter o proeminente apêndice onde não foram chamados. Os homoessexuais, sempre tão orgulhosos de serem gays, querem, afinal, ser iguais aos outros, a despeito da sua suposta diferença. Os outros pretendem manter a homossexualidade nessa redoma dourada em que vem crescendo a cada dia que passa, à vista de toda a gente mas bem fachadinha lá dentro, sem chatear por aí além.

Eu, que não sou casado e vivo com a minha mulher há mais de 20 saborosos anos, olho para esta questão com alguma indiferença. Não compreendo a importância nem a urgência do tema. Se podem assinar os papelitos e trocar alianças, parece-me suficiente para os homossexuais. Por extensão não vejo que problemas podem vir daí para os heterossexuais que, por enquanto, constituem a maioria da população.

Mas lá andam todos engalfinhados e possessos com tão corriqueira questão. Deixem casar quem quiser e continuar descasado que por isso optar. É assim tao difícil admitir a liberdade dos outros?

quarta-feira, dezembro 16, 2009

Saber coisas


Na sequência dos comentários ao post anterior surgiu uma questão que me parece importante colocar sem receio de obter respostas antipáticas.

Até que ponto é importante o conhecimento da História numa sociedade que baseia o seu modo de vida no consumo sistemático do presente?

Já decretaram a morte da História (tal como já houve quem passasse certidão de óbito a Deus), as novas gerações tendem a menosprezar a herança das gerações anteriores, numa tentativa de afirmação do presente pela negação do passado. Indiferente a estas ideias e declarações bombásticas, a nossa sociedade entrega-se ao consumo desenfreado como um cão que tenta morder o próprio rabo (ou um homem que tenta lamber o próprio cotovelo). Com História ou sem ela, com Deus ou na Sua ausência, nada parece abalar a inexorável autofagia do mundo em que vivemos.

O que interessa a um técnico de informática brasileiro saber quem foram os colonizadores do território onde ele tenta sobreviver no seu quotidiano? É isso que lhe põe comida no prato? E o que poderá significar para a sua fekicidade esse eventual desconhecimento?

Eu sei que a pergunta é falaciosa, mas não é a nossa sociedade global uma falácia?

terça-feira, dezembro 15, 2009

Quem colonizou o Brasil? Sei lá!


Quem colonizou o Brasil? Sei lá! (ler aqui) Depois de ler o texto da notícia fico com a sensação que há por estas bandas do Mar Oceano quem se incomode por ter sido esquecido do lado de lá. Vaidade? Interesse? Preocupação genuína com o estado do Conhecimento no mundo em geral e na América Latina em particular?

Esta notícia chamou-me a atenção porque há sempre alguém pronto a indignar-se com a ignorância dos outros no que diz respeito ao passado. Essas pessoas intrigam-me. Qual é o limite razoável para o desconhecimento? 200 anos, pelos vistos, já causa alguma perplexidade. E 300? 600? 1000 anos?

Quem colonizava o território português há mil anos atrás? Decerto muita gente saberá responder a esta questão. Para um por cento da população (ou menos), antes de este bocadito da Terra se chamar Portugal viviam por aqui uns gajos que não eram uns gajos quaisquer. Eram uns gajos específicos. Não tenho vergonha de afirmar que ignoro quem fossem esses ilustres gajos embora pudesse arriscar uma ou outra possibilidade e sorrir no fim. Acertando ou errando no meu cálculo.

Quem colonizou o Brasil? Bom, apesar de falarem português no Brasil talvez haja quem não relacione esse facto com Portugal. Ou então poderão imaginar que os portugueses falam essa língua por influência dos brasileiros, o que, no mundo actual, até faria mais sentido que o contrário. Pessoalmente não me espanto nem indigno que 57% dos brasileiros não saibam quem colonizou o território imenso que hoje se chama Brasil. Quantos de nós conhecem a sua árvore genealógica até mais de 4 ou 5 gerações atrás? Ora se nem a família mais chegada conhecemos bem quanto mais a mais afastada...

domingo, dezembro 13, 2009

O que é Pop?


Pode a mera pintura da fachada amenizar o significado daquilo que ela esconde?

A leitura da notícia do Público com o título "Bustos de Oliveira Salazar em estilo pop art" levou-me até aqui, ao atelierdofmf.blogspot.com e deixou-me a pensar no assunto.

Uma passagem do relato da conversa entre a jornalista e o autor dos bustos coloridos captou-me particularmente a atenção, quando Francisco Mota Ferreira afirma: "Nasci em 1972, no Estado Novo, mas obviamente não me lembro de nada. E para quem tem a minha idade ou 20 anos, Salazar é um ícone pop. Não serão os nostálgicos - que os há e muitos - a comprar estes bustos." Salazar como ícone pop... pessoalmente nunca tinha olhado o ditador de Santa Comba por este prisma.

Sou um pouco mais velho que Francisco Ferreira (nasci em 1963) e, para mim, Salazar representa, desde há muito tempo, uma parte importante daquilo que considero desprezível num ser humano. Apesar de afirmar que não é movido por intenções políticas, Francisco Ferreira criou um Salazar como porta-lápis azuis, o símbolo da censura salazrista, e um outro como porta-salazares, o nome dado há décadas aos instrumentos culinários que servem para rapar o fundo aos tachos, duas peças que não abonam grande coisa a favor da imagem de ícone pop do dito cujo.

Mas, a reflexão e a dúvida que quero aqui expor, é a seguinte; podem o tempo e umas quantas pinceladas transformar um ditador abjecto em algo tão soft e, até, vazio, como um ícone pop?

Andy Warhol transformou Mao Zedong em ícone pop, ao nível de Marilyn Monroe, Elvis Presley ou Judy Garland, por exemplo. Esse nivelamento foi alcançado através de uma opção estética uniforme e uniformizadora no tratamento das imagens fotográficas de base. À partida, as figuras esvaziar-se-iam de significado para se tornarem em formas plásticas puras. A leitura destas formas passaria a fazer-se, apenas, em termos superficiais. Sendo assim, os crimes contra a humanidade perpetrados pelo ditador chinês estariam ao nível das performances melosas de Marilyn ou das canções rock do King, tudo por força da magia das cores.

Realmente, o Salazar pop parece-me uma boa ideia quando olhada como atitude estética e projecto comercial mas, na minha retorcida cabeça, a estética não pode dissociar-se da ética e, aí, a coisa fica esquisita e desagradável.

Resumindo, para mim, o ditador de Santa Comba não presta nem pintado. Como atitude pop valorizo muito mais a célebre "Merda de artista" de Manzoni. Merda por merda...

sexta-feira, dezembro 11, 2009

Da invisibilidade

Pintura monumental de Richard Wright na exposição deste ano do Prémio Turner, na Tate Gallery


É sempre a mesma conversa, o mesmo espanto, algo entre a irritação invejosa e a vertigem do deslumbramento. Obras de Rafael, Rembrandt e Il Domenichino batem recordes em Londres, noticiam com alguma pompa as agências internacionais. Logo a notícia se espalha, mais eficaz que o H1N1, para infectar a imaginação dos mortais comuns, um pouco por todo o lado.

Os números das transacções, como sempre, escapam à compreensão, 28,8 milhões de euros por um mero desenho de Rafael! O que significa essa quantia? "Uma perna do Cristiano Ronaldo", segundo o meu irmão. Ficamos então a saber que uma perna do Cristiano Ronaldo equivale à Cabeça de Uma Musa, o que acaba por fazer algum sentido, dependendo de quem observa e é inspirado pelas imagens.

Aquele desenho, agora tão valioso, não passa de um vulgar e ranhoso esboço saído da mão do mestre em preparação de um dos frescos da Sala da Assinatura. Ora aqui está qualquer de interessante que se pode retirar desta mundanidade entediante. A "Stanza della Signatura" é o local onde se encontra a celebérrima "Escola de Atenas", uma das obras mais reproduzidas e famosas do dulcíssimo pintor de Urbino. É um gabinete coberto do chão ao tecto por formas e imagens, a maioria delas da autoria de Rafael. A fama da "Escola de Atenas" é tão grande que as restantes pinturas da "Stanza" quase se tornaram invisíveis (a sala onde está a Mona Lisa...), o que poderá explicar em parte o sucesso de Richard Wright, vencedor do Prémio Turner deste ano.

Nestas voltas do raciocínio uma pessoa até se perde e quase se esquece de formular a outra pergunta que a tal notícia nos atira à cabeça: Domeni quê? Domenichino! Ah, pois, vamos lá a googlar isso e ver o que nos diz a Wikipédia. Desta vez saíu-me na rifa um texto em italiano, o que não deixa de ser interessante se bem que um pouco cansativo. Por isso aqui fica uma entrada em português.

De facto, no fim de contas (e descontando o Rembrandt), a notícia dos valores astronómicos atingidos nos leilões de obras de arte já não impressiona por aí além. Já cansa. Cansa tentar perceber a irracionalidade de certas coisas que acontecem na sociedade de consumo capitalista. Richard Wright talvez esteja a tentar perceber a lógica disto. Como vencedor do maior prémio de artes plásticas do Reino Unido vai receber vinte e tal mil euros em reconhecimento do valor da sua obra. Isso não pagava nem as aparas do lápis de Rafael se fossem postas à venda no e-bay.

terça-feira, dezembro 08, 2009

Luta de Titãs






"Vêem-se um pouco por todo o país. São estandartes de pano. De um fundo grená emerge a imagem de um Menino Jesus barroco, de braços abertos. Para os cristãos, este é o verdadeiro símbolo do Natal e por isso pode ser lembrado e assinalado deste modo, nas janelas, varandas ou portas daqueles que acreditam. (ler tudo aqui)"

Cansados e até mesmo desgostosos por verem o Pai Natal a sorrir sem concorrência, os cristãos mais convictos decidiram contra atacar e criaram um novo símbolo ilustrativo da quadra natalícia. É o Menino Jesus a tentar ganhar protagonismo.

Se o verdadeiro espírito natalício e cristão se desvirtua todos os anos, acabando por se confundir com uma descabelada fúria consumista corporizada na figura do Pai Natal, só resta aos verdadeiros cristãos recuperar a solidariedade humanista de cariz místico que deveria reinar nos dias que correm.

Aqui há dois anos, mais coisa menos coisa, houve uma invasão de terríveis pais Natal que amarinhavam pelas fachadas de Portugal inteiro, numa exibição de mau gosto infantilóide sem precendentes. Agora, tímidamente, surge o Menino saído da manjedoura directamente para as janelas e varandas dos portugueses. Vá lá, convenhamos que, em termos estéticos, vai bem melhor que os tais pais Natal.

Não deixa de ser uma competição curiosa e uma chamada de atenção para a forma como vivemos o Natal. Qual é a nossa equipa; somos do Menino Jesus ou somos do Pai Natal? Eu não digo.

sábado, dezembro 05, 2009

Chicha sintética


Já tinha ouvido falar do sonho cor-de-rosa dos patrões da McDonald's: um frango sem cabeça nem patas, só chicha mais coxas e asinhas, que se pudesse aproveitar a 100% para a alimentação do pessoal. Uma monstruosidade saborosa tanto em termos culinários quanto económicos.

Olhando para as condições de vida dos porcos criados em cativeiro e de outros animais destinados às prateleiras dos supermercados já me tinha ocorrido que não são bem aquilo que se pode designar por "animais" mas sim coisas parecidas, com uma vida tão triste que até dá gosto vê-los morrer e virem parar aos nossos fornos, grelhadores e demais instrumentos de tortura para carne morta.

Mas a notícia de que daqui a cinco anos poderá estar à venda nos supermercados carne artificial (ler aqui) caíu-me em cima que nem uma bomba. Carne artificial, bifes clonados, isto sim, é coisa que nem Deus estava a imaginar quando fechou a loja ao sétimo dia!

Os amigos dos animais da PETA batem palmas à ideia. Já os tipos da Vegeterian Society levantam algumas objecções mas também não parecem torcer-lhe muito os respectivos narizes. Enfim, não se pode dizer que seja uma iniciativa com pernas para andar mas lá que tem fortes probabilidades de vir a cair-nos prato, disso não restam dúvidas.

Os promotores do projecto, o Governo holandês e uma marca de enchidos lá da terra, garantem que este produto será bom para o ambiente e irá reduzir o sofrimento animal. Imaginem o que será tirar a carne a um animal e criar o volume de carne anteriormente fornecido por um milhão de animais!!! Caramba, parece magia.

Resta saber se os porcos correrão o risco de entrar para a lista de animais em vias de extinção. É que, se não for para lhes espetar uma faca, não estou a ver muita gente a criá-los só pelos seus lindos olhos.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Profecia




Qerem fazer-nos acreditar que depois de Cristo e Maomé terá passado o tempo dos profetas. Estou em crer que isso não é puto verdade! Ao visitar o Photomelomanias dei com este post e o primeiro clic deixou-me deslumbrado. É uma palestra extraordinária de Aldous Huxley que mostra como se constrói uma profecia: com atenção aos pormenores do mundo que nos rodeia e uma grande dose de inteligência que, nestes casos (será apenas nestes casos?), é o mesmo que imaginação.


Caramba, apeteceu-me mesmo correr para casa e abrir a minha edição de Admirável Mundo Novo. Já nem me lembro quando li aquilo mas tenho a vaga impressão de que foi um dos livros que ajudou a alicerçar a minha personalidade. (para compreender alguma coisa do que acima fica registado é imprescindível ir ao post do Photomelomanias experimentar aquele tal (este) 1º click)

quarta-feira, dezembro 02, 2009

Sonho de uma manhã de Outono


Não sei se percebo alguma coisa do que se passa à minha volta. Os dados e respectivas coordenadas são de tal modo variados e contraditórios que me perco constantemente sem sequer mexer um pé para saír deste lugar. A leitura dos jornais só piora a situação, já de si a tender para o caótico. A busca de informação revela-se penosa e dolorosa. Tentar construir uma perspectiva personalizada sobre o estado das coisas que assentam no mundo é pecado mortal, não sei se o da soberba se o da inveja que é o que por vezes sinto em relação aos ignorantes e, quase sempre, em relação aos analfabetos. Se vivesse no Afeganistão decerto seria membro dos talibã que é a maneira certa de se estar por aquelas bandas.

Hoje de manhã o espelho tinha um tipo estranho a olhar para mim. Fiz-lhe a barba e aspergi-o com um perfuminho que costumo usar para disfarçar o cheiro da minha alma. Saímos juntos para a rua mas logo nos separámos, próximos do caixote de lixo.

Há uma comandita de enfatuados com cabeças de porco "large white" que orientam os destinos do Olimpo. Os deuses comem couves e bebem sumo de beterraba, estão mais tristes que avestruzes assustadas. O mundo não vai na direcção certa, mas o verdadeiro problema é que não há uma direcção errada!