sábado, agosto 05, 2023

Centrifugador

   

    Podia falar de outra coisa mas não parece fazer sentido fazê-lo. A presença do Papa Francisco absorve tudo. Absorve a realidade levando de mistura ilusão, fé, bom-senso, maldade e mentira. O Papa centrifuga.

    Francisco é-me uma personagem mais do que simpática. Vejo nele uma possibilidade de transformação para melhor. Mas transformação de quê? Do mundo humano? Do planeta Terra? Da igreja católica? Não sei responder. Há algo de magnético naquele velhote simpático de verbo fácil.

    Mas Francisco tem 86 anos e muitas maleitas o atrapalham. A igreja católica tem muita gente boa mas, sendo para todos, todos, todos, tem muitas víboras e lacraus com duas pernas. Quando Francisco entregar a alma ao Criador o que irá acontecer?

     Deixo-te a pergunta, leitor amigo. Guarda no teu coração a resposta que encontrares.

terça-feira, agosto 01, 2023

Um tal de Legião

     Anda tudo num corrupio por influência das Jornadas Mundiais da Juventude. São milhares de jovens com um ar um tanto apatetado capazes de desatarem a cantar e a dançar não se percebe bem porquê. Estão permanentemente felizes e sorriem tanto que aquilo há-de fazer-lhes doer as bochechas quando lavarem os dentes. Vêm dos 4 cantos do mundo e estão a deixar o pessoal que vive por estas bandas um tanto inquieto.

    Eu era para já me ter escafedido de casa mas afazeres de última hora mantêm-me por aqui. São às pázadas! Os católicos são às pázadas.Não me irritam particularmente pois tenho conseguido manter-me a uma distância razoável. Vejo-os mas quase não os ouvi. Definitivamente, ainda não fui obrigado a cheirá-los.

    Enfim, eu que tantas vezes despejo azedume sobre a igreja católica, não me sinto capaz de odiar esta putalhada simpática, apesar de me parecer chata pra caralho. Eles têm direito à felicidade. Isso chega-me para não desesperar de os ver por aí, desorientados em pequenos grupos organizados. Façam lá o que têm a fazer e regressem a vossas casas, ou fiquem por aí, o que importa? Mas reduzam-se. Tantos juntos chegam a parecer um tal de Legião.


segunda-feira, julho 31, 2023

Como se fosse

     Saíram pela porta entrando na rua. Vinham já a matraquear os queixos. Debitavam discurso de forma sincopada, como se fosse de todo inevitável que aquelas palavras fossem ditas, precisamente; ditas daquele modo. Como se as palavras tivessem sido já escritas pela mesma mão que regista no Livro o Destino de cada um e de todas as coisas.

    Passaram por mim como se eu fosse espírito, coisa incorpórea ou invisível, como se fosse, pelo menos, tão discreto como papel amarrotado ou saco com merda de cão esquecido no passeio público. As palavras ganharam volume, máximo quando me passaram a rasar os ouvidos e foram perdendo nitidez com a distância, pela graça de Deus e das Leis da Física.

    Continuei o meu caminho pensando, como nem sempre faço. Pensei que, quando acordamos e até que pomos os penates fora de casa, o esforço matinal será imaginarmos que a nossa vida é uma coisa interessante, que faz sentido. Pensei ainda que verbalizar essa imaginação ajuda a que a vida se aproxime de fazer sentido, fortalecendo a possibilidade de sermos pessoas plenas de substância. Que isso faz de nós agentes importantes no tecido social; que esse tecido abrirá um buraquinho caso estejamos ausentes.

    Voltei-me e já não vi as personagens falantes.

    Terão elas ido mudar o mundo?

sexta-feira, julho 28, 2023

Regresso ao passado

     Reli "Matadouro 5 ou A Cruzada das Crianças" de Kurt Vonnegut. Tinha comprado o livro em 1990 e, decerto, lera-o nessa altura. Reli-o mas foi como se tivesse pousado nele os olhos pela 1ª vez. Vonnegut é um autor brilhante no modo desembaraçado como expõe as suas linhas narrativas e cria personagens tão evidentemente verdadeiras. Lê-lo é pura diversão.

    Este regresso ao "Matadouro 5" deveu-se ao facto de a minha sobrinha ter oferecido ao meu irmão uma edição recente da obra e eu, por absoluta coincidência, estar a ler outro livro de Vonnegut, "Barba-Azul", que encontrara por acaso na prateleira da nossa casa em São Miguel do Outeiro. Qual a possibilidade estatística de tal coincidência?

    Pareceu-me um sinal. E eu segui-o como um rei mago a trotar no seu camelo seguindo a estrela errante que há-de travar na chegada ao presépio. Não encontrei o Deus Menino mas fartei-me de curtir na companhia de Billy Pilgrim. Assim foi.

quarta-feira, julho 26, 2023

Desprezo

     Não é nada agradável sermos enganados. Digo eu. Talvez haja quem se agrade de o ser. Ser enganado. Mas é possível que a coisa a reter para mais tarde analisar resida na forma como reagimos perante quem foi filho-da-puta o suficiente para nos enganar.

    Ninguém nos obriga a nada, nem mesmo a que tenhamos esta ou aquela atitude perante o logro com o qual fomos enlameados. A coisa escorre, simplesmente. Mas agora pensas: o meu coração responde por mim. Eu pensei. E ficas a conhecer-te um pouco melhor. Acho eu.

    O resultado, caso não sejamos otários nem pessoas violentas (muitas vezes uma coisa implica a outra e vice-versa), será o de passarmos a ignorar o animal que nos enganou.

segunda-feira, julho 24, 2023

As 3 idades

     Nascemos um bocadito engelhados mas depressa ganhamos contornos adoráveis: somos bebés. Depois o tempo vai passando. Com alguma sorte iremos ouvir muitas vezes pessoas que dizem como somos lindos e nos pedem que desempenhemos habilidades parvas. Todos se rirão com uma expressão meio imbecil afivelada nas beiças. 

    Com algum azar viveremos uma existência da qual o amor irá estar ausente e ninguém se rirá perto de nós. Os rostos à nossa volta serão pálidos de raiva com expressões de uma severidade absurda. Vamos crescer receosos, desconfiados e ainda mais manhosos que raposas piolhosas.

    Voltando aos adoráveis bebés que poderemos ser, redondinhos, fôfos, macios como sumaúma - oh, o mundo rende-se à nossa irresistível presença. Depois vamos crescendo e o nosso verdadeiro eu vai-se revelando, aquilo que somos ganha contornos mais precisos nas nossas feições. O naríz estica-se, o queixo alarga, desponta uma barba hesitante que irá tornar-se rija como lixa para desbastar ferrugem. O sonho de ser bebé transforma-se na realidade de ser adulto.

    Mais adiante, se tivermos a sorte de viver o tempo suficiente, poderemos contemplar a essência do Ser Humano que sempre transportámos dentro de nós: é a velhice. Sim, aquela coisa aparentemente decrépita e à beira da morte, és tu. Sempre foste. Não há problema, se tiveres coragem irás descobrir a beleza verdadeira.

    Assim foi.

domingo, julho 23, 2023

Censura

     Na Constituição do Estado Novo constava algures que: "Leis especiais regularão o exercício da liberdade de pensamento" - note-se que a ambição do censor vai além da limitação da liberdade de expressão, ele quer entrar na mente de cada um de nós regulando aquilo que somos capazes de pensar.

    Não consigo decidir se tal ambição é fruto da maldade se da estupidez mas consigo perceber que é uma ambição impossível de satisfazer. Essa impossibilidade gera no censor a percepção da sua impotência, da sua pequenez perante o intelecto: daí só poderá nascer o instinto violento do animal predatório. Isso potencia o impulso assassino e o censor assume a forma monstruosa do bicho que mata por matar, que pretende apenas extinguir aquilo que lhe parece indesejável.

    É isto que sinto no propósito dos extremismos moralistas. A atitude censória só tem para oferecer ao mundo infelicidade, desconforto e, no limite, a morte.

sexta-feira, julho 21, 2023

Encalhando

     E assim andamos quase todos: meio afundados nos écrãs dos nossos telemóveis, encalhados entre este mundo e um outro.

    Quando recordamos os que já morreram, vivem eles mais um bocadinho? Dois, três minutos, uma horinha? E quando os encontramos em sonhos, em que mundo nos movemos então? Esta coisa não me preocupa apenas me faz pensar.

    Há problemas que não têm, sequer, equação.

sábado, julho 15, 2023

Deus me perdoe

   

São a mais nítida ilustração do significado da palavra... da palavra? Do conceito! As Jornadas Mundiais da Juventude, a romperem Lisboa adentro não tarda, são, provavelmente, a mais nítida ilustração do conceito de "hipocrisia" de que há memória e, por arrastamento, um retrato bem focado da igreja católica em Portugal.

 

            Dos gastos pornográficos com a organização da coisa ao modo desapiedado como são tratados os maltrapilhos da cidade, temos plasmado todo um programa social da igreja que se arrasta há séculos, meio velado por obras caridosas, e se vai mantendo ao arrepio da vontade do Papa actual. Como pode Francisco pregar o elogio da pobreza, a empatia para com as minorias e os deserdados da sociedade e subir ao palco do Trancão? Como pode Moedas bater no peitinho na missa de Domingo e limpar a cidade de mendigos à segunda feira? Tudo isto me parece de uma imensa hipocrisia, a igreja católica no seu melhor (que é também o seu pior). 

 

           Outros episódios pouco edificantes poderia analisar (o Memorial às vítimas de padres pedófilos, uma ideia piedosa que afinal não é boa ideia, ou o investimento de dinheiro público num acontecimento privado) mas não sou pessoa de bater em ceguinhos. Deus me perdoe.

 

    carta enviada ao director do Público

quarta-feira, julho 12, 2023

A beleza da morte

     Hoje faleceu Milan Kundera.

    Impressiona-me a rapidez com que os meios de comunicação fazem o elogio fúnebre dos defuntos célebres. Ainda a alma não disparou em direcção ao céu e já os ecos da morte se misturam nos da vida, foram recolhidos testemunhos dos que privaram com o cadáver quando tinha dentro o sopro da vida, encontraram-se familiares que choram, amigos que suspiram, é espectacular! Tem de haver ali segredo.

    Pensando bem, nos tempos que correm, tempos de chatgpt, a coisa fica ainda mais aerodinâmica. Temos a possibilidade de pedir a uma máquina que nos recorde o valor e a grandeza da vida de pessoas especiais. E a máquina não se acanha. No seu estilo limpo (o correspondente escrito a uma voz de atendedor automático) a máquina explica-nos com rigor e transparência o que é ser-se humano e ter valor.

    Em tempo record.


sábado, julho 08, 2023

Sabedoria

     À interpretação do objecto artístico ajuda muito aquilo que sabemos mais o que vamos sabendo. A maior ajuda que nos pode dar a sabedoria é provocar-nos a imaginação, que mais não é que um certo tipo de conhecimento, meio selvagem, um animal que vive connosco mas difícil de domesticar. A sabedoria vive dentro de nós só que se esconde em grutas que ainda desconhecemos.

    A obra de arte esconde dentro dela muitos segredos que são nossos.

    Até ao dia.

segunda-feira, julho 03, 2023

Ser ou não ser: pedante

     Ouvir falar de assuntos que nos são familiares quando estamos integrados num grupo constituído maioritariamente por pessoas que não têm particular interesse nas matérias em análise pode tornar-nos um pouco pedantes. O grau e o nível de complexidade do discurso parece-nos abaixo de básico, reprimimos com dificuldade uma certa vontade de exibir o nosso conhecimento.  Ah, campeões!

    Escrevo este texto na primeira pessoa do plural, tento não ficar isolado no meu hipotético (e provável) pretensiosismo. Experimento arrastar-te para o pântano (limpinho) do meu ego, não quero parecer demasiado malvado. A verdade é que a coisa pode mesmo tornar-se penosa. É tão triste!

    Ser obrigado a frequentar acções de formação de professores é uma violência. Das poucas que não consigo evitar. Sinto-me demasiadas vezes perdido na mediocridade generalizada (da qual faço parte integrante). Não há como fugir-lhes. Há um leve bedum a falsa erudição, uma certa vertigem decadente que fazem destas coisas massas gordas e informes. Coisas vulgares, tão vulgares que a vulgaridade surge maravilha exótica.

    Sinto-me triste.

    

sexta-feira, junho 30, 2023

Emojis

     Releio o post anterior e penso "ás vezes dá-me práquilo". Acontece. A coisa não é de particular responsabilidade. Isto é só o 100 Cabeças, um blogue perdido numa ruela sombria da Zumbisfera, que mal poderá vir ao mundo quando um gajo como eu escreve uma coisa como aquela? (emoji sorridente)

    Não sei se tens a mesma necessidade, acalorado leitor, mas eu preciso de esparvoar com alguma regularidade e frequência. Como sou um gajo contido prefiro esparvoar por estas bandas, em ambiente privado. (emoji a rir com a boca aberta)

    Parece-me necessário ter, de vez em quando, atitudes mais ou menos inesperadas, fazer uma ou outra cena um pouco mais marada. Mas como sou um gajo endireitado pela vida, estas loucuras de pacotilha podem resultar em cenas bem foleiras. (emoji com uma linha recta por boca)

    Atalhando na conversa que vai torta: eu sei que não sou ninguém mas, no entanto, estou aqui. (emoji com expressão dramática)

    Este final foi um bocado aparvalhado, não foi? (emoji que não sabe o que responder sem ofender o interlocutor)

quarta-feira, junho 28, 2023

Poema indolente

     Há tanta coisa a ver, a ter, a não perder,,, roda-me a cabeça.

    (rima fácil) 

    Tanta coisa a desejar, a explorar, o mundo todo para viajar... deus meu, nem sei para onde me virar, serei um bronco completo caso não seja capaz de aproveitar.

    Dizem-me que cada crise é afinal uma oportunidade, cada vez que ouço "não" estou, na verdade, perante uma sugestão de superação. Se perseverar haverei de lá chegar. O segredo é não desistir, ser positivo, acreditar!

    Mas sinto que sou um bocado lento, tenho por hábito pensar e dou por mim a dizer: ide-vos mas é foder, eu quero é descansar.

domingo, junho 25, 2023

Era tão fixe que o mundo fosse fixe!

     Era tão fixe que as coisas do mundo se desenrolassem de acordo com aquilo que nos parece ser mais correcto e mais justo. Era tão fixe que existisse, de facto, um Deus capaz de amar a Humanidade e de influenciar os seus caminhos e horizontes temporais. Era tão fixe que fosse assim: que houvesse justiça, que vislumbrássemos uma nesga de esperança, um plano a longo prazo bem delineado, iluminado por uma centelha divina. Era tão fixe.

    Se fosse assim, aquela marcha sobre Moscovo ontem iniciada não se teria diluído à medida que comia a distância e ia assustando o pequeno Putin. Que palhaçada! Oh, como teria sido um momento de justiça poética que o pequeno homem tivesse sido abafado por um mero cozinheiro, um merdas tão merdas quanto ele. Mas, no entanto..

    ... no entanto ninguém sabe o que poderia acontecer logo a seguir. Não temos bem a noção da cáfila sanguinária (eu sei que a imagem é um tanto surreal) que se perfila para tomar a cadeira de Putin. Um camelo apeado, logo substituído por um camelo maior e mais sedento de maldade não é cenário agradável. Daí que seja avisado termos alguma cautela com os pedidos que fazemos ao génio enquanto lhe esfregamos a lâmpada.

    Concluo manifestando uma vez mais a minha perplexidade com a extraordinária ausência de qualidades humanas que normalmente caracterizam os "grandes" deste mundo.

sexta-feira, junho 23, 2023

Exercício de sobrevivência

     Não saber o que fazer, eis algo verdadeiramente angustiante mas com um pequeno leque de soluções estupidamente simples. 

    Solução nº1: não fazer nada, aceitar a paralisia sensorial; solução nº2: pegar num livro e olhá-lo, se for caso disso o livro responde e temos o problema resolvido; solução nº3: ligar a televisão segurando o comando à distância com indolência e ir carregando nos botões, provável efeito hipnótico e esvaziamento do cérebro garantido; solução nº4: ligar  o computador; solução nº5: colocar um suporte em branco no cavalete começando a colar-lhe coisas, a riscar, deixar o mundo entrar em nós.

    Se as propostas de solução anteriormente apresentadas não surtirem efeito experimenta outras. Alguma coisa haverá de acontecer. A verdade é que "não saber o que fazer", longe de ser o fim da linha, é o princípio de algo, eventualmente uma grande aventura. O segredo é não haver grande segredo.

    Assim sendo vou experimentar a solução nº5 do segundo parágrafo.

    Até breve.

quinta-feira, junho 22, 2023

O carnaval sim, são 3 dias

     E os dias vão passando, serenos, quase agradáveis. Adivinha-se a canícula, o que poderá transformar esta pacatez quotidiana em ligeira angústia, desejo de frescura impossível de satisfazer. Mas nada de muito preocupante. Ainda há algum tempo, alguma folga para ir gozando esta suavidade existencial a fazer pensar em veludinho azul e bolas de algodão doce que não se colem aos dedos nem provoquem uma impressão repulsiva nos dentes.

    Um dia seremos confrontados com a factura a pagar por vivermos tal desafogo. Mas, até lá, gozemos as benesses que o capitalismo imperialista ainda nos proporciona. Não vale a pena estarmos a pensar nas gerações anteriores que sofreram as passinhas do Algarve para que tenhamos os confortos de que hoje desfrutamos; nem será aconselhável pensarmos no sofrimento que as gerações futuras (pouquinhas segundo Harari) irão ter de suportar. Vivamos.

    Um dia de cada vez, que a vida já não são três.

domingo, junho 18, 2023

Os cartazes

 

    Dependendo das situações dou por mim a indignar-me, ou não, com questões relacionadas com racismo. Tenho consciência de que, dada a palidez da minha pele, sou um potencial privilegiado num espaço sociopolítico dominado por homens velhos tão ou mais brancos do que eu.

    Talvez por isso, quanto à cena do nosso primeiro-ministro e dos cartazes com o focinho de porco com lápis espetados nas cavidades oculares, não consiga decidir se são ou não são racistas. Parecem-me apenas vulgares, mal concebidos, com uma linha estética simploriamente boçal, definida por uma vontade um tanto infantil de provocar ofensa. Nem sequer julgo que sejam de particular mau gosto. Não chegam a tanto.

sexta-feira, junho 16, 2023

Todos os fantasmas morrerão

     Os dias passam e o mundo cada vez mais parece menos: menos habitável para a generalidade das espécies, menos respirável, menos amável, definitivamente menos explorável. Cada dia para a frente dá a sensação de ser também um dia para trás, como se duas paredes paralelas de comprimento infinito se fossem aproximando, inexoravelmente, e eu (e tu, nós, todos) percorresse o corredor formado pelos muros à procura de qualquer coisa semelhante a esperança. Uma brecha, um desabamento, cimento húmido; mas - nada!

    O calor aperta também. Falou-se do degelo constante mas a notícia não durou mais que um dia. A guerra, a comissão de inquérito, as transferências de jogadores de futebol, são tantos os assuntos interessantes que o Apocalipse perde espaço noticioso. Já se sabe que todos havemos de morrer.

    Não consigo evitar a sensação de que assistirei ao fim de uma civilização. Serei um velho a observar o desabar do orgulho desmedido de uma certa parte da Humanidade (da qual fiz - ainda faço? - parte), talvez isso me proporcione algum distanciamento, alguma tirada filosófica para os anais que, azarucho, estarão prestes a encerrar as entradas de citações por caducidade absoluta do tempo da civilização.

    Sinto uma certa frustração por nem a vaidade sobreviver. Morrendo as pessoas do futuro morrerão também todas as pessoas do presente e do passado e todos os deuses (sim, com Jeová e Maomé de braço dado e à cabeça) por falta de memória que mantenha vivos todos os fantasmas.

sábado, junho 10, 2023

Verdade

        Notícia do Expresso – manchete – China regista, em Maio, a inflação mais baixa do mundo – Os preços no consumidor subiram apenas 0,2% em Maio, segundo os dados publicados esta sexta-feira pelo Gabinete Nacional de Estatística em Pequim. Até à data apenas cinco economias no mundo registaram em Maio inflação abaixo de 1%. As Seicheles entraram em deflação. 

        A mesma notícia no Observador – manchete – Inflação na China acelera para 0,2% - O valor da inflação homóloga na China verificou um aumento de 0,2%. Verificou-se um aumento nos preços de alguns alimentos, nomeadamente carne de ave, óleos e frutos secos. 

        Esta entrada com excertos de duas notícias respigadas em edições online quando andava à cata de informação noticiosa sobre a China serve para recordar que a "verdade" e a "realidade" não são sempre a mesma coisa. Estou convicto que nós fabricamos a "verdade" enquanto a "realidade" existe para lá da nossa percepção, envolvendo tudo como uma espécie de camada de ozono, uma camada factual inverificável.

        Penso poder afirmar sem que me tremam as pernas de vergonha que o ponto de vista individual, a convicção ou a vontade de acreditar em alguma coisa contribuem de forma decisiva para que a "verdade" ganhe consistência dentro das nossas almas (ou será nos nossos cérebros?). A imparcialidade é possível?

        A ser verdade (!!!) isto provaria que a realidade é algo mais abrangente, albergando tantas verdades quantas as que os indivíduos (ou os grupos) forem capazes de engendrar: a realidade como universo, a verdade como constelações ou sistemas planetários. Sei que isto é algo entre a filosofia de tasca e poesia de merda mas, na verdade (hihihi), é o que, de momento, se arranja.

        Talvez pudesse continuar a especular e a acrescentar exemplos e banalidades mas é tempo de concluir: a verdade é uma coisa muito nossa.

 

quinta-feira, junho 08, 2023

Goodbye Maria Ivone

     Ao que tudo indica a China será, num futuro não tão distante quanto isso, o novo farol da Humanidade em substituição do já gasto e confuso farol norte-americano. É, mais ou menos, a ordem natural das coisas. O império americano estafou-se. Goodbye Maria Ivone.

    Esta aparente inevitabilidade deixa muitos de nós, ocidentais, a torcer as mãozinhas e o nariz em simultâneo (eu, por exemplo, torço mais o nariz e menos as mãozinhas): então o que vai ser dos Direitos Humanos? Onde vai parar o Estado Social? O que vai acontecer à Liberdade de Expressão? Talvez estas questões sejam mais inquietantes para os europeus do que para os americanos ou, bem vistas as coisas, dentro de algum tempo talvez a maioria dos cidadãos nem se preocupe muito com tais direitos...

    Vamos por partes. Quanto aos Direitos Humanos tanto os américas como os europeus preocupam-se sobretudo com os seus próprios, quero dizer, os Direitos Humanos dos outros são normalmente questões relativas. Veja-se, por exemplo, a preocupação com a situação dos migrantes que vão alimentando os cardumes do Mediterrâneo ou com os outros que batem de chofre no muro da fronteira mexicana. Batemos muito no peito mas não é por isso que deixamos de beber a nossa cervejola enquanto comentamos o último naufrágio com um prato de caracóis. Liberdade de Expressão? Talvez este seja o último anel que resta do tesouro que nos foi prometido com o regime democrático. Já o Estado Social é coisa que nos EUA não se percebe o que seja e é visto como uma perigosa manigância de regimes comunistas. 

    Mas, pensemos um nadinha, tanto os europeus como os américas têm manifestado vontades políticas muito pouco higiénicas sempre que têm sido chamados a votar. De Trump a Meloni, de Meloni a Le Pen, de Le Pen a todos aqueles políticos obscuros dos quais não sei o nome mas que se vão chegando ao poder um pouco por todo o continente europeu, a ascensão fascista parece uma pandemia descontrolada. Então qual o problema de um mundo dominado pela China? Pois é. Vou pensar nisso. Agora calo-me que o post já vai comprido.

quarta-feira, junho 07, 2023

Ainda a respeito da Economia

    

Temos vivido tempos políticos conturbados, não por questões de política propriamente dita, mas por aquilo a que os francófonos chamam "faits divers". É extraordinário que se possa continuar a discutir a legalidade de uma acção que poderá ter sido (ou não) tomada por fulano a mando de sicrano que nega tudo e o seu contrário, como se fôssemos figurantes de uma ópera bufa à escala nacional. Enquanto andamos nesta treta as coisas verdadeiramente importantes ou parecem menores ou simplesmente passam de fininho. 

            

          Veio António Costa fazer frente aos que o tentavam açoitar por não dizer a verdade, agitando-lhes à frente do nariz os números da Economia. Faltará Ética mas sobra Economia que é o que interessa! E depois vem a história dos bancos, dos certificados de aforro e dos juros e recordo a célebre afirmação de Luís Montenegro, devidamente enquadrada nos idos de 2014: "a vida das pessoas não está melhor mas a do País está muito melhor" bem na linha de outra reflexão intemporal, esta da autoria de Passos Coelho: "nós sabemos que só vamos sair desta situação empobrecendo".

 

E é muito isto! Neste período pós-geringonça recuperámos a perspectiva dos tempos da “troika”: "nós", o povinho, só nos safamos empobrecendo enquanto "eles", os ricos, não habitam o mesmo planeta e, certamente por isso, ficam cada vez mais ricos. Haverá quem consiga explicar a coisa com clareza mas eu não sou capaz. Faltam-me estudos.

 

Carta enviada ao Director do jornal Público

 

segunda-feira, junho 05, 2023

Seria um prazer

     Visto sob a perspectiva de quem anda por aqui a fazer pela vida, o nosso sistema sócio-político é uma coisa odiosa. Já muitas vezes expliquei que me considero um tipo com sorte. Por nunca ter passado fome que não fosse por opção, por nunca ter tido frio que não fosse por descuido, por ter uma saúde razoável. A tudo isto posso somar o facto de nunca ter tido faltas de dinheiro dramáticas. Enfim, sou aquilo que alguns designam por "nababo". Se bem que em pequena escala.

    "Então, se és um nababo, ainda que em pequena escala, de que te queixas" podes tu perguntar, velho amigo leitor (ou velha amiga). Queixo-me não por mim, mas por outros que vivem vidas de merda por serem, tal como eu, comidos por parvos pelas forças do capital. A diferença é que eu, depois de bem rapado e chupado pela vampiragem ainda vou ficando com uns trocos que me permitem comer bem e beber melhor. Nada de luxos desnecessários até porque, na sua maior parte, são inalcançáveis. E, sinceramente, estou-me bem a cagar para os luxos de um modo geral. Petinga, arroz de feijão e uma boa garrafa de tinto já fazem mim algo próximo de um paxá.

    Mas a verdade é que a forma como somos roubados à descarada pelos bancos e pelas geringonças das finanças não é nada agradável, muito menos justa, absolutamente imoral. Os ordenados miseráveis que auferem largas fatias da população, gente que trabalha para ser pobre, as rendas, os juros, os impostos, as taxas, tornam para mim um mistério a vida destes meus concidadãos. Daí que sinta alguma vontade de lixar a vida aos cabrões que nos lixam a nossa.Seria um prazer.

quinta-feira, junho 01, 2023

Cansaço inquietante (terror infinito)

     Cada dia que passa é menos um dia que vives, mais um dia que viveste. É assim, andas enrodilhado com o tempo, com o espaço, enfiado numa camisa de sete varas que te tolhe o pensamento. Tentas esbracejar mas nada, a coisa não se move, a coisa olha-te com aquele aspecto sobranceiro que têm as coisas como ela. 

    É inquietante.

    Corres para aqui, deslizas para ali. Faz um calor de cozer camelos no deserto, sentes a transpiração nos pés, nas mãos, escorre-te calor costas abaixo, são pingos de suor. Não é suor resultante do esforço intelectual, nem sequer do esforço braçal que te faz acreditar nos benefícios do trabalho. Não. Nada disso. É transpiração produzida por aquela estranha sensação que te deixa petrificado.

    É o terror.

    Esforças-te por acordar. Queres regressar aos lençóis, deixar para trás aquele mar infinito sobre o qual caminhas (sabes que apenas Cristo poderia fazê-lo!) mas não consegues deixar de avançar. Para onde diriges os teus passos? Em direcção ao horizonte que, como sempre fazem todos os horizontes, teima em deslocar-se à tua frente. Nunca o alcançarás.

    É o cansaço.

quarta-feira, maio 31, 2023

Pesadelo

     "É o bicho, é o bicho, vai-te devorar..." como cantava um certo cantor (qual o seu nome?) num tema que teve grande êxito e punha muita gente aos pulinhos. O bicho não esmoreceu (ele nunca vai esmorecer) e continua por aí, a cheirar, a lamber o beiço, a arreganhar a tacha, olhinho luzidio, contente por partilhar contigo este mundo no qual interpretas o papel de idiota gorducho pronto a ser papado. O bicho nem precisa ter fome, bastam-lhe os dentes.

    E se a maioria dos cidadãos for fascista por instinto e vocação? E se andares por aí a proclamar justiça e humanidade aos vizinhos estando eles simplesmente a cagar-se no que dizes, no que és e representas? Já pensaste nessa possibilidade? Eu penso nisso. Cada vez mais.

    Se os fascistas vierem a ocupar as cadeiras do poder estou feito ao bife mas não será isso que me transformará em pateta alegre. Só espero que a raiva (ou será coragem) que hoje me enche o peito perante uma besta fascista não se esvazie caso a besta se transforme em governante.

domingo, maio 28, 2023

Pequenas mentiras dominicais

     Tenho, por vezes, a sensação de que a presunção me poderia matar, tão forte a sinto no meu peito. Logo de seguida penso: "não é presunção tua mas do outro, tomas por presunção a tua percepção da mania de grandeza que emana daquele que discursa perante ti". Fico angustiado por não ser capaz de perceber o que realmente se passa comigo e com os outros, que relação posso estabelecer entre o que sinto, o que sei e o que acontece lá fora, ao redor do meu corpo.

    Mas afinal o que quero eu? Aspiro à santidade? Alguém consegue ser (absolutamente) imparcial na avaliação que faz de si próprio e do mundo circundante? Apercebo-me do modo como a ignorância me tem atrapalhado a existência, o modo como distorce, amplia e reduz as minhas ambições até esfrangalhar por completo a mais ténue possibilidade de percepção que possa ter de mim, do outro, do mundo.

    Poderá este texto assemelhar-se a um confuso lamento. Não creio que o seja. Faz-me lembrar vagamente os tempos em que ia à missa e, não tendo tomates para me confessar ao padre, aproveitava a homilia para imaginar conversas íntimas com Nosso Senhor. A coisa proporcionava-me momentos de imensa paz, dava-me conforto. Não é que tenha saudades desse tempo... talvez minta.

terça-feira, maio 23, 2023

Público, 22 de Maio de 2023

Público, 22 de Maio de 2023

Leio (página 2): “Imigrantes em Lisboa e Porto: um quarto para cinco, por mil euros” e penso “é o Mercado a auto-regular-se”. Não tenhamos ilusões, o Mercado é um bicho esfomeado, a sua auto-regulação consiste em satisfazer a gula que é a sua razão de existir. Bem podem contorcer-se os chamados “liberais”, bater no peito reclamando que há bons e maus nesta história (os que batem no peito querem acreditar que são bons). Haverá bons e maus mas, como no Gólgota, uns e outros não passam de ladrões.

Mais adiante (página 9) o texto de Ricardo Arroja, “A ciência sombria” deixa-me a impressão de que a Economia é uma ciência capaz de proporcionar previsões credíveis desde que não haja “quebras de estrutura nos dados” e fico com a desagradável sensação de que Economia e Mercado são vírus produzidos no mesmo laboratório gerido por um qualquer génio maligno, daqueles que pululam nos livros de BD, cujo único sonho é a dominação do mundo.

Por fim (página 20) “Guterres fala em fracasso moral dos países ricos e pede reformas”. Qual herói com pequeníssimos poderes, o secretário-geral das Nações Unidas faz a sua habitual pregação no deserto. Os ricos não têm ouvidos; bem podes bradar, ó Guterres!

Haverá excepções entre ricos, economistas e liberais adoradores do Mercado mas as suas vozes, abafadas na multidão dos seus pares, nunca chegarão aos céus.

 Carta enviada ao director do jornal Público

 

segunda-feira, maio 22, 2023

À flor da pele

     Não sei se podemos chegar a considerar um mistério esta necessidade avassaladora que temos de encontrar dentro de nós algo de especial, qualquer coisa que nos distinga da manada, que faça de nós um bicho diferente dos outros embora de semelhante aparência. Raramente nos basta ser quem somos; raramente matutamos sobre o que realmente somos: animais.

    Quando por vezes alguém nos chama a atenção para essa nossa condição indiscutível procuramos espelhos por nós cuidadosamente escolhidos e mostramos o nosso reflexo neles. Desde a Bíblia, que prova que fomos criados por Deus e somos diferentes da restante bicharada, até aos manuais escolares que nos explicam que somos animais sim, mas animais racionais, os únicos que pensam, que se sonham e se questionam, arranjamos um sem número de artefactos por nós construídos que provam a quem quiser ver  a nossa excepcionalidade. Somos especiais, é o mínimo que podemos pensar.

    Quando olhamos um cão bem dentro dos seus olhos, ou um gato, ou mesmo um pequeno pardal saltitante, há qualquer coisa que assoma dentro da nossa alma, se por acaso a tivermos. Há qualquer coisa que faz vacilar a nossa certeza, qualquer coisa que nos traz o coração à flor da pele e ficamos a pensar: que maravilhosa expressão esta, "à flor da pele"! E damos por nós a imaginar como dirá o cão aquilo que o comove, como explicará o gato que coisas maravilhosas viu ao longo das suas sete vidas, o que pensará o pardal na hora de ir finalmente descansar.

    Se Deus existe não somos nada mais que bichos entre a bicharada, todos nós com o coração ao pé da boca e a sensibilidade à flor da pele.

quarta-feira, maio 17, 2023

Dos objectos

     Possuímos tantas pequenas coisas que nos são imprescindíveis no dia-a-dia que mais parecemos baús de viajantes desajeitados. Antes de pormos um pé fora de casa convém verificar se levamos connosco essa miríade de coisinhas: o telemóvel, a chave de casa, a chave do carro, a carteira, os cartõezinhos, o isqueiro, o maço de cigarros e mais que de momento não me estou a lembrar.

    Esquecer algum destes objectos pode fazer-nos sentir um agonia violenta ao ponto de voltarmos atrás para o recolher. Perder um deles pode revelar-se uma tragédia à moda dos gregos. Tecemos estranhas relações com coisinhas exteriores a nós que são aparentemente insignificantes, como se fossem pintos de uma enorme galinha cujo papel estamos sempre prontos a representar. 

    Fazemos disto um modo de vida, isto de andar a chocar objectos para depois os transportarmos e conduzirmos através das agruras deste mundo. Um dos problemas desta situação prende-se com a ausência de vida verdadeira nos nossos filhinhos queridos. De vez em quando um deles resolve esconder-se e, por mais que o procuremos, por mais que viremos tudo de pernas para o ar, o diabrete não se mostra nem revela deixando-nos meio loucos de angústia e raiva.

    Dizem que é a malícia dos objectos mas talvez tudo isto seja apenas uma expressão complexa da nossa infinita estupidez.


sábado, maio 13, 2023

Ser quase nada

     Não sei se também te acontece, não sei se, por vezes, tens aquela incómoda sensação de que pouco mais és que o teu número de contribuinte (o célebre NIF), que a tua identidade é mais fiscal do que humana. Sabes bem que, mesmo depois de morto e enterrado, os que por cá ficarem e sejam ecos do que foste, vão continuar a debitar aquele número que te identifica, como se o tivesses tatuado na alma e ele continue por aí, a pairar como se fosse um fantasma, o que resta de ti.

    Não sei se também te acontece tremer um bocadinho quando pensas que além do NIF tens o número da Segurança Social, o do Sistema de Saúde, o da Carta de Condução, o do telefone, o da porta de casa e do Código Postal... e o teu nome? A tua pessoa? Há alguém dentro de ti?

    Não sei se também te acontece mas eu, tem dias que penso que sou uma ficção na cabeça de alguém que tem a paranóia dos números e por vezes sonho um pesadelo em que esse alguém muda de registo (transforma-se em poeta) e eu fico reduzido a quase nada. Ás vezes sonho este pesadelo em que não sou nada apesar de saber que sou alguém. E transpiro como se tivesse rios inteiros a rebentarem-me nas veias.

sexta-feira, maio 12, 2023

Ser artificial

     É a Inteligência Artificial, IA para os amigos. E para os inimigos.

    Dizem que anda por aí, que vai ser a nossa madrasta, a nossa carcereira, há até quem diga que a IA vai ser a nossa assassina ou a nossa médica assistente neste processo de auto-destruição que encetámos vai pra muito, muito tempo. É a eutanásia global a ganhar contornos definitivos.

    Pessoalmente não lhe tenho ligado muito mas isso não me imuniza em relação aos seus efeitos, sejam de curta ou longa duração. Para ser sincero penso que não precisamos da IA para assinarmos a nossa sentença de morte: bastamo-nos bem uns aos outros.

terça-feira, maio 09, 2023

Riso e siso (e riso)

     "Muito riso, pouco siso", pois sim, já me tinhas dito. Rir é das coisas mais fixes que me lembro de ter feito em toda a minha vida. Quando o riso é sincero e me abana as fundações do esqueleto é como se a Felicidade ganhasse forma e consistência: a consistência de uma gargalhada incontrolável. É tão bom!

    Depois temos a versão "gargalhada forçada". 

    A gargalhada forçada não tem nada a ver com aquela outra, que referi logo a abrir ou, pelo menos, tem muito pouco a ver; é familiar afastada, é o que é! Uma prima em 3º grau a dar-se ares de putéfia mas que, na verdade, é apenas uma prima incompreendida por emitir sinais dúbios, sinais confusos, enfim, todos corremos o risco de sermos mal interpretados. A gargalhada forçada corre muitos riscos de interpretação.

    Se pensarmos um pouco compreendemos que a gargalhada forçada pode ter diferentes origens e outros tantos destinos. Pode vir da necessidade de mostrarmos cumplicidade com o outro e dirigir-se ao ego alheio; pode ser uma demonstração de compreensão de algo que não compreendemos lá muito bem e ir direitinha para o canal que sintoniza o desprezo no nosso interlocutor; pode ser muito simplesmente uma proverbial expressão de boçalidade... a gargalhada forçada pode ser tantas coisas que nem ela sabe o que na realidade significa (até porque, sendo forçada, não pode reclamar grande coisa em termos de "realidade"... ou pode?)

    Termino aqui esta breve reflexão pois que me está a deixar um pouco macambúzio, um nada meditabundo, pensar tanto em gargalhadas não está a ser nada divertido.

domingo, maio 07, 2023

Coisa suspeita

     Hoje acordei bem disposto mas a coisa passou depressa. Regressei ao lugar um pouco incómodo, um pouco sombrio, ainda assim agradavelmente fresco, onde venho parar quando não me porto mal. Não há nada de errado, pelo menos nada que se note, mas a boa disposição dura muito pouco tempo. 

    Não é que se transforme em terror ou desespero, nada disso! Longe disso. Nem sequer posso suspeitar que alguma depressão possa vir a instalar-se no céu por cima desta minha cabeça. É apenas este leve sopro, esta pálida maçã, aquele vulto difuso, uma certa ausência de vontade. É este não-sei-quê que me incomoda por não ser capaz de compreendê-lo.

    Mas, assim à primeira vista, não parece coisa capaz de me deitar na cama.

sexta-feira, maio 05, 2023

Fado velho

 

Toda a gente fala da trapalhada. Olha o Costa! Olha o Marcelo! E o Galamba? Andou tudo a adivinhar a atitude do Costa, a resposta do Marcelo, o castigo do Galamba. Agora é tudo a tentar adivinhar as intenções do Costa e as habilidades do Marcelo; o Galamba, esse, vai perdendo consistência física até ficar reduzido à pejorativa expressão: “galambada”.

Pessoalmente preocupa-me que seja necessário recorrer a gente do calibre de um Galamba quando se pretende formal um elenco ministerial. Poderia referir uma infindável galeria de personagens mais ou menos horrorosas que já desempenharam cargos de relevo nos governos da nação mas queria apenas realçar esse aspecto; não há gente melhor para sentar nas cadeiras ministeriais? Já nem digo gente mais qualificada, apenas alguém mais honesto ou, pelo menos, alguém que não mentisse descaradamente.

Depois penso: nas próximas eleições tudo vai mudar. Mas olho para as fotos nos jornais e vejo um Hugo Soares em bicos dos pés atrás do ombro de Luís Montenegro, vejo Ventura com aquela nuvem de personagens confusas de aspecto malévolo que o emolduram sempre que vem jurar amor a Deus, à Pátria e a não sei mais quê, vejo gente que vocifera e cospe perdigotos em todas as direcções, vejo pessoas nas quais acredito mas não têm a força dos votos e penso “ai o Costa” e suspiro “ai o Marcelo”. É o velho fado português. Folheio o jornal e vejo Trump, vejo Putin, vejo Biden, Zelensky, Meloni, Lagarde, Xi, Bibi, e penso: estamos f******!

 Carta enviada ao Director do jornal Público

sábado, abril 29, 2023

Nas ruas da zumbisfera

     Sim, eu compreendo, ler umas palavras escritas por um gajo qualquer num blogue perdido na confusão florestal da Internet é algo quase estranho. Cada dia que passa a nossa atenção é mais e mais solicitada de diversas formas; com maior ou menor agressividade, de forma mais melodiosa ou imposta por voz autoritária, a requisição dos nossos amores é feita pela publicidade, pela informação jornalística (24 horas-dia, 7 dias da semana), pelos vendedores de felicidade, pelas sereias, pelos vigaristas, pelos profetas, pelas plataformas digitais, tik-tok, tik-tok, o relógio substituído, pelos políticos de todas as formas e feitios... textos e imagens, sobretudo imagens, imagens em movimento, submergem a alma do confuso cidadão que esbraceja sem saber muito bem se é a maré que o puxa, se é ele quem a empurra para a costa.

    E, dás por ti, ainda lês estas palavras. És um dos 7 ou 8 que o fazem com alguma regularidade. Estás neste recanto escondido de um beco sem saída na Cidade da Informação e pensas... não faço a mínima ideia do que estás a pensar mas, imagino, gosto de te "ver" por aqui, seja qual for a razão que te trouxe até este lugar. 

    Apesar de tudo, tenho a ilusão de quebrar um pouco o isolamento escrevendo nestas 100 Cabeças, insistindo em arrastar os meus passos pelas ruas desertas da zumbisfera. Até mais logo.

quinta-feira, abril 27, 2023

Fome de mais tempo

     O tempo encurta-se, cada dia mais curto, cada dia mais fechado, é uma caixinha com forma de ampulheta. O tempo muda de forma, ora ganha ora perde um aspecto que anteontem não tinha ainda. É um tempo de narrativas curtas, vidas inteiras metidas num clip, num anúncio publicitário, numa canção da moda, três minutos top. O tempo encolhe, as histórias são historinhas e os heróis... o que é isso?

    O passado continua moribundo, espeto-lhe um garfo, corto-lhe um bom pedaço. Chamo-lhe nomes mas ele, digno (afinal é o passado!), ele não responde à provocação. A caixinha cai no chão e despedaça-se. Tempo espalhado, varrido, tempo na pá do lixo, tempo a jazer no caixote. Mastigo o pedaço.

    Acabaram-se as epopeias.

segunda-feira, abril 24, 2023

Uma grande aventura

     Nem Paraíso, nem Nirvana, nem o caraças! Muito me alegraria caso conseguisse manter a compostura durante os anos que me restam nesta vida que, imagino, seja a única que tenho e que, uma vez acabada: adeuzinho pessoal, até nunca mais!

    Penso que esta sensação de finitude absoluta não complica demasiado aquilo que se me vai formando na mona. Pelo menos por enquanto. Já ouvi falar de ateus empedernidos que se convertem à última da hora, não vá o Diabo tecê-las. Será que, chegado o derradeiro minuto, a morte nos abre nos olhos uma perspectiva qualquer sobre um outro universo? "Ah, bom, sendo assim..." pensa o ateu com um pé cá e outro no lado de lá,"... sendo assim acredito em Ti.", mesmo sem imaginar o que quer que seja que ordena o andamento destas coisas.

    Estou, portanto, a ponderar várias possibilidades de nem sei o quê. Imagino que a vida seja exactamente assim, uma aventura imprevisível mesmo até ao último suspiro.

quinta-feira, abril 20, 2023

Pode ser que me entendas

     É deixar correr a coisa, que se lixe. Ser lindinho e sorrir como se tivesse caca na boca? Fingir ser o que se não sente? Para quê, para que serve tal coisa? Ser uma treta e lucrar com isso ou não ser nada e ficar como estamos? É deixar correr a coisa e depois logo se vê.

    Fazer planos, forçar os acontecimentos de modo a que as coisas se ajustem ao que imaginámos? Que seca, que angústia. Quem pode desejar viver assim, a torcer as vidas de outras pessoas? É deixar correr as coisas, pode ser que a felicidade aconteça. A felicidade rompe-nos o peito quando menos se espera. 

    Viver sem ambições maiores do que aquelas que nos cabem na vida que vivemos. Pois, também me parece, esta frase parece uma coisa e, vai na volta, não quer dizer absolutamente nada. Seja como for, pode ser que me entendas.

quarta-feira, abril 19, 2023

Anseio

     Como influenciar o delírio do quotidiano? Como fazer parte do todo produzindo algo relevante? Como não ser invisível nem inconsistente? Como ser alguém neste mundo confuso e hiper-mediatizado? Ora porra, por que carga de água poderemos nós ser assaltados por questões como as que acima ficam e fazer das suas respostas algo semelhante a um objectivo de vida? Não nos basta respirar e existir?

    É difícil compreender onde acaba a mera vaidade humana e onde começa o espírito altruísta, onde cessa a selfie e começa o olhar alheio. É complicado separar o acto de ver da sensação de ser visto. 

    Gostava de acreditar que me comporto de forma desinteressada, que o que os outros pensam não influencia a direcção que decido tomar, gostava de acreditar que sou uma espécie de herói que respeita um certo conjunto de valores que gosto de apregoar. Gostava de acreditar em tudo isto... mas não sou capaz.

terça-feira, abril 18, 2023

Frustrações

     Não devo nada ao mundo real mas nunca viverei tempo suficiente para saldar a minha dívida com mundos que não existem. A cada dia que passa sinto o meu corpo a pedir com maior veemência que me deixe de merdas; a pedir que me deixe ir, que desligue, que seja sonho ou, pelo menos, que me deixe ser imaginado. A vontade de compreender o mundo a que chamamos real não encontra correspondência na minha capacidade de o fazer. Fico frustrado.

    A frustração é como uma pequena pessoa impertinente, inconveniente como um canito mimado que ladra a tudo o que passa e não deixa ninguém sossegado. Preferia deixar-me andar à boleia na barca de Caronte, acompanhá-lo de um lado para o outro levando corpos, cobrando óbulos, conversando com as almas hesitantes. Mas não posso pertencer simultaneamente a dois mundos que mal se tocam. É frustrante.

    Concluo que a vida me obriga a ferrar um calote valente, a não ter como pagar esta dívida difusa que apenas sei que vai crescendo. O que me vale é que o Sonho não cobra quando estou acordado e dos pesadelos resta o suor matinal: está pago? O que me vale é que o Absurdo se vai contentando com as coisas que desenho, que escrevo e com tudo aquilo que me passa pela cabeça e esqueço quase de imediato. 

    Na verdade (seja isso o que for), contas feitas, só posso dizer, como terá dito Picabia: não compreendes o que digo? Pois bem, eu compreendo ainda menos.

quarta-feira, abril 12, 2023

Leveza

     O Passado é uma coisa estranha. Ora parece pesar na memória, ora parece aliviá-la. Vem como se fosse feito de ondas parecidas com as que vivem no mar. A estranheza da coisa é que o Passado não provoca desconforto nem conforta por aí além, está ali, está aqui, sabemos que continuará a crescer atrás de nós irmanado no Futuro, um e outro sendo coisas que não sabemos bem o que são.

    O coração confunde-se-me com a alma, misturam-se-me no cérebro, somos todos uma coisa só que se agarra ao corpo, somos todos eu. E somos feitos de Passado e de Futuro, andamos por aqui a viver aquilo que o mundo nos oferece e o que somos capazes de oferecer ao mundo. Sinto uma espécie de paz que até aqui desconhecia. Pareço mais leve.

sábado, abril 01, 2023

Se calhar

     André Ventura tem um discurso abjecto, cavalga a xenofobia como se fosse a Virgem Maria em direcção ao Egipto montada no seu burrico, debita palavras vazias, é uma espécie de fascista mal encapotado, etc. A complacência do PS, a indefinição do PSD, as acções do PS,  a fome do PSD, a inépcia do CDS, etc. Leio o Público e são várias as tentativas de explicação para a ascensão da extrema-direita no nosso país. A maioria dos comentadores aponta para a tibieza do sistema e dos políticos. Fico a pensar: então e os cidadãos que se deixam seduzir por um discurso tão notoriamente abjecto, que aplaudem e aceitam a xenofobia, que não se incomodam (antes pelo contrário) com o voto depositado na boca de um fascista? São vítimas inocentes das malfeitorias da classe política? São pessoas de bem tão desiludidas que se transformam em... em quê? 

    Se calhar o tal racismo larvar de que para aí se fala é mais real do que estamos dispostos a aceitar. Se calhar o falhanço do sistema educativo vem de muito mais longe do que pensamos. Se calhar as pessoas não se incomodam tanto com a mentira como afirmam quando estão na casa de Deus a bater no peito. Se calhar há mais fascistas entre as pessoas de bem do que seria salutar para o nosso futuro colectivo.