quinta-feira, março 19, 2020

Ensino


Não sou grande adepto do ensino à distância. Talvez porque “burro velho não aprende línguas”, admito, mas tenho as minhas reservas quanto à qualidade do ensino assim ministrado. Acredito no contacto humano, na comunicação directa, na entoação da voz, na expressão facial, no gesto teatral. 

Duvido da eficácia de um tweet.

As ferramentas utilizadas no ensino à distância são apenas isso: ferramentas. Estou convicto de que a potencialidade de uma ferramenta depende muito do modo como é utilizada. Seja um i-phone ou uma trincha e duas latas de tinta, o utilizador determinará a qualidade do resultado do trabalho desenvolvido.

A tecnologia não é magia e, portanto, não opera milagres. Um bom professor será sempre isso mesmo e um mau professor idem aspas. O ensino à distância é, a meu ver, um recurso de emergência ou, em certas circunstâncias, um mal menor.

Quero acreditar que os resultados do ensino presencial não são melhores nem piores que os do ensino à distância, são diferentes.

segunda-feira, março 16, 2020

Uma morte

As notícias sobre a pandemia tornaram-se de tal modo absorventes que tendemos a esquecer que há tantas outras doenças a provocar medo, morte e sofrimento. Acabo de ouvir a notícia do primeiro doente falecido em Portugal em consequência de infecção com covid-19. Sabia-se que seria uma questão de tempo. Aconteceu. Morreu o primeiro de uma lista que se deseja curta. Irá isto ter alguma consequência prática no modo de agir de tantos que continuam a minimizar a gravidade da situação?

Da parte que me toca estou em recolhimento o mais absoluto que me for possível. Hoje não pus pé fora de casa. É o meu primeiro dia totalmente recolhido. Quantos se seguirão? O mais estranho de toda esta história é que não tenho como saber se estou ou não infectado. Para já não apresento qualquer sintoma mas, presumindo que o período de incubação do vírus é longo, nada me garante estar limpo.

Isto é como viver dentro de um conto de ficção científica.

domingo, março 15, 2020

Estranheza

A coisa está no início. Ontem foi o primeiro dia em que eu e a minha família evitámos ao máximo sair de casa. Ainda assim fui comprar o jornal e um maço de tabaco, depois fui, com a Ana, ao mercado de rua comprar legumes frescos e, à tarde, desloquei-me ao supermercado em frente a minha casa adquirir outros bens alimentares.

Hoje fomos à farmácia comprar alguns medicamentos para caso de emergência, passámos pela bomba de gasolina onde comprei o jornal e não um, mas dez maços de cigarros. Amanhã, penso evitar sair, de todo.

É estranho. O recolhimento voluntário, a capacidade de nos fecharmos em casa... é estranho.

sexta-feira, março 13, 2020

Encerrado

O primeiro-ministro anunciou, ontem, mais ou menos à hora da papa, uma série de medidas práticas com a finalidade de refrear o ímpeto infeccioso do covid-19. A ideia é, basicamente, fechar o país. Encerrá-lo.

Estamos desamparados perante a ameaça viral, não sabendo ao certo como combater o bicho fecham-se as portas, recolhemo-nos atrás das paredes na aparente segurança do lar e esperamos. Entretanto a vida continuará lá fora, a vida continuará cá dentro. Dentro de casa, dentro do nosso corpo, dentro dos nossos corpos. A vida não será encerrada.

É-nos sugerido um retiro auto-imposto. Apelam ao nosso espírito cívico, à nossa consciência cidadã, ao nosso amor pelo próximo. A ideia é a de um retiro espiritual em massa. Seremos capazes de realizar esta espécie de mergulho para dentro de nós próprios? Todos, em simultâneo, uma nação em recolhimento.

Tenho as mais sérias dúvidas, parece-me que será pedir demasiado ao povão mas, como diz o próprio povo, pedir não custa. O povo diz muitas coisas, umas acertadas, outras nem tanto.

Iremos nós conhecer um pouco melhor o povo português? É esta a oportunidade para nos olharmos ao espelho colectivo da nação e perceber um pouco mais os contornos da coisa que somos. Seremos algo próximo daquilo que imaginamos (se é que imaginamos ser alguma coisa)?


quinta-feira, março 12, 2020

Covid-19

Era de prever: a histeria instala-se, a vozearia confunde, os opinadores profissionais começam a delirar, seja em directo, nas televisões, seja em diferido, nos jornais, é um regabofe de prosápia e pés pelas mãos. Os decisores políticos acordam transformados em baratas tontas, as medidas de contenção da pandemia formam um novelo intrincado ao qual não se encontra ponta por onde se lhe pegue. Anda tudo para trás e para a frente, para um lado e para o outro, a nau vai de rojo no meio da tempestade. O povinho cá vai andando, a cabeça entre as orelhas, pensando que não sabe o que pensar ou que, sabendo, o mais provável é que esteja enganado.

A pandemia do covid-19 revela a consistência frágil deste nosso mundo, um mundozinho de cristal, desprotegido e incapaz de encontrar formas robustas de se afirmar perante si próprio. Quanto tempo durará esta barafunda? Qual será o aspecto do mundo global quando a poeira assentar? Aguardemos com a serenidade possível.

domingo, março 08, 2020

Vertigem de merda

Não me tinha apercebido (nem sequer pensado) que a simples presença de um monte de merda levasse tantos dos que lhe estão próximos a desejarem assemelhar-se a cagalhões. Acontece em muitos lugares e em diferentes contextos, quando os transformistas, de pessoa para cagalhão, pressentem que o monte de merda tem aceitação pública e se aproxima dos seus objectivos.

Vivemos tempos de "vale tudo" e esta vertigem mimética contribui para a paulatina transformação do ambiente social numa esterqueira, uma pocilga tão nojenta que causa repulsa ao mais porco dos porcos.

sexta-feira, março 06, 2020

Ressurreição

Uma dúvida me assalta vinda sabe Deus de onde: quando ressuscitarmos que corpos vamos utilizar no nosso regresso a este mundo? Dadas as primeiras imagens que se me formam no espírito depreendo que esta dúvida que me assalta é formada e influenciada por um misto de série de TV e educação católica demasiado esquecida.

O paraíso terreal habitado por uma multidão de zombies tipo Walking Dead, 10ª temporada, quando os corpos meio destruídos da zombieria já trazem ramos agarrados e restos dos corpos devorados pelo caminho? Não posso dizer que seja uma imagem bonita de reter mas poderei afirmar que é apropriada.

Ou bem que Deus se esmera e faz o maior de todos os milagres, restituindo um corpo limpinho aos ressuscitados ou vai haver reclamações em barda.

Mas, por falar em corpos limpinhos e partindo do princípio que os vamos ter, ressuscitaremos com que idade? Com a idade da hora da nossa morte? Regressaremos todos em corpos jovens e vigorosos? Convenhamos que são dúvidas perfeitamente plausíveis, capazes de influenciar a minha mente na hora de bater a caçoleta. Convinha estar informado.

quarta-feira, março 04, 2020

Fronteira

Todo o dia senti a proximidade da fronteira. Pequenos sinais na base da nuca, sensações mornas, vislumbres que não fui capaz de reter por mais que um momento fugaz. Sinto que são coisas de sonhos passados mas não consigo ligá-las; são coisas perdidas.

Há muito que não sentia a fronteira. Porque se aproxima ela num dia aparentemente tão normal como este, quase chegada a hora do soninho? Esta fronteira movediça que separa o lado de cá daquele outro lugar indefinível onde os animais dos sonhos se passeiam aguardando a sua oportunidade.

Todo o dia senti a proximidade da fronteira.

quinta-feira, fevereiro 27, 2020

Desalento

O faz-de-conta é cada vez menos mentira; a mentira é, cada vez mais, igual à verdade. Verdade e mentira deixaram de ser antónimos, cisas opostas, coisas distintas, verdade e mentira são agora irmãs gémeas, irmãs siamesas que partilham órgãos vitais, siamesas que partilham o coração num peito comum. Corre-lhes o mesmo sangue nas veias.

Tentamos por todos os meios corrigir a Natureza. No corpo aplicamos a cirurgia plástica, na imagem virtual, com maior eficácia, aplicamos o Photoshop. Retocamos, retorcemos, refazemos, tudo deve obedecer a um plano.

Há milénios imaginámos Deus, inventámos um modo divino de agir,nos tempos que correm imitamos esse modo de agir, imaginamo-nos deuses. A nossa soberba não tem limite: Deus criou a Natureza, nós corrigimos a obra de Deus. Podemos concluir que pensamos ser mais capazes que Deus?

Se eu fosse crente ia já pegar uma forquilha e sair para a rua à procura dos ímpios para os espetar numa parede. Como não sou crente compreendo que Deus é uma invenção humana, Criador e criatura são demasiado parecidos e, prova final da Sua inexistência, são uma boa merda.

terça-feira, fevereiro 25, 2020

3ª feira de Carnaval

Está tão calma esta tarde que se apaga! O dia passou devagar, nada aconteceu de extraordinário, apenas tempo, aquele tempo que se esgota. Foi mais um dia de espera; acoitado em casa não suspirei uma vez que fosse. O sol já apenas se faz adivinhar. A noite decerto cumprirá, burocraticamente, a função que lhe é atribuída.

Dias como este estão marcados no calendário para que acreditemos tê-los vivido. Olhamos a sequência numérica: 25. Não há que enganar. Podia cobrir o número com um "X", como fazem os prisioneiros que sonham com o dia em que serão libertados, enclausurados, a contar o tempo, as horas, os dias que faltam para que o futuro seja já uma sombra do passado.

Quanta melancolia tenho aconchegada no meu peito!

segunda-feira, fevereiro 24, 2020

A guerra

Anda o mundo agitado pela angústia causada por um novo vírus. Pergunto-me se será razão para tão grande alarme.

Se este vírus tivesse surgido há uns 100 anos atrás decerto não iria desassossegar do mesmo modo os nossos antepassados. Por um lado não teria à disposição a extraordinária ribalta que é o aparato mediático contemporâneo, capaz de transformar qualquer peido num autêntico mar de merda; por outro não haveria esta capacidade de espalhar por toda a superfície planetária uma maleita manhosa como esta pois a indústria do turismo voador ininterrupto não existia. Era uma coisa muito intermitente, incapaz de colocar pessoas infectadas em cada canto do mundo com uma rapidez estonteante.

Vivemos na Aldeia Global, estamos a comportar-nos como aldeões?

Esta história fez-me lembrar um conto de Leopoldo Lugones intitulado Os cavalos de Abdera no qual... talvez possas ler o conto, amigo leitor, e depois me dirás se há alguma sombra de lógica nesta minha comparação. Passando adiante: é como se os vírus tivessem algum tipo de inteligência e fossem capazes de definir estratégias guerreiras.

É a guerra.

domingo, fevereiro 09, 2020

Paz de espírito

O desconhecido pode provocar em nós angústias injustificadas. Só poderemos ter consciência dessa injustificação caso o desconhecido seja revelado. Se, por acaso, essa revelação nunca acontecer poderemos viver numa ignorância constante, em permanente equilíbrio sobre o fio da navalha mas sempre com um plácido sorriso nos lábios e uma pena de pintainho no lugar do coração.

quarta-feira, fevereiro 05, 2020

Morbidez cósmica

Um dia todo o meu corpo será esquecimento.
Até as estrelas morrem, caraças!

sábado, fevereiro 01, 2020

Say see you

E pronto, it's done, o Reino Unido cortou amarras da União e voga agora, alone, nos mares da Globalização. Sou pouco versado em política internacional mas isto, assim às primeiras, parece uma bad idea. Mas posso estar enganado.

Não sei bem o que irá mudar. Antes mesmo de Portugal ter entrado para a União já a Great Britain preenchia o meu imaginário muito por via da Pop Culture e não estou a ver que isso possa mudar significativamente com o Brexit. Como não sou um business man talvez não sinta a coisa no pêlo.

A sensação incómoda é a de que há um mundo inteiro a fazer pressão no sentido de esvaziar a União Europeia do seu significado. Russos, chineses, árabes e agora até mesmo os Estados Unidos da América, todos nos olham com desdém, como se devolvessem uma certa arrogância civilizacional que nos caracteriza.

Sem o Reino Unido ficamos mais pequenos, mais frágeis, reduzidos. Não há como ignorar isso. Mas pronto, cumpriu-se a vontade da maioria dos votantes lá da ilha. Resta dizer see you later e pouco mais. Hoje é o primeiro dia do resto das nossas vidas. Assim será amanhã e depois, e depois, e depois, ...

quarta-feira, janeiro 29, 2020

Lengalenga

Compra; poupa; aproveita; oferece; ganha! Sê feliz. Eles estão atentos às tuas necessidades, querem que te sintas bem, que não te falte nada. Encomenda; telefona; faz online; vive a vida sem limites; nada se te compara: o espectáculo és tu! 

segunda-feira, janeiro 27, 2020

Viver a vida

Encontrar motivação para viver mais um dia é algo em que raramente pensamos. Limitamo-nos a viver, é tão simples! Afinal de contas somos animais. Será que a doninha sofre de depressão e o leão-marinho pensa na família quando sai para caçar? Até que ponto estamos em pé de igualdade com um pombo correio?

Hoje, mesmo antes de ligar o interruptor, quando o quarto estava escuro e o dia ainda não nascera, hoje pensei como será o despertar de um animal como eu que tenha acordado numa zona de guerra (partindo do princípio que se consegue dormir quando a nossa casa pode ser atingida a qualquer momento por um míssil assassino). Qual a motivação para o dia que segue quando nos falta tudo, principalmente a certeza de que é um mundo pacífico aquele que está do lado de lá da porta?

Haverá distinção entre viver e sobreviver?

sexta-feira, janeiro 24, 2020

Desinformar

A manipulação das nossas cabecinhas é implacável. A nossa opinião pessoal é um saco de boxe onde alguns filhos-da-puta treinam diariamente, horas a fio, martelando-nos insistentemente com notícias do mais variado teor, com tendência preferencial para as que são fabricadas à medida dos interesses que lhes enchem a peida. Pof, tumba, catrapumba, pof, pof; os socos chovem sobre a nossa mente desprotegida, indefesa, a precisar de pomada e compressas nos hematomas.

Há assuntos e notícias que se estendem no tempo, em campanhas de longa duração; outros são de consumo rápido, bastam uns poucos dias, pouquinhos mesmo, e dá-se por encerrado o assunto, está tudo resolvido. A campanha avança à uma em jornais impressos, canais de "informação" televisivos, rádio, redes sociais e internet de um modo geral: é uma avalanche, um tsunami, uma força incontrolável que leva à frente a verdade, a mentira e o pouco mais ou menos. Não fica nada.

Se fores vítima de uma campanha destas não te adianta nada seres inocente caso alguém insinue que és culpado. Talvez te safes no Juízo Final. Pode ser que Deus não se deixe iludir por estas manigâncias mas não convém confiar demasiado nas Suas capacidades.

terça-feira, janeiro 21, 2020

Calorzinho

É complicado ter esta sensação de que a nossa civilização caminha para o abismo a passo de Golias e ser professor, lidando diariamente com tantas crianças, ver diariamente tantos sorrisos, perceber tanta inocência, é complicado.

É complicado assumir que estou a preparar estas pessoazinhas para a vida quando não tenho a mínima noção do que será essa vida dentro de 20, 30 ou 40 anos. Aqui há 30 anos atrás, quando comecei a minha carreira, o problema não se me colocava, o futuro tinha contornos menos indefinidos e, ainda assim, vai saindo absolutamente diferente do que então imaginava. A transformação social acelerou de modo estonteante e continua a acelerar. Ainda por cima sem travões.

É complicado, mas o calor humano ajuda-me a superar tudo. Ajuda-me a sorrir, ajuda-me a interagir, ajuda-me a viver intensamente todos os momentos. Pode soar lamechas mas é a mais pura das verdades. O calor humano é o que vale a pena, tudo o resto são tretas.

sábado, janeiro 18, 2020

A lógica do Urinol

Ah, como é reconfortante que, por uma vez que seja, a polémica se desdobre em volta de um objecto artístico; ou será que a raiz da polémica é o artista que criou o objecto artístico? Terceira possibilidade, bem mais prosaica e enfadonha: a polémica reside no vil metal, sempre o vil metal. Haverá ainda uma outra via de análise, a da necessidade de ter razão, arrotando a derradeira posta de pescada, mas não valerá a pena ir por aí que o espaço é curto e o tempo escasseia para todos.

Longe vai a época em que a Academia das Belas-Artes decidia do alto da cátedra o que era e o que não era Arte (assim mesmo, com maiúscula). Não havia grande discussão. Em 1863 deu-se em Paris um grito semelhante ao então recente Grito do Ipiranga. Foi no célebre Salon des Refusés, exposição paralela à da Arte do Salon, validada pela Academia, onde pontuavam, entre outros, artistas menores como Manet ou Cézanne, cuja pintura não era mais que ridícula e grotesca. A partir daí a coisa foi-se desenrolando até que explodiu definitivamente com as vanguardas artísticas do início do século passado, tendo como obra emblemática A Fonte, da autoria de Marcel Duchamp que consistia, como será do domínio público, num urinol deitado e assinado: R. Mutt, 1917 (segundo a Wikipedia terá um valor de mercado actual de cerca de 3 milhões de euros). Esta foi considerada, por um painel constituído por historiadores, curadores, galeristas e outras sumidades do universo das artes plásticas, a mais importante obra de  toda a Arte produzida no século XX. Um urinol, benza-nos Deus!

Aqui chegados aceleremos em direcção a Leça da Palmeira e a A linha do Mar, obra polémica de Pedro Cabrita Reis que tanto tem dado que falar. O artista fez publicar um texto neste jornal que desagradou aos seus detractores tanto pelo modo como afirmou a sua autoridade quanto pela argumentação estética. Apontaram-lhe a falta de humildade, como se a humildade fosse uma qualidade necessária para a validação do discurso e do objecto artístico, e puseram em causa que o artista possa decidir se a sua criação é ou não Arte (ou arte, com minúscula). 

João Miguel Tavares escreveu um divertido texto, “Serenamente, Cabrita Reis e a lógica da banana” onde conclui que “A lógica da batata foi ultrapassada. Hoje impera a lógica da banana.” A meu ver, a causa principal do espanto que conduz à polémica é o valor que a Câmara de Leça pagou pela obra e os valores absurdos que caracterizam o Mercado da Arte actual. Seja lógica da batata, da banana ou do urinol, é a liberdade do tão incensado “mercado” que estará, verdadeiramente, em causa. Mas, como todo o bom neoliberal sabe e defende, os mercados auto-regulam-se. Pois então, deixemos o Mercado auto-regular-se em paz, que raio! Diz o Povo que ao tolo, quando lhe apontam a Lua, ele se fica pela contemplação do dedo que lha indica. Não sei se aplica nesta situação mas é tentador acreditar que assim seja.

Carta enviada ao Director do jornal Público

sexta-feira, janeiro 17, 2020

Demónios santos

A violência sobre as crenças alheias é um crime complicado. Aquilo que os primeiros cristãos fizeram à Cultura Clássica foi um crime inqualificável, foi o triunfo da ignorância pomposa sobre a sabedoria. Os cristãos povoaram o mundo com demónios.

Primeiro descobriram demónios em cada estátua, em cada templo, em cada livro e como fervorosos crentes que eram, fizeram da sua destruição um objectivo de vida. Ao decapitarem um estátua ou no acto de incinerar uma pilha de escritos, os futuros santos vislumbravam demónios a escapulirem-se, uns, outros vociferando desesperados. E lá iam eles.

Mas muitos dos mais terríveis demónios que os cristãos trouxeram ao mundo foram os seus santos, os seus bispos, os seus exércitos de trauliteiros assassinos. A violência sobre as crenças alheias é um crime complicado.

segunda-feira, janeiro 13, 2020

Nostalgia

Esta manhã o frio fez-me sentir uma estranha felicidade. Apesar de ter as mãos e os pés próximos do gelado e a face meio queimada pela mordidela do ar, senti-me feliz. A neblina escondia o topo dos prédios e conferia à rua da cidade um aspecto bem mais interessante do que é habitual, envolvendo-a  em mistério.

E eu senti felicidade dentro de mim.

O Inverno tem sido mentiroso. Mais calor do que frio não faz justiça a esta estação do ano. Talvez por isso me tenha sentido feliz. Talvez este súbito ajustamento do tempo meteorológico ao tempo do calendário me permita algum tipo de apaziguamento, me traga algum sossego. Ou talvez tivesse apenas alguma saudade do frio invernal; saudade das serras horizontais, ao longe; saudade das poças de água gelada pela manhã, das ervas cobertas de geada, da respiração vaporizada a dançar-me em frente aos olhos, cada suspiro uma fada.

Talvez este frio me tenha feito sentir uma fortíssima nostalgia dos tempos em que fui criança, saudade da Beira Alta, talvez...

quinta-feira, janeiro 09, 2020

Esperteza

Ser esperto. Espertalhuço, espertalhão, ter olho vivo. Muito aposta o nosso sistema de ensino nesse traço de personalidade. Por outro lado pretendemos que as crianças se comportem como anjos. Anjinhos espertalhões?

A sorte de um professor é que ainda há muitos miúdos que são anjinhos, simplesmente. Putos fixes.

O pior são os espertalhões que não são fixes, os que tentam enganar o professor, os pais, o mundo todo, os que se enganam a eles próprios conscientemente. Mmmmmh...

Esperteza não é sinónimo de inteligência, embora muitas vezes sejam confundidas. É como distinguir um papagaio de uma papagaia, certamente existem diferenças mas estão meio escondidas. O contacto humano permite descobrir quais são essas diferenças e compreender que saber muito de matemática ou de gramática não chega para fazer um cidadão. É preciso muito mais.

terça-feira, janeiro 07, 2020

Valha-nos Santa Sorte

Trump é um cretino. Toda a gente está de acordo que Trump é uma refinada besta, um pedaço d'asno, como diria o meu avô Mário. Pessoas estúpidas há-as às pazadas, trazem pequenos problemas ao mundo que podem ser grandes problemas para os seus vizinhos ou familiares e gente próxima. É uma questão de escala e distanciamento. Mas Trump, um dos maiores cretinos de que há memória, é presidente dos EUA e, por enquanto, um dos seres humanos mais poderosos à face da Terra. Logo traz gravíssimos problemas agarrados à sua tremenda estupidez.

Trump foi eleito pelos cidadãos dos EUA. Serão esses cidadãos maioritariamente estúpidos como o seu presidente? Serão os cidadãos dos EUA um infindável bando de cretinos mentecaptos?

O mundo treme perante a boçalidade maldosa dos tiranos: Trump, Putin, Xi Jinping, Khamenei, Kim Jong-un, e por aí fora; não me recordo de viver num lugar tão perigoso como é este planeta nos tempos que correm. Não se vê como descalçar esta bota. Os equilíbrios de interesses são impossíveis de conjugar sem que alguém se enfureça ou sinta uma avidez insaciável de riqueza e poder.

Resta-nos inventar uma santinha que nos acuda, a Santa Sorte é forte candidata ao lugar.

sábado, janeiro 04, 2020

Ejaculação precoce

Apercebo-me agora de que acreditava na capacidade das Democracias para se protegerem dos desvarios de putativos malucos que viessem a ser eleitos. Temo estar enganado.

Um maluco maldoso, narcisista, ignorante, boçal, gordo, falso careca e falso cabeludo, tem tudo para fazer merda. E, sentindo-se apertado, é merda da grossa que faz.

Quando Clinton foi acusado de mentir por não admitir que uma tal de Monica lhe tinha feito umas cenas demasiado íntimas na própria sala oval e se viu enredado num processo de impeachement, catrapunfas, vai de bombardear a Jugoslávia para vergar as maléficas forças sérvias. É um exemplo do chamado "efeito borboleta".

Ontem foi a vez de Trump ejacular sobre o Iraque, matando um general iraniano no aeroporto de Bagdad.Apesar de todas as previsões as consequências são imprevisíveis.

quinta-feira, janeiro 02, 2020

O valor da coisa


Terá dito Picasso que a “a arte é uma mentira que nos ajuda a compreender a verdade”; li algures que esta frase célebre terá sido rematada com a afirmação: “na medida em que formos capazes de a compreender”. Vem isto a propósito da questiúncula levantada em torno de “A Linha do Mar”, obra de arte pública da autoria de Pedro Cabrita Reis, levantada do chão em Leça da Palmeira. 

Colocam-se duas reflexões interessantes: por um lado a distância entre mito e realidade na imagem do artista; por outro o processo de validação do objecto artístico e consequente valor monetário, temas apaixonantes se bem que dificilmente resolúveis. 

Subitamente há uma multidão que, apesar de não ligar patavina ao mundo das artes, tem opinião sobre o supostamente exagerado valor do objecto (250 mil euros mais IVA no caso vertente) embora não proponha um valor alternativo. 

Nota-se também algum cepticismo relativamente à competência artística do criador da obra, um dos nomes maiores da arte contemporânea portuguesa. 

Quando a questão gravita em torno de dinheiro todos têm uma opinião imediata que poderá basear-se, por comparação e, por exemplo, no preço do quilo de batatas ou no valor da grama de ouro (questão magistralmente exposta por Piero Manzoni na sua obra-prima de 1961 intitulada “Merda de Artista”). 

Voltando à citação de Picasso, à falta de melhor expressão que materialize a perplexidade provocada por tão complexa situação, sobra a palavra “vergonha”, que se vem tornando arma de arremesso dos néscios quando tentam expressar o espanto estupidificante que lhes é provocado pelo mundo que habitam.

segunda-feira, dezembro 30, 2019

Voto de Ano Novo

O ano velho arde de mansinho, apaga-se amanhã. Há quem acredite que a simples queda da última folha do calendário trará consigo algum estranho sortilégio, capaz de transformar a banalidade em algo novo, um tempo revigorado. Pessoalmente não vejo onde possa estar essa capacidade transformadora... a não ser que esteja dentro de nós, à espera.

Precisamos assim tanto de um pretexto que nos encoraje a mudar as coisas que desejamos mudar? Pelos vistos sim, precisamos. Poderíamos tomar decisões importantes no dia 14 de Março ou a 27 de Agosto, mas não, esperamos pelo finzinho do ano, acreditamos na magia regeneradora do relógio aliado ao calendário.

Assim sendo, que o novo ano traga consigo toda a magia do mundo!

domingo, dezembro 29, 2019

A tragédia do saco de plástico


A preocupação com as alterações climáticas que incomoda as instituições democráticas leva à tomada de medidas que defendam o ambiente. Neste sentido foi criado uma espécie de imposto, o imposto do saco de plástico; as superfícies comerciais foram obrigadas por lei a deixar de fornecer sacos de plástico gratuitos aos consumidores. Agora, quem quiser um saco de plástico paga 10 cêntimos por unidade.

No entanto, quando o consumidor se dirige à caixa para pagar as suas compras munido de um saco de pano ou de papel ou mesmo de plástico reciclado, quando coloca as suas compras no tapete rolante raros são os produtos que não estão embalados em… plástico! A carne, o peixe, as bolachas, a fruta e os legumes biológicos, até mesmo o Público, tudo está protegido por invólucros de plástico.
 
Esta incongruência é uma metáfora certeira do cinismo que caracteriza a nossa sociedade de consumo capitalista e neoliberal.

quinta-feira, dezembro 26, 2019

2020

Após uns dias a comer como se não houvesse amanhã (e, no entanto, há sempre um outro dia) sinto-me um pouco menos activo, mais passivo, embrutecido, em suma. Quando se come demasiado, a digestão concentra grandes esforços que, em condições normais, poderiam ser distribuídos por outras funções vitais; pensar, por exemplo.

Ando um bocado disperso, hesito em imaginar o ano de 2020. Se o calendário se confirmar irei participar em, pelo menos, 4 exposições de artes plásticas. É bom; não me lembro de participar em tantas exposições no espaço de um ano, muito menos de as ter agendadas com tal antecipação. Sinal de maturidade?

Se tudo se concretizar conforme os indícios, será também publicado um romance do meu amigo José Xavier Ezequiel que ilustrei. É um projecto que está concluído há bastante tempo mas que, por uma razão ou por outra, tem visto a sua edição adiada. Parece que é desta!

Outro amigo do peito, o André Louro, prepara a edição de um CD com músicas da sua autoria no projecto que dá pelo nome de Duas Chamadas Não Atendidas e que terá na capa um desenho meu. É um prazer.

Com o Teatro Ubu ando e congeminar a produção de O Último Burro, nova peça produzida pela Arte 33 e que promete momentos de grande divertimento. Em Maio (se não estou em erro) iremos repor A Inauguração com 4 espectáculos no Teatro-Estúdio António Assunção em Almada. Haverá, portanto, teatro, além das artes plásticas. Deliro!

Tudo isto em paralelo com a minha actividade docente que, a cada ano que passa, se torna menos entusiasmante mas que tento cumprir com o máximo de profissionalismo que sou capaz de investir. 2020 promete não ser monótono. Cá estarei para ver, se Deus quiser, como diz o outro.

domingo, dezembro 22, 2019

Náusea

Se há coisa que me mete nojo é a exploração da miséria alheia. Os designados "canais informativos" que enlameiam o panorama televisivo são exemplos acabados dessa nojice. De entre todos destaca-se a CMTV que leva, em glória, a coroa de Rei Vampiro.

Repetem até à exaustão as imagens mais escabrosas que conseguem filmar, os mesmos "directos", a mesma "informação" que mete o dedo na ferida alheia até esguichar sangue e pus por todos os lados. Sei bem que o mundo não é cor-de-rosa mas também me custa a admitir que seja exclusivamente cor-de-merda.

terça-feira, dezembro 17, 2019

Las brujas

Acreditar numa vida eterna prescrita aos seres humanos por uma divindade absolutamente poderosa, acreditar nisso porque não se consegue conceber que a vida acabe e que, quando acaba, pronto: é o fim - é um reflexo mental de grande soberba, configura até uma certa mania. Imaginar que o Ser Humano vai além daquilo que conseguimos perceber é pouco mais que um desejo, um anseio quase medíocre, atrevo-me a dizer. Ser incapaz de aceitar a finitude da vida não configura grande grandeza de espírito.

Falam do Tempo-tempo, não do meteorológico, falam daquele Tempo-tempo que é a matéria dos sonhos dos filósofos e dos físicos e que põe os escritores verdadeiros a escrever coisas deveras magníficas. Falam e falam muito bem. É agradável ouvi-los, cá em cima, no sótão.

Vem-me à cabeça aquela frase em espanhol: "no creo en brujas pero que las hay las hay".

segunda-feira, dezembro 16, 2019

Espírito Natalício

Oh, quanta compaixão humana é destilada pelas boas almas nesta época natalícia. O amor é tanto que quase o podemos morder caso batamos a dentuça. Os sorrisos, tantos dentes, tantas palavras bonitas. Os olhinhos das crianças brilham sob as luzes que enfeitam as árvores e as ruas. O mundo rejubila, as aves parecem voar com maior graciosidade, até os tubos de escape dos automóveis ganham contornos quase benevolentes, soltando fumozinho, puf, puf, puf... pópó, faz a buzina.

O Pai Natal lá está, no Pólo Norte, a explorar os duendes que, nos tempos que correm, são chineses, são vietnamitas, paquistaneses, são nativos do Bangladesh, gentinha diligente que trabalha, incansável, por quase nada. E o nosso Natal está garantido, todos podemos comprar presentes a baixo custo. A miséria alheia tem a sua beleza.

sexta-feira, dezembro 13, 2019

O que é a vida?

Vinha eu a pensar na vida quando vejo dois homens transportando uma peça de mobiliário à força de braços. Pareceu-me perceber qualquer coisa; pareceu-me perceber que é conveniente termos objectivos específicos e compreensíveis, de preferência objectivos alcançáveis, coisas que orientem a nossa existência. Para aqueles homens transportar a mobília, para mim entrar na tabacaria e comprar o jornal. Depois de cumpridas estas tarefas a vida exige que se descubra qual a tarefa seguinte, como num jogo infantil de caça ao tesouro. Uma pista leva a outra e assim sucessivamente.

Nunca deixamos de ser crianças a brincar à vida e a jogar todos os dias com o tempo e, no caso dos mais imaginativos, a brincar também com o espaço.

Será a morte o final da infância humana? Será o último suspiro um primeiro reflexo de saudade pelo que fomos e nunca mais voltaremos a ser?

segunda-feira, dezembro 09, 2019

Zombies sociais

Não tenhamos dúvidas: o inimigo da Humanidade é a estupidez! A estupidez é a irmã mais velha da ignorância, uma e outra alimentam-se mutuamente e crescem e ganham influência e tornam-se importantes ao ponto de infectarem a sociedade humana de forma irreversível. Bem podemos tentar debilitar a praga mas é como tentar apagar um incêndio mijando-lhe em cima.

Decerto já escrevi algo sobre isto num post anterior mas nunca é demais repetir o alarme.

Aqueles que estão infectados pela estupidez apresentam diferentes sintomas; há-os dóceis, há-os agressivos, passivos, activos ou assim-assim, é como na série Walking Dead, onde um zombie morde uma pessoa normal transformando-a também em morto-vivo. Os estúpidos são zombies sociais. Os que ainda não foram conspurcados pela estupidez bem podem defender-se tentando espetar algum juízo na cabeça de um estúpido mas não é fácil lutar.

As redes sociais são perigosos canais desta patologia estupidificante. Estupidez, maldade, ignorância agressiva, a informação é replicada sem qualquer verificação de validade. Uma mentira é repetida ad nauseam e nem assim se transforma em verdade. Quando alguém prova a um estúpido que a mentira que ele ajudou a propagar não passa disso mesmo, uma refinada calúnia, ele encolhe os ombros e procura uma nova patranha que substitua a anterior. Para um estúpido a verdade e a mentira equivalem-se em validade. Os estúpidos maldosos e os estúpidos ambiciosos são do piorio e são muito numerosos.

Eu sei que não é fácil nem é coisa que se peça assim, sem aviso, mas imploro-te, garboso leitor, benevolente leitora, luta contra a estupidez com quanta força tiveres. Não é uma questão ideológica, é uma questão cultural. Trata-se de lutar a favor de uma sociedade mais humana, ser humano.

sexta-feira, dezembro 06, 2019

Tempo e espaço

Esta manhã apercebi-me que quando estou a ler desapareço no tempo (embora permaneça no espaço). O mesmo acontece quando desenho e pinto, o tempo perde o significado pretensamente exacto que lhe é conferido pelos relógios. Flutuo algures. O meu corpo permanece no espaço (da cozinha, da sala, do sótão) mas eu flutuo algures, flutuo em lugares (poderei designar esses espaços por "lugares"?) aparentemente exteriores.

É como um transe, imagino.

Ler, escrever, pintar, são actividades que normalmente envolvem um mínimo de movimentos. O corpo permanece num espaço muito limitado, não se desloca de forma significativa e o cérebro fervilha processando informação quebrando a película rígida que separa diferentes dimensões e eu sou levado.

Leio as frases escritas acima e nada daquilo merece rótulo de "realidade". Embora constituam uma sequência de ideias e conjecturas a carecer de confirmação, tudo aquilo me faz sentido e quase sou capaz de acreditar que o meu Ser não é uno, que há partes de mim que se separam em determinadas ocasiões e existem momentaneamente em diferentes estratos espaciotemporais.

Há coisas em que acreditamos mas não somos capazes de provar.

quinta-feira, dezembro 05, 2019

Deus-coisa

Somos tantos! Diz o povo que "cada cabeça sua sentença" e nós somos tantos!!! É milagroso que consigamos conviver e perdurar em sociedade. Quem busca provas da existência de alguma coisa que possamos designar como "Deus" não precisará de procurar muito para as encontrar; basta que olhe em volta e veja.

Deus, a existir, será aquilo que nos une, a coisa inominável de que todos comungamos e faz de nós seres humanos capazes de amar e de conviver de forma pacífica. Esse Deus não tem qualquer possibilidade de se aperceber daquilo que somos ou o que fazemos. É um Deus-coisa, não um velhote com dotes escultóricos, capaz de moldar o barro enquanto se vê ao espelho para depois lhe insuflar uma alma vá-se lá saber como.

Os que acreditam na versão do velhote imaginam-no uma espécie de Voz, do Big Brother televisivo, uma personagem metediça e policial que escrutina cada peido que damos. Omnipresente.

Atribuem-lhe também o dom da omnipotência, a capacidade de nos julgar e enviar com despacho para o Inferno ou, então, recolher-nos junto a Si no Paraíso. E somos tantos! Deus não terá mãos a medir embora me pareça que os que não acreditam Nele lhe poupam trabalho e levam logo todos com o selo do fogo eterno independentemente do que tenham feito com a sua vida e com a vida dos outros. Este Deus-burocrata não tem tempo a perder com infiéis, balde com eles! E são tantos!!!

O Deus-coisa tanto existe como não. Está ligado a nós todos e liga-nos uns aos outros mas não tem consciência própria, não tem corpo nem se parece com um imperador, muito menos se assemelha a um juíz. O Deus-coisa está tão longe de tudo isto!

segunda-feira, dezembro 02, 2019

Esboço de manifesto

Ver crianças e adolescentes nas manifestações pelo clima com os seus cartazes, o seu entusiasmo, a sua capacidade de acreditar, dá um aperto no coração. Mas, por outro lado, faz despontar uma sementinha de orgulho. A luta é ainda mais desigual do que a luta que David travou contra Golias.

Acreditar em causas é próprio da juventude. Ter fé desmesurada numa ideia que sentimos ser justa está-nos na massa do sangue. Quem nunca teve uma fúria destas dentro de si deve consultar um psicólogo ou dirigir-se ao padre da paróquia para tentar perceber o que está errado.

Talvez devido à queda de cabelo e à profusão de rugas na face, sinto uma pequena angústia quando observo a juventude em delírio sonhador. Isto porque a vida teima em deixar-me um tanto desanimado, céptico, vai-me fazendo venenoso. Cada dia que passa mais tenho dificuldade em acreditar numa mudança positiva.

No entanto, apesar de não conseguir acreditar, estou longe do ponto em que irei desistir de fazer a vida negra aos que considero como filhos-da-puta e à sua voragem animalesca. Posso estar desanimado mas não estou morto. 

domingo, dezembro 01, 2019

Sonho de Natal

A cada dia que passa mais se aproxima o Natal. Época de concórdia e aconchegozinho familiar, o Natal presta-se às mais tépidas ternurices e propicia juras de amor ao Próximo dignas de figurarem no livrinho de deve-e-haver de Deus, Nosso Senhor. Muitos católicos aproveitam para marcar pontos positivos no lento e tortuoso caminho em direcção ao Paraíso.

Será de esperar que, nos próximos tempos, abrande a maledicência, diminua a agressividade e aumente a reflexão meditativa, capaz de nos pôr a pensar na vida como se fôssemos pálidos unicórnios ou inocentes passarinhos. Só faltará a neve a tombar lentamente sobre a paisagem, a oferecer longos momentos de bucólica contemplação em louvor ao Criador.

O mundo fica até mais redondinho.