segunda-feira, outubro 29, 2007

A China desperta


Zhang pintando um dos retratos que lhe vão garantindo fama e proveito

Xiaogang Zhang (http://www.saatchi-gallery.co.uk/artists/zhang_xiaogang.htm) é tido como o próximo Número 1 em termos de vendas no complexo universo da arte contemporânea. Num mundo fascinado por números com muitos zeros, ser o Número 1 na lista de vendas significa que as suas obras atingem preços quase incompreensíveis, difíceis de perceber com exactidão.
Mas Zhang, ao que consta, não vem sozinho. Há muitos outros artistas chineses que se perfilam para ombrear com os tradicionais norte-americanos, ingleses e alemães no Top dos mais valiosos e fazerem as manchetes dos jornais que deixam o público espantado com os preços astronómicos que os objectos de arte podem atingir.
Além da legião chinesa fala-se também de uma colecção de artistas indianos que andam a fazer das suas. É a confirmação do despertar do Oriente para o mundo contemporâneo e uma prova evidente de que o velho Império Ocidental, com os EUA à cabeça, começa a dar sinais de velhice e alguma fraqueza.
Hoje o mundo da arte, amanhã todos os mundos possíveis.

domingo, outubro 28, 2007

O festival que caminha


Todos os anos muda de lugar (talvez eu esteja a exagerar mas dá essa impressão). O FIBDA, Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora (http://www.amadorabd.com/) vai saltando de espaço em espaço, à procura daquele que melhor se adapte ao tipo de acontecimentos que o caracterizam. Este ano aterrou no Forum Luís de Camões, na Brandoa, naquele que parece ser um local apropriado para o seu formato. Espero que, atingida a maioridade nesta 18ª edição, o FIBDA tenha finalmente encontrado um poiso mais ou menos definitivo.

Visitei esta tarde o dito cujo, tendo podido observar algumas celebridades deste discreto meio. Lá estava Geraldes Lino, resplandescente de felicidade, como peixinho dourado em água de aquário esférico; José Ruy, debitando sabedoria numa mesa, rodeado de alguns senhores de provecta idade, tal como ele; Rui Zink, folheando comics num ritmo meio alucinado, como se procurasse algo de concreto e a coisa não fosse assim muito evidente de encontrar; e eu prórpio, estrela no meu filme particular, acompanhado de outras duas personagens míticas da minha existência: a minha esposa, incomparável no brilho, e a minha filha, uma vedeta inultrapassavel, desenhadora de créditos mais que firmados, autora de Banda Desenhada super-promissora (pai babado).

Enfim, entre vedetas conhecidas e desconhecidas, encontrei um espaço bem agradável, com exposições interessantes (a sala dedicada ao Salazar, agora e na hora da sua morte, da Cotrim e Rocha é um pequeno espectáculo). Como de costume tive uma extrema dificuldade em comprar o que quer que fosse. Por um lado a minha extensa colecção elimina de imediato uma boa quantidade edições de BD, nacionais e internacionais, por outro, aquilo que não tenho e me é oferecido é de tal modo vasto e apetecível que acabo num estado letárgico, impeditivo de abrir os cordões à bolsa.
Resumindo e para concluir: quem gosta de BD não perde, decerto, quem não gosta também não irá lá fazer nada. A não ser que decida tomar uma atitude semelhante aquela que o leva a entrar numa igreja mesmo quando não acredita em Deus... nem no Diabo.

sábado, outubro 27, 2007

Cromos

Num daqueles passeios indolentes que de vez em quando se fazem pela blogosfera fui dar de caras com este O BAÚ DOS CROMOS http://cromosvelhinhos.blogs.sapo.pt/.
Explorando um pouco o baú encontrei imagens que tinha guardadas lá para o fundo da memória. Jogadores de futebol como já não os há (notem bem o aspecto de lavrador alentejano do guarda-redes da foto que ilustra este post), fotos retocadas com céus de um azul plano ou corpos recortados e nítidamente colados sobre um estádio em fundo. Outra era mediática, de um mundo quase pré-histórico em termos tecnológicos.
Relembrei as cadernetas, a cola feita com farinha e água num tacho de alumínio com a ajuda do meu avô, caramba, um gajo vive tão pouco tempo e as coisas perdem-se completamente nos confins da memória. Depois vieram os cromos em papel todo janota, os tubos de cola Pica-pau (mesmo assim os bastões de cola já são coisa da minha idade adulta) e toda uma nova forma de encarar a colecção de cromos. Hoje os cromos são autocolantes, claro está!
Um gajo vive tão pouco tempo e as transformações do nosso quotidiano dão a impressão de que, afinal, vivemos uma eternidade. Vivemos?

quarta-feira, outubro 24, 2007

A Festa



Andamos a precisar de uma boa festarola. Copos... que digo eu? Garrafões de vinho! Garrafões? Pipos! Pipos de vinho a rolar estrada abaixo e bebedolas a rolar estrada acima, uns atrás dos outros em cantoria desenfreada. Uma banda de gajos corados como tomates a soprarem nos trompetes como se estivesem a precisar de cuspir os pulmões e risos desdentados e mãos grossas de calos de trabalho a segurarem os copos em gestos de graciosidade inesperada. Gestos de amor declarado ao vinho. Cânticos brejeiros, a roçarem a péssima educação e as mulheres a rirem-se de tanta pouca vergonha, com a cabeça deitada para trás na força da gargalhada. Ah, as saudades que já tenho de uma boa festa sem música gravada nem batidas automáticas. Festas sem bom gosto nem poses afectadas nem perfumes caros nem copinhos a arder. E a banda a tocar e os pares rodopiando na poeira do chão, abraçados no furor da dança. Andamos a precisar de nos sentirmos menos europeus de primeira e mais europeus verdadeiros, europeus do Portugal profundo. Felizes de tanta boçalidade e amigos do desvario. Onde andamos nós?

(por acaso a foto que ilustra este post foi tirada em Espanha pelo fotógrafo checo, se não estou em erro, Joseph Koudelka, no ano de 1971. Por acaso somos tão semelhantes... será apenas acaso? Ou será a tal Europa?)

domingo, outubro 21, 2007

Euroburocracia mata!


O designado Tratado de Lisboa é um péssimo exemplo da forma como a Democracia é encarada pelas cúpulas da União Europeia (ler mais em, por exemplo, http://noticias.uol.com.br/ultnot/lusa/2007/10/18/ult611u75399.jhtm)
Contornar a vontade popular numa questão desta envergadura mostra até que ponto a União Europeia é uma coisa e a Europa é outra, completamente diferente. Cada vez mais as decisões referentes à nossa vida são tomadas por um conjunto de burocratas mais ou menos desconhecidos e que se guiam por uma filosofia (chamemos-lhe assim) obscura e ditada ao sabor dos interesses dos grandes países europeus, nomeadamente a França e a Alemanha.
Não estou a ver bem como tudo isto irá acabar mas, com o tempo, esta União dos eurocratas irá definhar e morrer de morte mais ou menos natural.

Sem comentários




sábado, outubro 20, 2007

Gostar

Bacalhau à Portuguesa


"Os gostos não se discutem" é um dos ditados populares portugueses mais disparatados e serve de escudo protector a algumas das maiores imbecilidades que por aí se passeiam, vestidas de fato-e-gravata, como se não fosse nada com elas.
Como se não discutem os gostos, gosta-se de algo "porque sim" ou porque "é giro" e deixa-se de gostar "porque não" ou então porque "é feio" ou ainda, num modelo de maior refinamento, porque "não tem estética". E pronto, fica-se assim mesmo, podendo-se passar de imediato aos temas mais comuns como discutir se está calor ou faz frio ou se o Benfica é mais beneficiado pelos árbitros de futebol que o Sporting e o Porto juntos. Não se vislumbra que venha daqui grande mal ao mundo e, por isso mesmo, deixa-se passar impunemente esta falta de capacidade de gostar ou odiar verdadeiramente o que quer que seja por se considerar a indigência cultural algo de inofensivo.
Mas não é. A pobreza de espírito beneficia principalmente os que dela não padecem e a aproveitam para arrebanhar o pessoalzinho com conversas da treta faladas naquela linguagem simplória dos "porque sim, porque não, porque é giro e não tem estética". Chamam-lhe "linguagem popular" mas talvez devêssemos chamar-lhe "linguagem populista". É urgente complexificar o discurso, quanto mais não seja para aumentar a confusão que por aí vai.

sexta-feira, outubro 19, 2007

Oh, Dali?

Ontem foi dia de viagem. Viagem de estudo, na companhia de colegas e alunos das turmas de artes da Escola Anselmo de Andrade, em direcção à cidade do Porto. Visita guiada à casa da Música e, mais tarde, à exposição de trabalhos de Salvador Dali, patente no restaurado Palácio do Freixo. (ler mais em http://jpn.icicom.up.pt/2007/08/01/arte_esculturas_e_ilustracoes_de_dali_no_palacio_do_freixo.html)
Quanto à visita à Casa da Música não há grande coisa a dizer. Tratou-se de travar conhecimento com um espaço arquitectónico curioso à qual faltou poder assistir a uma demonstração das capacidades acústicas da sala principal. Ficará para outra ocasião.
Relativamente à mostra de trabalhos do mestre dos bigodes loucos, deu para tomar o gosto ao seu universo destrambelhado, numa colecção de esculturas de dimensões variadas e uma vasta colecção de gravuras em diferentes técnicas. Ao contrário do que esperávamos não havia um único desenho mas sim litogravuras, pontas secas e xilogravuras, por vezes com apontamentos de cor aplicados após a realização da prova final (as chamadas monotipias).
É uma mostra bastante extensa, com trabalhos algo inesperados para quem está habituado a pensar nas "fotografias de sonhos" características de Dali. Imagens gestuais, com aplicações de cor arrojadas e marcadas por alguma gestualidade que não constituem imagem de marca do mestre.
Enfim, pessoalmente nunca fui um grande entusiasta do surrealismo de Dali, admiro muito mais o trabalho de Max Ernst, por exemplo, mas os jovens alunos que acompanhei nutrem uma admiração sem fim pelo homem dos bigodes esquisitos. Como a visita era a eles dedicada (aos alunos, não aos bigodes de Dali) penso que acabou por constituir um pequeno êxito.
Uma palavra final para o Palácio cujo restauro oferece ao visitante alguns espaços interiores barrocos com uma certa espectacularidade nos estuques dos tectos, nas pinturas murais e outros pormenores decorativos.
Uma visita a fazer, caso se ofereça a oportunidade.
Bibó Puarto, carago!

quarta-feira, outubro 17, 2007

Saudade

Há ocasiões em que tudo é posto em causa. Talvez as questões se tornem mais prememntes quando as coisas correm coxas das duas pernas. Talvez seja porque o calor nunca mais desaperta e começa a parecer demasiado, tanto Verão Outono dentro. Mas o que é um facto é que a eterna crise parece cada vez mais eterna e há sinais de que vai ainda ser afiada nos tempos próximos e ameaça doer a cada nova alfinetada.
Putin foi ao Irão fazer das dele. Com palavras venenosas conseguiu baralhar ainda mais as cabeças cá deste lado e, acredito, não menos baralhadas terão ficado as dos ayatolas, do lado de lá desta coisa a que chamamos mundo. Bush já dá sinais de birra eminente e não faz a coisa por menos: vai falando de uma 3ª guerra mundial caso o Irão avance com o fabrico da terrível bomba. Ameaças.
Querem lá ver que ainda vamos assistir ao regresso de uma Guerra Fria! Para ser sincero já vou tendo saudades dela. Sim, porque de Guerra Quente já estou mais que farto. Venha de lá essa velha guerra do diz-que-faz-mas não-faz~que-o-inimigo-ainda-é-pior-que-nós. Ah, que saudade!

segunda-feira, outubro 15, 2007

A guerra

A grande guerra, a derradeira batalha a travar não é contra outros seres humanos. Não é com outros seres humanos que temos de nos preocupar quando pensamos em termos de supremacia na crosta planetária. O nosso inimigo é de outra natureza e vive dentro de nós. É um inimigo silencioso e com um modo de vida tão diferente do nosso que não temos a mínima hipótese de organizar um plano de batalha credível, quando se aproxima para lutar. A grande guerra, aquela que já está em curso e que vamos perder é contra os vírus. No final eles serão os últimos sobreviventes, os grandes triunfadores. Na Guerra dos Mundos, H.G. Wells faz dos vírus os responsáveis pela derrota dos terríveis marcianos. São eles que dão mais uma oportunidade à sobrevivência da humanidade. Talvez por gulodice ou simples eficácia laboral. Os vírus são trabalhadores incansáveis e não consta que reclamem períodos de férias.
Eu sei que esta conversa está um bocado parva. Deve ser do vírus que está a lutar comigo. Uma simples gripe pode fazer um gajo ficar deitado e com dores durante todo o dia. Dores de merda, eu sei, e estar deitado sabe muito bem. Pronto. ATCHIM!!! Caraças. Belo dia de folga!

sábado, outubro 13, 2007

Efeito borboleta

A inauguração da nova igreja em Fátima é um acontecimento estrondoso. Se os pastorinhos nela entrassem decerto ficariam convictos de estarem a pisar o chão do Paraíso. E ninguém havia de os convencer do contrário.
Há 90 anos atrás as criancinhas da foto acima viram, algures na serra de Aire, "uma senhora mais brilhante que o sol" que identificaram como sendo a Nossa Senhora. Foi esta a sementinha que agora germina numa igreja devotada à mãe de Cristo, erigida com o dinheiro de esmolas e outras pias doações, pela módica quantia de 70 ou 80 milhões de euros (mais 10 ou menos 10 milhões é uma questão de pormenor) para glória de Deus nas alturas e espanto do Seu rebanho, cá em baixo, neste imenso vale de lágrimas que é o planeta Terra.
Não deixa de ser um desenvolvimento espantoso, um crescendo de fé imenso e espectacular. O altar da dita igreja parece-me, pelas imagens que tenho visto na imprensa e na TV, um cenário grandioso e ofuscante, coberto de ouro e representando figuras que evocam as formas artísticas das antigas basílicas bizantinas. Um misto de opulência estética e soberbo exibicionismo do poder da hierarquia católica, capaz de custear e mandar erigir tamanha monstruosidade e beleza. Com este templo regressa a velha questão: o dinheiro gasto na construção não poderia ser aplicado de um modo mais... católico?
Seja como for é mais uma imensa obra arquitectónica que abre as portas às multidões e lhes oferece visões de obras de arte que elevam este mundo a um patamar mais próximo do outro.

quarta-feira, outubro 10, 2007

Sinais

O comportamento do governo liderado por José Sócrates no que toca ao respeito devido pela liberdade de expressão e manifestação pública é, no mínimo, preocupante. Há sinais descarados da mais abjecta intolerância e começam a notar-se actuações e tiques autoritários que não imaginávamos serem possíveis num governo rotulado como sendo de esquerda.

A "visita" de dois agentes da polícia à sede de um sindicato de professores na Covilhã onde recolheram, abusivamente e à margem da lei, informação sobre uma acção de protesto legal a realizar naquela cidade por ocasião da visita do 1º ministro mostra que a cultura democrática está no balde do lixo deste governo.

Se a isto somarmos os comportamentos verificados no "caso" da investigação à forma como Sócrates obteve o seu grau académico de Engenheiro ou o célebre saneamento de Charrua na DREN ou ainda os processos disciplinares na estação de televisão pública e muitos outros comportamentos indignos de uma sociedade democrática baseada no respeito pelos direitos individuais e de cidadania temos fortes razões para nos indignarmos e protestarmos veementemente.

O monstro que tapa as bocas e pretende aninhar-se nos cérebros para lhes comer a liberdade de pensamento e amedrontar as pessoas anda por aí a rondar. Temos de lhe espetar um valente murro nos cornos e sacar-lhe as tripas para fora. Só quando o virmos agonizar com as tripas ao sol poderemos voltar a ficar descansados.

segunda-feira, outubro 08, 2007

Negócios escuros como a água


Os desmandos dos mercenários das empresas privadas de segurança no Iraque fazem brilhar uma luzinha ténue sobre o "outro lado" da guerra. O tiroteio que envolveu alguns homens da Blackwater (http://www.blackwaterusa.com/) agitou a sombra e fez sair a cauda do bicharoco. Agora há muita gente por esse mundo fora a tentar perceber o aspecto do resto do bicho, a parte que continua em sombra promete muito nojo e repulsa.

Mas não será apenas no campo da "segurança" que as negociatas faraónicas são disputadas com ferocidade. Calcula-se que haja mais mercenários no Iraque que elementos das forças armadas americanas. Tudo o que tenha a ver com a reconstrução das infraestruturas mais básicas está ao alcance dos amigos dos invasores.

O espírito da coisa é básico: primeiro destrói-se tudo à força de bomba e tiroteio depois oferece-se o know how para voltar a pôr tudo de pé. Os países amigos dos americanos têm permissão para enviar os empresários melhor intencionados a fim de estabelecerem contratos com as vítimas. Por essas e por outras é que países sem recursos naturais importantes costumam agonizar às mãos de governos assassinos sem que ninguém mexa uma palha em sua defesa. Se esses ditos governos cleptocratas fizerem negócios com os USA estão a salvo da fúria justiceira (Angola é um bom exemplo). O Darfur não terá decerto nada que possa interessar nem cidades para reconstruir, por isso está condenado ao abandono. Se os bandidos no poder fizerem frente aos USA e tiverem, por exemplo, muito petróleo no interior das fronteiras, estão a meter-se em sarilhos. Normalmente acabam com as ruas feitas em cacos, as cidades passadas a ferro e as estradas e pontes passadas no picador da carne conjuntamente com fatias significativas das populações locais. "Culpados" e "inocentes", tudo misturado.

O exército não pode assegurar condições de trabalho em segurança a todos os abutres ao serviço dos "reconstrutores" que debicam o cadáver do Iraque e é aí que entram em cena esses abortos das democracias ocidentais que são as empresas privadas de segurança das quais a Blackwater nem sequer é a maior mas, apenas, aquela que pôs o rabo de fora.
O slogan na imagem promocional da Blackwater que ilustra este post é um verdadeiro hino à hipocrisia. Ou talvez não. "Para garantir liberdade e democracia por toda a parte", diz.
Cada vez mais faz sentido o princípio de Orwell em "Animal Farm" ("O Triunfo dos Porcos" na versão portuguesa) "Os animais são todos iguais mas uns são mais iguais que outros".

domingo, outubro 07, 2007

1408 - O Filme

1408 é um filme de terror baseado num conto de Stephen King (http://www.stephenking.com/) o verdadeiro King das adaptações cinematográficas. São às dezenas os filmes que vão buscar assunto à cabecinha pensadora deste escritor que cria histórias fantásticas com a mesma naturalidade com que qualquer um de nós descreve o que comeu ao pequeno-almoço. Um poço sem fundo, a imaginação do Stephen. O realizador é Mikael Håfström do qual conhecia apenas Derailed (http://www.weinsteinco.com/derailed/ Pecado Capital na versão portuguesa) um filme envolvente e bem conseguido com um excelente Clive Owen a liderar a função.
Em 1408 temos outro actor em bom plano, John Cusack, capaz de levar o espectador a entrar no assustador mundo que se esconde por trás da porta daquele quarto de hotel novaiorquino. O filme resulta bem, tem momentos arrepiantes e coloca em cena alguns clichés do horror movie com bastante eficácia. Como espectador saí da sala de cinema mais ou menos igual. Não me encheu as medidas, não transformou a minha visão sobre nenhum assunto particularmente importante nem me fez tremer de medo. Divertiu-me, isso sim, até porque as minhas acompanhantes, mulher e filha, completaram na perfeição o que ia passando no écrã. Numa escala de 0 a 5 estrelas, como nos hotéis, dou-lhe 3. Pela limpeza e pela arrumação.

O aviso de Farag, por Paulo Moura

Na edição de hoje do Público saiu este texto de Paulo Moura. Como sempre é um texto interessante e que nos põe em contacto com o Outro Mundo em que Moura viaja e do qual nos dá notícia com as suas prosas. Para ler e meditar.

Farag Foda foi um muçulmano lúcido e cora­joso. Desculpem, mas ele chamava-se mes­mo assim. Alguns autores ainda optaram por uma versão um pouco diferente, em inglês, do apelido - Fawda. Ou Fouda em português.
Mas logo apareceram os puristas a criticar: a forma ortográfica correcta deste nome árabe nas línguas de origem latina e germânica é Foda.
Não obstante, Farag era professor e um intelectual sério. Envolveu-se em causas humanitárias e escreveu vários livros e artigos de opinião na imprensa do Egip­to, onde nasceu, em 1946. O seu tema preferido foi o fundamentalismo islâmico e o seu género literário preferido a sátira. Nos dois, Foda fez História.
A sua tese principal, pelo menos a mais conhecida, era a que de que os integristas, terroristas, teóricos sa­lafistas e outros radicais do islão tinham um problema em comum: a frustração sexual. Seria por não terem acesso aos ternos prazeres da carne que se entregavam à paixão da carnificina, dizia Foda. E acrescentava (neste caso referindo-se a Abd al-Hamid Kishk, um dos mais populares pregadores radicais egípcios): "Ele diz à sua audiência que os muçulmanos que entrarem no para­íso usufruirão de eternas erecções e da companhia de jovens rapazinhos envoltos em laçarotes e enfeites."
É verdade que Farag citou a prédica do velho xeque cego Kishk, para a seguir contar como a mes­ma deu origem a um deba­te entre os teóricos. Nem todos concordaram com Kishk. Um deles, da Uni­versidade estatal al-Azhar, contra-argumentou que, no paraíso, as erecções não seriam eternas, mas sim temporárias, ainda que prolongadas. Outro contestou a possibilidade da pederastia no paraíso. Mas houve quem lembras­se que, embora a homossexualidade fosse desaconselha­da, a pedofilia não era proibida, citando uma passagem do livro do Ayatolla Khomeini, do Irão: "Um homem pode ter prazer sexual com uma criança, até mesmo com um bebé. Pode sodomizá-Ia, mas não penetrá-la. Se dessa forma danificar a menina, ficará responsável pela sua subsistência, por toda a vida. Esta rapariga, no entanto, não contará como uma das suas quatro mulheres permanentes. E o homem não terá direito a desposar uma irmã dela.”
A propósito, outro estudioso fundamentalista re­cordou esta passagem do mesmo livro de Khomeini: "Um homem pode ter sexo com animais como ovelhas, vacas, camelos, etc. No entanto, deve matar o animal depois do orgasmo. Não deve vender a carne ao povo da sua própria aldeia. já vendê-la ao povo da aldeia mais próxima não é proibido."
A respeito desta fecunda polémica, Foda comentou: "É isto que preocupa os muçulmanos no final do século XX? O mundo à nossa volta anda ocupado com a con­quista do Espaço, a engenharia genética e as possibi­lidades dos computadores, enquanto os doutores do islão se preocupam com o sexo no paraíso."
Em Junho de 1992, Farag Foda foi assassinado por dois fundamentalistas islâmicos do grupo AI Gama'a aI Islamiya. O advogado de um deles explicou numa entrevista, quando interrogado sobre a sua ideia de Direitos Humanos: "Farag Foda tinha o direito humano de criticar o Governo ou de o criticar a si. Mas não tinha o direito de criticar Deus. Somo escravos de Deus e Ele tem o direito de nos condenar à morte, se o insultamos."
Contra Deus não há direitos humanos.

sábado, outubro 06, 2007

Aprender a aprender




Parece-me um pouco absurda a forma como a imprensa aguarda impaciente cada novo discurso de cavaco Silva. Como absurdas me soam as notícias fresquinhas que logo correm as nossas praças após a presidencial faladura.

O Actual Presidente da República é olhado como uma espécie de oráculo, um pensador ponderado e com profundidade oceânica, atributos que nunca antes teve nem é agora que lhe vão nascer no cérebro como flores primaveris para alegrarem a nossa sina modorrenta. O discurso de Cavaco no dia de ontem trouxe particular agitação pelos conteúdos relacionados com o eterno calcanhar de Aquiles da velha nação portuguesa, a educação. Note-se que a dita educaçaõ foi muito maltratada pelo Cavaco 1º ministro e parece agora preocupar sobremaneira o Cavaco presidente da república. Mudam os tempos...

Cavaco afirmou que temos falhado na formação dos jovens portugueses e que esse é o principal problema a resolver. Permito-me acrescentar que a educação dos adultos também se tem revelado um desastre completo contribuindo igualmente para este marcar de passo que nos mantém sempre no mesmo ponto, o ponto de partida. O nosso presidente é, ele próprio, a prova viva desse falhanço. A crença boçal na desnecessidade de "aprender até morrer" faz dos portugueses um povo de potenciais retardados culturais. Basta olhar para os níveis de escolaridade das nossas classes trabalhadoras para percebermos que não é apenas nos bancos das escolas que existe carência de trabalho intelectual.

A educação é um desígnio fantasma de Portugal e dos seus tristonhos habitantes. Dos mais pequenos tanto quanto dos maiores. Em termos de ignorância e falta de entusiasmo pelo conhecimento os filhos são a carinha chapada dos seus pais.

sexta-feira, outubro 05, 2007

Querida televisão

A minha televisão é a única companhia com que posso contar. É com ela que tomo o cházinho e com ela converso sobre as questões que incomodam o dia-a-dia que a mim já nada me incomoda a não ser a solidão. A jarrinha com flores serve-lhe de chapéu. Dá-lhe um aspecto bem patusco. Mas ela não se importa, encaixa bem a brincadeira. Sabe o apreço que por ela tenho. É quase amor. Sei que não se ama um objecto da mesma forma como se ama uma pessoa. Mas já não há pessoas reais na minha vida, só as pessoas que me visitam através do écrã da minha televisão. Ofereço-lhes uma xícara de chá, um bolinho, dois dedos de conversa. Por vezes sinto que a televisão me olha e se enternece comigo. É uma boa amiga. Fiel, discreta no trato e conversadora incansável. Conta-me histórias e eu retribuo com atenção e silêncio. É uma relação perfeita. Sem segredos nem mistérios. Dias a fio ali estamos, uma em frente da outra, esperando que o tempo passe. E que um dia me leve.


quarta-feira, outubro 03, 2007

A falha

O sistema democrático é o nosso sonho mas toma cada vez mais a aparência de um tremendo pesadelo. Um dos problemas mais complicados e que parece impossível de resolver prende-se com a escolha dos dirigentes para cuidarem com o desvelo necessário da coisa pública.

Os regimes monárquicos tinham o problema resolvido. Os dirigentes nasciam assim mesmo, com selo de garantia carimbado pelo próprio Deus, eram os seus representantes na Terra e faziam o Seu trabalho por estas bandas. Assim, para o bem e para o mal, os reis e rainhas eram parte do impenetrável Plano Divino e caso algo corresse às avessas era porque Deus assim queria e nada havia a fazer quanto isso. Ele escreve direito por linhas tortas e o Tempo se encarregaria de demonstrar a bondade e a infalibilidade do sistema. Como o Grande Arquitecto estava a orientar a cena os comuns dos mortais tinham apenas de confiar e seguir as suas vidas com confiança e, acima de tudo, animados por inabalável Fé.

Depois deram-se as Revoluções Americana e Francesa, acabou-se com o Antigo Regime e os reis, fossem sóis ou outra estrela qualquer, passaram a personagens secundárias sendo, nos dias de hoje, pouco mais que objectos decorativos dos regimes a que chamamos democráticos. A Deus passou a dar-se o que é de Deus e a César o que é de todos nós.
200 anos a construir sistemas democráticos ainda não chegaram para encontrar a pedra de toque que transforme os governantes escolhidos pelo povo em pessoas de bem e com cabeça para controlar a contento os negócios do Estado. Uma Democracia precisa de ser capaz de gerar elites dirigentes que sejam isso mesmo: elites e não meros sabujos disfarçados de gente séria. Acreditamos que num sistema social justo despontarão pessoas capazes de perpetuar a justiça de forma equilibrada mas não parece que estejamos a ser particularmente felizes na concretização desse objectivo. O que tem faltado? Porque ficamos com a sensação de que, uma vez sentados na cadeira do poder, aqueles que elegemos com renovada esperança se transformam em gajos falsos como nem Judas terá alguma vez sonhado vir a ser? O que está a falhar no nosso sistema político e social?
Bom, esta pergunta é de tal modo desmesurada que o melhor é ficar por aqui e regressar mais tarde ao assunto.

terça-feira, outubro 02, 2007

Sem título


Forçar os limites do dia é o trabalho do homem comum. Empurrar a rotina, lutar com o relógio, endireitar as costas no esticar do queixo. Os carros passam, um pássaro esquce-se de piar ás 8 da manhã. Não há que recear o erro nem temer o sabor amargo do café matinal. A vida é para ser vivida. Cada minuto conta. Todos os minutos de cada dia. Dentro do carro ouvindo as últimas sobre a fila de trânsito ali mesmo à frente. A sujar as mãos na tinta do jornal e a sola do sapato na caca fresca deixada no passeio pelo caniche da vizinha. É assim que um homem comum encara a vulgaridade da vida. O erro, quando surge ao virar da esquina, não é mais nem menos que uma hipótese, uma outra oportunidade de fazer uma coisa com aparência de ser bem feita. Os homens extraordinários habitam os corpos dos homens comuns. Estão ali, à espera. Mais tarde ou mais cedo eles aparecem. E vêm tomar o café matinal contigo.

segunda-feira, outubro 01, 2007

Vulgares como pares de sapatos


A publicação da acta de uma conversa entre Bush e Aznar a propósito da melhor forma de iniciar a guerra no Iraque mostra a vulgaridade com que um assunto desta gravidade pode ser tratado. Preocupados principalmente com o modo como poderiam "dourar a pílula", os dois estadistas (chamesmos-lhes assim) vagueiam num discurso rasteirinho e pouco edificante. Não há uma frase ou uma ideia que ultrapassem a visão do merceeiro preocupado em manter as aparências a despeito da qualidade dos produtos que trafica. A podridão não preocupou estes dois, apenas os seus interesses directos. A mentira foi tratada como se fosse verdade.
Salta à vista a forma grosseira como Bush imaginava o desenrolar da guerra e as benéficas consequências da invasão para o povo iraquiano. Como erro de cálculo não deixa de ser um verdadeiro monumento à estupidez!

O pormenor da escolha dos Açores como sede da célebre "cimeira da paz" (esta até dá vómitos) em detrimento das Bermudas é, talvez, o traço mais relevante da grandeza de espírito destes homens. Aznar preferiu os Açores às Bermudas porque "(...) o nome destas ilhas que se associa a uma peça de roupa não é exactamente o mais adequado para a gravidade do momento." Fica bem patente o sentido do espectáculo que animava o antigo 1º ministro espanhol, preocupado com as aparências visto que em termos de conteúdo nada havia a fazer senão tentar iludir o pessoalzinho.


Assim foi, assim se fez. Os anfitriões dessa cimeira de má memória foram Durão Barroso e Paulo Portas, 1º ministro e ministro da defesa do nosso país nessa data, os idiotas úteis de serviço.

Depois deste frete aos poderosos senhores da guerra, Barroso tornou-se Presidente da Comissão europeia e Paulo Portas fez um branqueamento à dentuça não sem antes ser condecorado em Washington pelo bandido Rumsfeldt, por bons serviços prestados à causa da guerra no Iraque. Conclui-se que ser idiota neste mundo cão acaba por compensar, desde que se seja idiota no lado certo do planeta.

domingo, setembro 30, 2007

Campanha













Um conto de fadas aos pontapés

Stardust é um filmezinho interessante. A forma como o argumentista Neil Gaiman, um nome bem conhecido no universo dos comics, transforma o habitual conto de fadas numa aventura com momentos algo desconcertantes é um dos trunfos principais desta "película". O elenco, perfumado com a participação de alguns monstros sagrados (Robert De Niro é um pirata efeminado preocupado em manter uma aparência de macho man e Michelle Pfeiffer uma bruxa envelhecida obcecada pela recuperação da beleza e da juventude perdidas), contribui para muitos dos sorrisos que libertamos ao longo da sessão. Ah, já me esquecia do excelente friso de fantasmas que vai acompanhando o desenrolar da acção a partir de um certo momento.
Resumindo: trata-se de um filme light, para ver com toda a família que serve uma história bem urdida e narrada em velocidade de cruzeiro com eficácia visual quanto baste para fazer do espectador uma pessoa feliz no momento em que as luzes da sala se acendem para iluminar o caminho de regresso ao mundo real.
Merece umas quantas estrelinhas no universo pouco dócil dos críticos de cinema do Público (http://cinecartaz.publico.clix.pt/filme.asp?id=182546). Pronto, está bem, só lá está a opinião de Jorge Mourinha que está longe de ser um ogre do calibre dos seus colegas da crítica cinematográfica naquele jornal.
Divirtam-se...


Menezes=Sócrates



A ascensão de Luís Filipe Menezes ao lugar de carrapito no cocuruto do aparelho do PSD é sintomático. O partido pretende a todo o custo substituir o PS na mesa do orçamento do estado e não hesita em eleger como chefe um refinado menino da mãmã, no qual aposta e deposita esperanças para poder competir com o inefável José Sócrates. O PSD, como partido popular que reclama ser, põe em prática o velho adágio que postula que "Para vigarista, vigarista e meio".

A política actual deixou de se fazer com ideias e, muito menos, com ideologias. Sacos-de-vento e penteados, muita base para cortar o brilho dos projectores nos estúdios de TV e discursos estudados ao pormenor de um dedo mínimo que se estica num gesto de máxima indignação e pronto: temos os políticos pós-modernos. Infelizmente não prestam nem para engraxar os sapatos. Não prestam para nada.

sexta-feira, setembro 28, 2007

Tretas



Por uma vez na vida Santana Lopes deixa-me bem impressionado. Realmente a mania dos "directos" sem assunto e com repórteres em overacting é um mau hábito da televisões. A chegada de Mourinho aos trambolhões é um péssimo pretexto para interromper uma entrevista seja a quem for. Mesmo a Santana Lopes que tomou uma atitude, no mínimo, interessante.
Já quanto ao interesse do tema "eleições no PSD" é tão estimulante como... a chegada de Mourinho ao aeroporto da Portela. Uma treta.

terça-feira, setembro 25, 2007

Anedota



O que torna a coisa ainda mais engraçada é que o Sr. Presidente parece acreditar no que está a dizer. As coisas em que um gajo pode acreditar...

Autoproclamação?

De cada vez que se volta a remexer a célebre questão da licenciatura de José Sócrates fortalece-se a impressão de que houve ali marosca da grossa. As notícias vindas hoje a público ( ler em Juíza mandou destruir escutas entre Arouca, Sócrates e Morais) reacendem o rastilho que poderá vir a fazer explodir violentamente este folhetim de sarjeta nas mãos do nosso 1º ministro com nome de filósofo grego. Tantas dúvidas e imprecisões, tantos pormenores mal contados e indícios de ocultação da verdade fazem desconfiar o mais crédulo dos indígenas.
Da parte que me toca estou convencido: Sócrates é engenheiro! E é-o porque assim o desejou e os desejos de um homem como Sócrates são para serem satisfeitos, ponto final. Como todos os grandes estadistas, Sócrates não está para se deixar atrasar por questiúnculas de pequena monta no cumprimento dos seus superiores desígnios. Na nossa qualidade de cidadãos insignificantes podemos apenas agradecer a quem lhe forjou os seus sonhos mais selvagens em dura realidade. Obrigado, vigaristas da minha terra. Muito obrigado.

domingo, setembro 23, 2007

Uma coisa extraordinariamente bela



"Dead Man" é um dos mais belos filmes que vi em toda a minha vida (e, amigo leitor, podes crer que já vi mais que muitos!) Talvez o filme me tenha vindo dançar uns passinhos na memória por ocasião do suicídio do Pedro Alpiarça. Em ocasiões assim um gajo recorda os amigos que já lá vão. E quando alguns dos mais queridos se lembraram de corrigir os destinos da Mãe Natureza encurtando as suas narrativas particulares bruscamente, com um ponto final pouco óbvio de tão negro e perfeitamente estúpido, as memórias dançam, mas dançam com sapatos de salto alto a espetarem-se-me no cérebro.
Esta noite está mais mórbida que uma gravura do Mestre Goya. Rai's partam a puta da Ceifeira que nos rouba tanto riso por troca com o incerto pavor da sua inevitável visita.

Obituário


É (foi) hoje (ontem) velado na Sociedade Guilherme Cossul o corpo do actor Pedro Alpiarça, que (ante)ontem à tarde se atirou do 5.º andar do Hospital de Santa Marta, onde tivera uma consulta.
A morte consegue sempre ser impressionante mas há ocasiões em que é absolutamente espampanante. Nunca estamos verdadeiramente preparados para as suas performances fatais. No caso do Pedro Alpiarça a morte ofereceu-lhe um último espectáculo. Um salto no vazio sem rede nem futuro que se saiba. Vi-o pela 1ª vez a fazer o Vaivém Cantante, com o grupo de teatro A Máscara (era essa a designação, com o Rui Pisco e o Pedro Wilson?) numa salita esconsa no Largo do Rato em Lisboa vai para uma trintena de anos. Voltei a ver esse espectáculo em Almada, passados alguns anos, noutra sala igualmente esconsa, no tempo em que se fazia Teatro. Nesse espectáculo alguém dizia uma frase que recordo muitas vezes, talvez fosse o Alpiarça. A frase era "O porquinho "moreu"!!!" (assim mesmo, com um só "erre"). Recordo que era uma situação simultâneamente triste e risível, um momento estranho numa peça estranha.
Agora foi a vez dele: "O Alpiarça "moreu"!!! (assim mesmo, com um só "erre", como na palavra merda).

sábado, setembro 22, 2007

Festa!!!




Imagens da inauguração da Ver de Fazer 11.
(de cima para baixo)
O Jorge e a Daniela mais dois rapazes que não conheço;
A Sofia preparando-se para cantar e o Tiago a aquecer a guitarra;
Uma perspectiva da sala poucos minutos após a abertura das portas.
A sala estava quente como de costume. Nem o ar condicionado conseguia disfarçar a temperatura ambiente. Quente, quente, de tanto calor humano (que conversa mais farçola)!
Os visitantes foram chegando e a conversa animada invadiu o espaço da sala. Há sempre tanta boa disposição nestas ocasiões que uma pessoa até se sente comovida. A energia ali dentro era mais do que positiva, daria para iluminar a cidade inteira se estivessemos ligados à central eléctrica! Uma coisa deveras extraordinária!
A performance musical foi de bom tom e aumentou a sensação de bem-estar geral. Sinceramente faltam-me as palavras para descrever o que é a Ver de Fazer nos tempos que correm. Assim, de repente, só me ocorre dizer : Boa onda.
Fico por aqui.
Na próxima semana coloco fotos mais ilustrativas dos trabalhos expostos. Ontem estava tão agradado com tudo o que se passava à minha volta que quase não tirei fotografias. Não há fotografia que faça justiça ao ambiente vivido.
A exposição do próximo ano já está marcada!


sexta-feira, setembro 21, 2007

Ver de Fazer 11

Inagura daqui por hora e meia a 11ª edição da Ver de Fazer. Para quem não sabe o que é, posso esclarecer que se trata de uma exposição de artes plásticas promovida pelo Atelier de Artes da Escola Anselmo de Andrade de Almada. Estará patente na Oficina de Cultura desta cidade (que tem vida própria e está do lado certo) entre o dia de hoje e 30 do mesmo mês.
Há trabalhos de alunos da Escola, de ex-alunos da Escola e de professores da Escola. Pintura, escultura, desenho, colagens, vídeo e sei lá que mais. Hoje o Tiago vai tocar guitarra eléctrica e a Sofia (acho que é esse o nome dela) vai cantar. Vai haver muita gente, como de costume. Vamos encontrar pessoas que já andam por outras paragens das suas existências e vão aparecer os pais e os irmãos mais novos e vamos estar bem dispostos, numa celebração anual de entusiasmo e crença nas nossas capacidades para fazermos desta vida e desta cidade um sítio onde possamos estar mais à-vontade hoje do que ontem e muito melhor que tresantontem.
Enfim, esta é uma noite interessante, em que muitos jovens teenagers irão, pela primeira nas suas vidas, ter obras expostas numa galeria pública no centro de Almada e que conta diáriamente com um número muito interessante de visitantes.
Ao eventual leitor deste post fica feito o convite (um pouco tardio para a inauguração mas muito a tempo para a exposição) para passar por lá e ver com seus próprios olhos.
Tenho muito orgulho em participar na organização do evento e com trabalhos meus, lado a lado com os meus alunos, colegas e outros amigos.
A partir de hoje e durante uma semana ali mesmo no centro da cidade (em obras).
Até mais logo.

Para informação mais detalhada clicar sobre a imagem da autoria do Professor Luís Miranda.

quarta-feira, setembro 19, 2007

O Middle West


A maravilhosa gaffe de Sócrates no discurso final do seu encontro com George Bush quando se referiu ao "problema do Médio Oeste" (the Middle West [sic] problem) mostra bem como funciona o subsconsciente de um governante saloio quando lhe resvala a boca em direcção à verdade. Terá sido sem querer, eu sei, Sócrates não queria dizer aquilo mas, ao dizê-lo, talvez tenha verbalizado o que lhe vai na alma em relação a tão incomodativo "pormenor".

Os árabes são os índios e os "aliados" ocidentais, com o Grande Satã à cabeça, são os cowboys da pós-modernidade. O desejo secreto e inconfessável seria o de transformar o Médio Oriente numa espécie de imenso Far East, uma Nova América onde pudesse florescer, renovada, the american way of life.

Dá para rir ou, pelo menos, sorrir. É reflexo de alguma ingenuidade de homens que não passam de meninos a brincar aos cowboys. Tanta amizade entre Sócrates e Bush mostra como estão aí para as curvas e são danados para a brincadeira. O que inquieta um pouco (ou muito) é pensar que os destinos do mundo estão entregues a personagens como estas conforme as responsabilidades de cada uma.

terça-feira, setembro 18, 2007

Sorrisos

Um salto até à página da White House (http://www.whitehouse.gov/news/releases/2007/09/20070917-6.html) permite ter acesso a uma verdadeira conversa de tótós entre os dois bonecos representados na imagem acima. Se o teor das conversas mantidas ao que chamamos "mais alto nível" é aquele estamos mal servidos. A formalidade da coisa e o vazio absoluto do discurso dão bem a imagem da hipocrisia que reina nas relações entre os poderosos deste mundo e respectivos lacaios de ocasião.
I do want to thank the people of Portugal for supporting your decision to help the people of Iraq and Afghanistan realize the blessings of freedom, and I appreciate that. diz Bush; And thank you also for the opportunity to discuss some of our more delicate matters in the international agenda, mainly the question of Kosovo and the Middle West [sic] problem. debita Sócrates na resposta. Note-se o pormenor da gralha do Middle West, com Sócrates a fazer o papel de burrico de serviço.
Enfim, leveza e vacuidade q.b. nos discursos destes dois matrecos, de tal forma que fica a sensação de estarem a brincar aos presidentes.
Uma coisa que impressiona nestas cenas são os apertos de mãos. Sorrisos de plástico mais ou menos amarelo a manterem-se o tempo suficiente para as fotos de ocasião. Neste aspecto particular o sorriso de Bush é muito mais eficaz. Sócrates parece estar com os tomates entalados na braguilha.

segunda-feira, setembro 17, 2007

Silêncio


Afinal Santa Madre Teresa de Calcutá sofria mais com o silêncio de Deus que com as misérias que tão corajosamente encarou e combateu. A mulherzinha deixou registos da solidão sentida nos momentos de oração perante a falta de resposta do eventual Criador às suas preces. Isto foi notícia aqui há uns dias atrás e terá deixado muita gente perplexa, à beira de um estado de estupidificação absoluta.

Aguardei algum desenvolvimento deste tema, alguma declaração. Um esclarecimento, uma luzinha que pudesse incomodar a treva desse lugar de ausência assustadora, algo que restituísse a possibilidade de estar a santinha enganada ou, mais simplesmente, uma prova de que havia apenas alguma distracção da parte do Criador. Mas nada. Na verdade Madre Teresa bem tinha razões para se inquietar. À sua constatação do silêncio de Deus podemos ouvir como resposta apenas mais silêncio. Mas eu sou um gajo distraído, se calhar já alguém veio explicar o caso e fui eu que não me apercebi.

A igreja católica tem andado numa azáfama pouco habitual a beatificar pessoal a torto e a direito. O próprio Papa João Paulo II já está na fila e quase chegado à caixa registadora onde lhe será entregue o recibozinho que comprova ter pago conta suficiente para passar a ser considerado Santo. Tudo em nome de Deus. Tudo para recompensar aqueles que O serviram e confortar os que por aqui ainda vão acreditando que, ao serem boas pessoas, O estão a servir também.

Madre Teresa foi uma mulher excepcional. Se a santidade faz algum sentido decerto se lhe aplica com a justeza de uma luva plástica em mão de cirurgião. Daí que a sua dúvida perante a voz calada do Senhor cause mais incómodo que as fatiotas de luxo do Papa Ratzinger e não mereça fazer eco nos meios de comunicação social generalistas, muito menos naqueles que são controlados pela Santa Madre Igreja.

Fica a sensação que "vida é souvenir made in Hong Kong" como diz a canção de Zeca Baleiro, fabricada por trabalhadores miseráveis, sem direito a segurança social e com mais calos no cérebro que nas palmas das mãos.

sexta-feira, setembro 14, 2007

Um filme daqueles!


Há filmes que são autênticas obras primas, não há? Filmes que têm um argumento absorvente, actores empenhados e convincentes. Filmes que nos prendem os sentidos do primeiro ao último momento. Filmes onde todos os planos contam, todos os planos foram estudados e preparados com igual minúcia e nós percebemos isso. Filmes onde até as pequenas coisas que acontecem por acaso ganham um significado grandioso. Filmes que são objectos perfeitos, coisas excelentes e admiráveis. É por isso que tanta gente gosta de cinema. Mesmo aqueles que apenas consomem o banal milho dos pardais, que apenas vêem os filmes mais comerciais (que os há bons, também!) gostam do grande cinema, só que não o sabem porque nunca viram o grande cinema com aqueles olhinhos de ver.
Tudo isto vem na correnteza de ter finalmente visto As Vidas dos Outros(http://www.imdb.com/title/tt0405094/) galardoado com o Oscar de melhor filme estrangeiro pela academia de Hollywood no presente ano. É que este é um filme daqueles, como já muita gente sabe porque já muita gente o viu e não acredito que haja uma alminha que seja que, no final, possa dizer: "não presta para nada" ou "não gostei" ou outro comentário enfastiado desse género.
As Vidas dos Outros é uma obra prima.

quarta-feira, setembro 12, 2007

Passou


Passou o 11 de Setembro e nada. O Mundo continua a girar, a girar, a girar sem parar. Deve ser por isso que o mundo parece estar sempre tonto. As datas não têm aquele poder mágico que, por vezes, lhes atribuímos. Basta lembrar a célebre noite de passagem de ano para o século XXI.


O mundo ia acabar.
Bom, esta era difícil de engolir, mas, mesmo assim, houve muito boa gente que, pelo sim, pelo não, lá foi encomendando a alminha ao Criador. Seja como for convém chegar a uma data deste calibre com a consciência mais ou menos tranquila e limpa de lixo que se note demasiado. Entre os católicos há aquela cena do arrependimento que, ao que parece, pega bem com o Deus deles. Esfolas um gajo. Se te arrependeres tens hipótese de te safares do Inferno porque esse tal Deus é um tipo compreensivo.
Mas, nesta história de o mundo acabar em data certa, havia uma coisa que, na minha cabeça, não fazia sentido absolutamente nenhum. Quer dizer, o ano 2000 era o fim do mundo para os povos que se orientam pelo mesmo calendário que eu. E os chineses? E os muçulmanos? Bem, os muçulmanos estão no ano de mil seiscentos e troca-o-passo, nem sei bem. O mundo iria acabar também para eles? O mundo pode acabar aos bocadinhos, sem aviso nem nada? Hoje aqui, amanhã acoli, conforme os calendários de cada povo e cada civilização?


O mundo não acabou.
O mundo continuou um bocadinho mais para a frente, igualzinho, quase sem tirar nem pôr, até que aconteceu aquela cena tenebrosa dos aviões a rebentarem com as torres de Manhattan e o mundo todo a ver aquilo, de boca aberta, ainda mais tonto do que é habitual, o mundo a sentir que lhe fugia o eixo do sítio. Mas lá se aguentou. Naquele dia (há quantos anos foi? Há 5, 6?) o mundo não acabou mas mudou. Como sempre mudou para pior. Alguém se lembra de uma data em que o mundo tenha mudado para melhor, assim, de repente? Decerto que há datas que marcam acontecimentos positivos para o mundo, de um modo geral, mas num post como este nem ficar bem admitir, sequer, uma coisa dessas.
O resto da história todos nós conhecemos. Uns melhor, outros pior, estamos cientes do que está a acontecer actualmente: os estados democráticos andam às aranhas consigo próprios, a cederem no capítulo das liberdades individuais por questões de segurança, a tornarem-se progressivamente em estados policiais; os EUA cada vez mais tresloucados a ameaçarem meio mundo de porrada e a perderem o crédito de terem a estátua da Liberdade lá na terra deles; os chineses, campeões do desrespeito pelos direitos mais básicos dos seres humanos a chegarem-se à frente para se tornarem os próximos timoneiros desta barca dos loucos que é o planeta Terra.


O mundo vai acabar.
Mas não me parece que haja uma data previsível. Pelo menos para já. Ontem não aconteceu nada de terrível a nível planetário mas houve uma mãe que, supostamente assassinou os dois filhos que, todos dizem, muito amava, e depois se terá suicidado. Aconteceu em Viseu, ontem, 11 de Setembro. Esta data passará a ter um significado diferente para um certo conjunto de pessoas. O mundo, para elas, terá acabado. Mas foi em 2007.

segunda-feira, setembro 10, 2007

Quem somos? De onde vimos? Para onde vamos?

Uma notícia excelente!!! O governo (o nosso, sim, o nosso!!!) acaba de aprovar o aumento dos benefícios fiscais para empresas já instaladas ou a instalar no interior do país com o objectivo de promover a célebre discriminação positiva! Não é uma excelente notícia? Não faz com que tenhamos uma súbita vontade de nos tornarmos empresários e abalar de armas e bagagens para o interior do Portugal profundo e abrir, por exemplo, uma exploração suinícola no Pulo do Lobo? Se fizermos isso teremos benefícios fiscais na ordem dos 15%! 15% é assombroso. É bestial. É uma ideia genial que vai contribuir para a reflorestação humana do interior desertificado do nosso país. Uma medida destas faz um gajo desejar ser descriminado.

Bom, é claro que, caso esteja a pensar abrir a tal empresa, convém ponderar alguns aspectos novos na realidade social do Portugal profundo, aspectos esses também da responsabilidade da genialidade de alguns dos nossos actuais ministros e respectivos ministérios (que estes gajos, os ministros, são, muitas vezes, meras máscaras, fachadas com um oríficio fonador que se limitam a deitar cá para fora os soundbites relativos a ideias que raramente são deles, são uma face visível do mostrengo que nos governa).

Estou a lembrar-me dos Centros de Saúde que fecharam por esse país fora. Se pretende tornar-se empresário e gozar dos 15% de benefícios fiscais oferecidos pelo governo do PS convém que seja saudável ou então, caso sofra de bicos-de-papagaio, tente abrir o seu negócio perto de um Hospital regional.

Além de saudável deve também ser solteiro ou, pelo menos, não ter filhos. Isto, claro, se pretender abrir a sua empresa numa zona onde tenha sido fechada recentemente a escola primária. Claro que se os seus filhos estiverem já em idade universitária os seus problemas são outros.

Isto para não falar das pessoas que irão trabalhar consigo ou para si. Das duas uma: ou as leva consigo ou as recruta lá, no Portugal profundo. Convém que os seus futuros colaboradores sejam igualmente saudáveis e livres de compromissos com menores de 18 anos, tudo isto dependendo, claro está, da localização exacta do seu sonho tornado realidade: benefício fiscal de 15%... caramba...

Parece haver aqui uma certa esquizofrenia (para não lhe chamar falta de coerência ou destrambelhamento total). 1º fecham-se Centros de Saúde e Escolas empurrando progressivamente as populações mais jovens em direcção às cidades. Depois vem-se com esta ideia de beneficiar empresários que queiram construir um mundo diferente no interior do país. Uma no cravo outra na ferradura!

Não parece fazer muito sentido mas, se percebermos que as medidas tomadas são iluminadas pela deusa Economia, então talvez dê para perceber que não têm de primar pela sensibilidade ou por uma particular inteligência humanista. São números, ideias sem alma, coisas frias com laivos de estupidez da grossa quando analisadas sob o ponto de vista de uma inteligência mais emocional.

Mas pronto, é o governo que temos e o 1º ministro pode ter sido um universitário de quarta categoria numa universidade manhosa mas é nosso e, por enquanto, não temos outro. Por isso convém acarinhá-lo para que não tenha a tentação de fugir (como o outro) e acabe a nomear algum sucessor para o cargo ainda pior do que ele.
Cruzes canhoto, lagarto, lagarto, lagarto!

sábado, setembro 08, 2007

Arguido

Em termos de exposição para a opinião pública, a figura jurídica do arguido é uma valente merda! Sempre que decorre uma investigação ou existe uma queixa sobre determinado indivíduo e sobre ele cai nem que seja uma leve sombra de suspeita, temos um arguido. Ou seja, na realidade um arguido está, à partida, tão inocente como no momento em que a mãe o deitou a este mundo. Um arguido está longe de ser acusado do que quer que seja. Ser arguido num processo judicial é assim como estar no Purgatório. Nem no Céu muito menos no Inferno. A merda é que, para a opinião pública, existe alguma confusão entre arguido e acusado e, muito pior, muito mais merdoso, entre arguido e culpado!
Os meios de comunicação muito contribuem para esta salsada ao atirarem grandes títulos, gordos e tonitruantes, para as primeiras páginas. FULANO DE TAL FOI CONSTITUÍDO ARGUIDO NO PROCESSO!!! Pronto. Está frito, cozido, assado e escalfado! É como se não houvesse mais nada a fazer senão decidir a cor do fato que irá usar na prisão. A confusão instala-se, a populaça aparece de imediato, saída de debaixo das pedras da calçada, ululante, reclamando aquilo que imagina ser Justiça: o linchamento do arguido.
O célebre casal McCann, pais da pequena Maddie, desaparecida vai para demasiado tempo na Praia da Luz, foram constituídos arguidos no processo de averiguação que desde então decorre por estes lados. Outrora apaparicados por uma opinião pública chorosa, amável e compreensiva, Kate e Gerry foram apupados pela turba quando se dirigiam para as instalações da polícia, a fim de prestarem declarações. Não foram acusados de nada. Apenas passaram de testemunhas a arguidos o que lhes dá outro tipo de direitos nos interrogatórios em curso. O sistema judicial é demasiado confuso e complexo para um leigo como eu.
Na verdade estou-me bem a lixar para todo este processo, mais circense por via do mediatismo que ganhou, do que coisa séria e seca como devia ser um processo judicial discreto e circunspecto. O que me impressiona é a facilidade com que a populaça muda de opinião e atitude, ao sabor das nuances mediáticas e transforma com ferocidade os seus herois em vilões por dá-cá-aquela-palha. Espero que nos fim de toda esta feira mediática de aberrações impossíveis, sobre alguma margem para que se faça Justiça. E, já agora, caso seja possível, que prevaleça qualquer coisa parecida com a Verdade.
Até lá, deixemos os arguidos em paz.




quinta-feira, setembro 06, 2007

A Mosca no écrã

Na sequência do meu recente ataque de revivalismo cinematográfico dei por mim a ver A Mosca de David Cronenberg acompanhado pela minha filha e pelos meus sobrinhos. Uma espécie de sessão educativa para a vertente mais jovem da família.
Apesar da distância cronológica (o filme foi realizado em 1986) A Mosca mantém alguma da frescura que lhe valeu elogios entusiásticos quando apareceu nos écrãs. Surpreendentemente, o aspecto "anos 80" dos protagonistas, com os seus penteados tipo Luís XIV, não provocou gargalhadas entre a nossa pequena plateia. A narrativa bem marcada e escorreita deslizou pela sala com à vontade prendendo os jovens espectadores. A coisa só tremelicou um pouco quando a transformação do Dr. Brundle (Jeff Goldblum) começou a tornar-se mais evidente. Principalmente o mais pequeno dos espectadores, o Pedro de apenas 10 anos, teve alguns momentos um pouco mais emotivos, por assim dizer. Mostrou sabedoria ao fechar os olhos sempre que eu lho aconselhava, nas cenas em que os efeitos especiais, muito crús, poderiam tornar-se um pouco mais arrepiantes. Não resistiu a uma espreitadela desaconselhada, o que lhe arrancou alguns gritinhos.
No final algum nojo e muito bom humor coloriram os comentários. Tudo somado tratou-se de uma noite gloriosa para o realizador canadiano que ganhou mais dois potenciais espectadores (já lhes aconselhei eXistenz, uma vez que os jovens gostam tanto de jogos e realidade virtual) e acabámos bem divertidos.
Entretanto tenho ali em cima da mesa Taxi Driver. Mas esse será visto em sessão mais restrita.

quarta-feira, setembro 05, 2007

Ele detesta(va) o poder!



Ver paulo Portas nestas imagens não deixa de ser uma experiência estranha. O tom de voz afectado, os gestos amaneirados e, sobretudo, o discurso disparatado, não colam com o Paulo Portas do vídeo que se segue. Aqui Portas afirma que é "geneticamente contra o poder", que o poder é a pior coisa do mundo e que caso algum amigo um dia venha a ser ministro ele deixará de lhe falar! Um gajo diz cada tolice. A cereja em cima do bolo é a conversa sobre o Ministro do Mar que fecha esta peça de antologia (note-se bem a colecção de cromos que estão naquele friso, é de loucos!).



Ha,ha,ha,ha, então não é que Portas chegou a Ministro! Certamente deixou de falar consigo próprio o que explicará muitas das cretinices que tem cometido ao longo da sua vida política. Depois temos a celebérrima cena do espanto do Paulinho quando soube que seria Ministro dos Assuntos do Mar. Essa cara de parvo é impagável. A cara de parvo e a pose empertigada de menino da mamã que a seguir ele põe, todo esticadinho, a fazer gala da sua alegria de tontinho, com o coração aos pulos.
Este episódio foi um dos muitos que contribuiram para o asfixiamento de uma certa criança na incubadora, na linguagem colorida do homem que anda por aí. A imagem de desorganização total e estupidificante dada por um palhaço que fica surpreendido quando é nomeado ministro não tem paralelo nem nos sketches mais mirabolantes dos Gato Fedorento. Este é um caso daqueles em que a realidade ultrapassa (de longe) a mais delirante ficção.
Vai-te esconder, ó Paulo. Tem vergonha que eu também.

Fanzine


Está em preparação um novo blog intitulado MUMIA (http://mumiafanzine.blogspot.com/). Trata-se de uma tentativa de recuperação do espírito dos Fanzines publicados vai para uma eternidade. A equipa responsável pelo arranque da coisa é constituída por mim, pelo Fonte Santa e pelo José Fonseca. Ainda estamos numa fase algo incipiente mas em breve a MUMIA será algo completamente diferente!
Está dada a notícia do nascimento da MUMIA. Longa vida à MUMIA!

terça-feira, setembro 04, 2007

O fim


As tropas inglesas já vão saindo de Bassorá. Vão de fininho, sem grandes ondas, em tom a fazer lembrar fim de festa. A ressaca é grande e, como qualquer adolescente após ter feito asneira da grossa por ter levado os instintos animais para lá de Marraquesh, os soldados de Sua Majestade deixam passar algum ressentimento. Ao que consta, altos responsáveis das tropas britânicas, revelam agora que desde os primeiros encontros com Rumsfeldt tiveram a sensação de que não havia planos consistentes para depois da invasão. Numa exibição de suprema estupidez, os senhores da guerra norte americanos sempre estiveram convictos de que os iraquianos iriam aplaudir as tropas invasoras, sequiosos de Coca-Cola e hamburgueres manhosos, agitando bandeirinhas em intermináveis desfiles celebratórios. Não há memória de tamanho erro de cálculo!
Bush fez a surpresinha de aparecer no Iraque para dar umas palmadas nos costados da soldadesca e garantir que caso os "êxitos actuais" (!!!???) da política americana no Iraque se mantenham serão necessárias menos forças no terreno. Se assistimos ao êxito americano nem quero pensar o que seria do Iraque e dos iraquianos caso as coisas estivessem a dar para o torto.
Com os "bifes" em maré vazante e a guerra civil em cavalgada constante só mesmo Bush consegue estar sorridente e confiante num futuro radioso. O homem ou é verdadeiramente um pobre de espírito, dos mais pobres que a Humanidade jamais teve oportunidade de lamentar, ou então é verdadeiramente aquilo que a criancinha da imagem anuncia com aquele sorrisinho maroto de quem, tal como Bush, não sabe bem o que está a fazer mas até acha piada à coisa.
Seja como for, o fim da aventura assassina no Iraque está para breve, pelo menos para os ocidentais que para os iraquianos a coisa vai manter-se por muitos e duros anos. Será que o maluco de Washington está já a pensar bombardear o Irão? Há indicadores pouco animadores nesse sentido. Deus nos livre.

segunda-feira, setembro 03, 2007

Samões

Serve este post para convidar o leitor a dar um pinote até
http://www.joaosamoes.blogspot.com/ onde pode passear o olhar sobre um conjunto de trabalhos de João Samões, bailarino, performer, coreógrafo, desenhador, pintor e mais que seja. Em tempos que já lá vão fomos cúmplices em várias actividades mais ou menos artísticas, mais ou menos outra coisa qualquer. Foi assim. Agora também.

Museu Berardo


Finalmente lá me dignei encontrar uma razão plausível para visitar pela 1ª vez a célebre colecção Berardo exposta no agora designado Museu Berardo (http://www.berardocollection.com/?TopLevelID=1&lang=pt). A razão plausível teve a ver com uma tarde passada em família sem nada de muito importante para fazer no horizonte e, pronto, então vamos lá ver aquilo!

A curiosidade não se prenderia tanto com as obras expostas. A maioria (ou pelo menos uma parte significativa) transitou do Museu de Sintra onde anteriormente se amontoavam com nítida falta de espaço apesar da boa vontade. Tinha mais interesse em ver como resultaria a ideia de fazer um Museu com o nome do coleccionador/comendador Berardo, recentemente transformado numa espécie de óraculo da vida pública nacional cujas opiniões e profecias sobre banca, bolsa de valores ou futebol do Benfica, o trazem com uma frequência inaudita para as primeiras páginas dos jornais e para os écrãs lá de casa. Berardo transformou-se numa espécie de empresário do regime, o exemplo acabado do self-made man de sucesso neste mundo canídeo em que habitamos. Uma vedeta que parece viver em permanente estado de graça e em felicidade absoluta. A vida corre-lhe bem e ele mostra-o com uma alegria quase infantil em cada intervenção pública.

Quanto ao Museu lá está, como se previa, uma imensa exposição de obras de arte contemporânea das mais variadas proveniências e períodos artísticos, movimentos e grandes nomes. Um luxo lisboeta oferecido a quem o quiser desfrutar naquele ambiente limpinho característico do CCB. O Museu Berardo está ao nível de qualquer grande museu europeu e, nesse aspecto, cumpre perfeitamente a função sem surpreender ou deslumbrar. Para quem tenha visitado a Tate Modern ou o Thyssen-Bornemisza, para citar dois exemplos, poderá até dar a sensação de ser mais do mesmo o que é, só por si, muito bom.

Enfim, Lisboa passa a fazer parte de um circuito específico, o das cidades europeias com relevantes colecções de arte contemporânea que permitem ao turista cultural passear-se calmamente numa floresta de obras interessantes e com interesse, completando a sua colecção de recordações artísticas. Sem deslumbrar nem comprometer. Para gozo do comendador e glória do Senhor Berardo.

sábado, setembro 01, 2007

SE7EN

Rever filmes que nos deixaram a sensação de serem objectos cinematográficos relevantes é um desporto altamente recomendado. Rever Se7en, de David Fincher, é uma atitude algo temerária. Trata-se de um filme excelente sob todos os aspectos. Um filme terrível!
Revi-o ontem à noite em DVD que recolhi na Biblioteca Municipal, uma edição da Série Y que saiu com o jornal Público. É uma edição de fraca qualidade que não respeita na íntegra o formato da imagem mas, enfim, um gajo sempre pode fazer olhos de consumidor e fingir que não repara.
Embora tenha visto o filme apenas na altura em que passou aí pelas salas de cinema, recordava muitas cenas com um rigor fotográfico que me surpreendeu. Isso mostra até que ponto Se7en se me cravou fundo no cérebro e passou a fazer parte da minha memória individual.
Mais do que a violência explícita de algumas imagens, Se7en impressiona pela violência implícita, aquilo que não vemos muito bem mas podemos intuir pelas expressões dos actores ou pelas suas reacções em determinadas cenas.
O momento mais brutal em todo o filme, aquele momento marcante que me deixou a pensar na vidinha, é quando os detectives transportam o assassino no banco traseiro de um carro, separados por uma rede, como quem transporta um animal selvagem e o mais jovem o acusa de matar inocentes. Então o animalesco John Doe (Kevin Spacey) debita um discurso verdadeiramente atroz e cruel. Animado por uma lógica inumana e implacável mostra como todos nós somos tudo menos inocentes e, como tal, na sua perspectiva enviesada do mundo e das pessoas, todos somos merecedores dos mais atrozes destinos, como o foram as suas vítimas.
Depois as cenas finais, em que o argumento fecha num grande final delirante de maldade e violência interior de forma sublime e simplesmente brilhante.
Uma obra prima. A rever.