segunda-feira, maio 29, 2006

Má ideia

A proposta de alteração ao estatuto da carreira docente apresentada pelo Ministério da Educação resulta de uma necessidade. A forma como se vem organizando o percurso profissional de milhares de professores configura situações desastrosas e injustas para muitos deles (de nós, professores). A progressão quase automática tanto do monga que se balda com frequência e destempero quanto do rato de biblioteca que, além de ser assíduo e pontual ainda tem o desplante de se interessar pela qualidade do seu trabalho, não pode continuar a vigorar. Se um professor não presta não presta mesmo. O corporativismo de que somos tão frequentemente acusados é um facto. Esta situação precisa de ser revista, sem dúvida, é necessário repensar os processos de avaliação de desempenho. De acordo.

Assim à 1ª vista a proposta agora parida pelo Ministério da Educação tem alguns objectivos mal escondidos. Por um lado. em nome do rigor na avaliação, parece pretender-se restringir o acesso de professores aos escalões mais elevados da carreira. A preocupação não será a de melhorar a qualidade do ensino mas sim reduzir os gastos com o pessoal. Prova disto é a ideia peregrina de pôr encarregados de educação a contribuir para a avaliação do desempenho profissional dos professores. Se não fosse tão malévola não passaria de uma má ideia. Mas o populismo da proposta mostra bem as linhas com que se cose a ministra. Até acredito que, no processo de negociação que se vai seguir, deixe caír esta proposta imbecil. Mas o odioso da questão vai incidir nos professores que, perante a opinião pública, vai surgir como uma classe que não aceita ser avaliada, que apenas pretende boa-vida e pouco trabalho. A ministra é mesquinha. Se não é mesquinha, se age com boa vontade e intenções realmente puras, então que me desculpe. A imagem que exporta é, então, de alguém que anda à deriva e muito mal aconselhada.
Cuide-se, minha senhora, tenha lá cuidado com as companhias.

sábado, maio 27, 2006

Export-export


Continuo com dúvidas do tamanho de uma manada de camiões. Exportar a Democracia será um bom negócio?
Têm ficado os importadores do nosso modelo político e social a ganhar alguma coisinha que se veja quando põem o brinquedo a funcionar, lá na terra deles? Quer-me parecer que não. Quer-me cada vez mais parecer que andamos a vender gato por lampreia e por detrás do nosso Humanismo versão século XXI anda asneirada da grossa escondida com um grande mangalho de fora.
Tudo estará bem quando, num novo território bafejado pelo hálito a rosas das democracias capitalistas, abrir um Mc Donalds e estará perfeito quando chegar o Kentucky Fried Chicken, tudo regado com a melhor Coca-Cola da última colheita. E nós fazemos parte desta merda, somos peças da máquina que provoca problemas mesmo querendo ser peças da máquina que engendra soluções. Tá mal!
Temos uma vinhaça tão baril... se exportássemos apenas Baco aos pedacinhos e metido em garrafas não seríamos mais felizes e, sobretudo os importadores, não seriam muuuuito mais felizes? Temos por aí deuses aos pontapés e insistimos em exportar o mais escorregadio de todos, o Deus Dólar (nem sequer podemos pôr no altar o Deus Euro!). Chiça penico!

sexta-feira, maio 26, 2006

Timor is back!


As coisas estão azedas para os lados de Timor. Os acontecimentos dos últimos dias chegam até nós em ritmo acelerado. Ouvimos novamente falar de Timor com uma frequência assustadora. Isto porque os factos narrados são deveras assustadores.
Mortes e saques, assassinatos, fugas em massa, refugiados, a comunicação social volta a ter assunto e não se faz rogada. Uma confusão de ditos e não ditos, acusações cruzadas entre Xanana e Alkatiri, entre polícias e forças armadas, um novelo complicado e difícil de desenrolar.

Como se chegou a este ponto? Que razões estarão na base de tão desgraçados eventos? Desgoverno, dizem os australianos que entretanto enviam tropas para sossego da população. Sim, parece existir uma situação de impasse entre diferentes grupos no seio das instituições que governam o país, de tal modo que a solução para as desavenças tem sido a velha violência. Pura e dura com sangue e mortes sem remédio.

Regressam apressadas as forças que entretanto já iam abandonando o território, a GNR entre elas. Estabelecem-se novas pontes de solidadriedade. Sobretudo fala-se de novo sobre Timor. Parece que apenas a desgraça é capaz de dar visibilidade àquele território perdido. Os motivos da desgraça? Podemos apenas deitar-nos a adivinhar.

Talvez nos próximos dias se faça alguma luz sobre o assunto. Agora que Timor está de novo a arder talvez possamos saber com algum pormenor o que se tem passado desde a independência até à actualidade. Talvez agora nos contem a história desse tempo "morto" em que, não havendo mortes violentas, parecia não haver assunto para qualquer tipo de notícias.

Um horizonte enfeitado por uma casa em chamas com pôr-do-sol ou um militar levando ao colo um colega moribundo e pintado de sangue são imagens de uma irresistível beleza. Fazem belas capas de jornal e despertam o sonho na cabeça do cidadão-de-classe-média nostálgico das guerras ultramarinas.

Timor is back!

quinta-feira, maio 25, 2006

O balde

Todo o estardalhaço mediático a propósito do livro de Maria Carrilho, o Manuel, mostra bem a natureza daquilo que está em causa. É tudo uma questão de marketing.

Ficámos a saber que as candidaturas a cargos políticos vivem tanto das campanhas organizadas por agências de publicidade quanto o azeite Galo ou o Mateus Rosé. Todos querem chegar ao grande público dê lá por onde der, seja como fôr. Os publicitários, desde que haja dinheirinho, fazem o seu trabalho com empenho e seriedade vestino a camisola do momento não importando qual a que trazem por baixo. Carrilho, no trôpego debate do Prós e Contras na RTP1, chegou mesmo a falar em mercenários, como se nunca tivesse recorrido aos serviços desses profissionais da venda a retalho.

Ainal de contas não há surpresa nem espanto em relação a este facto. A nossa sociedade não é um "Capitalismo Demo-Mediático"? (o "Demo" é de democracia e não relativo ao "chifrudo") O que não tiver visibilidade mediática é como se não existisse, a Democracia só existe nos écrãs da TV e o Capitalismo compra tudo, compra os écrãs, os políticos e as empresas de tratamento e comercialização de imagem.

Só não percebo muito bem é se Carrilho não vê o mundo em que vive e no qual pretende protagonismo e visibilidade. Ele, que é um tipo inteligente, decerto compreende na perfeição as linhas com se cose. Após ter entrado no mecanismo da imagem mediática, o indivíduo tende a ser mastigado, mastigado, ensalivado e, uma vez perdido o sabor, cuspido para o baldinho dos escarros. Carrilho já nada no baldinho mas teima em não aceitar essa situação, mesmo que seja transitória. Vem agora com arremedos de virgem ofendida justificar a derrota nas autárquicas com campanhas organizadas contra a sua pessoa e respectiva família no tenebroso mundo mediático. Ninguém se acredita que o filósofo seja tão inocente e tão canhestro ao mesmo tempo que não tenha ainda percebido que jogando com as mesmas armas do adversário, se foi derrotado, talvez tenha sido culpa própria.

Não deixa de ser estranho que tenha tido ao seu lado, no tal debate da RTP1, um tipo que em tempos afirmou que vender sabonetes era mais ou menos o mesmo que vender presidentes da República. Ironias do destino neste mundo virtual que, por o ser, não chega a existir para lá de si próprio. Esta historieta toda junta não vale os escarros no balde.

domingo, maio 21, 2006

Frei Bento


Frei Bento Domingues é um daqueles homens que conseguem falar de Religião sem se porem a ditar sentenças directas à cabeça de quem os ouve. Tenho o hábito de ler as suas crónicas semanais, aos Domingos, no Público. É sempre um momento de intensa reflexão que faz hesitar nas minhas posições mais heréticas. Na verdade (ou será na realidade?) raramente discordo com a perspectiva de Bento Domingues. Ele vê a Religião numa perspectiva humanista que muito me diz.
Na realidade (ou será na verdade?) sempre me considerei um Cristão por nascimento e cultura. Os meus problemas começam sempre à porta da igreja. O catolicismo causa-me náuseas profundas e tonturas incontroláveis. Aqui residirá a minha distância em relação a Frei Bento Domingues mas ele decerto me compreenderia caso tivessemos oportunidade de trocar ideias sobre o assunto.

http://www.triplov.com/espirito/frei_bento/

Aqui se podem encontrar alguns textos interessantes. Reflexões sérias e inteligentes. Abominar o catolicismo não me impede de admirar alguns católicos (na verdade admiro muitos).

sábado, maio 20, 2006

Amor com amor se paga

Lá fui ver o filme. Acho que nem é bom nem é mau, é uma coisa assim-assim.
Estará cheio de erros de interpretação da História, também me parece. O autor do livro tem uma imaginação criativa interessante, disso não restam dúvidas. O fundo da "cena" é sem dúvida fortemente anti-católico e de um cristianismo lírico, e depois? Não me parece que isso constitua motivo para tanto alarido.
Acaba por ser um filme um tanto maçador. Mas como não li o livro acredito que também a obra escrita de Dan Brown o seja. Como a espada de D. Afonso Henriques que era, ao que consta, comprida e chata.
Apesar de tudo vê-se. Sem grande emoção, podendo mesmo produzir um ou outro bocejo, chega-se ao fim mais ou menos como se tinha partido.
A preocupação da Igreja Católica parece-me exagerada, por um lado, e justificada, por outro.
Para pessoas como eu, que até andei na catequese quando era criança, há algumas questões que se levantam. Na verdade a intolerância da Igreja foi o primeiro safanão no meu catolicismo tinha eu para aí 12 ou 13 anos e uma reflexão mais atenta pôs-me fora lá para os meus 14.
Desde aí sou um forte crítico do catolicismo que é, na minha óptica (e aqui a minha opinião coincide mais ou menos com a de Dan Brown) um dos maiores logros da História do Ocidente com o objectivo último de oprimir o pensamento livre.
Já para quem não perceba nada de Cristo nem tenha a mínima noção dos conteúdos gerais dos Evangelhos, o Código Da Vinci poderá parecer demasiado real e bem fundamentado. É isso que põe a Igreja aos pinotes!
Os chefes católicos sabem bem que a ignorância é uma fraqueza terrível uma vez que a acarinharam ao longo dos séculos como forma de melhor oprimirem os fracos e ignorantes. Só que agora, num mundo mediatizado mas igualmente inculto e largamente estupidificado, a Igreja não detém o Poder de outrora e não consegue censurar a informação consoante os seus interesses, daí que veja o seu próprio veneno a contaminá-la. Isso incomoda-a e faz com que mostre as garras e os dentes afiados. Mas já não mete medo a ninguém.
Sendo assim, ironia da História, a Igreja Católica, mestra da ilusão e do misticismo, vê um tipo qualquer chamado Dan Brown utilizar as mesmas armas contra ela com larga difusão mediática. Haverá erros e "mentiras" na historieta do Código Da Vinci, não duvido. Tal como nos Evangelhos canónicos e na Doutrina Católica.
Amor com amor se paga.
Aguenta e não bufa!

quinta-feira, maio 18, 2006

Teologia de trazer por casa

Há uma coisa que de vez em quando me vem fazer cócegas no cérebro. É a distinção entre Verdade e Realidade. Enquanto a questão foi como algo que dormia no meu regaço, sem que me apercebesse da sua existência, nada! Estava lá mas eu não sabia, logo, como diz o povo, "olhos que não vêem, coração que não sente" ( O povo diz isto, não diz? Pelo menos acho que dizem que diz!)
Mas um belo dia, ia eu ao cinema com a família ver Big Fish, o filme de Tim Burton e a questão surgiu de um local improvável: da boca da minha filha. Na altura teria ela uns 10 anos, não sei bem, e estávamos a recordar os filmes de Burton que já haviamos visto. Eduardo Mãos-de-tesoura, Marte Ataca, Pee Wee Big Adventure, A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça, Ed Wood... aí a mãe perguntou que filme era esse, Ed Wood? A miúda explicou que se tratava da história de um realizador de cinema que era um tipo estranho. E estranho porquê? Estranho como? Estranho porque não percebia a diferença entre verdade e realidade. Póinnn, ficámos de olhos arregalados a pensar no assunto que, para a criança, era de uma limpidez absoluta.
Lá fomos ver o Big Fish (ainda recentemente revimos o filme) e, desde aí, a pergunta visita-me de vez em quando.

Vem isto a propósito da questão em redor da estreia nos cinemas de O Código da Vinci e da agitação que vem causando entre católicos apostólicos romanos. Insurgem-se por considerarem que o filme divulga "mentiras" sobre a figura de Jesus. Andará tudo à volta da suposição veiculada na obra de Brown de que Jesus teria constituído família com Maria Madalena. Sacrilégio! Blasfémia! Para os guardiões da Fé católica isto não passa de uma fantasia.
Tudo bem, estão no seu direito.

Convenhamos que a dita Fé se baseia em pouco mais que suposições e enormes doses de imaginação perdida nas brumas do tempo. Evangelhos adoptados e por adoptar. Traduções manhosas de textos supostamente sagrados. Anjos a ditarem textos a evangelistas semi-analfabetos... fantasias!

A religião não se baseia em factos, se assim fosse dispensava-se a Fé. A religião baseia-se em crenças. Acredita-se na existência de Deus e, a partir dessa crença fundamental, tudo é possível. Dá até para acreditar que a mulher foi criada a partir de uma costela do primeiro homem. É um pormenor abstruso. Porquê de uma costela? Deus não tinha melhor matéria prima à mão de semear? E por aí fora.

Ora é por esta altura que regressa a questão da Verdade e da Realidade.
Pensando bem são coisas completamente distintas.
Deus, por exemplo. Pode muito bem existir na Verdade e andar muito longe de existir na Realidade. E vice-versa.
Pode ou não pode?

quarta-feira, maio 17, 2006

Tá calado!



Há dias em que nada parece valer a pena e um gajo dá por si a perguntar: será que posso recomeçar e ser tudo o que nunca fui outra vez?

Se um gajo fizer uma pergunta destas a si próprio o mais certo é não ouvir a resposta o que não faz mal nenhum.

domingo, maio 14, 2006

Uma visão mística


O Dinheiro é o nosso Deus e a Economia a religião que dá consistência à doutrina e sustenta o Templo.
Os grandes sacerdotes vivem na sombra de inimagináveis palácios. Nós, os simples, podemos apenas ver a carne (o osso está escondido bem fundo em camadas sucessivas das mais variadas gorduras) de pequenos fantoches que dão a face e escondem os mestres. Economistas de trazer por casa, banqueiros de opereta e demais personagens, enforcados em gravatas de sêda, não passam de esbirros e serviçais que engordam em banquetes de migalhas que os verdadeiros (grandes) sacerdotes sacodem da altura das suas mesas, quando são atacados de flatulência e fastio. Estes pequenotes mal conhecem a superfície dos Mistérios da Economia Real.

Nós, os basbaques que com suor e trabalho, contribuimos para o sustento do Templo, somos forçados a acreditar na bondade das intenções dos que ditam o futuro e nos aterrorizam com o apocalipse do Défice e da bancarrota. Os Grandes Sacerdotes profetizam, baseando as suas visões em gráficos complexos e orçamentos equilibrados na leitura de números implacáveis.

Somos levados a crer que vivemos no melhor dos mundos possíveis, tal como Cândido cada um de nós tem o seu Pangloss e não consegue vislumbrar outro modo de existir que não seja aquele que nos é imposto. Afinal de contas não somos capazes de mudar o Mundo! Ou somos?

sábado, maio 13, 2006

Ferramenta no armário

Willem (Bernhard Willem Holtrop) – FrançaUntitled – Libération (França) – 1/Dez/05

A igreja católica vai andar outra vez nas conversas de ocasião. A próxima estreia do Código Da Vinci nos cinemas por esse mundo fora já está a agitar os católicos mais fundamentalistas. A fúria divina desses guardiões do templo é uma óptima publicidade para o filme. Nada melhor que uma boa polémica para fazer disparar as audiências.
O filme até pode não ser nada de especial mas o cheirinho a escândalo promete encher as salas.

Convenhamos que em matéria de escandaleira os chefes da igreja não são lá muito versáteis sempre que tentam deitar alguma água na fervura. Com os casos de abusos sexuais sobre crianças a fazerem muito mal à imagem da padralhada resolveram agir declarando que os homossexuais seriam denunciados e postos a andar de malas aviadas em direcção ao inferno.

Com esta atitude mostraram, mais uma vez, que não compreendem o mundo que os rodeia. Por um lado associaram estúpidamente abuso sexual de menores com homossexualidade, por outro vieram confundir as almas das ovelhinhas mais simples.

Então os padres não fazem voto de castidade? Se juram ao Eterno que não darão uso à ferramenta qual é a diferença de serem homo ou hetero? É para rir.

Idolatria?

Esta cena da Nossa Senhora de Fátima é um caso sério. Raras vezes uma boneca levou tanta gente à loucura. Talvez só mesmo a Barbie consiga atingir semelhantes índices de popularidade mas não consta que haja criancinhas dispostas a rastejar ou andar centenas de metros de joelhos em sinal de devoção à sua boneca preferida.

O terceiro "F" da portugalidade tem hoje o seu dia. Brevemente teremos a final da Taça de Portugal em futebol. Não sei quando, lá virá a grande noite do fado.

A imagem da Virgem é uma pedra no sapato da religião católica? Talvez, já que configura uma situação de idolatria pura e dura. Lembremos a recente procissão pelas ruas de Lisboa com milhares de pessoas a encomendarem-se... à bonequinha. O Povo é mais dado a compreender o papel da santa do que questões teológicas complicadas. À Senhora pedem-se favores, umas cunhas nas mais variadas situações e, como não se lhe pode oferecer um presuntinho ou um garrafão de azeite, vai de esfolar os joelhos em sinal de gratidão.

Pois, talvez esteja a ser demasiado cruel para com a Fé do meu Povo. Talvez precise de ir até ao santuário de Fátima e sentir a força da credulidade da multidão para ganhar alguma humildade que me falte. Talvez... mas não me parece que adiante grande coisa. Não sou gajo de acreditar em milagres ou em aparições sobrenaturais.
Mas lá diz o dito "não acredito em bruxas mas que as há, há!". Talvez haja. Talvez...

sexta-feira, maio 12, 2006

Iupiii!!!

Portugal é um país de mendigos. Os pobres mendigam nas ruas, os remediados mendigam pelos corredores do poder e os ricos mendigam ao grandes do capital, normalmente estrangeiros. Ninguém está satisfeito com aquilo que tem. Uns com mais razão outros com menos, anda tudo a reclamar da sorte e a dizer mal de um Deus que parece ter esquecido todos os sacrifícios feitos em Seu nome por gerações sucessivas de portugueses. Nem com a queima de judeus lá fomos, nem o ouro do Brasil nos bastou. Toda a riqueza que entrou, saiu a toque de caixa pelo outro buraco, no fundo da caixa.
Parece que nunca fomos capazes de perceber como devíamos investir a riqueza que nos ia chegando à praia. Tratando sempre de a estoirar logo ali em nome do prazer, de Deus e do momento. Uns cromos!
Assim começou a célebre "crise" de que tanto se fala. É difícil situá-la no tempo. Parece existir desde sempre, embora continuemos a ouvir falar dela como se houvesse algo antes e alguém acredite que possa haver algo depois. A "crise" instalou-se e deprime os portugueses. Como não sabemos bem quando nasceu o bicho estamos deprimidos desde sempre, a cantar fado e a empolgar-nos com o mal dos outros já que o nosso bem parece ser coisa impossível de alcançar.
Dançamos sempre o mesmo passo de dança, sem tirarmos as patas do mesmo sítio, a rodopiar no vazio do destino que, acreditamos fatalmente, já está há muito traçado nos livros arrumados nas estantes do Paraíso. E que destino é esse?
O destino dos portugueses é a mendicância, a depedência da caridade alheia, a pobreza eterna. Quanto mais não seja a pobreza de espírito.

Iupiiii, assim não temos de trabalhar! Do mal o menos.

quarta-feira, maio 10, 2006

Anjos

"Dizem-me que Vossa Excelência segue os ensinamentos de Jesus e acredita na promessa divina do reinado dos justos. O regresso à palavra divina dos profetas é o único caminho para a salvação. Aceitará este convite?" Segundo o Público, esta é uma passagem da carta enviada por Mhamoud Ahmadinejad, presidente da república Islâmica do Irão, ao seu inimigo figadal George W. Bush.

O que terá passado pelo cérebro de Bush ao deparar com estas palavras tão amenas? Haverá realmente um caminho para a salvação? E o que quer salvar o iraniano? A sua alma, as nossas almas, apenas as almas dos adeptos do Islão? A coisa é grave.

A religião tenta regressar ao lugar do piloto que conduz os destinos do mundo. Seja pela mãozinha marota da Opus Dei ou pela beiça melada de Ahmadinejad, o canto da sereia volta a ecoar pelos 4 cantos do planeta a prometer a salvação, o paraíso e mais que se deseje que a coisa também se faz por encomenda.

O problema é que (Ahmadinejad também refere isso na sua carta) aquilo que designamos por Democracias Liberais, com toda a sua lógica depositada na livre concorrência, essa face luminosa do capitalismo selvagem, têm vindo a desiludir em todo o lado por não resolverem os problemas sociais que vão gerando e ampliando por esse mundo fora.

A exportação forçada do "nosso" modelo político e social tem gerado as maiores abortices materializadas em regimes muito baços e pouco recomendáveis. Os problemas reproduzem-se e não se vislumbra quem tenha vontade de encontrar verdadeiros antídotos para os diferentes venenos que vão atirando o Ocidente para o cantinho do descrédito. O Humanismo é cada vez mais difícil de explicar aos putos, nas aulas de História. Não percebem do que se está a falar.

A via religiosa lá vem, regressando do fundo dos tempos, uma perninha já fora da zona de sombra, a mostrar vigor e força para andar. Adivinha-se o monstro que lá vem, mas estamos demasiado ocupados a discutir se Deus é o Dolar ou se poderemos considerá-lo deposto pelo Euro, essa jovem divindade ascendente.

Quando dermos por ela, regressam os velhos deuses que, como sempre fizeram, se alimentam dos que presentemente adoramos.
E se são gulosos!

Tá bonito, tá!

domingo, maio 07, 2006

Riquexó


Lá se cumpriu mais um congresso partidário e bem patusco, por sinal. O líder queria saber quem era por ele e se havia muitos contra ele. Ficou mais ou menos informado e nem por isso aliviado.
Surpresa? João Almeida surge como uma força dentro do PP o que só poderá surpreender quem pensar que aquilo é um partido para levar a sério.

Vi o jovem Almeida a discursar. Foi só um bocadinho mas deu para perceber que o discurso dele é tão vazio como os bolsos de um desempregado de longa duração. Apesar do aspecto enérgico e do dramatismo que empresta a si próprio, percebe-se com facilidade que por ali não passa nada.

Ouvi-o, no tal pedacito de discurso, reclamar que o PP necessita de se afirmar, mostrar aquilo que o distingue do PSD e blá, blá, bló. Ora, era isso mesmo que eu gostava de ver; o PP apresentar-se sem o amparo do PSD a umas eleições legislativas. Duvido que a ideia entusiasme muito personagens como Nuno Melo ou Telmo Correia. Mesmo Pires de Lima, apesar de todo o sex appeal que o caracteriza, deve perceber que, na melhor das hipóteses, o grupo parlamentar voltaria a caber inteirinho num táxi.

Eu, que não gosto deles e acho que sou apenas um entre milhões, arriscaria mesmo que poderiam alugar um riquexó para se deslocarem até à Assembleia. Enquanto um puxasse o outro ia estudando a papelada. Na melhor das hipóteses.

Em trânsito

Quem se lembra de Fernando Gomes, o ex-presidente da Câmara Municpal do Porto? Aquele tipo, com um penteado especial, que chegou a Ministro da Administração Interna num governo PS e desceu até Lisboa para governar.
Lembram-se como, enquanto ele foi ministro, o nosso país resvalou para um clima assustador de insegurança, trazido na crista da onda de um maremoto mediático que deixou a nação portuguesa submersa em medo e pânico?
No entanto, tanto quanto me é possível recordar, fora das páginas dos jornais e dos estúdios de televisão, Portugal estava mais ou menos na mesma, como a lesma.
Fernando Gomes, com a sua figura impossível, a pose hirta e o discurso canhestro, não foi capaz de se aguentar à bronca e saiu borda fora, cuspido num safanão mais violento, de volta às tripas à moda do Porto, de onde nunca devia ter saído. Foi aquilo que se pode chamar um assassinato político perpetrado na imprensa.

Freitas do Amaral tem andado a ser espicaçado nessas mesmas páginas. Nos últimos tempos o homem não pode dar um peidinho que ganha logo proporções de diarreia! Convenhamos que o actual Ministro dos Negócios Estrangeiros tem dado todas as possibilidades aos que lhe andam a fazer a cama que lha façam com lençóis de serapilheira e almofada cravejada de alfinetes.

Primeiro foi aquela treta desajeitada sobre os cartoons (quem se lembra da "crise" dos cartoons?). O MNE meteu os pés pelas mãos e acabou a dar o dito por não dito. Uma confusão.
Depois entendeu por bem meter-se noutra trapalhada por causa dos emigrantes expulsos do Canadá, cometendo algumas gaffes dignas de um principiante borbulhento.
Agora é o Expresso que utiliza abusivamente algumas declarações do ministro para dar a impressão de que ele está à espera de ser atirado borda fora ou até de saltar por iniciativa própria, com o comboio em andamento. Convenhamos que o homem insiste em ir à floresta buscar lenha para se queimar com a inocência de um Capuchinho Vermelho.

Confesso que Freitas não é figura das minhas simpatias. Nunca foi e, como em política sou muito rancoroso e abuso da memória sempre que posso, nunca será. Mas uma campanha mediática destas dimensões entra pelos olhos dentro do mais cego dos cidadãos.
Como realça Mário Mesquita no Público de hoje, Freitas deslocou-se no sentido errado. Vem da Direita para a Esquerda e cruza-se com Sócrates, a deslocar-se no sentido inverso. Os pequenos monstros que deixou pelo caminho e que agora se amontoam como larvas em cima de um cadáver naquela espécie de partido que se chama CDS-PP, não lhe perdoam a "deserção" e andam em cima dele como autênticas carraças.

Não digo que é bem feito, mas não me comove particularmente. No entanto mete um bocado de nojo ver o que estão a fazer ao "camarada" Freitas esventrando toda e qualquer afirmação que produza em público com uma elegância digna de um talhante.

Mário Soares disse um dia que "Só os burros não mudam de opinião." Lamento dizer-lhe, caro Mário, que isso era dantes, no seu tempo. Agora as coisas não são bem assim, nem são antes pelo contrário. São aquilo que quem detém o poder de titular jornais quiser que sejam.
Sim, porque se um gajo ler mais do que o título de uma entrevista talvez perceba o que quer o entrevistado dizer.

sábado, maio 06, 2006

Trabalho infantil

É uma coisa que me faz alguma confusão. Como decidem os legisladores sobre os limites do trabalho infantil?

Se um puto anda a acartar baldes de massa nas obras ou a cozer sapatilhas numa fábrica clandestina é caso de polícia. Se anda a decorar páginas de diálogos imbecis e a filmar 12 horas por dia a lei deixa passar e o juíz ainda assiste à novela das sete enquanto descansa os pézinhos.

Nas passerelles e nos plâteaus as crianças não trabalham? Se calhar estão ali por divertimento. Qual será o critério? Quer-me parecer que é uma questão de classe. Classe social, é bom de ver. Os filhos das classes médias não se dedicam a criar calos nas mãos, criam-nos mais facilmente no cérebro. Já os filhos das classes mais baixas dão o corpo ao manifesto de outra maneira e isso não pode ser. A lei condena e a boa consciência social aplaude.

O problema é bicudo e não me quero meter nele mais do que um bocadinho. Olhando para o marmanjito na foto podemos reparar que tem um sorriso bem construído e se estivesse a cozer bolas de futebol para o campeonato do mundo dificilmente ostentaria uma alegria como a que parece transpirar nesta imagem.

Outro aspecto que distingue os trabalhadores infantis é o dinheiro que ganham com o trabalho que realizam. Mas isso não se passa, também, com os adultos? Se um tipo trabalho muito e ganha pouco é um quase-escravo. Se trabalha muito e ganha muito é um quase-patrão.

Depois há a questão da exposição pública. Um puto que esfole a mioleira a telenovelar tem, ainda, o "benefício" de ser reconhecido na rua e pode (glória das glórias) dar uns autógrafos a fãs de guardanapo de papel em punho. Um pobre operáriozinho, na melhor das hipóteses, poderá sentir uma pontinha de felicidade por contribuir com uns cêntimos para mitigar a penúria lá na barraca.

A objectividade e a imparcialidade na análise destas situações não são o nosso forte. Pois não?

New World

Raras vezes uma história de amor foi filmada com tal beleza. O filme é mesmo estranho! As personagens são como fantasmas e o cenário é um mundo encantado. No fim é como se tudo tivesse começado. Caramba, que coisa!!!

sexta-feira, maio 05, 2006

Ready-mades

Foi Marcel Duchamp quem introduziu o conceito. Recolhe-se um objecto, retira-se do contexto que lhe reconhecemos como "habitual" e recontextualiza-se num novo ambiente. De imediato as leituras possíveis do objecto ganham novos contornos e dimensões. O mais célebre ready-made da História da Arte será o urinol que Duchamp assinou e intitulou "A Fonte" considerada, no ano de 2005, como a obra de arte mais significativa da Arte Contemporânea.

Na imagem acima podemos ver o interior do Museu Britânico. Os visitantes admiram os despojos de um frontão grego ali exposto. Adivinha-se o formato triangular do conjunto. Originalmente foi um conjunto escultórico criado para um templo.

O que faz aquilo ali, ao nível dos olhos, sem o peristilo nem o friso, cortado às postas, com papelinhos por baixo que saltam à vista como gritinhos estridentes? Onde está a cor que outrora revestiu aquelas formas, a pujança visual da arte grega que apenas podemos adivinhar? Não será aquele objecto um ready-made?

Os responsáveis pela exposição dos objectos nos museus não serão considerados artistas mas isso parece-me uma tremenda injustiça. São artistas, sim senhor, Dadaístas na esmagadora maioria.
Arriscaria a opinião de que todos os museus são imensas (por vezes insuportáveis) manifestações dadaístas. Raros serão os objectos que expõem que tenham sido criados especificamente para lá serem colocados.
Uma sala de museu é uma colecção de ready-mades!

Já a casa-de-banho dos homens não poderá ser considerada uma instalação, com todos aqueles urinóis alinhados na parede, mas anda lá perto. Ainda por cima existe interacção permanente com os visitantes que lhes mijam para dentro. Magnífico!

quarta-feira, maio 03, 2006

Coisa ruim!

Cinderela ao Contrário? Que raio de coisa quererá isto dizer? Que a senhora lavava o chão de algum palácio com a cabeleira, de pés para o ar, quando ainda era tenra e jovem? Que em vez de ter uma abóbora por veículo andou de ratazana naquela noite em que perdeu um sapatinho de látex? A imaginação humana não conhece limites e não paramos de ter provas disso.
A nova obra literária promete revelações arrepiantes como, por exemplo, o 1º beijo desta Cinderela de trazer por casa ou ainda a fase difícil que atravessou após o divórcio. Sim, divórcio! Pois se até a rainha de Inglaterra arranjou um gajo que casasse com ela porque raio não haveria esta princesinha de conseguir o mesmo feito extraordinário?

Humor de pacotilha à parte, a coisa promete! Se provas faltassem sobre a dimensão do bom gosto desta senhora e dos amigos, bastaria olhar a imagem acima com olhos inocentes, sem maldade nem nada. Que coisa ruim! Que esgar arrepiante nos é oferecido sob aqueles olhos demoníacos, numa malévola imitação de um sorriso.
Meu Deus.

P.S. Oferece-se o convite que serviu de modelo à imagem deste post a quem provar ter estômago para se deslocar ao Centro Cultural de Cascais no próximo dia 11 pelas 18 horas.
Como é diferente a cultura para os lados de Cascais, caraças!

Daumier

Crispin et Scapin, tela, 60 cm x 82 cm, c. 1863-65
Honoré Daumier . Caricaturista, gravador, escultor, pintor... um nome a descobrir por todos aqueles que não reconhecem de imediato a excelência do seu trabalho. Uma pesquisa na NET poderá revelar-te este artista do século XIX, normalmente etiquetado como figura proeminente do Realismo oitocentista. Nas artes plásticas e não só.
Quando abro o Google e busco imagens de Daumier tenho um longo e agradável passeio garantido.

segunda-feira, maio 01, 2006

Pergunta ao espelho

De súbito saltou-me uma pergunta dentro da cabeça: os putos deixaram de ser curiosos ou estarão, simplesmente, viciados? Eu explico (se for capaz). Porque razão a Escola é, cada vez mais, uma seca das antigas? Serão os assuntos abordados desinteressantes? O problema estará nos processos adoptados, no arcaísmo dos materiais pedagógicos? O que se passa?

Aqui há 3 ou 4 anos atrás, durante uma aula de Geometria Descritiva, um aluno do 10º ano de escolaridade pediu a palavra, interrompendo a explicação de um exercício prático. Apesar de ser inoportuno, deixei-o manifestar-se. Ele disse qualquer coisa como "Não estou a divertir-me nada!" Fiquei estupefacto. Nunca me passara pela cabeça que uma aula de Geometria Descritiva pudesse ser divertida. Interessante, quando muito,mas... divertida!!!???

A Escola deve ser divertida? A vida é divertida? O dia-a-dia é divertido? Haverá espaço para a diversão, mas a variedade de sensações e situações fazem a coisa mais intensa. Ou não?
A imagem que tenho do quotidiano dos putos é estranha. Imagino-os a repetir constantemente os mesmos processos, a consumir repetidamente os mesmos produtos, procurando uma repetição incessante daquilo que lhes dará, garantidamente, prazer. É um processo de viciação! O espaço da experimentação reduz-se e a interrupção dos tais processos, a privação dos tais produtos, o impedimento do prazer provoca a ira ou, pelo menos, a irritação dos catraios. Não há grande espaço para a curiosidade. Para quê experimentar outra coisa se aquela nos proporciona níveis de satisfação garantidos?

A vida nas cidades afasta os putos da rua que se vai tornando um espaço potencialmente perigoso. Fechados em casa, encontram nos écrans janelas sobre horizontes mais vastos que as paredes do quarto. Os jogos de realidade virtual são tremendamente viciantes. A repetição dos gestos, os sons, as imagens eléctricas, têm a potência de uma droga dura e retorcem o cérebro de qualquer criatura. Não vale a pena ir em busca de outra coisa. Aquilo é bom e preenche os espaços necessários. Quando muito poderão (poderemos) procurar algum substituto, outra fonte de prazer. Outro jogo, uma nova consola.
E a Escola? A aprendizagem? Uma seca!
A pergunta dança-me na cabeça: substituimos a curiosidade pela viciação?

1º de Maio

"O 1º de Maio é Vermêlho", ouvia eu dizer, vai para uma catrefa de anos atrás. Era dia de ir à manifestação, reunir um grupo de amigos e ir lá, para a festa. Comiam-se umas bifanas e bebiam-se umas cervejas nem que estivessem mais quentes que frias. Isso não interessava nada porque festa era festa.
Ali via a face do povo. Aquelas caras grotescas como caricaturas de Bordalo Pinheiro ou pinturas de Grão Vasco, iluminavam-se de uma alegria que as tornava belas e todos gritavamos palavras de ordem e deitavamo-nos no relvado da Alameda contentes como putos em dia de Natal.
Os discursos eram todos semelhantes, chatos e longos, mesmo que fossem curtos, mas isso não constituia problema nem arrefecia o entusiasmo. Festa era festa.
Os anos foram passando e o entusiasmo esmoreceu um pouco (ou terá sido muito?). Já não vou à manifestação nem teria pachorra para discursos de sindicalistas nem de outros camaradas desse género. As faces grotescas do povo vejo-as com frequência nas grandes superfícies comerciais, já sem o brilho do festejo primaveril do 1º de Maio, mas com aquele brilhozinho nos olhos que se acende quando somos contaminados pelo vírus consumista.
O povo, o nosso povo, tem mudado como o caraças nestes últimos 30 e poucos anos, desde a Revolução de 1974.

Saído da escuridão mais negra da boçalidade do Estado Novo, pobre, inculto e miserando, no espaço de apenas uma geração, o Bom Povo Português vê-se, de súbito, imerso numa sociedade consumista sem tempo nem maneira de fazer a aprendizagem necessária. Somos o resultado de uma espécie de enxerto social. Ainda o PREC estava longe de satisfazer as mais obscuras promessas de algumas das suas luminárias, já Portugal ensaiava os primeiros passos na direcção da, então, Comunidade Económica Europeia.
Foi como dar um Ferrari a um tipo habituado a conduzir carros de bois. Os filhos dos Agricultores vestiram fatos escuros e aprenderam a fazer nós de gravata até conseguirem confundir-se com os filhos dos Doutores ao ponto de não serem diferenciáveis a olho nú. Aliaram-se a fome e a vontade de comer, numa estranha associação de interesses. Alargou-se a mesa do banquete, redistribuiu-se o processo de distribuir a riqueza e o resultado está à vista.
Portugal é o país rico onde a diferença entre as classes sociais é mais acentuada e onde a indigência é ainda um modo de vida.

Neste 1º de Maio fui ao Seixal passear na marginal que bordeja o Rio Judeu. Centenas de pessoas caminhavam ao sol, para trás e para diante, fazendo exercício. Outros passavam em bicicletas alegremente.
Fui beber um café à Sociedade Filarmónica Democrática Timbre Seixalense. Cá fora, na esplanada, um velho com aspecto de reformado do Fundo de Desemprego comentava em voz alta "Isto parece Biarritz!". O Sol, a baía, a calma de um dia feriado, o povo a passear... Biarritz? Talvez. Apesar de tudo há algo para comemorar.

domingo, abril 30, 2006

Infiltra-te

The Inside Man (O Infiltrado) de Spike Lee é um filme interessante. Muito interessante mesmo. Caso o espectador consiga entrar na sala sem saber muito sobre aquilo que vai ver pode ser ainda mais apelativo.
O argumento é surpreendente e a construção narrativa contida e eficaz. Penso que vale bem uma deslocação ao cinema. Curiosamente foi o primeiro filme desde há algum tempo a esta parte em que não vi nenhum espectador entrar na sala com um balde de pipocas. Ou terei estado simplesmente distraído?
Seja como for, com pipocas ou sem elas, Spike Lee surge em grande estilo. Bem fixe!

sábado, abril 29, 2006

Timor Loromonu



Andámos para aí a fazer manifestações pela independência de Timor. Lembram-se? Foi uma das últimas causas nacionais, que pôs os portugueses com os corações nas mãos. Todos os dias chegavam notícias. Os indonésios eram maus como as cobras, havia bandos armados liderados por um tal Guterres que era uma espécie de inverso do nosso Primeiro Ministro, o António. Todos os dias sabíamos das desgraças de um povo inteiro que adoptámos como nosso irmão. Foi uma cena do caraças.

Quando chegou, finalmente, a independência vimos a cerimónia em directo na TV. Chorámos, rimos, sorrimos, os portugueses sentiam que tinham cumprido o seu dever. Mas, com a paz no território, as notícias foram escasseando. Cada dia que passava afastava mais e mais Timor, até que ficou no seu lugar longinquo. Definitivamente.

Nos dias que correm só ouvimos notícias de Timor quando acontece alguma coisa má ou quando Xanana vem a Portugal assistir a um jogo de futebol. Até parece que os meios de comunicação social só se interessam pelas desgraças ou fait divers aparvalhados. Hoje chegou a notícia de confrontos violentos nas ruas de Díli e os timorenses voltaram a merecer honras (pelo menos) no jornal Público. Foto a cores na capa, uma carrinha a arder com alguns homens em poses dinâmicas de violência. Duas páginas quase completas no interior.

A paz não interessa nem ao menino Jesus. Timor será notícia apenas quando o sangue correr? Se fosse apenas Timor... descrever o sorriso e a hospitalidade dos timorenses foi tema fastidioso, talvez demasiado fantástico. A construção de uma nação não deve ser suficientemente interessante para fazer notícia. Até porque Timor é um país miserável (ao que consta) e só será curiosidade quando abrir em Díli uma dependência do Casino de Lisboa. Com coktail de gambas e putas finas.

quinta-feira, abril 27, 2006

Dada oh Dada!

“Enverguei um traje especialmente desenhado por Janco. As minhas pernas estavam cobertas por tubos de cartão azul-brilhante que me chegavam às ancas.” Nos ombros, Ball usou um grande colarinho e na cabeça um chapéu de cano de aquecedor. (…) Nesta indumentária, Hugo Ball apresentou-se à audiência como um alto sacerdote do Dadaísmo e quando, após uma breve pausa, avançou com a sua recitação, o espanto dos espectadores transformou-se numa violenta tempestade de protestos. Ele começou a sua actuação com as seguintes frases, declamadas em voz alta:
“Gadji beri bimba glandridi glandridi lauli lonni cadori
Gadjama gramma berida bimbala glandri galassassa laulitalomini
Gadji beri bin blassa glassala laula lonni cadorsu sassala bim
Gadjama tuffm i zimzalla binban gligla wowolimai bin beri ban
O katalominai rhinozerossola hopsamen laulitalomini hoooo
Gadjama rhinozerossola hopsamen
Bluku terullala blaulala looo”

Hugo Ball foi o inventor destes poemas sonoros que se tornaram a forma preferida de actuação em palco para os artistas dadaístas.
Texto de Dietmar Elger traduzido para Português por João Bernardo Boléo no livrinho Dadaísmo (o "D" maiúsculo é da mesma dimensão que as letras minúsculas) da Taschen

Vou a imprimir esta cenaça num acetato para mostrar amanhã aos meus alunos do 12º ano na aula de História da Arte. A coisa promete já que a turma tem alguns elementos que gostam de pensar nos assuntos em análise e não têm medo de se manifestar.
O Dadaísmo abre sempre horizontes e abismos nas cabeças dos jovens estudantes de artes.
É uma delícia deliciosa para mentes gulosas.

terça-feira, abril 25, 2006

Utopia

Mondrian foi um artista. Um dos mais completos.
Imaginou uma arte total, capaz de revelar aquilo que considerava a essência do mundo, uma espécie de estrutura primordial velada aos nossos olhos por uma cortina incomodativa. Procurou-a durante muito tempo escondida atrás daquilo que normalmente chamamos "verdade" ou "realidade".
A arte de Mondrian acabou por alcançar, em parte, o seu objectivo. Longe de pretender representar a Natureza (que, ao que consta, o incomodava), Mondrian acrescentou uma outra "natureza" ao mundo que nos rodeia, uma "natureza" totalmente artística logo artificial.
Na sua utopia particular, o Neoplasticismo, o pintor imaginava que a arte não podia existir separada da vida. Preconizava mesmo que uma e outra não eram mais do que partes da mesma essência, da mesma organização global. Sendo assim, viria o dia em que a nossa capacidade de organizar a vida, de organizar o espaço e a sociedade, resultaria na verdadeira Arte. O papel do artista deslocar-se-ia, o objecto de arte, tal como entendemos, tornar-se-ia obsoleto. A grande Arte seria, afinal, a nossa capacidade de construir um mundo capaz de satisfazer as nossas mais profundas necessidades. Todos seríamos artistas habitando o resultado da nossa criatividade. Em harmonia.
Mondrian morreu e nós continuamos à procura, não sabemos bem de quê.

Será tanto assim?


Quando olho para Cavaco Silva há uma coisa que me incomoda e inquieta. É a sensação de que não tem sentimentos de gente.
Como hei-de explicar? Parece incapaz de ultrapassar o óbvio biológico. Percebe-se bem que respira, executa gestos razoavelmente coerentes e é capaz de pensar. Só que o âmbito do pensamento do nosso presidente não parece particularmente alargado.
Não o imagino capaz de assistir a, por exemplo, um filme de Tim Burton na companhia dos netos (ou da neta, não conheço a árvore genealógica da família presidencial) descontraídamente. Não o imagino a ler um livro de contos de Tchekov sentado na cama com a companhia de um candeeiro cúmplice e os óculos na ponta do nariz. Parece-me incapaz de assitir com prazer a uma peça de Shakespeare ou a um jogo de futebol ao vivo, no estádio.
Tenho a sensação de que não possui qualquer traço de inteligência emocional e não consta que tenha interesses muito variados.
Talvez eu esteja enganado, talvez não seja tanto assim, mas não sou capaz de evitar olhar para ele e sentir uma pontinha de angústia por ser o representante, o magistrado supremo da nação portuguesa.
O pormenor de ter lido o papel sem cravo vermelho na lapela no discurso comemorativo do 25 de Abril, na Assembleia da República, mostra que não é tão inocente e bem intencionado como quer parecer. Sim, porque afinal cantou a Grândola em plena campanha eleitoral, se não estou em erro, no Alentejo. Isso mostra como a honestidade intelectual não está ao alcance de todos.
Já tenho saudades de Jorge Sampaio.

Revolucionado

O Último Crente, acrílico sobre papel, 2002, RSXXI
Ritual cumprido, Revolução recordada. Cá por dentro sinto-me revolucionado. Na normalidade previsível, a surpresa foi grande. No palco, bombos batidos a preceito por um bando de bimbos bem portugueses em cadência que deu para meter cabeçudos ao barulho e tudo, mais uma série de pretos com batuques, numa reunião feliz em ritmo confuso mas eufórico. A apoteose antes dos discursos da ordem. Entre o público pretos, brancos e nem por isso, sentem-se irmanados pelo som da percussão, o mais puro de entre todos. Sinto uma emoção especial, uma coisa morna que nos aconchega como um cobertor. Um cobertor que mostra como somos iguais, irmãos no espaço urbano. Pretos, brancos e nem por isso. Um arrepiozinho de felicidade ensaia um passeio pela minha coluna vertbral. Faz-me empertigar e sentir orgulho de estar ali, fazendo parte daquela massa indistinta. Somos humanos, caraças!!! É tão bom.
Depois lá vêm os bonecos do costume. Os discursos, a emoção da Grândola cantada. Esta noite cantei baixinho e não chorei nem nada. É a idade adulta a permitir uma outra comoção. A idade adulta da Revolução. Sempre são 32 anos, apesar das borbulhas e dos quistos sebáceos que teimam em resistir no focinho da nossa "jovem" democracia.
Reencontro tantos amigos que até parece mentira. Sinto-me satisfeito por rarear as saídas. Assim sabe melhor, dá para saborear o prazer dos reencontros. Pelas ruas vou vendo putos, alguns são alunos meus. Bêbados como autocarros, estendidos pelo chão, dando largas à vontade de explodir. Que saudade daquela paixão pelo que se adivinha da vida! Na próxima aula vou fazer de contas que não vi nada, não vi ninguém. Será melhor para todos. Há histórias que não devem ser cruzadas por não fazerem parte do mesmo universo. Não devemos confundir Verdade com Realidade. Nunca na Vida!
No fim da festa, aqui assim, a teclar calmamente no meu dulcíssimo teclado, não consigo evitar uma certa amargura. Se é isto a Democracia, esta festa que se esgota ao fim da noite como uma Gata Borralheira com sapatos de metal, então fui enganado. Esta merda não me serve, está longe de me satisfazer. Quero mais. Muito mais! Quero um palco repleto de bimbos. Uns brancos, outros pretos, outros nem por isso, todos a martelarem tambores de formas e feitios diferentes mas todos igualmente felizes, como eu, por estarem ali, seja a bater, seja a assistir. Quero isso todos os santos dias!
25 de Abril? Sempre! Fascismo... o que é isso?

segunda-feira, abril 24, 2006

Felicidade

Hoje é 24 de Abril, dia de tolerância de ponto na Região Autónoma da Madeira e véspera do Dia da Liberdade, nos Açores e em Portugal continental.
Neste dia costumo subir a rua e assistir à celebração na Praça de São João Baptista, lá em cima, em Almada. Há concerto e fogo de artifício, montes de gente com aspecto descontraído e discursos de punho no ar. Aparece a Presidente da Câmara no palco, juntamente com uma mão-cheia de personagens impossíveis entre Presidentes da Junta e Presidentes de Sociedades Filarmónicas. A Presidente da Câmara discursa, empolgada, uns grupos de claque bem distribuídos ajudam à festa e grita-se a plenos pulmões "Viva o 25 de Abril" ou "25 de Abril sempre, fascismo nunca mais!". Depois aparecem uns bacanos carregados de baldes a deitar cravos vermelhos por fora e o pessoal, lá de cima, do palco, atira as flores cá para baixo. É uma chuva de cravos. Literalmente.
Mas, o meu momento preferido, é quando todos os presentes entoam, a plenos pulmões a Grândola, Vila Morena. Aí não aguento mais e as lágrimas banham-me os olhos tornando tudo mais bonito. E sinto-me feliz de uma maneira especial como só me sinto neste dia.
Que lamechice!!!
É, não é?

domingo, abril 23, 2006

Figurantes e figurões

Uns quantos figurantes, contratados a recibos verdes, haviam de folgar um pouco os sobrecarregados cofres da República. Sim, claro, refiro-me ao caso vergonhoso dos deputados faltistas! Se temos tanto representante do povo há-de haver razões objectivas para que lá estejam, ou então não, já que entram e saem da sala do parlamento com a graciosidade de enguias fedorentas. Para levantarem o braço de quando em vez e, ainda por cima, estarem noutro lado quando são necessários, não se percebe que sejam pagos a peso de ouro e encontrem as benesses da reforma após dois mandatos deste género. Se fosse um tipo invejoso e maldoso diria que anda por aí muito filho da mãe a passar noites em claro em reuniões partidárias nas concelhias e outras associações de malfeitores do mesmo do género só com o fito de vir um dia a ocupar uma daquelas cadeirinhas abençoadas que almofadam o hemiciclo parlamentar.
Penso sinceramente que a contratação dos tais figurantes em dia de votação seria uma medida inteligente. Ainda por cima podiam contratar-se os figurantes em agências de modelos o que iria beneficiar grandemente a imagem da própria Assembleia. Por um lado saíam os figurões cinzentões que enxameiam o hemiciclo, por outro nunca haveria falta de quórum o que poderia restituir a fé a tantos portugueses desencontrados da sorte.

A Assembleia da República portuguesa envergonha a Democracia e não tem que ser assim, bem antes pelo contrário! A maioria dos deputados são gajos e gajas sem opinião ou, pelo menos, capazes de abdicarem dela sempre que a voz do dono lhes exige obdediência. Se são os líderes partidários e parlamentares quem decide a orientação de voto dos respectivos rebanhos não seriam necessárias tantas cabeças para aprovar leis na elaboração das quais nem sequer participaram.

Alguma coisa vai ter que mudar.

quinta-feira, abril 20, 2006

Uma História Legível

Foi em 2005 que o PÚBLICO editou A História da Arte de Gombrich. A leitura desta obra é altamente recomendável a quem se interessar pelo assunto e mesmo aos outros, que nem por isso se interessam.
Não sei se a querida ministra da cultura já lhe deu uma vista de olhos ou se os críticos de arte fazem deste volume livrinho de cabeceira, mas lá que lhes daria algum jeito, pelo menos, uma releitura circunstancial, disso não tenho a mínima das dúvidas.

Publicada originalmente em 1950, conheceu reedições sucessivas, revistas e aumentadas pelo autor em não-sei-quantas línguas por esse mundo fora. Em português havia edições brasileiras. Tenho um volume duma dessas edições, de capa cartonada já cheia de fita-cola mas, para minha grande felicidade, a família mais chegada ofereceu-me um exemplar da edição do PÚBLICO com mais imagens a cores e com reproduções em folhas desdobráveis. Esta edição é excelente, um objecto de culto para quem tem a "mania" de tentar perceber algo mais do que a ilusão de um olhar contemporâneo e a pretensão de poder transmutar as ideias que apreende noutras ideias, novas, pessoais e transmissíveis.

Veio isto a propósito de um dos preceitos fundamentais de Gombrich. O autor propõe que as formas artísticas perduram no tempo sendo adaptadas por diferentes artistas de acordo com o tempo e o espaço particular por eles habitado. A Arte, com "A" é, segundo Gombrich, uma espécie de bicho-papão inventado por uma comandita de críticos e historiadores preguiçosos que pretendem elevar-se à categoria improprável de guardiões do templo de uma impossível cultura superior. Para ele é mais válido observar os artistas e tentar enquadrá-los nas correntes de pensamento estético características da respectiva época, tendo ainda em conta os aspectos técnicos e tecnológicos observáveis. Reflectir mais sobre os artistas e menos sobre aspectos crípticos e estilísticos que nos conduzem demasiado depressa a rótulos e preconceitos.

Assim sendo, essas formas artísticas primordiais vão sendo moldadas ao longo dos séculos, num incessante processo de reformulação e busca de qualquer coisa um pouco (talvez mesmo muito) difícil de perceber na sua totalidade.
Haverá quem lhe chame Beleza, outros falam em Sublime, enfim, resta-nos experimentar a plasticidade das formas, dos materiais e das ideias. Há ainda quem diga que a arte acabará por nos conduzir à essência do Absoluto, em última análise permitirá a Grande Revelação: um vislumbre fugaz da face de Deus.

Lol.

quarta-feira, abril 19, 2006

Coelhos cor-de-rosa e outros fenómenos

Acreditar que vivemos numa Democracia é um acto de fé quase tão radical como aceitar o dogma da virgindade de Maria.

Cá na minha óptica, paranóica mas sólida como uma rocha, não desandámos grande coisa em relação ao Império Romano. O que quer isto dizer? Pois, a Economia, essa divindade do mundo contemporâneo, assentava no trabalho escravo lá para trás, nos velhos tempos do Império. Dir-me-ão os mais avisados sobre a bondade do mundo em que vivemos que os tempos da escravatura já lá vão há buéréré. Que hoje os trabalhadores têm direitos, que recebem salários (salários!!!???) de acordo com o valor social do trabalho que executam e desempenham. Sim, sim, já me tinham dito só que devo ter-me esquecido de ouvir como deve ser.

Cá para mim continuamos a assentar a nossa Economia em trabalho escravo. Só que o sistema, agora, tem requintes de malvadez. É verdade que os trabalhadores recebem um ordenado. Mas para quê? Para poderem consumir os produtos que aqueles que lhes pagam com uma mão lhes vendem com a outra. Assim, produzem os artigos que consomem e ainda têm de pagar por eles. Genial!!!

Esta herança da Revolução Industrial tem vindo a atrair as populações para as grandes cidades desertificando o interior. Este fenómeno desiquilibra a distribuição da fauna e gera confusões indescritíveis. Vistos do espaço a uma certa altitude, os aglomerados urbanos devem assemelhar-se a colónias de insectos barulhentos. Escravos aos pontapés acotovelam-se na mira de alcançar o Paraíso na Terra e em tempo útil que isso de esperar pela ressurreição já só convence papalvos.

Uma coisa que me faz uma confusão do caraças é imaginar para onde vão todas as mais-valias resultantes da produção e comércio mundiais. Sim, para onde vão os milhões de milhões de milhões de euros que resultam do esforço produtivo da Humanidade? Com tanta fome, tanta miséria, tanta desgraça sem nome que poderia ser resolvida com meia-dúzia de tostões... não percebo!

Estamos, obviamente, a ser enganados. Mas isso não nos preocupa muito. Desde que possamos ter acesso a alguns bens de consumo e outros tantos pequenos luxos que ilustram o nosso modo de vida ficamos satisfeitos e calados. Ponto final. Os outros que se lixem!

Para a Europa e os EUA poderem viver à tripa-fôrra alguém tem de ser sugado até ao tutano. A China e a Índia estão a levantar cabelo. A África continua a penar. Até quando?
Ainda será necessário verter muito sangue, durante muitos anos para que alguns possam andar nos seus jactos particulares e encher o peito de silicone de primeira qualidade.
Segredos e mistérios das nossas democracias que, nos últimos tempos, temos tido tantas dificuldades em exportar. Nem mesmo à marretada já lá vamos, como se vem comprovando no Afeganistão e no Iraque.

Maurizio Cattelan vestiu um dos seus marchands como se pode ver na imagem. Convenhamos que a indumentária assentaria como uma luva a muitos dos que nos governam em nome da Democracia e vão aproveitando para viverem como Cresus enquanto à maioria é distribuído o papel de escravo felizardo.

Hot Dog

Estes matrecos andam a brincar com o fogo e quem se lixa é toda a gente!
Tanto Bush quanto Ahmadinejad têm cara de estúpidos com pernas. Olhando bem os olhitos dos gajos sinto uma vertigem nauseabunda por ver apenas buracos onde deveria ver extensões cerebrais expostas ao mundo. Os olhos de um e de outro não parecem ver. Não parecem perceber nada. Chego mesmo a imaginar que são marionetas, personagens falsas animadas por um qualquer Stromboli, como o pobre Pinóquio.
Espero que morram depressa, fulminados por raios disparados do céu! Se Deus existisse e fosse bom e justo como nos querem fazer crer, havia de mandar estes dois cabrões direitinhos para um Inferno particular onde Hitler e Staline se dedicam à jardinagem, podando roseiras com os dentes e estrumando a terra com a merda do ódio que destilam.
Mas Deus ou está a dormir ou é, afinal, o Diabo disfarçado e estes cachorros quentes são dois dos seus anjos encarregues de fazerem da Terra um planeta selvagem.

terça-feira, abril 18, 2006

Imagem suspeitada

Há dias assim, não há?
Um gajo regressa ao trabalho após umas férias descansadas (não está em causa se merecidas) e nem dorme tudo da noite anterior por lhe tropeçar um olho num raio de luz que se esgueira pela fresta da persiana.
Já que assim foi, põe-se um tipo a magicar como vai ser esse tal regresso. Decerto tão banal como regressos anteriores do mesmo género... imagina ele (imagino (imaginei) eu). O olho são, o que não havia tropeçado, lá seduz o outro para o sono e assim ficam, abraçados, olhando para dentro.
Depois é o despertar, o a reatar das rotinas que, bem vistas as coisas, nunca se repetem assim tanto como queremos acreditar. Há sempre qualquer coisinha diferente, um pormenor até ali ignorado, uma textura que, afinal, era bem mais macia do que conseguíamos recordar. O mundo é bem mais complexo do que parece. É tudo uma questão de sensibilidade. E bom senso.
Assim passa o dia. Somado aos anteriores não parece destacar-se mas, lá no fundo, foi diferente. Nada de especial para dourar alguma recordação, nada de extraordinário. Mas um novo dia que se vai fazendo velho nunca pode ter sido aborrecido!
É tudo uma questão de intensidade.

segunda-feira, abril 17, 2006

Páscoa no meio das serras



Com os iranianos a destrambelharem-me as férias por causa do urânio enriquecido e o Papa a chatear os surfistas da NET nem dormi como deveria na última das noites que passei longe de casa.
Pronto. Estou de regresso, com as baterias recarregadas à força de amêndoas e recordações arrancadas ao baú do esquecimento. Sempre que dou umas passeatas por Viseu revejo personagens que já me havia esquecido que existem. Um rosto meio desbotado, uns cabelitos brancos ou uma careca reluzente, lá vêm essas personagens a emergir da névoa e relembro um gajo, recordo uma gaja, uma situação, um lugar, recordo-me a mim próprio, o jovem que penso ter sido e, se calhar, nunca fui.
Enfim, lamechices!
Aproveitei para revisitar o Museu Grão Vasco. Desde a remodelação que as obras do Mestre estão expostas com outra dignidade. O São Pedro (na imagem) pode ser visto, também, por trás. É uma experiência curiosa, que dá ao visitante um vislumbre sobre a forma de construir uma tal superfície de trabalho com base de madeira.
A pintura, propriamente dita, é impressionante.
A exposição do Retábulo da Sé também está bem engendrada e constitui um bom exercício de contemplação. Apesar da ordem sequencial ser um tanto estranha e, aparentemente, desconexa não deixa de mostrar a força comunicacional de um retábulo. Fico sempre com vontade de experimentar uma coisa do género e percebo um pouco melhor a minha "mania" de fazer painéis com as pinturas que executo.
Aquelas foram as primeiras pinturas "a sério" que vi em dias de vida. É bem possível que esteja ali a matriz da minha vontade de pintar. É bem possível que, tal como as personagens que emergem do passado nas ruas da cidade, sejam aquelas pinturas que se estendem nos planos menos recentes do meu imaginário.
Neste momento faço planos com o resto da família para um regresso a Londres, lá mais para o Verão. Um regresso à National Gallery para visitar e render homenagem, mais uma vez, a Van Eyck e ao seu inigualável Casal Arnolfini.

quarta-feira, abril 12, 2006

Férias

Em tempo de férias ando longe do meu computador. Muito longe mesmo e durante bastante tempo.
Poderia dar a sensação de que as 100 CABEÇAS estariam a sentir-se perdidas... qual quê, estão apenas a descansar.
Restam-me 12 minutos de utilização de um computador ranhoso, numa casa de jogos a cheirar a mofo, onde perdi (ou terei ganho) horas e horas da minha juventude passada entre jogos de flippers e de snooker. Hoje venho aqui em tempo de férias teclar umas cenaças e bisbilhotar a NET.

Não tenho maneira e colocar uma imagem a ilustrar o texto, pelo que este será o 1º post sem "boneco".
O tempo vai-se esgotando (tenho 9 minutos) e não disse nada do que queria dizer.

Aproveito para fazer notar que, enquanto povo, não detemos o exclusivo da estupidez. Os italianos batem-se bem. Nós temos o palhaço mau no bananal da Madeira. Eles têm o rei dos palhaços maus no país inteiro. Berlusconi mostra bem a fragilidade do sistema democrático. Se antes dele Bush ganhou umas eleições recorrendo a processos aparentemente fraudulentos, agora, a campanha eleitoral e os resultados que se desenham, mostram com somos vulneráveis em termos mediáticos.
Quem detiver os meios de fazer passar a mensagem, tem todas as hipóteses de se tornar o Senhor dos Anéis lá da rua dele!

Bom, 4 minutos, vou desligar.

quinta-feira, abril 06, 2006

Como se fosse outra coisa qualquer

Finalmente Joe Berardo e o governo da República chegaram a um acordo sobre o destino imediato da colecção de arte moderna e contemporânea que o empresário tem vindo a financiar. Durante 10 anos as obras estarão expostas no CCB e as partes interessadas, Governo e Berardo, vão disponibilizar anualmente 500 mil € cada para novas aquisições. E depois? Depois logo se verá.

Olhando para o atribulado processo que agora conhece um primeiro happy-end fica a sensação de que o negócio é extremamente vantajoso para o empresário e bastante arriscado para o Estado. Isto porque nada garante que, uma vez esgotado o prazo acordado, Berardo esteja disposto a manter a colecção por estas bandas. Fica a sensação de que se trata de um negociador algo casmurro e caprichoso, capaz de mudar de opinião com bastante facilidade, sempre de acordo com os seus interesses particulares. Qual será a sua opinião sobre a "coisa pública"?

Já me dei ao trabalho de ouvir uma ou outra entrevista deste homem que fala um português complicado e parece ter algumas dificuldades em alcançar o valor e o significado da colecção em causa. Fica a impressão que, para ele, a arte é um negócio como outro qualquer. Comprar um Picasso tem o valor aproximado de um carregamento de bananas ou uma mão cheia de pedras preciosas. Se calhar é assim mesmo. Quem tem dinheiro e o investe em artigos com valor comercial deve estar à espera do retorno devido ao risco do investimento. Só assim se enriquece, digo eu que sou um teso.

Já a Senhora Ministra exporta uma imagem estranha. Parece em stress constante, receosa de que, talvez, o céu lhe caia em cima da cabeça. Nesta aventura incerta andou de um lado para o outro e de trás veio prá frente, sempre ao sabor da inclinação do soalho. A dizer que disse, a pensar que pensou, enfim, demasiado vaga e insegura para convencer uma "elite" cultural que já a elegeu como alvo a abater, queimar, empacotar e mandar para Timbuctu em correio azul. O olhar desta senhora é inquietante. Quer-me cá parecer que uns óculos, mesmo uns de massa preta tipo Elvis Costello, lhe dariam um aspecto mais digno que aqueles olhos de boga fora de água. Lentes de contacto? Decerto, mas uma má opção, a mostrar fraco entendimento estético.

Também ela pareceu ansiosa por fechar o contrato, fosse ele qual fosse. Deu a impressão de qualquer solução que garantisse algo semelhante a sucesso seria, para ela, uma boa solução. Na minha mais que modesta perspectiva, o resultado final de toda esta história é um bom resultado para o comendador Berardo. No entanto...

O Centro Georges Pompidou ou a Tate Modern dão colorido a outras capitais europeias com colecções que são visitadas por milhares de pessoas todos os anos. O turismo cultural é um facto das modernas sociedades ocidentais. O CCB com a colecção de Berardo em "cena" poderá ombrear com estas significativas instituições e dar a Lisboa um cartaz que, no contexto actual, enriquecerá a cidade aos olhos do resto da Europa.

Haverá questões importantes por resolver (onde se poderão fazer exposições temporárias?) mas, assim à primeira vista, parece boa ideia. Dentro de dez anos voltaremos a falar.
Ai se o comendador Berardo resolver roer a corda!

quarta-feira, abril 05, 2006

V de Vingança

Um filme bem interessante sob todos os aspectos. "V for Vendetta" abre um espaço de reflexão política para os mais jovens. O facto de ser para "maiores de 16" poderá sugerir alguma gratuitidade na violência. Mas é um engano. Esta classificação poderá significar que espectadores mais jovens pura e simplesmente se sintam enfastiados com a complexidade das situações. Como um puto que estava à minha frente na sala de cinema, munido de um enorme penico de pipocas e uma namoradita com molas no cú. "Este filme é de gajas!" disse ele. De gajas!!?? Nem sequer deu para uma beijoca furtiva, não deu para nada que interessasse. Houve abandonos, bocas palermas, enfim, alguns espectadores não mereciam, de facto, estar ali. E pensar que poderiam ter ido ver A Idade do Gelo 2 ou outra película mais de acordo com a sua idade real.
Deixando este tipo de considerações pretensiosas quero apenas aconselhar o leitor destas linhas a ir ver "V" porque vale mesmo a pena!!!

Comer pode matar!

Pelos vistos o consumo de certos alimentos é prejudicial à saúde. Como se não soubessemos! As grandes empresas de fast food (ou junk food) começam a ser alvo de análises pouco abonatórias por parte de certos organismos preocupados com a qualidade de vida das populações. Desprotegidos perante a força da publicidade e o tremendo poder da gula, andamos a papar demasiada porcaria e os resultados estão à vista.
Sim, bem à vista já que a obesidade é difícil de ignorar. A quantidade de putos gordos como Buda começa a alarmar as autoridades sanitárias e constituem já um problema de saúde pública.

Da mesma forma que os maços de tabaco têm de trazer anti-publicidade em forma de mensagem aterradora (Fumar Pode Matar é das mais levezinhas) também certa empresas deveriam ser obrigadas por lei a avisar que os suculentos nacos de prazer que oferecem ao pessoal são bombas de colesterol ou atentados perigosos à sanidade do fígado consumidor. O que seria das cidades americanas onde é proibido fumar até na via pública se lhes fechassem os restaurantes de fast-food? E os locais onde os espaços de não-fumadores são encarados como santuários de saúde pública para que os clientes possam empaturrar-se alarvemente em batatas fritas, carne pré-mastigada e coca-cola?

Quando teremos as caixinhas de "happy meal" na McDonald's com o terrível letreiro "COMER PODE MATAR!!!"? Mal os consumidores desse produto aprendam a ler vão começar a pensar em processar os próprios pais por terem permitido que se envenenassem lentamente numa época das suas vidas em que deveriam tê-los protegido? Talvez se torne uma especialidade entre os advogados americanos.

Na verdade, o problema é que, entre nós, tudo o que constitua negócio rentável acaba por prevalecer. Analise-se o caso das drogas duras e teremos uma história de sucesso para servir de exemplo. Mas há quem decida por nós o que é lícito e o que não é, pois não nos é reconhecida a capacidade de pensar pelas nossas próprias cabeças. Deve ser isso.

Em última análise o verdadeiro problema é que para morrermos precisamos apenas de estar vivos. Razão tem Lili Caneças quando afirma com toda a convicção que "estar vivo é o contrário de estar morto". Pois é.

terça-feira, abril 04, 2006

Perder o futuro


No Domingo a capa do suplemento do Público trazia uma imagem dos tumultos em Paris com o estranho título de "Medo de Perder o Futuro". Falava-se das razões para a revolta da chavalada.
Perder o futuro... como pode perder-se algo que não se possui? Como pode perder-se o que ainda não aconteceu? O futuro possui-se? Eu possuo um futuro? Como poderei sabê-lo antes de lá chegar? Fiquei deveras confuso e a coisa não me tem saído da cabeça.
Poderei ter expectativas, desejos, anseios. Poderei sonhar com algo que venha a acontecer ao ponto de tentar influenciar os acontecimentos por forma a dar um jeitinho na realidade. Mas é tudo muito vago, muito no campo das hipóteses.

Decididamente, se há coisas que dificilmente se possam perder, o futuro será uma delas.
Nunca perdi o futuro. Simplesmente aconteceu muitas vezes que o futuro não correspondeu ao que imaginara, no passado, nada mais. O futuro não se perde. Quando muito não corresponde a algo ou a alguma coisa. O futuro pode apenas ser diferente daquilo que desejámos que ele viesse a ser.

Por outro lado também não me parece que se possa encontrar o futuro uma vez que ele acontece de acordo com o passado imediatamente anterior. Ou seja, o futuro é o momento que acabaste de viver, tão depressa se transformou em passado. O futuro precipita-se constantemente, tropeçando no passado, quase não deixando tempo ao presente. O presente será aquilo que mais dificilmente se compreende por não ter intervalo de tempo que lhe valha. Entalado entre o passado e o futuro, praticamente não existe. O presente sim, é constantemente perdido. Sempre perdido nas voltas do ponteiro dos segundos, passo a passo, o presente, na verdade, quase não existe.

Os jovens parisienses talvez protestem por não conseguirem encontrar o presente, embora tenham alguma dificuldade em compreendê-lo. Na verdade o que lhes faz falta é "o agora" e não "o amanhã". Se "o agora" os satisfizesse já não andariam aos trambolhões pelas ruas, em busca de glórias passadas, em busca de um tempo perdido que nunca lhes pertenceu nem poderá alguma vez vir a pertencer.

sábado, abril 01, 2006

Olé toureira!

Olé Toureira! é o título desta pintura que concluí recentemente. Uma pequena homenagem ao meu amigo João Fonte Santa que criou as personagens de BD Joe Índio e Tom S.I.D.A., dois boxeurs pestilentos que combatiam no ringue enquanto dois críticos de arte iam discutindo estética bem sentados entre o público. "Olé Toureira!" foi uma das aventuras destas duas duplas na qual Joe Índio arranca o nariz de S.I.D.A. com um violento uppercut!
Lembrei-me desta coisa a prpósito do Óscar Faria. Talvez lhe fizesse bem ir assitir a uns combatezitos de boxe. O cheiro a suor misturado com os bálsamos a pairar na sala, entre fumo e insultos variados, podiam trazer alguma luz sobre os assuntos da arte!

Crítica rotineira

Escrever a crítica de arte para um suplemento semanal deve ser trabalho lixado. Digo eu. Um gajo tem de ir a umas inaugurações, arrastar a carcaça até galerias e, mais raramente, museus. Olhar, ver, pensar e, fatalmente, escrever, construir uma opinião. O crítico não pode passar, avisar que não sai nada, que fica uma semana "de molho" por falta de qualquer coisa minimamente interessante para dizer. O crítico tem de criticar e mais nada. Ponto final.

Quando acontece não haver opinião que se leia, quando o relógio apressa a escrita e o teclado parece roer as pontinhas dos dedos ao crítico, o caso será angustiante mas não há-de ser nada! A crítica tem de estar pronta a tempo e horas. É preciso aprontar o suplemento, paginar a revista, retocar pormenores. O paginador vê apenas manchas de texto, o designer gráfico trabalha com formas e não com conteúdos. Esses são da responsabilidade do pobre escravo do dever que terá de assinar por baixo e assumir a paternidade da coisa.

Nem sempre me dou ao trabalho de ler as recensões críticas nas páginas dedicadas às artes plásticas mas, quando me entrego à tarefa, fico quase sempre com a sensação de que é mais interessante ler o resumo de um jogo de futebol entre o Rio Ave e o Gil Vicente.

No entanto é nesses textos, tantas vezes sem substância, que se vai fazendo a historinha da arte contemporânea. Criam-se reputações, ignoram-se outras, fala-se do trabalho de alguns amigos e já não é coisa pouca.

Vem isto a propósito do texto publicado hoje no Mil Folhas do Público, por Óscar Faria, com o título Rebentar com a pintura. É uma coisa amorfa, repleta de lugares comuns e ideias estafadas, um texto que me faz ter pena do escriba. Coitado.
Acredito que o trabalho de Bruno Pacheco, "analisado" neste texto, seja interessante. Não posso deixar de ter a impressão que, quem leia o dito cujo, não vai dar-se ao trabalho de arrastar os sapatos até à galeria Quadrado Azul, no Porto, para uma visitinha.
A menos que seja crítico de arte e tenha urgência em escrever qualquer coisa para justificar o cheque do ordenado, lá mais para o final do mês.

quinta-feira, março 30, 2006

Idade adulta

Há questões que surpreendem pela forma estranha como irrompem no nosso quotidiano pardacento. Estamos a dormir, catrapunfas! Somos confrontados com os limites que alguns eternos mafarricos pretendem descortinar na liberdade de expressão e de opinião que tantas queimadelas de cigarro custaram a certos cidadãos camaradas, somadas a longas noites sem sono nem dia seguinte.

Andamos para aqui convencidos que certos fantasmas passaram ao baú do esquecimento e, quando menos se espera, lá regressa o ensudecedor ruído agudo das grilhetas que arrastam penosamente, eternidade acima, eternidade abaixo.

Como se a liberdade de expressão pudesse ter limites! Que ideia abstrusa. A liberdade, para o ser, é infinita, mais infinita que o próprio Universo já que a existência deste depende daquela.

Aproxima-se a celebracão do 32º aniversário do 25 de Abril. A nossa democracia já não pode continuar a ser classificada como uma "jovem democracia" caraças! Quando atingirá a idade adulta? Já lá vai o tempo de espremer borbulhas ao espelho. E, no entanto, a nossa democracia continua com a tromba repleta de pústulas sebosas, vivendo ainda a expensas dos pais, incapaz de saír da casa deles e de tratar das borbulhas a preceito.

Temos de ser capazes de a entusiasmar a assumir-se. Chegou o tempo da idade adulta antes que, sem darmos por isso, saltemos directamente da adolescência para a velhice democrática. Uma Democracia com artrite e esclerose múltipla é a coisa menos conveniente que posso imaginar.

terça-feira, março 28, 2006

Lem

Li hoje a notícia da morte de Stanislaw Lem, o escritor polaco, aos 84 anos de idade.
É daquelas coisas que causam um ligeiro arrepio, uma certa tristeza. Apesar de estar longe de ser um perito na obra deste semi-louco, tenho como livros de referência Solaris e As Viagens de Ijon Tichy, ambos da sua autoria. Curiosamente tenho dois exemplares da edição portuguesa de Solaris dos Livros de Bolso Europa-América (cheguei a ter 3) e outros dois das Viagens..., edição da Caminho.
Isto porque sonhei (não sei se ainda sonho) adaptar partes ou a totalidade destas obras. Solaris daria uma peça de teatro grandiosa, fosse eu capaz de fazê-lo, e nas Viagens... há contos supreendentes que tanto poderiam ser adaptados aos palcos como a Banda Desenhada, o que quer que fosse!
Na notícia do Público (bem modesta, para ser franco) fala-se do pouco entusiasmo de Lem pelas duas adaptações cinematográficas de Solaris. A primeira do divino Tarkovsky, a segunda, bem mais recente, de Soderbergh com George Clooney no papel de Kris Kelvin, o torturado protagonista deste conto exemplar. Baseando-se apenas nas críticas, já que afirma não ter visto nenhum dos dois, Lem sugere que os cineastas estiveram longe de "ler" correctamente a profundidade de Solaris. Penso que tem razão e, caramba, mostra-me como seria atrevimento perigoso e pretensiosismo da minha parte avançar no interior dos meus sonhos ao ponto de tentar trazê-los à realidade envolvente. Cheguei mesmo a falar com Dinarte Branco neste projecto (o "meu" Kris Kelvin de eleição), mas a preguiça aliada a ataques esporádicos de hulmildade impediram-me de ir muito longe nos esforços produzidos.
Solaris é, a todos os títulos, recomendável. Talvez a tradução que possuo (traduzido da versão inglesa por Inês Busse, edição original de 1961, edição inglesa, Faber and Faber Ltd. de 1970 e portuguesa, da Europa América, de 1983) não seja a mais empolgante forma de abordar a obra incomparável de Lem.
O capítulo II, Os Solaristas, tem algumas das páginas mais absorventes que me recordo de ter lido em qualquer dos muitos livros de ficção científica (e não só) que devorei no final da minha adolescência. A ideia central de Solaris é simplesmente genial. Uma obra a ler, um autor a descobrir para quem não tem a felicidade de o conhecer ainda.
Que visitante me enviaria Solaris?

segunda-feira, março 27, 2006

Tulipas

Cá estão elas, as tulipas que trouxe da terra que as produz e exporta com toda a convicção. Comprei um sacalhão de bolbos num mercado flutuante em Amesterdão e pus alguns na terra, aqui mesmo, na varanda. Entretanto já as pétalas começaram a esmorecer, algumas já caíram. À falta de andorinhas foram elas quem me lembrou a Primavera.

Pronto, já fizeram o seu papel e preparam-se para irem fazer companhia ao gato preto. As amarelas já são uma recordação. As brancas florescem como Deus manda.
A natureza é uma coisa maravilhosa!

No meio de tudo isto há um pequeno mistério, para mim que sou um leigo em matéria de tulipas. Nos mercados de Amesterdão as mais caras são as tulipas americanas! Pois, serão as melhores ou uma cena assim, para haver diferença de preços. Ou sofrerão os holandeses da mesma maleita que nós (e, se calhar, todos os outros)? Será que aquilo que vem do outro lado do Atlântico tem outra qualidade? Em matéria de hamburgueres e frango frito não haverá grandes dúvidas. Agora no que diz respeito a tulipas... por esta não esperava! Ah, ganda Bush!!! As tuas tulipas dão-nos a volta à cabeça.

sábado, março 25, 2006

Chavalada

São como um bando de pardais à solta, como putos. O CDS, vulgo PP, é um partido de brincalhões, uma coisa de trazer por casa e levar de taxi. Agora deu-lhes para armar ao sério e o resultado tem sido do melhor (ou do pior, tanto faz).
Desde Pires de Lima (o 2º a contar da direita) vir afirmar que precisam de ser um partido mais sexy (!!!) ao Paulinho (o mais à direita) andar a rever a história num programa intitulado O Estado da Arte, na SIC Notícias, os rapazolas têm puxado da imaginação por forma a não desaparecerem do mapa mediático que, do político, começam a ser apagados.
O Paulinho anda mesmo a fazer o caminho que, imagina, irá conduzi-lo um dia à presidência da república portuguesa. Quando as galinhas tiverem dentes. Mas a fé de Paulinho na Virgem prevê a forte hipótese de um milagre...
Certamente que vai esperar pelo fim de Cavaco (não há presidente que não presida dois mandatos consecutivos) para depois arriscar meter o pé em ramo verde.
Já o partido que deixou para trás se comporta como uma família sem figura masculina que possa servir de referência (que me perdoem as mulheres deste país, especialmente a Zezinha do CDS) e anda tudo a desatinar sem querer assumir responsabilidades que possam ser maiores que a ambição de cada um.
São tão lindos.
O Telmito, o 2º a contar da esquerda, tem medo de continuar a ser ele próprio, pelo que dificilmente vai assumir ser algo mais do que o pouco que tem sido. O Lobo, o que está no meio, tem mais queda para pairar no ar, sem nunca tocar o chão, como os anjos da Guarda, não tanto como os anjos de Viseu.
Verdade, verdadinha, o partido destes chavalos está assim a modos que apagado do mundo real. No dia em que disputar umas legislativas sem a muleta do PSD vai ser o bom e o bonito. Ainda vão admitir o Manel Montério de regresso, para tirar umas bicas na sede do largo do Caldas.
Isto porque o lugar de mulher-a-dias já está ocupado. É de uma emigrante ilegal.

Palhaço Mau

Havia as categorias de palhaço rico e pobre e mais outras que desconheço por não ser um entendido nas artes circenses nem um pouco mais ou menos.

Apesar dessa falta de conhecimento não me custa nada identificar uma nova categoria de palhaço porque, infelizmente, não é personagem de ficção para arena e tenda, mas sim um ogre bem real e fedorento como um monte de bosta fresca pela manhã. É o palhaço mau.

O principal palhaço mau será o Joker, figadal adversário do Batman. Tem a vantagem de ser boneco desenhado e ter sido interpretado no cinema por Jack Nicholson em filme do inexcedível Tim Burton.

Temos entre nós a personificação de tudo o que um vilão de Banda Desenhada tem de caricatural. Mau, feio, estúpido, agressivo, megalómano e, acima de tudo, louco, completamente louco como nem o chapeleiro jamais conseguiu ser na imaginação fértil de Carrol.

Mesmo sem a foto aqui em cima, já o simpático leitor tinha percebido que me refiro ao demente presidente da região autónoma da Madeira. De imbecilidade em imbecilidade, resolveu agora dar tolerância de ponto no dia 24 de Abril, lá na ilha dele. Se não é provocação não sei que seja, admito que simples estupidez, vindo de quem vem. Mas até quando seremos obrigados a aguentar os despautérios desta espécie de foca bisonha?

Não houve, até hoje, presidente com tomates (senti-me tentado a escrever "colhões" dada a situação em análise, mas achei que seria demasiado forte e de mau gosto) que pusesse na ordem e respectivo lugar este velho armado em rapazola. O Sr. Silva, que até fez as pazes com o ogre (desculpa lá, Shreck!), já começou a levar com as escarretas dele em cima. Primeiro com a historieta da nomeação do Ministro da República, agora com estas patranhas em redor do 25 de Abril.

Assim como assim, Cavaco até cantou a Grândola a plenos pulmões durante a campanha eleitoral que desaguou no seu "entronamento" pomposo e cor-de-rosa (velho). Como pode suportar que o palhaço mau da Madeira venha com atoardas deste calibre?

Vai, Cavaco, mostra-nos de que pau és feito e põe-me esse palhaço no circo!

quarta-feira, março 22, 2006

Sonho de uma noite de Primavera

escultura em gesso de Anthony Gormley

Os homens do lixo lá levaram o cadáver do gato.
Os vizinhos, do outro lado da rua, voltaram a representar cenas desesperadas em plena calçada. Gritos, choro, cabeçadas violentas no tronco de uma árvore, mais gritos. Os estores subindo discretamente, cabeças despenteadas, mulheres de robe debruçadas, o espaço público transformado em palco, os prédios de apartamentos em suspeito anfiteatro.
Mas a performance daqueles artistas improvisados não foi convincente. Do meu lugar não tinha visão total sobre a cena, o som era deficiente, desisti. Fomos desistindo. O público retirou-se para o interior das respectivas cavernas particulares, com as janelinhas dos écrans a abrirem outras narrativas ao cérebro de cada um.
Comodamente sós.

Tentei regressar a Jerusalém pela mão de Gonçalo M. Tavares mas não me apeteceu continuar a ler. Depois daquele pedaço de drama na calçada aquela literatura pareceu-me pouco.
Liguei o computador. Passeei um pouco, mas nada. Chatice.
A minha filha foi para a cama (terá sonhado com vizinhos cabeçudos a tentarem derrubar a floresta da Amazónia à marrada?)... tudo normal.
Lembrei-me das tulipas que plantámos num vaso da varanda! Fui vê-las e... caramba!!! O milagre dera-se entretanto. Sumptuosas, orgulhosas da sua beleza natural, lá estavam as flores, empertigadas até ao céu que só elas são capazes de alcançar.
Porra, como fora capaz de esquecê-las? A Primavera não chegara com a morte do gato à porta de minha casa, já ali estava, na varanda, só que eu, distraído pela morbidez quotidiana, nem reparara!!!
Quando chegar a casa vou fotografá-las para as mostrar ao mundo.

Terão os meus vizinhos tulipas amarelas na varanda?
Sonham os andróides com carneiros eléctricos?
Será que o gajo das cabeçadas chegou a partir a cabeça?

terça-feira, março 21, 2006

O Belo

A Virgem do Chanceler Rolin, óleo sobre madeira, 62x66cm pintado em 1435 por Jan van Eyck, mestre entre todos os mestres da pintura

Foi há uns anos atrás, não sei bem quando, talvez por esta altura do ano ou mais junto do Verão, a memória atraiçoa-me. Viajei até Paris. O Louvre foi um dos poisos obrigatórios da minha visita, claro.
Sempre sentira uma atracção especial pelas fotos de pinturas de Van Eyck. Desde o (suposto) auto-retrato com turbante vermelho, até ao espanto maravilhoso do casal Arnolfini, os meus olhos nunca se haviam cansado de tentar perceber. Daí que, enquanto secava na fila para entrar no grotesco museu parisiense, a minha mente tentava centrar-se num objectivo principal: procurar Van Eyck.
Assim fiz. Uma vez dentro do espaço do museu peguei numa planta, procurei a localização da "Virgem do Chanceler Rolin" e lá fui em passo apressado. Ignorando tudo à minha volta subi uma escada perdida até ao piso desejado.
Quando entrei na salinha onde repousa a obra de Van Eyck havia dois japoneses (ou seriam coreanos?) bastante baixos com o nariz quase colado ao vidro que protege o óleo nas tábuas. Ajeitei o olhar o melhor que pude entre o cabelo de um e o chapéuzito do outro e senti uma comoção profunda. Senti as lágrimas a dançarem-me nos olhos, carago!!!

É diferente. Não é como ver um filho pela primeira vez. Nem de longe, muito menos de perto. É outra coisa. É uma comoção tão forte que não vem de dentro de nós, vem de mais fundo, um corpo não pode conter uma sensação assim. Uma coisa daquelas leva um homem a suspeitar que possui uma alma.

Os japoneses lá descolaram mais as respectivas recém-descobertas alminhas de japonês. Eu fiquei ali, não me lembro como nem por quanto tempo (pode ter sido muito pouco ou muito muito, não sei nem isso tem o mínimo interesse). Senti-me mais humano. Quando consegui descolar também, sentia-me outra pessoa. Não aquela pessoa que sou hoje, agora. Sentia-me outra pessoa, diferente da que fora até ali mas cujas características, passados vários anos, foram transmutadas naquelas que possuo hoje, que possuo agorinha mesmo.

O mundo dá as voltas que dá e nós com ele. Depois de Paris visitei Londres e a National Gallery, fui apresentar os meus melhores cumprimentos ao "Casal Arnolfini" e admirar as voltas do turbante carmim, mas aquela sensação do Louvre já não era possível. Aquilo, sei-o hoje, só pode sentir-se uma vez.
"Aquilo" fora a Revelação de um certo género de Belo.
Fica a saudade. Dos japonesinhos e das lagrimitas bailarinas a chegarem-se-me ao abismo dos olhos.