
segunda-feira, abril 17, 2006
Páscoa no meio das serras

quarta-feira, abril 12, 2006
Férias
Poderia dar a sensação de que as 100 CABEÇAS estariam a sentir-se perdidas... qual quê, estão apenas a descansar.
Restam-me 12 minutos de utilização de um computador ranhoso, numa casa de jogos a cheirar a mofo, onde perdi (ou terei ganho) horas e horas da minha juventude passada entre jogos de flippers e de snooker. Hoje venho aqui em tempo de férias teclar umas cenaças e bisbilhotar a NET.
Não tenho maneira e colocar uma imagem a ilustrar o texto, pelo que este será o 1º post sem "boneco".
O tempo vai-se esgotando (tenho 9 minutos) e não disse nada do que queria dizer.
Aproveito para fazer notar que, enquanto povo, não detemos o exclusivo da estupidez. Os italianos batem-se bem. Nós temos o palhaço mau no bananal da Madeira. Eles têm o rei dos palhaços maus no país inteiro. Berlusconi mostra bem a fragilidade do sistema democrático. Se antes dele Bush ganhou umas eleições recorrendo a processos aparentemente fraudulentos, agora, a campanha eleitoral e os resultados que se desenham, mostram com somos vulneráveis em termos mediáticos.
Quem detiver os meios de fazer passar a mensagem, tem todas as hipóteses de se tornar o Senhor dos Anéis lá da rua dele!
Bom, 4 minutos, vou desligar.
quinta-feira, abril 06, 2006
Como se fosse outra coisa qualquer
Finalmente Joe Berardo e o governo da República chegaram a um acordo sobre o destino imediato da colecção de arte moderna e contemporânea que o empresário tem vindo a financiar. Durante 10 anos as obras estarão expostas no CCB e as partes interessadas, Governo e Berardo, vão disponibilizar anualmente 500 mil € cada para novas aquisições. E depois? Depois logo se verá.Olhando para o atribulado processo que agora conhece um primeiro happy-end fica a sensação de que o negócio é extremamente vantajoso para o empresário e bastante arriscado para o Estado. Isto porque nada garante que, uma vez esgotado o prazo acordado, Berardo esteja disposto a manter a colecção por estas bandas. Fica a sensação de que se trata de um negociador algo casmurro e caprichoso, capaz de mudar de opinião com bastante facilidade, sempre de acordo com os seus interesses particulares. Qual será a sua opinião sobre a "coisa pública"?
Já me dei ao trabalho de ouvir uma ou outra entrevista deste homem que fala um português complicado e parece ter algumas dificuldades em alcançar o valor e o significado da colecção em causa. Fica a impressão que, para ele, a arte é um negócio como outro qualquer. Comprar um Picasso tem o valor aproximado de um carregamento de bananas ou uma mão cheia de pedras preciosas. Se calhar é assim mesmo. Quem tem dinheiro e o investe em artigos com valor comercial deve estar à espera do retorno devido ao risco do investimento. Só assim se enriquece, digo eu que sou um teso.
Já a Senhora Ministra exporta uma imagem estranha. Parece em stress constante, receosa de que, talvez, o céu lhe caia em cima da cabeça. Nesta aventura incerta andou de um lado para o outro e de trás veio prá frente, sempre ao sabor da inclinação do soalho. A dizer que disse, a pensar que pensou, enfim, demasiado vaga e insegura para convencer uma "elite" cultural que já a elegeu como alvo a abater, queimar, empacotar e mandar para Timbuctu em correio azul. O olhar desta senhora é inquietante. Quer-me cá parecer que uns óculos, mesmo uns de massa preta tipo Elvis Costello, lhe dariam um aspecto mais digno que aqueles olhos de boga fora de água. Lentes de contacto? Decerto, mas uma má opção, a mostrar fraco entendimento estético.
Também ela pareceu ansiosa por fechar o contrato, fosse ele qual fosse. Deu a impressão de qualquer solução que garantisse algo semelhante a sucesso seria, para ela, uma boa solução. Na minha mais que modesta perspectiva, o resultado final de toda esta história é um bom resultado para o comendador Berardo. No entanto...
O Centro Georges Pompidou ou a Tate Modern dão colorido a outras capitais europeias com colecções que são visitadas por milhares de pessoas todos os anos. O turismo cultural é um facto das modernas sociedades ocidentais. O CCB com a colecção de Berardo em "cena" poderá ombrear com estas significativas instituições e dar a Lisboa um cartaz que, no contexto actual, enriquecerá a cidade aos olhos do resto da Europa.
Haverá questões importantes por resolver (onde se poderão fazer exposições temporárias?) mas, assim à primeira vista, parece boa ideia. Dentro de dez anos voltaremos a falar.
Ai se o comendador Berardo resolver roer a corda!
quarta-feira, abril 05, 2006
V de Vingança
Um filme bem interessante sob todos os aspectos. "V for Vendetta" abre um espaço de reflexão política para os mais jovens. O facto de ser para "maiores de 16" poderá sugerir alguma gratuitidade na violência. Mas é um engano. Esta classificação poderá significar que espectadores mais jovens pura e simplesmente se sintam enfastiados com a complexidade das situações. Como um puto que estava à minha frente na sala de cinema, munido de um enorme penico de pipocas e uma namoradita com molas no cú. "Este filme é de gajas!" disse ele. De gajas!!?? Nem sequer deu para uma beijoca furtiva, não deu para nada que interessasse. Houve abandonos, bocas palermas, enfim, alguns espectadores não mereciam, de facto, estar ali. E pensar que poderiam ter ido ver A Idade do Gelo 2 ou outra película mais de acordo com a sua idade real.Deixando este tipo de considerações pretensiosas quero apenas aconselhar o leitor destas linhas a ir ver "V" porque vale mesmo a pena!!!
Comer pode matar!
Pelos vistos o consumo de certos alimentos é prejudicial à saúde. Como se não soubessemos! As grandes empresas de fast food (ou junk food) começam a ser alvo de análises pouco abonatórias por parte de certos organismos preocupados com a qualidade de vida das populações. Desprotegidos perante a força da publicidade e o tremendo poder da gula, andamos a papar demasiada porcaria e os resultados estão à vista.Sim, bem à vista já que a obesidade é difícil de ignorar. A quantidade de putos gordos como Buda começa a alarmar as autoridades sanitárias e constituem já um problema de saúde pública.
Da mesma forma que os maços de tabaco têm de trazer anti-publicidade em forma de mensagem aterradora (Fumar Pode Matar é das mais levezinhas) também certa empresas deveriam ser obrigadas por lei a avisar que os suculentos nacos de prazer que oferecem ao pessoal são bombas de colesterol ou atentados perigosos à sanidade do fígado consumidor. O que seria das cidades americanas onde é proibido fumar até na via pública se lhes fechassem os restaurantes de fast-food? E os locais onde os espaços de não-fumadores são encarados como santuários de saúde pública para que os clientes possam empaturrar-se alarvemente em batatas fritas, carne pré-mastigada e coca-cola?
Quando teremos as caixinhas de "happy meal" na McDonald's com o terrível letreiro "COMER PODE MATAR!!!"? Mal os consumidores desse produto aprendam a ler vão começar a pensar em processar os próprios pais por terem permitido que se envenenassem lentamente numa época das suas vidas em que deveriam tê-los protegido? Talvez se torne uma especialidade entre os advogados americanos.
Na verdade, o problema é que, entre nós, tudo o que constitua negócio rentável acaba por prevalecer. Analise-se o caso das drogas duras e teremos uma história de sucesso para servir de exemplo. Mas há quem decida por nós o que é lícito e o que não é, pois não nos é reconhecida a capacidade de pensar pelas nossas próprias cabeças. Deve ser isso.
Em última análise o verdadeiro problema é que para morrermos precisamos apenas de estar vivos. Razão tem Lili Caneças quando afirma com toda a convicção que "estar vivo é o contrário de estar morto". Pois é.
terça-feira, abril 04, 2006
Perder o futuro

No Domingo a capa do suplemento do Público trazia uma imagem dos tumultos em Paris com o estranho título de "Medo de Perder o Futuro". Falava-se das razões para a revolta da chavalada.
Perder o futuro... como pode perder-se algo que não se possui? Como pode perder-se o que ainda não aconteceu? O futuro possui-se? Eu possuo um futuro? Como poderei sabê-lo antes de lá chegar? Fiquei deveras confuso e a coisa não me tem saído da cabeça.
Poderei ter expectativas, desejos, anseios. Poderei sonhar com algo que venha a acontecer ao ponto de tentar influenciar os acontecimentos por forma a dar um jeitinho na realidade. Mas é tudo muito vago, muito no campo das hipóteses.
Decididamente, se há coisas que dificilmente se possam perder, o futuro será uma delas.
Nunca perdi o futuro. Simplesmente aconteceu muitas vezes que o futuro não correspondeu ao que imaginara, no passado, nada mais. O futuro não se perde. Quando muito não corresponde a algo ou a alguma coisa. O futuro pode apenas ser diferente daquilo que desejámos que ele viesse a ser.
Por outro lado também não me parece que se possa encontrar o futuro uma vez que ele acontece de acordo com o passado imediatamente anterior. Ou seja, o futuro é o momento que acabaste de viver, tão depressa se transformou em passado. O futuro precipita-se constantemente, tropeçando no passado, quase não deixando tempo ao presente. O presente será aquilo que mais dificilmente se compreende por não ter intervalo de tempo que lhe valha. Entalado entre o passado e o futuro, praticamente não existe. O presente sim, é constantemente perdido. Sempre perdido nas voltas do ponteiro dos segundos, passo a passo, o presente, na verdade, quase não existe.
Os jovens parisienses talvez protestem por não conseguirem encontrar o presente, embora tenham alguma dificuldade em compreendê-lo. Na verdade o que lhes faz falta é "o agora" e não "o amanhã". Se "o agora" os satisfizesse já não andariam aos trambolhões pelas ruas, em busca de glórias passadas, em busca de um tempo perdido que nunca lhes pertenceu nem poderá alguma vez vir a pertencer.
sábado, abril 01, 2006
Olé toureira!
Olé Toureira! é o título desta pintura que concluí recentemente. Uma pequena homenagem ao meu amigo João Fonte Santa que criou as personagens de BD Joe Índio e Tom S.I.D.A., dois boxeurs pestilentos que combatiam no ringue enquanto dois críticos de arte iam discutindo estética bem sentados entre o público. "Olé Toureira!" foi uma das aventuras destas duas duplas na qual Joe Índio arranca o nariz de S.I.D.A. com um violento uppercut!Lembrei-me desta coisa a prpósito do Óscar Faria. Talvez lhe fizesse bem ir assitir a uns combatezitos de boxe. O cheiro a suor misturado com os bálsamos a pairar na sala, entre fumo e insultos variados, podiam trazer alguma luz sobre os assuntos da arte!
Crítica rotineira
Escrever a crítica de arte para um suplemento semanal deve ser trabalho lixado. Digo eu. Um gajo tem de ir a umas inaugurações, arrastar a carcaça até galerias e, mais raramente, museus. Olhar, ver, pensar e, fatalmente, escrever, construir uma opinião. O crítico não pode passar, avisar que não sai nada, que fica uma semana "de molho" por falta de qualquer coisa minimamente interessante para dizer. O crítico tem de criticar e mais nada. Ponto final.Quando acontece não haver opinião que se leia, quando o relógio apressa a escrita e o teclado parece roer as pontinhas dos dedos ao crítico, o caso será angustiante mas não há-de ser nada! A crítica tem de estar pronta a tempo e horas. É preciso aprontar o suplemento, paginar a revista, retocar pormenores. O paginador vê apenas manchas de texto, o designer gráfico trabalha com formas e não com conteúdos. Esses são da responsabilidade do pobre escravo do dever que terá de assinar por baixo e assumir a paternidade da coisa.
Nem sempre me dou ao trabalho de ler as recensões críticas nas páginas dedicadas às artes plásticas mas, quando me entrego à tarefa, fico quase sempre com a sensação de que é mais interessante ler o resumo de um jogo de futebol entre o Rio Ave e o Gil Vicente.
No entanto é nesses textos, tantas vezes sem substância, que se vai fazendo a historinha da arte contemporânea. Criam-se reputações, ignoram-se outras, fala-se do trabalho de alguns amigos e já não é coisa pouca.
Vem isto a propósito do texto publicado hoje no Mil Folhas do Público, por Óscar Faria, com o título Rebentar com a pintura. É uma coisa amorfa, repleta de lugares comuns e ideias estafadas, um texto que me faz ter pena do escriba. Coitado.
Acredito que o trabalho de Bruno Pacheco, "analisado" neste texto, seja interessante. Não posso deixar de ter a impressão que, quem leia o dito cujo, não vai dar-se ao trabalho de arrastar os sapatos até à galeria Quadrado Azul, no Porto, para uma visitinha.
A menos que seja crítico de arte e tenha urgência em escrever qualquer coisa para justificar o cheque do ordenado, lá mais para o final do mês.
quinta-feira, março 30, 2006
Idade adulta
Há questões que surpreendem pela forma estranha como irrompem no nosso quotidiano pardacento. Estamos a dormir, catrapunfas! Somos confrontados com os limites que alguns eternos mafarricos pretendem descortinar na liberdade de expressão e de opinião que tantas queimadelas de cigarro custaram a certos cidadãos camaradas, somadas a longas noites sem sono nem dia seguinte. Andamos para aqui convencidos que certos fantasmas passaram ao baú do esquecimento e, quando menos se espera, lá regressa o ensudecedor ruído agudo das grilhetas que arrastam penosamente, eternidade acima, eternidade abaixo.
Como se a liberdade de expressão pudesse ter limites! Que ideia abstrusa. A liberdade, para o ser, é infinita, mais infinita que o próprio Universo já que a existência deste depende daquela.
Aproxima-se a celebracão do 32º aniversário do 25 de Abril. A nossa democracia já não pode continuar a ser classificada como uma "jovem democracia" caraças! Quando atingirá a idade adulta? Já lá vai o tempo de espremer borbulhas ao espelho. E, no entanto, a nossa democracia continua com a tromba repleta de pústulas sebosas, vivendo ainda a expensas dos pais, incapaz de saír da casa deles e de tratar das borbulhas a preceito.
Temos de ser capazes de a entusiasmar a assumir-se. Chegou o tempo da idade adulta antes que, sem darmos por isso, saltemos directamente da adolescência para a velhice democrática. Uma Democracia com artrite e esclerose múltipla é a coisa menos conveniente que posso imaginar.
terça-feira, março 28, 2006
Lem
Li hoje a notícia da morte de Stanislaw Lem, o escritor polaco, aos 84 anos de idade.É daquelas coisas que causam um ligeiro arrepio, uma certa tristeza. Apesar de estar longe de ser um perito na obra deste semi-louco, tenho como livros de referência Solaris e As Viagens de Ijon Tichy, ambos da sua autoria. Curiosamente tenho dois exemplares da edição portuguesa de Solaris dos Livros de Bolso Europa-América (cheguei a ter 3) e outros dois das Viagens..., edição da Caminho.
Isto porque sonhei (não sei se ainda sonho) adaptar partes ou a totalidade destas obras. Solaris daria uma peça de teatro grandiosa, fosse eu capaz de fazê-lo, e nas Viagens... há contos supreendentes que tanto poderiam ser adaptados aos palcos como a Banda Desenhada, o que quer que fosse!
Na notícia do Público (bem modesta, para ser franco) fala-se do pouco entusiasmo de Lem pelas duas adaptações cinematográficas de Solaris. A primeira do divino Tarkovsky, a segunda, bem mais recente, de Soderbergh com George Clooney no papel de Kris Kelvin, o torturado protagonista deste conto exemplar. Baseando-se apenas nas críticas, já que afirma não ter visto nenhum dos dois, Lem sugere que os cineastas estiveram longe de "ler" correctamente a profundidade de Solaris. Penso que tem razão e, caramba, mostra-me como seria atrevimento perigoso e pretensiosismo da minha parte avançar no interior dos meus sonhos ao ponto de tentar trazê-los à realidade envolvente. Cheguei mesmo a falar com Dinarte Branco neste projecto (o "meu" Kris Kelvin de eleição), mas a preguiça aliada a ataques esporádicos de hulmildade impediram-me de ir muito longe nos esforços produzidos.
Solaris é, a todos os títulos, recomendável. Talvez a tradução que possuo (traduzido da versão inglesa por Inês Busse, edição original de 1961, edição inglesa, Faber and Faber Ltd. de 1970 e portuguesa, da Europa América, de 1983) não seja a mais empolgante forma de abordar a obra incomparável de Lem.
O capítulo II, Os Solaristas, tem algumas das páginas mais absorventes que me recordo de ter lido em qualquer dos muitos livros de ficção científica (e não só) que devorei no final da minha adolescência. A ideia central de Solaris é simplesmente genial. Uma obra a ler, um autor a descobrir para quem não tem a felicidade de o conhecer ainda.
Que visitante me enviaria Solaris?
segunda-feira, março 27, 2006
Tulipas
Cá estão elas, as tulipas que trouxe da terra que as produz e exporta com toda a convicção. Comprei um sacalhão de bolbos num mercado flutuante em Amesterdão e pus alguns na terra, aqui mesmo, na varanda. Entretanto já as pétalas começaram a esmorecer, algumas já caíram. À falta de andorinhas foram elas quem me lembrou a Primavera.Pronto, já fizeram o seu papel e preparam-se para irem fazer companhia ao gato preto. As amarelas já são uma recordação. As brancas florescem como Deus manda.
A natureza é uma coisa maravilhosa!
No meio de tudo isto há um pequeno mistério, para mim que sou um leigo em matéria de tulipas. Nos mercados de Amesterdão as mais caras são as tulipas americanas! Pois, serão as melhores ou uma cena assim, para haver diferença de preços. Ou sofrerão os holandeses da mesma maleita que nós (e, se calhar, todos os outros)? Será que aquilo que vem do outro lado do Atlântico tem outra qualidade? Em matéria de hamburgueres e frango frito não haverá grandes dúvidas. Agora no que diz respeito a tulipas... por esta não esperava! Ah, ganda Bush!!! As tuas tulipas dão-nos a volta à cabeça.
sábado, março 25, 2006
Chavalada
São como um bando de pardais à solta, como putos. O CDS, vulgo PP, é um partido de brincalhões, uma coisa de trazer por casa e levar de taxi. Agora deu-lhes para armar ao sério e o resultado tem sido do melhor (ou do pior, tanto faz).Desde Pires de Lima (o 2º a contar da direita) vir afirmar que precisam de ser um partido mais sexy (!!!) ao Paulinho (o mais à direita) andar a rever a história num programa intitulado O Estado da Arte, na SIC Notícias, os rapazolas têm puxado da imaginação por forma a não desaparecerem do mapa mediático que, do político, começam a ser apagados.
O Paulinho anda mesmo a fazer o caminho que, imagina, irá conduzi-lo um dia à presidência da república portuguesa. Quando as galinhas tiverem dentes. Mas a fé de Paulinho na Virgem prevê a forte hipótese de um milagre...
Certamente que vai esperar pelo fim de Cavaco (não há presidente que não presida dois mandatos consecutivos) para depois arriscar meter o pé em ramo verde.
Já o partido que deixou para trás se comporta como uma família sem figura masculina que possa servir de referência (que me perdoem as mulheres deste país, especialmente a Zezinha do CDS) e anda tudo a desatinar sem querer assumir responsabilidades que possam ser maiores que a ambição de cada um.
São tão lindos.
O Telmito, o 2º a contar da esquerda, tem medo de continuar a ser ele próprio, pelo que dificilmente vai assumir ser algo mais do que o pouco que tem sido. O Lobo, o que está no meio, tem mais queda para pairar no ar, sem nunca tocar o chão, como os anjos da Guarda, não tanto como os anjos de Viseu.
Verdade, verdadinha, o partido destes chavalos está assim a modos que apagado do mundo real. No dia em que disputar umas legislativas sem a muleta do PSD vai ser o bom e o bonito. Ainda vão admitir o Manel Montério de regresso, para tirar umas bicas na sede do largo do Caldas.
Isto porque o lugar de mulher-a-dias já está ocupado. É de uma emigrante ilegal.
Palhaço Mau
Havia as categorias de palhaço rico e pobre e mais outras que desconheço por não ser um entendido nas artes circenses nem um pouco mais ou menos.Apesar dessa falta de conhecimento não me custa nada identificar uma nova categoria de palhaço porque, infelizmente, não é personagem de ficção para arena e tenda, mas sim um ogre bem real e fedorento como um monte de bosta fresca pela manhã. É o palhaço mau.
O principal palhaço mau será o Joker, figadal adversário do Batman. Tem a vantagem de ser boneco desenhado e ter sido interpretado no cinema por Jack Nicholson em filme do inexcedível Tim Burton.
Temos entre nós a personificação de tudo o que um vilão de Banda Desenhada tem de caricatural. Mau, feio, estúpido, agressivo, megalómano e, acima de tudo, louco, completamente louco como nem o chapeleiro jamais conseguiu ser na imaginação fértil de Carrol.
Mesmo sem a foto aqui em cima, já o simpático leitor tinha percebido que me refiro ao demente presidente da região autónoma da Madeira. De imbecilidade em imbecilidade, resolveu agora dar tolerância de ponto no dia 24 de Abril, lá na ilha dele. Se não é provocação não sei que seja, admito que simples estupidez, vindo de quem vem. Mas até quando seremos obrigados a aguentar os despautérios desta espécie de foca bisonha?
Não houve, até hoje, presidente com tomates (senti-me tentado a escrever "colhões" dada a situação em análise, mas achei que seria demasiado forte e de mau gosto) que pusesse na ordem e respectivo lugar este velho armado em rapazola. O Sr. Silva, que até fez as pazes com o ogre (desculpa lá, Shreck!), já começou a levar com as escarretas dele em cima. Primeiro com a historieta da nomeação do Ministro da República, agora com estas patranhas em redor do 25 de Abril.
Assim como assim, Cavaco até cantou a Grândola a plenos pulmões durante a campanha eleitoral que desaguou no seu "entronamento" pomposo e cor-de-rosa (velho). Como pode suportar que o palhaço mau da Madeira venha com atoardas deste calibre?
Vai, Cavaco, mostra-nos de que pau és feito e põe-me esse palhaço no circo!
quarta-feira, março 22, 2006
Sonho de uma noite de Primavera
Os homens do lixo lá levaram o cadáver do gato.
Os vizinhos, do outro lado da rua, voltaram a representar cenas desesperadas em plena calçada. Gritos, choro, cabeçadas violentas no tronco de uma árvore, mais gritos. Os estores subindo discretamente, cabeças despenteadas, mulheres de robe debruçadas, o espaço público transformado em palco, os prédios de apartamentos em suspeito anfiteatro.
Mas a performance daqueles artistas improvisados não foi convincente. Do meu lugar não tinha visão total sobre a cena, o som era deficiente, desisti. Fomos desistindo. O público retirou-se para o interior das respectivas cavernas particulares, com as janelinhas dos écrans a abrirem outras narrativas ao cérebro de cada um.
Comodamente sós.
Tentei regressar a Jerusalém pela mão de Gonçalo M. Tavares mas não me apeteceu continuar a ler. Depois daquele pedaço de drama na calçada aquela literatura pareceu-me pouco.
Liguei o computador. Passeei um pouco, mas nada. Chatice.
A minha filha foi para a cama (terá sonhado com vizinhos cabeçudos a tentarem derrubar a floresta da Amazónia à marrada?)... tudo normal.
Lembrei-me das tulipas que plantámos num vaso da varanda! Fui vê-las e... caramba!!! O milagre dera-se entretanto. Sumptuosas, orgulhosas da sua beleza natural, lá estavam as flores, empertigadas até ao céu que só elas são capazes de alcançar.
Porra, como fora capaz de esquecê-las? A Primavera não chegara com a morte do gato à porta de minha casa, já ali estava, na varanda, só que eu, distraído pela morbidez quotidiana, nem reparara!!!
Quando chegar a casa vou fotografá-las para as mostrar ao mundo.
Terão os meus vizinhos tulipas amarelas na varanda?
Sonham os andróides com carneiros eléctricos?
Será que o gajo das cabeçadas chegou a partir a cabeça?
terça-feira, março 21, 2006
O Belo
A Virgem do Chanceler Rolin, óleo sobre madeira, 62x66cm pintado em 1435 por Jan van Eyck, mestre entre todos os mestres da pinturaFoi há uns anos atrás, não sei bem quando, talvez por esta altura do ano ou mais junto do Verão, a memória atraiçoa-me. Viajei até Paris. O Louvre foi um dos poisos obrigatórios da minha visita, claro.
Sempre sentira uma atracção especial pelas fotos de pinturas de Van Eyck. Desde o (suposto) auto-retrato com turbante vermelho, até ao espanto maravilhoso do casal Arnolfini, os meus olhos nunca se haviam cansado de tentar perceber. Daí que, enquanto secava na fila para entrar no grotesco museu parisiense, a minha mente tentava centrar-se num objectivo principal: procurar Van Eyck.
Assim fiz. Uma vez dentro do espaço do museu peguei numa planta, procurei a localização da "Virgem do Chanceler Rolin" e lá fui em passo apressado. Ignorando tudo à minha volta subi uma escada perdida até ao piso desejado.
Quando entrei na salinha onde repousa a obra de Van Eyck havia dois japoneses (ou seriam coreanos?) bastante baixos com o nariz quase colado ao vidro que protege o óleo nas tábuas. Ajeitei o olhar o melhor que pude entre o cabelo de um e o chapéuzito do outro e senti uma comoção profunda. Senti as lágrimas a dançarem-me nos olhos, carago!!!
É diferente. Não é como ver um filho pela primeira vez. Nem de longe, muito menos de perto. É outra coisa. É uma comoção tão forte que não vem de dentro de nós, vem de mais fundo, um corpo não pode conter uma sensação assim. Uma coisa daquelas leva um homem a suspeitar que possui uma alma.
Os japoneses lá descolaram mais as respectivas recém-descobertas alminhas de japonês. Eu fiquei ali, não me lembro como nem por quanto tempo (pode ter sido muito pouco ou muito muito, não sei nem isso tem o mínimo interesse). Senti-me mais humano. Quando consegui descolar também, sentia-me outra pessoa. Não aquela pessoa que sou hoje, agora. Sentia-me outra pessoa, diferente da que fora até ali mas cujas características, passados vários anos, foram transmutadas naquelas que possuo hoje, que possuo agorinha mesmo.
O mundo dá as voltas que dá e nós com ele. Depois de Paris visitei Londres e a National Gallery, fui apresentar os meus melhores cumprimentos ao "Casal Arnolfini" e admirar as voltas do turbante carmim, mas aquela sensação do Louvre já não era possível. Aquilo, sei-o hoje, só pode sentir-se uma vez.
"Aquilo" fora a Revelação de um certo género de Belo.
Fica a saudade. Dos japonesinhos e das lagrimitas bailarinas a chegarem-se-me ao abismo dos olhos.
segunda-feira, março 20, 2006
Primavera

Printemps,
Frühling,
Primavera,
Spring...
... diz o calendário que chegou hoje.
Não vi ainda as andorinhas. À porta da nossa casa encontrámos o gato da fotografia. Hirto e seco como um pedaço de cortiça. Sombria promessa do calor que está para vir, preto, ainda por cima. A coisa mais preta que o 1º dia da Primavera ns trouxe não foi uma puta de uma andorinha, não senhora! Foi aquele corpo de gato que o gato já lá não parece estar.
Não sei se, por estar morto, será jura de menor azar. Sei que incomoda olhá-lo. Está com um esgar retorcido a desgraçar-lhe a boca, como se suportasse uma dor profunda. Uma dor sem tempo nem nome nem nada mais que a morte, os olhos cerrados, a darem ênfase ao cadáver. Não o tirámos dali.
Talvez mais logo, quando passarem os gajos da recolha do lixo... será que o levam?
Como será a decomposição do bicho, ali, em plena calçada? Onde andam os insectos que se encarregam deste tipo de trabalhos? As formiguinhas diligentes ou outros que tais, onde andam?
Haverá algum puto marado que brinque com a morte daquele cadáver? Ainda lá estará, a morte? Talvez a gozar o fim da sétima vida do bicho. Terá sentido de humor, a morte?
Para primeiro dia de Primavera não está mal. Depois disto não vejo grandes possibilidades de encontrar coisa pior nos dias mais próximos.
Celebrar a Estação da Vida com uma ofertazinha macabra da Dona Morte é, apenas, inesperado. Não quer dizer mais nada que não seja isso mesmo: um gato morto.
sábado, março 18, 2006
Vergonha
Sinceramente, palavra de honra! Tenho tentado olhar para o novo Presidente da República com outros olhos que não estes, os que trago desde que me conheço.A verdade é que nunca gostei do homem. Sempre o considerei um cêpo, sem cultura nem sentimentos de gente, uma espécie de coisa ruim que nos saíu em sorte num dia de azar infinito.
Mas, admito, tudo isto pode ser uma "questão de pele" capaz de gerar um preconceito inultrapassável por muitos anos que viva (eu ou ele, ou ambos os dois). Posso estar tão irritado com a vitória do senhor Silva que não sou capaz de ver como são belos os sentimentos que o animam nem saudáveis as ideias que (dizem) lhe dançam na cabeça mais uma valsa que uma dança macabra. Raios e coriscos, não sou capaz! Não consigo acreditar.
Continuo a vê-lo como um tipo cinzento, incapaz de um gesto criativo, de uma visão minimamente iluminada por uma velazinha que fosse, um pequeno sopro de inteligência. Nada!
Sou capaz, apenas, de vislumbrar um tipo mais vaidoso desde que foi eleito para o cargo actual e, por isso mesmo, ainda mais cego e inchado, convencido de que as coisas acontecem por serem inevitáveis e não por serem fruto do intelecto.
Na perspectiva cavaquista do universo, o homem existe para confirmar a existência de si próprio. A forma como os acontecimentos evoluem depende exclusivamente de uma vontade superior, extra-humana, uma espécie de super-divindade económica, um ser sem corpo nem substância que dita o destino da humanidade: a sua própria extinção graças à superioridade da boçalidade avarenta que governa o universo e o criou à sua imagem e semelhança.
Cavaco não é mais que um profeta de segunda linha desta besta travestida de divindade. Um daqueles que será surpreendido quando perceber que nem mesmo para ele haverá misericórdia quando o seu deus do dinheiro vier cobrar o que considerar que lhe é devido. Aí teremos outra vez aquela careta que Cavaco inventou quando lhe perguntaram o que pensava das declarações de Santana Lopes sobre a sua candidatura a Belém. A imagem perfeita do homem que nos irá representar no mundo.
Vergonha! Vergonhaça da grossa!!!!
sexta-feira, março 17, 2006
Uma fábula fatela
Foi há tanto tempo!Foi?
Tenho uma vaga recordação. Houve um jornal Dinarmaquês que, afinal, era um pasquim de extrema direita, que quis mostrar aos muçulmanos como se pode blafesmar deste lado da barreira mais ou menos visível que separa os nossos mundos.
Mas a blasfémia é uma coisa perigosa pois nunca se sabe se deus terá ou não morrido. Pode estar apenas doente e de baixa ao trabalho ou próximo da idade de reforma e o melhor será ter cuidado e respeitinho.
Pelo menos o deus muçulmano parece ter ainda muita força na verga e manter aquele pessoalzinho todo debaixo de olho. Todo... quer dizer, quase todo, porque afinal de contas os gajos matam-se uns aos outros com uma fúria difícil de perceber para nós, infiéis blasfemos de um modo geral. E, se alguém deve ter vergonha, somos nós, por não acreditarmos que deus está vivo e de boa saúde, capaz de meter na ordem os que sairem da linha e não andarem direitinhos, como manda a lei.
Na verdade, verdadinha, a coisa caiu assim como que para os lados do esquecimento e só quem viu a sua embaixada queimada ou levou alguma calhoada no toutiço ainda se lembra do que terá causado tanta celeuma. A merda dos cartoons!
Manifestações, queimas de bandeiras e imprecações, o folclore mediático do costume, tudo tão vago e balofo como um sapo fumador que estoira numa nuvem de fumo sem ter tempo para contrair um cancro ou outra coisa que valha a pena, uma dessas coisas que provam como deus castiga os que se portam mal e dá prendinhas no Natal aos que se portaram bem.
Resumindo: queria apenas lembrar que não se deve provocar gratuitamente quem acredita em deus só porque deus teima em não dar provas da sua suposta existência (bem pelo contrário). Também não devemos pensar que a fúria muçulmana contra o jornaleco dinamarquês foi orquestrada por um maestro merdoso e com pouco jeito para segurar a batuta e muito menos devemos imaginar que houve exagero na forma como as notícias sobre este quase-acontecimento histórico foi tratado entre nós, porque a nossa imprensa reflecte a singeleza dos justos que caracteriza a nossa civilização bem como o nosso exemplar modo de vida.
Talvez tudo isto não tenha passado de uma fábula estúpida e fatela que acontece num tempo em que os animais ainda falam, só que nós não sabemos disso por não percebermos bem o que são animais. Nem o que é falar.
quinta-feira, março 16, 2006
Um cromo
Estou a ouvir a voz do líder do PSD (como é que o gajo se chama?) lá dentro, a saír da TV (Marques Mendes, como pude esquecer-me!?).A voz vai caindo, monótona, sem chama nem convicção. Parece estar a dar um recado da mãe à vizinha do rés-do-chão. Se falhar alguma coisa ainda leva um estalo.
Lá vai falando, falando, falando, sempre naquele tom lamacento.
Qual poderá ser a onda de semelhante personagem? O que o anima? De onde vem e para onde pensa dirigir-se? Gajos como ele fazem-me sempre pensar que tem de haver algo lá por trás, escondido onde não se pode ver nem saber... algum segredo sobre o combustível que põe o motor do desejo político a funcionar.
Não me parece que vá a lado nenhum.
Tem pinta de líder a prazo, cromo de queimar em fogo lento com requintes de malvadez.
Com um opositor deste calibre pode o Sócrates dormir descansado.
Será que não há mais ninguém com vontade de nos governar? Já não basta o novo presidente de todo o Portugal?
Se é dos partidos políticos que podemos esperar os futuros dirigentes ainda vamos ter de aturar muitos caretas alegres!
Nós... nem por isso.
quarta-feira, março 15, 2006
eDUCAÇÃO Artística
É de modas.De vez em quando fala-se de educação (dispensa bem o "E") e pronto, é como abrir uma caixinha de Pandora.
Desta vez é de educação artística que se faz a conversa, por ter havido um encontro internacional sobre essa coisa que decorreu na Gulbenkian, durante uns dias.
Causa uma certa vertigem a quantidade de declarações de amor e etc. que se fazem nestas ocasiões. Que a arte é tão importante como as ciências, que o indivíduo é como se tivesse alma perneta caso não conheça os feitos dos grandes criadores artísticos, sei lá, é como se um rio tentasse saír todo de uma vez pela torneira do quintal da avó. Um perigo!
Lamentavelmente, quem se dedica ao ensino dessa coisa sabe bem que o problema é como a hidra da lenda do Hércules e já tem mais cabeças do que a floresta da Amazónia tem árvores.
Mas acho engraçado. Sempre gostei de palhaços, mesmo dos mauzitos, com pouca piada desde que tivessem nariz vermelho e falassem brasileiro com sotaque mexicano.
domingo, março 12, 2006
Amiga Frida
Hoje lá consegui visitar a amiga Frida, apesar de muitos outros estarem na mesma disposição e o fazerem também.Confirmei as suspeitas de que ela estaria exactamente como a imaginara. Fraquinha, fraquinha, frágil como um fio de água a escorrer de uma torneira mal fechada. Demasiado fraca para suportar tanta esperança nela depositada.
Um bom negócio, esta casinha temporária onde se encontra a amiga Frida, de visita e esperando visitas. As pinturas expostas são, quase todas, de uma simplicidade amadora. Mal pintadas, desenhadas com dificuldade, as imagens alinham-se timidamente, ponteadas por fotografias para disfarçar a falta de consistência que tudo aquilo tem (ou não tem).
A coisa quase deu para o torto, dentro do meu coração, quando desemboquei na parte da casa onde prantaram três manequins do mais piroso que se poderia encontrar entre as coisass pirosas que o mercado tem para oferecer a clientes pirosos. Os bonecos vestidos com trajes que a amiga Frida poderia ter usado quando foi coisa vivente, enfrentavam uma encenação de uma espécie de enterro macabro com bonequinhos-esqueletos, como no filme de Eisenstein mas sem graça nenhuma por parecerem ter sido adquiridos na loja ao lado da outra, onde foram desencantar os manequins.
Esta exposição é fraca.
A obra de Frida Kahlo poderá permitir melhor do que isto, mas esta... o melhor é ir ver.
Por 5€ se entra e sai dali mais ou menos com a mesma carga de bagagem dentro da cabeça. Acrescenta pouco, eventualmente poderá mesmo retirar alguma coisa.
Não fosse o drama que a amiga Frida viveu e nos mostra de forma tão pueril e sincera e muitos haviam de reclamar o dinheiro de volta na bilheteira. Um flop, amiga Frida, estão a servir-se do teu sofrimento para te exporem como uma curiosidade, uma aberração de feira.
Talvez um dia te possa ver com melhor cara e outros olhos.
sábado, março 11, 2006
O regressado
Ele aí está de novo. Ex-Paulinho das Feiras, ex-Ministro da defesa, ex-líder do PP, ex-uma série de coisas que fazem dele coisa nenhuma. Uma espécie de camaleão-fantasma capaz de tirar o sono a muito boa gente e aconchegar os lençóis a muito sacana descarado.Das suas acções e segredos (in) confessáveis há só um que eu daria tudo para conhecer. Não falo da forma como ele descobriu que foi a Virgem, dita Nossa Senhora de Fátima, quem intercedeu a favor das areias das praias portuguesas ao enviar o a maré negra do crude do Prestige para a costa galega. Isso não é segredo nenhum já que os iluminados falam frequentemente com seres de outros mundos, é um traço que os caracteriza e distingue dos comuns mortais.
Não. O que eu gostava mesmo de saber e conhecer eram as provas irrefutáveis da existência de armas de destruição massiva escondidas no Iraque. Lembram-se? O então ministro garantiu, jurou a pés juntos que tais provas não só existiam como eram um documento eloquente e arrepiante para a visão dos humanos mais puros e castos. Ele, um dos especiais da raça branca-católica-apostólica-romana, não tinha dúvidas portanto não restava espaço para dúvidas. O mundo ficou siderado e avançou destemido para a invasão do infernal Iraque convicto da justeza da acção. Portas tinha falado.
Até hoje continuamos à espera de, pelo menos, saber que provas eram aquelas. Ao que parece a coisa terá sido forjada e o Paulinho enganado na sua boa-fé. Ele e o seu companheiro da altura, o inefável Barroso. Estes dois idiotas úteis (acredito que tenham acreditado nas mentiras que Bush lhes colocou à frente do nariz) acabaram longe do Governo de Portugal.
Barroso lá está, no seu altarzinho de Bruxelas. Paulocas foi condecorado pelo Secretário de estado Rumsfeld, decerto como sinal de gratidão pelo suas tristes figuras sempre que se tratou de dizer "yes" ás políticas militares agressivas impostas pelos EUA.
Agora o homem está de volta. Entra de mansinho e com cara de mau como é costume. Vai desfiando banalidades num novo programa televisivo estranhamente intitulado "O Estado da Arte". Será que o Portas se reclama, agora, artista? Talvez até faça sentido já que a sua actuação na coisa pública se constitui como um verdadeiro "projecto" à maneira do artistas conceptuais.
Os episódios citados (a Virgem e o Desvio do Crude e As Provas Irrefutáveis) são pálidos exemplos do que este artista é capaz de criar.
Um dia destes ainda embrulha Cavaco Silva em papel de seda e manda-o para Vladivostoque, sem selo de correio e com a graça de Deus.
Amen.
quarta-feira, março 08, 2006
O Planeta dos Morcões

A nossa Democracia está em falta. O sistema político saído da Revolução de 1974 não foi capaz de criar condições propícias ao desenvolvimento efectivo da população portuguesa.
É evidente que as condições de vida globais da maioria dos portugueses são hoje muitíssimo melhores do que eram há 30 anos atrás. Já não há crianças descalças, de eterno monco a dançar-lhes nas arcadas do nariz, mendigando pelas ruas com esgotos a céu aberto (pois não?). Mas essa melhoria verificou-se, de um modo geral, entre a população europeia e com outra qualidade na maioria dos nossos parceiros da União. Isso parece, hoje, parte de um processo inevitável, um avanço quase automático do sistema capitalista mais ou menos travestido de Estado Providência, mais ou menos disfarçado de Socialismo Democrático, o que lhe quisermos chamar.
A nossa falta, a falha maior da nossa Democracia, está vergonhosamente retratada naquilo que fizemos ao nosso sistema de ensino. Na sofreguidão do combate ao modelo Salazar-fascista, baseado na crença de que os pobres de espírito serão felizes numa outra existência, uma vez que nesta, a felicidade já tem dono e foi comprada, convictos da bondade “Rousseauniana” da classe operária e do deslumbramento dos camponeses perante o esplendor das primeiras letras, os novíssimos pedagogos da nação lusitana atacaram a ignorância e o analfabetismo à pedrada e ao bofetão, sem subtileza nem inteligência nos processos. Os resultados são os que podemos constatar.
Ao longo destes 30 anos pós-revolução, a evolução das mentalidades foi, a bem dizer, mais uma distorção que uma evolução. Saídos de uma brutalidade rural e fundamentalista católica, os portugueses mergulharam de cabeça em pleno consumismo desenfreado com o Estado Providência a servir de almofada. Largámos Deus e o ditador de Santa Comba Dão para abraçarmos o capitalismo e a União Europeia. Sem tempo para pensar nem tempo para aprender. Basta ver, a título de exemplo, os níveis de endividamento e incapacidade económica para satisfazer compromissos assumidos por um número inacreditável de famílias portuguesas, para percebermos que anda por aí muita gente que não sabe usar uma máquina de calcular e muito menos sabe fazer contas ou planear com tino o seu quotidiano. Ninguém lhes ensinou ou estiveram distraídos nas aulas? Serão vítimas de professores de Matemática abstencionistas! Ou talvez a Escola tenha estado demasiado ocupada a explicar-lhes outras coisas, a prepará-los para longas carreiras académicas que acabaram quase sempre ao fim de 9 anos, para os mais perseverantes. Por muito que alarguemos a escolaridade obrigatória só poderemos daí retirar algum benefício se, primeiro, formos capazes de mostrar ao grosso da população qual o papel de uma escola.
Para o português comum a escola funciona mais como depósito para as suas crias do que local de aprendizagem. Isto porque, sendo reconhecidamente uma selva, Portugal aprende-se nas ruas, na falcatrua, na manhosice, aprende-se no golpe de baú que há-de ser a salvação do cidadão já que, a trabalhar honestamente, todos sabemos que ninguém enriquece. Há sempre a fezada do Totoloto… É triste, mas parece ser verdade. Os mais desfavorecidos pela “sorte” cobiçam os sinais exteriores de riqueza dos seus ídolos (esses sortudos) que enfeitam as capas das revistas e são capazes de tudo para parecerem ser aquilo que nunca serão.
Por um descapotável e um apartamento no centro podem (podemos) até vender a alma ao diabo. A prestações.
domingo, março 05, 2006
Importações
Easter Bunny meets The King, acrílico sobre papel 2005, RSXXICada um tem o jejum que merece ou está disposto a guardar.
Os árabes devotos respeitam o Ramadão, católico que se preze faz da Quaresma ponto de muitíssima honra.
É por isso que o Carnaval, deste lado da Linha Invisível, se faz de excesso e delirium tremens. Os foliões deviam estar a precaver-se para a longa travessia quaresmal, como camelos alinhados na beira de um lago antes de um passeio no deserto. Mas não. Toda a gente sabe que os excessos carnavalescos são uma ínfima parte do regabofe infindável em que transformamos a nossa existência. Como diz a canção: "Carnaval é quando um homem quiser e não faz mal se for vestido de mulher!"
Como passam os nossos reflexos árabes pelo seu Ramadão? Como é o período de jejum do outro lado do espelho? Será tão rigoroso como parece quando vimos as imagens habituais do mundo islâmico? Tanta miséria e tanto sangue não deixam adivinhar grande folga prá folia.
Como será no Dubai?
Por cá nem os católicos são ainda o que já foram. Qual jejum qual caneco! É ver tudo a dar à dentola com uma fúria de marabunta desenfreada. Cozidos à portuguesa, feijoadas repletas de carne de porco, gordura a escorrer da panela e do canto da boca. A gula do costume.
Sinceramente tenho alguma dificuldade em enquadrar a figura do Coelhinho da Páscoa.
De onde vem aquele mostronço?
Um coelho que põe ovos? Que puta de aberração! Ainda por cima são ovos de chocolate.
Como querem que um gajo aguente os rigores do jejum quando nos oferecem a tentação assim, embrulhada num pele de coelhinho adorável?
Como já não sou católico desde antes da adolescência deixei de me preocupar com o fogo do Inferno e estou-me (ainda mais) a lixar para a Quaresma. Mas o coelho intriga-me.
É bom ou mau?
Põe os ovos ou tem contrato com a Kinder?
É diabólico?
Oferece as guloseimas à borla ou quer algo em troca?
Cá pra mim o bicho é tipo São Valentim ou mesmo coisa vinda das mesmas bandas de onde nos chegou o Haloween.Um daqueles produtos de importação para vender mais qualquer coisa ao pessoal, fazendo-nos crer que se trata de alguma tradição vadia que veio para ficar entre nós.
Grande treta de conversa...
Ainda tenho 1 sonho ou 2

Os Pop Dell'arte continuam a ser um fenómeno sem paralelo no universozinho da música portuguesa.
Sem querer esquecer ou desmerecer outras bandas interessantes (Mler If Dada, GNR, quem mais?) nem ignorar a grandeza incomensurável de José Afonso, continuo a deslumbrar-me com a sonoridade incomparável de João Peste, Sampayo e companhia.
A recente edição de uma colectânea da obra da banda veio reavivar as memórias. E aí estou eu aos saltos dentro do cérebro que me serve de habitação.
João Peste é, no universozinho dos meus heróis, uma espécie de divindade, um Pã assustador e tonitruante, pronto a sobressaltar o viajante na curva da esquina com a surpresa do seu sopro. Fica a minha admiração e o meu tributo.
sábado, março 04, 2006
Se...
do Islão não for mais que um tremendo logro? Se por trás daqueles gajos enfurecidos e assustados com os castigos divinos houvesse um bairro repleto de famílias a passearem ao sol carrinhos com bébés redondinhos de chucha da Chicco entalada nos sorrisos?E se os prédios que se vislumbram em fundo, para lá dos turbantes saltitantes, estiverem repletos de electrodomésticos made in Germany e brinquedos de plástico made in China, com donas de casa em avental absortas das coisas que fazem a vida, mergulhadas na trama de um novela indiana?
E se por trás da ignorância e do fanatismo religioso houver pessoas capazes de fazer o almoço sem estar a pensar na melhor maneira de fritar os miolos a um inimigo imaginário?
E se a imagem que recebemos do Outro, do Árabe, não fosse mais que uma construção falsa, ainda por cima insípida e falha de imaginação?
E se a imagem que temos de nós próprios fosse, também, produto artificial de uma sociedade tablóide?
E se, para cúmulo dos cúmulos, Deus, afinal, existisse e resolvesse vir pôr ordem nesta merda toda? Com uma bomba atómica em cada mão...
sexta-feira, março 03, 2006
Duas coisas

Primeira coisa: vi hoje (quantas vezes já vi eu esta merda?) um manifestante muçulmano na Índia dizendo que não queria Bush no seu país. Ele (o manifestante) e os seus amigos (outros como ele) são avessos à presença do Presidente americano porque é responsável pela morte de muitos muçulmanos. Grande novidade! A conversa do tal manifestante mais a responsabilidade do tal presidente nas tais mortes.
Gostava de ouvir a opinião do dito indiano relativamente à morte de muçulmanos no Iraque ás mãos de outros muçulmanos.
O repórter terá colocado esta questão ao afogueado manifestante? Decerto que ele estará tão indignado com a carnificina terrorista quanto eu ou o meu caro leitor. Mas ficamos na dúvida, na ignorância, ficamos apeados na distância que nos separa culturalmente e naquela que os meios de comunicação social vão cavando implacavelmente. O ódio (podemos falar de ódio?) que nutrimos uns pelos outros é alimentado da ignorância em que vivemos.
"O sono da razão engendra monstros" reza a gravura do imortal Goya. Pois engendra. Somos nós, adormecidos, com a pança cheia de coisa nenhuma.
Segunda coisa: Vejo-me e desejo-me para explicar aos meus alunos de História da Cultura e das Artes, 11º ano de escolaridade (por enquanto ainda não-obrigatória) conceitos básicos relacionados com o Cristianismo. A cagar e a tossir lá vamos avançando, como bois a lavrar terra com arado de madeira.
Entretanto (o programa da disciplina é longo e implacável) abordamos o capítulo relativo à "Europa sob o signo de Alá". A estranheza é semelhante. Os meus alunos estão mais ou menos a cagar-se para o assunto. E a tossir também.
É tudo a mesma coisa. Ignorância e indiferença. Os meus parcos conhecimentos sobre tão complexos períodos históricos revelam-se impotentes para despertar a curiosidade e alimentar o tão desejado espírito crítico que deveria germinar nas mentes da catraiada.
Nós consumimos. Os árabes são consumidos.
Entre uns e outros a caricatura de Deus.
quinta-feira, março 02, 2006
O que devíamos ensinar ás criancinhas
O endividamento acima das suas possibilidades económicas de uma percentagem significativa das famílias portuguesas mostra como, de um modo geral, o bom povo lusitano ainda não compreendeu as regras de funcionamento da sociedade de consumo.A verdade, verdadinha, é que saltámos de uma ruralidade saloia e miserável para uma pós-modernidade igualmente saloia e igualmente miserável. 30 anos após o 25 de Abril e 500 reformas do ensino depois, esquecemo-nos de que a escola tem, também, a função de preparar os cidadãos para a vida activa, explicando-lhes as trivialidades da existência em sociedade.
Mas não, apostamos em querer ensinar tudo ás criancinhas, logo ali, desde a mais tenra idade (actualmente, o currículo do 7º ano de escolaridade tem 14 (!!!???) disciplinas diferentes!!!). Isso mostra como, na realidade, nos estamos a borrifar. Não queremos ensinar-lhes nada. Ainda por cima não temos tempo para estar com elas (com as criancinhas) e fazemos de conta que está tudo bem. As ruas já não são o que eram, os putos prantam-se defronte aos écrãs e encontram aí, na TV, na NET, nas consolas de jogos, o amigo que falta, o progenitor incansável, a avózinha simpática, o puto fatela que lhes deixa o nariz a pingar sangue depois de um tremendo soco na fachada.
Assim não vamos lá. As igrejas foram substituídas (para pior) pelos centros comerciais, o consumo é compulsivo, sem regra nem tino, como mostram os tais números sobre a falta de pagamento de avultadas quantias que levam as famílias a perder investimentos mal feitos, destapando contas por fazer, histórias de uma estupidez boçal reveladoras de uma falta de preparação incrível.
Os modelos sociais são os que existem através das capas das revistas, coisas do género Castelo Branco ou Lili Caneças. Tivemos um aviso sério quanto ao estado a que chegámos quando Santana Lopes alcançou a chefia do governo mas parecemos de novo entregues ao estado catatónico que nos caracteriza enquanto povo. É tempo de tentarmos poupar as criancinhas.
Uma sugestão: passemos They Live (Eles Vivem), de John Carpenter, nos jardins infantis em vez do Bambi e outras tretas do género. Temos de preparar as criancinhas para aprenderem a distinguir a verdade da realidade e isso com carácter de urgência.
A começar amanhã. (Amanhã é já hoje e amanhã hoje será ontem).
quarta-feira, março 01, 2006
Bed time for democracy*
Este gajo está a deixar a República Portuguesa à beira de um ataque de nervos.Trapalhada sobre trapalhada, falta de personalidade gritante e uma dignidade semelhante à de um armário de cozinha, fazem dele um palhaço triste da nossa Democracia. O pior é que tende a arrastar o próprio sistema democrático para o registo bufo que vem pautando os anos que já leva à frente da Procuradoria Geral da República.
Alapado ao lugar que ocupa, não descola nem por nada deste mundo. Se tivesse um pingo de dignidade, há muito que se tinha posto na alheta. Os maus serviços prestados ao país serão recompensados com reforma e mordomias devidas aos titulares destes cargos, que as merecem independentemente da qualidade dos serviços prestados.
A historieta do "envelope 9" é mais uma grave machadada desferida na Democracia portuguesa. O processo tem sido conduzido com a habitual falta de frontalidade (há que dizê-lo, onde estava este gajo no 25 de Abril?) e, para encobrir a vergonhaça que é a Procuradoria orientada por este "senhor", põe-se de pantanas a liberdade de imprensa.
Com personagens destas em lugares determinantes para o bom funcionamento do sistema democrático temos uma imagem aproximada da qualidade da nossa democracia. 30 anos após o 25 de Abril seria de esperar um sistema político mais democrático e menos entregue ao cinzentismo intelectual dos titulares de cargos públicos.
Já vai sendo ridículo dizer que a nossa é "uma jovem democracia" a menos que aceitemos as teorias correntes que alargam até à velhice o período da adolescência. Afirmar que "é uma democracia consolidada" não passa de uma piada de mau gosto na qual Souto Moura é personagem principal. Daquelas que dizem as partes parvas da piada.
*Título de um álbum dos Dead Kennedys
terça-feira, fevereiro 28, 2006
O buço de Frida Khalo
A pequena multidão que se deslocou ao CCB no Domingo faz da exposição de 26 pinturas e mais umas coisas relacionadas com a vida de Frida Khalo um fenómenozinho no nosso acanhado universo artístico.Anteriormente constituiram sucessos assinaláveis as exposições, em Serralves, das obras de Andy Warhol, Bacon e Paula Rêgo.
Haverá algo de comum entre estas exposições?
Atente-se, a título de exemplo, na actual exposição da pintora mexicana.
Mais do que a qualidade da sua pintura, o público conhece (ou pensa conhecer) a personagem. A obra funcionará mais como um espelho, através do qual o espectador poderá confirmar a imagem que construiu da sua autora.
O espectador eventual, amador de pintura ou simples consumidor de suplementos dominicais de semanários, sente-se preparado para encarar as obras de Frida pois estas aparecem-lhe descodificáveis na sua brutalidade simples.
São suficientemente explícitas para não produzirem grandes problemas conceptuais e suficientemente "naifs" para tornarem suportável a visão de certos horrores que, num registo mais académico, poderiam tornar-se chocantes ou mesmo insuportáveis à vista do espectador leigo.
Há assim uma espécie de aproximação da pintura à notícia tablóide. "Coluna desfeita produz obra-prima!" ou qualquer coisa deste género. Isto retira uma carga erudita desconfortável que tantas vezes acompanha o fenómeno artístico e, embora a pintura de Frida Khalo seja tão áspera e agressiva como as instalaçõs de Hirschhorn, revela-se muito menos (quase arriscaria dizer, nada) hermética e próxima das experiências de vida do consumidor.
E o que tem isto de comum com as outras exposições atrás citadas?
Bom, todos os artistas referidos são personagens quase literárias. O ícone Pop, o pintor maldito e a genialidade lusitana temperada pelos nevoeiros londrinos ombreiam com a masculinidade feminina do buço de Frida. São todos suficientemente humanos para serem queridos e, sobretudo, compreendidos.
Isto coloca uma questão: o que esperamos nós da obra de arte?
Será identificação? Talvez.
E, se for assim, ficam os robôs de Leonel Moura postos de parte do universo da criação artística?
As questões conceptuais da arte continuam a ser pasto de pequenos rebanhos de seres algo estranhos, algo raros, mas que existem. Disso não tenhamos dúvidas.
Entretanto admiremos o buço de Frida (quando a febre baixar e as filas forem menos embaraçosas).
domingo, fevereiro 26, 2006
67 cêntimos

Hoje de manhã fui até ao CCB. Ainda me resvala a língua quando desdobro a sigla e, sem querer, chamo-lhe Centro Comercial de Belém. Garanto que é sem maldade.
Como noutras ocasiões dispunha-me simplesmente a preencher um espaço de tempo, de outra forma vazio. Já que ali estava dirigi os meus passos para a entrada da exposição dedicada a Frida Khalo prevendo uma visita mais ou menos rápida, sem grandes expectativas quanto à qualidade do assombro que me pudesse aguardar.
A surpresa foi a fila que se estendia desde a bilheteira até à porta. Fila bem compacta, produzindo um ruído característico, uma espécie de zumbido aveludado ecoando de mansinho, a mostrar que aquelas pessoas eram, como eu, burgueses razoavelmente educados apreencherem um espaço de tempo, num Domingo de manhã, de outro modo vazio.
Nunca tinha visto semelhante burburinho naquele espaço. Quase parecia a Tate Modern ou o Prado em dia de inauguração. Como queria apenas preencher um espacinho vazio e não transformar um momento em alguns minutos demasiado longos. dei meia volta.
Saí de novo para o sol. Reparei que grande parte dos visitantes falavam espanhol (seriam mexicanos?) e vestiam roupas tipo catálogo da La Redoute o que dava um aspecto muito suave e cómodo ao ambiente geral.
Regressei para junto das minhas acompanhantes (mulher e filha). Enquanto elas se dirigiram à Bertrand para namorarem algum livro interessante, fui beber uma bica à cafetaria. Aí prolongava-se o ambiente geral do Centro. Mais burgueses, mais roupinhas jeitosas e aquele suave zumbido geral de quem fala num tom apropriado a qualquer espaço e situação.
A surpresa do dia foi o preço do café. 67 cêntimos! Não 60 nem 70, mas 67 cêntimos!!! Que raio de conta terá conduzido áquele preço? Aquilo deve dificultar os trocos, complicar as contas, baralhar os espíritos. Rebusquei os fundos da algibeira e lá descobri umas quantas moedinhas de 1 cêntimo que me permitiram entregar ao sizudo empregado, por detrás da máquina registadora, a quantia mágica que ali corresponde a uma chávena de café.
Enquanto aguardava civilizadamente a minha vez de ser atendido pensei um pouco no assunto. Conclui que 67 cêntimos devem correponder a um qualquer limite máximo, deduzido pelo cálculo exacto de um gestor ambicioso.
67 cêntimos!!!
Quanto orgulho não deverá proporcionar ao seu autor tão extravagante preço.
67 cêntimos!!!
Aquilo é quase uma expressão de Beleza!
Na verdade expressa bem a teoria mais portuguesa de Portugal inteiro que é ilustrada (como seria de esperar) no popularíssimo ditado que garante que "grão a grão, enche a galinha o papo". Neste caso, cêntimo a cêntimo e sem galinha na equação.
Aqueles dois cêntimozinhos distorcem a realidade e lançam o visitante estrangeiro na vertigem do espaço mental do português. É nas coisas pequenas que encontramos expressão para a nossa fé. Tal como " a mulher e a sardinha se querem da mais pequenina" (!!!???) e outras máximas do género, naqueles dois cêntimos a mais (ou serão 3 a menos?) confirmamos a dimensão genial do empresário português.
Seja lá como fôr, a verdade é que não cheguei a visitar a amiga Frida, mas ficou a promessa de lá voltar. Até porque desejo experimentar de novo a vertigem daqueles extraordinários 67 cêntimos!
quinta-feira, fevereiro 23, 2006
Revolução/evolução

As coisa mudam!
Todos sabemos que as coisas mudam. Oh, sim, e como mudam!
Estão diferentes.
Tranformam-se ou transformaram-se, já não são iguais ao que eram.
Algumas coisas nem sequer são parecidas com aquilo que foram, de tal modo mudaram.
Gostamos de comentar a mudança, de a observar. É curioso ser espectador.
Os problemas começam a surgir quando somos actores num processo de mudança.
Principalmente se a nossa actuação implica alterações nos hábitos e rotinas que havíamos adquirido ao longo do tempo.
O lento e dócil, o saboroso passar do tempo que confirma a solidez das coisas que tomamos por reais.
Actuar na mudança, pela mudança ou mesmo contra ela, exige esforço, envolvimento, quebra de rotinas. Incómodo.
Um dia mais tarde, ao olharmos para trás, talvez possamos compreender o que se passou, qual foi o nosso papel.
No presente, a falta de distância relativamente aos acontecimentos, a dor efectiva (não a sua memória) provocam uma estranha vontade de afastamento.
A mudança que se lixe!
Amanhã falamos... ou não.
terça-feira, fevereiro 21, 2006
O robô-caveira

Leonel Moura convidado pelo Museu de História Natural de Nova Iorque (AMNH) a criar um robô pintor para a sala da humanidade.O AMNH tem em curso um projecto de renovação de vários módulos expositivos, entre os quais se destaca a sala dedicada à humanidade. A abertura está prevista para finais do corrente ano. A sala da humanidade apresentará um percurso desde os primórdios até aos dias de hoje. De forma a representar algumas das questões que as novas tecnologias colocam, em particular com o aparecimento da robótica e das máquinas inteligentes, o AMNH convidou Leonel Moura a apresentar uma proposta de instalação permanente com um robô pintor.Considerando que, mais do que outros, um robô capaz de produzir a sua própria arte questiona de forma profunda a natureza do ser humano.
Esta será uma questão fundamental.
Podem as "coisas" produzidas por um robô ser consideradas obras de arte?
Na foto Leonel Moura olha o parceiro de aventura como Hamlet olha a caveira.
Sobre o palco, a atenção dos espectadores suspensa da mais célebre das frases: "To be or not to be..." e a luz do projector queima a pele do actor, um suor ligeiro evapora-se e sobe em direcção ao céu virtual que é o da teia, sobre as tábuas.
Apesar de sabermos que tudo não passa de teatro, de representação, os corações batem mais depressa ou acomodam-se na dúvida aveludada que ganha contornos firmes, quase verdade, quase mentira, de tão sólida.
É a beleza a surgir, lá do fundo, vinda do quase nada.
Leonel Moura anda a brincar com a arte. A arte agradece, farta de ser olhada sempre da mesma maneira, sempre como comércio, como espelho mágico, sempre uma feira de vaidades.
Com a chegada dos robôs artistas podem as premissas mudar?
Aguardemos os próximos episódios.
http://www.lxxl.pt/artsbot/index.html
sábado, fevereiro 18, 2006
Comentário (Olaio)

Na sequência do comentário que deixaste no "100 Cabeças" quero apenas dizer-te que os pruridos islâmicos causados por eventuais ofensas à superioridade da sua visão religiosa me causam náuseas. Da mesma forma, as (pouco) discretas manobras da Opus Dei contra a versão cinematográfica do Código da Vinci, são provas de que o monstro de intolerância prepotente das religiões está apenas adormecido. Qualquer pretexto serve a estes animais para saírem da toca e virem abocanhar-nos as canelas.
Nesta história dos cartoons não tenho dúvidas de que há um aproveitamento perigoso e premeditado de certas forças obscurantistas que tentam dividir o Ocidente naquilo que ainda tem de puro e defensável que é o desejo de liberdade conseguido através da separação clara entre religião e estado.
Não me comovem os gemidos rancorosos dos mullahs e outros que tais, tal como não me comovem os gemidos dos padrecas da Opus Dei. Pessoas que não respeitam a liberdade alheia (que não respeitem a sua própria é lá com eles mesmo que seja masoquismo) não merecem o meu respeito. Daí que a reacção exagerada e orquestrada da "rua" árabe contra o Ocidente de uma forma geral, encapotada pela "crise dos cartoons" me ponha de pé atrás e mãos à frente, em posição defensiva.
O que me cheira a petróleo são latidos como os do Freitas, ou da Administração Bush, que querem parecer anjinhos no meio da trovoada. Metem um bocadinho de nojo.
Os árabes foram invadidos, humilhados, derrotados, etc.? Azarucho! Afinal de contas também já tiveram a sua Era e não consta que tenham sido tão mansos como os cordeiros quando dominaram a Península Ibérica (para só dar um exemplo). A História não morreu. Isso é treta pós-moderna para consumo de Yuppies enfadados com o quotidiano da empresa. A História está aí, perante os nossos olhos, em todo o seu horrível esplendor! Só que nós temos consciência de que estamos a vivê-la e, do "outro lado", os fanáticos religiosos nem sequer aceitam que tal coisa exista (vê só a interpretação iraniana do Holocausto!).
Para eles só existe "O" livro. Eu cá ainda ontem estive a ler O Homem Aranha.
Um abraço.
(na imagem o Rato Mickey é representado como um evangelista, à maneira dos manuscritos iluminados da Idade Média... elucidativo, não?)
Rui Silvares
sexta-feira, fevereiro 17, 2006
Deus havia de ser dos nossos
No tempo em que os animais falavam foi importante haver quem impusesse visões ordenadas das coisas que compunham o mundo e a existência. A religião funcionou, então, como Lei e permitiu a sobrevivência da espécie humana. Os deuses foram criados para nos protegerem do mundo hostil e, sobretudo, de nós próprios.Houve sempre povos que reclamaram para si favores especiais das divindades. Alguns ainda hoje o reclamam. E fazem oferendas e matam os próprios irmãos só porque interpretam de forma diferente a suposta mensagem divina. Os fanáticos andam por aí ao cheiro e são atraídos quando sentem o odor de merda e sangue misturado. Acorrem, de imediato, como hienas.
Agora que triunfámos sobre a barbárie e sobre a própria divindade, somos livres. As divindades deixaram de fazer sentido e tornaram-se desnecessárias. Somos bem capazes de tomar conta de nós próprios e dispensamos o paternalismo do criador que inventámos.
Deus não morreu, simplesmente nunca existiu como sabemos. Como sempre soubemos.
No mundo actual a religião não tem mais o papel regulador das sociedades, tornou-se um arcaísmo. Paz à sua alma.
Mas o mundo, longe de estar globalizado, está partido em pedaços. Se vivemos a era tecnológica deste lado do planeta, outras zonas existem onde a religião continua a prevalecer sobre a inteligência. Esse problema poderá tornar-se verdadeiramente preocupante a médio prazo.
O Império Romano tem sido recordado a propósito daquilo que designamos por Crise dos Cartoons. Todos sabemos como se desgregou a Ocidente como um baralho de cartas por jogar. Ao cair o poder imperial, a Europa mergulhou num período letárgico esquecendo toda a herança cultural clássica que acabou usurpada pela hierarquia cristã que veio a impor a sua lei por muitos e longos séculos.
Agora que nos conseguimos libertar, mais uma vez, do jugo dogmático e castrador da religião não podemos permitir que um bando de fanáticos venha cuspir sobre as tumbas dos que fizeram da grandeza do espírito humanista o destino da Europa.
Deus, se existisse, haveria de estar do nosso lado.
terça-feira, fevereiro 14, 2006
Somos DEVO!

A história de Abraão é exemplar. A divindade revela sadismo e mesquinhez. O homem mostra uma dimensão imbecil e crédula que todos sabemos possuir mas preferimos ignorar. O anjo cumpre o habitual papel de mensageiro e pouco mais. Já Isaac não passa de uma vítima inocente , tão relevante como a ovelha que surge vinda dos limites da imagem. Tudo para mostrar, a quem quiser ver e acreditar, onde pode conduzir a fé.
À beira do abismo, ao crime eminente. Pouco mais longe, muito mais perto.
Ao estar disposto a sacrificar o próprio filho para satisfazer uma ordem do seu deus, sem resistir, Abraão toma uma atitude próxima da do radical fundamentalista que oferece o filho em sacrifício com um cinto de bananas de dinamite. Em nome de Alá. Em nome de uma crença infundada numa entidade improvável.
Andamos a discutir questões relacionadas com a nossa liberdade individual por causa de crendices deste género? Porra, não pode ser!
Como diz a canção dos DEVO "Deus fez o homem mas usou o macaco para o fazer" e remata com a pergunta/resposta que dá título ao álbum: "Nós somos homens? Somos DEVO!"
Ora nem mais! A humanidade não merece muitos de nós e muitos de nós não merecem a humanidade. O resultado é a extinção dos orangotangos.
domingo, fevereiro 12, 2006
Sombria profecia
Quer-me cá parecer que há alguém (ou talvez alguma coisa) que anda a alimentar-se do que não devia.Há alguém (ou alguma coisa) gulosa do mal-estar alheio, que cresce e se sente mais confortável quando a miséria avança, seja na versão material ou cultural, a miséria é para este alguém (ou alguma coisa) um pitéu saboroso.
Esta coisa (ou Alguém, com maiúscula) devora-nos a alma e atira os restos aos bichos que mantém como animais de estimação. Estou convencido que estamos perante um caso de polícia ao nível do Divino. Anda um deus qualquer, estúpido ou enlouquecido pela sífilis, a estragar ainda mais a humanidade.
Lá vai o tempo em que sonhei que o mundo estava todo ao contrário por não haver quem se interessasse pela posição relativa das coisas no Universo. Andava a estudar Geometria Descritiva no mais elevado grau de dificuldade, o que explica tal alucinação. Mas, apesar dos miolos fritos no lume brando da Geometria, havia algo de inquietante na visão dos meus sonhos.
Deus era afinal o Diabo que, com as manhas que todos sabemos possuir, nos havia convencido de ser bom e bem intencionado ao ponto de lhe chamarmos Deus do Amor e outras patetices do género. Assim se explicava tanto mal e tamanhas maldades a assolarem a tristeza deste mundo, ainda por cima premiada por multidões submissas a encherem os templos de lamentos e outras coisas semelhantes a orações rezadas num zumbido de mosca.
O mundo estava ao contrário! Na verdade, uma vez que o mundo é esférico, isso não deveria constituir surpresa nem provar rigorosamente nada de importante. A não ser que entre Deus e o Diabo a diferença resida, apenas e lamentavelmente, numa questão de posição e perspectiva.
Chiça penico, convenhamos que os meus sonhos de adolescência não foram particularmente saudáveis, mas também, perante o quadro actual, até que poderão ser considerados sonhos cor-de-rosa (desde que não sejam rosas de paixão que aí já a cor é outra!).
Sim, pois, e tal e coiso, "Venha o Diabo e escolha", "Valha-nos Deus", pátati, pátatá, a religião regressa em força para cumprir a sombria profecia de João Paulo II para o jovem século que agora vivemos.
Disse ele que este seria o século da religião.
Querem lá ver que o homem, afinal, era bruxo!
sábado, fevereiro 11, 2006
Manipulados

A manipulação das consciências alheias é uma espécie de desporto para os fundamentlistas islâmicos.
Praticam-na com volúpia e mestria.
Ao que parece, esta treta toda à volta dos cartoons dinamarqueses não passa disso mesmo: uma treta de merda! Mais do que preparado pelos fazedores de milagres mediáticos de serviço para os lados do Oriente, o embuste pegou de tal modo que nos pôs a discutir o sexo dos anjos... outra vez.
Sempre que nos aparecem nos écrans uns planos apertados mostrando uma turba de gajos enfurecidos a berrar e a esbracejar como loucos pensamos "Lá estão os árabes!"
Os árabes? Mas que árabes?
Serão palestinianos ou libaneses? Talvez sírios ou de outra nacionalidade qualquer. E que fazem eles? Estão sempre em protesto, a queimar bandeiras? Representam todo o mundo árabe? A sua razão de existir é apenas destilar veneno contra o satã ocidental? Como nos vêem eles? Serão capazes de distinguir a Dinamarca da Inglaterra ou de Portugal? O que somos nós? Uma multidão de comedores de hamburgueres, infiéis maldosos, prontos a beber petróleo por uma palhinha?
Andam a brincar com a nossa percepção da realidade e nós nem nos apercebemos como estamos a ser manipulados! Nós, deste lado, e eles, do outro. Há quem faça deste ódio, que cresce e se desenvolve como um incêndio num palheiro, o principal objectivo das suas vidas. E esses estão a alcançar os fins a que se propuseram.
Em nome de quê? No interesse de quem? Será tudo uma questão de fanatismo religioso puro e duro? Contas antigas por ajustar? A coisa ultrapassa a minha capacidade de compreensão, o que também não é grande admiração.
Arco recto
Ao ler a crónica de Nuno Crespo para o Mil Folhas sobre a Feira Internacional de Arte de Madrid, com o título Arte ou mercado?, sente-se uma leve desilusão do escriba por não haver grandes novidades.Desde que a originalidade se tornou um atributo do objecto artístico que há uma ânsia de surpresa difícil de satisfazer. O artista é visto como um inventor de formas inéditas, de técnicas inimaginadas, uma espécie de mago conceptual mais profícuo que a própria divindade.
Este desejo do inédito resvala com frequência para um discurso plástico vago e, predominantemente, formal. Num universo desta natureza, o pintor e o escultor tornam-se anacrónicos, as linguagens e técnicas clássicas perdem consistência e arriscam-se a ser fastidiosas para quem procure com avidez a tal novidade estonteante.
Os críticos, ansiosos por encontrarem uma obra que lhes permita estabelecer um discurso, também ele, inovador, acabam a escrever no vazio, a comparar o que vêm com aquilo que viram e o que desejavam ter visto (mas que não sabem se existe ou tem possibilidade de existir).
A consciência da História da Arte torna-se demasiado presente e demasiado pesada. A tentativa de fazer História (pelos artistas) e de narrar a própria História estando dentro dela (pelos críticos) é confundida com estranheza e originalidade. Uma obra que mereça referência (um acto histórico de quem faz e de quem narra) tem de ultrapassar as barreiras do "já visto" e do "já feito". Como se fosse possível, 100 anos depois, recuperar o espírito das grandes vanguardas artísticas do início do século XX. Não é.
Só a distância permitirá construir a História. Apollinaire fez a apologia dos pintores cubistas. Hoje falamos de Picasso e Braque nas aulas de História da Arte. Um pouco de Gleizes, mais de Juan Gris. Estaremos esquecidos de alguém? Haverá justiça nestas referências? Quantos artistas foram ignorados, quantos ficaram fora do comboio dourado dos mitos da arte contemporânea? Quantos não foram suficientemente arrojados para surpreender os olhos dos que escreveram a História daquele tempo?
Todos os anos haverá uma nova Arco, carregada de artistas excelentes que ali se deslocam para venderem os produtos do seu trabalho. Arte ou mercado? Quem se preocupa com isso? Afinal de contas a arte foi (e será) sempre um mero negócio mesmo quando os artistas se transcendem, para nossa felicidade.
Quem não vende não se vê.
Quem não se vê é como se não existisse (mesmo que exista).
quinta-feira, fevereiro 09, 2006
Uma questão de fé
Curiosa a forma como um jornal iraniano pretende "responder" à provocação dos badalados cartoons com Maomé. O anunciado concurso internacional para caricaturar o Holocausto tem veneno q.b. e vai baralhar muita cabeça por esse mundo fora.
À boa maneira dos judeus a resposta árabe é do género "olho por olho, dente por dente", neste caso é mais "cartoon por cartoon".
Estão no seu direito mas, ao responderem desta forma, não estarão a justificar aquilo que tanta indignação lhes causou?
O presidente iraniano (não consigo fixar o nome do homenzinho) aplaude a iniciativa já que, na sua elegante perspectiva, o Holocausto não passa de um mito, um embuste com a única finalidade de mandar os judeus para onde estão agora.
Embuste por embuste, mito por mito, as religiões não ganham nada quando tentam confrontá-las com a história.
Simplificando: as fotos (entre infindáveis documentos incontroversos do Holocausto) mostram com crueza e a eloquência que só as imagens possuem aquilo que foi a barbárie nazi.
Já para provar as andanças de Maomé e o seu carácter divino pouco (arrisco mesmo, nada!) há que nos garanta um rasto de verdade.
O mesmo se passa, por exemplo, com John Smith, o profeta mormon, os videntezinhos de Fátima e outros representantes desta classe profissional.
Fica-se com a fé o que, convenhamos, não é lá grande coisa.
terça-feira, fevereiro 07, 2006
Memória Visual

No último filme de Woody Allen, Match Point, a acção desenrola-se em Londres.
Escrito e realizado pelo clarinetista de óculos esquisitos, este será um dos melhores filmes que já foi capaz de engendrar.
Um argumento interessante, um conjunto de actores dirigidos com excelência e eficácia narrativa. Que mais podemos pedir para nossa felicidade?
Quem se dispuser a assistir a este filme certamente dará o seu tempo por bem empregue (se for do género de pessoas que se preocupam em não perder tempo, como se isso pudesse valorizar a nossa existência de alguma forma).
Numa das cenas fulcrais surge, por um cagagésimo de segundo, um stencil de Banksy (semelhante ao da imagem). É uma daquelas imagens que só é vista por acaso, talvez só repare nela quem já a tenha visto antes. E, no entanto, tem um significado explícito no momento da narrativa em que é incluída. Um pormenor.
Ou Allen pediu a Banksy (ou a um aderecista, mais simplesmente) para executar naquele exacto local aquele grafitti ou a escolha dos décors foi minuciosa e feliz.
Coisinhas como esta fazem a diferença. E, se Match Point já me havia impressionado positivamente dentro da sala, agora, com tempo e distância, mais me convenço que se trata de um excelente filme. Até os mongas dos críticos do Público se desfazem em estrelas e bolinhas perante a mestria do velhote.
Em que cena surge este grafitti? Só vendo.
Sabendo que esta imagem faz parte da película penso que seja impossível passar desapercebida.
Bom filme.
domingo, fevereiro 05, 2006
Metamorfose

"Os Estados Unidos também quebraram o silêncio. "Estas caricaturas são evidentemente lesivas para as crenças muçulmanas", declarou o porta-voz do Departamento de Estado, Justin Higgins, citado pela AFP. "Apelamos à tolerância e ao respeito de todas as comunidades, das suas crenças religiosas..." blá, blá blá.
Haverá limites para a hipocrisia?
Onde está o respeito proclamado quando se fecham a sete chaves prisioneiros na escuridão de Guantanamo? O que estão a fazer com aqueles desgraçados? Não consigo evitar imaginar cenas do tipo X Files.
Experiências aterradoras com cobaias humanas, como n'O Ovo da Serpente.
Porque se recusam estes matrecos a assinar os acordos respeitantes a um Tribunal Internacional?
Onde está este proclamado respeito quando se invadem países soberanos sem dizer água-vai atirando-lhes para cima com quanta merda o exército americano tem à mão de semear? Afinal de contas convém não esquecer que os EUA são o Grande Satã no imaginário islâmico, onde os ocidentais, de um modo geral, são ainda confundidos com os franj dos exércitos invasores das Cruzadas, maioritariamente constituídos por Francos.
Sendo assim, quem querem estes cordeirinhos de cauda peluda e caninos desmesurados amansar com tal conversa? Imaginam que poderão começar a atirar o odioso papel de Grande Satã para cima de outros? Para cima dos dinamarqueses, por exemplo?
Pela primeira vez, em muitos anos, as bandeiras queimadas em frente ás câmaras de filmar nas ruas do mundo islâmico não foram americanas nem israelitas. Estará a Administração Bush a imaginar ali uma fresta por onde possa escapulir-se, libertando-se da odiosa pele de Satã, numa metamorfose radiosa que possa fazer renascer os EUA numa nova pele, sedosa e sedutora, que conquiste os corações dos árabes?
Quem sabe?
Os conselheiros de Bush já deram provas de terem uma imaginação delirante.
E o querido George acredita estar investido de uma missão divina.
Lamentável
"Não farás para ti qualquer imagem nem nada semelhante ao que existe nos céus, na terra ou nas águas que ficam debaixo dela; não te curvarás diante delas, nem as servirás: porque eu, o Senhor teu Deus, sou um deus ciumento, que castiga a maldade dos pais nos filhos, até à 3ª e 4ª geração daqueles que me aborrecem; e faço misericórdia aos milhares que me amam e guardam os meus mandamentos."Êxodo (20, 4-6)
A liberdade de expressão não é uma imagem de marca das religões. A natureza dogmática das crenças religiosas impede vozes discordantes e ameaça com terríveis castigos toda a blasfémia. A criação de imagens, como se pode constatar pela transcrição de uma passagem do Antigo Testamento, foi expressamente proibida por Deus.
Esta questão levou a violentas disputas na história do cristianismo. O triunfo dos que defendiam o papel pedagógico das imagens, como via de conhecimento para as hordas de iletrados que enxameavam (e continuam a enxamear) os templos, foi devastador no Ocidente católico e todos nós estamos bem familiarizados com as obras de arte sacra que marcam a nossa cultura e a nossa civilização.
A produção de obras de arte sacra foi um factor determinante para a difusão da fé católica apesar das reservas de algumas igrejas. Entre os ortodoxos cristãos cristalizou na representação dos ícones, com regras rígidas e supervisão apertada dos doutores da igreja. Para os protestantes o papel das imagens é muito menos importante e olhado de soslaio.
O medo da idolatria está na base de todas as reservas relativamente à produção de imagens naturalistas. A escultura, em particular, foi durante muito tempo demonizada por estar relacionada com os cultos pagãos.
Não é de admirar que a questão ressuscite, de tempos a tempos, voltando a incendiar os peitos mais fundamentalistas com o ardor da pureza da fé.
Num mundo globalizado onde a imagem é mãe de todas as coisas não há espaço para discussões serôdias como a que está a ser gerada pela questão dos cartoons dinamarqueses. Se não houvesse um fundamentalismo cego e retrógrado tão enraízado no mundo muçulmano, esta patetice só nos faria sorrir.
O problema é que esse fundamentalismo existe e toda esta historieta lamentável é aproveitada para abanar a nossa liberdade de expressão.
Os fanáticos religiosos no mundo árabe passaram à acção violenta. Multiplicam-se as agressões a embaixadas da Dinamarca e a boçalidade furiosa está à solta.
Lamentável.
sexta-feira, fevereiro 03, 2006
Cartoon
Liberdade com limites é a do pássaro na gaiola. Pode voar mas não faz mais do que saltitar do fundo da gaiola para o poleiro, dali para as grades, de novo para o fundo da prisão. Quase sempre até à morte.Quem não compreende que a liberdade não pode ser limitada não é um ser livre. E quem não é livre tende sempre a limitar a liberdade, que é coisa alheia.
Não conheço a palavra do profeta Muhammad (paz esteja com ele). Conheço a palavra de Cristo (paz na Terra aos homens de boa vontade).
Sei que em nome de Cristo se cometeram algumas das maiores atrocidades que a mente humana foi capaz de engendrar. Mas não O confundo com aqueles que usurparam (e ainda usurpam) o Seu nome.
Vejo como também o nome de Muhammad (paz esteja com ele) serve de véu a contínuas humilhações da integridade humana e, apesar de não conhecer os fundamentos da sua pregação, estou convicto de não lhe ser feita justiça sempre que se mata e assassina invocando o seu nome.
Quando os homens se escudam com o nome de Deus ou dos seus profetas para darem largas à torpeza e à maldade que lhes vai na alma e corre nas veias, estão a emporcalhar inapelavelmente a palavra que dizem respeitar. Acabam por transformar Deus na gaiola e os homens em canários sem pio.
Só não compreende isto quem não percebe a própria incapacidade de ser livre.
quarta-feira, fevereiro 01, 2006
Escuteiros do Amor
Parece que há quem nos ofereça o coração a troco de nada. Há quem nos queira tanto bem que somos inacapazes de perceber o alcance de tão inexplicável paixão. Os problemas começam a surgir quando insistimos em recusar a oferta. Mesmo que o façamos educadamente, como nos ensinaram as nossas avós.O ofertante insiste com o sorriso benemérito a descair ligeiramente para o amarelo. Que não, não queremos, que dispensamos, basta-nos bem o coração que temos e os outros que já conquistámos, mesmo os que entretanto fomos perdendo pelo caminho. Tá-se bem assim, muito obrigado e tal... mas o outro começa a dar sinais de impaciência. Espeta-nos um coração sangrento defronte do nariz e faz aquele gesto que os nossos antepassados navegadores faziam quando estendiam uma mão cheia de contas coloridas em direcção aos aborígenes que iam encontrando por aí. Eu não estava lá mas vejo o gesto. Um empurrãozinho do pulso com o cotovelo cúmplice, entre o hesitante e o esperançoso.
Fica lá com essa merda, ó matreco, é o que me passa pela cabeça, mas a sombra da minha avó não me permite tal indelicadeza. Começo então a pensar na possibilidade de aceitar aquela coisa, embora não esteja muito bem a ver o que possa fazer com ela. Só para dar uma alegria ao escuteiro mais à puta que o pariu, que de santo nem a paciência tenho. Meço um gesto de hesitação e ponho-o em prática. Noto uma esperança imediata a bater no peito límpido do meu interlocutor. Estou quase a receber na mão o palpitante pedaço de asno que me é tão insistentemente ofertado.
No último momento retiro a manápula, viro costas e afasto-me.
Que porra, sou alguma instituição de solidariedade social? Se o gajo quer fazer caridade que vá para um movimento cívico ou outra merda qualquer que esteja a dar.
Sinceramente, ó meus caros compinskas, não há pachorra para os escuteiros do amor nem para as suas mensagens de esperança num mundo melhor, repleto de poesia encadernada em capa dura com lombada forrada a pele de camelo.
Vão chatear o Camões!
