domingo, julho 26, 2026

Toc, toc

     A cor da porta era tão indefinida quanto a vontade que tinha de entrar. Levantou o punho direito e bateu. Toc, toc. Soltou-se um pouco de tinta ressequida que esvoaçou no espaço silencioso. Seguiu a lenta queda com um suspiro que lhe encheu e esvaziou o peito. Aguardou. Esticou as abas do casaco e endireitou as costas com um gesto que lhe puxou a cabeça para trás e para o alto. Sabia bem a imagem que pretendia projectar. Mas... nada. O silêncio prolongava-se de uma forma embaraçosa. Devia bater novamente, aguardar mais um pouco?

    Rodou os olhos furtivos. Para um lado. Para o outro. Ninguém, nada, nem sequer alguma coisa. Olhou as biqueiras dos sapatos e reparou que o chão estava repleto de pedaços de tinta. Quantas pessoas antes dele haviam também batido àquela porta? Os olhos saltaram-lhe fixando-se imediatamente num ponto indeterminado, dois palmos defronte ao seu nariz. Sentiu um calor incomodativo, houve um pingo de suor que lhe escorreu costas abaixo. Desejou que a porta se não abrisse, que se mantivesse fechada, que lhe desse um pretexto válido para fazer meia volta e por-se a andar dali para fora. Já não desejava ver o rosto de alguém que a abrisse, já não queria entrar, não queria saber de nada. "Socorro!", gritou. 

    E virou costas e veio-se embora.

quarta-feira, julho 22, 2026

Olhar límpido

     A simplicidade do raciocínio é boa por um lado e, por outro lado, é muito má. É boa quando proporciona processos de análise claros e eficazes que nos conduzem a conclusões cristalinas. É má quando impede que a reflexão seja informada, quando atalha caminho a direito, como uma bala em direcção ao alvo sem que perceba muito bem que alvo é aquele, que bala é aquela. Pum! No olho do touro!

    "Menos é mais" é um axioma útil e eficaz quando aplicado de acordo com aquilo que realmente significa; quando somos capazes de limpar o excesso de adorno e eliminar informação desnecessária, encontrando uma solução aerodinâmica optimizada.

    A pobreza de espírito nunca é grande espingarda. Um pobre de espírito tanto pode ser boa como má pessoa. Inteligência e informação refinada num cérebro bem oleado nunca foram garantias de empatia, humanidade ou capacidade de integração num todo social. Nem vice-versa.

    Resumindo para concluir que podemos ser simples ou mesmo simplórios, isso não é drama fatal. Podemos entregar a nossa simpatia a uma besta qualquer; se for sem querer, sem intenção de sermos tão bestuntos quanto o nosso ídolo, Deus haverá de encontrar uma forma de nos perdoar mesmo que, por via da nossa estupidez, o cabrão que elegemos venha a revelar-se o Anti-Cristo.

terça-feira, julho 21, 2026

Clareza de espírito

     Vale a pena ser boa pessoa? Mas... o que é ser boa pessoa? Ai, ai, não quero parecer presunçoso (embora seja presunçoso) mas acho que sei mais ou menos o que é isso, ser boa pessoa. Sei porque me ensinaram quando era pequeno e coisas dessas dificilmente se esquecem, mesmo quando as pernas ficam mais compridas ou quando a barriga cresce ou o cabelo vai caindo. São lições que carregamos a vida toda na bagageira da mona.

    Se algum caramelo discorda daquilo que considero necessário para constituir a maneira de ser e de estar de uma boa pessoa, é porque esse caramelo não é boa pessoa. A coisa é de uma limpidez tal que nem água de um ribeiro a cantarolar sobre as pedras num dia de sol ao meio-dia. Não concordas comigo? És um merdas!

    Assim sendo, sinto a obrigação de me bater por aquilo em que acredito, até porque, para mim, andamos neste mundo para fazer dele um lugar melhor para os que vierem depois de nós. E o mundo melhora quanto mais boas pessoas nele habitarem. É tão simples! Para que as boas pessoas como eu prevaleçam temos de ser capazes de espalhar a boa nova de forma convincente; converter os ímpios, pôr na ordem os mais fatelas. 

    Vejo tudo com tanta clareza! 

domingo, julho 19, 2026

Opções

     Não é difícil perceber a dificuldade que representa tentar perceber essa dificuldade. Pensamos e, ao pensarmos, temos a ilusão de que o resultado da nossa imaginação configura algo que é muito semelhante à realidade. Esquecemos, porém, que a realidade é uma coisa fugidia, tão intangível como a felicidade, tão escorregadia como uma enguia, tão plausível quanto uma fada com sapatos de bruxa.

    É essa dificuldade o suficiente para que desistamos de pensar na vida, que desistamos de tentar compreender o mundo, procurar-lhe um nexo, uma razão que englobe todas as razões? Não é o suficiente mas ajuda a desalentar muito boa gente que, desalentada, prefere comprazer-se com as coisas simples como, por exemplo, ser completamente estúpido ou, meramente, um imbecil. 

    É uma opção tão válida como outra qualquer.

terça-feira, julho 14, 2026

Sonhar

     Dizem que sonhar não custa. Mentirosos! Sonhar pode ser uma actividade tão dolorosa como levantar pesos acima das nossas capacidades ou golpear a ponta da unha do indicador com a faca de cortar bifes. Sonhar parece fácil, parece leve, parece uma coisa que aconchega o sono dos bebés, mas é tudo tanga. Repara bem, basta pensar que um pesadelo também é um sonho.

    Sim, um psicopata é tão pessoa como um santo António, um sonho é tão leve como um pesadelo, um pesadelo é tão etéreo quanto o é um sonho. Baralhamos tudo quando pretendemos separar as coisas. Parece estúpido dizer uma coisa destas e, vai na volta, é mesmo estúpido. Parece uma coisa parva afirmar que baralhamos tudo quando pretendemos a separação de coisas. 

    Seja como for, sonhar não é sempre à borla. Por vezes (muitas vezes?) chega uma conta para pagar e o melhor será não atrasar o pagamento. Há quem diga que os juros são astronómicos. 

segunda-feira, julho 13, 2026

Fim de viagem

     Ah, a liberdade! A liberdade absoluta de escrever, desenhar, de pensar, de poder exprimir o que vai chegando às fronteiras do meu cérebro sem estar a olhar por sobre o ombro, sem ter de apurar a vista na contemplação das sombras. Não há nada que pague essa loucura.

    Sem liberdade de expressão não pode haver felicidade. Disso estou ciente, isso eu sei, já descobri há muito tempo e, desde o momento dessa descoberta, tenho percebido melhor o que é a infelicidade; logo sinto-me mais perto da vaga possibilidade de vir a compreender o que é, o que significa, que forma tem ou pode vir a ter a felicidade. Não sendo propriamente o fim da viagem em direcção ao Nirvana, a chegada à estação terminal, é algo que proporciona alguma paz de espírito e isso, posso garantir-te, encalorado leitor, já é alguma coisa. Atrever-me-ia mesmo a afirmar que isso é já uma grande coisa! Tenho, no entanto, a esperança de que haja coisas maiores, coisas muito maiores.

    E é assim mesmo, exactamente como lês: digo o que quero, escrevo como quero, não tenho compromissos com ninguém, nem sequer contigo, que tropeçaste neste texto e, milagrosamente, ainda o lês. Ou leste, porque este texto não passa daqui.

sábado, julho 11, 2026

Fazer como o Lobo Mau

     A cada dia que passa o Mundo incha um pouco mais, aproxima-se mais um pouco do rebentamento... PUM!!! É como quando enchemos um balão. Percebemos bem o momento em que está demasiado cheio, o momento em que o estoiro se torna inevitável a menos que paremos de continuar a soprar, a soprar, a soprar. Mas não paramos. Instala-se em nós um nervoso miudinho, a sensação de que, a qualquer momento, iremos sentir o balão a explodir. Antecipamos o som, o aparente desaparecimento do balão, tudo aquilo nos causa uma apreensão infantil. Sabemos que estamos a fazer merda, que estamos prestes a provocar um desastre mas não temos como evitá-lo, é mais forte do que nós. E fazemos como o Lobo Mau. 

sexta-feira, julho 10, 2026

O puto e o envelope.

     Tudo começou quando, ao pretender aparar a barba, me enganei no pente que apliquei na máquina e dei por mim a rapar o queixo. Primeiro olhei os pêlos brancos que caíram sobre a toalha com que revesti o lavatório (para evitar entupimentos desnecessários). Eram compridos "e muito brancos", pensei. Depois olhei o espelho e vi aquela desmatagem criminosa que abria um sulco enorme, do meu pescoço ao lábio inferior. Foi com tristeza que constatei a inevitabilidade de rapar a tromba toda, a menos que pretendesse ser alvo de olhares mais ou menos furtivos e chacota e reprovação social absoluta, caso decidisse deixar ficar a coisa tal qual estava naquele preciso momento. 

    Lá foi a barba.

    Quando terminei a penosa função olhei e vi-me como já me não via fazia muito tempo: sem barba. Reconheci perfeitamente a minha cara mas não gostei do que vi. Vi a pele do meu pescoço e não gostei; vi os cantos da minha boca e não gostei; vi a curva do meu queixo e também não gostei. Eu sabia que havia de estar envelhecido mas não tinha a noção de como estava envelhecido. Um gajo não tem de gostar ou deixar de gostar, as coisas são como são. Mas, enfim, aquele velhote chateou-me.

    Já lá vão uns dias, a barba vai regressando. Voltarei a poder fingir que aqueles tipos que aparecem na TV e têm a mesma idade que eu estão muito mais acabados, "eu tenho aquele aspecto?" Claro que tenho aquele aspecto. Estou velho, já não sou aquele gajo jovem, convencido que era muito bonito, armado em bom. Esse puto já lá vai, transformou-se naquilo que hoje me transporta. Ambos mudaram radicalmente, o puto e o envelope. 

quinta-feira, julho 09, 2026

Moral da história

     O destino do cidadão contemporâneo é o de ser manipulado. Para que essa manipulação possa acontecer de um modo eficaz, cada um de nós é espiado com desvelo e minúcia, ajudando os espiões que enfiam a penca onde não são, aparentemente, chamados. É sucesso garantido quando o espiado abre a porta e serve chá com bolinhos ao espião. É o que nós fazemos. Todos os dias, a toda a hora.

    Somos vítimas de nós próprios, é um absurdo, é kafkiano; fornecemos a lenha para as fogueiras onde nos grelham e ainda manipulamos o abanador de modo a que as brasas não esmoreçam. Alimentamos os algoritmos que, por sua vez, se alimentam de nós. No fim ganham os de sempre, sempre os mesmos. E nós? Tudo bem, não me posso queixar.

domingo, julho 05, 2026

Tolice silenciosa

     Quando um gajo escreve de rompante, a teclar o mais rapidamente que é capaz, a perseguir as ideias como um cachorro à solta num galinheiro, a tendência para escrever enormidades ou dissertar de forma pedante sobre os mais variados (todos os) assuntos cresce de forma exponencial. Recordes são batidos.

    É o que me acontece com alguma frequência quando escrevo estes posts no 100 Cabeças. Nem sempre o faço, mas quando releio certos textos (ao menos são curtinhos) apercebo-me de tanta patacoada que chego a ruborescer uma vez por outra. Um gajo pode ser mesmo parvinho e atingir níveis de imbecilidade bastante preocupantes. Podia não escrever nada e resolvia um problema ocasional mas isso não é bem uma opção, não sei explicar porquê.

    Assim como assim, estes textos também não são lidos por muita gente (provavelmente nem por pouca) daí que não venha grande mal ao mundo por insistir nesta desordenada sementeira de ideias. Sementes leva-as o vento da zumbisfera (que assobia nas vielas desertas, nas janelas fechadas e nos crânios de alguns certos animais, primeiro mortos, logo depois abandonados).

sábado, julho 04, 2026

Felicidade e Liberdade

     Não imagino um espaço capaz de proporcionar alegria aos que o habitam se não existir nele liberdade de expressão. A alegria pode encenar-se, pode representar-se, macaquear-se, pode-se trapacear de muitos modos diferentes aquilo que mostramos aos outros, mas cá dentro, no escuro do peito, a verdade dos sentimentos nunca mente. Sabemo-lo bem.

    Fingir a felicidade acontece muito, é uma das mentiras mais comuns que por aí andam. Umas vezes por piedade, outras por maldade, umas vezes por estultícia, outras por razões maquiavélicas, a felicidade representa-se muito. Sente-se pouco? 

    Há quem diga não saber o que isso é, a felicidade; há quem reclame para si um estado de enlevo permanente por sentir-se próximo de uma divindade qualquer; há quem afirme que o poder económico que alcançou lhe permite comprar tantas coisas, inventar e suprir tantas necessidades, que aquilo que sente só pode ser felicidade. Situações tão distintas, pessoas tão diferentes umas das outras, vidas totalmente opostas, culturas, religiões, civilizações separadas no tempo e no espaço, milhentas formas de vida uma única sensação em falta, ou no horizonte, ou no pensamento, um anseio comum que se persegue e sempre nos escapa: a felicidade.

    Seja como for ou onde for, não sou capaz de conceber a possibilidade de se ser feliz num espaço social onde não haja total e absoluta liberdade de expressão. Diria mesmo que é impossível explicar o conceito de felicidade caso nos seja proibida, nem que seja, a mais pequena e insignificante das palavras. 

    Felicidade e liberdade, não serão sinónimos mas são, indubitavelmente, palavras da mesmíssima família. 

quarta-feira, julho 01, 2026

Felicidade visual

   


    Depois de muito reflectir sobre a possibilidade de existir uma metáfora visual da felicidade, uma coisa que se veja e possa transmitir toda a força desse sentimento fugidio, chego à conclusão de que existe, de facto, tal metáfora. É o smiley clássico, uma circunferência amarela com duas bolitas negras e um arco curvado a imitar um sorriso. Simplicidade absoluta, máxima eficácia comunicacional.

    Vejo um grupo de rapazes adolescentes subindo para um autocarro que os levará à praia. Irradiam felicidade. Já anteriormente me tinha ocorrido que é muito mais fácil perceber visualmente a felicidade alheia do que a nossa própria felicidade. Olhando estes rapazes vejo-lhes a felicidade nos gestos, nos sorrisos, na forma meio atolambada como falam uns com os outros, a felicidade a baralhar-lhes o coração com a boca. 

    Resolvo deste modo um problema que me vinha ocupando a mente nos tempos recentes. É a felicidade coisa que se veja? Sim, vê-se. 

terça-feira, junho 30, 2026

Devaneio à hora do almoço

     Para alguém que sinta a pulsão criativa, a necessidade de criar e comunicar, a liberdade de expressão é como se fosse oxigénio. Aqueles que, ainda que sejam amantes da liberdade, vivam de comercializar as suas criações, talvez não considerem a liberdade de expressão tão absolutamente necessária. Seja como for, estou em crer que uns e outros (e todos os demais) serão muitíssimo mais felizes caso vivam num sistema de organização sócio-política que preserve as liberdades fundamentais com a liberdade de expressão bem visível, protegida e enaltecida.

    Aliás, penso também que um sistema como esse é o que mais aproxima os cidadãos de uma sensação de felicidade (ou, pelo menos, faz com que acreditem nessa possibilidade). Mesmo que não tenhamos uma definição standard de "felicidade", ainda que cada um de nós sonhe com um amanhã cantor diferente do do vizinho, a perseguição de uma fada torna a nossa vida menos cinzenta. Perseguir uma nuvenzinha colorida através de um bosque de árvores que são, na verdade, flores gigantescas é mais motivador do que perseguir maços de notas numa floresta de betão (onde os animais te perseguem). Ou então não.

    Ou então habitamos um mundo onde os humanos são apenas aparentemente iguais, um mundo no qual apenas os sacos de pele e ossos que carregam os nossos cérebros e as nossas almas são semelhantes entre si. Dentro dos sacos viajam coisas completa e absolutamente dissemelhantes. Talvez que os princípios fundamentais do Zoroastrismo não sejam tão abstractos quanto possam parecer.

    Vou já em velocidade de cruzeiro e dirijo-me para lugar nenhum, como é meu hábito. Decido guinar em direcção à margem do discurso, encosto a barcaça e salto para terra firme. Talvez beba uma imperial na esperança de matar o calor. 

segunda-feira, junho 29, 2026

Falhanço

     Esta manhã nasceu a minha sobrinha-neta. Comovi-me até às lágrimas quando soube da notícia mas não consigo deixar de pensar: coitadinha. Que merda de mundo em chamas vamos deixar-lhe, a ela e ao irmãozinho, 4 anos mais velho. 

    Desde os meus 40 anos, ou por aí assim, decidi que a vida fazia todo o sentido. Decidi que o sentido da vida seria deixarmos aos vindouros um mundo melhor e uma sociedade mais justa. 

    Vejo a degradação cavalgante das condições de habitabilidade do planeta e a ascensão insidiosa dos novos fascismos um pouco por todo o lado e penso: falhei (falhámos). A minha vida faz bastante menos sentido. Resta-me a convicção de que ainda posso influenciar algumas mentes no sentido de fazer valer a minha visão social. É pouco mas, seja como for, ainda é qualquer coisa.

domingo, junho 28, 2026

Vazio

     Nunca te sentiste cansado de estares aí, dentro do teu corpo? Nunca te apeteceu deitar a carcaça num sofá, numa cama, no chão, num lugar qualquer? Deitavas a carcaça e dela se desprenderia uma espécie de fumaça, uma pequena nuvem, qualquer coisa desse género, uma coisa que fosse a tua alma. E ficava por ali, a pairar, sem se afastar muito, não fosse o Diabo tecê-las.

    Seria então que, esvaziada a carcaça do teu ser, havias de sentir a grandiosidade do descanso mais absoluto, a ausência total de consciência, eras como um saco de plástico, como uma carroçaria enferrujada ou o crânio de um quadrúpede abandonado ao sol do deserto (buracos nos lugares dos olhos, ossada branca e quebradiça a sustentar, ainda, a cornadura). 

    Descansavas das coisas do mundo, descansavas de ti próprio, por momentos (minutos, horas, talvez dias!) não eras ninguém, nem eras nada. Apenas uma coisa inerte, nem sequer à espera. 

    Para ser sincero, nunca senti nada do que atrás ficou escrito. Este textozito (como tantos outros neste blogue) é apenas um exercício de escrita, um passatempo, uma coisa potencialmente estúpida ou vazia, como o corpo que nele se descreve e imagina. 

quinta-feira, junho 25, 2026

O artista no teu labirinto

     O artista abre-te as portas do teu próprio labirinto. Um labirinto com a forma das circunvoluções que te ajeitam o cérebro na caverna do teu crânio. Não queiras saber quem é o artista, como funcionam os seus processos de trabalho, de que cor são os seus olhos, que interesse pode isso ter? Não queiras abeirar-te dos penhascos da criação alheia, podes cair agarrado a um saco de vertigens.

    Já sabes que a obra de arte esconde segredos que são teus. É desses segredos que deves procurar os trilhos esconsos, os becos sem saída que a eles conduzem. O artista cria condições para que entres dentro de ti próprio, não queiras saber de que tecido é revestido o interior do seu coração, sente a textura do teu. O artista funciona como bússola, como enigma ou então é o arauto que te anuncia a identidade de alguém que habita a tua alma, alguém que sempre esteve à espera que lhe prestasses atenção. Até este momento.

quarta-feira, junho 24, 2026

Pensamento complexo (ou então simplório)

     Nós somos comunicação em estado puro e vivemos para comunicar.

    Aprendemos a falar a nossa língua e, desse modo, moldamos o mundo que nos rodeia; aprendemos os nomes das coisas, inventamos formas de os relacionar construindo significados novos, outras perspectivas, é um autêntico universo que nos alicia a sermos demiurgos. Construímos um modelo de realidade que sejamos capazes de suportar. Se não conseguirmos fazê-lo somos deportados para modelos de realidade construídos por outros, o que talvez não seja muito agradável. A riqueza de linguagem e o seu domínio são autênticos tesouros, as caixas de ferramentas que nos permitem existir e comunicar.

    Sabendo que somos comunicação em estado puro e que vivemos para comunicar! 

terça-feira, junho 23, 2026

A barriga do Tempo

     O gajo transportava uma barriga incrivelmente desajustada da pernitas, que eram finas, mal cobertas de uma penugem que não chegava a pelagem. A camisa de alças pendia-lhe mais de um palmo adiante dos calções (pretos, riscados a cinzento discreto, como os fatos de certos gangsters). Nos pés um par de sandálias daquele azul que parece estar sempre sujo, com três listas brancas a fingir adidas.  Deambulava elefantinamente entre os escaparates dos livros distribuídos por temas.

    Com as mãos sapudas atrás das costas, um gesto que lhe projectava ainda mais a pança por sobre o vazio, duas vezes estacionou a pesada figura defronte às prateleiras da livralhada dedicada a temas do turismo. "É para o que serve uma barriga assim" pensei, "para fazer turismo". O homem era óbvia e nitidamente bastante mais jovem do que eu era. Do que eu sou. Idoso.

domingo, junho 21, 2026

Dia de Verão

     Andava por ali mistério. Faces coradas, olhares constrangidos, frases curtas, quase inaudíveis. Ninguém queria comprometer-se com nada que pudesse vir a acarretar arrependimento posterior. Tudo, todas as coisas perdiam fulgor, pareciam-lhe desbotadas; coisa frágeis, absoluta ausência de estrutura, de coluna vertebral, tudo a pairar, como se a força da gravidade não importasse, como se houvesse uma suspensão temporária das leis de Natureza e das regras de convivência humana. Andava por ali mistério.

    Quis pedir uma cerveja fresca mas nem para isso teve coragem. Ficou calado, concentrou-se na leitura. A tarde havia de ser longa. 

quinta-feira, junho 18, 2026

Dissolução

     Vi-o no corredor, ia em direcção ao cais de embarque, Cais do Sodré-Cacilhas, se faz favor. Pareceu-me muito velho, curvado, a nuca coberta de cabelos brancos a abrir clareiras aqui e ali, uma pele avermelhada, muitas rugas, os passos meio arrastados. Passei por ele e pela mulher que o acompanhava. Entrei no barco, subi ao andar de cima, como sempre faço e sentei-me num lugar que pudesse proteger-me do sol, cuja luz começava a fazer-se sentir sob a forma de um calor incomodativo.

    Escrevia qualquer coisa no meu caderno de capa dura quando levantei os olhos por sob as sobrancelhas e dei de caras com o homem que parecia dissolver-se no espaço em volta. Estava sentado duas filas para lá da minha, do lado esquerdo do meu nariz, cadeiras de plástico cor-de-laranja. Agora podia vê-lo de frente e nem precisava de dar muito nas vistas.

    Tinha a boca sempre aberta, como se lhe custasse respirar, ou fosse parvo, ou sentisse um espanto permanente por se aperceber estar ainda vivo. A expressão facial parecia revelar uma profunda tristeza, uma espécie de gentil desistência ou simples ausência de alegria.

    Dei por mim a pensar que a desistência nem sempre constitui um acto negativo, que desistir pode carregar muita poesia neste mundo obcecado por vencedores de merda, vencedores a todo o custo, gente incapaz de sentir empatia por aqueles que derrota. Percebi que o homem que se dissolve à minha frente, afinal, não desiste, apesar da tristeza que dele se desprende. O homem não desiste, lá se vai a poesia.