quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Pessimismo

    Andamos tão perdidos! A questão é: alguma vez tivemos um objectivo concreto que compreendemos e perseguimos conscientemente? Continuo a acordar de manhã obrigando-me a pensar de vez em quando no sentido da vida. Continuo a pensar (quando penso, obrigado por mim próprio a pensar) que o sentido da vida é deixar um mundo melhor aos que virão depois de mim.

    Por estas e por outras, por vezes compreendo que o melhor é não pensar. Quero dizer, melhor, melhor, talvez não seja, talvez devesse dizer "o mais cómodo"; o mais cómodo é não pensar. Deixar que alguém pense por nós, deixar que alguém actue em nosso nome, alguém que faça merda. Assim, depois, poderemos culpar esse alguém pelo fracasso, poderemos barafustar, gritar, cuspir na porcaria que nos é oferecida. E tudo fica na mesma ou um pouco pior do que estava.

    Talvez não andemos perdidos. Talvez não andemos, de todo. Talvez estejamos parados; com sorte estamos apenas parados, à espera que aconteça alguma coisa que não seja uma desgraça. Com azar estamos a cair desamparados. Até batermos no fundo.

terça-feira, fevereiro 17, 2026

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     O mundo é uma coisa muito traiçoeira, ora parece fixe, ora parece insuportável; ora docinho, ora avinagrado como vinho deixado ao léu. Vá-se lá saber o aspecto que o mundo vai ter amanhã ou depois. Não se pode confiar nesta coisa, esta bola a rodar no vazio, a rodar sobre si própria enquanto lhe durar a corda. Se ao menos fosse uma coisa estável, estática e plana!

    As pessoas precisam de quem lhes indique o sentido correcto, quem lhes mostre o caminho iluminado nas bermas por leds bem potentes, daqueles capazes de deixar a escuridão intimidada. 

    Uma pessoa isolada à procura da estrada que deverá trilhar é presa fácil para o lobo do desejo, para a hiena do vício ou o escorpião da loucura. É ir logo buscá-lo, trazê-lo para junto de nós, os simples e puros, os escolhidos por Deus. Bem-vindo irmão, estávamos mesmo à tua espera para podermos jantar. És o prato principal.

segunda-feira, fevereiro 16, 2026

Internacional Religiosa

     Não me parece grande ideia fechar a Deus as portas deste mundo. Deixa-se muita gente órfã a precisar de um pai que a oriente, muita ovelha a balir perdida nos baldios da vida. Sem deus há multidões frágeis como cristal à beira de caírem das alturas e muito filho-da-puta à coca, muita hiena a vaguear na mamuja das sobras que os grandes cabrões, os verdadeiramente poderosos, possam deixar espalhadas pelo chão.

    Cá pra mim o ideal seria encontrar maneira de formar uma Internacional Religiosa. Encontrar em cada religião uma elite que acredite realmente em Deus e reunir essas elites num espaço em que pudessem maravilhar-se com as possibilidades da Sua existência. Decerto seriam capazes de construir uma via global atapetada com solidariedade e boa vontade pois é disso que a maior parte dos Deuses advogam... ou não?

domingo, fevereiro 15, 2026

Idoso

     Fui verificar o conceito de idoso e encontrei isto: Segundo a Organização Mundial da Saúde, idoso é todo o indivíduo com 60 anos ou mais. Fiquei chocado! Eu tenho 63 anos!!! Passei a fronteira da idade adulta para "a cair da tripeça" sem sequer me aperceber do que me ia acontecendo. Sou idoso há 3 anos e não sabia. Estou destroçado.

    Quando o meu pai faleceu devia ter suspeitado que a coisa estava para se dar. Mas não pensei no assunto. Ver a minha filha com 32 anos devia ter feito soar algum tipo de campainha interna... mas nada. Ter cada vez menos cabelo ao ponto de ser bem mais careca do que cabeludo, ter o cabelo e a barba a embranquecer todos os dias poderiam ter sido indícios valiosos para que fizesse uma revisão do que sou (não de quem sou). Não o fiz, deixei andar.

    Agora sei que sou um idoso. Pronto, Estou informado. 

sexta-feira, fevereiro 13, 2026

Mais velho

     Actualmente cumprimentamos: bom dia! Ou então dizemos: boa tarde, ou boa noite. Depende. Vamos pela positiva, aproximamo-nos de quem não conhecemos com palavras cautelosas mas de bom tom. Somos assim educados, os mais velhos ensinam-nos a ser assim, parece-nos correcto. Quando alguém nos fala devemos manter silêncio, ouvir o que é dito, esperar a nossa vez e retrucar, se for caso disso, ou concordar, seja lá o que for, aconteça o que acontecer, somos incentivados a comunicar, a olhar nos olhos.

    Espero que estes princípios simples se mantenham, pelo menos durante mais algum tempo. Por vezes penso se não estamos às portas de um tempo de "pontapé-na-cona". Os mais velhos são demasiadas vezes considerados empecilhos e a sua forma de ver o mundo, a mensagem que têm para nós, é desvalorizada por não saberem mexer em meia-dúzia de coisitas electrónicas ou artificiais ou lá como se designam esses "gadgets" que enformam o nosso quotidiano delirante. Substitui-se a capacidade de pensar pela capacidade de mexer.

    Apercebo-me de que sou já um dos "mais velhos". Ainda não tinha pensado nisso. 

quinta-feira, fevereiro 12, 2026

IA, man

     Não será pela Inteligência Artificial que os nossos estudantes vão perder o interesse pelo conhecimento. Estou convencido que o que vai tolhendo os jovens espíritos é o excesso de informação. O acesso permanente a fontes de informação (ou a sua possibilidade) funciona como um anestésico da curiosidade. A IA apenas sintetiza, mastiga e regurgita informação que recolhe e processa a uma velocidade diabólica, não é nada de extraordinário em termos de produção de conhecimento, o que é surpreendente (e eventualmente viciante) é a velocidade com que a operação é executada.

    O problema, quanto a mim, é que a curiosidade intelectual está abananada com tanta informação a cruzar os horizontes do conhecimento em linhas rectas que se autodesenham a uma velocidade estonteante, criando uma teia que vai obliterando as nuvens, cujas formas convidam ao sonho e à imaginação. Estou a perder-me em metáforas complicadas quando aquilo que quero dizer é de uma simplicidade absoluta: a IA sufoca a curiosidade intelectual e tende a estupidificar os seus utilizadores. Cabe aos professores e à escola a função de manter a curiosidade intelectual viva e actuante, procurando estratagemas capazes de convencer os jovens a não vegetalizarem. 

    Se a IA for um meio e não um fim, teremos à nossa disposição mais uma ferramenta poderosa capaz de potenciar as nossas capacidades intelectuais. Se nos entregarmos à IA sem espírito crítico e sem curiosidade seremos a breve trecho uma imenso batatal, pasto fácil para qualquer glutão capitalista.

Mudança de tempo, mudança de vontade

     É um sufoco, uma luta, uma batalha, andamos todos à batatada pela supremacia de uma qualquer ideia que de súbito nos assalta a mioleira, vinda sabe Deus de onde. E grunhimos, rilhamos a dentuça, carregamos na sobrancelha, espetamos o dedo, levantamos a voz numa estridência digna de um tribuno romano; dos sisudos. Com a mão livre seguramos a toga.

    Eu tenho razão, o senhor é um estúpido, quando muito posso conceder que seja apenas imbecil. Os seus argumentos são merda de vaca e o seu discurso cacarejo de galinha. Simplesmente não tem capacidade para compreender os meros fundamentos daquilo que lhe digo; não passa de um ignorante, um pobre de espírito. Ao menos isso, talvez o facto de ser um simplório lhe possa abrir as portas do céu (as portas, que os portões só se abrem para almas de gente que tenha sido importante).

    É tão fácil imaginar insultos. Dizê-los na cara de um interlocutor não é tão imediato como registá-los anonimamente nas redes sociais ou nas caixas de comentários de publicações online. Mas, com algum treino, também se lá chega. Estaremos em vias de substituir a urbanidade pela grosseria, enquanto modo preferencial de contactar com o outro?

quarta-feira, fevereiro 11, 2026

Coisas do diabo

     Este mundo sempre foi pasto de aparências e mentiras. As ilusões sempre engordaram tendo por alimento a credulidade humana mas, temo bem, nunca incharam tanto como incham nos dias que correm e, tudo indica, incharão de forma descontrolada à medida que a Inteligência Artificial for crescendo e substituindo a outra inteligência: a nossa.

    Falta saber se este crescimento, esta ampliação, este incremento, esta medrança da mentira travestida, falta saber se esta coisa tem limite, se a mentira é como o sapo que fuma e, no fim, rebenta numa nuvem fedorenta.

    Já a Bíblia adverte para a capacidade de aliciamento que o diabo possui chegando mesmo Jesus a identificá-lo como "pai da mentira". Falta saber quem é a mãe que, cá na minha opinião, é a mente humana. Assim, a mentira resultaria de uma frenética fornicação do juízo humano por parte de um Lúcifer meio louco de ciúme por si próprio. Resumindo: a mentira surge sempre que o diabo nos fode o juízo. 

    Como se depreende, a mentira não precisa de um motivo mas pode ser premeditada, não precisa de um objectivo específico mas serve bem como arma de arremesso, enfim, a plasticidade da coisa é, de facto, algo com uma dimensão diabólica. 

    Esta pouco subtil reflexão dá a volta e regressa perto do ponto de partida: se a IA se alimenta da credulidade humana e serve tantas vezes ao inchaço da mentira, então a IA é (mais) uma invenção do diabo? Olha, boa pergunta! Responda quem sabe que eu não tenho nada a ver com isto. Talvez seja esta a tal Grande Substituição que certos palonços advogam, a substituição da Inteligência Humana pela artificial...

segunda-feira, fevereiro 09, 2026

Saudade da surdez

     Os miúdos no corredor gritam, grunhem, produzem sons guturais capazes de inquietar um porco. Empurram-se, lutam, correm, caem e voltam a levantar-se, tudo num torvelinho angustiante, uma inquietação sem razão nem paralelo. Que estranha força os move, que deus imbecil os anima e faz com que ajam como tolos de hospício?

    É chegada a hora de entrarem para a sala de aula e eles lá vão. Não os vejo, estou numa outra sala, sentado à secretária escrevo estas palavras no teclado de um computador. Deixo de os ouvir. Nestas ocasiões o silêncio é muitíssimo valorizado. Que sossego. Agora passo a ouvir o som da água que cai dos beirais misturada com a da chuva o que também pode ser muito irritante.

    Lamento não ter trazido comigo os auscultadores, a falta que neste momento me fazem.

    Não consigo recordar se esta sensibilidade à barulheira é recente ou é antiga. Talvez não me aperceba sempre dos sons circundantes, talvez a concentração da atenção em algum objecto (uma pintura que se pinta, um livro que se lê) me ajude a abstrair da chinfrineira. Talvez, nem sei! O que eu percebo é que tudo isto pode contribuir para destrambelhar uma pessoa.

 Nota - Ontem, ao final da tarde, noite entrada, fiquei razoavelmente feliz. O Tó Zé lá foi eleito.

domingo, fevereiro 08, 2026

Tó Zé

     Está feito. Fui votar mais uma vez na companhia da família mais próxima (ia escrever "chegada" mas hesitei e escrevi o que escrito fica). É já um hábito, uma espécie de ritual. Durante anos viajei para Viseu em dia de eleições para exercer o direito de voto na companhia dos meus pais, só pelo prazer de o fazer. Algumas vezes fiz os 300 quilómetros para lá e outros tantos para cá e votei em branco.

    Hoje há uma segunda volta tal como só havia acontecido em 1986. Nesse ano fui e vim e voltei a ir a Viseu para votar no Marocas. Tenho uma vaga memória de ter regressado a Lisboa na noite em que ele venceu o Freitas do Amaral (nem sei se é uma recordação genuína) e andar no meio de uma turbamulta  felicíssima por ter eleito o Bochechas para a Presidência da República. Não sei se esta memória feliz é verdadeira ou não mas quando a convoco sinto-me bem.

    Mais logo, quando os resultados do acto eleitoral deste dia forem conhecidos, espero ficar razoavelmente feliz. Eleger o Seguro não empolga ninguém. Nem a ele, estou em crer. 

quinta-feira, fevereiro 05, 2026

Fuga à banalidade

    Imaginou o que o dia lhe poderia ainda oferecer e não lhe pareceu que fosse grande coisa. Apesar de o sol romper com gentileza as nuvens pesadonas que lhe haviam ensombrado os dias anteriores, apesar de o vento ter amainado até ao ponto do adormecimento, apesar de as notícias matinais não augurarem nada de terrível nem apocalíptico, ele sentia-se meio vazio, muito mais que meio cheio. Alisou os cabelos que lhe restavam no topo da cabeça e pensou: "Não sou a porra de um copo!" e, de facto, não era a porra de um copo, ainda era um ser humano.

    Desceu as escadas sentindo dores no joelho esquerdo ("uma porra do caraças!"). O eco dos passos ora o perseguia ora se lhe adiantava. A banalidade absoluta de tudo o que o rodeava pareceu apertar-lhe a garganta mas foi no peito que sentiu uma angustiante falta de ar. Apoiou-se na parede, a palma da mão recolheu uma sensação de frio intenso. Não se lembrava de alguma vez na vida ter sentido tanto frio. As costelas pareciam atrofiar-se a uma velocidade alucinante o que o arrepiou de tal modo que imaginou ser um ouriço cacheiro com os espinhos a crescerem ao contrário. Nada daquilo lhe era familiar. 

    "Que porra me está a acontecer?"

    Cambaleante e aos tropeções desceu um lanço de escadas tacteando o espaço sem encontrar ponto de apoio ou referência alguma que lhe devolvesse um mínimo conforto, uma sombra de familiaridade. Caiu. Estranhamente não sentiu dor, aliás, a queda parecia não ter fim, parecia não ter chão, teve a sensação de cair para cima, em direcção ao céu e o coração a explodir. 

    "Que coisa extraordinária!"

quarta-feira, fevereiro 04, 2026

Dia de chuva

     A chuva cai, incessante, monótona, ameaçadora. A paisagem entristecida parece encolher-se sobre o ventre de modo a proteger-se da chuva que continua a cair. Os últimos dias têm sido angustiantes para muitos de nós, por causa da chuva, que cai e cai e cai e parece que nunca mais irá parar.

    Continua a chover.

    Há uma hora atrás, mais coisa menos coisa, a chuva abriu uma trégua, até o céu clareou ligeiramente! (Tenho a impressão de ter visto uma mulher a sorrir). Mas durou pouco, foi como se a chuva se tivesse esquecido momentaneamente de cair e, mal se apercebeu de que não cumpria a função para a qual Deus a criou, voltou a tombar sobre a terra, com peso de gotas bem constituídas. Sem vento a bater-lhe cai sobre nós em rectos tracejados.

    Chove, chove e continua.

    Há em tudo isto qualquer coisa de marcial. Talvez o ritmo, talvez as gotas perfiladas que caem ininterruptamente, talvez o aspecto inevitável que a realidade vai ganhando, como se não houvesse nada a fazer a não ser cumprir ordens superiores, como na tropa. E quem é o general da chuva!? Ah, pois é.

    Chove, chove, chove que Deus a dá.

domingo, fevereiro 01, 2026

Um sonho

     Sempre te digo que se tivermos de morrer morremos. Mas se isso não chegar a ser necessário voto para que continuemos por aqui, mesmo que seja só a meter nojo. Não interessa. A verdade é que não me sinto preparado para grandes surpresas e nunca se sabe o que pode acontecer depois de estarmos mortos. 

    A minha esperança, se queres que seja sincero a 100%, é que não aconteça nada. Que um gajo pife e depois... silêncio. Silêncio infinito. Nada! Talvez seja o melhor mas, nunca se sabe, não é verdade? 

    Esta noite sonhei com os meus pais e fiquei com a sensação de ter estado com eles, efectivamente. Estive sentado entre eles, calcei umas meias vermelhas com antiderrapante à minha mãe. Que me lembre ela nunca teve nada semelhante. Talvez agora tenha uma meias assim, talvez hoje as tenha calçadas, talvez eu lhas tenha calçado de facto. Isto está a perturbar-me um pouco.

    Vou para de escrever.