sábado, março 23, 2024

Luta de claques

 

Vindo de um painel de debate futebolístico, habituado à berraria e à canelada verbal, isentado da apresentação de argumentos válidos e verdadeiros, Ventura irrompeu com grande panache nos palcos mediáticos da política portuguesa. 

 

À imagem dos seus ídolos, Trump e Bolsonaro, trouxe o estilo arruaceiro, o insulto, a mentira e a meia-palavra, a falta de escrúpulos, a provocação repulsiva, enfim, tudo aquilo que muita gente acredita ser a essência do ser humano, se bem que na sua versão animalesca. E a coisa pega, a coisa faz sentido, mostrando-nos a verdadeira imagem da nossa sociedade. Ventura é o reflexo no espelho de um país que não é racista, nem misógino, nem fascista, um país que odeia vigaristas. 

 

Olhamos para o mundo todo e vemos muitos líderes como este, gente que põe a pátria acima de tudo e deus acima de todos, como se cada povo fosse uma claque de futebol embrutecida e pronta a ser orientada no ódio absoluto ao outro, ao adversário. Alguém lucra com isto.

 

Portugal entrou neste clube de povos ansiosos por derrotar e humilhar aqueles que não são humildes como nós, que não são crentes como nós, que não clarinhos de pele nem possuidores de sentimentos puros, que não são gente de bem. Se isto não fosse preocupante seria apenas motivo de escárnio. As classes sociais irmanam-se num único e grandioso objectivo: manter a pureza histórica da nação valente, glorificar a pátria imortal e os seus símbolos, ajoelhar, rezar e acreditar. Berra-se A Portuguesa em todo o lado como se fosse hino de estádio de futebol. 

 

Entramos na era da luta de claques.

quarta-feira, março 20, 2024

Dúvida acumulada

     61 anos de dúvida acumulada pagam o valor de uma pergunta apenas. Uma vida inteira até chegar o dia de agora para encontrar uma única resposta sem sequer ter formulado a pergunta que possa corresponder-lhe. 

    61 anos de dúvida acumulada são todo o espaço em volta de uma palavra solitária; uma palavrinha perdida, a ecoar baixinho na imensidão que é para mim a vida toda que vivo, coisa insignificante seja qual for a escala de medida com a qual tente compará-la. 

    Uma palavra a pulsar, coração da existência, a bombear sentido para a existência, para o mundo, para nós, palavra solitária, absoluta, arrasadora semente de vida.

    Julgo ouvir a palavra "amor"...

segunda-feira, março 18, 2024

Evangelista

     A desordem do mundo é paralisante. Animado por sentimentos cristãos, gostaria de poder contribuir decisivamente para reparar algumas malfeitorias, corrigir este erro ou  aquele, aproximar dali o Paraíso, nem que apenas mero meio milímetro. Mas, népias! Querer parar as injustiças é como esticar as mãos na esperança de com elas estancar a ventania. 

    Sente-se coisa inútil.

    Desanimado (pedindo desculpa a Deus) vira-se para o outro lado e volta a fechar os olhos. O sono cai  como se fora carga da Brigada Ligeira. É, agora, um penedo no silêncio absoluto do pinhal. Coisas informes, nacos de carne sanguinolenta, esvoaçam em redor da uma única flor carnívora, batendo asinhas de colibri disparam pingos de sangue a toda a volta, metralham as paredes. 

    Sorri no sono.

    Lê o jornal no écran do telemóvel, bebe um café (horrível, amarguíssimo) enquanto guarda o pacotinho de açúcar no bolso das calças. Olha sobre o ombro, imagina nazis por todo o lado. Regressa ao écran sem prestar atenção a nada do que lê. As palavras têm forma mas perderam significado. A mente  vagabundeia e é assim que abandona o Café da Esquina: pés no chão, cabeça  bem no ar. É preciso viver mais aquele dia e a morte não lhe faz falta.

    Lá do outro lado do mar morrem pessoas inocentes às pázadas, homens ímpios comandam as nações. O abismo abre-se como se abre um inferno, pior do que este mundo, milhões de seres vivos precipitam-se naquela ravina infinita. Aves, homens, peixes, a catástrofe é indescritível e a morte insaciável. Um evangelho do desespero vai-lhe crescendo dentro da cabeça. Cada dia uma nova página.

    Chegado ao local de trabalho veste a farda, coloca no peito a plaquinha com o nome, olha-se ao espelho e alisa para a nuca os cabelos que lhe restam. Dirige-se ao balcão. Por entre um sorriso elástico que lhe arreganha a taxa, entrega eficazmente o seu gritinho de guerra: Bom dia, em que posso ajudar?  

domingo, março 17, 2024

Quase

     Rio-me de tudo! Tudo me provoca espasmos descontrolados na musculatura, por todo o corpo. Contraio-me, ondulo, abro a boca em busca de uma golfada de ar e liberto um riso talvez nervoso. Não sei. Não sou um estudioso. Rio e pronto! Sabe bem.

    Por vezes caio num torpor incompreensível (pode acontecer após uma sessão de riso). Talvez seja uma paralisia provocada pela estranha sensação de estar quase a compreender uma certa coisa sem que seja capaz de alcançar que coisa é essa. Incomoda. 

    E, então, é assim. O meu corpo comporta-se como o de uma leão marinho, a ondular gorduras, a largar sons guturais e, de súbito, tudo pára, atravessa-me um último estertor antes de se instalar uma acalmia violenta. Paraducho.

    E é muito isto, do riso ao estupor vai a curtíssima distância de um pensamento incompreendido. Afinal não passo de um ser humano (ou perto disso).

quinta-feira, março 14, 2024

O pior inimigo

     Todos os dias me espanto mais um pouco com a nossa capacidade para sermos estúpidos. Quando escrevo "nossa" quero referir-me à sociedade que vamos construindo, refiro-me àquilo que somos como um todo. 

    Vivemos o quotidiano como se fôssemos zombies, mortos-vivos sociais. Sentimos extrema dificuldade em soletrar correctamente a palavra "so-li-da-ri-e-da-de" quanto mais em compreender o seu significado.

    Todos os dias me espanto com a forma decidida como a nossa espécie marcha em direcção a um abismo que cava cada vez mais fundo; um buraco imenso, misto de falésia e sepultura, que vamos abrindo, abrindo, abrindo, enquanto desejamos não o fazer. Temos (temos?) consciência plena de estarmos a contribuir inexoravelmente para o nosso próprio fim. Mas nada nos detém.

    O discurso não reflecte o pensamento, a acção é contrária ao desejo que a impele. Somos animais impossíveis de compreender. Deus deixou de nos proteger daquilo que desejamos. Esse era o Seu papel. Agora estamos entregues a nós próprios, entregues ao nosso pior inimigo.

    Enquanto a Estupidez for rainha absoluta não haverá ministério que nos valha.

quarta-feira, março 13, 2024

Silencioso

     Faz hoje exactamente um ano. Caronte vinha já deslizando, silencioso como ele só. Terá por mim passado no caminho, não me apercebi, não o vi, não o senti. Faz hoje exactamente um ano que chegou Caronte.

    Chegou cedo, encontrou-o a dormir. Não sei se falaram, se olharam nos olhos um do outro. Caronte levou-mo. Não mais voltei a ver o meu pai. Fica a saudade, enquanto Caronte não voltar, dessa vez para me levar.

segunda-feira, março 11, 2024

O bestunto

     A ascensão da extrema-direita nas eleições legislativas de ontem deixou-me a pensar no modo como nascem os monstros. Nascem como todos os seres, aparentemente frágeis e desprotegidos até que ganham dentuça, garras nas patas e passam a cheirar mesmo mal. Ontem o fedor entrou-me de rompante pela janela entreaberta.

    O mundo não acabou, apenas ficou ficou bastante mais feio e mais perigoso.

sexta-feira, março 08, 2024

Visão e premonição na vida de um cão

    A sensação reconfortante de que a nossa sociedade evolui continuamente é uma ilusão poderosa. Imaginamos uma espécie de Nirvana ao virar da esquina sem olharmos para trás, sem verificarmos se as coisas vão ficando nos lugares onde as deixámos.

    As conquistas alcançadas não são eternas. Os impérios, afinal, acabam sempre por cair. Aquilo que foi grandioso degrada-se, definha e perece. O poder está muito longe da solidez que aparenta ter de cada vez que se impõe e determina uma certa linha da realidade.

    A felicidade alterna com momentos de tristeza, à euforia sucede o marasmo, a depressão. Um dia tudo acabará. Imagino que fique o silêncio e que o silêncio permaneça.

domingo, março 03, 2024

Projectos

     Apercebeu-se de que nunca tivera aquilo a que se pode chamar "um projecto de vida". O que tivera sempre, o que continuava a enquadrar as suas acções, a sua vida, fora uma organização quotidiana orientada em função de projectos pontuais. Esses projectos permitiam-lhe planear o futuro doseadamente; por vezes chegava quase a perceber o que andava a fazer neste mundo.

    Na ausência de um "projecto de vida" limitava-se a viver uma vida feita de projectos. Até aquele dia não se pode dizer que se tenha dado mal. Se descontarmos uma ou outra fase menos feliz, tivera (e continua a ter) uma vida razoavelmente descansada.

terça-feira, fevereiro 27, 2024

Saudade

     Por vezes sinto-me tão próximo de qualquer coisa semelhante ao que imagino que possa ser a verdade que a felicidade dentro de mim quase ocupa algum espaço. É difícil de explicar por se tratar de uma sensação cá muito perdida nas profundezas do meu ser mas sei que é uma coisa real, de outro modo não me aperceberia da sua presença, da sua fisicalidade.

    Isto acontece de surpresa. Não posso dizer que acontece quando menos se espera pois estaria a mentir e a mentira não faz parte da minha prática. Quando sinto necessidade de mentir costumo ficar calado. Omito. Ou tento omitir, nem sempre resulta. A mentira é um embaraço. Mas, dizia eu, isto acontece de surpresa.

    É uma coisa que não se força, não se busca, deixa-se acontecer e é uma felicidade. É fugaz, é transitória; na maior das parte das vezes, conforme vem assim se vai, sem deixar vestígio nem registo. Fica apenas uma espécie de saudade. Acho que é isto, a saudade. Que a saudade é isto.

sábado, fevereiro 24, 2024

Escuridão

     Há coisas que servem apenas para existir. Não têm aparente utilidade prática. Limitam-se a cumprir o seu papel. Por isso mesmo encontram-se frequentemente em vias de extinção.

    Incansáveis, procuramos o espírito da coisa embora saibamos que a coisa não tem espírito, que a coisa, na maioria das vezes, se esconde dentro de nós.

    Cercados por alcateias de monstros ávidos de riqueza assistimos impotentes à desolação da paisagem.

quarta-feira, fevereiro 21, 2024

Tempo é dinheiro

   Os debates entre os candidatos às próximas eleições legislativas e os respectivos comentários foram um espelho do estado a que chegámos. Assistimos a uma sucessão de programas televisivos encarados como se se tratasse de mero entretenimento, espartilhados por espaços comerciais. Aquilo que os "bonecos" pudessem dizer foi sempre acessório e utilizado apenas para alimentar os inacreditáveis espaços de comentário que se lhes seguiam. Os "comentadores" avaliavam as prestações dos candidatos como se fossem mestres-escola vigiando o conhecimento, a postura e a atitude de alguns fedelhos.  

    Veio-me à memória a ideia pré-histórica de que se vendem candidatos como se fossem sabonetes. Nos dias que correm os candidatos ajudam é a vender sabonetes. Desde que nos transformámos em consumidores, deixando de ser cidadãos, que a publicidade se tornou uma espécie de Inteligência Artificial de mercearia. Acéfala e indiferente aos destinos da Comunidade e do Ser Humano, como é de esperar de uma IA, a publicidade transforma tudo em negócio e determina o foco e a duração dos tempos de atenção e concentração a que temos direito. O que importa eleger A, B ou C? Desde que o tempo continue a ser dinheiro estará tudo bem.

terça-feira, fevereiro 20, 2024

Seja

     Não quero que eles sejam como eu. Só não gosto que sejam como são. Que vivam como lhes for mais confortável. Por mim, tudo bem. Mas não me venham dar ordens nem me venham impor as suas leis merdosas.

segunda-feira, fevereiro 19, 2024

Ser como o cuco

     Reflectir sobre o tempo é uma actividade perfeitamente dispensável. Para quê matar neurónios a tentar compreender os segredos do tempo quando temos o relógio incrustado no interior da cabeça, no interior do peito, nas palmas das mãos e nas solas dos pés? 

    Transformamo-nos em relógios. Desde o dia em que nascemos até ao dia em que vamos a enterrar trabalhamos laboriosamente nesse sentido, o nosso sonho é virmos a ser mecanismos complexos e exactos. Se virmos bem, a cegonha não traz os bebés vinda de Paris mas sim de algures em território suíço. 

    Somos como os cucos: cúcú, cúcú! Deitamos a cabeça de fora a horas certas e fazemos um sorriso de circunstância. Avançamos e recuamos, ensaiamos uma rotina diária ordenada. Cúcú, cúcú. Havemos de nos transformar em algo que não nos dê o trabalho insano de pensar. Cúcú, cúcú.

    Os cucos insinuam-se, põem os seus ovos nos ninhos alheios e depois vão meter nojo para outro lado. Os cucos são como os fascistas e os fascistas são como os cucos. Os cucos põem ovos nos ninhos alheios, os fascistas põem mentiras nos cérebros alheios. Ovos de medo que, quando eclodem, trazem ao mundo o terror.

    Nunca pensei poder pensar o que acima escrevi. Ou ter-me-ei limitado a escrever estas palavras, de um modo mecânico, quase automático, numa atitude surrealista? As ideias que ficam expressas não eram minhas, andavam por aí a pairar e, quando escrevi o texto, desceram à Terra na única forma possível: esta. Exactamente esta!

    As ideias são como ovos de cuco...

domingo, fevereiro 18, 2024

Tempo é dinheiro

     Muito se tem falado do facto de os debates entre candidatos às próximas eleições legislativas serem curtos e apressados enquanto os espaços de comentários que se lhes seguem são prolongados horas a fio. Aí, os comentadores discorrem sobre o que foi e não foi dito naquele intervalo de tempo no qual os candidatos ocuparam o ecrã. E atribuem notas, como se fossem mestres-escola.

    Afinal de contas é tudo, debates e comentários, espartilhado por espaços comerciais opressivos que sufocam a palavra e o pensamento humanos.A Publicidade tornou-se uma espécie de Inteligência Artificial de mercearia, acéfala e indiferente aos destinos da Comunidade e do Ser Humano, que asfixia os nossos sonhos e os transforma em negócios, tabelas de Excel e outras coisas mais ou menos dispensáveis à nossa felicidade. O que importa eleger A, B ou C? 

    Desde que o tempo continue a ser dinheiro estará tudo bem.

sábado, fevereiro 17, 2024

A fronteira

     Ando um bocado desiludido. Que a decência não é o nosso forte enquanto sociedade, isso eu já sabia e, imagino, também tu já tinhas percebido. O que me deixa cabisbaixo é perceber, uma e outra vez, que a indecência não tem linha que lhe limite o nível mais rasteiro. Quando essa linha atinge o chão há sempre quem venha com a sua pá escavar o buraco que levará essa linha mais fundo e mais baixo e mais e mais e mais.

    Estará no Inferno a última fronteira da filha-da-putice?

sexta-feira, fevereiro 16, 2024

A dúvida

     Gostava de caminhar entre as pessoas. Gostava de as olhar discretamente. Uma vez por outra estabelecia contacto ocular mas desviava rapidamente a atenção para qualquer outra coisa, olhar era muito diferente de ser olhado.Talvez pudesse afirmar que amava os seus semelhantes, não tinha a certeza disso. Não absolutamente.

    

terça-feira, fevereiro 13, 2024

Um muro

     Para lá do muro havia uma multidão. Deste lado, seis ou sete guardas armados bastavam para manter as coisas no lugar. O muro era intransponível, estava-se em segurança. A vida podia continuar como habitualmente. A multidão não chegava a ser vista, era ignorada. Velhos, novos, bebés ou crianças, homens ou mulheres, multidão ignorada. Deste lado do muro havia muitos pobres e alguns ricos mas a fome era disfarçada, nalguns casos era até encorajada (como, por exemplo, entre os eremitas e os modelos de passerelle). Para lá do muro, muro coroado com arame farpado, a fome tornara-se um modo de vida.

    Rotina e desespero.

    O que fazer com aquela multidão? Ignorá-la. Sim, mas ignorá-la não faz com que desapareça. Não? Temo bem que não. Se olhar por cima do muro verá que a multidão não só permanece no local como aumenta a olhos vistos. (silêncio) Mande chamar o responsável pelos guardas.

quinta-feira, fevereiro 08, 2024

A arte de engolir sapos

    Já vi muita gente a engolir sapos. Uns gesticulam como marionetas e fazem estranhas caretas, outros vão largando impropérios incompreensíveis (pois quem consegue dizer algo que faça sentido com um sapo enfiado na boca?), outros ainda ficam hirtos como estátuas de mármore e vão metendo a coisa para dentro com ar de quem está aflito.    

     A arte de engolir sapos não está ao alcance de qualquer um. Para engolir um sapo e manter uma pose elegante é preciso estar-se bem seguro de si. É preciso saber que o sapo será digerido e, fazendo fé absoluta na Lei de Lavoisier, transformar-se-à numa outra coisa. A arte de engolir sapos implica ir pensando no futuro enquanto se digere o bicho. 

    E, mais tarde, o futuro chega e o sapo é já uma outra coisa.

  

quarta-feira, fevereiro 07, 2024

Notas soltas

     Começou o arraial dos debates televisivos da campanha para as eleições legislativas de 10 de Março. É um estranho espectáculo. 

    Tento compreender um pouco melhor a obra de Bosch. Quanto mais atento nela mais me convenço de que o mestre se divertiu muito, imaginando monstros patuscos num mundo habitado por monstros a valer. A pintura de Bosch é uma espécie de higiene. 

    Ter a percepção clara da grandeza de uma ideia deve ser um fardo pesado. Ou se guarda bem guardada, ou se perde ou, na pior das hipóteses, tenta-se partilhá-la. Feita a partilha resta a espera e, finalmente, o embate. Será coisa violenta? 

    Observo os velhos (os mais velhos, para ser preciso) na tentativa de perceber o que me espera num futuro não muito longínquo. Vejo-os mas não os sinto. O processo é lento. Talvez um dia lá chegue.