sexta-feira, dezembro 31, 2010
2010... 11
De que andas tu à procura quando não procuras nada?
Há, na tua cabeça, ecos de coisas que te esqueceste de pensar.
Amanhã é um novo ano, coisa de calendário.
Que te seja leve, é o meu desejo.
Beijos e abraços.
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quinta-feira, dezembro 30, 2010
Ler
Acabei de ler o romance "Estrela Distante" de Roberto Bolaño. Se "2666" me tinha impressionado favoravelmente, com este 2º livro do autor chileno decidi ler tudo o que encontrar assinado por ele. O gajo escrevia de uma forma assombrosa. Quando leio Bolaño é como se estivesse a ler as coisas que gostaria de ter sido eu a escrever, forma e conteúdo, e é perante a grandeza da sua escrita que compreendo como me falta arte e, sobretudo, como me falta vida. Resumindo, percebo como me falta tudo!
Diz o ditado que "não há bela sem senão"; e o senão nesta história de contornos felizardos é a edição que me foi oferecida no dia de Natal. A coisa saiu com a chancela da Teorema e além de uma capa assim a dar para o muito ranhoso tem um conjunto de gralhas e descuidos vários, capazes de irritar o mais santo dos leitores, pormenores que sugerem que a edição foi feita à pressa ou então com falta de tempo.
Nada que impeça a leitura deslumbrante de mais esta história negra como a noite escura, contada com um brilho capaz de ofuscar a luz do sol. Decerto exagero nos elogios, mas não faz mal, Bolaño merece o exagero.
segunda-feira, dezembro 27, 2010
Coisas redondas
Aproxima-se o final de ano e surgem as tradicionais listas das coisas mais importantes do ano. Ele são os 10 melhores livros ou as 100 pessoas mais glamorousas, as 50 medidas do governo para atacar a crise, listas sempre compostas por números redondos.
Não encontramos os 11 melhores discos nem os 27 cientistas mais relevantes no panorama internacional. Nada disso. As listas têm sempre 10, 50, 100 elementos, como se esses números encerrassem alguma espécie de magia sobrenatural (que a magia do costume, a magia do quotidiano, não impressiona por aí além).
Esta redondice numérica deixa-me sempre a pensar que há-de haver por aí muita injustiça. Ou alguém (ou alguma coisa) entra na lista indevidamente, só para arredondar, ou então cai fora por estar a estragar a beleza da coisa.
A partir de agora vou dedicar-me a procurar as coisas (ou as pessoas ou o que quer que seja) que estão a mais ou a menos nestas listas, as pontas indesejadas ou os elementos integrados apenas para embelezar.
Nesta minha nova busca descobri que a elaboração de tais listas redondas é, por si só, absolutamente redundante. Percebi que as listas são feitas apenas porque sim e apenas não seriam feitas porque não.
Daí que este post seja, tal como essas listas, uma espécie de coisa nenhuma, uma coisa redonda e imperfeita, como apenas as coisas redondas podem ser. A minha busca acabou mal tinha sido iniciada.
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quarta-feira, dezembro 22, 2010
Plásticos
Os homens dos anúncios publicitários não têm pêlos. Não têm pêlos no peito, nem na cara, nem nas pernas, são pelados. Mais barbeados que o rabinho de um bébé, tão lisos e limpos como o chão de um corredor de hospital futurista. São avatares do homem que aí vem, o homem que já quase existe e não tarda em chegar. Representam a imagem do homem desejado pela sociedade de consumo pós-industrial.
Seja por obra e graça do Photoshop ou da depilação a laser, são homens-bonecos, próximos da coisa de plástico, como se fossem todos clones do namorado da Barbie, reproduções baratas de estátuas gregas para vender a pataco. A invenção desta new thing parece dizer-nos ao ouvido: vê lá se te aperaltas e te deixas de merdas pois isso é que é importante e faz a felicidade brilhar. Revoluções? Isso é coisa de tipos feios e barbudos, cheios de pêlos, como os macacos.
Como será o Pai Natal, sem barba nem barriga de cerveja, representante de uma masculinidade lisa como um saco de plástico?
Seja por obra e graça do Photoshop ou da depilação a laser, são homens-bonecos, próximos da coisa de plástico, como se fossem todos clones do namorado da Barbie, reproduções baratas de estátuas gregas para vender a pataco. A invenção desta new thing parece dizer-nos ao ouvido: vê lá se te aperaltas e te deixas de merdas pois isso é que é importante e faz a felicidade brilhar. Revoluções? Isso é coisa de tipos feios e barbudos, cheios de pêlos, como os macacos.
Como será o Pai Natal, sem barba nem barriga de cerveja, representante de uma masculinidade lisa como um saco de plástico?
sábado, dezembro 18, 2010
Uma suspeita
Não sei se sentes o mesmo que eu, caro leitor. Eu sinto que, apesar de o tempo passar e ir deixando marcas no meu corpo, alterando-me o aspecto exterior, por dentro, naquilo que, penso, seja a minha alma, não noto alterações tão profundas quanto as rugas que agora me desenham o rosto. Lá no fundo (cá no fundo) continuo a ter os impulsos e os anseios que sempre tive desde que me lembro de me lembrar de alguma coisa.
Na essência não me parece que esteja assim tão afasatado quanto seria de esperar daquilo que fui em criança. Suspeito que sou, que todos somos, crianças envelhecidas, crianças grandes, mas crianças.
Inventamos formas de imaginar que o crescimento do corpo implica o crescimento da alma. Que a idade adulta é muito diferente da imperfeita adolescência, que a adolescência é demasiado próxima da infância, mas cada vez mais me convenço que as coisas não são assim tão claras, muito menos são evidentes.
A idade adulta apenas dificulta a aceitação de que continuamos com desejos e impulsos infantis. Queremos continuar a ter tempo livre para brincar mas, como isso é complicado, passamos a transferir o espírito das nossas brincadeiras infantis para as relações de trabalho, para o quotidiano delirante que vivemos. Porque a vida é um eterno delírio.
Se assim for, mas posso perfeitamente estar enganado, fica explicada a razão de tanto desmando na superficie do planeta, tanta confusão e desgoverno nas nações, fica explicado o falhanço da sociedade patriarcal em que nos vamos, paulatinamente afundando. Os grandes chefes de estado não são mais que crianças tristes e angustiadas, os donos das empresas multinacionais são como adolescentes maldosos e rassabiados, todos eles, todos nós, saudosos do amor materno e do conforto uterino, memória para sempre perdida.
Imagino que a solução para os males do mundo seja entregar, de uma vez por todas, o poder às mulheres. Apenas uma mãe poderá por em ordem as nossas cabeças desorientadas de crianças.
Na essência não me parece que esteja assim tão afasatado quanto seria de esperar daquilo que fui em criança. Suspeito que sou, que todos somos, crianças envelhecidas, crianças grandes, mas crianças.
Inventamos formas de imaginar que o crescimento do corpo implica o crescimento da alma. Que a idade adulta é muito diferente da imperfeita adolescência, que a adolescência é demasiado próxima da infância, mas cada vez mais me convenço que as coisas não são assim tão claras, muito menos são evidentes.
A idade adulta apenas dificulta a aceitação de que continuamos com desejos e impulsos infantis. Queremos continuar a ter tempo livre para brincar mas, como isso é complicado, passamos a transferir o espírito das nossas brincadeiras infantis para as relações de trabalho, para o quotidiano delirante que vivemos. Porque a vida é um eterno delírio.
Se assim for, mas posso perfeitamente estar enganado, fica explicada a razão de tanto desmando na superficie do planeta, tanta confusão e desgoverno nas nações, fica explicado o falhanço da sociedade patriarcal em que nos vamos, paulatinamente afundando. Os grandes chefes de estado não são mais que crianças tristes e angustiadas, os donos das empresas multinacionais são como adolescentes maldosos e rassabiados, todos eles, todos nós, saudosos do amor materno e do conforto uterino, memória para sempre perdida.
Imagino que a solução para os males do mundo seja entregar, de uma vez por todas, o poder às mulheres. Apenas uma mãe poderá por em ordem as nossas cabeças desorientadas de crianças.
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sábado, dezembro 11, 2010
O sintoma
O “Caso Assange” está a deixar atrás de si um rasto de destruição do tecido democrático que poucos conseguiriam imaginar aqui há uns meses atrás. Mas essa destruição não é o que está a degradar a democracia. O que a Wikileaks tem vindo a destruir com uma eficácia robótica é o véu difuso que cobre aquilo a que chamamos “democracias capitalistas”, deixando a céu aberto alguns esgotos fedorentos que nos têm sido apresentados como canalizações seguras de água potável.
Muita gente se insurge contra o facto de Assange apontar baterias ao império americano deixando fora da vergonha que tem exposto os “impérios do mal” chinês ou russo. Essas pessoas afirmam que se está a destruir um dos mais preciosos bens das “democracias capitalistas” que é o segredo em que se fabricam discutíveis negócios diplomáticos, como se a falta de escrúpulos e a gula dos mais poderosos fosse uma espécie de direito divino a que nós, os basbaques da ordem, não temos o direito de assistir.
Não vejo esses a questionar o facto de o nosso Estado Social estar a ser assassinado pela concorrência desleal entre economias que assentam em paradigmas opostos. Abrimos os mercados internacionais à concorrência feroz entre sistemas que nada têm em comum no que diz respeito aos direitos dos trabalhadores. Por isso vemos com a maior das naturalidades as empresas multinacionais a “deslocalizar” os seus centros de produção para países onde trabalho é sinónimo de escravatura, atirando milhares dos nossos para o desemprego e a miséria e achamos normal. São as regras do jogo. O lucro tudo justifica da mesma forma que o segredo diplomático. Os fins justificam os meios. Isto não me soa nada democrático.
A Wikileaks é um sintoma da doença que vem corroendo as democracias ocidentais, não é a doença, em si. O que temos agora perante os nossos olhos é a evidência de algo que há muito suspeitávamos, o declínio do nosso império planetário é imparável. Fecha-se o ciclo de dominação do Ocidente iniciado com as viagens marítimas dos europeus e o seu superior desenvolvimento tecnológico, político e social que culminou no domínio colonial sobre o resto do mundo. Com o fim dos impérios coloniais estamos agora, teoricamente, em pé de igualdade com aqueles que explorámos e humilhámos ao longo de séculos. É tempo de ajuste de contas e a porrada que estamos a levar não é bonita de se ver, aqui deste lado.
A Democracia à moda da Grécia Antiga, que foi o nosso orgulho e a nossa bandeira durante a segunda metade do século XX, está toda esburacada e mais suja que uma fralda de recém-nascido. Já não faz sonhar ninguém nem mobiliza multidões de idealistas convictos. Vendemos a Democracia ao capital e o que temos em troca é esta deterioração do nosso modo de vida em função de uma natural ascensão de países não democráticos à condição de potências dominantes num mundo economicamente globalizado. Trocámos um ideal de civilização por uma sociedade selvagem alindada por uma mão-cheia de gadgets tecnológicos, onde os grandes comem os pequenos sem remorso nem a mais pequena sombra de hesitação.
O que a Wikileaks está a fazer é apenas despertar a consciência que temos da decadência do império.
quarta-feira, dezembro 08, 2010
Sossego ou medo?
Toda esta história em volta de Assange me deixa a pensar em várias coisas, nem sei bem qual delas a mais desagradável.
Fico a pensar que toda a histeria democrática com que bombardeamos regularmente os chineses por não permitirem um espaço de informação e comunicação aberto e sem censura não passa disso mesmo, histeria. Histeria e cinismo porque, afinal de contas, a liberdade de expressão não é assim tão radical como se pensa.
Penso também que o sonho de uma sociedade aberta e governada por personagens interessadas no bem comum é mais um pesadelo que outra coisa. Lá por trás anda tudo metido em cenas pouco edificantes e o que passa para os canais de informação convencionais são meros contos fantásticos. Quando alguém mete a boca no trombone e deita cá para fora hsitórias verdadeiras que desconstroem os tais contos fantásticos está a arriscar a pele. Isso não deveria acontecer mas, como podemos constatar com o caso de Assange, é o que acontece, de facto.
Finalmente, uma dúvida: o que é melhor para as sociedades democráticas, saber o que se passa ou viver na ignorância e na ilusão? A ignorância sossega, a verdade assusta?
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segunda-feira, dezembro 06, 2010
Em fuga no espaço virtual
O amigo Assange está feito num oito. Realmente não sei bem do que estava ele à espera ou de que estavamos nós à espera que lhe acontecesse a ele e ao seu terrível site da Wikileaks. Após os verdadeiros assaltos à imagem da administração norte americana e aos abanões que as revelações da Wikileaks têm dado à credibilidade (ou, pelo menos, à seriedade) de uma parte dos dirigentes mundiais, o que poderia Assange esperar da vida?
Perseguições, é bom de ver. Perseguições a ele e ao seu site que vem sendo empurrado e apagado aqui e ali, pelo espaço virtual fora. O que a Wikileaks faz não é particularmente elegante. A discussão em torno dos métodos e dos conteúdos tem sido grande. Mas, não sendo elegante, tem a eficácia de uma martelada no dedo grande do pé.
Assange anda por aí, em fuga. Martelou demasiados dedões e com demasiada força. Esperemos que consiga continuar a escapar-se e a dar marteladas a torto e a direito.
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quinta-feira, dezembro 02, 2010
Finalmente, um pouco de beleza no mundo!
O trabalho da Wilkileaks é como um raiozinho de sol a aconchegar uma abelhinha que retira o pólen a uma delicada flor num imenso prado, outrora verde. A beleza da coisa tem também a ver com o facto de haver já dissidentes da Wikileaks que criticam a actual orientação do site por se centrar demasiado nos EUA e se manifestam dispostos a criar outro site do mesmo género, coisa linda como esta mas com vistas mais alargadas, depreende-se.
Entretanto a Interpol emitiu um mandado de captura internacional contra Julian Assange que lhe terá escapado à justa ainda esta manhã, ou ontem, ou lá quando foi. Não pode haver uma coisa bonita que não desperte a inveja ou a falta de sentido estético dos mongas que governam este mundo. Anda tudo doido por deitar a pata ao bom do Julian, o esteta.
Assange verteu uma boa dose de beleza neste mundo a desfazer-se em merda ao destapar a fossa, mostrando o aspecto real da coisa; feiosa, miserável, mesquinha, uma monstruosidade, é o que é o mundo que nos encaixa nos nossos corpos e oprime as alminhas que os animam.
Espero que Assange escape e continue a produzir estes momentos únicos de beleza resplandescente.
terça-feira, novembro 30, 2010
Jardinagem
Enxertar rebentos da realidade numa planta inexistente: essa é a actividade do artista, jardineiro de coisa nenhuma no magnífico jardim do Marajá.
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sexta-feira, novembro 26, 2010
Um problema
O cartaz do filme
Estou com um grave problema. Comecei a ler "Expiação" de Ian McEwan, um dos autores que mais tenho lido nos últimos tempos e que admiro profundamente ao ponto de pretender ler todos os seus livros já editados em português. Então que raio de problema posso ter com "Expiação"? O meu problema chama-se FILME que, ainda por cima, vi duas vezes; uma no cinema outra em casa.
Não me lembro de outra ocasião em que tenha visto primeiro um filme e depois tenha lido o livro que lhe deu origem. O contrário já aconteceu uma vez ou outra e, nessas ocasiões, pude sempre concluir da extraordinária distância entre dois objectos que se debruçam sobre o mesmo tema recorrendo a diferentes formas de expressão artística. Normalmente parece-me que a Literatura vence o Cinema com bastante à vontade. Desta vez tenho um problema.
Logo na 1ª página fui assaltado pelas persongaens do filme. McEwan descreve a personagem e eu já estou a vê-la antes do fim da descrição e, pior que tudo, estou a comparar as dificuldades que os responsáveis pelo casting do filme tiveram para escolher as pessoas que correspondessem à imagem literária de McEwan.
E esta reflexão alastra para as cenas em si, para os ambientes, para a interioridade das personagens... caraças, o filme está a infectar-me a leitura com uma doença grave e deformadora tanto da pele quanto das entranhas do meu prazer na leitura.
A doença do meu prazer é de tal modo grave que pondero seriamente passar em falso a leitura de "Expiação" e dedicar-me a outra obra de McEwan uma vez que ainda me faltam duas ou três. Não sei, ainda não me decidi. Mas uma coisa eu garanto: muito dificilmente repitirei esta proeza. Adoro cinema mas, percebo agora, a leitura é-me bastante mais querida.
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quarta-feira, novembro 24, 2010
Entre uma coisa e outra
Aqui há dias fui ver o mais recente filme de Harry Potter. Penso que falhei um dos episódios da saga do feiticeiro (já não posso dizer "do pequeno feiticeiro"), ou terei falhado dois? Não sei bem.
Quando a minha filha começou a ganhar autonomia para ir ao cinema com os amigos deixei de seguir religiosamente as aventuras de Harry Potter e seus compinchas. Ela tornou-se uma cinéfila respeitável, com um variado leque de gostos que muito me orgulha, alguns bastante (muito) exigentes. A série do feiticeiro faz parte daqueles que não pode perder.
A qualidade dos filmes parece-me bastante razoável sob todos os aspectos. Não me entusiasma mas também não me incomoda. "Os talismãs da Morte - parte 1" vê-se com agrado. Algumas das personagens que transitam de filmes anteriores eram-me desconhecidas mas isso não me impediu de seguir "por dentro" as peripécias da narrativa.
A cada novo filme os actores estão (muito) mais crescidos e o tom do ambiente geral é cada vez mais negro, por vezes parece-me mesmo algo cruel. Se os primeiros filmes da série eram infantis, os mais recentes deixaram de o ser. Imagino que uma criancinha fique um tanto incomodada com algumas cenas. Os espectadores fiéis de Harry Potter cresceram e, com eles, cresceram os actores e a narrativa geral da coisa tornou-se, também, mais adulta.
Harry Potter é, sem dúvida, um dos maiores fenómenos culturais do mundo globalizado pelos meios de comunicação supersónicos. Um mundo mágico, onde a verdade e a realidade se podem separar com nitidez mas que nos permite sonhar mais quando estamos acordados, seja na sala do cinema ou aqui, sentados defronte deste écrã, a olhar o mundo virtual e a viver esta vida que não sabemos muito bem que tipo de vida é. Nem verdade, nem realidade, algo entre uma coisa e outra.
domingo, novembro 21, 2010
Fotografa-me, fotografa-me por favor!
Tenho tentado ignorar ao máximo esta coisa da cimeira da NATO (ou da OTAN, como se diz em português esta coisa). Há, a toda a volta do acontecimento, um folclore que me indispõe. São os políticos que parecem querer apenas as suas oportunidades de foto de mão dada com Obama e um sorriso afivelado nas beiças. Ou a parecer que estão a dizer uma coisa muito importante a fulano, talvez o assunto seja sicrano, mas podem muito bem estar apenas a dizer que "hoje ainda não caguei" que o resultado é o mesmo. A foto só mostra o aspecto não mostra o conteúdo. E é assim que toda esta pompa e circunstância aparece aos meus olhos. O que sai cá para fora, o que nos entra nos ouvidos, é uma ínfima parte do que por ali se discute. Nas sessões abertas aos jornalistas só se deixam cair da boca para fora discursos de circunstância, bocas para fazer manchetes agradáveis. As conversas que interessam, aquelas que são hard-core, 1º escalão, têm-se à sorrelfa, longe dos orelhudos que escrevinham nos jornais.
Do outro lado, nas ruas, o folclore é diferente mas também parece obedecer a regras pré-formatadas. São os gajos com rastas e os que se algemam em cima dos que se deitam no chão. Todos pacifistas e anti-guerra e anti-qualquer-coisa que lhes cheire a não-sei-quê. Também estes procuram a sua oportunidade de foto, por que outra razão uma pessoa haveria de despejar latas de tinta vermelha pela cabeça abaixo?
Nos dias em que esta coisa andou por aqui continuei a comprar jornais mas, em vez de ler os longos textos de especialistas e jornalistas limitei-me a ver as fotos. Afinal de contas é o que realmente interessa aos protagonistas de todo este folclore mediático.
Um dia de protestos anti-NATO no centro de Lisboa from jmsb on Vimeo.
quinta-feira, novembro 18, 2010
O deserto está vazio
É a partir de amanhã que se reúne em Lisboa a tão badalada cimeira da NATO. Que vai ser histórica, dizem os polítiquitos tugas, sempre a tentarem enfiar os respectivos nomes nas páginas dos livros que contam como as coisas foram, esquecendo-se de tentar inscrever os nomes nas páginas dos livros que propõem como as coisas vão ser; que é uma reunião importantíssima para o futuro desta santa aliança, dizem os analistas, que vai ser uma grande merda, digo eu (que sou um chato).
As medidas de segurança em volta do pessoal que voa de todas as partes do mundo em direcção a Lisboa como limalha de ferro atraída por um íman poderoso, fazem da capital portuguesa um local em aparente estado de guerra. As fronteiras da nação estão fechadas durante o tempo que durar esta coisa, há polícia por todo o lado, carros revistados, pessoas revistadas, como nota Miguel Esteves Cardoso no Público de hoje, a Lisboa que os visitantes ilustres vão ver parece-se mais com a célebre Green Zone de Bagdad que com a menina e moça daquela canção que por vezes ainda se ouve por aí.
Todo este aparato marcial faz pensar. Mas, deixando de lado os tais pensamentos que, só por si, davam material para um post que nunca mais acabava, deixo apenas uma pergunta: porquê em Lisboa, meu Deus?
Porque se faz uma reunião destas no meio de uma cidade que tem o seu ritmo de vida diário normalzinho, o seu quotidiano delirante bem oleado e em funcionamento, que vai parar na sexta-feira; uma cidade que é posta em estado de sítio num dos países mais pacíficos deste mundo (há quem diga que é um país em estado de coma andante). Até parece que se está a convidar um bando de demónios para reunir na capital do paraíso! Porque não fazem estas merdas em lugares onde não haja uns milhões de pessoas a atrapalhar os figurões? Os desertos estão sempre tão vazios...
terça-feira, novembro 16, 2010
Animais falantes
"Somos uma manada de merda" disse um deles; "Gritamos, ameaçamos e reclamamos mas, na verdade, estamos apenas a mendigar um pouco de atenção e alguma compaixão. Ficamos satisfeitos com uma esmola sentimental. O pior é que os cabrões sabem disso e não nos levam a sério."
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domingo, novembro 14, 2010
RED, vermelho de gozo
Bruce Willis numa cena destas é absolutamente normal. Morgan Freeman, também. John Malkovich já pode ser considerado surpresa mas, Hellen Mirren!? Essa é mesmo inesperada. Juntemos Mary-Louise Parker e temos completo o elenco principal deste filme de acção inspirado numa Banda Desenhada da DC Comics.
O registo global é de comédia marcial. Os maus estão por lado e mesmo os bons são, na verdade, muito mauzinhos. Tiros, mortes e explosões em catadupa, frases corrosivas e personagens pouco usuais (estou a pensar na de Malkovich, um ex-assassino da CIA que foi submetido a experiências que consistiram em enchê-lo de LSD diariamente, ao longo de vários anos).
Resumindo e concluindo, um produto de consumo imediato que se consome com agrado e alguns sorrisos (talvez até com alguns risos). No final... bom, no final não restará grande coisa mas também não me parece que ninguém vá ver este filme à espera de compreender um pouco melhor o mistério da existência humana.
sábado, novembro 13, 2010
Uma citação
Tenho uma admiração especial por Jorge Luís Borges. Quando leio alguma coisa de todas as coisas admiráveis e maravilhosas que ele deixou é como se estivesse a ouvir a voz da Sabedoria. Essa voz soa-me gentil e poderosa, uma expressão contínua da beleza que as coisas do mundo encerram.
Deixo um excerto de Este Ofício de Poeta, um conjunto de lições exemplares e comoventes.
"Todas as vezes que mergulhei em livros de estética tive a sensação desconfortável de estar a ler livros de astrónomos que nunca olharam para as estrelas. O que quero dizer é que escrevem sobre poesia como se a poesia fosse uma tarefa e não o que realmente é: uma paixão e uma alegria.
(...) A poesia não nos é alheia - a poesia espreita, como veremos, a cada esquina. Pode saltar-nos em cima a qualquer momento.
Agora estamos prontos para caír numa confusão vulgar. Pensamos, por exemplo, que, se estudamos Hoemro, ou a Divina Comédia, ou Frei Luís de Léon, ou Macbeth, estamos a estudar poesia. Mas os livros são apenas ocasiões para a poesia.
Acho que Emerson escreveu algures que uma biblioteca é uma espécie de caverna mágica cheia de mortos. E esses mortos podem renascer, podem voltar à vida quando abrimos as suas páginas.
Por falar no Bispo Berkeley (o qual, deixem-me recordar-vos, foi um profeta da grandeza da América), lembro-me de que ele escreveu que o sabor da maçã não está na própria maçã - a maçã não se saboreia a si própria - nem na boca de quem a come. Rquer o contacto entre as duas. O mesmo sucede a um livro ou a uma colecção de livros, a uma biblioteca. Na verdade, o que é um livro em si? Um livro é um objecto físico num mundo de objectos físicos. É um conjunto de símbolos mortos. E então chega o leitor certo e as palavras - ou melhor, a poesia por trás das palavras, pois as palavras em si são meros símbolos - saltam para a vida e temos uma ressurreição da palavra."
páginas 8 e 9 na edição da Teorema.
quinta-feira, novembro 11, 2010
Alívio quase total
Por vezes tenho a sensação de que o mundo já acabou e que agora vivemos num lugar muito mais esquisito. É tudo muito triste. Não há nada para fazer e as pessoas sentem-se abandonadas, vagueando por aí, sem trabalho. Isso leva-as a agir de forma bastante bizarra.
Quando esta sensação cresce demasiado e começo a ficar assim a dar para o deprimido, belisco-me com força ou dou um soco na testa e percebo que ainda estou aqui, que tudo aquilo, afinal, não era mais que uma espécie de sonho. Talvez um pesadelo.
A dor traz-me de volta à realidade e eu sinto-me melhor. O mundo não acabou e os zombies do meu sonho são apenas mendigos, velhos e pessoas desempregadas à procura de qualquer coisa. Perante um quadro destes sinto-me muito melhor. Para ser sincero, sinto-me aliviado.
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terça-feira, novembro 09, 2010
Encolheste os ombros hoje?
"(...) e o guarda florestal encolhia os ombros. Os encolhimentos de ombros podiam significar que uma pessoa não sabia nada ou então que a realidade era cada vez mais vaga, mais parecida com um sonho,ou então que tudo ia mal e que o melhor era não perguntar nada e armar-se de paciência."
Roberto Bolaño, 2666, página 796
domingo, novembro 07, 2010
Fincher regressa
David Fincher já fez vários filmes que não se esquecem do dia para a noite. Clube de Combate ou Sete Pecados Mortais figuram sem dificuldade nas listas de filmes mais sólidos das últimas décadas. Com Benjamin Button parecia ter perdido um pouco a eficácia narrativa que agora recupera em A Rede Social em grande estilo.
A primeira cena deste filme dá o tom, logo à partida. Personagens com espessura, diálogos bem construídos, ritmo trepidante. Tal como numa página de Facebook, somos confrontados com diferentes linhas narrativas em simultâneo. Os flashbacks entram na perfeição, o espectador nunca se perde nem perde o interesse pela sequência de acontecimentos.
A capacidade de criar e marcar diferentes ambientes visuais e sonoros contribui notavelmente para a qualidade global do filme. A ver. Sem receios de qualquer espécie.
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