domingo, maio 15, 2011

Contemplação

 

Nos últimos dias tenho caminhado. Vou andando por ruas ensolaradas como se isso fizesse sentido mesmo que, aparentemente, não faça qualquer sentido. Apercebi-me que este mundo, o mundo urbano, é cada vez menos contemplado. É uma paisagem para se percorrer em trajectos viciados com o objectivo de ligar pontos mais ou menos distantes, não parece haver uma intenção específica de criar lugares para descansar o espírito ou o olhar que o alimenta. Ou, então, há quem tenha essa intenção mas ela parece não ser apreendida pela maioria dos que percorrem as ruas.

A pé ou de carro ou de autocarro (os que vão em meios de transporte subterrâneos representam o paradigma da situação que tento aqui expor) os olhares parecem não ser capazes de se fixar na paisagem urbana. As pessoas atiram os olhos para o fundo de telemóveis (ou aparelhos desse género) buscando constantemente imagens que não estão ali, à sua volta, como se o objectivo das suas vidas fosse, simplesmente, consumir imagens artificiais que lhes chegam constantemente, produzidas por outras pessoas.

É uma espécie de magia trecnológica que nos coloca em espaços virtuais alternativos e nos rouba ao lugar onde nos encontramos. É como na canção de António Variações  que diz: "eu só estou bem, aonde não estou e eu só quero ir aonde não vou...", fugimos sempre do "aqui e agora" sem nos apercebermos que assim poderemos estar a fugir daquilo que somos, de quem somos. Qual é o problema? Também não sei bem.

É aqui que entra aquilo que chamamos de "street art". Os gajos que pintam as paredes das ruas criam momentos específicos na monotonia da paisagem urbana, roubam-nos a atenção para fora de nós próprios, devolvem-nos o olhar particular e individual que nos caracteriza e distingue uns dos outros e dos bichos que connosco convivem nos esgotos. Tornam possível o acto de contemplar o mundo artificial em que nos movemos como autómatos. "Sujam-no", fazem dele um espaço imperfeito e, como tal, humanizam esse espaço.

segunda-feira, maio 09, 2011

Olhos que não vêem...


Como em qualquer bom filme de terror, é mais interessante aquilo que não vemos do que o sangue expressamente representado. O terror pode ser dado pela expressão de uma personagem e não pela navalha a perfurar a pele. Assim ficamos a "ver" a morte de Bin Laden pelas expressões das personagens que assistiam à função em plena "situation room". O espectáculo foi exclusivo para os grandes semhores da guerra norte-americanos. O que eles viram dificilmente viremos a saber.
"O mundo de cada um é os olhos é que tem" e o que os olhos vêem é o que nos vai construindo a personagem que somos. Diz o povo que "olhos que não vêem, coração que não sente". Talvez... talvez...

domingo, maio 08, 2011

Ver ou não ver, eis a questão

O mundo mediático é visual. A ausência de imagem cria a dúvida, mesmo sabendo da facilidade com que as imagens são manipuladas e se criam falsos testemunhos fotográficos.
O recente caso do assassinato de Bin Laden vem mostrar como as coisas funcionam. Por um lado, a criação quase imediata de um "documento" fotográfico que mostrava o célebre terrorista morto e deformado; por outro a ausência estratégica de imagens que pudessem criar uma situação incendiária no mundo árabe, declarada pela administração norte-americana, que não quis fornecer um ícone profano aos fundamentalistas islâmicos com provas do sucesso da sua acção exterminadora.
Se passearmos pelo Facebook notamos a prevalência esmagadora da imagem sobre a palavra. Os utilizadores dessa rede social mostram fotos e vídeos às toneladas e restringem o texto ao mínimo necessário para sublinharem o que pretendem mostrar com as imagens que colocam nos respectivos murais. O feedback a essas "colocações" não ultrapassa muito o célebre "gosto-não gosto" ou pequenas frases de comentário. Cada vez mais emprenhamos pelos olhos e comemos com os olhos e cada vez menos nos questionamos utilizando a palavra como veículo de comunicação.
Nos dias de hoje, escreveria Shakespeare uma frase como "ver ou não ver, eis a questão"?

(este post não é acompanhado de qualquer imagem que o suporte. Já tinhas reparado?)

sexta-feira, maio 06, 2011

Fábula para os tempos que correm em Portugal


Era uma vez um rato.
O rato fugia desesperado de um gato grande e gordo e muito mau.
Fugia às cegas, num bosquezinho entalado entre prédios cinzentos e estradas movimentadas, corria como o vento, sem saber muito bem para onde se dirigia. Fugia a 100 à hora mas não conseguia desorientar o gato que, apesar de muito gordo, era um caçador diabólico.
O gato tinha muitos anos de prática e já caçara milhentos ratinhos como aquele que agora corria à sua frente. O gato sabia que o rato haveria de cansar-se. Era uma questão de tempo.
Na sua correria destemperada, o rato entrou num imenso prado verdejante onde havia apenas uma vaca a pastar. Olhando em volta o rato percebeu que estava perdido, não descortinava um único esconderijo onde pudesse sonhar com a salvação. Arfando, aproximou-se da vaca e disse.
-Dona Vaca, por favor, esconda-me. Vem aí um gato grande e gordo e muito mau que me vai comer sem dó nem piedade.
A vaca olhou o ratinho com aquele olhar que as vacas têm e repondeu-lhe:
-Ratinho, não há tempo a perder. Põe-te aí atrás e vai rezando.
Mal acabou a frase cagou abundantemente sobre o pequeno roedor, escondendo-o sob uma imensa bosta no meio daquele prado verdejante. Um monte de esterco castanho, combinando na perfeição com a paisagem.
O gato entrou no prado em passo de corrida e estranhou não ver o rato. O monte de merda chamou a atenção do felino que reparou no rabinho do rato que ficara de fora e tremia de medo e nojo por estar tão profundamente enfiado na merda. Sem dizer uma palavra o gato esticou as garras e cuidadosamente retirou o rato que esperneava desesperado. Abanou-o com um refinado gesto de grande classe, soltando pedacinhos de caca em todas as direcções e, sem hesitações, engoliu-o de uma só vez.
Adeus ratinho.

Moral da história: nem sempre quem te põe na merda te quer mal, nem quem te tira dela te quer bem.

terça-feira, maio 03, 2011

1º de Maio de 2011


Estranho dia este em que se comemorou mais um aniversário do Dia do Trabalhador, o Dia da Mãe, a beatificação de João Paulo II e, a partir de agora, principalmente nos Estados Unidos da América ou em Nova Iorque, em particular, comemorar-se-á também a morte de Osama Bin Laden.

Para os que acreditam no martírio dos guerreiros do Islão, esta data marcará uma espécie de beatificação de Bin Laden.

Se Deus for um único qual dos santos estará neste momento a receber a luz divina na sua fronte impassível: João Paulo II ou Bin Laden? Qual deles será o verdadeiro santo? Algum deles será santo?

Vou pensar no assunto e depois esquecê-lo.

domingo, maio 01, 2011

Música portuguesa que ouço com prazer (desmedido) -2



Continuando a postar músicas que muito prazer me dão ouvir aqui deixo um vídeo dos Oquestrada, um grupo da minha terra de adopção, a cidade de Almada, aquela cidade que está do lado certo do rio Tejo. Chamo particularmente a atenção para a extraordinária guitarra portuguesa que nas mãos do meu amigo Lima (o maior guitarrista de toda a nação, o gajo mede para aí quase dois metros!), a guitarra portuguesa que nas mãos do Lima, dizia eu, parece um objecto extraterrestre, pelo menos. Uma festa!

Subitamente... santo!


Não tenho nada contra a mitificação de certas personagens, promovida por determinados grupos, com o objectivo de consolidar as fundações das suas crenças e da sua razão de existir. O Benfica tem o Eusébio, Portugal tem Dom Afonso Henriques, a igreja católica tem uma galeria infindável de santas e de santos que ajudam a manter a fé de multidões de crentes. Por mim está perfeito, cada macaco no seu galho, parece-me bem e de acordo com a lei divina.

A beatificação de João Paulo, aclamado "santo subito" pela populaça, é algo absolutamente legítimo. É uma das muitas situações que me ajudam a compreender com clareza porque razão é para mim impossível ser católico. Lá que declarem santo quem muito bem entendam, já o disse e repito, parece-me absolutamente legítimo, mas que o façam recorrendo à certificação de milagres comprovados com carimbo e assinatura divina, isso já ultrapassa as fronteiras do aceitável.

Eusébio foi um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos, tem uma estátua à porta do estádio do Benfica e é, ainda, adorado por multidões de devotos da biqueirada na chincha. Os seus feitos extraordinários estão registados e podem ser comprovados com a maior das lisuras.

Dom Afonso Henriques fundou a nacionalidade desta coisa que temos por baixo dos pés e a que chamamos Portugal, a pátria muito amada e isso. Tem também uma estátua em Guimarães e, talvez, mais umas quantas por esse país fora, não sei se tem ou não, mas se tivesse não seria nada de mais. Foi guerreiro de méritos comprovados e espertalhão q.b., tudo isto é verdade verdadinha. Não é?

João Paulo II até pode ter sido um gajo porreiro, um daqueles bonzões adoráveis, capazes de fazer derreter os corações mais empedernidos. Mas, daí a ter realizado milagres... custa-me a engolir. Aliás, foi ele e mais uns milhares de santos da igreja, o que mostra como este mudo é um lugar de incontáveis acontecimentos muito para lá do maravilhoso e do fantástico.

Que seja santo. Ok. Mas que a santidade seja reconhecida pela correcção e pela bondade da personagem e nao por razões que a razão não pode reconhecer sem incorrer na mais negra das mentiras.

sexta-feira, abril 29, 2011

Vivam os noivos!



Neste dia de histeria mediática em que todos os canais públicos de televisão estão a babar-se para fora dos écrãs com imagens do casamento do puto mais velho da princesa Diana com uma boazuda qualquer, o 100 Cabeças oferece o seu pequeno presente aos noivos (com legendas em espanhol).
Que tenham muitos meninos e tudo o mais, etc e tal.

quinta-feira, abril 28, 2011

Para reflectir


The Istanbul Manifesto

Marcel Duchamp’s idea was to make art with the already made.
Our idea is to make art that makes art.

Manufacturing is obsolete. Manual skill leads only to a senseless waste of time. The human artist is not a maker, but a creator. Art is a mind extension, a prosthetic, a machine that just waits to be triggered. The role of the artist is to push the ON button, giving rise to an autonomous product.

Art is fundamentally biological and evolutionary. Art is everywhere. Each life form generates a particular kind of art that spreads from simple patterns to complex symbolic communication. Organisms use chemicals, odors, touch, sounds and vision to produce art. Termites build mud structures; birds make colorful installations; whales sing. Humans assemble machines. These machines produce new designs, elaborate forms and compose images. They play music, dance and perform. Soon they will engender astonishing ideas and have futuristic visions. How can a human artist keep on making drawings, paintings or sculptures with his own hands? How can anyone still believe that art is an exclusive human feature?

A new kind of art is emerging out of proto-artificial life forms. These new artificial organisms are biological in essence. Some have tissues, some mechanical parts and others a combination of both. They think and create. Soon they will reproduce and evolve without human intervention. They will be entirely autonomous. The role of the human artist is to give birth, to activate, to let it go, to lose control. We can make the artists that make the art.

Isn’t it a marvelous sensation to see a machine creating a painting on its own? To show, before our eyes, a competence that our ancestors thought to be exclusively human? Isn’t such a painting the most amazing art work since the first cave etchings? Isn’t it the superb output of a freshly arrived intelligence on earth?

Art is everywhere. Natural life do it. Artificial life do it too. Art is beyond humankind . How can we be insensitive to this extraordinary proliferation of creativity? Why be fearful of what adds, doesn’t subtract? How not embrace enthusiastically this non zero sum game?

Human artists are part, not the whole. Human artists can make a difference by exploring the full extension of creativity.

The great artist of tomorrow will not be human.

Leonel Moura
Henrique Garcia Pereira

Ken Rinaldo




The Manifesto was launched on April 7th, 2011, at Galata Perform, Istanbul

Consultar mais informação clicando aqui

sexta-feira, abril 22, 2011

Leituras



Tenho andado às voltas com Roberto Bolaño. Concluí a leitura de mais um livro da sua autoria "Os Dissabores do Verdadeiro Polícia", uma estranha obra que o malogrado escritor não chegou a concluir mas que acabou por ser compilada e organizada para edição, seguindo um conjunto de pistas e sinais mais ou menos decifráveis. É um livro estranho pois surgem diversas personagens de outros livros, principalmente de "2666", que mudam completamente de aspecto, nuns casos, ou são aqui completadas, através da narração de cenas que não foram descritas no livro anterior.


Mais uma vez é o puro prazer da literatura que impele o leitor a deambular por estas páginas sem conclusão, nem moral da história,  nem horizonte para alcançar. Tal qual a vida! Sem tirar nem pôr.

Entretanto, entre um Bolaño e outro, fui lendo "As Aventuras de Robinson Crusoe", leitura que não fiz na minha adolescência, mais dedicada a Júlio Verne ou Mark Twain, só para dar dois exemplos e que hoje concluí.

Dificilmente poderia encontrar tão notável contraste. A obra de um escritor do século XVIII e a de um contemporâneo, lidas em paralelo, mostram bem a evidência de como o tempo e o lugar determinam o aspecto do objecto artístico.

Crusoe é uma narrativa em disparo de escopeta, sem paragens nem descrições minuciosas.As personagens distinguem-se pela ausência de grandes (ou pequenas) subtilezas psicológicas. É a aventura que conta, o puro fascínio pela capacidade de sobrevivência, a descoberta da força que nos mantém vivos nas mais adversas circunstâncias. Uma história em linha muito recta, uma narrativa com princípio meio e um fim a prometer novas façanhas. Um clássico, como me parece que serão os clássicos desta natureza.

Já Bolaño é um verdadeiro artista sem estilo definido, capaz de tocar uma série de instrumentos em simultâneo, criando uma narrativa repleta de texturas diferentes, deixando o leitor cair nuns buracos atrás de outros, armadilhando cada palavra, provocando explosões ineperadas e magníficas a cada passo.

Enfim, leituras! O prazer de ler é quase tão grande como o prazer de correr e saltar ou gritar a plenos pulmões. O que lerei agora? Estou a olhar ali para as duas edições que tenho do Dom Quixote de que nunca concluí a leitura.

terça-feira, abril 19, 2011

Merdas que trepam


Há merdas que trepam pelo juízo de um gajo acima e o deixam a pairar, sem apoio nem prós pés nem prás ideias. É mau, que um gajo fica assim, entre o completamente estúpido e o meio abananado. Até parece que levou um soco no meio do cérebro! Seja lá como for, há coisas bem piores.

Levar um bofetada é mau mas ser enganado é muito pior. Comer carne um pouco podre é mau mas passar fome é capaz de ser um pouco pior. Parece que tudo depende de uma escala de valores que sejamos capazes de estabelecer.

É a Teoria da Relatividade aplicada ao nível da sobrevivência humana. A nossa capacidade de encontrar aquilo que queremos para as nossas vidas. Pode ser obra do acaso ou resultar de uma profunda reflexão, fruto da nossa experiência de vida.

Há quem se sinta confortado por não ter uma vida pior que a do seu vizinho, ainda que seja uma vida aquém das suas expectativas. Há quem nunca esteja satisfeito com a vida que leva, mesmo que, aos olhos do vizinho, seja uma vida muito boa. É tudo relativo. Mas lá que há coisas que nos trepam pelo juízo acima e fazem vacilar a nossa capacidade de compreensão, disso não restam dúvidas.

segunda-feira, abril 18, 2011

Música portuguesa que eu ouço com prazer (desmedido)-1



Manuel da Cruz num dos temas do seu projecto "Foge, Foge Bandido"
(esta sequência de posts é dedicada a Madoka que me perguntou um dia que música portuguesa eu ouvia:-)

domingo, abril 17, 2011

Era noite de lua cheia (não era?)


Ontem a lua, se não estava cheia, parecia estar. Foi noite de teatro, ou, pelo menos, noite de uma coisa muito parecida com teatro.

Primeiro: o espaço.
A sala do Teatro Municipal de São Luiz é uma daquelas salas onde, aconteça o que acontecer, será sempre teatro. Nem que seja um gajo a serrar troncos de pinheiro com uma motoserra, a berrar indecências, se for lá dentro, em cima daquele palco aberto naquele espaço, é teatro. O cenário era um cais encalhado na sua própria decrepitude. Com 3 músicos em 1º plano e um nevoeiro cerrado, cortado por focos luminosos vindos do alto, castelos no ar.

Segundo: o que se passou no palco.
A Lua de Maria Sem é um híbrido. Cruza teatro e fado. Mesmo o fado dentro do espectáculo é um fado estranho, com arranjos magníficos e a voz planante de Manuela Azevedo, é um fado que aconchega o desconforto, que ajuda a suportar toda a dor e toda a melancolia que vêm lá do fundo. Uma coisa. Maria João Luís, sabe quem já viu, é um fenómeno estonteante sempre que pisa um palco. A forma como diz, como esculpe as palavras, transportam o espectador, melhor dizendo, transportam a sala inteira, para um espaço diferente. No caso deste espectáculo, são duas vozes de magia.

Terceiro: a lua.
Resumindo e concluindo; acabado o espectáculo ficou a lua que, se não estava cheia, era exactamente como se estivesse.

sábado, abril 16, 2011

Mezinha soporífica para um tempo de crise



Uma pessoa só sente a falta daquilo que já teve ou daquilo que é capaz de imaginar poder vir a conseguir um dia. O resto não é mais do que o inimaginável e o inimaginável não faz parte das nossas vidas, ainda que exista e possa um dia entrar-nos pelos olhos dentro. Entrar-nos pelo coração e ser distribuído pelo resto do corpo e alojar-se na nossa alma, como um velho inquilino que não sabíamos existir no edifício das nossas vidas. Um inquilino que sempre lá esteve mas nunca pagou a renda. E nós, modestos senhorios da vida que levamos, nunca apontámos aquela dívida, nunca soubemos que podíamos cobrá-la. Na verdade, com o inimaginável nunca perdemos nada, que uma pessoa só sente a falta daquiko que já teve ou é capaz de imaginar poder vir a conseguir um dia.

sexta-feira, abril 15, 2011

Ai, ai, isto já é preocupante!

 Pornografia chinesa...


Primeiro a acusação era de prática de crimes económicos. Ai Weiwei foi riscado do mapa. Agora, ao que consta, os crimes do artista chinês terão sido outros: bigamia e pornografia. Um filho ilegítimo e fotos dele próprio com menos roupagem do que mandam as regras do bom senso chinês servem de pretexto para manter Weiwei em prisão secreta desde o passado dia 3 do corrente mês de Abril, quando foi retirado de circulação pela polícia do regime.

Ao que parece, nem a família de Weiwei sabe muito mais do que isto, o homem parece ter deixado de existir. Que sorte o espera? Vá-se lá saber...

As autoridades garantem ter provas contra Weiwei, provas que mostrarão ao mundo o monstro que ele é. No entanto, as ditas provas continuam sem aparecer e nada garante que, uma vez expostas, essas provas impressionem por aí além. Um filho fora do casamento? Nunca pensei que pudesse ser crime grave. Tal como nunca imaginei que mulheres pudessem ser detidas por usar burqa ou apedrejadas até à morte por darem umas curvinhas fora da estrada da moral e dos bons costumes.

A humanidade não tem cura? Quando poderemos deixar os outros viver na paz das suas opções individuais? No caso de Weiwei a coisa soa mesmo a desculpa esfarrapada.

segunda-feira, abril 11, 2011

Caminhos de salvação


O tema não é novo e já o devo ter abordado antes por estas bandas. Trata-se da salvação da alma. Melhor dizendo, trata-se de reflectir sobre as vias que conduzem o ser humano no caminho da salvação da alma.

O monopólio religioso parece estar definitivamente afastado. Com a sedimentação das sociedades laicas no mundo ocidental a arte veio reclamar um papel importante nesta luta pela descoberta do caminho que orienta o ser em direcção à Luz. Muitos são os que encontram conforto na beleza pura que são capazes de vislumbrar num objecto artístico, de forma (talvez) semelhante aos que se sentem puros em meditação dentro de uma igreja.

Seja a igreja católica, protestante, um templo budista ou uma mesquita, a sensação de plenitude e comunhão com o todo representado pela divindade, esvazia a alma humana de angústias e medos que a devoram se não estiver protegida. Também a arte, nas suas múltiplas formas e manifestações, conforta e protege, tanto os hereges quanto os crentes.

A novidade é a crescente vontade de participação dos crentes e dos amadores de arte, uns na vida das respectivas igrejas, outros na construção de objectos artísticos com maior ou menor intensidade estética. A palavra de ordem é: PARTICIPAR.

A fotografia digital, os milhentos cursos particulares de teatro, pintura, guitarra, workshops das mais variadas linguagens e meios de comunicação, vão espalhando alegria e realização pessoal entre um número cada vez maior de cidadãos. Podemos estar desapontados com a democracia enquanto sistema político mas não temos esse direito quando a democracia se revela na multiplicação das possibilidades de acesso à cultura ou ao conhecimento artístico (e outros tipos de conhecimento).

No meio de toda esta confusão em que se vai transformando a nossa organização política e social, um bem maior emerge, luminoso e enorme: a liberdade de expressão! Quando tudo o mais fenece ou perde vigor, a liberdade de expressão impõe-se como via de ascensão da alma aos prados verdejantes do paraíso intelectual. É esse caminho que vos proponho, meus irmãos leitores e visitantes ocasionais, libertai-vos, purificai-vos, a arte é o caminho da salvação!

quarta-feira, abril 06, 2011

Uma parábola


 À liberdade inicial foram impostas regras restritivas

Nem de propósito. Logo após ter escrito o post anterior dou de caras com a notícia da detenção e subsequente desaparecimento em parte incerta do artista chinês Ai Weiwei.

Conhecido no Ocidente como co-autor do "Ninho de Pássaro", o estranhamente espantoso Estádio Nacional de Pequim, e de uma abstrusa instalação escultórica de milhões de sementes de girassol feitas de porcelana em exibição na Tate Modern em Londres, Weiwei é um crítico público e notório do actual regime "social capitalista" chinês.

O artista foi surripiado por agentes policiais e engavetado em local indeterminado. O crime dele? Nenhum, aos olhos de um regime democrático, algo grave, decerto, segundo os parâmetros dos poderosos chineses. Como podemos aceitar uma coisa destas? Ou encolher os ombros ou desviar o olhar? Como podemos partilhar um mundo global com regimes que não respeitam a dignidade humana nem compreendem o que sejam direitos de cidadania? Como podemos competir no processo de globalização com países que jogam o mesmo jogo que nós mas com regras completamente diferentes? Neste jogo estamos em nítida desvantagem e derrotados logo à partida.

Como tenho vindo a explicar nos últimos tempos, tenho a sensação de que a nossa sociedade deu início a um processo de "sinificação" irreversível (transformação do nosso sistema sociopolítico ocidental em algo próximo do sistema sociopolítico chinês). Este processo é confuso porque é composto de sinais contraditórios. Por um lado Xiaogang, o grande pintor, triunfa. Por outro Weiwei, o artista contestatário, esfuma-se. Por um lado os trabalhadores ocidentais reclamam condições de trabalho que consideram decentes e salários correspondentes ao que imaginam ser justo para eles, por outro os trabalhadores chineses dão o exemplo do que teremos num futuro muito próximo: mais horas de trabalho, menores salários e boquinha calada se não quisermos ir fazer companhia a Ai Weiwei.

Weiwei torna-se um símbolo deste estranho fenómeno de fusão sociopolítica à escala planetária.

O "Ninho de Pássaro" será adaptado para se tornar, preferencialmente, uma espécie de gigantesco centro comercial. Sintomático!

A instalação na Tate Modern, que Weiwei concebeu como um imenso tapete para ser pisado pelos visitantes, que também se poderiam submergir nas sementes de girassol de porcelana, acabou por ser declarada potencialmente prejudicial para a saúde dos visitantes. Ao que parece, a coisa liberta um pózinho que, se inalado repetidamente e durante um período de tempo alargado, poderá ter consequências nefastas.
Por isso, a Tate e o artista decidiram “não permitir membros do público a andar por cima da escultura”.(vale a pena ler aqui).

A instalação de Weiwei torna-se, assim, uma inquietante parábola do processo de "sinificação" do ocidente. É coisa para se ver ao longe por ser potencialmente perigosa para a saúde se por ela nos deixamos seduzir ao ponto de nela nos embrenhamos.

segunda-feira, abril 04, 2011

Sinais



A "sinificação" global prossegue, agora no mercado da arte. A crise que se sente na União Europeia (fala-se mais na crise económica que na crise dos regimes democráticos, mas uma coisa leva a outra) não parece afectar outras paragens.

Um leilão de arte contemporânea chinesa deu lucros muito para lá dos sonhos mais selvagens dos leiloeiros (ler aqui). Os holofotes incidem sobre um tríptico de Zang Xiaogang que foi vendido por um preço daqueles que deixam um gajo com a cabeça a rodar no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio.

Já há uns anos (quando, não sei bem) tinha notado a beleza estonteante de algumas imagens deste pintor chinês, aqui no 100 Cabeças. Nunca vi nenhuma obra dele ao vivo mas sei que não hei-de morrer sem ter essa oportunidade. Não posso.

Mas não é apenas Xiaogang que emerge lá das bandas do Oriente para nos assombrar a imaginação. Muitos outros artistas chineses vão ocupando o lugar que merecem na constelação das artes plásticas.

A "sinificação" prossegue tomando umas formas mais agradáveis que outras. Sinais cada vez mais evidentes das mudanças inevitáveis que se estão a operar neste mundo que, por enquanto, habitamos.

sexta-feira, abril 01, 2011

Vazio (parte 2)



Após o comentário de Madoka ao post anterior fui procurar o Grande Cartola Elton Medeiros nos arquivos do Deus Google, subsecção de memória Youtube. Aqui fica o que encontrei. Subscrevo o que ele canta e sorrio... um bocadinho. Obrigado Madoka.

quinta-feira, março 31, 2011

Vazio



Não ser; não estar; não ver (muito menos ouvir). O mundo parece estar entupido; ou então estúpido!!!

Talvez seja eu (ou tu... será que estás entupido?), há uma certa sensação de fastio, algo semelhante a cansaço.

As respostas estarão no fundo da garrafa? Para o saber é necessário esvaziá-la. Pronto, lá está de novo a tal sensação de vazio!