
Ontem fui caminhar pelas ruas da Cova da Piedade. Caminhar, apenas, virando nas esquinas sem destino, a cabeça a vaguear juntamente com os olhos; a ver. A banalidade absoluta de um Domingo com sol quentinho, sol de fim do Inverno, a merecer celebração profana, tais são as promessas que traz agarradas e memórias que, com ele, renascem; como flores, como folhas, como ramos que o passado esconde e revela, conforme recordamos ou esquecemos.
Uma velha senhora a secar o verniz das unhas ao sol, com os cotovelos apoiados no parapeito da janela e abanando as mãos, como se estivesse a fazer um gesto de uma coreografia à Michael Jackson; um homem de aspecto derrotado, enfiado num casaco outrora branco e óculos fora de moda que talvez regressasse a casa (uma casa que imaginei vazia), desalentado e com vontade que a vontade fosse outra coisa; uma florista a formigar de clientes (era Dia Internacional da Mulher); um homem enorme, gordo e careca, transportava um vasinho desajeitado com uma flor vermelha a cair para o lado que parecia querer fugir (do homem ou do vaso?); um bando de miúdos a jogar futebol, corados, suados, gritando a plenos pulmões gritos que são vida enorme e cheia de futuro.
Caminhando pelas ruas dei por mim extasiado perante o espectáculo daquela banalidade absoluta, espantado pela riqueza que existe nas coisas que não são nada mas que, todas juntas, acabam sendo tudo, expressões simples da complexidade da vida.
A Cova da Piedade é um sítio feio, de prédios meio decrépitos e horizontes curtinhos, emparedados por fachadas de janelas sujas e todas demasiado semelhantes. As pessoas vestem-se, quase sempre, com roupas de cores escuras, como se se identificassem absolutamente com o espaço que as circunda, e parecem arrastar os pés, como zombies à procura da tumba respectiva. Mas a vida é uma coisa maravilhosa e as suas manifestações são sempre deslumbrantes, mesmo num cenário como este. Talvez ainda mais deslumbrantes num cenário como este. Aqui parece ser complicado encontrar a felicidade. Mera ilusão. Nem sequer é necessário procurar com grande afinco. Basta andar, abrir os olhos e ver.






















