quinta-feira, outubro 17, 2019

Comunistas? Fascistas?

Podemos nós olhar para Kim Jong-un, o príncipe coreano,  montado no seu cavalo branco, rodeado por neves místicas e ver nele um comunista? 

Podemos nós olhar para a China de Xi Jinping e ver um país comunista?

Porque ficam tão indignados os militantes do Partido Comunista Português sempre que alguém põe em dúvida a bondade de Vladimir Putin, esse ser que resulta do cruzamento entre um czar e um ogre? 

E Maduro, lá na sua gaiola dourada venezuelana, a esbracejar desesperado, governando ao sabor de paixões pessoais, a sobreviver muito mais do que a deixar viver? É ele o rosto da utopia comunista?

São todos personagens tão diferentes, com orientações políticas tão personalizadas e patrióticas que, a meu ver, nada os une. Vejo-os tão semelhantes uns aos outros como vejo Trump e Bolsonaro semelhantes a Órban e a Kaczinsky. Vejo homenzinhos perdidos nos seus labirintos individuais. 

Não vejo comunistas, nem fascistas, vejo apenas gente que não compreende os outros, gente que não ama, muito menos é amada, gente que imagina a sua loucura como sendo a expressão máxima do Ser Humano. 

Vejo neles escumalha, ausência de expressão do Ser Humano.

terça-feira, outubro 15, 2019

Memória de passarinho

Afiar as navalhas pareceu-lhe uma boa ideia. Abriu a gaveta e percebeu que já lá não estavam. Lembrou-se que tinha mudado as navalhas de lugar mas não conseguiu recordar o novo poiso. Caramba, e agora? Olhou pela janela. As nuvens cinzentas iam avançando lentamente na direcção do horizonte. Onde estavam as navalhas!? Um cão ladrou lá fora (ou teria sido uma gaivota?) e ele, sem as suas queridas navalhas por perto, sentiu-se triste, um pouco desamparado. As nuvens estavam cada vez mais longe, pareciam puxar lentamente o cobertor da noite que vinha para cobrir a cidade. Os candeeiros da rua ligaram-se. Pensando bem as navalhas não lhe faziam falta. Pelo menos por enquanto.

domingo, outubro 13, 2019

Dúvida

Pode um cristão ser cristão sem acreditar em Deus?
É complicado mas vale a pena tentar.

segunda-feira, outubro 07, 2019

Sonho de uma manhã de Outono

Será possível a um país sobreviver no mundo globalizado sem obedecer de forma canina às (pouco) subtis orientações economicistas que orientam  a generalidade das opções políticas e sociais tomadas pelos vários governos? Será possível organizar as nossas vidas tendo como foco central o ser-se humano? Talvez...

Não será fácil pensar nas pessoas e no meio ambiente antes de pensarmos no consumo ou pensarmos no consumo em função das pessoas e do meio ambiente. A relação directa entre consumismo e riqueza monetária é o cancro que corrói as nossas vidas e faz um inferno do espaço que habitamos. Temos uma tendência doentia para valorizarmos o enriquecimento sem olharmos às consequências por ele potenciadas.

Segundo o senso comum instalado é melhor possuir do que ser, impingem-nos essa perspectiva a toda a hora e nós acreditamos porque, quando funcionamos em manada, somos estúpidos. Se cada um de nós parar para pensar um pouco sobre aquilo que está a fazer, se cada um de nós compreender a compulsão que o impele a ser um destruidor e não um construtor, decerto ficará apreensivo com as conclusões a que chegou. Agarremos essa apreensão e façamos com ela uma ideia nova.

Uma ideia nova é algo completamente diferente.


sexta-feira, outubro 04, 2019

A sombra

"Já nem sequer me assusto" disse ele para o botão das calças, o único que lhe restava capaz de ter uma conversa, "sinto-o aqui atrás, parece-me estar mesmo sobre o meu ombro, mas já nem sequer me assusto". Continuou concentrado no jornal sem registar com grande rigor a informação que ia ingerindo juntamente com o ar que respirava misturado num café amargo como a vida.

domingo, setembro 29, 2019

Dada

Disse um Dada: todos os dias acumulo cá dentro uma coisa selvagem que transformo em sossego, uma pulsão de morte que transmuto em sentido de vida. Por estranho que possa parecer acredito ser amor, essa coisa que surge do que fica dentro de mim.

Respondeu-lhe um Outro: se encontras um sentido para aquilo que constróis é porque viver consiste, quase sempre, na necessidade que tens de distrair a morte. Digo "quase sempre" porque no fim será a morte que encontras.

Concluiu o primeiro Dada: vou beber um café sem açúcar.

sexta-feira, setembro 27, 2019

O coração da Coisa

Começam a ouvir-se algumas vozes que admitem termos ultrapassado o ponto de não-retorno. Pessoas que falam alto nos media, que afirmam que não há volta a dar-lhe, que, apesar de estarmos a empurrar o nosso sistema de sociedade global em direcção ao abismo esse mesmo sistema permitiu reduzir (e muito) a pobreza. Apesar de aumentar as desigualdades, as diferenças entre ricos e pobres, apesar disso reduzimos muito a pobreza. Estamos de parabéns?

Estas pessoas compreendem a angústia, a fúria e o desvario dos que se revoltam contra a crescente poluição ambiental mas, dizem, e dizem-no alto, nos mass media, é impensável mudar o que quer que seja assim de um momento para o outro, sem provocar uma convulsão social e política de tal magnitude que o mundo, tal como o habitamos, acabasse por se devorar a si próprio. Não é bonito de ser visto mas tem de ser assim. Tem muita força.

Compreendo. Compreendo que os jovens se revoltem, compreendo que os tipos de meia-idade se acomodem e compreendo os velhos agarrados à saudade que têm da juventude perdida, parece-me que sou capaz de compreender esta malta toda. Ok, podem ficar tranquilos, todos têm razões suficientemente fortes, razões suficientemente válidas que justifiquem essas ideias que lhes estão a passar pela cabeça. Todos os seus actos são aceitáveis apesar de contraditórios. Vivemos numa sociedade livre... vivemos, não vivemos?

A reflexão fica por aqui, salto directo para a conclusão: estamos a trabalhar arduamente para a extinção, não da espécie humana mas do sistema capitalista enquanto paradigma sócio-económico. Enquanto a coisa foi mais ou menos localizada, mais ou menos parcial (a Coisa é a exploração capitalista, exploração dos seres vivos e dos recursos naturais com o fim absoluto do enriquecimento de uma casta de cabrões enxertados numa outra, de filhos da puta) o mundo apenas vacilou. A partir do momento em que a Coisa se globalizou, já fomos! Não há retrocesso nem , como dizem as tais vozes que referi lá mais atrás, volta a dar a isto sem que tudo acabe a ruir à nossa volta.

Assim, o melhor, é deixarmos andar, ir aproveitando enquanto pudermos viver como vivemos, os que vierem depois de nós é que se fodem.

terça-feira, setembro 24, 2019

Melancolia (esboço)

Por vezes não sei se sinto raiva se compaixão. É uma pressão que se me instala entre o peito e o estômago e ali fica, a pressionar-me os sentimentos ou lá o que é. Após uns momentos de pressão a coisa começa a transformar-se em angústia. Inspiro, sustenho a respiração, tento expelir aquela sensação através dos poros, pelas narinas, pelos ouvidos, nem sei que faço!

Quando nos sentimos encurralados reagimos por instinto, as nossas acções fazem um certo sentido que, naquele momento, nos escapa. Debatemo-nos.

Se porventura consigo expulsar de dentro de mim aquele feto de demónio (surgiu-me agora mesmo essa imagem, aquela pressão ser provocada por um ser maligno que começa a crescer cá dentro, tipo o Alien do filme de Ridley Scott), se consigo expulsá-lo (até hoje sempre consegui) fico melancólico.

A melancolia provém do facto de perceber que os demónios existem e vivem dentro de nós. Embora vá conseguindo vencê-los percebo facilmente que muitos de nós sucumbem à angústia e aceitam que a bestiola se instale, alimentam-na e deixam-na crescer. Nestes casos é frequente que o demónio acabe por substituir a pessoa e lhe substitua a alma por um espírito maligno.

Quando o demónio é muito poderoso e ambicioso transforma-se numa pessoa poderosa e ambiciosa, um gestor de empresas, um explorador de seres humanos. Quando ascendem a lugares de chefia tornam-se capazes de semear a angústia nos corações de centenas, de milhares, de milhões de pessoas, proporcionando um ambiente favorável ao surgimento de centenas, de milhares, de milhões de demónios.

Ao contrário do que muita gente acredita os demónios nem sempre são agressivos como os pintam. Cada demónio tem a sua personalidade própria. Quando o demónio é fracote e cobardolas transforma a pessoa numa verdadeira filha da puta. Este é o demónio mais comum.

segunda-feira, setembro 23, 2019

Se Midas cagasse...

... transformava todas as sanitas do mundo em objectos de ouro, tal qual a sanita engendrada pelo Maurizio Catellan que foi roubada aqui há uns dias de um palácio inglês onde havia sido montada para exposição. Midas não podia tocar em nada que não endurecesse e ficasse brilhante e consistente como é apanágio do ouro. Não consta que o toque de Midas fosse exclusivo da ponta dos seus dedos, daí que quase tivesse morrido à fome (nem quero pensar no que seria cagar ou mijar para este  imbecil absoluto).

Mas isso é outra história, a sanita de Catellan, cuja instalação toma o nome de América, possui o fascínio que sempre acompanha todo o objecto que luz e é de oiro fino. Objectos brilhantes atraem os corvos, objectos de ouro atraem gente a dar para o abutre ou para a hiena, pobres animais incompreendidos porque necrófagos. Estes objectos correm o risco de serem roubados.

América tem algumas vantagens em relação a A Fonte, de Duchamp, desde logo porque uma sanita é, em potência, mais polivalente do que um urinol. Outra razão de peso é a da matéria prima: de um lado ouro, do outro loiça industrial. O valor material dos objectos é nitidamente desequilibrado. Já quanto a um suposto valor artístico a coisa pia mais fino.

Chegamos aqui ao pormenor curioso, diria mesmo, pitoresco: então não é que um pedaço de loiça pode ser mais valioso que um pedaço de oiro bem mais volumoso e pesado? Depende da perspectiva que orienta a avaliação. Imagino que a Teoria da Relatividade ande mais ou menos por estes caminhos mas é quando me meto nestas andanças que percebo aquela pintura do Brueghel, do cego a guiar outros cegos.




quinta-feira, setembro 12, 2019

Felicidade

Descontos, vales de oferta, negócios mirabolantes: oportunidades, oportunidades, oportunidades! Há ali fora um mundo de oportunidades que se te oferece, queridíssimo leitor, um mundo que se rege por uma única regra: fazer-te feliz! Em nome da tua felicidade o carapau vende-se ao preço da uva mijona, a varinha mágica é praticamente oferecida e o corte de cabelo!? Valha-te Deus, que mundo este, que loucura!

Comes o carapau acompanhado por um batido desfeito com a nova varinha enquanto miras de soslaio o teu novo corte de cabelo no espelho da cozinha. Continuas pouco feliz. O problema deve ser teu. Decerto não aproveitaste todas as oportunidades que tão gentilmente te ofereceram. Tens de regressar ao Templo e desejar a felicidade com mais fervor, de carteira mais aberta.

O problema só pode ser teu!

quarta-feira, setembro 11, 2019

Da inutilidade

Parecemos cansados. Mais: parecemos enfastiados. Alguma daquela informação poderia ser passada em mandarim, soaria exactamente ao mesmo. Após assinadas e carimbadas e validadas, as actas poderiam ser enviadas para a República Popular da China, os resultados seriam, decerto, muito semelhantes.

Olho em volta discretamente. Somos apenas um grupo formado por gente moderadamente só a fazer de conta que o Caos pode organizar-se um bocadinho. Sinto-me inútil.

terça-feira, setembro 10, 2019

Ir indo

Acabo de compreender que para se ter uma grande história não é preciso nada de especial. Uma grande história é sempre uma viagem. Só precisamos ir.

quinta-feira, setembro 05, 2019

Especial

Não sei como é contigo, amigo leitor, a mim, as lojas personalizadas provocam-me engulhos. Detesto ir comprar café  e ter uma senhora extraodinariamente simpática a oferecer-me uma chaveninha de um novo produto, uma coisa excelente. Não gosto de estar a mirar uma coisa qualquer e ter de suportar a aproximação solícita de quem ali trabalha a perguntar-me se preciso de alguma coisa, que esteja à vontade, que faça de contas que estou em minha casa. Que coisa mais parva!

Se fosse o dono da mercearia, ainda vá que não vá, o gajo quer que eu lá volte, faz uma atençãozinha, tenta cativar-me com o jeito característico do merceeiro. Ok, lícito e límpido como água da chuva. Já uma miúda daquelas que trabalham nas lojas do centro comercial... soa a falso, tal como o merceeiro, mas sem aquela limpidez. É um "sentimento" de plástico. Desagrada-me. Tento não ser rude mas é difícil.

Parece-me ser uma estratégia mais ou menos comum, fazer com que o cliente se sinta especial. Mas é tão artificial! Talvez seja isso, talvez que ser-se especial seja uma absoluta artificialidade. Não dizem certos credos religiosos e certos credos políticos que somos todos iguais, seja perante Deus ou perante a Lei?

segunda-feira, setembro 02, 2019

A cabeça e as suas orelhas

O tempo vai passando, e a tua vontade de mudar o mundo vai-se transformando. Já não é aquele ímpeto avassalador que te fez acreditar piamente que a razão era toda tua, já não é aquele discurso estruturado e lógico que encurralava os argumentos dos teus adversários fazendo brilhar a visão do Mundo que professas, muito menos é a perspectiva do grupo com o qual te identificas uma vez que há ali muitas falhas que tentas ignorar para poderes fazer parte, sentires-te integrado.

Com o tempo nasce dentro de ti uma outra coisa, um misto de irritação, fastio e desencanto, um bicho informe que te rói o pensamento e te faz azedo aos olhos dos outros. Começas a creditar que, afinal, não há volta a dar a esta merda, começas a acreditar que foste ingénuo, que sonhar é coisa frágil. Quando chegas a este ponto estás lixado.

Que fazer, então? Como podes conviver com o tal bicho que, na verdade, és tu, um reflexo de ti? Não sei. Não tenho respostas para tais questões. Pessoalmente opto por ir alimentando o bicho na esperança de que, mais adiante, haja ainda outra coisa, uma salvação qualquer que de momento nem sequer posso adivinhar qual seja.

Como diz a canção: "cá se vai andando co'a cabeça entre as orelhas".

quinta-feira, agosto 29, 2019

Casamento falhado

Poderá a nossa espécie alguma vez recuperar o rumo que, aparentemente, havia tomado quando a Democracia se assemelhou a algo justo? O casamento da Democracia com o Capitalismo já corria mal, o pior foi quando o casal pariu a estirpe de governantes democraticamente eleitos, com merda no lugar dos miolos, que se vão assumindo os cadeirões do poder.

Percebia-se que Trump e Bolsonaro (e Duterte e Órban, etc.) eram coisas más mas estava-se longe de imaginar que fossem uma infecção tão radicalmente mortífera. O resultado será, inevitavelmente, a morte do sistema económico-social que ainda se vai aguentando no mundo global. Isto será dramático para o mundo ocidental e, estou em crer, para o mundo inteiro.

Um mundo desregrado, governado ao sabor dos caprichos destas alimárias, será ainda mais injusto e perigoso do que já era. Talvez seja necessário passar por uma fase de terrível agitação para que, no futuro, algo diferente (para melhor) possa surgir. Para ser sincero, este desejo não me desperta qualquer entusiasmo.

Não consigo acreditar que depois da tempestade que estamos a viver venha bonança capaz de nos reconciliar com a vida humana. Mas isso sou eu a imaginar o Futuro com a minha cabeça limitada. Talvez Deus exista...

terça-feira, agosto 27, 2019

Civilidade virtual

Pretender que uma comunidade humana se paute por princípios de respeito mútuo absoluto entre os seus membros é um desejo situado nas margens do ridículo.

O insulto gratuito e soez ganhou foros de cidadania nos fóruns virtuais. Imaginar que coisas como o Facebook, o Twitter ou as caixas de comentários nos jornais online seriam espaços de debate e iluminação do pensamento revelou-se algo do domínio do absurdo.

Resta-nos fingir que somos civilizados.

domingo, agosto 25, 2019

O Grande Dada

Fui, de súbito, iluminado por um relâmpago que me atingiu em cheio no meio das trombas: Deus é dadaísta! Ou, melhor: o Grande Dada é Deus! Resumindo, para explicar a coisa às almas mais simples e aos que não têm a tromba toda fo... toda chamuscada por terem sido atingidos pelo raio que os parta: Dada é Deus, Deus é Dada.

Um gajo pode andar a vida toda sem perceber patavina e, quando menos espera, ser submetido à mais arrasadora das revelações. Imagino que, para muitos de nós, a Revelação seja o fim da linha. Quantos não irão parar ao hospício da paróquia logo após a visita do Anjo? No meu caso a coisa foi, mais ou menos, pacífica. Mantive-me em casa e fui preparar um cafézinho.

Posso garantir-te, amável leitor, que saber que Deus é o Grande Dada e vice-versa, explica tudo e a vida continua, fazendo muito mais sentido. Experimenta e vais ver.

sexta-feira, agosto 23, 2019

Graal

Quando me deparei conscientemente com a questão da liberdade individual, aí pelos meus doze ou treze anos, deixei de acreditar em Deus. Era para mim impossível aceitar a ideia da Sua existência enquanto polícia, juíz e carrasco da Humanidade. Um ser omnipresente metediço e repressor omnipotente não encaixava com o ideal libertário que começava a tomar forma na minha mente.

Passei a adolescência convicto da superioridade absoluta dos meus pontos de vista apesar da fragilidade dos seus alicerces e da ignorância característica dessa idade. Apercebo-me agora que estava apenas preocupado em viver cada dia como se fosse uma promessa de algo que, então, não me passava pela cabeça, algo que viria no dia seguinte ou no outro, algo bom e completo que fizesse sentido e me permitisse uma sensação de plenitude.

Continuo à espera de perceber que coisa era essa.

Hoje já não acredito tanto que chegue a encontrar esse meu Graal pessoal e particular, ficaria satisfeito se conseguisse perceber, mesmo que apenas vagamente, os seus contornos, quanto mais a sua essência!

Chego à conclusão de que, de certo modo, nunca ultrapassei a adolescência (terei ultrapassado a infância?) e que a idade adulta é uma abstracção absoluta. Ou será a idade adulta esse tal Graal?

domingo, agosto 18, 2019

Eternidade

Demasiado ocupado a fingir não saber quem era, a fingir não pensar na morte, tropeçou numa frase imprudente e caiu numa poça de infelicidade movediça.

A lama infeliz era densa mas puxava-o para baixo. Cada nova palavra, cada gesto que imaginava redentor, só agravavam a situação e ele sentia-se engolido, desconfortável, por vezes irritado. Ficar quieto e calado afigurava-se a solução ideal, ainda que isso significasse o esquecimento absoluto, uma tristeza infinita.

Hirto como um prego, deixou-se ficar. Foi afundando, afundando... encontrara a Eternidade.

terça-feira, agosto 13, 2019

Muros

Um muro implica com a nossa posição neste mundo. Existindo, encontramo-nos de um lado ou do outro. Havendo um muro já não temos todo o espaço à nossa disposição de modo a podermos circular livremente, podemos evitá-lo, podemos ignorá-lo, não olhar para ele mas não é por isso que desaparece. O muro está lá.

Há milhões de muros por esse mundo fora. Pequenos muros, murinhos, muretes, simples cercas de madeira, barreiras com arame farpado, muros altos, muros baixos, a variedade é imensa. O território fica todo recortadinho, marcam-se itinerários em volta de muros ou através deles. Todos os muros têm portas, portões ou meras passagens que podem, ou não ser, guardadas

Além dos muros físicos, como era, por exemplo, aquele que dividia Berlim, há muros psicológicos, muros culturais, muros religiosos, há muros de todas as formas e consistências que ultrapassamos de acordo com a nossa vontade ou a nossa capacidade. Podemos desprezar um muro, não lhe darmos a mínima importância; isso acontece quando a existência da barreira não interfere directamente com a nossa vida nem ofende as nossas convicções. É fácil ignora-se um muro que incomode apenas o vizinho.

A existência dos muros justifica-se ou não: esse é o "tal" debate que não pode fazer-se em abstracto, pois cada muro é coisa demasiado concreta.

domingo, agosto 11, 2019

Barrigas simbólicas

Devo andar a passar por uma cena daquelas que têm a ver com a idade, uma crise qualquer, decerto já estudada e registada em revistas da especialidade e em revistas de curiosidades. Esta manhã dei por mim a reparar nas barrigas dos homens que iam passando. Grandes barrigas!

A minha atenção para as referidas barrigas foi atraída, decerto, por ter reparado na minha própria pança logo após a banhoca matinal. Está a ficar insistentemente proeminente, uma redondeza balofa a querer marcar posição no meu corpo. Vejo-a, penso nela, não gosto de a transportar mas, verdade seja dita, não faço nada de especial que a contrarie e a barriga vai ficando.

Voltando atrás, reparava eu nas barrigas. Contas arriscadas e feitas por alto, anotei mentalmente aí uns 80% de barrigudos. Isto entre novos e velhos e mais ou menos, a barriga não parece escolher idades. Ali estava eu, com a minha barrigota, a reparar nas dos outros. Burgueses como eu, pessoas sem aparentes problemas de subsistência, produtos acabados de um certo modo de vida que assenta no consumo, muito para lá da satisfação das necessidades básicas.

Dei por mim a pensar que estas nossas barrigas são imagem, ícone e reflexo da forma como vamos exaurindo o planeta. As barrigas simbolizam a morte lenta da Terra?

sexta-feira, agosto 09, 2019

Dor fantasma

O mundo revela, por vezes, uma capacidade surpreendente de amarfanhar o coração a um gajo. Não tem de haver nada de especial, não tem de acontecer nada de extraordinário, basta não sei o quê, uma coisinha indistinta... alguma coisa deverá acontecer para que, de repente, aquela sensação incómoda desaconchegue o coração e o ponha fora do sítio.

Um gajo põe-se a magicar: que raio aconteceu? Mas não encontra resposta, não vislumbra razão nenhuma para ter ficado assim, bisonho, meditabundo, a descortinar bolor em cada canto e tristeza em todos os sorrisos. É como uma pedrada na testa, uma coisa de fantasmas.

Não há remédio para esta sensação pois não se percebe o que seja, não há estratégia que reponha o coração no sítio. Resta esperar que passe. Um gajo tem esperança que, tal como surgiu, a coisa se vá e não volte tão depressa.

terça-feira, agosto 06, 2019

Números redondos

Ando a ler um livrinho intitulado As 10 invenções de Picasso. É interessante e dinâmico, bastante razoável... mas, o que me leva a escrever este texto não é o livro, em si, é o número "10".

É aquela suposta magia do número redondo. Porquê 10 invenções? Não terá havido mais uma? Ou menos outra? Ou duas para trás e quatro para a frente da fronteira mítica do número 10? Que raio, estará a autora a torcer os números por forma a chegar ao redondinho que faz o título da obra?

Os números redondos infectam a informação e lixam-nos o imaginário. Ele são os 100 dias de governação que servem para medir o sucesso ou a popularidade de um governo recém-empossado, o Top 10, 30, 50, o Top 100 das músicas mais ouvidas, os 500 filmes que fazem a felicidade de uma vida de cinéfilo, etc. Os exemplos de arredondamento numérico são mais que muitos.

Quantos filmes de merda foram enfiados à força na tal lista para termos 500? Que autores interessantes ficaram fora da lista de best-sellers de modo a não estragar a redondeza numérica? Qual o problema dos números angulosos e agudos, que mal poderá vir ao mundo se uma lista de excelência for composta por 11 títulos ou 23 ideias geniais?

Assim se constrói um mundo artificial.

segunda-feira, agosto 05, 2019

Ler

Ler não é remédio mas alivia a solidão e pode ajudar a manter a estupidez à distância.

Sou um leitor muito lento, quase um caracol, tal o ritmo a que leio. Este ano resolvi fazer uma lista do títulos que vou lendo. Constato que não são mais nem menos do que imaginava. Os temas e os autores são tão díspares que nem eu compreendo qual a lógica das minhas escolhas. Melhor, ao passar os olhos pela lista percebo que não há qualquer lógica nas escolhas.

Romances, crónicas, ensaios, temas históricos, contos, novelas, passa tudo. A única regra é ter sempre um livro para ler. É essa a lógica!

O meu avô materno tinha um pequeno azulejo na parede da cozinha que dizia "Livros e amigos, poucos e escolhidos", nunca esqueci essa frase mas, sinceramente, não oriento a minha vida por ela. Principalmente no que diz respeito aos livros.

Apesar da lentidão com que avanço nas páginas impressas, acumulei centenas de livros nas estantes e recorro com frequência a bibliotecas públicas, muitas vezes por questões de racionalidade económica e de espaço físico. E o meu cérebro? Estarão todos os livros que li guardados nele?

terça-feira, julho 30, 2019

Passeio na praia

Hoje de manhã fui até à praia. Bem cedo, pouca gente, muito vento. Resolvi passear a favor da ventania. Pessoas para trás, pessoas para a frente, aqui e ali uma gaivota, mais adiante um verdadeiro ajuntamento desta passarada.

Nesta conjuntura o pensamento espreguiça-se e vai andando mais à frente, por vezes atrasa-se, sinto-me uma espécie de autómato.

Foi então que reparei que tenho 56 anos e ainda não aprendi quase nada. Preciso de espaço para viver a minha vida mas não percebo muito bem como vivê-la. Haverá regras? Linhas gerais de orientação? Objectivos?

Sempre fui mais de fazer do que de reflectir, assim à maneira daqueles cowboys do velho Oeste, que disparavam primeiro e perguntavam depois. Vou deixando as coisas que faço, uma pista de bolinhas de miolo de pão; talvez um dia pretenda fazer o caminho de regresso.

Olho as gaivotas. Talvez elas comam as bolinhas e eu perca a noção do caminho de regresso. Não há volta a dar, resta-me avançar, ir fazendo, reflectindo... caminhei demasiado.

Quando fiz meia volta a minha atenção foi captada por outras coisas, outros pensamentos se formaram e esqueci tudo aquilo até que, sentado em frente ao teclado do computador escrevi isto.

É assim, a vida vai-se vivendo. Estou convencido de que é feita muito mais de esquecimentos que de recordações. Posso estar enganado. Na verdade nada disto interessa.

quinta-feira, julho 25, 2019

Arte plástica

A designação "artes plásticas" começa a tornar-se algo incómoda. Falar em "plasticidade" dos materiais não soa lá muito bem. São designações que enobrecem... o plástico!

Numa época em que o plástico se tornou numa espécie de super-vilão imbatível, o super-vilão que veio para conquistar o planeta transformando-o numa lixeira quase eterna, "artes plásticas" soa mal.

Há, no entanto, algumas obras que fazem justiça à designação. E não me refiro apenas a Rauschenberg. Será isto algum género de justiça poética?

quinta-feira, julho 18, 2019

Cultura


Quando Picasso viu, pela primeira vez, máscaras africanas ficou siderado. A partir daí a história da pintura deu uma cambalhota e a grande arte do Ocidente revolucionou-se milhentas vezes. A pintura europeia é superior à pintura africana? Ridículo! Existe apenas “pintura”, independentemente do tempo e do local onde foi (e é) criada, fruto das circunstâncias que cada pintor vivencia. 

A cultura é uma coisa informe que vamos moldando ao longo da nossa existência. É permeável, influenciável, mutante. As fronteiras culturais existem apenas como indicadores, marcações abstractas que ajudam a arrumar ideias em prateleiras e a enfiar princípios em gavetinhas. As fronteiras culturais são invenções potencialmente perversas que mais não fazem que gerar sofrimento. 

Quantos deuses foram únicos e senhores absolutos? Quantas guerras santas já arrasaram o planeta em nome da bondade e da verdadeira fé? 

O tema é inesgotável porque é universal. Não pretendo ter razão.

terça-feira, julho 16, 2019

Manas siamesas

Já o afirmei muitas vezes, aqui, no 100 Cabeças, ali, na escola, aos meus alunos, aos meus colegas professores, acoli, na mesa da tasca em conversa com amigos ou, apenas, conhecidos: o maior de todos os problemas é a ignorância, irmã siamesa da estupidez. Partilham o mesmo cérebro, estão unidas pela cabeça.

Haja quem faça a operação, primeiro é necessário separá-las. Depois... aceitam-se sugestões.

quinta-feira, julho 11, 2019

Toque de Midas

É estranho. Quanto maior é a capacidade de difusão de informação menos claro se torna o "diálogo". Na verdade não é tão estranho assim. Estava a dramatizar. De que estávamos nós à espera? A verdade é que imaginámos que a Internet seria algo muito diferente daquilo que, na verdade, é.

Aconteceu algo vagamente semelhante com a televisão. À partida acreditou-se que se tornaria um veículo de difusão cultural mas depressa caímos na realidade e percebemos que é, preferencialmente, um difusor de lixo variado.

A nossa sociedade de consumo tem esta espécie de toque de Midas, transformando em merda tudo aquilo que toca. 

terça-feira, julho 09, 2019

Racismo

O racismo, o racismo, o racismo!!! Afinal de contas em que ficamos: há racismo, não há racismo, acaba-se com o racismo, não se acaba com o racismo? Luta-se, fica-se, muda-se, estuda-se? A minha cabeça rodopia e não consigo fixar uma ideia que seja.

Penso que não sou racista mas, lendo e ouvindo tantas opiniões, disparadas de todos os lados, não tenho tanto a certeza. A minha convicção é abalada.

Sei que tenho preconceitos relativamente a certas pessoas mas quase posso assegurar que esses preconceitos são ditados muito mais pelas atitudes que pela cor da pele. Não gosto de pessoas que me pareçam estúpidas, que me pareçam más, que me pareçam demasiado arrogantes, enfim, pessoas com essas "qualidades" há-as de todas as cores.

Por vezes penso que havendo dinheiro na carteira, principalmente se for dinheiro em abundância, o racismo também se dilui um bom bocado. A condição económica marca tanto como a cor da pele?

Enfim, quero acreditar que o racismo é uma questão de educação, que é uma consequência da ignorância e da estupidez que atulha com facilidade cabeças pequeninas com ideias de merda. Mas posso estar enganado.

segunda-feira, junho 24, 2019

Macacos

Há quem diga, quem pense, quem acredite: a vida não pode ser só isto! Tem de haver algo mais; outra vida após a morte? E essa vida implicará nova morte e assim por diante, vida e morte reflectido-se eternamente uma na outra e a nossa alma a ricochetear sem cessar, até à eternidade?

Mas pode ser outra coisa, a vida pode ser outra coisa que não podemos imaginar, uma coisa tão diversa daquilo que percepcionamos que não temos capacidade para imaginar o que seja. A vida pode mesmo não ser nada.

Entretanto, neste quotidiano delirante, vamos vivendo (!?), preocupamo-nos com coisinhas de nada, com merdices, ou preocupamo-nos com coisas importantes, com merdas determinantes, cenas que, se a vida for só isto, são deveras notáveis e grandes. Cada macaco no seu galho, todos os macacos pendurados na Árvore da Vida.

sexta-feira, junho 21, 2019

Desígnio

Ultimamente tem-se falado por aí da ausência (e da necessidade de a suprir) de um ideal que possa amalgamar vontades desavindas no sentido de conferir um sentido comum ao pulsar do coração lusitano. Frase complicada, não?

Resumindo de forma directa: fala-se para aí que falta um ideal que una os tugas em torno de um desígnio comum.

A coisa saltou para a arena do falatório após a leitura em voz alta do discurso do Dia de Portugal, este ano da responsabilidade do jornalista João Miguel Tavares.

Que isto, que aquilo, que é de direita, que não tem autoridade nem saber, que sim, que não, que foi mal escolhido, que não sabe o que diz, bocas a torto e a direito, umas no alvo, outras nem por isso. Pessoalmente posso dizer que gostei do discurso, que gosto do João Miguel apesar de discordar dele em muitos pontos e em muitos aspectos.

Gosto dele porque me parece inteligente e honesto. Como sou um gajo de esquerda estou habituado a pensar que inteligência e honestidade são qualidades exclusivas do meu pessoal. É assim, um gajo pensa certas coisas sem pensar nelas! Não é preciso muito tempo de reflexão para perceber que estas qualidades não são exclusivas de nenhum campo político. Há demasiados filhos-da-puta no mundo e seria uma coincidência mágica que se amontoassem todos de um dos lados da barricada ideológica.

Penitência feita.

Mas a questão do ideal unificador ficou-me a dançar na cabeça e, já agora, proponho um: lutar contra a ignorância. Ficaria muito feliz se declarássemos aberta a época da caça à estupidez sem termo certo. Seria uma caçada eterna, assim à maneira da das divindades nórdicas lá no mundo onde se divertem.

quarta-feira, junho 05, 2019

Como poderás tu saber!?

Não há que tentar dar a volta à coisa, contornar, ir por fora, fingir que não é bem assim: um gajo ou está de um lado ou fica do outro. Ninguém consegue equilibrar-se sobre uma linha imaginária que, ainda que dividindo, está longe de separar o que quer que seja. Chego a temer que a coisa seja mesmo tipo "bem contra mal", "certo contra errado" e pronto, espero que isto chegue e seja ponto final nas dicotomias que nos moldam o quotidiano.

Não quero acreditar nisto, que as coisas possam ser postas de modo assim tão simples mas... tenho a impressão que a maioria (esmagadora) das pessoas só é capaz de ponderar uma situação, analisar um problema e, Deus nos valha, imaginar uma solução se acreditar que está certa, que é boa, que não dá a mínima hipótese ao estúpido do otário que se senta ao seu lado. A tal linha divide, não separa.

Não há maneira de chegar a uma conclusão satisfatória. Certo, bom, mau, errado, certo, mau, bom, errado, etc. e por aí fora; baralha, volta a dar... estou em crer que tudo depende do buraco a partir do qual observas a situação. Como poderemos alguma vez ter a certeza!?

quarta-feira, maio 22, 2019

Porque vou votar nas europeias


Debateu-se recentemente a possibilidade alargar a fronteira do direito de voto para os cidadãos com 16 anos de idade. Uma larga maioria de deputados da Assembleia da República rejeitou a proposta e mantém-se tudo como dantes, quartel-general em Abrantes. 

Decerto que a maturidade dos eleitores foi argumento tido em conta nesta questão mas, pensando um bocadinho, percebemos que a maturidade não é automática. O chip da maturidade não é activado no preciso momento em que completamos a 18ª Primavera.

Muitos dos que têm direito a voto cultivam o hábito da abstenção, ainda mais quando se trata de eleições europeias. 

Os argumentos que alguns eleitores maduros apresentam para justificar a sua abstenção são dos mais variados: que a Europa é lá longe, que os políticos são todos iguais, que não fazem nada, que só estão interessados em auferir os ordenados escandalosos (pornográficos), que nós, eleitores, somos uma espécie de idiotas que servem apenas para caucionar a existência dessa corja de mamões inúteis que vão aquecer os cadeirões do parlamento em Bruxelas. 

Sinceramente, discordo da maior parte destes argumentos e, quando me deparo com discursos deste calibre, atrevo-me a imaginar que o direito a voto poderia ser oferecido todos os cidadãos que soubessem ler e escrever, independentemente da idade, e a partir dos 18 anos, para todos mesmo, incluindo os analfabetos.

Eu vou votar nas eleições europeias do próximo Domingo porque ainda acredito no Valor da Democracia.

Carta enviada ao director do Público

terça-feira, maio 21, 2019

Outra profecia merdosa


A Deus não tenho nenhum pedido a fazer, nem sequer que me deixe em paz. Na minha adolescência a sensação de ausência de futuro derivava da Guerra Fria, do temor da Bomba, mãe do Apocalipse. Era o tempo do chamado "movimento punk".

Olho para os dias de hoje e o "no future" está aí, mais presente do que nunca; visível, palpável, irrespirável.

Nada a fazer, o nosso modo de vida definha de forma irreversível. Penso que é tempo de começarmos a preparar as gerações futuras para aquilo que aí vem. Basta de alienação. A sobrevivência da espécie exige lucidez. Ou então será a Noite dos Tempos.

sexta-feira, maio 17, 2019

Escumalha


Não podemos ignorar o facto de que falhámos. A sociedade que construímos terá já entrado em fase de degradação geral sem que o pico máximo atingido, no que diz respeito à qualidade do Ser Humano, possa ser motivo de orgulho. Longe disso.

Misturámos Democracia com Capitalismo e o resultado não poderia ser outro: o Capitalismo é um cancro no corpo da Democracia. Não há cura conhecida e os médicos estão mais focados em curar unhas encravadas e flatulência, maleitas que afectam o Capitalismo, do que em tentar desenvolver terapias que permitam debelar o cancro que corrói a Democracia e a faz definhar a olhos vistos.

Não me venham com a treta de que as coisas são assim por que têm de ser, que não há alternativa... não me lixem.

As coisas são assim porque os capitalistas, em 99% dos casos, não prestam para nada que não seja explorar pessoas, locais e sociedades inteiras. As coisas são assim porque os capitalistas se estão a catar para o mal que provocam desde que com ele recolham benefícios que possam gozar enquanto por aqui andam a espalhar a sua fá na livre circulação de capitais. Alguns sentem remorsos, é o máximo que a consciência de classe lhes permite.

A Miséria é uma coisa necessária, a Pobreza e a Morte são inevitáveis; convencem-nos de que é esta a ordem natural do mundo. Sim, é a ordem do mundo, mas não é natural, a ordem natural aplica-se à biosfera, é uma ordem artificialmente criada e aperfeiçoada ao longo de milénios em benefício de uma casta especial de bichos-homens constituída pela escumalha da sociedade à qual, ironicamente, chamamos elite.

Os ricos e poderosos são o pior que há entre nós. Aceito que haja excepções mas terão de ser provadas com factos.

segunda-feira, maio 13, 2019

Profecia óbvia

Li algures que estamos a viver tempos de uma militância sem esperança. Uma militância desesperada, portanto. Concordo.

A questão central prende-se com a constatação de que o crescimento económico, característico do sistema capitalista globalizado, consome tudo com uma voracidade inaudita e já teremos ultrapassado o ponto de não-retorno (começo a tornar-me repetitivo?). É simplesmente impossível imaginar que os nossos netos, para já não falar dos nossos filhos, possam viver numa sociedade semelhante a esta.

Aquilo que designamos por níveis de bem-estar são, em grande parte, resultado do consumo excessivo dos recursos planetários e, pior do que esse consumo, provocam níveis descontrolados de poluição. Poluição atmosférica, dos solos, das águas, poluição sonora, das mentes e, digo eu, da própria ideia de Humanidade.

Imaginámos que a Humanidade evoluiria em direcção a uma espécie de estado de semi-divindade. Não pensámos que poderia existir um ponto na curva evolutiva que marcasse o início da sua descida, o início do declínio. Talvez estejamos a viver próximos, muito próximos mesmo, desse ponto.

Com o declínio da Humanidade virão outros tipos de degradação em diferentes graus: social, civilizacional, "you name it". Os nossos descendentes passarão a viver em condições muito diferentes daquelas em que nasceram, eventualmente diferentes para pior... ou talvez não.

Como já disse em muitos posts neste 100 Cabeças: "a esperança é a última coisa a morrer", mas também morre.