Manifestação em Madrid e manifestação em Lisboa, a Ibéria está a arder?
Depois da Avenida da Liberdade, as Portas do Sol. Os cidadãos manifestam-se abertamente contra o rumo que a sociedade ibérica vai tomando, esta coisa que teimamos em designar preguiçosamente por “democracia”. Os que se manifestam são, na sua esmagadora maioria, jovens que nasceram em sociedades onde a liberdade de expressão é, sem sombra de dúvidas, o maior de todos os bens. Para eles, para todos nós, a possibilidade de expressar abertamente a opinião é tudo o que resta já que o voto, essa utópica “arma do povo”, nos é constantemente usurpado pelos políticos que elegemos ciclicamente em eleições que mais se parecem com grotescas caricaturas daquilo em que acreditamos. O regime transformou os cidadãos em consumidores, prometendo o acesso global a bens de consumo que nos são impostos através de campanhas publicitárias totalitárias, em tudo semelhantes às campanhas eleitorais. Há quem se gabe de “vender” presidentes e primeiros-ministros como se vendesse sabonetes ou qualquer outro produto comercial. Vivemos tempos em que parecer é muito mais valioso do que ser.
Fala-se por aí em “pós-democracia”, um regime em que somos governados por grupos económicos que não se sujeitam ao escrutínio popular e se representam exclusivamente a si próprios e fazem prevalecer os seus interesses particulares em detrimento dos interesses colectivos. Observando o que se passa actualmente nos países da Zona Euro estupidamente caídos em desgraça, com as imposições draconianas ditadas por poderes económicos que praticam a usura como se ela fosse um direito divino, o conceito de “pós-democracia” não só faz todo o sentido como se mostra um retrato perfeito da realidade que vivemos.
A “democracia” tal como nos ensinam nos bancos da escola, já se diluiu nesta coisa pastosa das agências de rating e dos bancos privados e do capitalismo selvagem. Diluiu-se, desapareceu, acabou, transformou-se noutra coisa. Transformou-se num lobo esfomeado vestido com a pele imaculada de um cordeiro oferecido em sacrifício aos deuses da economia, essas divindades canibais e insaciáveis que quanto mais carne humana comem com mais fome ficam.
Vivemos tempos de mudança, tempos de redefinição. E é nas ruas que o sinal está ser dado. São os mais jovens a despoletar o processo porque sentem na pele a injustiça pós-democrática que os coloca na prateleira, a amadurecer, enquanto os mais velhos vão sendo devorados.
Este estado de coisas está a chegar a um ponto extremo de saturação. Ou deixamos a coisa estoirar por si, o que será uma desgraça absoluta, ou tentamos provocar e controlar o seu estoiro e talvez tenhamos alguma esperança numa desgraça relativa. Não podemos continuar a olhar para os senhores “pós-democráticos” como se eles estivessem preocupados com o nosso modo de vida.
Alguma coisa tem de mudar para que tudo mude, de facto. É urgente refundar o conceito de Democracia. E, por muito que isso custe às luminárias do regime, essa refundação vai ter de ser feita nas ruas.






































