segunda-feira, abril 13, 2009

Ver a Deus

Explorar aqui o lugar de onde retirei esta imagem


Fui ver a Deus mas Ele atrasou-se e, quando lá chegou, já eu lá não estava. Já eu vinha a caminho desta casa, no meio de filas intermináveis de carros cheios de outros que, como eu, Lhe fizeram visita com marcação para Domingo de Páscoa.

Andei uma semana quase inteira a rolar rodas lá para o Norte. Na 5ª feira Almada-Aveiro-Viseu. Na 6ª Viseu-Porto-Viseu. No Sábado Viseu-Aveiro-Viseu e, finalmente Domingo, Viseu-Almada no meio da confusão toda. Tudo para ver a Deus e Deus atrasou-se, rai's parta! Bom, não convém mentir, porque Deus sabe tudo e sabe bem que vê-Lo era o menos importante dos objectivos destas andanças que antes Dele (muito antes) estão os meus pais.

Ainda assim tive a minha epifania pascal. Foi na estrada, na A25, entre Viseu e Aveiro. Perante uma serra qualquer recortada no horizonte, coroada por nuvens escuras e grandiosas, tive a revelação renovada da consciência do espectáculo mais grandioso do mundo: a Natureza! Viver na cidade, entre prédios e muros e sempre enfiado na resolução imediata dos problemas quotidianos, faz-me esquecer a grandiosidade da Mãe Natureza e do espectáculo constante que ela é. Pensamos sempre que quem vive fora da cidade, coitadinho, está em desvantagem porque longe do bulício citadino "não há nada". Que ideia mais parva! Longe de cidade há tudo o que ali não existe.

Passei estes dias a olhar em volta com os olhos repletos de maravilhas. As cores das estradas secundárias (oh, Deus, os tons de verde!!!), as encostas verdejantes, o céu sempre aberto e aqueles lugares onde nunca bate o sol, as serras, os montes e os vales. A Natureza a prometer mais do que merecemos receber.

Enfim, regressei a casa metido na barriga de uma serpente de carros, um monstro incomensurável a arrastar-se no caminho da estrada, chão cinzento. Cá estou de novo, sentado em frente ao meu PC, a escrever estas palavras.

Deus chegou atrasado e já não lhe beijei os pés, como é de tradição, mas vi-Lhe o rosto que Ele tanto tenta esconder. Vi-O nas serras da Beira Alta, onde ele habita e de onde nunca saiu.

quarta-feira, abril 08, 2009

Mercado volúvel

Piero Manzoni e a sua célebre merda enlatada em 1961


Vem na edição de hoje do Público: "O cenário que se antecipava foi agora traduzido em números: segundo o jornal económico Finantial Times, durante os primeiros três meses de 2009, o mercado da arte sofreu uma quebra de cerca de 35 por cento em relação ao mercado em alta de 2008. O jornal, que faz uma antecipação dos resultados do índex Mei Moses, a sair na próxima semana, diz que a quebra foi acentuada por coleccionadores e investidores atingidos pelo escândalo Madoff. Juntamente com outros bens, muitos dos afectados pela crise tentaram obter fundos com a venda de pinturas, esculturas e obras em fotografia, ainda que por valores muito abaixo do que teriam rendido antes de Setembro último."

A quebra nos valores astronómicos que os objectos de arte atingem no mercado não surpreende ninguém. O navio da economia mete água e há já muitos marinheiros de água doce que atiram ratazanas borda fora, não importa a que preço. Mas as ratazanas, toda a gente sabe, são excelentes nadadoras. Quem não tiver nojo de pegar nestes produtos enjeitados deve aproveitar porque, num cenário de retoma económica, irão, decerto, recuperar o investimento.

É o eterno sobe-e-desce da existência humana, o efeito iô-iô das crises económicas. Quando a crise atraca nas bolsas, os preços de certos bens tendem a cair na realidade. E se caem! Caem com estrondo e por ali ficam, na sombra, a lamber as feridas, esperando um dia mais solarengo que lhes restitua o prazer de existirem.

É curioso verificar que "Segundo os especialistas consultados, as vendas em baixa dizem respeito sobretudo a obras realizadas entre o pós-guerra e a actualidade, o tipo de investimento feito pela elite de Wall Street e semelhantes ao longo dos últimos sete anos.", a arte contemporânea sempre imersa nas terríveis dúvidas que continua a provocar quanto ao seu "real" valor, tanto quanto se duvida do real valor da riqueza "produzida" no mercado de especulação de capitais.

Iremos nós assistir a uma mudança de paradigma no estabelecimento dos rankings de preços dos objectos de arte? A verdade é que perante o descalabro do sistema de especulação de capitais, que deixou à vista de toda a gente a fragilidade fraudulenta de uma legião de especialistas em economia com pés de barro escondidos em sapatos de luxo, algo poderá mudar também entre os especialistas com pés de merda que constroem reputações e iludem os valores dos objectos de arte.

Ainda na mesma notícia pode ler-se que "Já o mercado dos grandes mestres da pintura, a funcionar abaixo do radar do boom de investimento em arte dos últimos anos, terá tido um declínio mais moderado." Não haja dúvidas de que o Tempo (seja lá isso o que for) se encarrega de caucionar o valor das obras de arte. O futuro dirá quais os objectos artísticos que irão resistir e perdurar no mercado. Apesar de todas as injustiças, há sempre uma justiça mínima que sai redondinha dos ponteiros do relógio e cai graciosamente das folhas dos calendários.

terça-feira, abril 07, 2009

Imagens aos pontapés


Olhando melhor para a quela foto que estava no post anterior e vialou para este, há um pormenor interessante. Repara bem na quantidade de máquinas fotográficas que dançam à frente de Barack Obama. A maioria dos manifestantes que aplaudem o símbolo máximo da "hope" tem uma máquina e, como são máquinas digitais, disparam-nas a torto e a direito, captando centenas, milhares, milhões de imagens de Obama.

Desde que o digital entrou em definitivo nos nossos hábitos, passámos a produzir muito mais imagens. Já não temos a pressão de nos sentirmos obrigados a tirar uma foto especial sempre que carregávamos no botão da velha máquina, foto essa que iria ser impressa e, quem sabe, emoldurada, o que, até pelo preço, nos obrigava a procurar um enquadramento especial, uma pose estudada. Agora é o tempo do instanâneo-instantâneo. Fotografamos tudo, sob todos os ângulos possíveis, sem temores nem constrangimentos.

Gostava de ter acesso às fotos que estão a ser tiradas na foto que ilustra este post. Seria decerto um exercício curioso poder compará-las. Descontando as que enquadram apenas a nuca do parceiro da frente, ou só o céu, ou apenas pernas em plano picado, tenho a certeza de que uma coisa havia de ser comum a muitas delas: o sorriso de Obama. O homem ainda arranja algum problema muscular de tanto sorrir. A menos que pratique ao espelho.

domingo, abril 05, 2009

Hope


Obama é um fenómeno de popularidade na Velha Europa. A mesma Europa que Bush tanto desprezava e que por ela foi hostilizado como inimigo figadal.

Haverá uma distância assim tão grande entre o anterior presidente norte-americano e o actual? Pessoalmente creio que sim, que existe uma enorme diferença entre eles, mas há um "pequeno" pormenor que os aproxima, um "pormenor" chamado Estados Unidos da América. Eles são diferentes mas o país por eles representado continua o mesmo.

Obama está em estado de graça. Nem a crise mundial retira brilho à sua presença magnética. O à-vontade com que se move, o aspecto descontraído da sua figura jovem e bem parecida encaixa na perfeição na imagem de Santo Redentor que os europeus desejam mas não encontram entre os seus líderes.

Barack "Hope" Obama, o enviado dos céus, está aí. Passeia o seu esplendor pelo Velho Continente. A sensação de que poderemos encontrar maneira de estreitar laços de cooperação e reencontrar caminhos que nos aproximem dos EUA, revitalizando o mítico Império Ocidental, fazem-nos esquecer que foi esse mesmo Império o causador do abismo actual, a tal Crise assustadora que resultou do primado da Economia sobre a Política.

Não haverá Obama que nos valha se não formos capazes de substituir o paradigma civilizacional que nos condiziu à beira do precipício onde actualmente vacilamos. Ou somos capazes de subjugar o sistema económico à vontade e às necessidades de um sistema polício e social de rosto humano ou então estaremos apenas a dar mais uns passos em direcção ao vazio que nos aguarda de boca imensa e aberta.

Para já, Obama é o campeão da aparência. Aguardemos para verificar se será, também, campeão da substância.

Oxalá seja. Tenhamos "hope"!

quinta-feira, abril 02, 2009

Encher chouriços


Quando ouço falar de cenas como essa reunião dos G-20, percebo com muito maior propriedade a velha expressão portuguesa do "encher chouriços".

Quando era miúdo vi, muitas vezes, as mulheres (não me lembro de ver homens a fazerem esse trabalho) a encherem as tripas do porco com pedaços da sua própria carne (do porco, está bom de ver). As tripas haviam sido lavadas e secas, a carnucha bem temperada, com tempo e sabedoria. Depois era só "atar e pôr ao fumeiro". Ali ficavam as chouriças (na minha terra usa-se o feminino) penduradas junto à lareira que era onde se cozinhavam a maior parte das refeições, numas panelas pretas com três pés de diferentes dimensões, apesar de haver por lá um fogão a gás, se a memória não me falha. As chouriças haveriam de secar o suficiente para depois serem comidas de mil e uma maneiras por quem as pudesse comer.

Vem isto a propósito dos reais poderes dos governantes locais perante as decisões dos mais poderosos. O que fazem Sócrates e os seus ministros quando governam aqui o nosso Portugalzinho senão encher chouriços? Enchem-nos com a carnucha do pessoal cá do sítio e põem-nos a secar, à espera das decisões dos gabirús do G-20. Depois logo se vê no que isto dá. As leis que apadrinham são tão desvairadas, tão estúpidas e canhestras que os cidadãos ficam embasbacados e sem capacidade para perceberem bem o que se está a passar naquelas cabeças ôcas. Sócrates bem se põe nos bicos dos pés mas a sua estatura como estadista não lhe permite ver além dos interesses particulares e pessoais. É pior que mau. Como 1º ministro não vale nada e, como cidadão, vale um pouco menos.

Obama, Brown, Lula, as senhoras Kirchner e Merkel, Hu Jintao, etc e tal, os tubarões mais dentuças deste mar perigoso, dão as ordens. Os resto do pessoal enche chouriços e aguarda. Alguém os haverá de comer. Aos chouriços, não aos tubarões que a esses não há dente que os morda nem consiga trincar.

quarta-feira, abril 01, 2009

Aguardemos...


"Os ricos que paguem a crise!" Quantas vezes esta palavra de ordem foi gritada nas ruas? Gritou-se, gritou-se e... os ricos não só não pagaram crise nenhuma como ainda por cima geraram uma outra com aspecto mais feroz e bem mais devoradora.

As empresas fecham por todo o lado ou reduzem dratiscamente o número de trabalhadores. Em Portugal, por exemplo, os números do desemprego dispararam em direcção à lua e, não tardam, estão a atingi-la. A sociedade civil tenta minorar o problema apelando à solidariedade de todos para que se consiga evitar, pelo menos, a fome entre os que estão mais desprotegidos. Gotinhas de água num oceano ácido. Mas não é só em Portugal que a crise assume o aspecto de um monstro descontrolado. É em todo o mundo ocidental.

Os 20 países mais ricos do mundo resolveram fazer a sua reuniãozinha da ordem em Londres. Má ideia. A capital britânica é um planeta dentro do planeta e está em efervescência. Manifestações para trás e para a frente, a violência assoma à flor da pele e há distúrbios pelas ruas. Sente-se uma instabilidade incrível e nem São Obama nos vale. Estará a nossa sociedade à beira da falência nervosa? Até onde irá tudo isto?

Aguardemos.

Ouço um autocarro lá em baixo, na rua, uma vozinha de criança lá ao fundo, um riso. Por enquanto tudo continua na paz do Senhor aqui, no país dos brandos costumes. A crise não se vê. Instala-se dentro das pessoas, cresce no remanso dos lares, é como um vírus. Teme-se que a segurança pública venha a ser afectada. Já há ministros que falam dessa possibilidade. Parece impossível. Mas quem perde tudo fica sem nada para perder. E isso é o rastilho que cresce à espera de um fósforo que lhe venha fazer companhia.

Aguardemos...

terça-feira, março 31, 2009

Manias do caraças!

Sobre um cubo não há nada a dizer. Um cubo são seis quadrados encostados. Seis faces iguais com arestas. Esquinas vivas a rasgar a pele. Pode ser caixa ou pedra. Com pintas é um jogo de azar. Com janelas é um quarto. Com barras uma cela. Esdrúxulo paralelipípedo.
foto e legenda respectiva do post intitulado... Cubo, of course! Tem 6 "clicks"



Não é meu hábito falar muito de Blogues neste Blogue. Vá-se lá saber porquê!

:-)

Mas não posso deixar passar em claro a oportunidade de chamar aqui a atenção para o Photomelomanias, um dos Blogues alimentados pelo Caçador (identidade alternativa de outras identidades secretas espalhadas pela blogosfera). O Caçador anda por aí desde Dezembro do ano passado e o Photomelomanias abriu portas em Janeiro do corrente, contando com 41 postagens desde que abriu as portinholas. O conceito é simples e não sei se há mais Blogues assim (eu não conheço mais nenhum, mas é bem possível que existam outras gotas assim no imenso oceano da blogosfera). Cada post tem um tema associado a uma fotografia e, por baixo, depoisa da legenda, alinham-se uma série de "clicks" que abrem para filmes (a maior parte deles no YouTube) de alguma forma associados ao assunto em análise. Os filmes são, maioritáriamente, clips musicais mas também podem ser de outra natureza.

Resumindo, um passeio pelo Photomelomanias é sempre um trajecto curioso, com momentos inesperados. Uma visita a fazer, sem hesitações.

domingo, março 29, 2009

Real vulgaridade



Finalmente vi o filme A Turma (Entre les Murs). Vi em casa com a família. Versão DVD: sentado, recostado, deitado. Como sou professor, grande parte da narrativa é-me tão familiar que algumas situações potencialmente mais fortes ou polémicas não me surpreenderam.

O que me pareceu mais marcante em A turma foi, precisamente, o realismo, como se o realizador tivesse recuperado os princípios éticos e estéticos do realismo oitocentista. As personagens, as situações, os cenários, nada têm de transcendente de tão vulgares. Não há a grandeza dos momentos históricos nem o mistério dos contos surrealistas. Vulgaridade vulgar. É tudo.

A Turma é qualquer coisa entre a obra de ficção e o documentário e, pela forma como aborda a linguagem cinematográfica, abre um buraquinho especial para ali se aconchegar sem grandes acompanhantes (pelo menos, assim de repente, não me estou a recordar de outros filmes semelhantes).

O meu amigo Beto Canales do Blogue Cinema e Bobagens, estabelece aqui uma série de princípios segundo os quais deveremos classificar ou abordar críticamente um filme. São 7 itens a ter em conta na classificação da qualidade de um filme. Para ele, A Turma não preenche nem dois e ainda lhe aponta alguns pecadilhos censuráveis.

Talvez o Beto tenha razão. Mas talvez os 7 itens não se possam aplicar sempre, da mesma forma, talvez alguns objectos cinematográficos, pela sua natureza, peçam outro tipo de abordagem crítica. Acredito que assim seja e acredito que A Turma esteja algures num plano diferente. A minha dúvida prende-se com o facto de, como afirmei a abrir este post, a minha profissão me aproximar tanto da personagem do professor e me fazer olhar aqueles rapazes e raparigas com uns olhos muito semelhantes aos que utilizo quando olho os rapazes e raparigas nas minhas salas de aula. Esta situação poderá retirar-me distanciamento crítico, criando uma empatia específica com A Turma, empatia essa que nem sempre consigo estabelecer com os filmes que vejo.

Resumindo, A Turma parece-me um objecto muito interessante sob vários aspectos: o realismo das personagens e das situações, a revelação do ambiente que se vive "entre as paredes" de uma escola, serve para mostrar a quem julga saber o que ali se passa aquilo que, afinal, está muito longe de, sequer, imaginar. Terá defeitos, certamente que os tem. Mas esses o espectador que os descubra por si próprio.

A ver, por professores e não professores, sem compromisso de empatia garantida.

sábado, março 28, 2009

O santo coelho


A embalagem do preservativo é um achado! O gesto do velho Ratz é de desespero e a mensagem um desabafo incontido: "Eu disse não!". Braços ao ar, caraças, que estes gajos não aprendem! São piores que coelhos e não há nada a fazer.
Diz-se por aí que foram enviados 60 mil destes lá para casa do velhote. Não acredito que tenha tempo de os usar a todos no tempo que lhe resta... mas pode sempre tentar!

O coelho dos ovos


Entre todas as personagens que povoam o nosso imaginário colectivo há uma que, pela sua estranheza, sempre me deixou intrigado. Falo do coelhinho da Páscoa. A estranheza vem da relação entre o coelho e os ovos que, segundo uma tradição pouco clara, ele deixa por aí, à espera de quem os recolha. De onde vem esta relação anti-natura?
Procurando no Google (esse oráculo extraordinário) encontram-se referências não muito claras quanto à origem de tão estranha personagem.
A que parece mais lógica, ainda assim, é a de uma lenda que conta a história de uma mulher muito pobre, que não tinha presentes para oferecer aos filhos no domingo de Páscoa. A mulher cozinhou alguns ovos de galinha que depois pintou. Dotada de grande imaginação, teve a ideia de colocar os ovos dentro de um ninho que escondeu no quintal, entre as ervas. Quando as crianças encontraram os ovos, um coelho apareceu por perto e fugiu; as crianças acreditaram que o coelho havia posto aqueles ovos coloridos. Assim terá surgido esta crença que depois se propagou até aos nossos dias. Hoje os ovos são de chocolate e fazem parte de uma tradição comercial que a maioria das pessoas respeita quase religiosamente.
Podia ter aparecido às crianças um cão ou um gato, qualquer coisa assim, e hoje teríamos outro tipo de bicharoco a dar este toque surreal ao nosso imaginário infantil. A credulidade humana não tem limites e alguns adultos terão estado na origem de crenças bem mais bizarras do que esta mas que, com o tempo, se transformaram em factos reais. Faz parte da nossa condição.
Seja como for, o coelhinho da Páscoa, é uma daquelas figuras abstrusas que povoam o nosso universo consumista e que aceitamos com alguma indiferença, sem questionar a sua origem, tal como fazemos com o Pai Natal vermelhusco ou os monstrecos do Halloween.
este post foi originalmente publicado aqui http://jornaljanselmo.blogspot.com/

quinta-feira, março 26, 2009

Drogaria


Será mais um sinal da crise mundial? Ao que tudo indica, os paradigmas do combate ao consumo de droga estão prestes a ser virados de pantanas. Após anos e anos de luta armada contra o consumo de determinadas drogas, chamadas "leves" em que o resultado mais visível foi o aumento continuado do consumo, as cabeças pensantes da nossa sociedade global começam a imaginar outros meios de encarar a questão. Fala-se agora abertamente da possibilidade de despenalizar o consumo ou regular o tráfico de canabis. Estas medidas, já adoptadas em alguns países mais avisados, estão a ganhar terreno ao combate cego que tem sido norma na maioria dos países ocidentais.

Os argumentos contra e a favor são os mais variados. No ponto em que nos encontramos, com as economias em marcha atrás, surgem as contas feitas pelos economistas de serviço que prevêm a possibilidade de ganhos substanciais para os cofres dos estados, caso venha a legalizar-se o comércio de canabis. Contas feitas prevêm-se milhões de lucros mágicos que poderão ser melhor aplicados em benefício da sociedade. Lucrar-se-à com os impostos a aplicar, lucrar-se-à com poupanças em termos de investimento no combate à droga.

Assim como assim, num mundo com milhões de alcoólicos que podem consumir o seu úisque sem problemas de maior, bem como outros milhões de viciados em barbitúricos e outras drogas que se transaccionam nas farmácias, não parece má ideia trazer a doçura da canabis para o universo da legalidade. Basta alargar o conceito de droga.

Será a televisão uma droga? E o açúcar? Talvez o chocolate e a fast-food pudessem entrar no pacote das "substâncias" proibidas. Já estou a imaginar milhões de viciados em MacDonald's a devorarem hamburgueres escondidos atrás de caixotes de lixo, disputando a cães e a gatos uma batatinha frita com ketchup.

Não há nada como acenar com uns maços de notas à frente dos governantes deste mundo, para os fazer mudar de ideias. Em tempo de crise legalize-se a canabis, pois então. Não virá daí grande mal a este mundo. Hoje a canabis, amanhã... quem sabe?

segunda-feira, março 23, 2009

Orações


Pronto, faça-se justiça. Afinal a conversa do Papa sobre o uso de preservativos em Áfirca não devia ser considerada uma vez que, a crer no que se diz por aí, o Sumo Pontífice terá sido levado a pronunciar aquelas enormidades incitado por um jornalista habilidoso que apenas pretendia criar um facto noticioso. O Papa disse muito mais coisas, coisas bem piedosas, mostrando o seu lado bom, de quem se preocupa sinceramente com os males do mundo. Bem me queria parecer que o homem, perdão, o Santo homem, não podia ser tão irresponsável que fizesse daquele tema assunto de conversa por sua livre iniciativa. Uma coisa é o que ele pensa, outra o que ele diz e, ainda outra coisa, é o que faz parte dos discursos oficiais. São tudo coisas diferentes.

O papa despediu-se pedindo ajuda para os mais necessitados, o que é bem mais importante do que pedir preservativos para os mais atesoados. Denunciou a miséria e a corrupção, o que, em Angola, é feito ao alcance de muito poucos. Só mesmo o Papa poderia falar desses temas sem ser imediatamente enviado para fronteira com um carimbo de "indesejado" bem marcado no meio da testa.

Enfim, depois do post em que tão duramente desanquei o Santo Padre senti úm impulso súbito de escrever este, quem sabe iluminado por Deus ou por outra razão qualquer que não sou capaz de explicar. O Papa é o Papa e não pode desejar o mal a ninguém. Pois não?

sábado, março 21, 2009

Uma visita agradável


O Visitante é um filme excelente. Prefiro começar assim, para que tudo fique explicado logo à partida, porque o filme deixou-me com um sorriso nos lábios que regressa, sem esforço, quando me recordo daquilo que vi.

O argumento é envolvente, as personagens perfeitamente credíveis e a narrativa escorreita. Cada imagem é pensada e enquadrada com um rigor estonteante, encaixando-se na perfeição geral sem hesitar nem forçar o olhar do espectador. É tudo melhor que muito bom. Mas há uma coisinha que se destaca extraordináriamente, o desempenho de Richard Jenkins (na foto) que lhe valeu a nomeação para o Oscar de melhor actor que viria a ser atribuído a Sean Penn no papel de Milk. Este gajo é um senhor!

O Visitante é mais um daqueles filmes de baixo orçamento que apostam tudo na narrativa e na profundidade dramática em detrimento do efeito fácil e do jogo rodopiante da câmara de filmar. Conta-se uma história e o espectador entra nela sem precisar de pedir licença.
Entramos no filme como visitantes convidados e sentimos que somos muito bem-vindos.

sexta-feira, março 20, 2009

Um cartoon



Este cartoon foi ontem publicado no Inimigo Público. Os cartoons de António Jorge Gonçalves (e não só os cartoons) proporcionam normalmente excelentes momentos de reflexão. Este "Monster" não foge à regra e tem qualquer coisa a ver com o post publicado neste Blogue com o título de "Cabeça de dossiê". A perspectiva do leitor/observador é a cor-de-rosa.

quarta-feira, março 18, 2009

Shame on you


Não é por nada mas parece-me pouco decente falar daquilo que não se conhece. Quero dizer, não me atreveria a dar opinião pessoal sobre a melhor forma de comunicar com Deus por não ter formação teológica. Tenho cá umas ideias, muito minhas, meio estranhas mas, benza-me Deus, nunca por nunca seria capaz de as impor a quem quer que fosse, não fosse eu estar errado e obrigar alguma alma mais simples a cair no Inferno por culpa da minha visão distorcida.

Nesta ordem de ideias penso que o Papa não devia mandar bitaites sobre questões relacionadas com sexo, muito menos sobre um problema com a gravidade da pandemia da SIDA. Um homem que nunca fez amor não pode imaginar o que isso seja, nem que tenha beneficiado de iluminação divina. Há coisas que o Deus dos católicos prefere ignorar. É um Deus que vira a cara quando não quer ver e permite que o Mal anda por aí a curtir na boa.

Não pretendo comparar-me com o Papa. Ele não o merece. Mas aquelas afirmações assassinas de que a questão da SIDA não se resolve com a distribuição de preservativos tira-me do sério. Ninguém diz que o uso do preservativo resolve o problema, mas ninguém, com um mínimo de honestidade intelectual, pode negar que o atenua. A meu ver, o Papa é uma espécie de preservativo contra o Pecado. Não acaba com ele mas, devidamente utilizado de acordo com a literatura inclusa, pode evitar a sua proliferação descontrolada.

Enfim, só papa a mensagem deste ex-cardeal quem estiver mesmo desesperado e com uma fome de cão. Talvez Ratzinger esteja convencido que passou para outra dimensão da realidade, tendo-se tornado supra-humano, na antecâmara do querubim. Seja lá o que for, não há paciência para tanta desumanidade.

Shame on you, Mister Pope, shame on you!

terça-feira, março 17, 2009

Cabeça de dossiê


Na imagem Josef Fritzl esconde a cara atrás de um dossiê azul durante o seu julgamento em Sankt Poelten. Estranha atitude. Mas, numa personagem como esta, capaz de encerrar a filha num buraco ao longo de décadas, praticando actos inqualificáveis, que poderíamos esperar senão uma nova bizarria?
Há pessoas exageradamente estranhas. Na verdade todos somos estranhos, havendo uma espécie de estranheza média que designamos vulgarmente por "normalidade". Mas é impossível, para cada um de nós, imaginar o que é o outro. Como será estar dentro da cabeça do outro?
Olho para a imagem e sinto-me inclinado a agradecer ao monstruoso Fritzl o facto de substituir a sua face inquietante por aquele dossiê azul. É-me absolutamente impossível imaginar como será estar dentro daquela cabeça de dossiê.

domingo, março 15, 2009

Desejo


O desejo tem um nome, tem um rosto, corpo e vive junto a mim.

sexta-feira, março 13, 2009

Andar aos papéis


No filme de Terry Gilliam, Brazil, há uma personagem interpretada por Robert de Niro, que acaba devorada por um monte de papéis. Esta metáfora de uma voracidade insaciável revelada pela burocracia não é tão exagerada quanto possa parecer, assim, à primeira vista. A burocracia come-nos, de facto.

Come-nos o tempo que temos, come-nos a paciência, beberrica delicadamente a nossa energia e, de sobremesa, despacha-nos a capacidade de trabalho. Quando acaba estamos esgotados. E a burocracia arrota, satisfeita, deixando no ar um leve fedor àquilo que nós somos.

O mais estranho nesta Babel de escritórios sombrios é que somos nós quem a construimos a cada dia que passa. É a nossa incapacidade para lhe resistirmos que permite ao sistema burocrático um crescimento uniformemente acelerado, um universo de perversidade em expansão. O infinito parece ser a única fronteira capaz de o suster e, finalmente, saciar a vontade que tem de tudo encobrir na sua penumbra bafienta.

A forma como hoje dancei atrás de certos papéis, rebuscando montes, pilhas e cadernos de papéis, aparentemente todos iguais, como corei por ignorar a existência de uma certa pasta que era suposto conhecer melhor do que a minha própria família. As vezes que tive de bater à porta, enfiar a cabeça e pedir licença, sorrir embaraçado e, por fim, explodir (um pouquinho) confessando a minha capitulação perante a força desta besta invisível, declarando alto e bom som odesprezo que me merece, toda esta jiga rocambolesca me cansou. Fiquei a sonhar com um desenho que irei fazer e a matutar sobre a melhor estratégia para construir o teste de 2ª feira sobre Impressionismo e Pós-Impressionismo. Depois será necessário introduzir o tema da "Arquitectura do Ferro", construir a biografia de Gustave Eiffel e organizar uma pasta com imagens do seu trabalho.

A burocracia vai-me roendo a alma mas está longe de ma conseguir comer. Um papel timbrado, com três carimbos e duas assinaturas não é uma obra de arte. É um papel.

segunda-feira, março 09, 2009

Domingo


Ontem fui caminhar pelas ruas da Cova da Piedade. Caminhar, apenas, virando nas esquinas sem destino, a cabeça a vaguear juntamente com os olhos; a ver. A banalidade absoluta de um Domingo com sol quentinho, sol de fim do Inverno, a merecer celebração profana, tais são as promessas que traz agarradas e memórias que, com ele, renascem; como flores, como folhas, como ramos que o passado esconde e revela, conforme recordamos ou esquecemos.

Uma velha senhora a secar o verniz das unhas ao sol, com os cotovelos apoiados no parapeito da janela e abanando as mãos, como se estivesse a fazer um gesto de uma coreografia à Michael Jackson; um homem de aspecto derrotado, enfiado num casaco outrora branco e óculos fora de moda que talvez regressasse a casa (uma casa que imaginei vazia), desalentado e com vontade que a vontade fosse outra coisa; uma florista a formigar de clientes (era Dia Internacional da Mulher); um homem enorme, gordo e careca, transportava um vasinho desajeitado com uma flor vermelha a cair para o lado que parecia querer fugir (do homem ou do vaso?); um bando de miúdos a jogar futebol, corados, suados, gritando a plenos pulmões gritos que são vida enorme e cheia de futuro.

Caminhando pelas ruas dei por mim extasiado perante o espectáculo daquela banalidade absoluta, espantado pela riqueza que existe nas coisas que não são nada mas que, todas juntas, acabam sendo tudo, expressões simples da complexidade da vida.

A Cova da Piedade é um sítio feio, de prédios meio decrépitos e horizontes curtinhos, emparedados por fachadas de janelas sujas e todas demasiado semelhantes. As pessoas vestem-se, quase sempre, com roupas de cores escuras, como se se identificassem absolutamente com o espaço que as circunda, e parecem arrastar os pés, como zombies à procura da tumba respectiva. Mas a vida é uma coisa maravilhosa e as suas manifestações são sempre deslumbrantes, mesmo num cenário como este. Talvez ainda mais deslumbrantes num cenário como este. Aqui parece ser complicado encontrar a felicidade. Mera ilusão. Nem sequer é necessário procurar com grande afinco. Basta andar, abrir os olhos e ver.


sábado, março 07, 2009

Watchmen e Happy-Go-Lucky




Ontem vi Watchmen e hoje Happy-Go-Lucky. Assistir a dois filmes tão diferentes num tão curto espaço de tempo é uma experiência curiosa. Watchmen levou-me para um universo impossivel, Hppy-Go-Lucky trouxe-me de regresso a este mundo.


O filme de super-heróis é uma adaptação bastante fiel do comic book que lhe dá origem. O filme de Mike Leigh é uma adaptação bastante fiel da realidade.


É estranho como se pode gostar de dois objectos tão distintos. Mas aconteceu. Um e outro preencheram-me de formas diferentes, ofereceram-me um leque de sensações extraordinariamente amplo, fizeram-me perceber pela enésima vez como gosto de cinema e da sua infinita magia.


Fiquei a pensar nisto de tal maneira que nem sei o que dizer. Portanto, para não dizer o que não sei, não digo mais nada.


quinta-feira, março 05, 2009

Vigilantes

Watchmen no écrã e na págna do comic book


Estreia hoje um filme daqueles que nem toda a gente vai querer ver por ser uma coisa que mete personagens saídinhas de um Comic americano, personagens com fatos ridículos e coloridos, enfiadas em collants e com a cabeça ocupada por problemas mais cósmicos do que cómicos. Estou a falar de Watchmen, pois estou.

Pesoalmente sou fã de loo0nga data. O meu exemplar em papel de Watchmen tem anotado o ano e o local de aquisição: 1990, Livraria do Duque. Há 19 anos!

Lembro-me de se ter dito, naquela época longínqua, que estavamos perante uma obra-prima da Banda Desenhada (ou dos Comics ou das Histórias em Quadrinhos, como quisermos). Absolutamente de acordo. Alan Moore é um autor inventivo que raramente se satisfaz com as coisinhas que já fez (mesmo que sejam enormes ou excelentes) e pretende fazer melhor da próxima vez. Por isso, enquanto houver "próxima vez" para Moore, poderemos estar atentos e esperançados.

Regressando ao aqui e mais daqui a bocado; o filme vem fazendo furor. Como de costume, o trabalho de promoção tem sido eficaz. Vão-se mostrando umas imagens, vai-se "metendo o veneno" na cabeça dos espectadores, a vontade de ver cresce, cresce, cresce. Chovem elogios, os actores confessam o entusiasmo que sentiram por poderem ter feito parte de um projecto de tamanha excelência, enfim, enquanto não for ver, uma pessoa tem a sensação de estar incompleta (a publicidade ainda vai dar cabo de nós!).

Pronto, estreia hoje mas, possivelmente, só irei ver amanhã. Hoje tenho trabalho importante para realizar, não há um buraquinho que seja para permitir uma fuga até à escuridão da sala de cinema.

A minha filha, no esplendor dos seus 15 anos de idade, está impaciente por ir ver o filme. Eu também, confesso e apesar de tudo. Ela já prometeu que irá ver o filme 5 vezes. Eu ainda não prometi nada. Mas se a coisa for mesmo tão extraordinária como a pintam... quem sabe?

quarta-feira, março 04, 2009

Gran Cinema


Deve ser da idade. Clint Eastwood assina mais um filme de grande contenção narrativa e rigor de composição, aquilo a que, em tempos de um outro cinema, mais veloz e sincopado, costumamos chamar "um clássico".

Este "Gran Torino" possui as características que associamos aos "clássicos" (partindo do princípio que estamos a referir a arte produzida no período áureo da Antiguidade): equilíbrio, harmonia, simetria, enfim, a busca de uma forma plástica de contornos nítidos e bem definidos. Não há desvios nem elementos supérfluos. Não há movimentos de câmara desnecessários nem planos estranhamente enviesados. Não há personagens sem espessura nem cenas "para encher" o tempo ou o olhar do espectador. Ali tudo está ao serviço do objectivo principal: narrar uma história. Grande cinema, em grande estilo.

Como se tudo isto não bastasse, há ainda a presença magnética do realizador que é, cada vez mais, um gigante dentro da enormidade dos seus filmes. Ouvi dizer que Eastwood afirmou ter sido esta a sua última aparição no grande écrã, na qualidade de actor. Se foi, podemos dizer que tem uma despedida em grande estilo. Deitado de costas e em posição de Cristo, oferecido em sacrifício para redimir todos os pecados cinematográficos cometidos por gerações de realizadores menos atentos e menos capazes do que ele. Eastwood perdoa-lhes. Estão perdoados.

Um filme, absolutamente, a não perder.

segunda-feira, março 02, 2009

Céu cinzento, vinha vermelha


Que responder ao céu cinzento de um dia que amanheceu pouco esperançado? Nem o café matinal foi capaz de afastar esta coisa, esta espécie de mosca interior que me patinha irritantemente as ideias. As coisas melhoraram um pouco com uma leitura rápida de algumas notas sobre Van Gogh, para a aula que se vai seguir.

Costuma afirmar-se (com toda a propriedade, aliás) que o irmão de Vincent Van Gogh, Theo, marchand de arte e patrocinador do artista, conseguiu apenas vender uma tela de todas as que recebeu em troca do seu patrocínio.

Foi esta "Vinha Vermelha" de 1888, vendida por 400 francos (Theo enviava todos os meses 150 a Vincent). Um raio de luz na vida apocalíptica de Van Gogh que, apesar de procurar a luz com uma sofreguidão extraordinária, passou mais tempo com uma mosca a patinhar-lhe a escuridão da caverna que lhe encerrava o cérebro.

Mmmmh, agora que leio este texto não consigo perceber muito bem onde lhe encontro eu um raiozinho de esperança para o que me resta deste dia. Tenho de ir para a sala de aula. Talvez ali a coisa se ilumine.

domingo, março 01, 2009

A Árvore de Courbet


Pessoalmente, sempre relacionei o título de "A Origem do Mundo" com a semelhança que a meus olhos existe entre aquela imagem do sexo feminino e uma árvore.

Isto leva a que, no meu rebuscado imaginário, tingido por uma educação católica, apostólica e romana, a Árvore do Conhecimento, cenário do Pecado Original, se irmane de súbito com a inquietante visão daquele sexo feminino, tão exuberantemente enquadrado na tela de Courbet. Como se o pintor quisesse sugerir que a origem deste mundo tivera no Pecado Original o seu acto fundador.

Sendo um adepto fervoroso do Realismo, Courbet não era particularmente dado a especulações transcendentais. Terá afirmado que nunca pintara um anjo por nunca ter visto um "Mostrem-me um anjo e eu pintá-lo-ei."

Mas, mesmo assim, e apesar de tudo o que nos últimos dias se disse acerca da pintura de Courbet continuo a ver ali uma árvore. Um símbolo oferecido a uma sociedade machista, o Fruto Proíbido, na abstrusa concepção católica que olha o corpo da mulher como uma fonte inesgotável de luxúria e pecados mortais, capaz de lançar o maior dos santos nas profundezas do Inferno caso ceda à tentação de o provar.

Talvez esta minha leitura de "A Origem do Mundo" tenha algo de púdico por me poupar a olhar para a tela e ver ali apenas uma simples vagina. Reminiscências de uma infância católica? Talvez. Mas é essa leitura que me permite afastar a ideia de que esta tela é, simplesmente, uma imagem pornográfica. Para mim continua a ser "A Árvore de Courbet".

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Poder bruto

A capa da discórdia, terão os polícias lido "pornografia"?


Nestas histórias de censura que temos vindo a observar, não sei se ria, se sorria ou faça cara de cú! O que é comum a estes actos censórios, venham eles de Bruxelas, de Braga, de Torres Vedras ou da Merdaleja, é a desfaçatez com que os agentes do poder exercem o poder que detêm.

Não é só ignorância, é também incúria. Não é só falta de conhecimento, é também falta de capacidade e de qualidade para exercer o poder. A mesma procuradora-adjunta que censurou o carro alegórico no Carnaval de Torres (ler aqui) deu o dito por não dito e voltou atrás. O que ontem era condenável, hoje já o não era. O que mudou para justificar semelhante recuo?Também em Braga a PSP actuou e depois tentou emendar a mão. Primeiro argumentou que confiscara os livros (ler aqui)por recear desacatos na via pública. Ou seja, em vez de meter na ordem os mongas que ameaçavam os vendedores de livros, a polícia resolveu levar os objectos provocatórios para a esquadra. Que merda de forma de manter a ordem e fazer prevalecer a lei! Mais tarde a chefia da PSP acabou por reconhecer que metera a pata na poça, devolvendo os livros e tentando explicar uma coisa que não precisa de ser explicada. A censura não se confunde com nada. A estupidez com quase nada.

É isso que me assusta, ser governado por um bando de estúpidos nem sempre inofensivos que atiram primeiro e perguntam depois, ao morto, quem é ele e como se chama.

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Este país fica onde?


Aqui há uns tempos foi a questão da peça de escultura criada por um tal David Cerny (este artigo, ilustrado por dois vídeos, dá uma ideia interessante do objecto) por ocasião da entrada da República Checa para a presidência da União Europeia. A coisa era feia e corrosiva, portadora de um humor para lá da capacidade de encaixe de muito boa gente e... pimba! Perante os protestos enérgicos da Bulgária (como é que um país, entidade algo indefinível, protesta?) e outros, menos convictos, de mais alguns países novos em folha nesta União, li algures que o artista e a entidade empregadora lá decidiram que o melhor era cobrir a parte "má" da peça com um pano preto (imagem acima). Estamos perante um acto da mais pura e dura das censuras, algo que, imaginava eu, seria absolutamente impensável no espaço da União Europeia. Santa ingenuidade.

Agora tivemos esta situação rocambolesca dos policias que confiscaram meia-dúzia de livros com uma reprodução de "A Origem do Mundo" de Courbet na capa, com o argumento de que pretendiam "apenas" evitar desacatos na via pública. Risível.

Numa ou noutra situação estamos perante sinais nítidos de barbárie cultural. A arte, seja boa ou má ou nem por isso, não é pão para qualquer boca. O pior é quando aqueles que detêm o poder são mais broncos que o minimamente aceitável e desatam a cobrir de vergonha a nossa civilização, obrigando-a a retroceder até à caverna da sua estupidez individual.

É urgente debater publicamente a questão da liberdade de expressão. Se o não fizermos, quando dermos conta, teremos por aí milhares de panos pretos a cobrirem a arte que for "má" e milhões de polícias ignorantes a confiscarem tudo o que lhes pareça confiscável.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

O Leitor


Hoje fui ver este filme. Kate Winslet ganhou o Oscar de melhor actriz graças ao seu desempenho n'O Leitor. Dá que pensar; O Leitor e o facto de o Oscar ter sido atribuído a Kate Winslet.

O filme é perturbante. Tem um ritmo narrativo pouco acelerado (para não dizer lento), as elipses são quase circunferências e os silêncios de algumas personagens em determinadas cenas podem deixar o espectador algo desorientado. Talvez seja mais justo dizer que podem deixar o espectador entregue a si próprio, abandonado na imensidão das suas próprias dúvidas.

O drama que se instala na sala de projecção de O Leitor, envolve toda a gente e aperta um bocadinho a garganta, puxa bastante pela lágrima, enfim, deixa um gajo sem saber muito bem se vale a pena abrir o saco lacrimal e deixar correr. Por acaso não abri o meu, mas houve muita gente que não fez questão de poupar no choro.

Quanto ao Oscar de Winslet... pronto! É bem atribuído mas poderia ter ido parar a outras mãos (estou a lembrar-me do desempenho de Meryl Streep em A Dúvida, por exemplo) e ninguém se escandalizaria. Fica a impressão de que os critérios para a atribuição do homenzinho dourado não são exclusivamente artísticos. Mas seria ingenuidade imensa pensar que assim fosse, que a Academia se regia por rigorosos critérios cinematográficos para premiar os melhores da indústria a cada ano que passa.

Resumindo, um filme a ver por quem não receia a sua própria sensibilidade. Quem tiver medo de se sentir incomodado por possuir um coração demasiado mole e desprotegido perante as grandes revelações da alma é melhor acautelar-se; pode ficar seriamente apaixonado por O Leitor.

terça-feira, fevereiro 24, 2009

Mesmo sendo Carnaval...


A notícia aí está. Um misto de anedota inocente e bocarra de mau gosto, boçal no modo e na intenção, fica na fronteira daquilo que é aceitável em época de Carnaval.

A Polícia de Segurança Pública, vulgo PSP, fez uma apreensão notável. Foi em Braga, terra de arcebispos e padres bombistas elevados a heróis nacionais, cidade onde o Libertino passeou o seu esplendor, Braga "A Idolátrica", foi ali, na impoluta capital do Minho, que a PSP apreendeu meia-dúzia de exemplares de um livro que teria na capa "A Origem do Mundo", pintura de Gustave Courbet, emérito artista francês do século XIX, tido como principal representante da corrente designada por Realismo.

Um bracarense menos crescido, tanto cultural quanto politicamente, exigiu que os exemplares que exibiam a tenebrosa tela na capa, fossem imediatamente retirados do campo de visão público. Perante a recusa dos organizadores do evento, o dito guardião da moral foi-se queixar para a esquadra da polícia. A PSP, lenta ou omissa em tantas ocasiões que por vezes até nos esquecemos que é um corpo policial, viu aqui oportunidade para resgatar a sua imagem e avançou pela Feira do Livro em Saldo, a decorrer na Praça da República até ao próximo dia 8 de Março, para resgatar a decência e a moral católica. Sem tremor nem sombra de dúvida (nem mandato judicial) 3 polícias confiscaram os livros em causa com o argumento de se tratar de pornografia exposta em local público. Ora, todos sabemos que isso não pode ser. Pornografia em quiosques de venda de jornais ainda vá que não vá, mas numa Feira do Livro é perversão!

Mesmo sendo Carnaval esta história é mesmo de mau gosto. Basta um parvalhão qualquer torcer o nariz a uma capa de livro para esse livro ser censurado, retirado de circulação e aqueles que o tentam vender ou comprar serem humilhados publicamente? Que porcaria é esta?

Os exemplos de censura merdosa e mesquinha, originada pela ignorância boçal das autoridades, surgem de vez em quando para nos recordarem que o poder é exercido por seres com muitas limitações, seres exactamente como nós (ou talvez nem tanto) e que precisam, também eles, de ser metidos na ordem. Estes polícias deviam ser castigados pela sua ignorância estupidificante. Como mostram uma falta de cultura que envergonha muitos ignorantes por esse país fora, os polícias envolvidos nesta anedota de mau gosto deveriam ser obrigados a frequentar um curso intensivo de História da Arte do século XIX. Talvez perante uma Vénus de Antonio Canova se sentissem mais sossegados e pudessem compreender a atitude arrasadora de Courbet ao pintar "A Origem do Mundo".
Já depois de ter publicado este post chegaram notícias frescas sobre o desenrolar do "caso". Ler aqui e também aqui para saborear a delícia de tanta bondade revestida com estupidez caramelizada. Um bom-bom de portugalidade pura! Purinha mesmo, como só a Santa Maria.

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Tubarão-palhaço


Hoje li, num artigo de opinião no jornal Público assinado por Helena Matos, a frase que se segue: “O facto de vivermos cada vez mais os avanços da medicina e a hospitalização da morte levam a que cada um de nós se confronte com o temor de ficar a vegetar.” A expressão “hospitalização da morte” é deveras interessante.

A nossa capacidade de aguentar ténues fios de vida, ligando um corpo mais morto que moribundo a uma máquina qualquer, é sinal de desespero perante a incógnita da morte. Há quem fique anos para ali, não sabemos bem onde, algures entre lá e cá, entre o ser vivo e o ciborgue, com um coração que continua a bater sem cérebro desperto que o possa acompanhar. Uma coisa entre um monte de carne, ossos e veias, algo que não sabemos bem se ainda tem por dentro alguma coisa que possamos chamar de alma, uma coisa entre isso e um ser artificial, que consome electricidade em substituição de outras fontes de animação vitais.

Entretanto, algumas páginas antes, sublinha-se com algum espanto uma afirmação de Alan Greenspan (na ilustração), ex-presidente da Reserva Federal norte-americana e ex-sumo-sacerdote da religião antropófaga do capitalismo selvagem. “Em alguns casos, a solução menos má é que o Governo assuma o controlo temporário [de alguns bancos em dificuldades]”. Estarei a ler mal ou isto significa que, para este tubarão envelhecido, é desejável que haja nacionalização da banca em tempos de crise e liberalização quando as vacas engordarem de novo? Significará isto que é necessário recuperar a saúde do sistema capitalista contando com a colaboração das instituições públicas, nacionalizando os bancos durante um certo período de tempo para que, mais tarde e quando tudo estiver de novo nos eixos, se voltem a entregar às sociedades anónimas que nos sugam a vida e a mais-valia do nosso trabalho? Este gajo está xexé?

Resumindo, Greenspan sugere que hospitalizemos a morte do capitalismo selvagem na esperança de que possa regressar à vida, remoçado e pleno de entusiasmo? Os prejuízos são públicos até voltar a haver lucros que sejam entregues ao controlo dos privados?
Sinto-me angustiado. O monstro capitalista está todo entubado, ligado a mil máquinas de reanimação económica e outras tantas que o mantêm em estado vegetativo mas parece piorar a cada dia que passa. Qual a melhor solução? Desligá-lo da corrente? Mantê-lo acamado na esperança que volte a ser (pior) do que era?

Ai, ai, não sou capaz de me decidir. Se da minha opinião pudesse valer a vida ou a morte do mostrengo havia de ganhar uma insónia permanente. Como sou mais um entre milhares de milhões que para aqui andam, de um lado para o outro sem perceber bem o que se passa, o melhor que tenho a fazer é dar cordinha aos sapatos e ir uns dias para longe de tudo isto. O Carnaval aproxima-se. É tempo de virar o mundo às avessas.

terça-feira, fevereiro 17, 2009

O Tempo (perseguição sem fuga)

Na praia, Édouard Manet


«O tempo que, tal com a sociedade, se julgava ser imutável, parece acelerar com a Revolução Industrial e as transformações e progressos que ela propicia. O presente, até então sob o peso de todo o passado, vira-se para o futuro. (...) O tempo da modernidade é o presente, distinto do passado e do futuro e simultaneamente portador dos dois. Esta nova concepção do tempo leva o homem a atribuir um valor específico à época em que vive.
Para o artista trata-se de produzir obras que correspondam à sua época e, jamais, à arte de épocas anteriores, tal como era ensinada na Escola de Belas-Artes, base do academismo.»

in 1848-1905, A Arte no Século XIX de Nicole Tuffelli, Edições 70, páginas 8-9


Nem de propósito! Ao preparar uma aula sobre o Impressionismo deparei com este texto. Se o tivesse encontrado antes do dia 15 certamente o teria postado na Tertúlia Virtual. Como só hoje o tratei, só agora aqui chega. Muito a tempo, convenhamos, mostrando que o tempo não é bem aquilo que pensamos.

O tempo artístico, então, é uma tremenda baralhação. As obras de arte ultrapassam-no com maior ou menor facilidade, confundem-no, brincam com ele tanto quanto o respeitam rigorosamente.

Mas não é disso que estou a falar. Na verdade não estou a escrever sobre nada. Estou apenas a dar notícia de um momento... fora do tempo.

:-)

domingo, fevereiro 15, 2009

Tempo

O Merdanauta
acrílico e esferográfica sobre capa de caderno preto

O tempo é uma mentira que inventámos para preenchermos os dias que vivemos.

Se o tempo existisse de facto não teríamos tempo para mais nada que não fosse ele próprio. O próprio tempo. Seríamos escravos do tempo. Trabalharíamos em função do tempo. A nossa vida haveria de ser regida por medidas de tempo tão específicas que o mais ínfimo dos momentos não nos poderia pertencer, sendo propriedade do tempo.

O tempo é uma mentira que inventámos por não sermos capazes de suportar a verdade. E a verdade é que o tempo não existe!

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Um conto de fadas contemporâneo


"Quem quer ser bilionário" é um conto de fadas, uma história infantil contada a um público heterogéneo. Utilizando uma linguagem narrativa perfeitamente adequada ao mundo mediático que nos submerge, Danny Boyle parece ter encontrado (finalmente?) um forma eficaz de ir ao encontro do grande público.

A forma como a história vai sendo desfiada(em flashback), as cenas cortadas e recortadas em planos curtos e montados em rápida sucessão, à maneira dos vídeo clips, cenas com saturação de cor extrema, a banda sonora poderosa, actores escolhidos com felicidade e acerto (vejam-se as crianças!) tudo isto se conjuga num filme capaz de apaixonar multidões.

O facto de a acção se centrar num programa de TV cujo formato é popular em todo o planeta (toda a gente já viu aquele programa produzido no seu próprio país e na sua língua materna) ajuda a entrar na história com o pé direito e muita segurança. Depois, lá no fundo, narra-se uma aventura sobre o velho mito do amor eterno, com príncipes e princesa, tendo por cenário uma miséria exótica e a possibilidade de ascender na escala social graças a um conjunto de acasos extraordinário. O protagonista acaba por vencer mas apenas por acaso. O amor sincero é protegido pelos deuses? Parece que sim.

sábado, fevereiro 07, 2009

Actores







O filme A Dúvida tem um elenco extraordinário. Não é preciso ser um especialista para o descobrir. É óbvio. Meryl Streep ou Phillip Seymour Hoffman são nomes que de imediato conferem um selo de qualidade ao trabalho que desempenham. E, em A Dúvida, vão alto.
Já as actrizes "secundárias" constituem motivo de espanto. Amy Adams, no papel de jovem freira que se esforça até ao limite por imaginar a realidade, está em muito bom plano; mas Viola Davis, representando a mãe de um jovem aluno do colégio onde se centra a acção do filme, está num plano extraterrestre!

A densidade e intnsidade das representações são o sumo deste filme realizado pelo dramaturgo que escreveu a peça em que se baseia. Talvez por isso, a câmara concentra-se nas faces e nos corpos dos actores, como se o resto fosse (e é) mero acessório. É um filme sobre pessoas que pretende aprofundar a exposição da fragilidade humana quando se trata de construir modelos concretos daquilo que imaginamos ser a realidade. Confuso, não?

Apesar de ser bastante modesto sob o ponto de vista da realização, A Dúvida é daqueles filmes que, quando termina, nos deixa a sensação de ter sido extraordinariamente curto. Na verdade tem 104 minutos mas pareceu ter acabado depressa demais.

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

O cupido de Santa Comba



Depois desta série nunca mais poderemos olhar Salazar do mesmo modo. Algumas imagens passam a ter outra dimensão.
De cima para baixo: com Carmona, com aquela rapariguinha e com Franco. Afinal o homem era um cupido de seta sempre pronta!


Ainda não estreou mas já promete ser a maior mistificação dos últimos tempos. "A Vida Secreta de Salazar" está aí a romper e vai oferecer aos olhos de todo um povo estupefacto uma imagem do Botas absolutamente inesperada. Afinal de contas, o mito do homem púdico, temente a Deus e que só se apercebia que tinha uma pixota de cada vez que não se distraía com alguma oração especial quando ia mijar, não passa disso mesmo: um mito.

Desenganem-se os que pensavam que Salazar era um velho carcomido pelo ódio à existência e à liberdade humana. Qual quê! Aquele ser vivo não era nenhuma pileca, antes um verdadeiro garanhão que cobria todas as fêmeas que lhe passassem à distância de um braço.

Veja-se uma frase promocional da coisa: «Esta mini-série de 180 minutos (dividido em dois episódios de 90’) resulta do choque entre a narrativa propagandística, que a francesa Christine Garnier popularizou em livro, e as diferentes tramas amorosas protagonizadas pelas outras mulheres cujos corações foram atingidos pela flecha do Cupido de Santa Comba Dão.» Caramba! Já tinha ouvido chamar muita coisa ao velho das botas, mas "cupido de Santa Comba Dão", essa é muito forte e completamente nova.

Enfim, a coisa promete. Um Salazar cheio de vigor (quem diria?) envolvido com mulheres muito mais belas do que alguma vez ele sonhou que pudessem existir (veja-se aqui, meu deus!!!), que mais nos falta descobrir na constante descoberta que é a vida reescrita dos bandidos deste nosso Portugal? Que surpresas nos reservam ainda os produtores de audiovisual dos canais privados? Cenas escaldantes entre o Cardeal Cerejeira e o seu amigo Cupido de Santa Comba? O Anjo de Portugal a ser sodomizado pelo Demónio feito gente que, ao que parece, foi, afinal, o velho António de Oliveira, enquanto debita um rosário completo? Perante uma surpresa deste calibre tudo podemos esperar. Ou não?

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Interior Luxuoso


Ao saltar para a página do Público online dei de caras com esta notícia. Lux Interior morreu com 62 anos de idade. Não deixa de causar uma certa impressão na boca do estômago o facto de a notícia estar na secção de "cultura" (Ouvi e vi o vídeo de "What's inside a girl?" 3 vezes seguidas só para matar saudades. Saudades mortas.)

Os Cramps foram uma das bandas que me ajudaram a suportar o fim da adolescência sem ser assaltado por uma vontade incontrolável de me atirar abaixo de uma ponte. Sempre que era assaltado por essa fatalidade ouvia uns temazinhos dos Cramps e pronto, voltava tudo ao sossego habitual. Havendo Cramps neste mundo, todos os adolescentes de finais dos anos 70 podiam respirar um pouco mais aliviados.

A música desta banda constituída por horripilantes personagens tem qualquer coisa de hipnótico que nos faz desejar manter os faróis ligados mesmo que estejam a apontar e a iluminar algo que preferíamos não ver ou, pelo menos, ignorar. Uma espécie de alegria de viver ao contrário.

O 100 Cabeças envia condolências a Poison Ivy, viúva de Lux.

A partir de agora resta-nos ouvir o som arrasador dos Cramps e continuar a sorrir e a abanar a cabeça enquanto tentamos segurar os pézinhos que teimam em bater e as pernas que não sossegam de tanto quererem dançar.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Um pensamento que não chega a sê-lo. É envelope.


Parece-me conveniente afastar da cabeceira da cama os fantasmas que sejam da família de outras pessoas. Não estou disposto a deixar-me assombrar por eles. Na maior parte dos casos nem sequer os conheço. Não podem meter-me medo.

Prefiro entreabrir a porta e espreitar os meus próprios fantasmas. Quem sabe, uma noite destas lhes entrego as chaves dos meus sonhos?

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Um filme dos antigos


Milk é um filme que conta uma história (Será isto digno de nota? Faz sentido esta afirmação?). Veloz e construído de forma sólida, conta com a extraordinária interpretação de Sean Penn (Oscar para o melhor actor?).

Sendo um filme biográfico centrado na figura de um activista gay, Milk acaba por constituir um hino à democracia americana. Harvey Milk nunca desiste de fazer valer os direitos da comunidade gay, utilizando todos os meios que a Democracia coloca à sua disposição, até atingir, finalmente, os objectivos a que se propõe.

O registo cinematográfico utilizado por Gus van Sant é escorreito e claro como água. No final sai-se do cinema com a sensação de que há esperança nas virtudes do sistema democrático e que, contra ventos e marés, é possível triunfar sobre as forças obscuras dos fundamentalismos mais empedernidos. Sai-se também com a sensação de que é possível fazer cinema sem grandes efeitos especiais nem explosões nem planos de centésimos de segundo montados uns a seguir aos outros numa sucessão alucinante.
Um bom filme, com um elenco excelente.

Na noite em que assisti à projecção de Milk a lotação da sala estava esgotada. Apesar de ser uma sala pequenina (uma das salas Vip das Amoreiras) é de assinalar este facto.

domingo, fevereiro 01, 2009

No veleiro do 3º andar


Lá fora o temporal desespera. Ele chove, ele faz vento, bate, açoita, geme e grita. Parece capaz de continuar naquilo a noite toda. A vizinha do andar de baixo vem até à minha porta. Não usa a campaínha, bate com os nós dos dedos, a imitar a borrasca, mas com menos vigor, menos ímpeto, outras motivações a fazem assim bater, devagarinho. Que há uma toalha no estendal a esbarrar-lhe na janela da cozinha. Coisa essa que a incomoda. Compreendo. Que a toalha poderá voar para dentro da tempestade e perder-se lá para o meio daquele inferno de ruas encharcadas, levada por um dos pequenos rios que agora correm ladeira abaixo, como diabretes a brilhar sobre o asfalto.. Que está bem, que me desculpe. Vou já resolver isso, boa noite. Olhe que se vai molhar todo, que se há-de fazer (que raio queria ela que eu fizesse?)? Muito obrigada. A vizinha regressa ao seu buraco por baixo da minha toca. Somos muitos, demasiados, apinhados como formigas, como baratas, enfim, apinhados como insectos. As janelonas da marquise estremecem, abanadas pela ventania e picotadas pelas gotas de chuva que o céu atira cá pra baixo como se fossem setas. Que hei-de fazer (que raio queria a vizinha que eu fizesse?)?

Abro a janela. Sou um marinheiro em luta com as velas açoitadas pela tempestade, encarrapitado no mastro grande, a tentar por na ordem panos que esvoaçam encharcados, irritados e enlouquecidos pelo vento. A chuva é fria como o caraças e as peças no estendal estão enroladas. São difíceis de controlar. A luta é intensa. Sinto-me a cavalgar as ondas. Mas estou apenas no 3º andar, a levar com a chuva nas trombas, com o cabelo encharcado e as mangas do casaco molhadas. Não me parece que a toalha citada estivesse sequer perto de bater na janela da senhora mas ela é assim mesmo. Simpática. E preocupa-se comigo (que me ia molhar, pois.) e já não é a 1ª vez que se queixa das toalhas. É para aí a centésima vez. E por muito que me queira imaginar num veleiro em pleno mar alto, por muito que queira brincar um pouco como se tivesse outra vez 10 anos de idade, a verdade é que não consigo. Esta não é brincadeira que me apetecesse brincar. Já não sou capaz de entrar nestes filmes a fingir que a realidade, quando é uma merda, não é a merda que parece.

Quando termino o meu acto heróico estou a dizer mal da vida, sinto a cabeça gelada (espero não ficar doente) e estou perfeitamente ciente dos anos a que por cá ando. Decido descalçar as botas e enfiar os pés numas pantufas. Ao menos isso.