terça-feira, março 27, 2018

Tempos dificeis

Talvez seja isto a tão badalada inteligência artificial. Na verdade (seja lá isso o que for) a IA é um sucedâneo da velha esperteza humana. Basta um gajo sem escrúpulos capaz de manipular informação com uma habilidade fora do comum e, pronto, eis uma entidade inteligente.

A ausência de ética é uma coisa banal. Sempre foi. Aliada às tecnologias da moda, a falta de ética, gera a tal IA. Estamos, assim, entregues a uma estranha bicharada.

A cibernética é muito isto, uma mistela entre o animal sem sentimentos e o mecanismo recolector e produtor de informação. Adivinha-se uma vigorosa selva habitada por um panteão de monstruosidades juvenis ainda desconhecidas mas que parecem alimentar-se daquilo que nós somos.

Para sobrevivermos nesta nova e perigosa floresta teremos de ser todos como o Capuchinho Vermelho só que mais desconfiados quando o Lobo Mau nos vier cheirar o cestinho da merenda.

domingo, março 18, 2018

Olvido

O tempo passado enfiado num frasquinho de vidro, mergulhado em vinagre (penso que fosse vinagre) ali estava, suspenso, perante o meu olhar mais ou menos espantado.

Eram duas revistas, uma publicada em 1984 e outra em 1991. Papel amarelecido, um leve odorzinho a môfo, coisas esquecidas, daquelas coisas que não existem e, no entanto, estão ali para nos mostrarem como a realidade é muito mais que o presente o que a torna algo cuja existência é absolutamente impossível.

Tentei recordar-me de alguma situação, algum acontecimento, qualquer coisinha que me transportasse de volta a esse passado esquecido (presente impossível). Népias, nadinha de nada. Néribi.

Fico assim mesmo, embasbacado a olhar o frasquinho, a massa informe do que fui misturada na solução translúcida em suspensão que mantém a existência do tempo que lhe corresponde. Confuso, não é?

Quando um gajo fica nostálgico e se põe a tentar recuperar acontecimentos enterrados na lixeira do olvido acaba a imaginar coisas que só fazem sentido dentro da sua cabeça. É isto que aqui escrevo. Exactamente.

quinta-feira, março 15, 2018

Perguntas que hibernam

Com a morte de Stephen Hawking, o grande génio da cadeira, regressam algumas questões que de vez em quando adormecem, como se hibernassem na caverna do meu crânio.

Como pode alguém conceber a ideia de Infinito? Alguém pode demonstrar essa qualidade (o Infinito é uma qualidade?)? Não sou capaz de compreender, nem um pouco mais ou menos, como pode algo existir sem estar contido em alguma coisa.

Alguém escreveu num artigo de jornal acerca de Hawking ser Eterno. Ora aqui está outra ideia que me põe a cabeça a andar às arrecuas. Que raio de coisa é essa, a Eternidade? Precisaremos de existir para que a Eternidade seja uma possibilidade? Existe Eternidade para além da Humanidade ou morrerá a Eternidade com o último da nossa espécie?

sábado, março 10, 2018

Aguardando a tempestade

As previsões meteorológicas avisam que, entre a noite e a madrugada, irá chegar ao território continental português a tempestade Félix, como o gato.

Um vento devastador empurrando chuva e granizo sobre as cabeças fugitivas dos animais desprotegidos poderá ser, alguma vez, prenúncio de felicidade? O baptismo de furacões e tempestades com nomes de gente é uma coisa algo perversa.

Que me lembre nunca nenhum destes desastres naturais foi baptizado com o meu nome. Rui, ao que parece, poderá ser um vocábulo pouco ortodoxo quando pronunciado para os lados da Rússia czarista. Talvez por isso eu esteja tranquilo no que toca a estas cenas e possa dormir descansadinho. Nunca se dirá que o Rui foi responsável pela morte de tantas pessoas ou pela destruição  de casario e queda de árvores ou inundações apocalípticas.

É um pouco isto. Esperar sentado que chegue a tempestade leva-me a divagar desta forma preguiçosa. As ideias vão fluindo, indolentes e erráticas. Reparo agora que a passarada, lá fora, está um tanto calada e o céu escureceu subitamente. Serão sinais de que Félix vem aí e se aproxima? Ainda é cedo, parece-me.

Seja como for estou em casa, sinto-me seguro. Não temo a tempestade, pelo menos enquanto estiver fechado no interior do meu castelo.

quarta-feira, março 07, 2018

Receio

Assistimos sentados ao levantamento nazi, alfinetes a ferver que se vão espetando um pouco por todo o mapa da Europa. Como é possível isto estar a acontecer?

O povo europeu que dá força a essa besta política. Não parece ser um movimento de elites. Dá a sensação que a coisa cresce aconchegada por um certo esterco social, ali entalado entre a classe média e a média baixa, uma espinha na garganta social democrata, cada vez mais seca, cada vez mais ferida de morte.

"Esterco social", disse eu. E se a sociedade for maioritariamente nazi? Serei eu a transformar-me em esterco ou viverei numa esterqueira de facto? É difícil decidir. Entretanto vou aproveitando a liberdade de expressão (enquanto a tenho).

Por vezes penso se irei assistir ao triunfo do nazismo. E, caso isso aconteça, como irei reagir? Serei capaz de aceitar o retrocesso social e civilizacional sem fazer nada? E, se fizer alguma coisa, como deverei actuar? Com nazis não se pode discutir, apenas se pode lutar.

Espero que o triunfo nazi não seja mais que um pesadelo que vou sonhando, por vezes acordado. Gostava que a minha filha pudesse viver numa sociedade tão livre como esta em que tenho vivido. Preciso que isso aconteça para poder ter a sensação de que a minha vida teve algum sentido.

domingo, março 04, 2018

O galináceo

Os pobres sobreviveriam bem sem os ricos. Os ricos não poderiam nunca existir caso não houvesse pobres.

Os pobres são a Galinha dos Ovos de Ouro dos ricos. Quer-me parecer que os ricos já lhe abriram a barriga para retirarem todos os ovos de uma vez só. Nos tempos que correm assistimos à agonia da galinha.

O nosso modo de vida no mundo ocidental é a perdição da espécie humana.

quarta-feira, fevereiro 28, 2018

Ser artista

Será tudo isto uma questão de vaidade? Escrever, desenhar, querer fazer arte será uma mera questão de afirmação pessoal, uma necessidade insaciável de sair da massa, destacar-se da mediocridade mesmo arriscando ser medíocre?

Quando o dia amanhece ainda nocturno a dúvida ganha nitidez por contraste com a escuridão envolvente. Aquilo que passaria desapercebido lá para o fundo da sala, escombro desprezível encostado ao canto, fica visível como um néon a piscar, avariado.

A questão incomoda um pouco. Afinal de contas a velha "vanitas" é fortemente censurada pela moralidade construída a partir do sentimento cristão. Eu tive uma educação católica. Faz comichão e não consigo alcançar o ponto comichoso para o coçar, não sou capaz de aliviar o incómodo.

A primeira vez que fui confrontado com esta dúvida foi durante a leitura de Narciso e Goldmund, de Herman Hesse.  Passava então pelos meus 18 ou 19 anos e havia entrado na Escola Superior de Belas-artes. Li o livro no contexto da disciplina de Estética e, a partir dele, realizei um trabalho teórico de que já não consigo recordar o tema mas que estava, decerto, relacionado com o fascínio que então sentia (e que ainda sinto) pelo mundo e pela arte da Idade Média na Europa.

Desde então que esta pergunta habita a minha alma. A maior parte do tempo é uma pergunta adormecida mas, de vez em quando, ela acorda e deixa-me um pouco inerte, um pouco hesitante. Talvez seja necessário possuir um ego desmesurado para se ser artista, uma certa dose de soberba e um amor-próprio digno de um crocodilo do Nilo.

Seja!

terça-feira, fevereiro 20, 2018

Zombies sociais

Como é possível haver tantos estúpidos mal-intencionados em lugares de decisão e governo, ainda por cima, eleitos por nós. Ou somos maioritariamente estúpidos e, coligados com uma minoria de mal-intencionados, sentimos uma descontrolada atracção pelo abismo, ou então a ignorância é mais grave do que imaginamos e estamos a construir uma sociedade toda ao contrário daquilo que dizemos desejar. Somos como zombies sociais, cambaleamos sem destino e sem sentido em direcção a um horizonte repleto de escuridão onde não há absolutamente nada e alimentamo-nos dos cadáveres dos sonhos que vamos matando pelo caminho.



sábado, fevereiro 17, 2018

Canibalismo Cósmico (tentativa de explicação)

Comemos o que vemos. Pomos os olhos a mastigar imagens, alimentamos a mente que, estou em crer, não é mais que a pança da alma.

A alma bebe pelos nossos ouvidos (alguém que descreva a anatomia da alma).

Ontem almocei Van Eyck (Jan Van Eyck) bem regado com o Sandinista (dos Clash). Para sobremesa debiquei Bosch e, como digestivo, tomei "Take a walk on the wild side". Menu clássico.

Para fazer a digestão empunhei a caneta.

Isto é o Canibalismo Cósmico, a Hibridização Anárquica.


quarta-feira, fevereiro 14, 2018

Sim e não

A variedade de pontos de vista sobre uma determinada questão parece complicar fortemente a fixação da coisa a que chamamos verdade. Parece ser mais fácil determinar aquilo que é mentira.

Tenho dificuldade em explicar com clareza aquilo que quero. É mais simples perceber o que não quero.

Será mais sólida a negação do que a afirmação?

terça-feira, fevereiro 13, 2018

Inveja

Imagino que, também tu, adorado leitor, sintas por vezes a terrível mordedura da inveja. É uma ferradela no coração (ou no espírito) com aqueles dentinhos, como se fossem alfinetes, que te faz contorcer o ego e te deixa um sabor a fel na boca dos sentidos.

Da parte que me toca é nessas ocasiões que invoco a minha educação católica na sua dimensão de santidade cristã. Tento combater a inveja com todas as forças que sou capaz de convocar para a batalha. Imagino-me vencedor, como um condenado capaz de matar um leão a mãos nuas numa fedorenta arena romana.

Luto com todas as minhas forças na tentativa de ignorar a dor que me causa tão pérfida mordidela. Não é nada fácil. Fácil seria entregar-me ao usufruto da vaidade mas, como estou longe a santidade, percebo que me comporto como a raposa da fábula que despreza as uvas por não lhes chegar quando espeta o focinho na sua direcção.

Sou um invejoso envergonhado, essa é que é essa. E, se o confesso nestas linhas, é por saber que só me fica bem ter inveja, reconhecê-lo e, ao mesmo tempo, declarar publicamente que a combato com denodo; isto faz de mim um ser humano com toda a parafernália de incongruências que tal condição implica.

Enfim, fico de bem com a minha consciência e pouco mais. Que, ainda assim, a puta da inveja não me larga.

domingo, fevereiro 11, 2018

Declaração inflamada

Tenho que dizê-lo! Calar a boca não é opção!

quinta-feira, fevereiro 01, 2018

Desvario

Anda por aí muito bicho estranho disfarçado de ser humano. À primeira vista não parecem muito avariados, podem até parecer coisinhas fofas a precisarem de quem lhes dê um niquinho de atenção. Pobres bichitos, pensas tu, carinhoso leitor. Mas tem cuidado quando lhes estenderes a mão para uma carícia desinteressada, eis que te mordem com os dentes todos, como se fossem piranhas.

Não é o facto de ficares com um ou dois dedos a menos que te irá demover de fazeres o que imaginas ser bom. O bicho precisa de amigos, que raio! E voltas a tentar passar-lhe a mão (o que te resta dela) no pêlo. Qual quê! És de novo posto à prova com outro festival de dentadas que nada têm de gulosas, são apenas maldosas.

Neste ponto já te estás a lixar para o bicho. O que era fôfo, vês agora, é nojento; o que parecia carência é afinal desvario. Desvario total, absoluto, absurdo. O bicho precisa é de ser mantido à distância. E ele ladra, ele gane, ele solta os mais estranhos grunhidos. Já não sabes se é porco, se é vaca, se é outra merda qualquer. Queres esquecê-lo, ignorar que te levou os dedos.

Mas esse bicho estranho agora não te larga. Cometeste o erro supremo de teres olhado para ele, de teres confundido a sua loucura com mera necessidade de atenção. A demência virulenta que o anima parece-te inesgotável. Apercebes-te que esse animal vive no inferno. Ainda consegues sentir uma réstia de empatia com aquela coisa, um sentimento confuso que mistura compaixão e repulsa mas já não queres saber.

O bicho que se lixe! Vai-te esconder no teu buraco fedorento, bicho tonto.

Antes que o mundo acabe (rascunho)

Santo Patriota (Janeiro 2018)

Desde pequenino que acredito que a arte deve estabelecer comunicação directa com o observador, que o objecto artístico é como, deixa cá ver… como um casaco que se veste. Pode servir-nos ou não, podemos olhar para ele no espelho com o nosso corpo lá dentro, experimentá-lo ou deixá-lo pendurado no cabide, podemos emprestá-lo ao vizinho ou dá-lo a alguém que no-lo peça. A analogia não é muito convincente mas, enfim… tentar explicar algo, chamar o observador para junto da ideia que pretendemos mostrar-lhe, isto não é assim tão fácil. Há sempre a opção de parecer que dizemos algo sublime, muito profundo, algo enorme, tão grande que nem virando a cabeça até a nuca nos bater na coluna vertebral conseguiremos sequer vislumbrar o topo da coisa. Sermos inacessíveis de tão bons. Essa é que é essa!

Temos, então e pelo menos, duas possibilidades (não sei se ficou explícito): ou queremos comunicar ou queremos dar a sensação de que queremos comunicar. Ou, se calhar, nada disto faz sentido e se me disserem o contrário é porque têm razão.

Se a arte for como o tampo de mármore branco de uma mesa toda estilosa; arte fria, arte lisa, escorregadia, arte limpinha e brilhante quando lhe bate a luz, misteriosa, inconcebível, críptica como o olho do cu de uma galinhola, se a arte for assim tem fortes probabilidades de ser considerada uma coisa digna. Se não compreendermos o melhor será fingir que é porque a coisa é muito… extraordinária. Se não compreendermos o melhor será esfurancar uma leitura do objecto, forçar-lhe um sentido, encontrar nele o que lá não está é prova de grande erudição. Como diz o dito: se não os podes vencer junta-te a eles. Se não compreendes o objecto artístico finge que és parte dele. Resulta sempre, só precisas de um pouco de lata, uma certa pose e o domínio de um pequeno conjunto de lugares-comuns, uma ou outra balela sobre A Fonte e o neo-dadaísmo, ou sobre o pós-modernismo e o valor de mercado das obras de Damien Hirst. É tiro-e-queda!

Desde pequenino que gosto de perceber quando não percebo e quando percebo alguma coisa sinto que dou um passinho em direcção à possibilidade de ser feliz. É assim que encaro a arte. Voltando à cena do casaco, gosto que a arte me assente. Mas isso sou eu. Quanto a ti, tu lá sabes ou haverás de saber, se te deres ao trabalho de pensar nisso. Podes até querer passar frio. Da parte que me toca apresento-te imagens na esperança que consigas com elas estabelecer algum tipo de diálogo. Não digo que venham a tornar-se íntimos mas seria agradável se, pelo menos, fosseis capazes de trocar dois dedos de conversa.

quarta-feira, janeiro 31, 2018

Caridade cristã


Miguel Relvas, esse político, por assim dizer, advoga a ideia de que, para se evitar a corrupção, os políticos deveriam ser mais bem pagos. Ou seja, mais dinheiro no bolso ao fim do mês diminuiria a tentação de ceder ao canto da sereia. Discordo.

Se um político ganha 5.000 por mês e é corrompido com uma oferta de 500.000, caso ganhasse 10.000 seria corruptível mediante o pagamento de 1.000.000, tão simples quanto isso: aritmética! Pessoalmente, estou convencido de que uma pessoa é honesta ou não é; independentemente das quantias envolvidas, a capacidade de resistir à tentação é intrínseca.

Na sociedade actual reina a convicção de que tudo se resolve com dinheiro. Existe um problema? Faça-se mais investimento e o problema tenderá a ser resolvido. Não me parece assim tão simples. A maior investimento terá de corresponder uma forma adequada de o aplicar. Talvez necessitemos de melhor investimento, um planeamento mais eficaz, uma atitude mais honesta e inteligente. Caso contrário o dinheiro investido poderá perder-se em corredores obscuros e bolsos fundos, como é costume.

Veja-se, por exemplo, o que aconteceu com os Fundos Comunitários no Portugal cavaquista. Uma parte considerável do dinheiro vertido no nosso quintal através da torneira da CEE acabou por se perder e servir apenas para enriquecer uma "elite" que, pelos vistos, ganhava pouco.

Fossem os ricos muito mais ricos e sobrariam migalhas suficientes para que os pobres não morressem de fome. Pois, a gente sabe como funciona esta espécie de caridade cristã,... está à vista!

segunda-feira, janeiro 29, 2018

Universalidade

Valores universais... universais? Há aqui uma certa confusão pois os Valores só fazem sentido numa perspectiva estritamente humana.

As raposas, os carapaus e as serpentes não se regem pelo mesmo tipo de Valores que os seres humanos e, no entanto, fazem parte dos habitantes deste planeta. Que dizer, então, dos habitantes de outros planetas que façam perto do nosso Universo?

Imaginemos, na medida do possível, uma espécie alienígena.

Imaginemos seres gasosos ou com 50 metros de envergadura ou seres que não suportem a proximidade da água. Que tipo de Valores serão queridos por estas coisas tão diferentes de nós?

Como poderemos convencer uma galinha de que a Dignidade é um Valor Universal quando nos preparamos para a degolar, depenar e enfiar na panela? Assim como assim, a nossa capacidade de comunicar com um galináceo é de tal modo reduzida que a bicha se há-de estar bem a cagar na nossa conversa.

Imaginemos uma espécie alienígena que se apaixone perdidamente pela nossa carnucha e invente mil e uma receitas de como cozinhar o corpo humano. Imaginemos um talho intergaláctico com carcaças humanas penduradas nas vitrinas. Quem poderá, em boa consciência, criticar os extra terrestres por nos quererem comer se nos alambazamos em carne de vaca, de faisão, de coelho, lagosta, pato, seja o que for que nade, voe, caminhe sobre as patas ou rasteje sobre o ventre (esse castigo divino infligido à puta da serpente).

Valores universais? Imaginemos o nosso planeta invadido e ocupado por seres demasiado grandes, demasiado fortes, demasiado desenvolvidos tecnologicamente, com demasiados dentes nas bocas, línguas compridas e viscosas a lamberem uma espécie de beiças e com os quais sejamos incapazes de comunicar.

Imaginemos o que vai na cabeça de uma vaquinha que nos olha com aqueles olhos de carneiro mal morto enquanto mastiga a ervinha com toda a elegância...

Oxalá sejamos invadidos por uma espécie vegetariana que adore bróculos e beterrabas.

quarta-feira, janeiro 24, 2018

Pacientar ou não pacientar

Cheguei perto do balcão. Havia bastante gente; quase muita gente. Esperavam a sua vez numa distribuição algo caótica. Pessoas caladas, olhar em alvo, quietas. Fiz como os outros. Parei, olhei, fiquei.

Durante um minuto (ou terão sido dois?) esperei, mas algo começou a incomodar-me, senti-me inquieto. Não percebi imediatamente a razão que me levou a sair daquele lugar com alguma rapidez. Apesar da fomeca saí. Dei por mim na rua. Apercebi-me que ficara um pouco angustiado.

Imaginei os outros lá dentro: paradinhos, à espera da papa, normalidade tão estranha! Saquei          de um cigarro... que stress! O que sou eu? Um bicho! Um bicho que não o quer ser? Essa é uma ambição desmedida para um bicho. Hesito em regressar. Tenho fome.

Ando para um lado e para o outro, como se cambaleasse, como se estivesse aturdido pela dúvida. Ser ou não ser, fazer ou não fazer... rai's parta, William, que merdiosca. Já tenho idade para ter paciência.


segunda-feira, janeiro 22, 2018

Uma cena bué ambígua

O prazo encurta a cada dia.
A responsabilidade aumenta na razão directa da diminuição do espaço que resta para que cumpras o compromisso assumido. Quem te mandou a ti meteres-te numa destas!? Ainda por cima não havendo necessidade!

Quando tomas as dores de um compromisso que assumes voluntariamente, quando decides meter mãos a uma obra à qual não estavas obrigado e começas a sentir a dúvida a roer-te as abas do sossego, qual ratinho esfomeado e divertido, ficas com a tripa um bocadinho deslizante.

De súbito apercebes-te de que não possuis as capacidades necessárias para levar a bom termo a tal tarefa. Sentes as orelhas a crescer como as do príncipe do conto. Por que raio te meteste em tal alhada? Mas, ainda assim, sorris e expões um semblante que irradia confiança. Não há que recuar, caraças! Nem pensar.

E assim vais, alegremente, vida adiante, fazendo o que deves e até o que não seria suposto fazeres mas que decidiste transformar em objectivo muito teu. És personagem de epopeia. Quanto ao resultado... o que interessa isso? O importante é que mostraste ao mundo que não tens medo dele. Nem de ti.

quinta-feira, janeiro 18, 2018

Invasão

Ainda Janeiro vai fazendo o seu pedregoso caminho, a chuva não caiu como esperado, mais pessoas morreram queimadas em terríveis incêndios, metáforas tenebrosas do Inferno na Terra. Minuto aqui, minuto ali, seguimos na barrigota de Janeiro como soldados gregos no cavalo de Tróia: preparamos em segredo a invasão do futuro.

Imagino o que sentiria o soldado, anónimo e barbudo, dedos cravados no punho da espada, agachado na escuridão interior da falsa cavalgadura, como se fosse merda a vascolejar-lhe na tripa. Quanta ansiedade, quanta vontade de receber na fronte a luz do Sol, de saltar no vazio, arma em riste, golpeando inimigos com profunda raiva e surpresa sufocante. Ah, imagino que... não imagino nada. Posso lá imaginar-me um soldado grego enfiado no cu de um monstruoso cavalo de madeira!

Do mesmo modo sinto a insegurança do homem que vive cada dia como se não houvesse depois de amanhã (até ao dia de amanhã ainda sou capaz de me projectar um pouco mais ou menos), o homem que invade o futuro a cada passo, como se o futuro não lhe pertencesse até ao momento em que se encontram: homem e momento; vida e destino.

Não consigo largar esta sensação de que vivemos sempre o primeiro e o último instante em simultâneo. Que vamos assim desde o momento em que nascemos até ao da despedida derradeira. "O fio da navalha" não serve para ilustrar esta sensação, terá de ser outra expressão. Alguém que a invente.   

terça-feira, janeiro 16, 2018

O corpo e a mente que mente

A passagem do tempo sente-se nas marcas exteriores. É o espelho que nos fala disso. Cá dentro as coisas mudam muito pouco. Não houvesse espelhos e alguns anos eram como se não tivessem passado.

Mas há também os joelhos e os rins. Além das rugas que sobem dos cantos da boca à base do nariz. Há os cabelos que embranquecem e os que caem, cabelos esquecidos. O corpo não acompanha a mente. O corpo muda com muito mais rapidez. O corpo e a mente vivem vidas diferentes, tempos diferentes.

Por vezes tenho a sensação de que o corpo e a mente existem em espaços não coincidentes e que a vida neste mundo (que mundo?) é a suprema ilusão de uma existência que lhes é comum.

Ser, parecer, parecer ser.

Estico as pernas e sinto-me melhor. Uma certa tensão muscular é fonte de algum regozijo.