segunda-feira, julho 08, 2024

A Santa oculta

     Estou numa posição que não me permite ver o écran, ouço apenas as vozes que saem da televisão. Passa um noticiário. A pivot fala de alterações climáticas, refere temperaturas abrasadoras algures, um pouco ou muito longe daqui. Depois refere um ataque russo a Kiev sublinhando o número de mortos. A sensação que tenho é que ambas as notícias soam a coisas distantes, algo que não nos acontecerá aqui, no cu da Europa.

    Os mísseis russos, por enquanto, não me parecem ser coisa a temer. Já a caloraça... se vivesse no interior talvez começasse a pensar mais seriamente no assunto. 

    Os noticiários internacionais dão sempre a sensação de que aqui no cantinho estamos seguros, estamos protegidos. Concluo que, embora na cabeça do povão seja a Nossa Senhora de Fátima quem olha por nós, é a Geografia quem nos protege verdadeiramente. A Santa Geografia.

    É de ponderar a possibilidade de escrever uma cartinha ao Papa a sondar o que poderá Sua Santidade pensar sobre tão abstruso e delicado assunto.


sexta-feira, julho 05, 2024

Bestas

     O espaço virtual coloca-nos perante estranhas situações que, com o passar do tempo, se vão tornando menos estranhas. Uma dessas situações é o que acontece quando "encontramos" um estranho e com ele estabelecemos contacto. Pode acontecer, por exemplo, na caixa de comentários de um jornal. O nosso interlocutor reduz-se a uma designação (raramente o nome verdadeiro da entidade) e um pequeno texto escrito no qual emite a sua opinião (ou algo parecido) relativa a uma notícia ou, aí está, a uma opinião que nós próprios publicámos.

    Quando entramos em diálogo a coisa pode tomar caminhos inesperados. A ausência de contacto físico impele com frequência os dialogantes a tomarem atitudes menos civilizadas e muitas vezes a conversa descamba. É aí que a coisa se torna interessante ao mostrar que, escondidos na sombra do anonimato virtual, somos bestas em potência.

sexta-feira, junho 28, 2024

Apropriações

    


    Há uma tradição que põe na boca de Picasso a frase: "bons artistas copiam, grandes artistas roubam". A ironia desta afirmação é ainda maior se considerarmos que a frase nem terá sido ideia original do próprio Picasso. 

    Recentemente Banksy ampliou o divertimento  ao escrever a frase, ligeiramente alterada - "bad artists imitate..." - sobre uma "pedra" assinada pelo pintor malaguenho, riscando-lhe o "Pablo Picasso" e escrevendo por baixo "Banksy".

    Há aqui todo um conjunto de subtilezas aparentemente premeditadas (mudar "bons artistas" para "maus artistas" no caso de Banksy ou a apropriação de uma frase alheia em jeito de auto-elogio por Picasso, um efeito de "loop"...) que nos permitem reflexões curiosas sobre situações que nunca antes nos haviam prendido a atenção. Mas, não é para isto que serve uma obra de arte?

    Poderia agora propor um exercício de reflexão algo oportunista e um tanto preguiçoso: será a frase citada um objecto artístico? Poderemos estar perante um exemplo de arte conceptual? É toda a arte conceptual? Sim, eu sei, já lá vão três perguntas mas, as perguntas só não são como as cerejas porque nem sempre vêm aos pares.

quarta-feira, junho 26, 2024

Um livro muito grande

     Ler e reflectir, eis o combustível necessário no início de cada dia. Bom, acompanhando o pão-nosso, que de barriga absolutamente vazia não se pensa tão bem como se pensa. "O mundo livre" de Louis Menand é um compêndio brutal, excelente objecto de consulta.

    A quantidade de informação aproxima-se do delírio mas, tomada em doses homeopáticas, revela-se tão suave como pêlo de coelhinho. Apesar de umas quantas falhas editoriais, perfeitamente ignoráveis, a leitura deste tijolo (1108 páginas) faz-se em velocidade de cruzeiro e perna bem traçada. 

    O papel da edição da Penguin/Elsinore (ou será vice-versa?) é perfeito para um livro tão volumoso. Permite abrir as páginas sem a necessidade de estar sempre atento à resistência do papel que faz voltar a folha para trás e é surpreendentemente leve. Apesar do aparente desconforto até que nem se lê mal estando o leitor deitado.

    Enfim, grande livro! Sob todos os aspectos. Um livro muito grande.

domingo, junho 23, 2024

Próximo horizonte

     E pronto, a coisa estava feita. Não tendo a certeza se havia conseguido fazê-la bem feita, arrumou com grande precisão os objectos e fechou a caixinha com o cuidado habitual. Clic! 

    Olhou em volta. Algumas pessoas abandonavam lentamente o local, outras conversavam, havia também as que estavam ali como se fossem estátuas. Pôs a caixinha debaixo do braço, inclinou a cabeça com humildade exagerada e avançou na direcção da porta.

    A mulher bonita da 2ª fila olhou-o nos olhos e sorriu. Ele sorriu de volta enquanto aconchegava a caixinha com a mão esquerda. Não falaram, aparentemente não tinham nada a dizer um ao outro. Claro que não! E ele saiu. 

    Na rua, calor; e também uma caminhada curta com destino ao próximo horizonte.

domingo, junho 16, 2024

O "tempo" como lugar

     Em geometria aprendi (ou será que ensinei?) que "um ponto é um lugar geométrico". Ou seja, um ponto não é um toque rápido do lápis ou da caneta sobre uma folha de papel, um ponto não é uma bolinha, um ponto é, na verdade, uma abstracção. Abstracção essa que nos é indicada por um conjunto de coordenadas (abcissa, cota e afastamento, no caso da Geometria Descritiva).

    Mais tarde li a frase genial de Paul Klee dizendo que "uma linha é um ponto que foi passear", etc., por aí fora, o mundo vai-se-me revelando num compromisso entre linguagem e poder de visualização. A capacidade de verbalização a ser capaz de gerar imagens e intuições poéticas que disparam em todas as direcções dentro da minha cabeça e se projectam no espaço através dos meus olhos. O corpo ainda e sempre um empecilho que ambiciono dominar na tentativa de traduzir em objectos palpáveis aquilo que me vai na alma.

    Hoje pensei que o tempo é também um lugar no espaço, não exactamente como o ponto, mas com um tipo de coordenadas completamente diferente, tipo esse que não consigo precisar, nem um pouco mais ou menos. Isto a propósito do conceito de tempo na criação artística e da sua influência decisiva naquilo que os artistas criam. As coordenadas do tempo a determinarem o aspecto do objecto artístico de um modo eventualmente semelhante ao que as coordenadas de um ponto podem significar na determinação da orientação de um recta no espaço.

    Há intuições nas quais acreditamos piamente ainda que sejamos absolutamente incapazes de provar a sua validade.

terça-feira, junho 11, 2024

Contorno perfeito

     As coisas aparentam ser o que parecem. Assim, à primeira vista, não vês nada de extraordinário, a luz do sol é branca e revela as coisas com sinceridade absoluta. As formas desenham-se límpidas e perfeitamente definidas perante os teus olhos; é a realidade. Mas, por detrás das cores vibrantes da realidade, estende-se o manto translúcido da verdade (isto faz-me lembrar alguém ou alguma coisa...).

    A verdade não rejeita mas também não exige ser iluminada pelo sol. Semicerras os olhos e começas a perceber que a forma das coisas não é definida exclusivamente pelo seu contorno preciso e perfeitinho. E vem-te à memória aquela frase das bruxas. Não é sem algum receio que perscrutas as sombras e aí encontras todo um universo que vais adivinhando.

sábado, junho 08, 2024

Não tenho a certeza que existas

     O sol hoje não se deixa ver, está escondido. Devo dizer que "não está bom tempo"? Porque o céu sobre a cidade tem uma tonalidade cinzenta uniforme devo afirmar: "está mau tempo"? Ou será necessário que chova para poder ser tão dramático nas minhas considerações sobre o estado da meteorologia?

    Já deves ter reparado, refinado leitor, que, não tendo nada de mais interessante para dizer, me dedico a escrever umas quantas inanidades sobre o "tempo". E porquê? - perguntas tu. Porque posso. Então e eu? - voltas a questionar. Não tenho a certeza que existas, volto a responder-te.

    E ficamos assim, hesitantes sobre quem está do outro lado, se está alguém ou alguma coisa, se nada existe para lá do que trazemos dentro do crânio.

sexta-feira, junho 07, 2024

Dilema paradoxal anedótico

     O conceito de "criação" como sendo um atributo divino parece-me uma refinada palermice. Isto porque o próprio conceito de "divino" me parece ser uma invenção humana. Ficamos assim num daqueles dilemas paradoxais que redundam em anedota, do género da célebre cena do ovo e da galinha.

    O que apareceu primeiro, Deus ou o Homem? A resposta é tão simples quanto óbvia.

sexta-feira, maio 31, 2024

Ir indo

    Já deixei de ser jovem há uns bons anos e estou-me bem a lixar. Não fosse uma dor aqui, uma azia ali, nem sequer havia de sentir o impulso de maldizer a idade. O que se perde numa perna ganha-se na cabeça, o que vai naquele braço fica a pairar no espírito. O corpo é o que mais se estraga (até ver), as peças gastam-se e não há como substituí-las. A juventude saudável é, sobretudo, um corpo que não se apercebe de si próprio. 

     Valoriza-se muito a juventude, principalmente quando se é jovem. Do mesmo modo tendemos a considerar a velhice como uma oportunidade na busca de um sentido para o fim inevitável que se irá aproximando com o passar dos anos. Entretanto vamos vivendo.

    O envelhecimento não é um drama por aí além... até ver.

Mais morte

    É a guerra na Ucrânia, na Palestina, no Iémen... deve haver mais umas quantas que não fazem manchetes nos jornais mas tenho a certeza que há muito mais gente com armas nas mãos (e drogas na cabeça?) a matar-se com a ferocidade característica dos tresloucados.

    No meio disto tudo fico a pensar quantos milhares de euros são disparados de cada vez que voa um míssil. Por outro lado tento imaginar o que vai na cabeça de um iemenita que considera estar sob ataque constante dos "cruzados" do Ocidente. Qual o futuro das crianças e jovens da Palestina? Os israelitas levam demasiado à letra a ideia do "deus dos exércitos"e do "fogo divino". Qual a margem de entendimento entre russos e ucranianos?

    Parece-me que quem ganha são sempre os mesmos, os que estão dos dois lados; os que apoiam a luta dos oprimidos tanto quanto apoiam a dos opressores... fornecendo as armas.

terça-feira, maio 28, 2024

Menos morte

     À medida que o tempo passa os amigos vão morrendo. O mundo virtual encarrega-se de deixar vestígios dos que falecem. Recebemos notificações dos seus aniversários, de vez em quando encontramos um comentário na página do Facebook ou num post antigo do blogue. Revemos uma filmagenzita, a saudade aperta-nos o coração. 

    Talvez o mundo virtual retarde um nadinha o desaparecimento completo dos que já lá vão. Não nos liberta da lei da morte mas arranja maneira de a contrariar um bocadinho. É pouco, eu sei, mas é qualquer coisa.

domingo, maio 19, 2024

Acreditar

     Tantas coisas em que pensar, tantos objectivos para cumprir, a cabeça começa a pesar-me. Fossem coisas fáceis de resolver decerto não sentiria esta ligeira vertigem que começa a tomar forma por detrás dos meus olhos. A táctica a adoptar resume-se a: não esmorecer.

    Não esmorecer significa acreditar. Acreditar que serei capaz de solucionar os problemas, preencher os espaços vazios, produzir pensamento suficientemente eficaz de modo a não ficar embaraçado quando for tempo de apresentar resultados. Acreditar. É fundamental acreditar.

    Acreditar não é bem a mesma coisa que ter fé.

quinta-feira, maio 16, 2024

A coisa

     A coisa está complicada. Muito confusa. Hermética.

    Tenho dificuldades. Já sabia que fácil não era. Mas... tão complicada!?

    Tão complicada também não. 

    Não é justo. Não me parece que seja justo. Ainda por cima a inteligência não abunda.

    Só pode acabar mal. 

    Rezo muito. Tento inverter a ordem das coisas. A ordem que as coisas estão a tomar.

    Mas tenho a impressão de que as minhas preces caem em saco roto.

    A coisa está muito complicada. Confusa. Não me parece que haja solução.

    Era bom que houvesse solução. Que houvesse alguém capaz de compreender.

    Mas temo que essa pessoa não exista ou que não tenha nascido ainda. Pode nascer!

    Não gosto quando tenho sentimentos negativos mas odeio esta coisa. Essa é a verdade.

    Odeio esta coisa. Preferia que não existisse.

terça-feira, maio 14, 2024

Condição infantil

     Enquanto indivíduos podemos crescer, tornar-nos adultos. Ser adulto é algo muito valorizado socialmente pois implica saber-o-que-se-quer. Pergunto-me se saber-o-que-se-quer é algo indubitavelmente saudável e contribui, de facto, para a nossa felicidade ou mesmo para a nossa sanidade mental. Hitler, por exemplo, parecia saber bem o que queria. Era um adulto?

    A pergunta que esta manhã se me formou na cabeça foi: pode uma sociedade crescer? Tornar-se adulta?

    Se, como acontece com os indivíduos, uma sociedade precisa de saber-o-que-quer, então o problema é bastante complicado (para não dizer que é impossível de resolver). Não sei bem o que acontece na China, na Índia ou no Japão, mas tenho a impressão de que a "sociedade ocidental" anda um bocado perdida, não sabe ao certo o que quer e é muito infantil. É uma sociedade com um comportamento errático e que parece desejar ter tudo.

    Desejar tudo acaba por provocar uma desorientação permanente e parece conduzir-nos a uma situação final em que não teremos nada. Talvez isso seja um pormenor, talvez não-saber-o-que-se-quer e querer tudo nos seja indiferente pois o previsível descalabro final acabará por acontecer lá mais para diante. 

    Entretanto podemos ir usufruindo de muita coisinha boa, podemos viver este estado social infantil durante mais uma década ou duas imaginando que o bem-estar é inesgotável e que, tal como a economia e o universo, irá continuar a crescer infinitamente. Até ao dia em que deixar de acontecer.

domingo, maio 05, 2024

Paul Auster (1947-2024)


    Há uma certa diferença entre usufruir da leitura e compreender a obra lida no contexto do universo criativo do autor. 

    Mais ainda, há uma certa diferença entre ler vários livros de um autor e conseguir locazilá-lo na imensidão do cosmos da criação literária. Enfim, Paul Auster ofereceu-me excelentes momentos, outros nem por isso. 

    A qualidade artística é sempre intermitente, raramente ou nunca é constante. A genialidade é meramente ocasional.


segunda-feira, abril 29, 2024

Uma voz interior

    Acordara com a cabeça vazia mas não se recordava de a ter esvaziado.. Talvez as ideias fossem lixo, talvez as memórias não estivessem em bom estado de conservação. Fosse por que razão fosse, não sentia nada dentro da cabeça. Bom, na verdade sentia o cérebro dentro do crânio, uma esponja encharcada em água suja a repousar no fundo de um balde de plástico.

    De súbito foi assaltado pela ideia de que seria a sua alma a estar vazia, que não havia nada de errado com o cérebro (a esponja desapareceu de imediato mas o balde continuou firme no seu lugar). Sim, isso fazia sentido, o cérebro não poderia nunca estar completamente vazio pois ele estava a pensar! Era a alma! A alma... não, não podia ser a alma a causar-lhe aquele vago incómodo pois a alma é uma coisa que não existe de facto. Não tem forma, nem peso... mas, talvez, o que não existe possa interferir com aquilo que somos e vivemos, pensou. Uma pequena nuvem (de fumo, de poeria?) subiu discretamente desde o fundo do balde.

    Um café! A solução para aquela inconstância matinal seria o consumo de uma boa dose de cafeína. Dirigiu-se à pastelaria da esquina e pediu a bebida milagrosa que ingeriu avidamente mal a chávena pousou no balcão envidraçado. Nada. Nem o balde, sequer. Talvez o problema não residisse no cérebro, nem na alma, talvez o problema dele fosse a vida. A própria vida!

    Ai, esta ideia caiu-lhe dentro da cabeça como uma saraivada, como se Deus o corresse à pedrada para fora do Seu bairro (Põe-te a andar, palhaço! Não te quero ver por aqui, desaparece!) Esta foi dura. Segurou-se no balcão fincando os dedos da mão direita enquanto a esquerda lhe fugiu para trás das costas, tacteando o espaço sem encontrar apoio. No lugar onde estivera o balde era agora um abismo sem fundo aparente. O mar a bater lá em baixo, no escuro absoluto. Talvez inferno?

    Foi então que ouviu a voz vinda lá do fundo do seu ser - Então, pá? Não posso passar uma noite fora que ficas logo passadinho! Põe-te direito e deixa-te de fitas. Vamos, vamos embora, vamos à vida. 

    "Bom dia" disse ele "porque demoraste tanto? Não voltes a fazer isto. Por favor..." 

    Nem balde, nem esponja, nem abismo, muito menos inferno. 

segunda-feira, abril 22, 2024

O canto da sereia

     O vento fazia das árvores uma matilha de cães saídos da água que tentassem secar-se. Mais atrás, as fachadas dos prédios entristeciam perante a chegada do sol; vidraças sujas, papéis e jornais colados por dentro com pedaços de fita-cola, reclames de cores esbatidas, queimados, caixas de ar condicionado trepando paredes até onde a vista alcançava. Percebia-se a habitação do espaço, sentia-se tristeza.

    Apesar de tudo flores amarelas refulgiam como sóis, esperançosos apontamentos de cor.

    Os carros passavam, anónimos, mecânicos, como se fossem fabricados pela rua, como se a cidade tivesse a função de os produzir ininterruptamente. Um relógio mudo marcava segundos, minutos, horas, também aquele dia haveria de tornar-se um número anónimo riscado no calendário. Estranhamente nada daquilo lhe provocava qualquer tipo de sensação particular.

    Uma sereia cantou e nem assim as coisas se alteraram.

sábado, abril 20, 2024

Esperança

     Tinha a incómoda sensação de estar a ser lentamente mastigado por um bicho. Um bicho com problemas estomacais, ainda por cima. Tinha a incómoda sensação de ter sido entregue à bicharada; ele e os restantes companheiros de infortúnio, os deserdados da sorte ou da vida ou lá o que eram.

    Sentia que ninguém os poderia defender ou mesmo livrar daquela situação desesperante. O destino fora cruel. Nada iria alterar o rumo dos acontecimentos. Até que... 

    ... até que irrompeu naquele recanto escuro, onde ele e os companheiros eram lentamente mastigados, outro bicho. Maior, mais feroz, mais desvairado. Tão assustador, que o dos problemas estomacais vomitou tudo o que havia mastigado e ingerido e virando costas o deixou, a ele e aos seus pobres companheiros de infortúnio, ali abandonados: sujos, malcheirosos, vomitados, completamente desorientados.

    O monstro fugira. Chegou um novo monstro.

segunda-feira, abril 15, 2024

O Zé e o Midas

     Muitos remoques caem sobre o actual governo da República por ter prometido aquilo que, afinal, tinha sido oferecido pelo governo anterior. O espantoso choque fiscal anunciado por Montenegro na campanha eleitoral era, afinal, uma duvidosa habilidade retórica. Este canto de sereia terá levado muitos eleitores a depositar a cruz do seu voto na aliança de direita, permitindo-lhe desse modo a ligeira vantagem que lhe conferiu a vitória nas urnas.

    Ai Jesus, que Montenegro mentiu! Que desfaçatez, Montenegro enganou, ludibriou, foi habilidoso, quase maquiavélico... agitam-se os braços, rasgam-se as vestes, arrepelam-se cabelos em público; da esquerda à direita parlamentar todos apupam o primeiro-ministro. Como de costume, o eleitor, o Zé, o grande povo português, é poupado à reprimenda. 

    Quem orienta o voto tendo por base promessas meramente económicas recebe de troco, exactamente, aquilo que merece. Quem acredita que "tempo é dinheiro" e sabe que "não há almoços grátis", quem não é de direita nem de esquerda, é pragmático ao ponto de actuar sem conhecer, quem, enfim, anda neste mundo por interesse, não tem grande moral para se queixar quando as coisas não correspondem ao seu sonho dourado.

    Se analisarem bem o mito, o Rei Midas não passava de um imbecil ignorante.

sexta-feira, abril 12, 2024

O Jardim das Tentações

     Ver uma pintura de Bosch é como aprender o deslumbramento. Por vezes sinto uma vaga inveja dos que vivem em Madrid mas resolvo a questão com uma ida ao Museu Nacional de Arte Antiga. Graças a Deus temos ali As Tentações de Santo Antão, a pintura que, seguramente, mais tempo de reflexão me ofereceu ao longo da vida.

    Há quem diga que se trata da obra mais espectacular de Bosch mas O Jardim das Delícias não lhe fica atrás. Vi esse tríptico uma única vez durante não muitos minutos e tenho dele uma saudade imensa. Um dia terei de regressar a Madrid, a plantar-me na sala do "Jardim" durante o tempo suficiente que me permita algumas janelas de oportunidade para o olhar com sossego, sem muita gente a incomodar. Consigo fazer isso com facilidade no MNA, poderei fazê-lo no Prado?

    Nem sempre consigo mas, por vezes, tenho lampejos de lucidez que me permitem aproximar vagamente de uma linguagem "boscheana" nos meus trabalhos. Muitas pessoas estabelecem uma relação directa entre muitos dos meus desenhos e o mestre, o que me surpreende pois eu próprio não veria essa relação se não me fosse apontada. 

    Quero criar um Jardim das Tentações mas duvido da minha capacidade de concentração. Como faria Bosch para pintar os seus mostrengos? Que estranho raciocínio, que inesperadas associações, que inventividade! A vantagem é que, em caso de falência imaginativa, posso sempre copiá-lo!

segunda-feira, abril 08, 2024

Dar tempos ao tempo

     Quando imaginamos o futuro estamos a construir o passado, aquele tempo em que vivemos; este tempo. O tempo que passou.

    O tempo é como um novelo de lã, vamos puxando o fio e o novelo rebola. Custa-nos compreender, mas este fio tem um início só que não há como perceber onde começa e embora pareça inesgotável, o novelo haverá de acabar um dia.

    Não sei se o tempo acabará quando acabar a Humanidade. Não tenho a certeza da existência do tempo para lá de nós, para lá da vida humana. Quando restarem apenas baratas e ratazanas o tempo continuará a fluir? Imagino que sim, mas será um tempo diferente, um tempo rastejante. Um tempo irracional.

    Apercebo-me de que, um dia, haverá um futuro que não irá acontecer. Talvez o céu se abra para deixar passar os Cavaleiros do Apocalipse. Náááá, não estou a ver como possa acontecer tal coisa. 

    O fim da vida no nosso planeta, o fim do próprio planeta, serão acontecimentos insignificantes.

sábado, abril 06, 2024

Pode alguém ser quem não é?

     Isto de ser "português" é uma espécie de luta que não se faz; porque não vale a pena lutar-se por tão pouco? Para se ser "português" o melhor é deixar andar, deixar correr o marfim, lá mais adiante se verá, alguma há-de acontecer. Com um bocado de sorte pode ser que não me obriguem a fazer nada. 

    Agora vieram os desorbitados do hino e da bandeira, os fascistóides da extrema-direita, introduzir o conceito dos "portugueses de bem". Ora porra, querem lá ver que ser um "português de bem" implica fazer alguma coisa!? Mas parece que não, um "português de bem" é ainda mais passivo e babaca que o "português" simples, o célebre "português suave". Um "português de bem" não pensa (o chefe pensa por ele), não age (a menos que o chefe lhe solicite alguma acção) e trabalha mansamente (como trabalham os bois). Ama a pátria, o chefe e deus, acima de tudo e acima de todos. O "português de bem" fica a meio caminho entre um vegetal e uma poia.

    Depois há os que tentam diluir o "português" numa massa informe e confusa que são "os europeus". É misturar tudo numa coisa só (como se pudéssemos alguma vez partilhar um corpo social com os espanhóis!), amassar, amassar, amassar e esperar que, metida no forno e depois arrefecida sob o céu da Europa, surja uma coisa que se coma sem provocar o vómito. É pedir muito, talvez seja mesmo pedir demasiado.

segunda-feira, abril 01, 2024

Figura de urso

     Escrever sem saber qual o tema da escrita é uma acção um tanto arriscada; arrisca-se figura de urso (na melhor das hipóteses). Por isso mesmo hesito em continuar a frase que agora escrevo... registo três marteladinhas no teclado: "reticências", tento ganhar algum tempo. Nada feito.

    Sinto-me bué urso.

sábado, março 23, 2024

Luta de claques

 

Vindo de um painel de debate futebolístico, habituado à berraria e à canelada verbal, isentado da apresentação de argumentos válidos e verdadeiros, Ventura irrompeu com grande panache nos palcos mediáticos da política portuguesa. 

 

À imagem dos seus ídolos, Trump e Bolsonaro, trouxe o estilo arruaceiro, o insulto, a mentira e a meia-palavra, a falta de escrúpulos, a provocação repulsiva, enfim, tudo aquilo que muita gente acredita ser a essência do ser humano, se bem que na sua versão animalesca. E a coisa pega, a coisa faz sentido, mostrando-nos a verdadeira imagem da nossa sociedade. Ventura é o reflexo no espelho de um país que não é racista, nem misógino, nem fascista, um país que odeia vigaristas. 

 

Olhamos para o mundo todo e vemos muitos líderes como este, gente que põe a pátria acima de tudo e deus acima de todos, como se cada povo fosse uma claque de futebol embrutecida e pronta a ser orientada no ódio absoluto ao outro, ao adversário. Alguém lucra com isto.

 

Portugal entrou neste clube de povos ansiosos por derrotar e humilhar aqueles que não são humildes como nós, que não são crentes como nós, que não clarinhos de pele nem possuidores de sentimentos puros, que não são gente de bem. Se isto não fosse preocupante seria apenas motivo de escárnio. As classes sociais irmanam-se num único e grandioso objectivo: manter a pureza histórica da nação valente, glorificar a pátria imortal e os seus símbolos, ajoelhar, rezar e acreditar. Berra-se A Portuguesa em todo o lado como se fosse hino de estádio de futebol. 

 

Entramos na era da luta de claques.

quarta-feira, março 20, 2024

Dúvida acumulada

     61 anos de dúvida acumulada pagam o valor de uma pergunta apenas. Uma vida inteira até chegar o dia de agora para encontrar uma única resposta sem sequer ter formulado a pergunta que possa corresponder-lhe. 

    61 anos de dúvida acumulada são todo o espaço em volta de uma palavra solitária; uma palavrinha perdida, a ecoar baixinho na imensidão que é para mim a vida toda que vivo, coisa insignificante seja qual for a escala de medida com a qual tente compará-la. 

    Uma palavra a pulsar, coração da existência, a bombear sentido para a existência, para o mundo, para nós, palavra solitária, absoluta, arrasadora semente de vida.

    Julgo ouvir a palavra "amor"...

segunda-feira, março 18, 2024

Evangelista

     A desordem do mundo é paralisante. Animado por sentimentos cristãos, gostaria de poder contribuir decisivamente para reparar algumas malfeitorias, corrigir este erro ou  aquele, aproximar dali o Paraíso, nem que apenas mero meio milímetro. Mas, népias! Querer parar as injustiças é como esticar as mãos na esperança de com elas estancar a ventania. 

    Sente-se coisa inútil.

    Desanimado (pedindo desculpa a Deus) vira-se para o outro lado e volta a fechar os olhos. O sono cai  como se fora carga da Brigada Ligeira. É, agora, um penedo no silêncio absoluto do pinhal. Coisas informes, nacos de carne sanguinolenta, esvoaçam em redor da uma única flor carnívora, batendo asinhas de colibri disparam pingos de sangue a toda a volta, metralham as paredes. 

    Sorri no sono.

    Lê o jornal no écran do telemóvel, bebe um café (horrível, amarguíssimo) enquanto guarda o pacotinho de açúcar no bolso das calças. Olha sobre o ombro, imagina nazis por todo o lado. Regressa ao écran sem prestar atenção a nada do que lê. As palavras têm forma mas perderam significado. A mente  vagabundeia e é assim que abandona o Café da Esquina: pés no chão, cabeça  bem no ar. É preciso viver mais aquele dia e a morte não lhe faz falta.

    Lá do outro lado do mar morrem pessoas inocentes às pázadas, homens ímpios comandam as nações. O abismo abre-se como se abre um inferno, pior do que este mundo, milhões de seres vivos precipitam-se naquela ravina infinita. Aves, homens, peixes, a catástrofe é indescritível e a morte insaciável. Um evangelho do desespero vai-lhe crescendo dentro da cabeça. Cada dia uma nova página.

    Chegado ao local de trabalho veste a farda, coloca no peito a plaquinha com o nome, olha-se ao espelho e alisa para a nuca os cabelos que lhe restam. Dirige-se ao balcão. Por entre um sorriso elástico que lhe arreganha a taxa, entrega eficazmente o seu gritinho de guerra: Bom dia, em que posso ajudar?  

domingo, março 17, 2024

Quase

     Rio-me de tudo! Tudo me provoca espasmos descontrolados na musculatura, por todo o corpo. Contraio-me, ondulo, abro a boca em busca de uma golfada de ar e liberto um riso talvez nervoso. Não sei. Não sou um estudioso. Rio e pronto! Sabe bem.

    Por vezes caio num torpor incompreensível (pode acontecer após uma sessão de riso). Talvez seja uma paralisia provocada pela estranha sensação de estar quase a compreender uma certa coisa sem que seja capaz de alcançar que coisa é essa. Incomoda. 

    E, então, é assim. O meu corpo comporta-se como o de uma leão marinho, a ondular gorduras, a largar sons guturais e, de súbito, tudo pára, atravessa-me um último estertor antes de se instalar uma acalmia violenta. Paraducho.

    E é muito isto, do riso ao estupor vai a curtíssima distância de um pensamento incompreendido. Afinal não passo de um ser humano (ou perto disso).

quinta-feira, março 14, 2024

O pior inimigo

     Todos os dias me espanto mais um pouco com a nossa capacidade para sermos estúpidos. Quando escrevo "nossa" quero referir-me à sociedade que vamos construindo, refiro-me àquilo que somos como um todo. 

    Vivemos o quotidiano como se fôssemos zombies, mortos-vivos sociais. Sentimos extrema dificuldade em soletrar correctamente a palavra "so-li-da-ri-e-da-de" quanto mais em compreender o seu significado.

    Todos os dias me espanto com a forma decidida como a nossa espécie marcha em direcção a um abismo que cava cada vez mais fundo; um buraco imenso, misto de falésia e sepultura, que vamos abrindo, abrindo, abrindo, enquanto desejamos não o fazer. Temos (temos?) consciência plena de estarmos a contribuir inexoravelmente para o nosso próprio fim. Mas nada nos detém.

    O discurso não reflecte o pensamento, a acção é contrária ao desejo que a impele. Somos animais impossíveis de compreender. Deus deixou de nos proteger daquilo que desejamos. Esse era o Seu papel. Agora estamos entregues a nós próprios, entregues ao nosso pior inimigo.

    Enquanto a Estupidez for rainha absoluta não haverá ministério que nos valha.

quarta-feira, março 13, 2024

Silencioso

     Faz hoje exactamente um ano. Caronte vinha já deslizando, silencioso como ele só. Terá por mim passado no caminho, não me apercebi, não o vi, não o senti. Faz hoje exactamente um ano que chegou Caronte.

    Chegou cedo, encontrou-o a dormir. Não sei se falaram, se olharam nos olhos um do outro. Caronte levou-mo. Não mais voltei a ver o meu pai. Fica a saudade, enquanto Caronte não voltar, dessa vez para me levar.

segunda-feira, março 11, 2024

O bestunto

     A ascensão da extrema-direita nas eleições legislativas de ontem deixou-me a pensar no modo como nascem os monstros. Nascem como todos os seres, aparentemente frágeis e desprotegidos até que ganham dentuça, garras nas patas e passam a cheirar mesmo mal. Ontem o fedor entrou-me de rompante pela janela entreaberta.

    O mundo não acabou, apenas ficou ficou bastante mais feio e mais perigoso.

sexta-feira, março 08, 2024

Visão e premonição na vida de um cão

    A sensação reconfortante de que a nossa sociedade evolui continuamente é uma ilusão poderosa. Imaginamos uma espécie de Nirvana ao virar da esquina sem olharmos para trás, sem verificarmos se as coisas vão ficando nos lugares onde as deixámos.

    As conquistas alcançadas não são eternas. Os impérios, afinal, acabam sempre por cair. Aquilo que foi grandioso degrada-se, definha e perece. O poder está muito longe da solidez que aparenta ter de cada vez que se impõe e determina uma certa linha da realidade.

    A felicidade alterna com momentos de tristeza, à euforia sucede o marasmo, a depressão. Um dia tudo acabará. Imagino que fique o silêncio e que o silêncio permaneça.

domingo, março 03, 2024

Projectos

     Apercebeu-se de que nunca tivera aquilo a que se pode chamar "um projecto de vida". O que tivera sempre, o que continuava a enquadrar as suas acções, a sua vida, fora uma organização quotidiana orientada em função de projectos pontuais. Esses projectos permitiam-lhe planear o futuro doseadamente; por vezes chegava quase a perceber o que andava a fazer neste mundo.

    Na ausência de um "projecto de vida" limitava-se a viver uma vida feita de projectos. Até aquele dia não se pode dizer que se tenha dado mal. Se descontarmos uma ou outra fase menos feliz, tivera (e continua a ter) uma vida razoavelmente descansada.

terça-feira, fevereiro 27, 2024

Saudade

     Por vezes sinto-me tão próximo de qualquer coisa semelhante ao que imagino que possa ser a verdade que a felicidade dentro de mim quase ocupa algum espaço. É difícil de explicar por se tratar de uma sensação cá muito perdida nas profundezas do meu ser mas sei que é uma coisa real, de outro modo não me aperceberia da sua presença, da sua fisicalidade.

    Isto acontece de surpresa. Não posso dizer que acontece quando menos se espera pois estaria a mentir e a mentira não faz parte da minha prática. Quando sinto necessidade de mentir costumo ficar calado. Omito. Ou tento omitir, nem sempre resulta. A mentira é um embaraço. Mas, dizia eu, isto acontece de surpresa.

    É uma coisa que não se força, não se busca, deixa-se acontecer e é uma felicidade. É fugaz, é transitória; na maior das parte das vezes, conforme vem assim se vai, sem deixar vestígio nem registo. Fica apenas uma espécie de saudade. Acho que é isto, a saudade. Que a saudade é isto.

sábado, fevereiro 24, 2024

Escuridão

     Há coisas que servem apenas para existir. Não têm aparente utilidade prática. Limitam-se a cumprir o seu papel. Por isso mesmo encontram-se frequentemente em vias de extinção.

    Incansáveis, procuramos o espírito da coisa embora saibamos que a coisa não tem espírito, que a coisa, na maioria das vezes, se esconde dentro de nós.

    Cercados por alcateias de monstros ávidos de riqueza assistimos impotentes à desolação da paisagem.

quarta-feira, fevereiro 21, 2024

Tempo é dinheiro

   Os debates entre os candidatos às próximas eleições legislativas e os respectivos comentários foram um espelho do estado a que chegámos. Assistimos a uma sucessão de programas televisivos encarados como se se tratasse de mero entretenimento, espartilhados por espaços comerciais. Aquilo que os "bonecos" pudessem dizer foi sempre acessório e utilizado apenas para alimentar os inacreditáveis espaços de comentário que se lhes seguiam. Os "comentadores" avaliavam as prestações dos candidatos como se fossem mestres-escola vigiando o conhecimento, a postura e a atitude de alguns fedelhos.  

    Veio-me à memória a ideia pré-histórica de que se vendem candidatos como se fossem sabonetes. Nos dias que correm os candidatos ajudam é a vender sabonetes. Desde que nos transformámos em consumidores, deixando de ser cidadãos, que a publicidade se tornou uma espécie de Inteligência Artificial de mercearia. Acéfala e indiferente aos destinos da Comunidade e do Ser Humano, como é de esperar de uma IA, a publicidade transforma tudo em negócio e determina o foco e a duração dos tempos de atenção e concentração a que temos direito. O que importa eleger A, B ou C? Desde que o tempo continue a ser dinheiro estará tudo bem.

terça-feira, fevereiro 20, 2024

Seja

     Não quero que eles sejam como eu. Só não gosto que sejam como são. Que vivam como lhes for mais confortável. Por mim, tudo bem. Mas não me venham dar ordens nem me venham impor as suas leis merdosas.

segunda-feira, fevereiro 19, 2024

Ser como o cuco

     Reflectir sobre o tempo é uma actividade perfeitamente dispensável. Para quê matar neurónios a tentar compreender os segredos do tempo quando temos o relógio incrustado no interior da cabeça, no interior do peito, nas palmas das mãos e nas solas dos pés? 

    Transformamo-nos em relógios. Desde o dia em que nascemos até ao dia em que vamos a enterrar trabalhamos laboriosamente nesse sentido, o nosso sonho é virmos a ser mecanismos complexos e exactos. Se virmos bem, a cegonha não traz os bebés vinda de Paris mas sim de algures em território suíço. 

    Somos como os cucos: cúcú, cúcú! Deitamos a cabeça de fora a horas certas e fazemos um sorriso de circunstância. Avançamos e recuamos, ensaiamos uma rotina diária ordenada. Cúcú, cúcú. Havemos de nos transformar em algo que não nos dê o trabalho insano de pensar. Cúcú, cúcú.

    Os cucos insinuam-se, põem os seus ovos nos ninhos alheios e depois vão meter nojo para outro lado. Os cucos são como os fascistas e os fascistas são como os cucos. Os cucos põem ovos nos ninhos alheios, os fascistas põem mentiras nos cérebros alheios. Ovos de medo que, quando eclodem, trazem ao mundo o terror.

    Nunca pensei poder pensar o que acima escrevi. Ou ter-me-ei limitado a escrever estas palavras, de um modo mecânico, quase automático, numa atitude surrealista? As ideias que ficam expressas não eram minhas, andavam por aí a pairar e, quando escrevi o texto, desceram à Terra na única forma possível: esta. Exactamente esta!

    As ideias são como ovos de cuco...

domingo, fevereiro 18, 2024

Tempo é dinheiro

     Muito se tem falado do facto de os debates entre candidatos às próximas eleições legislativas serem curtos e apressados enquanto os espaços de comentários que se lhes seguem são prolongados horas a fio. Aí, os comentadores discorrem sobre o que foi e não foi dito naquele intervalo de tempo no qual os candidatos ocuparam o ecrã. E atribuem notas, como se fossem mestres-escola.

    Afinal de contas é tudo, debates e comentários, espartilhado por espaços comerciais opressivos que sufocam a palavra e o pensamento humanos.A Publicidade tornou-se uma espécie de Inteligência Artificial de mercearia, acéfala e indiferente aos destinos da Comunidade e do Ser Humano, que asfixia os nossos sonhos e os transforma em negócios, tabelas de Excel e outras coisas mais ou menos dispensáveis à nossa felicidade. O que importa eleger A, B ou C? 

    Desde que o tempo continue a ser dinheiro estará tudo bem.

sábado, fevereiro 17, 2024

A fronteira

     Ando um bocado desiludido. Que a decência não é o nosso forte enquanto sociedade, isso eu já sabia e, imagino, também tu já tinhas percebido. O que me deixa cabisbaixo é perceber, uma e outra vez, que a indecência não tem linha que lhe limite o nível mais rasteiro. Quando essa linha atinge o chão há sempre quem venha com a sua pá escavar o buraco que levará essa linha mais fundo e mais baixo e mais e mais e mais.

    Estará no Inferno a última fronteira da filha-da-putice?

sexta-feira, fevereiro 16, 2024

A dúvida

     Gostava de caminhar entre as pessoas. Gostava de as olhar discretamente. Uma vez por outra estabelecia contacto ocular mas desviava rapidamente a atenção para qualquer outra coisa, olhar era muito diferente de ser olhado.Talvez pudesse afirmar que amava os seus semelhantes, não tinha a certeza disso. Não absolutamente.

    

terça-feira, fevereiro 13, 2024

Um muro

     Para lá do muro havia uma multidão. Deste lado, seis ou sete guardas armados bastavam para manter as coisas no lugar. O muro era intransponível, estava-se em segurança. A vida podia continuar como habitualmente. A multidão não chegava a ser vista, era ignorada. Velhos, novos, bebés ou crianças, homens ou mulheres, multidão ignorada. Deste lado do muro havia muitos pobres e alguns ricos mas a fome era disfarçada, nalguns casos era até encorajada (como, por exemplo, entre os eremitas e os modelos de passerelle). Para lá do muro, muro coroado com arame farpado, a fome tornara-se um modo de vida.

    Rotina e desespero.

    O que fazer com aquela multidão? Ignorá-la. Sim, mas ignorá-la não faz com que desapareça. Não? Temo bem que não. Se olhar por cima do muro verá que a multidão não só permanece no local como aumenta a olhos vistos. (silêncio) Mande chamar o responsável pelos guardas.

quinta-feira, fevereiro 08, 2024

A arte de engolir sapos

    Já vi muita gente a engolir sapos. Uns gesticulam como marionetas e fazem estranhas caretas, outros vão largando impropérios incompreensíveis (pois quem consegue dizer algo que faça sentido com um sapo enfiado na boca?), outros ainda ficam hirtos como estátuas de mármore e vão metendo a coisa para dentro com ar de quem está aflito.    

     A arte de engolir sapos não está ao alcance de qualquer um. Para engolir um sapo e manter uma pose elegante é preciso estar-se bem seguro de si. É preciso saber que o sapo será digerido e, fazendo fé absoluta na Lei de Lavoisier, transformar-se-à numa outra coisa. A arte de engolir sapos implica ir pensando no futuro enquanto se digere o bicho. 

    E, mais tarde, o futuro chega e o sapo é já uma outra coisa.

  

quarta-feira, fevereiro 07, 2024

Notas soltas

     Começou o arraial dos debates televisivos da campanha para as eleições legislativas de 10 de Março. É um estranho espectáculo. 

    Tento compreender um pouco melhor a obra de Bosch. Quanto mais atento nela mais me convenço de que o mestre se divertiu muito, imaginando monstros patuscos num mundo habitado por monstros a valer. A pintura de Bosch é uma espécie de higiene. 

    Ter a percepção clara da grandeza de uma ideia deve ser um fardo pesado. Ou se guarda bem guardada, ou se perde ou, na pior das hipóteses, tenta-se partilhá-la. Feita a partilha resta a espera e, finalmente, o embate. Será coisa violenta? 

    Observo os velhos (os mais velhos, para ser preciso) na tentativa de perceber o que me espera num futuro não muito longínquo. Vejo-os mas não os sinto. O processo é lento. Talvez um dia lá chegue.

quinta-feira, fevereiro 01, 2024

Trabalhar como Adão

    Tenho a sensação que há em Portugal uma ideia perversa relacionada com o trabalho. Entre nós, trabalhar está associado a sofrimento. Se não sofres com a actividade que desenvolves, então é porque aquilo que fazes não pode ser considerado na categoria de trabalho. Trabalho é sinónimo de sofrimento.

    Estará esta perversão relacionada com o mito da expulsão do Paraíso? Afinal de contas Adão foi condenado a sofrer para o resto dos seus dias, regando o solo com o suor do seu rosto num esforço infinito para sobreviver. Ninguém o mandou trincar o Fruto Proibido. 

    Assim, quem não sofre com o trabalho não é flor que se cheire por não honrar o desgraçado que serviu de semente à espécie que somos. O verdadeiro descendente de Adão é aquele que pena neste mundo como se penasse no Inferno.

quarta-feira, janeiro 24, 2024

O livrinho

     A vida está cheia de coincidências que, por serem coincidências, nos parecem estranhas quando delas nos apercebemos. Na segunda-feira passada escrevi o post anterior a este e referi certos contos populares portugueses que encontrara algures nos recantos da net (deixei o link). Na parte da tarde deparei-me, por mero acaso e em circunstâncias nada ordinárias, com um livrinho intitulado Contos Populares que contém vários dos contos que havia encontrado no tal site.

    (Noto que, no parágrafo anterior, escrevi em itálico a seguinte sequência: post-net-link-site... chiça!)

    Como sou pessoa de hábitos, li com maior atenção o objecto de papel. Fiquei arrepiado com alguns dos contos, não porque fossem assustadores na forma mas sim no conteúdo. Historinhas contadas com candura e simplicidade porventura exageradas, continham (contêm) passagens de uma crueza capaz de revolver as tripas a um cidadão contemporâneo tal o grau de misoginia e/ou racismo ali atingido.

    A questão que coloquei no final do post anterior mantém-se. 

    Qual é a questão? É ir lá ver, está já, já aqui mais em baixo.

segunda-feira, janeiro 22, 2024

Herança cultural

    Leio alguns Contos Populares Portugueses, recordo um ou outro de quando era criança. A sensação que fica é a de que vivi noutro planeta.

    Os ditos contos são, invariavelmente, narrativas incompreensíveis para a esmagadora maioria das crianças dos dias de hoje. A linguagem e os ambientes em que decorrem, não fazem qualquer sentido e muitos deles colocam as personagens em situações de violência latente lidando com a morte de um modo muito pouco acanhado. 

    Imagino as criancinhas, habituadas a ambientes virtuais, colocadas perante narrativas que implicam familiaridade com o ar livre e o mundo dos bichos verdadeiros. As fábulas fazem mais sentido se se conhecerem os bichos que, humanizados ou não, as protagonizam. Não vejo como se poderão conjugar as coisas.

    O que fazer com esta herança cultural? Deita-se no lixo, utiliza-se tal qual está ou tenta-se a reciclagem? Fico a pensar no assunto.


domingo, janeiro 21, 2024

O mostrengo

  De vez em quando lá aparece Cavaco Silva a perorar sobre os malefícios de toda a governação que não a sua. Quem me conhece sabe o desprezo que nutro por esse ser vivo. Admito que seja exagero meu, que não lhe faça justiça, sei que, este quase ódio, não é coisa que se cultive assim, ao deus-dará e com nítido regozijo. Confesso: dá-me prazer achincalhar esse miserável aprendiz de Nosferatu (talvez ele nem saiba quem é Nosferatu).

    Como tal, de quando em vez (muito influenciado pelas aparições do mostrengo) vêm-me à cabeça certas ideias que preferia não ter. Ainda aqui há 10 minutos registei no meu caderno este quase-poema: "O cavaco não desiste de nos assombrar por trazer ainda aquele sapo entalado. Foi obrigado a engoli-lo mas não o consegue cagar. Coitado."

    E pronto. Está uma bela tarde de Domingo, soalheira mas fria que racha! O mostrengo irá regressar em breve. Ele avisou.

segunda-feira, janeiro 15, 2024

Pressentimento

     Os dias sucedem-se como se os respirasse. Como se no céu batesse um coração azulado, como se no ar transpirassem pesadelos ainda por sonhar. Sinto minguar a confiança depositada na arte que produzo; mingua sem razão e sem aviso, vejo-a a desaparecer no fundo de um poço sem fundo.

    Porquê, como pode acontecer tal coisa?

    Talvez o expliquem as linhas definidas pelo vôo dos pássaros ou as inusitadas formas das nuvens que dançam no peito do céu ao ritmo do coração azul que nele vai batendo. Ainda ontem me senti pleno de fé, mas hoje...

    ... hoje olhei mais o chão do que repousei nos ares o meu olhar, pressenti pesadas aves presas a ramos de árvores por desenhar, aves de morte rodopiando numa espiral em direcção ao sol, na direcção de Deus, do olhar divino, abutres que sobem, sobem, sobem, até que são já pardais, são moscas, mosquitos, pontos projectados na perdição dos dias que se sucedem como se os respirasse.

    Como se no céu batesse um coração azul rodeado de fantásticas nuvens disfarçadas de sonhos por sonhar. E eu sinto a confiança que regressa. Volto a acreditar na minha obra, mais do que acredito naquilo que penso que sou, no que fui, no que serei.

    Sei que uma vez chegado ao meu destino serei nada. Ficará aquilo que fiz, nunca nada quem eu sou, meros vestígios de quem fui.

quinta-feira, janeiro 11, 2024

Da chatice

    Ora porra! Às vezes apetece mesmo mandar certas pessoas para o cara...ças! Não importa se é uma pessoa amiga, desconhecida ou acabada de encontrar em plena rua, quando o impulso chega é difícil de controlar. É que ele há pessoas mesmo chatas (por vezes até mais chatas do que eu) que têm de ter sempre a última palavra. E não páram de responder uma e outra vez, mesmo quando já desarmámos e lhes concedemos a vitória naquele despique de pica-miolos. 

     Essas pessoas nunca se satisfazem com a chatice semeada. Como são MESMO chatas, têm sempre mais e mais com que arremedar os outros, como macacos que atiram merda enquanto houver merda por perto. A diferença é que a merda pode acabar aos macacos.

    Vou tentar ignorar os chatos... o pior é que não tenho a certeza de ser capaz de resistir... sou um chato do caraças.

sábado, janeiro 06, 2024

Saudade

     Também te acontece, sentir uma tristeza tal que as lágrimas te aquecem um pouquinho os globos oculares? Quando recordas um familiar, um amigo, alguém que te falece, essa tristeza, também a sentes? 

      Fico a reflectir se o pesar que sinto é por eles se por mim. E não consigo separar-nos: eu deles, eles de mim, como se a tristeza nos contornasse num abraço de piton mas apertasse só um bocadinho. Como se apertasse apenas o suficiente para que nos seja impossível separar aquilo que somos daquilo que já fomos. 

      E é isso que é triste. Irmos assistindo à transformação da vida em morte.

quinta-feira, janeiro 04, 2024

Cantiga de escárnio

     És o gajo das falas impossíveis, mestre das caganitas; nem com a navalha aberta, nem com lábios de palhaço, muito menos calcando saltos altos, poderias assustar a criancinha! Vai, regressa à caverna que te pariu. Faz-te sombra e desvanece.

terça-feira, janeiro 02, 2024

Aquele gajo é esquisito

     Corria o primeiro dia do ano e ele compreendeu. Compreendeu que a Humanidade continuava a pagar o Pecado Original. Que a História mais não era que nova versão da uma velha narrativa: ascensão e queda, como na narrativa de Lúcifer ou na de Ícaro. Compreendeu que, mais uma vez, caminhávamos em bloco na direcção do abismo. Como sonâmbulos, pior! Como zombies!!!

    Compreendeu que a vingança de Deus não terá nunca o seu epílogo. Que infinita é a vingança de Deus e não o Universo. Compreendeu que, uma vez extinta a nossa civilização, uma outra começará a emergir, lentamente, dos escombros. Uma civilização amnésica, como é a nossa, que haverá de repetir todos os erros, todas as maldades, todas as coisas estúpidas que estão hoje a levar-nos no caminho da desgraça.

    Sentiu um frio inexplicável. Sentou-se e pretendeu falar, explicar a todos os que se cruzavam com ele aquilo que havia compreendido. Sentiu-se esquisito. Compreendeu o papel dos Profetas. Resolveu ficar calado. Não aspirava à tolice, muito menos ao martírio. Resolveu ficar calado.

sábado, dezembro 30, 2023

Votos de Ano Novo

     Passeando por este blogue leio uns quantos textos escritos por estes dias, os dias do fim. Do fim do ano. É curioso verificar a variedade de tons com que foram escritos se bem que, sendo os dias do fim (do fim do ano) o tema principal, talvez fosse previsível que dissesse sempre mais ou menos a mesma coisa. Não é isso que acontece.

    Reflectir sobre o Ano Novo tanto pode acontecer nos últimos dias de Dezembro como nos primeiros dias de Janeiro. Por alguma razão não me lembro de o ter feito em qualquer outro mês dos doze que compõem um ano inteiro. É uma reflexão algo nostálgica, um pouco esperançosa. Tem a ver com aquilo que passou ou com a expectativa sobre aquilo que virá a passar; o passado e o futuro (poupo nas maiúsculas) enfiocados um no outro, como numa ilustração do Kama Sutra.

    Nunca me correram muito bem as profecias (e se gosto de as fazer!) embora me aperceba frequentemente de coincidências bizarras que poderia interpretar de uma forma de certo modo apocalíptica. Talvez por isso seja mais pessoa de aguardar do que de correr em direcção a algum desejo incontrolável.

    Assim sendo, aguardemos pelo que nos traz 2024. Com toda a serenidade possível.

sexta-feira, dezembro 29, 2023

Anjinhos

  Embrulhadas, mortas, como rebuçados amargos, são carregadas como se de penas fossem feitas; não doesse tudo isto, não doesse como doem pregos espetados nos olhos, pregos espetados nos ouvidos e nos pés, dir-se-ia que o embrulho transportava asas de anjo; os anjos não têm asas; asas têm os pássaros e os caças e os bombardeiros e os mísseis têm pequenas asinhas que lhes estabilizam o vôo trazendo a morte com a exactidão possível; no embrulho são transportados danos colaterais, já sem sonhos, já sem vida, já sem dor; os embrulhos trazem dentro pequenos corpos que nunca chegaram a imaginar o futuro. Nos embrulhos vão anjinhos.

sábado, dezembro 23, 2023

Não Natal

     Talvez seja esta a ocasião perfeita para desejar Bom Natal e dizer coisas fofinhas, como é de bom tom dizerem-se nesta quadra natalícia. Se não for agora quando poderei fazê-lo? Há a opção de não o fazer, de todo. Afigura-se-me uma bela opção.

    No meio da tormenta que é a existência da humanidade de um modo geral e da vida de cada sociedade, de um modo particular, torna-se, no mínimo, pouco correcto o discurso natalício. Soa mesmo a hipocrisia. Além do mais, a maioria dos seres humanos não faz a mínima ideia de quem seja o Menino Jesus ou, se faz, estará indiferente à personagem.

    Resumindo: a agitação que por estes dias nos faz correr mais do que o habitual e nos leva a amontoar nas filas dos supermercados é uma coisa muito nossa embora tenhamos a sensação de que todo o mundo sente o Natal. Não sente. E nós, sentimo-lo verdadeiramente?

sexta-feira, dezembro 22, 2023

Guito

     O dinheiro, vil metal, o guito! Vive-se sossegado enquanto a coisa é apenas horizonte e estrelinhas brilhando no imenso firmamento. Entra uma moedinha na ranhura que faz cantar o bonequito deslavado e logo a máquina começa a funcionar. A música até pode ser roufenha, os movimentos mecânicos e desconexos, mas é coisa paga, logo é coisa séria, coisa que vale a pena.

    O dinheiro, o guito, tem aquela estranha capacidade de nos fazer sorrir ao contrário. Endurece-nos o coração, faz de nós gente esperta. Até ali estávamos absolutamente descansados. Agora não. Agora há guito lá ao fundo, atrapalhando a linha do horizonte que deixa de ser recta.

    Ah, o guito, o guito.

terça-feira, dezembro 19, 2023

Noite

     Porque raio, porque carga d'água, por que displicente tempestade haverias de deixar cair os teus queixos a seus pés! Princesa nocturna. A chuva fazia cócegas no dorso da montanha, navalhas geladas enchiam-te as mãos com vontade de morrer. E matar. Sonho nenhum poderia resgatar-te, nada neste mundo seria capaz de aplacar o fogo que te consumia o pássaro fechado na gaiola. No teu peito. Esta vida não é nada. O amor não vale tudo. Terrível princesa, noite tenebrosa.

quinta-feira, dezembro 14, 2023

Coisas boas

    As coisas boas ficam sempre no futuro que o presente é vivido com alguma dor e um pouco de amargura. "Amanhã é que vai ser!" pensavas tu antes de te roubarem o que é teu. Agora, amanhã já não vai ser, amanhã já foi, amanhã irá sempre fugir-te um dia à frente daquele que tu vives. Eu fui ver o Futuro e já lá não estamos.
 

quarta-feira, dezembro 13, 2023

Gente do meu bairro

     Ficam coisas velhas, com paus espetados para dentro e panças rotundas que lhes balançam sobre as pernas finas. Fomes antigas permanecem, fomes que não morrem, pequenos mundos, minúsculos pensamentos. Imaginam ser homens. E têm desejos confusos, desejos como coisas vivas, desejos viscosos que serpenteiam entre os prédios, que deslizam pelas ruas e acabam, cansados, deitados na noite escura.


segunda-feira, dezembro 11, 2023

Desenhar

     Admito que a distinção entre passado, presente e futuro seja ilusória, como afirmou Einstein. Tudo bem, regemos a nossa vida em função de uma ilusão. Isso faz da nossa existência algo que se enquadra na categoria do maravilhoso.

    Acreditar no tempo como algo contínuo, algo que se perde e não repete, que se alcança e se espera, é como acreditar em Deus. O que nos leva ao lugar de Cronos, que sempre lá esteve, está e estará, provavelmente com Einstein sentado ao seu lado.

    Admiro o esforços dos cientistas (ah, os físicos!) na sua tentativa de encontrar modelos capazes de nos oferecer um vislumbre que seja dos mecanismos que regem o Universo. Talvez a inteligência artificial venha a permitir que se perceba alguma coisinha mais. Ou então não. 

    Fascinam-me as tentativas dos poetas de encontrar uma ordem na disposição de palavas capaz de nos oferecer uma emoção suficientemente forte para gerar em nós a sensação de existência.

    Pessoalmente, faço desenhos.

domingo, dezembro 10, 2023

Expedições maravilhosas

     Procuro coisas belas nas páginas de livros que releio. Encontro o que procuro embora não fosse capaz de antecipar o que encontro. Não tenho memória para lá dos títulos. As páginas que folheio são como selvas, como desertos, são como montanhas cujos picos escondidos pareciam inacessíveis antes de escalá-los. As maravilhas encontradas lá estavam, lá continuam enquanto o tempo não desfizer aquelas páginas.

sexta-feira, dezembro 08, 2023

2 comentários

  1 - a propósito da crónica de Ana Cristina Leonardo no Ípsilon (suplemento do Público) do dia de hoje com o título "Isto não vai acabar bem".


    Lá no fundo, tudo na vida se reduz à transmutação. Transmutamos qualidades humanas em palavras ou conhecimento em números, Tudo tem uma equivalência qualquer que pode ou não depender de uma verdade específica. Este mundo é uma confusão, repleto de narrativas mais ou menos globais, verdades mais ou menos pessoais, ideias e ideais, tudo disparado de todos os lados e nós, cada um de nós, constantemente apanhados neste fogo cruzado, tentamos perceber se a realidade existe. Ou se poderá ser, também ela, transmutada. Isto não vai acabar bem

https://www.publico.pt/2023/12/08/culturaipsilon/cronica/nao-vai-acabar-bem-2072541

    2 - a propósito da crónica de António Guerreiro no Ípsilon (suplemento do Público) do dia de hoje com o título "Infelizmente «radical»".   

 
    A propósito do Livro de Recitações de hoje, uma palavra: alquimia! Ou talvez outra: magia! Ou ainda... como expressar numa palavra a capacidade de espremer dados recolhidos com a finalidade de proceder à avaliação de algo, espremê-los bem espremidos de modo a que deles brote um número? O mundo contemplado do alto de uma folha de excel é um mundo muito mais ordenado. Retire-se-lhe o mistério e a poesia, só os números poderão salvar-nos.

https://www.publico.pt/2023/12/08/culturaipsilon/cronica/infelizmente-radical-2072638

     Bom feriado (Hoje é feriado porquê? Tem qualquer coisa a ver com a Virgem...?)


quinta-feira, dezembro 07, 2023

Eternidade

     A Eternidade parece-me um período de tempo cada vez mais escasso. Quando tento pensar em Eternidade projecto no futuro a minha pequena capacidade de a imaginar. Não sei como é contigo mas, na minha cabeça, a Eternidade existe para a frente, o que ficou para trás parece já não lhe pertencer.

    "Para a Eternidade", dizemos. A Eternidade que se amanhe e arranje tempo e espaço para tudo o que a Humanidade lhe oferece. Não lhe cobiço a tarefa, oferecemos-lhe muita porcaria misturada com coisas boas. 

    Tento imaginar uma figura alegórica para a Eternidade. Decerto será uma mulher a representá-la do mesmo modo que mulheres representam a Liberdade, a Justiça, a Esperança e por aí fora. Decerto que uma busca no deus-google me mostrará exemplos numerosos. Mas não me apetece fazê-lo. Se tiver que ser imaginarei uma Eternidade muito minha, só minha.

    Por falar em Eternidade, noto que a minha "play-list" começa a parecer-se seriamente com um cemitério.

segunda-feira, dezembro 04, 2023

Garrafas nas ondas

     Com o Tempo a passar-me por cima da cabeça (de mãos dadas com as nuvens) olho o horizonte. Uma linha perfeitamente recta separa o céu do mar que lhe reflecte a cor, fazendo com que a translucidez solidifique, cinzenta. Não há barcos nem navios nem baleias nem golfinhos. Apenas aquela imensidão abruptamente interrompida pelo limite do que a vista alcança.

    Deixo vogar as ideias, garrafas atiradas às ondas com secretas mensagens de amor, de desespero, mensagens que são sonhos, outras pesadelos. Ali fico a vê-las que se afastam levadas pela força do mar. Imagino-as a vogar mar alto adentro, perdidas, para os confins do mundo. Irão elas juntar-se ao Sétimo Continente?

    Assim é. Sentado na areia húmida imagino-me diferente do que sou mas não consigo retirar esse outro eu deste mundo sujo. Olho distraído as ondas que desenham rendas de frol a dois metros dos meus pés. É o mundo a hipnotizar o que aqui está sentado na esperança de libertar o outro que nem ele nem eu sabemos se existe realmente.

    É claro que não! É claro que sim! É evidente, talvez.

sexta-feira, dezembro 01, 2023

Simulacro

     O pato tinha muita personalidade. A bengala ajudava a compor o figurino e, quando passou por mim, tirou o chapéu educadamente desejando-me: "Tarde:" Falou baixinho, naquela voz de cornetim, e lá passou. "Tarde." - sussurrei eu. Não sei para o pato se para mim, sussurrei.

    Mais adiante pairava o que me pareceu ser um dos fantasmas de Buzzati. Resolvi passar de largo. Não que tivesse medo da coisa, apenas um certo respeito desconfortável. Como se levasse na alma botas apertadas. Lá segui. O vento sibilava um certo friasco aos meus ouvidos. Continuei deslizante.

    Este mundo é bem melhor que o outro. Bichos vestidos, fantasmas sólidos, humanidade ausente e eu por cá, a passear-me. Não fosse a chuvinha persistente, o ventinho desagradável e uma cadela velhinha que agora habita no andar de cima, diria que isto aqui é o Paraíso. 

    Mas não é.

quinta-feira, novembro 30, 2023

A ronda das sombras

     O que fazemos na noite por lá fica. A rondar. 

    Raiando o sol tudo muda. Vão-se os fantasmas a descansar, a poesia das sombras mais densas mistura-se com o mesmo ar que tanto envolve as flores como a sucata enferrujada. Os gatos deixam de ser leopardos e as ambulâncias recuperam o seu aspecto de veículos em movimento. Ou parados, atirando luz em volta, como ondas provocadas pela queda de uma pedrinha bem no meio da piscina deserta.

    O dia regressa e as coisas que fizemos durante a noite, lavamo-las no duche com sabonete Rexina. Por exemplo. É a luz, o efeito da luz. As coisas transformam-se tanto quando lhes bate a luz! Ou quando a luz as acaricia ou as submerge ou lhes empresta cor. 

    O mundo muda tanto.

    "É como da noite pró dia" dizemos nós quando queremos mostrar um abismo, uma diferença profunda como um abismo, um alto contraste, um objecto em movimento por oposição a um horizonte fixo, os mecanismos do tempo accionados pela deslocação do objecto. Quando ele se vai resta o horizonte. Fixo, fora do tempo.

    Desce a cortina da noite. Regressa o desejo, regressa o segredo, regressam as sombras, os leopardos, todas as coisas que rondaram por ali enquanto o sol fazia o seu trabalho. É tempo de voltarem a existir.

sábado, novembro 25, 2023

Qualidades indispensáveis

     O segredo, dizem, é não sentir vergonha. Afirmar o necessário para o controle da narrativa do momento. Introduzir novos dados surpreendentes sem que o sangue inunde as faces do declarante. Ser capaz de sorrir quando se tem vontade  de morder até as pedras da calçada. Ter nos inimigos amigos e vice-versa, conseguir que tudo pareça uma única coisa: a vontade de Deus!

    Finalmente: ser Deus.

sexta-feira, novembro 24, 2023

O sentido da vida

     Cada dia cavamos mais fundo o poço do ódio, Cavamos, cavamos e voltamos a cavar, coveiros do bom senso, inimigos de nós próprios. O poço nunca nos parece demasiado profundo. Não sabemos para que serve tal buraco mas isso não impede que continuemos a cavar.

    Por vezes tenho a sensação de que o amor nos envergonha. Talvez por não ser um sentimento suficientemente macho? Será um exclusivo masculino, este de ter vergonha de proclamar alto e bom som que se ama alguém? Será mais fácil declarar amor a uma coisa? Amor ao dinheiro...

    Um dia iremos cansar-nos de cavar o tal poço mas estaremos tão fundo que regressar à superfície será igual a ser Sísifo. Um Sísifo que no lugar da pedra empurra a Humanidade poço acima para logo ela rolar poço abaixo.

    Talvez seja essa o sentido da vida.

quarta-feira, novembro 22, 2023

Porcarias

     O mundo é uma pocilga mas nós não temos de ser porcos. O sentido da vida de cada um de nós poderá ser, precisamente, a acção de manter limpo o espaço que habitamos. Estabelecer e cumprir esse objectivo é alcançar a Glória em tempo de vida. Viver cada dia de vassoura na mão a varrer porcaria e a acertar cacetadas nas trombas dos filhos-da-puta, eis uma bela forma de existir!

    Normalmente teria um certo prurido em classificar este ou aquele como sendo um filho-da-puta mas há dias em que a filha-da-putice é tão óbvia e o filho-da-puta tão evidente que o cabo da vassoura voa direitinho à dentuça do bicho. E é um prazer sentir a dentuça a estilhaçar-se, os dentes a voarem em todas as direcções, um ou outro a engasgar o pedaço de asno.

    Um gajo esforça-se por ser bonzinho mas ninguém está livre de se transformar num monstro de um momento para o outro. Já os filhos-da-puta não deixam de o ser só porque sim ou porque perderam a dentadura no caminho.

    O mundo é uma pocilga mas nós não temos de ser porcos.

segunda-feira, novembro 20, 2023

O mundo a dar as voltas do costume

     Não sei também te acontece, difuso leitor, mas, por vezes, sinto uma estranha compulsão pela leitura. Estou a ler qualquer coisinha (neste momento o "Pequeno Almoço de Campeões" de Kurt Vonnegut) e começo a sentir apelos externos, cantos de sereia desconcertantes que me levam a abeirar de prateleiras repletas de livros.

    Hoje lá me cheguei a uma prateleira da biblioteca da minha escola. Ia só verificar se tinham "A Peste", de Camus. Tinham. Dois exemplares e tudo. Foi então que ouvi um sereia a cantarolar ao longe. 

    Como na biblioteca as coisas estão arrumadinhas, ali perto espreitava na minha direcção "A Guerra das Salamandras" de Karel Capek. O nome do autor é-me familiar por ser o criador do conceito de robot ou coisa que o valha. Tendo dez minutos perdidos no tempo não resisti a folhear a coisa e ler um pedaço.

    Não tinha completado a segunda página já um bando de sereias serigaitas me enchia a mona de cânticos irresistíveis. Ai, ai, eram tantas e cantavam tão melodiosamente! Fechei o livro com a mente ainda a palpitar, passei os olhos pela sinopse e... punfas, toma lá que já almoçaste! Lá estava escarrapachado que Capek foi uma grande influência para dois ou três escritores mas só fixei o nome de um desses eventuais discípulos: Kurt Vonnegut!

    Pronto. Estava dado o laço. Nunca li Capek mas sei que, a partir de agora, me será impossível não o fazer.

domingo, novembro 19, 2023

Adversários

     Continuamos a olhar para os blocos políticos adversários daquele onde estamos incrustados como sendo inimigos. Adversário não é obrigatoriamente sinónimo de inimigo.

    As acções dos nossos adversários são vistas como manobras baixas, subreptícias, coisas próprias de cobras com duas patas, de invasores do Paraíso. Ninguém os convida para a nossa festa da Democracia. A festa é nossa, muito nossa, os outros não serão nunca capazes de interiorizar esta complexa coreografia do Bem que nos orgulha e caracteriza.

    Eles são parasitas. Nós somos virtuosos. Eles são maus, nós não somos. Adversários, sim, mas não obrigatoriamente inimigos.

segunda-feira, novembro 13, 2023

Painel central

     O título é "O Jardim das Notícias". Uma sucessão de planos daqui até à linha do horizonte, uma paisagem essencialmente urbana que vai mudando à medida que se afasta do observador. Prédios estapafúrdios, aglomerados de personagens concentradas nos telemóveis que seguram numa mão enquanto que, da outra, deixam pender objectos distraídos.

    Há jardins e animais (essencialmente porcos, abutres, crocodilos, talvez girafas) as plantas germinam vigorosas, árvores têm frutos que são cabeças de crianças. As figuras têm aspectos estranhos, algumas são híbridas, quimeras tecnológicas resultantes do cruzamento entre objectos e carne viva. Há um tom geral de uma certa jovialidade, quase boa disposição.

    Uma repórter tem um microfone erecto na zona do sexo, várias personagens vestidas com camisa e gravata aglomeram-se em volta do que parece ser uma grande cabeça e comem-lhe o cérebro à colherada. Um homem de óculos escuros olha-nos por sobre o ombro sorrindo de forma enigmática. 

    É uma paisagem com ambiente eufórico, um tanto confuso.

quarta-feira, novembro 08, 2023

Mais que fazer

     Da felicidade ao desânimo vai apenas um degrauzinho, pequenino. Fico a matutar na possibilidade de nos sentirmos desanimados e, ainda assim, sermos felizes. Penso no assunto durante 5 longos minutos e chego à conclusão de que sim, porque não? Há quem sinta felicidade no desânimo, uma doce variação do masoquismo, o que é muito diferente de se estar desanimado mas, ainda assim, feliz da vida.

    Isto começa a ficar confuso. Se calhar 5 minutos não bastam para se poder concluir o que quer que seja acerca de tão melindrosa questão. Mas, olhando para o relógio, sinto que não tenho tempo a perder com especulações feitas no espaço límbico da imaginação. Preciso de agir, realizar coisas concretas, realizá-las com os pés bem assentes no chão que é para isso que os homens andam neste mundo. E eu sou um homem, isso traz-me notórias responsabilidades.

    Como tal, amigo leitor, neste momento não sei se estou desanimado se estou infeliz, se são coisas opostas, se podem conviver no nosso peito, não sei. Tenho mais que fazer.

domingo, novembro 05, 2023

Reflictamos

     A felicidade é uma cena a dar para o esquisito. A meio caminho entre a euforia e a boa disposição, a felicidade irrompe no nosso peito quando menos se espera. Não é coisa que se explique. Resta-nos, por isso mesmo, a possibilidade de reflectirmos um pouco sobre tão agradável sensação.

    Como se manifesta a felicidade? Como a percepcionamos? Como podemos nós espalhar no mundo, nos corações alheios esta coisa boa que nos preenche o coração? Vão-se lá saber respostas aceitáveis para tão variado conjunto de vaporosas questões. Como propus no parágrafo anterior: reflictamos.

    Reflictamos, então.

sexta-feira, novembro 03, 2023

Ecos do passado

     Em conversa com um amigo recordei esta manhã duas expressões que muito ouvi na minha infância mas que o tempo se encarregou de esconder. 

    A primeira era utilizada pelo meu avô materno, o Avô Mário. Frequentemente designava por "pedaço d'asno" aqueles ou aquelas que por qualquer motivo lhe desagradavam. Que magnífico insulto! O alvo do seu desprezo era de tal ordem que nem sequer a asno completo poderia ser comparado. Apenas a um pedaço, não mais que uma pequena parte. Lindo.

    A outra expressão que veio aquecer-me a alma e recordar os tempos em que ainda usava calções por imposição e nunca por opção era muito utilizada pelo meu pai, esta normalmente aplicável em discurso directo: "vai-te encher de moscas" era o dito. Outro insulto insidioso. Quem ou o quê se enche de moscas? As cavalgaduras e os montes de merda! Logo, desejar ou mesmo ordenar a alguém que se encha de moscas corresponde a considerar que esse alguém tem algum tipo de parentesco com animais de pêlo ou com matéria fecal.

    Rimo-nos moderadamente. Penso poder afirmar que estas memórias nos proporcionaram bons momentos, a mim e ao meu amigo.

terça-feira, outubro 31, 2023

Ou o caraças

     Estou cansado de notícias. Começo a duvidar perigosamente da necessidade de me manter informado sobre questões da actualidade. Sinto-me massacrado pelos noticiários constantes e repetitivos, pelos assuntos do dia que geram milhentas opiniões, pelos discursos assertivos produzidos por cretinos mediáticos, é uma canseira e um desperdício.

    Vejo-me a evitar informação. A pretender ignorar. Sinto-me cheio, a abarrotar de inutilidades, a transbordar palavras vazias. Quero parar de ver, ouvir, ler... quero parar... "Ok, então pára ou o caraças", pensas tu, lúcido leitor. É isso mesmo. Aceito o teu conselho. Vou parar. Ou o caraças.

    Temo transformar-me numa espécie de animal escondido no fundo da toca, a olhar a luz difusa que vem lá de fora. A imaginar que raio de coisas estranhas e dilacerantes acontecem no mundo enquanto temo saber que coisas serão essas. 

    É como se estivesse num buraco.

    Ou o caraças.

segunda-feira, outubro 30, 2023

O Marquês cagado

      Não venho sincronizado com a sorte. Ao longo do caminho vou perdendo alguns minutos que julgava merecer. Doem-me os joelhos, correr é complicado e o tempo vai-me fugindo. Ora foge numa carruagem ora se dissolve num apito. Os túneis tornam-se buracos agressivos.

    Na estação de metro uma foto mostra o Marquês com merda branca a escorrer-lhe da testa. Sei que a estátua está lá fora, talvez sobre o lugar onde me encontro. Passo-lhe por baixo com alguma frequência misturado na barulheira do comboio. Quando vejo a estátua "ao vivo" não me lembro de reparar na merda que tem na testa. Talvez a chuva a tenha lavado e o Marquês esteja, agora, limpo. Ele e o leão. Talvez estejam limpos.

    Mas a foto está sempre ali. O Marquês cagado, na estação a que empresta o nome. 

    Imagino um tempo distante em que a cidade seja então uma ruína; a estátua desapareceu mas a foto no túnel permanece. Misteriosa aos olhos das pessoas do futuro que não relacionam a imagem com nada que conheçam ou possam vir a conhecer. O Marquês cagado, para todo o sempre.

sexta-feira, outubro 27, 2023

Não desesperança

     Viajava na carruagem de metro razoavelmente vazia apesar da hora matinal. E pensou:

    "Não será o desespero a extinguir a nossa espécie. O desejo prevalece mesmo, mesmo até ao último suspiro. Enquanto houver desejo a luta da vida por si própria nunca irá esmorecer. Não há desespero que apague o desejo."

    As portas abriram-se sobre a plataforma da estação onde desejava sair. E saiu:

    "Ao contrário do que nos querem fazer crer, a simples existência basta bem para que sejamos humanos."

    Já sentado perante o café e o pão com queijo (sem manteiga) continuou a dialogar com os seus fantasmas:

    "A humanidade não se revela na angustiosa tarefa de inventar novas formas e justificações plausíveis para a velha compulsão consumista que nos trouxe até aqui, à beirinha do abismo. A humanidade é algo que repousa em cada um de nós esperando serenamente a sua oportunidade para ser ouvida."

    Já na rua, meio devorado pela cidade, despediu-se de si próprio. Era necessário vencer mais aquele dia.

domingo, outubro 22, 2023

Dilema

     Terminei um desenho e, como faço habitualmente, comecei a engendrar um próximo. Desta vez trago um título na cabeça, um título que me foi sugerido pela observação quotidiana da maldade e das suas milhentas formas, um título que tem a intenção de alfinetar consciências. Consciências semelhantes à minha mas também, imagino, algumas bastante diferentes.

    A frase veio-me à cabeça ao ler um artigo de jornal, penso, não tenho a certeza. Não é uma frase estável, vai mudando de cada vez que a formulo na minha mente. Já a apontei duas vezes num caderno. Verifiquei que mudou um pouco do primeiro para o segundo registo. Mas não vou buscar o caderno para escrever este post, não preciso dele.

    Não preciso de reler o que apontei porque sei o que quero dizer, sei o que significa o título; apesar das suas mutações formais a essência mantém-se (é por isso que é a essência). 

    "Mataremos o Cristo tantas vezes quantas forem necessárias", é assim que me surge agora, neste momento. Decerto já pensei no título exactamente com esta forma mais do que uma vez. "Mataremos", estou incluído no grupo dos que matam.Mais, este "mataremos" pretende incluir a espécie humana na sua totalidade, não pretende referir-se a um grupo específico. Refere-se a "todos, todos, todos".

    Ao ler, observar e pensar sobre a guerra na Palestina reparo que o meu título ganha uma dimensão inesperada, foge, escapa-me, deixo de o controlar, é como se ganhasse vida própria. Mais, tudo o que  digo ou penso sobre este conflito transforma a lógica em gelatina, as frases contorcem-se como serpentes, as imagens parecem estátuas de sal à espera de um sopro de vento.

    "Mataremos o Cristo todas as vezes que for preciso", disso não tenho dúvidas. A minha hesitação é se posso ou não devo dizê-lo.

segunda-feira, outubro 16, 2023

Gente banal

     As histórias haviam sido todas narradas. Não restava nenhuma que não tivesse já sido inventada. Os romancistas, os cronistas, os dramaturgos, os poetas de um modo geral, mesmo os pintores, os coreógrafos e os simples bêbados que habitualmente conversavam encostados ao balcão da tasca, deram por si a reciclar constantemente histórias que outras mentes haviam imaginado e outras bocas tinham já mil vezes contado.

    Os grandes mestres não se atrapalharam, continuando a brilhar e a ser admirados, convidados para palestras, vernissages, jantares galantes e viagens maravilhosas que cruzavam este mundo e o outro. O facto de recriarem constantemente narrativas estafadas não os acanhava nem incomodava os basbaques do costume (que se babam como vacas pasmadas perante o esplendor alheio).

    E assim foi; logo houve quem sistematizasse o fim da criatividade inventando tabelas e fórmulas explicativas capazes de orientar o mais canhestro dos putativos artistas em direcção à obra-prima, a sua criação mais grandiosa. Com o passar do tempo todos nos tornámos artistas e todos os artistas passaram a ser gente banal.

sexta-feira, outubro 13, 2023

Monstro

     Era como se a alma lhe tivesse derretido dentro do corpo sem tempo para se liquefazer por completo. Ficou assim, disforme, grotesco, surreal. Tão largo, tão baixo, tão assimétrico, tão desesperado por normalidade! Que raio de coisa lhe terá acontecido? Que estranho e extraordinário fenómeno o deformou daquele modo?

    Entretanto outro míssil caiu lá fora. Tanto quanto se soube, aquele não terá causado vítimas mortais. 

    A vida tem destas coisas.

quarta-feira, outubro 11, 2023

A herança

     Quando vejo imagens de crianças a cirandar por entre escombros de cidades bombardeadas ponho-me a tentar imaginar: o que vai ser daquele puto? Que adulto está a germinar naquele puto? Raras vezes imagino o que quer que seja. 

    Nós, que vivemos com imensas dificuldades e somos vítimas de tremendas injustiças (a inflacção é terrível e o poder judicial tem dois pesos e duas medidas), temos, no entanto, a estranha capacidade de emitir opinião sobre o mundo que envolve aquela criança, mundo que conhecemos das fotografias, das peças dos telejornais, dos textos nos jornais e nas revistas. Alguns de nós tornam-se mesmo peritos na questão sem nunca lá terem metido os pés, nem sequer tendo conhecido um palestiniano, quando muito viram um ou dois israelitas na vida. Alguns leram os livros de Yuval Noah Arari e viram aquele filme do Spielberg. Há mesmo quem negue o Holocausto mas consiga metralhar o Hamas do alto do seu sofá.

    Aquele puto, a mirar as pedras que cobrem o chão e que ainda ontem eram as paredes da sua casa, não vai ter escola, talvez nem tenha família, possivelmente não vai ter nada. Eventualmente terá recebido toda a sua herança no dia em caiu a bomba que lhe levou o mundo em que vivia: herdou todo o capital de ódio acumulado pelos seus antepassados contra os homens responsáveis por aquela destruição.

segunda-feira, outubro 09, 2023

Inferno

     Estalou outra guerra. O Hamas entrou Israel dentro e deu um espectáculo de selvajaria como não havia memória. Sendo um grupo terrorista não tem pruridos em mostrar ao mundo "em rede" como se faz a guerra, coisa que os exércitos organizados tentam esconder dos olhares sensíveis. Fazem mesmo gala na exibição da sua desumanidade praticada em nome de deus.

    Israel retalia com toda a violência das suas armas. Teme-se um genocídio em Gaza. A escalada da violência promete algo que até agora não conhecemos. Teme-se o Inferno.

sábado, outubro 07, 2023

Absolutamente...

     Andamos para aqui aos tombos de encontro às paredes do Tempo que ora se fecham ora se abrem perante nós revelando um planeta selvagem que se vai estendendo em direcção ao infinito visível. E morre muita gente pelo caminho. Na verdade, morremos todos.

    A nossa morte não é motivo de tristeza duradoura pois os que esperam atrás de nós na fila das vidas a viver têm pressa de encontrar a sua forma de lidar com as paredes do tempo na busca interminável pelos caminhos que levam ao infinito.

    O melhor é ficar por aqui. Divago de forma confusa e nem cheguei a metade do que não queria dizer até porque não sei do que se trata.

segunda-feira, setembro 25, 2023

Somos todos artistas

     Para onde vai o Tempo que perdemos? Imagino que para o mesmo lugar onde desaparecem as peúgas que, levando sumiço, nunca mais voltamos a encontrar. Há mistérios assim, mistérios desconcertantes (como é apanágio dos mistérios) que, sendo arrepiantes, não põem em causa a nossa segurança nem as nossas vidas.

    Do mesmo modo que sou incapaz de imaginar onde cai o Tempo perdido não consigo compreender o que acontece com o Tempo que ganhamos. Se há Tempo que se ganha deveria poder ser acrescentado ao Tempo que vivemos! Mas não estou a ver que possa viver mais Tempo sempre que evito uma fila de trânsito ou consigo esquivar-me a cumprir um qualquer trabalho de merda.

    Talvez o Tempo não se ganhe nem se perca, talvez o Tempo seja apenas ajustável, talvez seja plástico, moldável dentro de certos limites. Isso faria de nós artistas inesperados, modeladores de Tempo ao longo das nossas vidas. A ser assim, pronto, poderíamos finalmente afirmá-lo sem que nos tremesse a voz: SOMOS TODOS ARTISTAS!

    No fim acabamos por morrer.

domingo, setembro 24, 2023

Loucos como passarinhos

     Algumas pessoas enlouquecem para dentro de si próprias, outras disparam loucura em todas as direcções, como metralhadoras. Há ainda aquelas que derramam a doidice nas fronteiras dos seus corpos, suave e discretamente. Cada vez mais tenho a sensação de que a loucura, nas suas variadíssimas formas, não admite aos seres vivos grandes excepções. Nem mesmo a racionalidade escapa.

quarta-feira, setembro 20, 2023

Futuro

     Não sabia bem se a coisa fazia sentido mas, agora, já nada poderia pará-lo. Bastava a sua vontade. Algumas pessoas achavam aquilo esquisito, outras torciam o nariz de tal modo que ficavam com expressão de saca-rolhas. Nada disso lhe desviava a atenção, nada disso fazia esmorecer o ímpeto de continuar com aquilo: todos os dias fazia mais um pouco, cada dia avançando um bocadinho, dia após dia o Futuro ia sendo construído.

    O céu escureceu subtilmente, pingou alguma chuva. O ar estava tão fresco que até o canto dos pássaros se sobrepunha ao ronronar maléfico dos automóveis. Olhou demoradamente as suas mãos. Depois desferiu o golpe. Único e certeiro.

sexta-feira, setembro 08, 2023

Sinopse

     Cadáver Aflito (inspirado num conto curto de Dino Buzzati)

    Um grupo de pessoas encontra-se na sala de embarque de um grande aeroporto internacional. Vão viajar para longe, muito longe mesmo. A situação global não é famosa, a Humanidade está com problemas graves. O planeta Terra nem por isso. O planeta vai sobreviver.

    Os passageiros entram na aeronave, ocupam os seus lugares. Tudo se processa na maior das normalidades. O avião lá vai. Acompanhamos cada um dos passageiros: o que vêem, o que pensam, o que ainda sonham; individualmente, uns dos outros, sobre o mundo, talvez, até, possamos captar uma ou outra ideia sobre o planeta Terra. Lá vamos também, todos com destino igual.

    Durante o vôo algo de radical acontece lá fora (um dos passageiros tem a sensação de, por momentos, estar a voar lado a lado com um míssil intercontinental mas pode ter-se enganado, talvez fosse uma cegonha ou um animal estranho e desconhecido). As comunicações com o exterior do avião são interrompidas. Os passageiros ficam isolados na imensidão do céu. Angústia, terror, desespero? Nada disso ou, melhor dizendo, não somos todos iguais. 

    A esperança é a última coisa a morrer e a nossa imaginação não tem limites.

    O avião aterra.

    FIM

terça-feira, setembro 05, 2023

Que o diga Golias

    Lembro-me vagamente de umas aulas, talvez de Estética, a que assisti nos meus primeiros tempos como aluno da Escola de Belas-Artes de Lisboa. Não consigo precisar, passaram várias décadas e a minha memória nunca foi de fiar. Debatia-se a possibilidade da existência de características intrínsecas da obra de arte. Que isto, que aquilo, que teria de ter ou não poderia faltar, as hipóteses iam sendo apresentadas e debatidas. Para me recordar ainda hoje é porque a coisa me interessou e motivou.

    Uma das hipóteses colocadas para que um objecto artístico possa assim ser considerado foi a da sua escala. Quanto maior a escala maior a probabilidade de o objecto vir a produzir uma sensação de deslumbramento no espectador capaz de o levar a considerar estar perante uma obra de arte. É uma perspectiva curiosa mas algo redutora.

    É como se a obra de arte tivesse entre as suas potencialidades a capacidade de nos reduzir à nossa insignificância enquanto indivíduos, como se, para existir, a arte tenha de possuir o condão da enormidade, da inacessibilidade, como se a arte, para o ser, tenha de nos esmagar o ego. 

    Talvez esteja a exagerar mas, quando um gajo reflecte, as ideias vão surgindo em catadupa. Muitas delas podem estar erradas ou, pelo menos, podem não ser muito consistentes, pedindo reflexão, mas na vertigem do pensamento ainda são apenas coisas por nomear, falta-lhes rigor, não passam de projectos de sonhos para serem sonhados quando houver tempo para o fazer. É o que se está a passar aqui, neste momento.

    Veio-me isto à memória e ao tropel do pensamento por ter visto umas imagens de uma instalação de Joana Vasconcelos, uma artista que explora frequentemente a escala do objecto e a sua relação com o espaço como forma de estimular no espectador a sensação de estar perante uma obra de arte.

    Penso que nenhum artista pretende reduzir a sua criação ao gigantismo. Mas o gigantismo é uma armadilha sedutora que provoca desastres frequentes. Que o diga Golias.

domingo, setembro 03, 2023

Indolência

     O Tempo não é coisa em que se mexa. É deixá-Lo estar sossegado com o seu compasso, debruçado da nuvem que lhe serve de morada, cabelos e barba batidos pelo vento. Ele distrai-se medindo o espaço, deixando-se ir na sua nuvem. O Tempo passa, não intervém apenas observa. E permanece.

    Pois, estou a descrever, de memória, a pintura de William Blake intitulada "O Velho dos Dias" (tradução minha), já te tinhas decerto apercebido. É interessante verificar a atracção que certas imagens produzem na nossa memória resistindo à passagem do tempo; nunca se apagam.

    Recordar uma imagem e interpretá-la de novo, eis uma actividade estimulante pois é algo que muda e se transforma tal como nós mudamos e nos transformamos. Esta é uma das muitas que me acompanham e que recorrentemente assomam nas curvas do meu cérebro. Que interesse tem isto? Eventualmente nenhum. Talvez seja mera indolência mas preenche-me o tempo que vivo e, quem sabe,talvez  vá comigo quando eu me for.