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sexta-feira, outubro 26, 2018

Questão de coração

Andamos todos confusos com o desenrolar alucinante dos acontecimentos que nos últimos tempos têm alterado a ordem que vinha definindo o nosso mundo. A coisa passa-se tão perto de nós, tão à frente do nosso nariz, que não temos afastamento suficiente que nos permita percepcionar os contornos do bicho, compreender o fenómeno.

Há quem trema de receio que o Fascismo regresse, quem levante as bandeiras do "politicamente correcto", quem aponte o dedo acusador aos emigrantes, aos pretos, aos pobres, aos comunistas, aos homossexuais, aos velhinhos e aos amantes da Natureza, há grupos de apoio para tudo e de oposição a mais alguma coisa. Andamos numa roda-viva.

No meio da refrega vemo-nos impelidos a escolher um dos lados da barricada e é nesta situação que se revela a massa de que somos feitos pois uma escolha como esta é feita com o coração; absolutamente. Eu sei que procuramos uma justificação mais ou menos racional que corrobore a nossa opção mas isso não passa de reflexo cerebral condicionado, é no tambor do nosso coração que encontramos a explicação para a essência das escolhas que fazemos nesta refrega.

Assim vivemos estes acontecimentos pré-apocalípticos com o coração ao pé da boca. Braços no ar, punhos erguidos contra mãos estendidas, a história a repetir-se, desta vez como Tragédia. Novos fascistas, novos comunistas, novos anarquistas, novos sociais-democratas, socialistas, tudo remisturado pela varinha mágica do tempo, preparando-se para um novo embate, semelhante a todos os anteriores mas em diferentes locais, com novos actores, diferentes figurinos e cenografia renovada.

Nesta Tragédia cada um escolhe a personagem que pretende interpretar. Segue o teu coração.

domingo, março 06, 2016

Adeus Cavaco

Aproxima-se o dia em que Cavaco Silva regressará ao nevoeiro de onde nunca chegou realmente a sair. Após tantos anos a ver a vulgaridade e a estreiteza de espírito ocupando a governação do país, como um vírus ocupa o corpo enfermo, chega, finalmente, a hora do adeus. Adeus Cavaco.

Eu nunca gostei de Cavaco. Posso mesmo dizer que sempre o detestei. Nos dias que correm vejo nele, apenas, um velhote meio senil, Já não sinto mais do que desprezo pela personagem.

Leio alguns artigos sobre o tema deste adeus português, as opiniões de certas figuras mais ou menos públicas, de jornalistas... parece haver uma cautela generalizada em classificar a longa penumbra cavaquista que obscureceu Portugal durante todos os anos em que Cavaco foi 1.º ministro e, depois, presidente da república. Todos dizem que é prudente deixar a História julgar o legado que este ser vivo deixa à nação portuguesa.

Fico a matutar no assunto. Irá a História colocar Cavaco numa prateleira mais ou menos dourada? Será a sua mediocridade transformada em virtude com o passar do tempo? É bem possível que tal aconteça e que, daqui a muitos anos, quando Cavaco for apenas mais um nome numa longa lista de personagens históricas, seja visto como um estadista cauteloso e frugal, um homem interessado em fazer de Portugal aquilo que o nosso país é.

A História enverniza, limpa e enaltece tanta gente que Cavaco não será, certamente, excepção. Por agora basta. Adeus, ó Cavaco.


terça-feira, fevereiro 24, 2015

A pirâmide




Reflectindo só um pouco, quase nada, reflectindo levemente, muito levemente sobre a condição humana e a organização social fico surpreendido por encontrar uma constante luta entre poderosos e oprimidos (para simplificar).

Nos tempos pré-históricos não sabemos muito bem o que se passava (o termo "pré-história" explica a ausência de dados mais ou menos fiáveis) mas basta avançar um nadinha e começamos a encontrar os ricos, os muito ricos, os riquíssimos, os riquérrimos e os deuses na Terra. Meia-dúzia de personagens a dominar multidões de milhões de escravos, trabalhadores manuais, gente miserável ofuscada pelo brilho de existências gloriosas ou intelectuais prontos a fazer o inventário dos bens do senhor ou a escrever poemas épicos sobre a sua grandeza incomparável.

O tempo vai rodando e as personagens mudam de aspecto, o cenário transforma-se ao sabor do que é moderno em cada época, mas as relações entre os poderosos e os seus servos parecem permanecer teimosamente inalteradas.

Por momentos sonho, tenho ilusões, sinto o peito inchar de esperança, uma vertigem faz-me acreditar na mudança. Quero acreditar e a mudança parece acontecer. Mas logo após, pouco tempo corrido, aí está a realidade para iludir a verdade.

O cenário cai, volto a ver a estrutura da coisa, o esqueleto do mundo e lá está: o faraó, o imperador, o rei absoluto, o senhor do mundo no topo da pirâmide e a multidão, cá em baixo, agita-se qual montanha de insectos impacientes.

sábado, novembro 24, 2012

Você está aqui

Para sabermos ao certo aquilo que queremos talvez tenhamos de simplificar o leque das nossas opções. Precisamos de um desenho simples, uma linha clara preenchida com cores planas, sem sombreados ou modelações complexas. Mais De Stijl e menos Dada.

Será que apenas após compreendermos a clareza essencial da estrutura das formas (e do raciocínio) podemos aventurar-nos em loucuras visionárias sem corrermos o risco de perder o tino?

Toda a simplificação resulta de um afastamento. Um olhar afastado permite desenhar um mapa. A nossa capacidade de abstracção faz o resto, confere-lhe sentido. Consultando a linha que representa a rua onde caminhamos deslocamo-nos no sentido pretendido. Fazemos isso dentro da nossa cabeça e, em simultâneo, caminhando sobre os nossos pés. É um exercício de abstracção absoluto e, no entanto, intimamente relacionado com o mundo real.

Também para compreendermos o que se passa com a nossa sociedade necessitamos de afastamento. Analisar o tempo presente é demasiado confuso, estamos dentro dele e ainda ninguém conseguiu desenhar um mapa conceptual que o possa resumir. Estamos demasiado envolvidos.

A História é um exercício de análise do passado que permite delinear formas simples e mais ou menos lineares. O historiador concentra-se na representação de determinados aspectos e passa-nos uma imagem que somos capazes de compreender (ou pelo menos imaginamos que somos capazes de compreender).

Traçar o mapa dos acontecimentos recentes mostrando a cada um de nós em que ponto da nossa História individual nos encontramos e para onde podemos dirigir-nos sem que percamos o fio à meada é algo do domínio da utopia mais absoluta. Caminhamos às cegas, avançamos por instinto e ninguém pode garantir que não estamos a recuar ou a deslocar-nos em círculos.

Imagino que seria interessante poder olhar um mapa do tempo presente (com indicações seguras em relação ao tempo futuro e mostrando com correcção o caminho até aqui percorrido) e ter aquela indicação que é habitual nos mapas turísticos, com um círculo vermelho bem destacado e a frase mágica "você está aqui".

domingo, janeiro 04, 2009

Eles estão entre nós


Já não bastava terem os portugueses oferecido ao mundo os mulatos, ainda tinha de ser descoberto em território nacional este esqueleto de menino que tanta tinta fez correr. O designado "Menino do Lapedo", cujos restos mortais foram desenterrados perto de Leiria, sugere a possibilidade de estarmos perante mais um caso de mestiçagem protagonizado pelos nossos antepassados. São dois eminentes estudiosos destas coisas, João Zilhão e Erik Trinkaus, que colocam a possibilidade do "Menino do Lapedo" «como o resultado de um possível processo de mestiçagem entre Sapiens e Neanderthalensis:
"Com efeito, alguns aspectos como a dentição, a robustez dos ossos dos membros ou as proporções relativas da tíbia e do fémur mostram características próprias dos neandertalenses. Pelo contrário, outros como a dentição, o queixo ou as proporções e morfologia da bacia, são claramente próprios dos homens de tipo anatomicamente moderno."
».

Aqui há uns anos tive a possibilidade de convidar a arqueóloga Cidália Duarte para promover na minha escola um colóquio sobre este tema. A descoberta do esqueleto ainda estava "quentinha" e a exposição que Cidália fez sobre tão interessante hipótese foi excelente. A conclusão, se bem me recordo, seria que o Homem de Neanderthal não terá sido extinto, como se pensava. Na verdade, caso a hipótese de mestiçagem fosse verdadeira, esse robusto homem pré-histórico teria subsistido em gerações e gerações de habitantes da Península Ibérica, até aos nossos dias. O Homem de Neanderthal estaria entre nós. Quer dizer, haveria fortes probabilidades de, dentro da sala onde decorria o colóquio, algumas pessoas possuirem traços genéticos destes seres de outra era.

A hipótese tem gerado imensa controvérsia e está longe de constituir doutrina aceite nos meios científicos mas, temos de concordar, que se trata de uma ideia elegante e, por assim dizer, politicamente correcta.

Aceitando esta história como boa e verdadeira, muita coisa se explicaria sobre o comportamento troglodita tão comum entre nós, portugueses, pequenotes homens do sul.

Ahahahah, esta é forte!

sexta-feira, agosto 29, 2008

Arte (o que é isso?)


A Arte é uma daquelas coisas que todos sabemos o que é mas não conseguimos explicar.
Como tal, um post sobre este assunto terá de ser um pouco longo, como o que se segue.

Não deixa de ser curioso que sejamos capazes de afirmar com um certo grau de certeza "isto não é Arte" perante um objecto que nos repugna plasticamente, mas já nos seja um pouco (ou muito) mais difícil explicar porquê. O mesmo se passa com aquilo que consideramos como Arte.

Importa tentar perceber o que é Arte? Primeiro que tudo poderemos partir do princípio que um objecto artístico, sendo produto de uma actividade humana, está dependente de um tempo e de um espaço. Esse objecto é um reflexo de um momento determinado na História e as suas características, formais (os aspectos relacionados com a técnica) e iconológicas (o que normalmente designamos por mensagem ou conteúdo), são matéria e produto dessa conjuntura espácio-temporal.

A História da Arte mostra-nos bem a evolução das formas e dos discursos artísticos ao longo dos tempos e o modo como a Arte foi um poderoso meio de propaganda. Mas, tal como as sociedades evoluíram e transformaram os seus paradigmas sociais e políticos, também a Arte se transformou. É lógico.

Mas, para tentar perceber afinal o que é (ou não é) Arte, temos de confiar essa missão em alguém. Quer dizer, nós, simples mortais, não temos a capacidade de decidir sobre a natureza artística de um objecto embora possamos formar uma opinião que, tal como disse aí mais atrás, acaba por ser intuitiva e pouco fundamentada. É do género "gosto disto" ou "não gosto disto" como se nos estivessemos a referir a um prato de bacalhau cozido. E a Arte não parece ser bem a mesma coisa que bacalhau cozido, embora por vezes se possam confundir.

Chegamos então a uma questão fundamental: quem é que sabe o que é Arte? Ou, quem valida a natureza artística de um objecto? Pois é, aqui é que a porca torce o rabo e o pessoal costuma começar a sacudir a água do capote. "Para mim é Arte" arriscamos por vezes "ou não acho que seja Arte" podemos afirmar com um encolher de ombros. Assumimos uma postura que nos desresponsabiliza. Não sendo nós peritos, podemos apenas dar uma opinião... intuitiva.

A História da Arte mostra-nos como essa validação foi passando de mãos ao longo dos séculos. Entidades religiosas, burgueses ricos ou Academias Reais de Belas Artes foram decidindo sobre a natureza da Arte. Forças de sinais contrários ou com raízes sociais diversas, todas tiveram , no entanto, uma coisa em comum: riqueza ou capacidade económica para encomendar e pagar o trabalho daqueles que hoje designamos por artistas. Em última análise poderemos considerar que é o valor comercial, a capacidade de angariar divisas que valida o objecto artístico.

Esta visão é demasiado redutora, dirão alguns, mas uma análise superficial do fenómeno permite-nos mantê-la com argumentos bastante sólidos. Esta perspectiva economicista sofreu um primeiro abalo com o Romantismo do século XIX quando os artistas se assumiram como tal e reclamaram liberdade criativa fora das esferas de poder habituais. As revoluções liberais retiraram muita da capacidade económica e política às forças religiosas tradicionais. O crescimento do sentimento Democrático fez que, como seria de esperar, também se democratizasse a perspectiva que temos sobre a produção artística.

Quando Marcel Duchamp criou os seus ready-mades, provocou uma transformação radical nos mecanismos que validam a natureza artística dos objectos. É paradigmático que a sua "Fonte" (o célebre urinol) seja consensualmente considerada a mais importante obra de arte de século XX. Não porque seja uma exibição de cpacidades técnicas supreendentes ou mesmo um objecto que possamos considerar belo, mas porque transferiu a capacidade de validar a Arte para o comum dos mortais, para o observador ocasional, que, neste universo criativo, é chamado a tomar uma posição perante aquilo que observa.

A Arte Contemporânea responsabiliza o próprio observador na construção do objecto artístico que apenas se completa através da sua leitura pessoal e particular. Todos sabemos que, no mundo actual, a crítica de arte publicada nos jornais e nas revistas da especialidade carimba e certifica definitivamente a natureza de um objecto. Mas isso serve principalmente para atrair os tais gajos com poder e capacidade económica para investir na compra dos objectos. Daí que seja difícil compreender como pode um sapo verde pregado numa cruz valer mais do que uma tela da Ju, como foi notado num comentário ao post anterior.

Concluindo, numa sociedade democrática contemporânea, os indivíduos são considerados responsáveis pelos seus actos. A igreja já não tem o direito de nos condenar por blasfemarmos ou simplesmente porque lhe desagradamos, como aconteceu ao longo da Idade das Trevas. Isso é assim na esfera da nossa vida quotidiana e também no campo da Arte. Daí que o triste episódio do sapo verde seja apenas mais um tique intolerante de uma igreja que ainda não percebeu em definitivo qual é o seu verdadeiro lugar no mundo actual. A perspectiva que a Igreja tem da arte não é altruísta nem desinteressada, tradicionalmente vê-a como uma ferramenta de propaganda e divulgação.

Deixem o sapo em paz. Aquilo é Arte! Ou não?