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domingo, junho 03, 2018

Pesadelo fôfo

Tudo treme. Abrem-se brechas enormes nas paredes. O telhado começa a ceder. Mas eu estou concentrado. Leio o meu livro, bebo o meu café, sinto os pés frios e isso preocupa-me. Não quero constipar-me.

Entretanto a casa desaba. Acabei de me levantar para ir buscar as pantufas.

sexta-feira, dezembro 08, 2017

Mundo profundo

Pensamentos disparados por um cupido velho cruzam o horizonte dominado por um batatal que ninguém se deu ao trabalho de colher. Estou sentado na carapaça de uma tartaruga inerte. Crianças brincam displicentemente com objectos que, vistos daqui, me parecem ossos esbranquiçados pelo uso. É um sonho que me esqueci de ter sonhado.

quarta-feira, junho 14, 2017

Um sonho

Esta noite tive um sonho de que me recordo. Sonhei que caminhava calmamente rua abaixo.  Era a rua em que moro mas não era, compreendes-me? Nunca te aconteceu sonhar que passeias num espaço que te é familiar mas onde não reconheces nada?

Mas, o que interessa para o caso, é que eu caminhava sem dor nem esforço nem muletas: nada! Durante o sonho isso era algo perfeitamente adequado (ia escrevendo "natural") e não me obrigou a pensar muito nos gestos vigorosos que o corpo me permitia executar.

Foi um sonho particularmente bizarro devido ao encontro inesperado com uma amiga que já não via há muito, muito tempo e que, num flash, desatou a cabecear um muro repetindo insistentemente a frase "sou boa pessoa". Espero que ela esteja a passar bem, cá fora, fora do mundo dos sonhos.

Entretanto acordei com o ruído vibrante do berbequim ou lá o que é aquela merda que os operários vêm utilizando na obra que decorre no andar de baixo. Acordei e apercebi-me que ainda não recuperei da lesão muscular que me mantém fechado em casa.

Aqui estou, sentado, perna esticada, enquanto tento fazer durar o tempo de escrever estas palavras. Um dia destes vou poder sair de novo e caminhar, calmamente, rua abaixo. Se encontrar a minha amiga...

sábado, setembro 03, 2016

Trindade

Um gajo enfia-se dentro da sua cabeça e encontra uns quantos macacos a divertirem-se, enquanto vão fingindo que lhe limpam o pó às ideias e as arrumam mais ou menos em prateleiras húmidas e moles. Um gajo fica espantado por encontrar tantos macaquinhos no sótão. É uma surpresa.

Um gajo desce as escadas que levam ao seu próprio pedestal. Desce-as com panache, um pé após o outro, a pose é triunfal, os degraus escorregadios. Não há ninguém a olhar, ninguém aplaude, ninguém está extasiado com  o espectáculo daquela brilhantíssima descida. Ninguém, a não ser o próprio. É uma tristeza.

Um gajo tenta evitar uma incómoda sensação de abandono. A solidão não quer deixá-lo sonhar com a glória que julga merecer mais do que qualquer outro ser vivo. Um gajo sorri ao espelho mas a imagem reflectida não lhe devolve os dentes amarelos. É a vida.

Surpresa, tristeza, vida: santíssima trindade de uma existência fantasmática, quase humana.

terça-feira, dezembro 08, 2015

Sonho de uma manhã de Inverno

Por vezes penso: "sonham as coisas mortas?"; se algumas das vivas sonham com a morte, será que as mortas sonham com a vida? Uma pedra que gostasse de ser corvo ou um um grão de areia que desejasse tanto vir a ser presidente da república que havia de se transformar em montanha.

Lembro-me bem de ficar a olhar muito, muito tempo, a fitar calhaus que pareciam outras coisas, coisas escondidas dentro da rigidez da pedra, mas que nunca se revelavam completamente. Se eram coisas mais verdadeiras que a minha imaginação, então eram mais espertas que os meus olhos e guardavam-se, quietas, lá no fundo daquilo que realmente eram. Nunca as cheguei a ver, só as imaginei.

Nos dias que correm encontro, de vez em quando, seres fantásticos, saídos nem sei bem de onde. Aparecem assim, vindos do nada; são visitas que não gostam de chá nem têm tempo para se sentarem à conversa. Serão estes seres desconcertantes aqueles que se escondiam no dorso e no fundo dos calhaus da minha infância? Seres que voavam nas alturas dos pinheiros com o sol a doirar-lhes as formas indistintas?

O que interessa isso? Que interesse pode ter quem eles são? Gosto de pensar que são os sonhos das coisa mortas que ganharam vida. E gosto de pensar que sou eu quem lhes dá essa vida que ganharam, eu, pequeno deus, feito homem na minha imaginação.

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Ai, caraças!!! (um sonho)

pintura de Honoré Daumier, o incomparável!!! http://www.daumier.org/1.0.html


A grande arte não é arquitectura, nem pintura, escultura, bailado, música ou literatura. A grande arte é outra coisa mais difícil de resumir numa palavra só. É muito mais abrangente e complexa de tão particular e universal em simultâneo. A grande arte é a vida. A vida de cada um e o conjunto que resulta do viver com os outros. A grande obra é a construção infinita da vida social, o divino trabalho de construir o mundo. Um mundo onde o belo seja irmão do justo, ética e estética unidas na imagem final de uma sociedade livre e libertadora!



Ai, caraças!!! Virei-me para o outro lado e fui apoiar um olho nos óculos esquecidos sobre a travesseira. Já nem me lembro que porra estava a sonhar. Nem isso interessa. Pela cara da minha filha devia estar a ressonar como uma locomotiva a carvão. O costume.

sábado, outubro 27, 2007

Cromos

Num daqueles passeios indolentes que de vez em quando se fazem pela blogosfera fui dar de caras com este O BAÚ DOS CROMOS http://cromosvelhinhos.blogs.sapo.pt/.
Explorando um pouco o baú encontrei imagens que tinha guardadas lá para o fundo da memória. Jogadores de futebol como já não os há (notem bem o aspecto de lavrador alentejano do guarda-redes da foto que ilustra este post), fotos retocadas com céus de um azul plano ou corpos recortados e nítidamente colados sobre um estádio em fundo. Outra era mediática, de um mundo quase pré-histórico em termos tecnológicos.
Relembrei as cadernetas, a cola feita com farinha e água num tacho de alumínio com a ajuda do meu avô, caramba, um gajo vive tão pouco tempo e as coisas perdem-se completamente nos confins da memória. Depois vieram os cromos em papel todo janota, os tubos de cola Pica-pau (mesmo assim os bastões de cola já são coisa da minha idade adulta) e toda uma nova forma de encarar a colecção de cromos. Hoje os cromos são autocolantes, claro está!
Um gajo vive tão pouco tempo e as transformações do nosso quotidiano dão a impressão de que, afinal, vivemos uma eternidade. Vivemos?

quarta-feira, abril 19, 2006

Coelhos cor-de-rosa e outros fenómenos

Acreditar que vivemos numa Democracia é um acto de fé quase tão radical como aceitar o dogma da virgindade de Maria.

Cá na minha óptica, paranóica mas sólida como uma rocha, não desandámos grande coisa em relação ao Império Romano. O que quer isto dizer? Pois, a Economia, essa divindade do mundo contemporâneo, assentava no trabalho escravo lá para trás, nos velhos tempos do Império. Dir-me-ão os mais avisados sobre a bondade do mundo em que vivemos que os tempos da escravatura já lá vão há buéréré. Que hoje os trabalhadores têm direitos, que recebem salários (salários!!!???) de acordo com o valor social do trabalho que executam e desempenham. Sim, sim, já me tinham dito só que devo ter-me esquecido de ouvir como deve ser.

Cá para mim continuamos a assentar a nossa Economia em trabalho escravo. Só que o sistema, agora, tem requintes de malvadez. É verdade que os trabalhadores recebem um ordenado. Mas para quê? Para poderem consumir os produtos que aqueles que lhes pagam com uma mão lhes vendem com a outra. Assim, produzem os artigos que consomem e ainda têm de pagar por eles. Genial!!!

Esta herança da Revolução Industrial tem vindo a atrair as populações para as grandes cidades desertificando o interior. Este fenómeno desiquilibra a distribuição da fauna e gera confusões indescritíveis. Vistos do espaço a uma certa altitude, os aglomerados urbanos devem assemelhar-se a colónias de insectos barulhentos. Escravos aos pontapés acotovelam-se na mira de alcançar o Paraíso na Terra e em tempo útil que isso de esperar pela ressurreição já só convence papalvos.

Uma coisa que me faz uma confusão do caraças é imaginar para onde vão todas as mais-valias resultantes da produção e comércio mundiais. Sim, para onde vão os milhões de milhões de milhões de euros que resultam do esforço produtivo da Humanidade? Com tanta fome, tanta miséria, tanta desgraça sem nome que poderia ser resolvida com meia-dúzia de tostões... não percebo!

Estamos, obviamente, a ser enganados. Mas isso não nos preocupa muito. Desde que possamos ter acesso a alguns bens de consumo e outros tantos pequenos luxos que ilustram o nosso modo de vida ficamos satisfeitos e calados. Ponto final. Os outros que se lixem!

Para a Europa e os EUA poderem viver à tripa-fôrra alguém tem de ser sugado até ao tutano. A China e a Índia estão a levantar cabelo. A África continua a penar. Até quando?
Ainda será necessário verter muito sangue, durante muitos anos para que alguns possam andar nos seus jactos particulares e encher o peito de silicone de primeira qualidade.
Segredos e mistérios das nossas democracias que, nos últimos tempos, temos tido tantas dificuldades em exportar. Nem mesmo à marretada já lá vamos, como se vem comprovando no Afeganistão e no Iraque.

Maurizio Cattelan vestiu um dos seus marchands como se pode ver na imagem. Convenhamos que a indumentária assentaria como uma luva a muitos dos que nos governam em nome da Democracia e vão aproveitando para viverem como Cresus enquanto à maioria é distribuído o papel de escravo felizardo.

Hot Dog

Estes matrecos andam a brincar com a merda do fogo e quem se lixa é toda a gente!
Tanto Bush quanto Ahmadinejad têm cara de estúpidos com pernas. Olhando bem os olhitos dos gajos sinto uma vertigem nauseabunda por ver apenas buracos onde deveria ver extensões cerebrais expostas ao mundo. Os olhos de um e de outro não parecem ver. Não parecem perceber nada. Chego mesmo a imaginar que são marionetas, personagens falsas animadas por um qualquer Stromboli, como o pobre Pinóquio.
Espero que morram depressa, fulminados por raios disparados do céu! Se Deus existisse e fosse bom e justo como nos querem fazer crer, havia de mandar estes dois cabrões direitinhos para um Inferno particular onde Hitler e Staline se dedicam à jardinagem, podando roseiras com os dentes e estrumando a terra com a merda do ódio que destilam.
Mas Deus ou está a dormir ou é, afinal, o Diabo disfarçado e estes cachorros quentes são dois dos seus anjos encarregues de fazerem da Terra um planeta selvagem.

quarta-feira, março 22, 2006

Sonho de uma noite de Primavera

escultura em gesso de Anthony Gormley

Os homens do lixo lá levaram o cadáver do gato.
Os vizinhos, do outro lado da rua, voltaram a representar cenas desesperadas em plena calçada. Gritos, choro, cabeçadas violentas no tronco de uma árvore, mais gritos. Os estores subindo discretamente, cabeças despenteadas, mulheres de robe debruçadas, o espaço público transformado em palco, os prédios de apartamentos em suspeito anfiteatro.
Mas a performance daqueles artistas improvisados não foi convincente. Do meu lugar não tinha visão total sobre o espaço de cena, o som era deficiente, desisti. Fomos desistindo. O público retirou-se para o interior das respectivas cavernas particulares, com as janelinhas dos écrans a abrirem outras narrativas ao cérebro de cada um.
Comodamente sós.

Tentei regressar a Jerusalém pela mão de Gonçalo M. Tavares mas não me apeteceu continuar a ler. Depois daquele pedaço de drama na calçada aquela literatura pareceu-me pouco.
Liguei o computador. Passeei um pouco, mas nada. Chatice.
A minha filha foi para a cama (terá sonhado com vizinhos cabeçudos a tentarem derrubar a floresta da Amazónia à marrada?)... tudo normal.
Lembrei-me das tulipas que plantámos num vaso da varanda! Fui vê-las e... caramba!!! O milagre dera-se entretanto. Sumptuosas, orgulhosas da sua beleza natural, lá estavam as flores, empertigadas até ao céu que só elas são capazes de alcançar.
Porra, como fora capaz de esquecê-las? A Primavera não chegara com a morte do gato à porta de minha casa, já ali estava, na varanda, só que eu, distraído pela morbidez quotidiana, nem reparara!!!
Quando chegar a casa vou fotografá-las para as mostrar ao mundo.

Terão os meus vizinhos tulipas amarelas na varanda?
Sonham os andróides com carneiros eléctricos?
Será que o gajo das cabeçadas chegou a partir a cabeça?

sábado, março 04, 2006

Se...

E se a imagem que temos do Islão não for mais que um tremendo logro? Se por trás daqueles gajos enfurecidos e assustados com os castigos divinos houvesse um bairro repleto de famílias a passearem ao sol carrinhos com bébés redondinhos de chucha da Chicco entalada nos sorrisos?
E se os prédios que se vislumbram em fundo, para lá dos turbantes saltitantes, estiverem repletos de electrodomésticos made in Germany e brinquedos de plástico made in China, com donas de casa em avental absortas das coisas que fazem a vida, mergulhadas na trama de um novela indiana?
E se por trás da ignorância e do fanatismo religioso houver pessoas capazes de fazer o almoço sem estar a pensar na melhor maneira de fritar os miolos a um inimigo imaginário?
E se a imagem que recebemos do Outro, do Árabe, não fosse mais que uma construção falsa, ainda por cima insípida e falha de imaginação?
E se a imagem que temos de nós próprios fosse, também, produto artificial de uma sociedade tablóide?
E se, para cúmulo dos cúmulos, Deus, afinal, existisse e resolvesse vir pôr ordem nesta merda toda? Com uma bomba atómica em cada mão...