sábado, julho 11, 2026

Fazer como o Lobo Mau

     A cada dia que passa o Mundo incha um pouco mais, aproxima-se mais um pouco do rebentamento... PUM!!! É como quando enchemos um balão. Percebemos bem o momento em que está demasiado cheio, o momento em que o estoiro se torna inevitável a menos que paremos de continuar a soprar, a soprar, a soprar. Mas não paramos. Instala-se em nós um nervoso miudinho, a sensação de que, a qualquer momento, iremos sentir o balão a explodir. Antecipamos o som, o aparente desaparecimento do balão, tudo aquilo nos causa uma apreensão infantil. Sabemos que estamos a fazer merda, que estamos prestes a provocar um desastre mas não temos como evitá-lo, é mais forte do que nós. E fazemos como o Lobo Mau. 

sexta-feira, julho 10, 2026

O puto e o envelope.

     Tudo começou quando, ao pretender aparar a barba, me enganei no pente que apliquei na máquina e dei por mim a rapar o queixo. Primeiro olhei os pêlos brancos que caíram sobre a toalha com que revesti o lavatório (para evitar entupimentos desnecessários). Eram compridos "e muito brancos", pensei. Depois olhei o espelho e vi aquela desmatagem criminosa que abria um sulco enorme, do meu pescoço ao lábio inferior. Foi com tristeza que constatei a inevitabilidade de rapar a tromba toda, a menos que pretendesse ser alvo de olhares mais ou menos furtivos e chacota e reprovação social absoluta, caso decidisse deixar ficar a coisa tal qual estava naquele preciso momento. 

    Lá foi a barba.

    Quando terminei a penosa função olhei e vi-me como já me não via fazia muito tempo: sem barba. Reconheci perfeitamente a minha cara mas não gostei do que vi. Vi a pele do meu pescoço e não gostei; vi os cantos da minha boca e não gostei; vi a curva do meu queixo e também não gostei. Eu sabia que havia de estar envelhecido mas não tinha a noção de como estava envelhecido. Um gajo não tem de gostar ou deixar de gostar, as coisas são como são. Mas, enfim, aquele velhote chateou-me.

    Já lá vão uns dias, a barba vai regressando. Voltarei a poder fingir que aqueles tipos que aparecem na TV e têm a mesma idade que eu estão muito mais acabados, "eu tenho aquele aspecto?" Claro que tenho aquele aspecto. Estou velho, já não sou aquele gajo jovem, convencido que era muito bonito, armado em bom. Esse puto já lá vai, transformou-se naquilo que hoje me transporta. Ambos mudaram radicalmente, o puto e o envelope. 

quinta-feira, julho 09, 2026

Moral da história

     O destino do cidadão contemporâneo é o de ser manipulado. Para que essa manipulação possa acontecer de um modo eficaz, cada um de nós é espiado com desvelo e minúcia, ajudando os espiões que enfiam a penca onde não são, aparentemente, chamados. É sucesso garantido quando o espiado abre a porta e serve chá com bolinhos ao espião. É o que nós fazemos. Todos os dias, a toda a hora.

    Somos vítimas de nós próprios, é um absurdo, é kafkiano; fornecemos a lenha para as fogueiras onde nos grelham e ainda manipulamos o abanador de modo a que as brasas não esmoreçam. Alimentamos os algoritmos que, por sua vez, se alimentam de nós. No fim ganham os de sempre, sempre os mesmos. E nós? Tudo bem, não me posso queixar.

domingo, julho 05, 2026

Tolice silenciosa

     Quando um gajo escreve de rompante, a teclar o mais rapidamente que é capaz, a perseguir as ideias como um cachorro à solta num galinheiro, a tendência para escrever enormidades ou dissertar de forma pedante sobre os mais variados (todos os) assuntos cresce de forma exponencial. Recordes são batidos.

    É o que me acontece com alguma frequência quando escrevo estes posts no 100 Cabeças. Nem sempre o faço, mas quando releio certos textos (ao menos são curtinhos) apercebo-me de tanta patacoada que chego a ruborescer uma vez por outra. Um gajo pode ser mesmo parvinho e atingir níveis de imbecilidade bastante preocupantes. Podia não escrever nada e resolvia um problema ocasional mas isso não é bem uma opção, não sei explicar porquê.

    Assim como assim, estes textos também não são lidos por muita gente (provavelmente nem por pouca) daí que não venha grande mal ao mundo por insistir nesta desordenada sementeira de ideias. Sementes leva-as o vento da zumbisfera (que assobia nas vielas desertas, nas janelas fechadas e nos crânios de alguns certos animais, primeiro mortos, logo depois abandonados).

sábado, julho 04, 2026

Felicidade e Liberdade

     Não imagino um espaço capaz de proporcionar alegria aos que o habitam se não existir nele liberdade de expressão. A alegria pode encenar-se, pode representar-se, macaquear-se, pode-se trapacear de muitos modos diferentes aquilo que mostramos aos outros, mas cá dentro, no escuro do peito, a verdade dos sentimentos nunca mente. Sabemo-lo bem.

    Fingir a felicidade acontece muito, é uma das mentiras mais comuns que por aí andam. Umas vezes por piedade, outras por maldade, umas vezes por estultícia, outras por razões maquiavélicas, a felicidade representa-se muito. Sente-se pouco? 

    Há quem diga não saber o que isso é, a felicidade; há quem reclame para si um estado de enlevo permanente por sentir-se próximo de uma divindade qualquer; há quem afirme que o poder económico que alcançou lhe permite comprar tantas coisas, inventar e suprir tantas necessidades, que aquilo que sente só pode ser felicidade. Situações tão distintas, pessoas tão diferentes umas das outras, vidas totalmente opostas, culturas, religiões, civilizações separadas no tempo e no espaço, milhentas formas de vida uma única sensação em falta, ou no horizonte, ou no pensamento, um anseio comum que se persegue e sempre nos escapa: a felicidade.

    Seja como for ou onde for, não sou capaz de conceber a possibilidade de se ser feliz num espaço social onde não haja total e absoluta liberdade de expressão. Diria mesmo que é impossível explicar o conceito de felicidade caso nos seja proibida, nem que seja, a mais pequena e insignificante das palavras. 

    Felicidade e liberdade, não serão sinónimos mas são, indubitavelmente, palavras da mesmíssima família. 

quarta-feira, julho 01, 2026

Felicidade visual

   


    Depois de muito reflectir sobre a possibilidade de existir uma metáfora visual da felicidade, uma coisa que se veja e possa transmitir toda a força desse sentimento fugidio, chego à conclusão de que existe, de facto, tal metáfora. É o smiley clássico, uma circunferência amarela com duas bolitas negras e um arco curvado a imitar um sorriso. Simplicidade absoluta, máxima eficácia comunicacional.

    Vejo um grupo de rapazes adolescentes subindo para um autocarro que os levará à praia. Irradiam felicidade. Já anteriormente me tinha ocorrido que é muito mais fácil perceber visualmente a felicidade alheia do que a nossa própria felicidade. Olhando estes rapazes vejo-lhes a felicidade nos gestos, nos sorrisos, na forma meio atolambada como falam uns com os outros, a felicidade a baralhar-lhes o coração com a boca. 

    Resolvo deste modo um problema que me vinha ocupando a mente nos tempos recentes. É a felicidade coisa que se veja? Sim, vê-se. 

terça-feira, junho 30, 2026

Devaneio à hora do almoço

     Para alguém que sinta a pulsão criativa, a necessidade de criar e comunicar, a liberdade de expressão é como se fosse oxigénio. Aqueles que, ainda que sejam amantes da liberdade, vivam de comercializar as suas criações, talvez não considerem a liberdade de expressão tão absolutamente necessária. Seja como for, estou em crer que uns e outros (e todos os demais) serão muitíssimo mais felizes caso vivam num sistema de organização sócio-política que preserve as liberdades fundamentais com a liberdade de expressão bem visível, protegida e enaltecida.

    Aliás, penso também que um sistema como esse é o que mais aproxima os cidadãos de uma sensação de felicidade (ou, pelo menos, faz com que acreditem nessa possibilidade). Mesmo que não tenhamos uma definição standard de "felicidade", ainda que cada um de nós sonhe com um amanhã cantor diferente do do vizinho, a perseguição de uma fada torna a nossa vida menos cinzenta. Perseguir uma nuvenzinha colorida através de um bosque de árvores que são, na verdade, flores gigantescas é mais motivador do que perseguir maços de notas numa floresta de betão (onde os animais te perseguem). Ou então não.

    Ou então habitamos um mundo onde os humanos são apenas aparentemente iguais, um mundo no qual apenas os sacos de pele e ossos que carregam os nossos cérebros e as nossas almas são semelhantes entre si. Dentro dos sacos viajam coisas completa e absolutamente dissemelhantes. Talvez que os princípios fundamentais do Zoroastrismo não sejam tão abstractos quanto possam parecer.

    Vou já em velocidade de cruzeiro e dirijo-me para lugar nenhum, como é meu hábito. Decido guinar em direcção à margem do discurso, encosto a barcaça e salto para terra firme. Talvez beba uma imperial na esperança de matar o calor. 

segunda-feira, junho 29, 2026

Falhanço

     Esta manhã nasceu a minha sobrinha-neta. Comovi-me até às lágrimas quando soube da notícia mas não consigo deixar de pensar: coitadinha. Que merda de mundo em chamas vamos deixar-lhe, a ela e ao irmãozinho, 4 anos mais velho. 

    Desde os meus 40 anos, ou por aí assim, decidi que a vida fazia todo o sentido. Decidi que o sentido da vida seria deixarmos aos vindouros um mundo melhor e uma sociedade mais justa. 

    Vejo a degradação cavalgante das condições de habitabilidade do planeta e a ascensão insidiosa dos novos fascismos um pouco por todo o lado e penso: falhei (falhámos). A minha vida faz bastante menos sentido. Resta-me a convicção de que ainda posso influenciar algumas mentes no sentido de fazer valer a minha visão social. É pouco mas, seja como for, ainda é qualquer coisa.

domingo, junho 28, 2026

Vazio

     Nunca te sentiste cansado de estares aí, dentro do teu corpo? Nunca te apeteceu deitar a carcaça num sofá, numa cama, no chão, num lugar qualquer? Deitavas a carcaça e dela se desprenderia uma espécie de fumaça, uma pequena nuvem, qualquer coisa desse género, uma coisa que fosse a tua alma. E ficava por ali, a pairar, sem se afastar muito, não fosse o Diabo tecê-las.

    Seria então que, esvaziada a carcaça do teu ser, havias de sentir a grandiosidade do descanso mais absoluto, a ausência total de consciência, eras como um saco de plástico, como uma carroçaria enferrujada ou o crânio de um quadrúpede abandonado ao sol do deserto (buracos nos lugares dos olhos, ossada branca e quebradiça a sustentar, ainda, a cornadura). 

    Descansavas das coisas do mundo, descansavas de ti próprio, por momentos (minutos, horas, talvez dias!) não eras ninguém, nem eras nada. Apenas uma coisa inerte, nem sequer à espera. 

    Para ser sincero, nunca senti nada do que atrás ficou escrito. Este textozito (como tantos outros neste blogue) é apenas um exercício de escrita, um passatempo, uma coisa potencialmente estúpida ou vazia, como o corpo que nele se descreve e imagina. 

quinta-feira, junho 25, 2026

O artista no teu labirinto

     O artista abre-te as portas do teu próprio labirinto. Um labirinto com a forma das circunvoluções que te ajeitam o cérebro na caverna do teu crânio. Não queiras saber quem é o artista, como funcionam os seus processos de trabalho, de que cor são os seus olhos, que interesse pode isso ter? Não queiras abeirar-te dos penhascos da criação alheia, podes cair agarrado a um saco de vertigens.

    Já sabes que a obra de arte esconde segredos que são teus. É desses segredos que deves procurar os trilhos esconsos, os becos sem saída que a eles conduzem. O artista cria condições para que entres dentro de ti próprio, não queiras saber de que tecido é revestido o interior do seu coração, sente a textura do teu. O artista funciona como bússola, como enigma ou então é o arauto que te anuncia a identidade de alguém que habita a tua alma, alguém que sempre esteve à espera que lhe prestasses atenção. Até este momento.

quarta-feira, junho 24, 2026

Pensamento complexo (ou então simplório)

     Nós somos comunicação em estado puro e vivemos para comunicar.

    Aprendemos a falar a nossa língua e, desse modo, moldamos o mundo que nos rodeia; aprendemos os nomes das coisas, inventamos formas de os relacionar construindo significados novos, outras perspectivas, é um autêntico universo que nos alicia a sermos demiurgos. Construímos um modelo de realidade que sejamos capazes de suportar. Se não conseguirmos fazê-lo somos deportados para modelos de realidade construídos por outros, o que talvez não seja muito agradável. A riqueza de linguagem e o seu domínio são autênticos tesouros, as caixas de ferramentas que nos permitem existir e comunicar.

    Sabendo que somos comunicação em estado puro e que vivemos para comunicar! 

terça-feira, junho 23, 2026

A barriga do Tempo

     O gajo transportava uma barriga incrivelmente desajustada da pernitas, que eram finas, mal cobertas de uma penugem que não chegava a pelagem. A camisa de alças pendia-lhe mais de um palmo adiante dos calções (pretos, riscados a cinzento discreto, como os fatos de certos gangsters). Nos pés um par de sandálias daquele azul que parece estar sempre sujo, com três listas brancas a fingir adidas.  Deambulava elefantinamente entre os escaparates dos livros distribuídos por temas.

    Com as mãos sapudas atrás das costas, um gesto que lhe projectava ainda mais a pança por sobre o vazio, duas vezes estacionou a pesada figura defronte às prateleiras da livralhada dedicada a temas do turismo. "É para o que serve uma barriga assim" pensei, "para fazer turismo". O homem era óbvia e nitidamente bastante mais jovem do que eu era. Do que eu sou. Idoso.

domingo, junho 21, 2026

Dia de Verão

     Andava por ali mistério. Faces coradas, olhares constrangidos, frases curtas, quase inaudíveis. Ninguém queria comprometer-se com nada que pudesse vir a acarretar arrependimento posterior. Tudo, todas as coisas perdiam fulgor, pareciam-lhe desbotadas; coisa frágeis, absoluta ausência de estrutura, de coluna vertebral, tudo a pairar, como se a força da gravidade não importasse, como se houvesse uma suspensão temporária das leis de Natureza e das regras de convivência humana. Andava por ali mistério.

    Quis pedir uma cerveja fresca mas nem para isso teve coragem. Ficou calado, concentrou-se na leitura. A tarde havia de ser longa. 

quinta-feira, junho 18, 2026

Dissolução

     Vi-o no corredor, ia em direcção ao cais de embarque, Cais do Sodré-Cacilhas, se faz favor. Pareceu-me muito velho, curvado, a nuca coberta de cabelos brancos a abrir clareiras aqui e ali, uma pele avermelhada, muitas rugas, os passos meio arrastados. Passei por ele e pela mulher que o acompanhava. Entrei no barco, subi ao andar de cima, como sempre faço e sentei-me num lugar que pudesse proteger-me do sol, cuja luz começava a fazer-se sentir sob a forma de um calor incomodativo.

    Escrevia qualquer coisa no meu caderno de capa dura quando levantei os olhos por sob as sobrancelhas e dei de caras com o homem que parecia dissolver-se no espaço em volta. Estava sentado duas filas para lá da minha, do lado esquerdo do meu nariz, cadeiras de plástico cor-de-laranja. Agora podia vê-lo de frente e nem precisava de dar muito nas vistas.

    Tinha a boca sempre aberta, como se lhe custasse respirar, ou fosse parvo, ou sentisse um espanto permanente por se aperceber estar ainda vivo. A expressão facial parecia revelar uma profunda tristeza, uma espécie de gentil desistência ou simples ausência de alegria.

    Dei por mim a pensar que a desistência nem sempre constitui um acto negativo, que desistir pode carregar muita poesia neste mundo obcecado por vencedores de merda, vencedores a todo o custo, gente incapaz de sentir empatia por aqueles que derrota. Percebi que o homem que se dissolve à minha frente, afinal, não desiste, apesar da tristeza que dele se desprende. O homem não desiste, lá se vai a poesia.

terça-feira, junho 16, 2026

Monstro

     E se aquilo que eu sou não me saísse da cabeça e me atrapalhasse cada passo, me confundisse cada pensamento, engasgasse todas as palavras? Se aquilo que eu sou me fizesse imaginar todos os outros como espelhos onde se reflectisse a minha imagem monstruosa, o meu ser ser defeituoso, reprovação em cada olhar, um esgar de desconforto em cada rosto que o meu cruzasse? E se aquilo que eu sou me impedisse de imaginar a felicidade, me fechasse o coração, me lançasse num desfiladeiro de desespero a cada momento que passa?

    E se aquilo que eu sou fosse o Inferno? 

domingo, junho 14, 2026

O profeta manco

     Basta um tema para reflectir e logo se transforma em espelho. A memória já não se lhe organiza no cérebro como dantes se organizava. Talvez nunca se lhe tenha organizado de todo, não tem como confirmar esta percepção, mas imagina que dias houve nos quais conseguia viajar para trás no tempo sem que se perdesse logo ali, na primeira curva da memória. Seja como for, pensar para a frente não é coisa que o atrapalhe.

    Tem, no entanto, outro problema de difícil resolução. As ideias que lhe vão surgindo, as complexas conexões que encontra entre peças de tão diferentes proveniências que os encaixes seriam impossíveis de percepcionar por mentes menos aventureiras: postulados magníficos, surpreendentes leis que reorganizariam a nossa visão da natureza, todo um universo tão extraordinário que não há palavras capazes de o intuir, tudo isto ele esquece de imediato. Tão depressa vem o conhecimento, tão depressa se esfuma.

    Ainda esta manhã lhe fugiu uma arrasadora profecia. 

 

quarta-feira, junho 10, 2026

Coincidência

     Foi há precisamente 3 anos que deixei, aqui no 100 Cabeças, uma reflexão sobre exactamente o mesmo tema que vou agora abordar. Achei que devia sublinhar este pormenor pois nada me obrigava ou impelia a escrever um post sobre "verdade" e "realidade" só porque atravessava o dia 10 de Junho, o tal dia de chatear o Camões. A verdade é que o fiz, o faço, aconteceu, acontece uma enorme coincidência.

     O texto de hoje foi anotado há uns dias atrás, fruto da reflexão que venho fazendo sobre o tema da "felicidade". 

     Tal como há 3 anos, cheguei à conclusão de que aquilo a que chamamos "verdade" é algo individual, pessoal, parcelar e que a "realidade", pelo contrário, é total, impessoal, absoluta, indivisível. Penso ser plausível afirmar que a Realidade não resulta da soma de todas as pequenas verdades que constituem o mundo de cada um de nós, que é algo bem mais vasto, porventura infinito.

    Podemos falar de Realidade, assim, no singular, e dizer "verdades", no plural.

    A Realidade resulta da existência de tudo o que tem um nome, juntamente com tudo o que ainda o não tem e mais tudo o que nunca virá a tê-lo. Vai muito para lá da nossa capacidade de compreensão. Deus, a existir, seria (será) isso. Terá isto algo a ver com a felicidade? Seria uma grande, enorme, gigantesca coincidência.

     

terça-feira, junho 09, 2026

Oferendas

     Deus deu-me muitas coisas mas não me deu nada do que Lhe pedi. Talvez por isso não me sinta particularmente abençoado. Terei problemas de comunicação? Fiz os pedidos de forma correcta? Temo bem que não, ou então Deus é um malandreco e gosta de brincar comigo.

    A ideia de que Deus é uma espécie de super-homem (ou que o homem é uma espécie de mini-Deus) sempre me pareceu um bocado arrevesada. Vejo-O muito mais como uma nuvem ou espaço aberto, uma coisa incorpórea, diáfana, sem peso nem forma. Ou então algo absolutamente inimaginável, o que estaria bem mais de acordo com aquilo que Ele possa ser na eventualidade de ter algo que possamos designar por "existência".

    Daí que a minha relação com Deus seja uma impossibilidade, por não saber o que Ele é nem saber bem o que sou eu. Uma coisa aproximada da relação de Kris Kelvin com Solaris. Deus dá-me coisas que não Lhe peço e eu faço de contas que me estou a lixar para que Ele exista ou não. Ficamos quites.

sexta-feira, junho 05, 2026

A colecção

     As canecas não são bem minhas, foram-me oferecidas. É uma situação curiosa. Eu até nem acho graça a esses objectos mas, talvez por ter tantas no armário e nas prateleiras da cozinha, as pessoas que vêm a minha devem ficar a pensar que tenho algum fetiche por canecas. Não tenho.

    Aí estão elas. Tamanhos diversos e decorações variadas; canecas para leite, para chá, para cerveja, para água, sei lá para que mais, canecas, canecas e mais canecas, como um vírus, como uma praga alienígena, vão usurpando o espaço da minha casa com o meu beneplácito. Quantas mais entram mais vêm.

    Olho as canecas com um misto de desprezo e indiferença. Aceito a invasão. Sou um colaboracionista e não um prisioneiro. São coisas diferentes. Talvez um dia me transforme em caneca, mais uma peça desta colecção indesejada.

sexta-feira, maio 29, 2026

Perante a morte

     Um dia destes um gajo liga o jornal no telemóvel e lê: "Faleceu Anselm Kiefer..." ou "... Laurie Anderson faleceu ontem..." ou Mick Jagger, ou outro figurão qualquer da arte mais ou menos popular e pensamos... nada. Quando muito vem-nos à memória aquela pintura (!?) monumental, aquele tema extraordinário, aqueles saltos de gafanhoto (velho como as casas), mas o que pensamos nós? Pomos um "smiley" triste vertendo lagriminhas (um sadley?) no Facebook, escrevemos uma frase de merda, epitáfio pretensioso, mostramos o quanto ficámos combalidos com a recepção da notícia e... siga a marinha que tristezas não pagam dívidas. Somos muito assim, somos fogo de vista.

    Isto, partindo do princípio que iremos sobreviver a estas personagens que andam todas na casa dos oitentas e picos. Amanhã posso muito bem não ligar jornal nenhum, o meu telemóvel pode tornar-se um objecto inútil mais dia menos dia.

    A dor é intensa na razão directa da proximidade animal. Quero dizer, quando é alguém da família a coisa magoa à séria. Quando é um amigo chegado magoa um bocadinho. Quando morre um ídolo, sejamos sinceros, aquilo não chega bem a ser dor ou não chega a ser dor de forma nenhuma. Fico-me por aqui, evito ser malcriado ou, muito simplesmente, evito ser estúpido. Se é que ainda não fui.

quinta-feira, maio 28, 2026

É a felicidade uma coisa que se veja?

     A felicidade pode ser coisa que se veja, que se sinta, que se cheire, que se ouça, que possa saborear-se? A felicidade manifesta-se de algum modo que nos permita apreendê-la, medi-la, sopesá-la? Podemos ser mais ou menos felizes neste dia do que fomos num outro? Como podemos responder se não estamos sequer seguros de que o motivo da questão exista?

    Quando tento reflectir sobre a felicidade toda a reflexão me surge na forma de perguntas. Respostas, se as consigo verbalizar, são sempre conversas mais ou menos poéticas.

    Ontem fiz uma descoberta pouco extraordinária. Tive a sensação muito forte de que a felicidade é como são as fadas e as bruxas, que existem se acreditarmos nelas. No caso das fadas verbalizando a nossa crença (acredito em fadas, acredito em fadas, acredito em fadas), no caso das bruxas temendo-as embora admitindo que não existem mas tendo consciência plena de que as há. As há!

    Pensei ainda que as fadas são metáforas da felicidade. Convém que afirmemos alto e bom som que a felicidade existe (acredito na felicidade, acredito na felicidade, acredito na felicidade) caso contrário as bruxas ficam com caminhos abertos em direcção a este mundo que habitamos.

quarta-feira, maio 27, 2026

Estupefacção infinita

     A nossa relação com a Eternidade é do mais simples e puro pavor. Mesmo aqueles de entre nós que imaginam a Eternidade como algo potencialmente positivo, após alguma reflexão mais demorada encontram sempre motivos para ficar, no mínimo, apreensivos. Sendo nós essencialmente perecíveis como podemos encarar uma existência inesgotável?

    O Tempo está para lá da nossa capacidade de percepção. Alguém pode afirmar sinceramente ser capaz de compreender o Infinito? Alguém é capaz de imaginar algo que não seja contido por alguma coisa? O Universo em expansão dá cabo de mim.

segunda-feira, maio 25, 2026

Notas muito soltas

     A mera existência de uma coisa é o seu principal fundamento. Penso que o espelho seja um exemplo do que pretendo dizer. Ou um lápis, ou um automóvel, ou a lâmina de uma faca a brilhar numa noite de lua quase, quase cheia. Amanhã sairão os licantropos e a navalha, hoje ameaçadora, será absolutamente inofensiva.

    "A transformação de um homem num artista e, depois, do artista em arte." Um homem que muda para ser um outro homem, para vir a ser um objecto, um homem que dispersa a sua alma no mundo, ora perdido, ora por outros homens encontrado. Um homem pendurado na parede, erigido em torre de marfim, apontado às nuvens nas montanhas da Babilónia. Um homem que não quer ser a escultura que liberta do bloco de mármore mas não tem como evitá-lo.

    Por qualquer razão que me escapa, quando procuro imagens que ilustrem a sensação de felicidade surgem personagens de braços abertos, uma perna esticada e outra flectida ou com as duas pernas no ar elevadas num pinote. O fundo pode ser um céu muito azul ou uma espécie de pôr-do-sol (neste caso a figura resume-se a uma silhueta), a coisa varia muito pouco. E quando faço a pesquisa num motor de busca, mesmo variando a língua (experimentei português, ucraniano, persa, japonês, etc) o resultado é sempre semelhante. 

    

Fantasmas apaixonados por formosas fantasias

     Fantasmas apaixonados por formosas fantasias: esta frase parece o título de um episódio de um podcast dos Gato Fedorento mas não deixa de ter uma certa cadência musical, um ritmo que não sei especificar. Talvez pudesse contar sílabas e essas coisas que se fazem para se saber se um frase é isto ou, pelo contrário, se é aquilo, mas não sei como o fazer nem sei se alguma coisa do que escrevi faz algum sentido.

    Fantasmas apaixonados por formosas fantasias: terminei o post anterior com esta frase e, por gostar da forma como ela se desloca no meu cérebro, dei por mim a fazê-la título deste post. Muito bem, tenho um título mas não sei ao certo o que fazer com ele. Como tal, acabo a escrever isto.

    Fantasmas apaixonados por formosas fantasias: somos nós, os seres humanos. 

domingo, maio 24, 2026

Morel

     O que inventou Morel? Inventou uma maquineta tenebrosa, capaz de fritar a existência de todos (de tudo?) aqueles que ficassem ao alcance dos seus sensores e sistemas de registo. Na ânsia de preservar eternamente a felicidade proporcionada pela convivência entre pessoas que se amam (ou que, pelo menos, são unidas por sentimentos de amizade), Morel mumificou todos e cada um dos que elegeu para o acompanharem naquela aventura insensata.

    Morel pretendeu imitar o Criador mas deu-se mal. Aliás, bem vistas as coisas, o Criador também não se saiu lá muito bem. Somos nós o resultados dos Seus esforços criativos? Morel e Deus, um par de falhados.

    O narrador da novela de Bioy Casares está vivo? De certeza? Pode muito bem ser um fantasma, uma alma penada, alguém que deixou de existir e passou a pairar num Purgatório sem saída. Nem Paraíso nem Inferno, o narrador de Casares está para sempre esquecido, perdido no labirinto de incongruências construído por Morel, apaixonado por um reflexo, nutre sentimentos profundos por uma coisa que os não tem.

    Seremos nós, todos nós, como o narrador de A Invenção de Morel? Fantasmas apaixonados por formosas fantasias? 

sexta-feira, maio 22, 2026

Existir

     Existir é isso mesmo: é estar, ficar, permanecer. Existir é sinónimo de ser (tinha escrito um pequeno texto justificando esta minha opinião mas confirmei que estas palavras são, de facto, sinónimas, portanto é uma boa oportunidade para ficar calado a esse respeito).

    Existir é isso mesmo: ficar, estar, permanecer como as florestas, como as montanhas ou o céu que as envolve. Já os outros seres vivos (são as montanhas seres vivos ou nunca chegam a ultrapassar a categoria "divindade"?), os seres que têm capacidade de deslocação, os seres que hoje estão aqui e amanhã estão ali, esses, que não páram quietos, acabam por ter existências mais fugazes e menos completas. Consomem-se nas vitórias diárias que alcançam quando vencem a distância entre dois pontos cumprindo desse modo trajectos e destinos. Nascimento, vida e morte, locais diferentes, quase sempre.

    Uma floresta também morre (tal como os deuses, as florestas não são eternas) mas as razões que levam ao seu desaparecimento são de categoria diversa. Quando o cão morre acaba o universo para as pulgas que o parasitam? Não tenho bem a certeza mas, estou em crer, que as pulgas encontrarão solução adequada que lhes permita perdurar. Outro bicho.

    Existir é também imaginar, é também ser o que não se é. Ser potência, fantasma, possibilidade. O imaginado permanece. Enquanto habitar a mente humana Dom Quixote não morrerá nunca. Nem Ulisses, nem Jeová, nem o Snoopy. Poderão ser um dia substituídos mas permanecerão algures, num limbo qualquer, aguardando oportunidade de regresso. Existir também é isso.

quinta-feira, maio 21, 2026

Um desenho

     A felicidade é uma viagem. O importante não é tanto de onde vimos ou para onde vamos, o que importa, de facto, é o que nos vai acontecendo. Sabemos que vimos do ventre da nossa mãe e que vamos na direcção do imenso adeus e, em princípio, aspiramos à felicidade.

    Fazemos o trajecto como se fazem aqueles desenhos com uma só linha contínua, sem levantar o riscador da superfície de suporte. Marcamos no mapa da vida a forma da nossa felicidade. Quando algo de ruim acontece e nos vemos obrigados a suspender o gesto, a levantar o riscador da superfície onde riscamos a nossa felicidade, vivemos momentos de angústia, momentos de incerteza: ai Jesus, valha-me Nossa Senhora!

    É suposto que à medida que vamos vivendo sejamos capazes de um maior comprometimento com a felicidade que nos permita adquirir uma certa sageza, uma certa gravitas, tudo coisas associadas ao embranquecer das cabeleiras. Isso pode ou não acontecer e, eventualmente, influenciar a nossa forma de estar no mundo. Podemos tornar-nos animais perigosos ou nem por isso, depende do grau de loucura que o mundo nos vai injectando na alma.

    A felicidade é um desenho.

quarta-feira, maio 20, 2026

Made in China

     Um desenho em formato A3 isolado é uma coisa. Integrado numa muralha de 100 desenhos com o mesmo formato transforma-se noutra. Terá algo a ver com o indivíduo e a multidão, a árvore e a floresta e por aí fora?

    A percepção que as pessoas têm dos objectos artísticos é uma coisa extremamente variável, volúvel e escorregadia; plástica? É a plasticidade de significados a razão para designarmos certas artes como sendo plásticas? Ou tem a ver com a maleabilidade dos materiais aplicados?

    Seja como for tenho sempre a impressão de que a palavra "plástica", quando surge associada às artes, está relacionada com a reacção do plástico a uma fonte de calor. O derretimento, a alteração da forma conforme certas forças aplicadas de determinada maneira, o jogo com os materiais como o gato que joga com o cadáver do pardal ou do rato antes de os abocanhar, antes de os comer, antes de os transformar em algo que, mais do que seu, passa a fazer parte do seu corpo, energia vital. O que não for aproveitado há-de ser cagado.

    São plásticos os materiais, são plásticos os significados, é plástico o nosso corpo. Plástica a vida, plástico o mundo, enfim, tudo é plástico e o plástico tende a ser tudo. Um dia todo o Universo terá sido transmutado em plástico. Made in China.

terça-feira, maio 19, 2026

Julian Barnes

     Julian Barnes, Julian Barnes... o que dizer de Julian Barnes? Eu sei lá, tanta coisa pode ser dita que não faço a mínima ideia do que possa dizer. Afinal de contas é alguém que não conheço minimamente. Lá porque li dois ou três, ou meia dúzia de livros por ele escritos... a verdade é que não sei nada sobre ele. Claro que não. Não sei nadinha de nada.

    Julian Barnes é um escritor cujas obras me fazem sentir um pouquinho mais inteligente quando as leio, um pouquinho mais inteligente do que normalmente sou. Não será nada de extraordinário mas é tudo o que tenho a dizer a seu respeito, Julian Barnes. 

sexta-feira, maio 15, 2026

Selfie

     Estão sérios como carapaus no gelo da peixaria. Manipulam o telemóvel (inteligente, decerto) até o pendurarem num gesto que o deixa à altura do nariz, palmo e meio de distância e, de súbito, vindo do nada, um rasgão abre-lhes a tromba na horizontal. Dizem que é um sorriso mas não é. É uma mentira. É uma pose, um esgar.

    Os autorretratos com telemóvel (as selfies) implicam uma espécie de auto-consciência dolorosa. Cada um lá sabe o que lhe vai na alma quando segura o objecto com a finalidade de se registar. Clique. Já está. A sincronia é perfeita, no momento do clique abre-se o rasgão, expõe-se a ferida provocada pelo simulacro de felicidade. Como se precisássemos de mostrar a dentuça ao telemóvel, talvez para não o ofendermos; pedimos-lhe uma selfie, somos obrigados a colaborar. Aquele esgar é o pagamento exigido pela máquina.

    Uma selfie leva-nos a tomar atitudes mecânicas, aproxima-nos do telemóvel, fundimo-nos por um momento fugaz, humano e telemóvel irmanados num registo, uma memória, uma atitude salutar de partilha de inteligências.

quarta-feira, maio 13, 2026

O amor

     O amor é uma tisana, um placebo, um auxiliar, uma prótese da alma. Uma bengala.

terça-feira, maio 12, 2026

Fôssemos nós o que não somos

     Fôssemos nós como os cães, teríamos a ira do dono a recear . Fôssemos nós como os gatos,  teríamos apenas de recear a morte, caso dela tivéssemos alguma consciência. Fôssemos nós como os melros.

    Fôssemos nós como os pássaros, talvez o vôo fosse alegria completa; talvez sonhássemos ser como os mamíferos. Fôssemos nós como as lesmas. 

    Fôssemos nós como as árvores. Existir, contemplar o espaço em volta, o tempo todo dedicado ao pensamento. Fôssemos nós carvalhos, pinheiros, sobreiros, tivéssemos nós tanto tempo que não soubéssemos o que o tempo é. Fôssemos nós como a terra.

    Fôssemos nós como céu, como as nuvens, fôssemos nós espaço sideral.

    Deus não nos criou à Sua imagem e semelhança.

segunda-feira, maio 11, 2026

Rotina extraordinária

    A vida das personagens que habitam um filme, tomemos Blade Runner como exemplo, é uma metáfora da rotina total e absoluta. São vidas suspensas que se animam de cada vez que um espectador entra em contacto com elas. E repetem exactamente a mesma sequência de acontecimentos, no tempo exacto que tinham durado na anterior ocasião em que tudo aquilo voltou a acontecer. 

    Por muito extraordinária que tenha sido e continue a ser a vida de Roy Batty, ela repete-se sempre da mesma forma, sob a mesma luz, as mesmas frases grandiosas, o mesmo final melancólico. Entretanto Rutger Hauer faleceu mas Batty perdura. A personagem é aparentemente imortal.

    Blade Runner é uma rotina extraordinária. Uma narrativa é sempre uma suspensão à espera de uma alma que a contacte e reponha em movimento, todas as personagens são fantasmas, todos os espectadores (ou leitores, ou ouvintes, seja lá qual for o processo que permita o contacto entre alguém e alguma coisa) são animadores de coisas que hibernam.

domingo, maio 10, 2026

Dúvida existencial

     De vez em quando acontece. Vem de um lado ou do outro, é coisa disparada de tão perto que nem se percebe de onde vem e atinge-me mesmo, mesmo no meio da testa, pelo lado de dentro.

    Plóóóóóófe!

    O som produzido pelo impacto daquilo com o meu humor é assim, prolongado, indefinido, como se fossem caixotes de pão-de-ló a caírem lá ao fundo, num armazém acolchoado. 

    Talvez pluuuuuuuuf seja uma onomatopeia mais adequada.

    Aquilo bate e deixa-me meio perplexo, deprimido. Talvez por não perceber o que se passa. Talvez essa seja a razão para que tantos de nós tomem anti-depressivos de modo a conseguirem aguentar-se à bronca: não percebermos o que se passsssssa. Talveeeeeeez...

    

sábado, maio 09, 2026

Profecia

     Aparentemente estamos bem arranjados! Estamos fritos, não cozidos, fritos em azeite a ferver, temperados com malaguetas arrepiantes e umas rodelinhas de cebola para puxar ao sentimento, libertar a lágrima hesitante.

    Cada vez mais ouço opiniões de seres humanos que, como eu, perspectivam um fim próximo para a nossa espécie tal como ela se nos apresenta nos dias de hoje. Concordo quase sempre. Ouvi aqui há dias um (penso que era inglês ou seria cidadão dos EUA?) gajo qualquer a dizer exactamente aquilo que me parece, irá acontecer, uma profecia do caraças!

    Não será a nossa espécie que acaba mas sim esta civilização, este modelo de organização capitalista que enforma a sociedade global. Haverá sempre algumas bolsas de sobrevivência, pequenas comunidades agrárias que irão prevalecer, sementes de Humanidade. Decresceremos brutalmente em número mas ficaremos por aí, à espera que o tempo faça o seu trabalho e, tal como um vírus paciente, possamos voltar a declarar-nos a espécie dominante; até que, alguns séculos depois, a coisa dê outra vez para o torto.

    Quantas vezes terá isto acontecido na História do nosso planeta? Quando esta civilização colapsar restará dela alguma memória activa? Nunca o saberei. Nem tu, amigo leitor. O futuro a Deus pertence. 

quinta-feira, maio 07, 2026

Viajante intelectual

    As coisas raramente são aquilo que parecem. Mesmo uma pedra, até uma folha em branco. O mundo é uma metáfora do camaleão. E o camaleão, já se sabe, move-se lentamente e tem uma língua muito rápida. E pegajosa.

    Desejas estar só, logo surge uma turba animada e barulhenta para te fazer companhia. Desejas companhia... pois, está-se mesmo a ver. O Pateta! Sim, o Pateta é a verdadeira imagem, quero dizer, o mundo é uma metáfora do Pateta. Eventualmente do Super-Pateta. 

    Agora sim, fico satisfeito com o resultado da reflexão que me ocupou durante tantos anos. Finalmente consigo aproximar-me de uma conclusão, o meu pensamento faz sentido. Sou marxista, facção Groucho.

    Arrumo as ideias na maleta onde normalmente transporto o enfado e preparo-me para abandonar este lugar. Imagino-me um pateta camaleónico incapaz de concluir uma narrativa, incapaz de traçar uma linha de pensamento que conduza a algum local que não seja um súbito precipício. Arrumo também o espelho. A maleta continua leve. Decido seguir viagem.

quarta-feira, maio 06, 2026

Verdade e realidade

     A coisa aconteceu, foi o que se viu e tu estavas bem no meio da confusão. Assististe a tudo, soubeste porquê, estiveste envolvido. Veio-te ao nariz o perfume ácido da violência, o sangue a deslizar-te nas veias como se fosse lava, como se fosses vulcão. Não há cliché neste mundo que te possa incomodar, tens uma história e vais contá-la. Tu és o herói.

    A cena tem potencial, as pessoas interessam-se. Há um momento prévio que envolve vagas sugestões de sedução, um vislumbre de sexo é sempre um bom acelerador da curiosidade alheia. Depois entras tu: vinhas animado por uns copos valentes, disseste umas coisas brutalmente espirituosas; está lançada a narrativa .

    De cada vez que a contas, a história ganha consistência, faz mais sentido. É como se a passagem do tempo lhe conferisse credibilidade, como se lhe varresse o chão e limasse as arestas. As frases que não compreendeste, as coisas que não ouviste ou das quais nem sequer te apercebeste, ganham contornos definidos, são fixadas pela repetição, melhoradas pela arte da palavra. É como se tivesses pintado um quadro que retocas de cada vez que voltas a expô-lo, convencido de que as alterações o tornam melhor, mais nítido, mais verdadeiro!

    Agora percorres o país, promoves colóquios, és convidado para conferências. És a estrela do teu próprio filme. Aceitas convites com um misto de vaidade e enfado, recusas outros com alguma sobranceria, há um certo prazer em dizer "não". Sentes-te maior a cada novo dia. Os factos da tua história são coisas já tão longínquas que passaste a acreditar piamente na narrativa que fixaste e repetes até à náusea. É a mais pura de todas as verdades.

    Olhas a plateia e mais uma vez te apercebes de que a realidade é algo que não existe. Sorris, aclaras a garganta, verificas se o microfone está "on": "naquela noite desci a rua a cambalear..."

domingo, maio 03, 2026

Havemos de comer todas as pedras

    Uma a uma, irmanados em gloriosa jornada de luta entusiástica, havemos de comer todas as pedras.

    Assim mataremos a fome que muitos julgavam infinita. 

    Comidas as pedras pouco restará do planeta.

    Pouco restando do planeta não tardará que a dor e o sofrimento percam o fulgor que hoje têm.

    "Mas como, irmão, como será isso possível?" grita a multidão desorientada.

    Sem planeta não há Humanidade: eis a cruel e definitiva resposta.

    Sem Humanidade dor e sofrimento terão de expressar-se de outro modo.

    "Oxalá não tenham para tanto imaginação suficiente!", gritamos em uníssono. 

    Havemos de comer todas as pedras. - repete o sacerdote.

     

sábado, maio 02, 2026

Odiar ou amar?

     Um gajo começa a estar farto desta merda. O tempo passa e as condições de vida não ficam melhores, antes pelo contrário. As promessas feitas são tão evidentemente extravagantes que um gajo nem lhes liga. Deixar um mundo melhor para os que vierem depois de nós? Esqueçamos tal objectivo. A vida perde sentido.

    É tão fácil odiar. Quando odiamos alguém ou alguma coisa encontramos razões e motivos para alimentarmos o nosso ódio a cada passo que damos. É tão fácil. Já amar revela-se  algo bem mais difícil. Do mesmo modo, é tão fácil dizer mal do mundo, encontrar e apontar-lhe os evidentes defeitos, fazer o discurso azedo dos derrotados da vida. Difícil, difícil, é construir uma visão construtiva do que nos rodeia mesmo quando tudo para desfazer-se em merda. Muito sinceramente, não estou a ser capaz de o fazer.

    Não consigo odiar; o máximo que alcanço é o desprezo. Tenho dificuldades em amar quem não seja do meu círculo familiar mais estreito; o máximo que alcanço é um certo perfume de afeição. 

terça-feira, abril 28, 2026

Loucura

     Aproximou-se coxeando de uma forma impossível. As pernas muito largas, enfaixadas nos tornozelos, moviam-se pesadamente mal afastando do chão as solas dos sapatos. Não consigo explicar porquê, mas aquilo parecia resultado de laboriosa encenação. Ao mesmo tempo era absolutamente plausível que alguém com tal corpulência arrastasse os pés e coxeasse como aquela mulher fazia, ainda que um leve sorriso lhe surgisse e fugisse dos cantos da boca como se provocado por discretas descargas eléctricas.

    Aproximou-se e parou à distância de uma curta conversa. 

    "Tenho pessoas pequeninas dentro da cabeça que, vai-não-volta, me contam anedotas que não sou capaz de compreender." Disse isto de um fôlego sem despegar de mim uns olhos arregalados que não pestanejaram nunca, como se me estudasse atenta e alucinadamente. Sustentei a coisa o melhor que pude o que lhe permitiu abertura suficiente para concluir: "não compreendo as anedotas mas acho-lhes graça." Fiquei a olhá-la, os dois ali especados no meio do passeio, no meio da calçada, o sol ainda dócil por vir longe o meio-dia.

    Pensei em sair dali para fora, para longe do incómodo que aquela situação me provocava, pensei em afastar-me do que imaginei ser loucura absoluta. A mulher inclinava-se ligeiramente sobre o seu lado direito; talvez o manquejar não fosse mentiroso. Tenho uma imaginação capaz de me pregar certas partidas. Talvez ela compreendesse muito bem o que se passava dentro da minha cabeça. Talvez ela percebesse o que eu estava a pensar naquele preciso momento. Ou talvez não fosse nada disso o que a levou a declarar entre soluços: "quando choro, as minhas lágrimas vêm todas sujas de raiva."

    Virei costas e fui à minha vida. 

segunda-feira, abril 27, 2026

A Revolução da Primavera

     Passou mais um dia 25 de Abril e, mais uma vez, eu e a Ana fizemos a Avenida da Liberdade por ali abaixo. Participar no desfile, se bem que de forma muito discreta, faz parte das nossas vidas. É uma festa, uma coisa bonita e comovente. As pessoas sentem-se felizes, são milhares e milhares de pessoas felizes que exteriorizam sentimentos positivos. É mesmo bonito de ver e de viver.

    De manhã tinha assistido na TV ao discurso do André fascista na Assembleia da República. O contraste não poderia ser maior. O gajo é só fel e sentimentos retorcidos. Vontade de proibir, de impor regras porque sim e regras porque não. Quer ajustar contas que nem sequer são dele. Chega a meter dó, com o seu cravozito verde tricotado sabe-se lá por quem.

    O espírito de Abril, com o passar do tempo, é cada vez mais primaveril. A Revolução é como a Primavera.

quarta-feira, abril 22, 2026

O bicho

     Não sei  bem se possa considerar como problema o facto de nunca ter ambicionado nada muito mais além do que aquilo que vejo, nada muito maior do que aquilo que possuo, não tenho a certeza de que a ausência de ambição possa ser classificada deficiência de carácter. 

    Há dias, como o dia de hoje, em que sinto um bicho cá dentro, encostado ao meu coração, a pressioná-lo, a aproximá-lo um pouco da garganta provocando uma leve falta de ar que me obriga a um suspiro. Profundo. Logo depois já me anda a esgravatar as circunvoluções da massa encefálica, procura alguma coisa que desconheço, é um bicho inconveniente, convocado vá-se lá saber por que forças abstrusas, animado por estranhos e secretos desígnios.

    O bicho faz-me desejar algo maior, algo mais grandioso, algo mais longínquo, o bicho desassossega-me. Ou se vai embora ou ainda transforma um dia que se previa calmo e rotineiro numa coisa angustiante, algum desejo megalómano a desabar vindo lá do alto dos meus sonhos. A cair, a cair, o precipício dentro de mim é infinito.

    Há dias, como o dia de hoje, em que gostaria de encontrar as bruxas que lixaram Macbeth. Ouvi-las, ansioso por saber se o escuro destino me reserva algo mais do que aquilo que sou capaz de imaginar. 

terça-feira, abril 21, 2026

A guerra é a guerra

     A pressão é enorme, o escrutínio é constante, um gajo diz uma merda qualquer, deixa uma graçola imbecil numa rede social e... já foste! Um pacóvio tão pacóvio como ele repara na coisa e está feito ao bife. A partir de agora acabou-se-lhe a paz. É A GUERRA!

    Um gajo recebe mensagens parvas a toda a hora. Acorda indignado, toma doses cavalares de sarcasmo ao pequeno almoço e passa o resto da manhã a dar respostas manhosas enquanto continua a suportar saraivadas de comentários ácidos. Almoça e, durante a tarde, a coisa não amaina nem melhora. Tungas, tungas, tungas, aqueles camelos a baterem no ceguinho como se não houvesse amanhã! E depois chega a noite. Um gajo deitado na cama, as luzes apagadas, apenas iluminado pelo écrãzinho maravilhoso, pela janelinha aberta sobre o mundo virtual, esse lugar mágico onde tudo acontece. Responde, responde, responde.

    O sono acaba por vencer, o telemóvel fica sem bateria, a imaginação nunca foi muito abundante. Um fiozinho de baba escorre do canto da boca para a almofada. O mundo está em repouso, o guerreiro descansa. Amanhã será um outro dia, um dia muito parecido com aquilo que este foi, outra jornada intensa repleta de batalhas, lutas e escaramuças. A guerra é a guerra. Qual foi a razão que despoletou isto tudo? Um gajo já nem se lembra... e isso interessa?  

segunda-feira, abril 20, 2026

Estar frito

     Ao que consta, os EUA estão a um passinho de bebé de virem a declarar-se um Estado Cristão. Pois, tal como qualquer Estado Islâmico ou coisa que o valha. Uma coisa é sê-lo, outra parecê-lo e, agora, outra coisa ainda é declará-lo. A declaração oblitera por completo o parecer e confunde um pouco o ser. Seja lá como for, teremos mais um Estado que irá reclamar a vontade de Deus quando for necessário justificar os desmandos alucinados dos seus líderes (enviados a este mundo por Deus, obviamente).

    O facto de os EUA possuírem o maior arsenal nuclear do planeta fica ainda mais incómodo. Agora esse arsenal passa a estar à disposição do Deus que pôs Donald Trump a cumprir um plano qualquer que ninguém compreende. Escolher Trump diz muito a respeito desse Deus e não inspira a mínima confiança aos que ainda não tomaram o ácido da crendice fundamentalista. 

    Temo que o Deus de Trump não seja o mesmo que os iranianos adoram e tenha algumas diferenças em relação ao Deus de Israel. Se estes três deuses são o mesmo, há uma evidente falha de comunicação entre o Outro Mundo e este, que habitamos. Se, pelo contrário, forem três deuses diferentes capazes de disputar a atenção e as almas de todos os seres humanos, então estamos fritos.

    Pessoalmente, há muito que desconfio da existência de Deus (ou de deuses). Mas, no entanto, desejo ardentemente estar enganado e torço para que exista apenas um Deus e que uma Revelação aconteça, mais dia menos dia. E torço também que, a existir, o verdadeiro e único Deus não seja Jeová. Se é ele, estamos fritos. 

domingo, abril 19, 2026

Um dia destes vai chover

    Várias personagens aguardam maior definição. Duas estão sentadas, outra fica em pé e uma quarta encosta-se a uma das duas primeiras. Há ainda uma quinta personagem na penumbra de uma abertura que poderá ser uma porta. Aguardam, como disse, maior definição mas já se sabe mais ou menos o que fazem ali. Aparentemente não fazem nada mas é esse o aspecto de quem espera alguma coisa.

    As personagens estão calmas, não dão sinais de inquietude ou de impaciência. São, talvez, um pouco fatalistas. Elas não sabem o que vai na mente de cada uma das outras, podem apenas responder por si. Nem têm consciência de serem criações de um artista mais ou menos indiferente ao que elas são ou possam vir a ser. Ao artista interessa-lhe apenas que aquelas personagens ali estejam com arzinho de quem contempla o vazio e reflecte em conformidade.

    Um dia destes ainda vai chover merda. 

quinta-feira, abril 16, 2026

Circuito fechado

     Ler um texto escrito por um pensador francês traduzido para português quando as ideias que veicula são tudo menos ideias simples, pode revelar-se uma tarefa desopilante. Um gajo pode não estar a perceber muito bem aquilo que vai lendo, pode ter que voltar atrás uma e outra vez, reler, parar um pouco, pensar melhor e perceber um bocadinho. Ou pode abstrair-se enquanto vai decifrando as palavras e dar por si a não ler, lendo. As palavras entram pelos olhos mas parecem apenas deslizar quando chegam ao cérebro. Ficam para ali  tentando marchar meio esquecidas.

    E pronto, parar a leitura e escrever um texto no qual tentas explicar o que te aconteceu aqui há uns minutos atrás pode ser uma boa forma de recuperares uma certa vitalidade que ias perdendo com o livro entre as mãos. É o que faço, o que fiz, o que lês e, daqui a nada, o que leste. Dou por mim a pensar que o passado não tem fim (título do último desenho que fiz). E assim fecho o circuito. 

domingo, abril 12, 2026

Invejoso

     Ontem tive outra vez aquela sensação um pouco azeda de não ter reconhecimento merecido pela arte que produzo. É uma espécie de despeito, quase desprezo pelo "sistema", pelo mundo da arte, pelo mundo todo, porque eu sou genial e ninguém parece reparar. Deixam-me aqui na beira da estrada a fazer figura de urso, a pedir boleia a manadas de elefantes, a aviões que passam lá no alto, deixam-me aqui a imaginar que sou coisas que não sou. E porquê? Porque a necessidade de ser relevante é um ferrão que se nos espeta no cérebro e nos deixa a sofrer a vida toda, provoca uma dor que só é atenuada com atenção e elogios. Nunca ultrapassamos a primeira infância, somos eternamente aquele bebé a quem as tias apertam a bochechinha enquanto dizem: coisa mailinda! É aí que nasce a nossa necessidade insaciável de atenção e carinho que depois não pára de crescer ao longo das nossas vidas.

    Ontem lá tive de resistir mais uma vez àquela sensação um tanto incomodativa que vem agarrada à vaidade e se transforma em inveja, uma inveja difusa e não direccionada, uma inveja injusta, como toda a inveja é. Lá tive de racionalizar as coisas, limpar-lhes o pó, abaná-las um pouco, voltar a colocá-las no devido lugar. E lá recordei aquela frase que escrevi já várias vezes por aí, algures no 100 Cabeças: eu sei que não existo mas, no entanto, estou aqui. 

sexta-feira, abril 10, 2026

Casa

     Primeiro foi a minha Mãe. Depois faleceu o meu Pai. A partir daí deixei de ter Casa. Apercebo-me agora de que os meus avós também entravam na minha concepção de ter uma casa própria, um lugar de abrigo onde o amor era incondicional e nunca posto em questão. Por vezes cai uma certa nostalgia como se neve fosse. O falecimento daqueles que amamos não reduz o amor que transportamos no peito mas este tende a diluir-se no espaço-tempo. 

    Agora tento preservar esse amor construindo uma Casa para a minha mulher e a minha filha. Deus me dê alento. 

segunda-feira, abril 06, 2026

Senhor Calmante

     "Não faz mal, não se passa nada, afinal não é assim tão importante". A mão esquerda treme-lhe como se tivesse alguma doença degenerativa mas é tudo nervos. Nem mais, nem menos, sé nervoso miudinho, daquele que nem deixa mazelas no sistema nem nada. "Não faz mal, não é assim tão importante". Afinal de contas o que pode significar mais uma morte no meio de tantas mortes que todos os dias nos anunciam, com aparente satisfação, nos diferentes canais de TV? Nada! "Nadinha de nada", digo-lhe eu ao ouvido com a voz mais aveludada com que sou capaz de atapetar a garganta. "Vais ver que ninguém dá por nada."

    Sou assim mesmo: um gajo fixe e muito cool. É por isso que me chamam tantas vezes quando se trata de acalmar alguém que esteja à beira de cagar o esqueleto. Na maior parte das situações já não há nada a fazer e, por isso mesmo, é mais ou menos pacífico dar a volta ao culpado no sentido de lhe mostrar um lado mais luminoso da questão. Uma perspectiva mais optimista, um vislumbre do que poderia ser o mundo se ele não tivesse feito merda da grossa. Como era este o caso. Grande merdalhona!

    Envolvo-lhe os ombros num abraço caloroso, um abraço que aprendi com o meu pai e pratiquei afincadamente com o meu irmão, a minha mulher e a minha filha; um abraço fixe como o caraças! Isso deixa-o um pouco mais descontraído. O que é bom. A merda está feita, só falta limpá-la para debaixo do tapete. Com a mão livre seguro a minha ponta-e-mola favorita, uma navalha que o meu velho comprou em terras de Espanha quando por lá andou a contrabandear boas vontades. É uma navalha elegante; leve, esguia e consistente.

    Em menos de um daqueles piscar-de-olhos está o problema resolvido. 

domingo, abril 05, 2026

Bosch é bom

     Não se compreende, porque o verbo "compreender" não é o adequado quando contemplamos um tríptico de Bosch. Como poderíamos compreender algo tão complexo, tão anguloso, tão abstruso, tão repentino na forma como muda de direcção e se desvia da parede sobre a qual se lançou em vertiginosa velocidade no derradeiro e precioso momento? Deixarmo-nos esborrachar de encontro ao muro de complexos significados formado pelo quadro também é uma opção a ter em conta. E não será menos agradável que qualquer outra que possamos tomar.

    Não se compreende porque vivemos no século XXI, porque temos artefactos electrónicos e nos basta accionar um interruptor para que se faça luz a qualquer hora do dia. Não se compreende porque em vez de burros montamos automóveis e no lugar dos sonhos que eram sonhados olhando o céu temos agora aviões a jacto cortando a imensidão em fatias.

    Não se compreende porque o nosso Deus veste fato e gravata e foi transformado em burocrata. 

sexta-feira, abril 03, 2026

A traição das palavras

    Há quem diga que a piada de "A Traição das Imagens" reside no facto de não ser bem uma piada. Que Magritte queria vincar com nitidez a diferença entre um objecto e a sua representação, que um cachimbo serve para fumar e aquele, na pintura, nunca poderia servir para cumprir uma tal função. 

    Também acontece que, por vezes, aquilo que escrevemos vem inquinado por aquilo em que acreditamos ainda que o mundo aconselhasse menos vinagre nas ideias. E quando não temos nada de substancial para dizer podemos sempre remoer uma tolice qualquer nem que seja só para irritar os burgueses. Lá no fundo, todo o texto é uma espécie de "Traição das Palavras".

    Certas leituras, de Filosofia em particular, tornam-se, para mim, impenetráveis. Por vezes vislumbro a ideia, quase sou capaz de captar o conceito, logo tudo se me enrola e cola à sola dos sapatos do pensamento e aí vou eu, a penca veloz e deireitinha ao asfalto da estrada onde passam camiões carregados de sabedoria e autocarros repletos de eloquência fornecida em pequenas doses com duas patas, veículos característicos e imprescindíveis à definição de um certo ambiente intelectual.

    Se as imagens são traidoras, então as palavras, convenhamos, não merecem a mínima confiança. 

terça-feira, março 31, 2026

Ter dono

     A mão pousou sobre a cabeça despenteada do animal. 

    Sentiu o peso da manápula, curvou-se um pouco mais, a língua quase, quase a lamber o chão. A tijoleira. Deixou que o olhar lhe caísse, que lhe escorresse dos olhos para a cor alaranjada da tijoleira e ali ficasse, a alastrar com lentidão como se fosse água derramada, um olhar vazio e inexpressivo como é sempre o olhar dos condenados ou dos doentes de alzheimer. Não se atrevia a levantar os olhos, a encarar o dono daquela mão opressiva e ameaçadora.

    A mão  afagou-lhe a cabeça mas aquela carícia era como um soco. Era uma carícia que apenas exprimia a superioridade de quem a praticava, como acontece com as senhoras caridosas e os mendigos à porta da igreja. O animal não tinha ânimo sequer para odiar, sentia-se derrotado, incapaz de morder, incapaz de fugir, incapaz de ficar. Naquele momento, a morte seria por ele abençoada. E deitou o queixo no chão, a tijoleira era agora como uma planície, o degrau que marcava o início das escadas a linha do horizonte.

    A mão, privada do apoio oferecido pela cabeça do animal, ficou pendente, pensativa, oscilando entre cá e lá. 

    A mão.

sábado, março 28, 2026

Outra espera

     Todas as pessoas andam à procura de uma situação à qual se possam ajustar, um lugar, um grupo, um sonho, e vão fazer tudo o que lhes for possível e lhes parecer necessário para alcançarem os seus objectivos (a rapariga que vai pondo rímel nas pestanas sentada no banco da carruagem do Metro).

    Pequenas situações permitem complexas reflexões - as personagens ora observam, ora encarnam e se tornam pessoas de verdade (embora sejam falsas). Observam, descrevem, participam, mas não podem tomar decisões que alterem o rumo dos acontecimentos. Só "ele" pode tomar essas decisões mas "ele" está ausente e as personagens aguardam pacientemente que "ele" se digne a aparecer.

    "Ele" não veio, não vem, o mais certo é que nunca venha a comparecer naquele espaço iluminado. 

quinta-feira, março 26, 2026

Borges

    Uma história é contada e abre espaço a uma reflexão. Essa reflexão leva a uma outra história que por sua vez permite imaginar o que aconteceria caso a história anterior não tivesse aquele desfecho; se as coisas não tivessem assim acontecido o mundo seria muito diferente e o espectador seria outra pessoa, não a pessoa que imagina ser e está sentada aí, no seu preciso lugar.

    Estas histórias tão diversas formam uma narrativa única, mais ampla. São como espelhos que são como labirintos que são como uma imensa biblioteca frequentada por um único leitor. Um cego que se desloca com a ajuda da sua bengala. 

    A biblioteca é o mundo e todas as pessoas são personagens ficcionadas, são fantasmas, produtos de uma imaginação infinita. A vida de cada fantasma é um volume guardado na prateleira que lhe foi destinada e tudo está maravilhosamente organizado. Desde o início dos tempos até ao longínquo dia do esquecimento absoluto.