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quarta-feira, janeiro 23, 2019

Tweets, posts e likes

A perfeição sempre foi uma miragem mas, agora, neste "tempo detergente", quando as redes sociais exigem das figuras públicas uma correspondência absoluta entre o seu comportamento e as expectativas de todo o "Zé da Esquina" e respectiva "Zeza dos Ovos", a perfeição entrou definitivamente na categoria alegórica de "unicórnio".

A proximidade é tanta que podemos ouvir as pessoas mais distantes a pensarem dentro da nossa cabeça. São tweets, são posts, são likes, são emojis, são mensagens de todas as formas e feitios a caírem constantemente nas redes que cobrem todo o planeta como imensas spider webs. Falta saber com exactidão quem é a spider de atalaia nas webs que frequentamos e ajudamos a tecer.

A coisa é muito complexa. Somos, em simultâneo, as aranhas que tecem a rede e as moscas incautas que nela vão ser aprisionadas e transformadas em recurso alimentar para suprir alguma fome futura. Nem sei se o que digo faz algum sentido, de tal modo ando confuso.

Voltando ao princípio: a perfeição moral e o comportamento impoluto passaram para a esfera do Divino; literalmente. Já nenhum de nós pode aspirar à admiração geral pois a forma como coçamos a cabeça ou o modo pouco humano como nos referimos às focas bebés podem provocar uma onda de rejeição que não conseguimos antecipar.

Cada um de nós é, à sua maneira e escala, uma figura pública. Estamos sujeitos a um policiamento implacável feito por entidades virtuais, trolls sem face, policiamento esse capaz de gerar sofrimento a qualquer momento. A violência dos ataques à personalidade de cada indivíduo (tal como as manifestações de admiração e de amor) é directamente proporcional à sua popularidade e visibilidade social.

Pode ser um like mal interpretado, um emoji desajustado ou a partilha de alguma cena menos recomendável. Andamos por este mundo como cegos que não têm capacidade de perceber quão próxima está a escarpa que se  precipita na garganta do inferno.

terça-feira, outubro 16, 2018

Sapiens-sapiens

Anda meio mundo a aturar outro meio.
Falamos deste lado, respondem-nos aos gritos do lado de lá, ecoamos com gritaria redobrada, a comunicação está difícil. Uma vez por outra ouvimos com clareza o que nos é dito pelos que compõem o outro lado mas isso apenas serve para aumentar o nosso grau de indignação. E vice-versa. A discussão cresce de tom.

Ouvir é equivalente a olhar, são acções que não implicam, obrigatoriamente, reflexão. "Entra por um ouvido sai pelo outro" é um ditado da família do "boi a olhar para o palácio". Mesmo quando se estabelece diálogo não parece haver vontade de debate. Queremos apenas marcar a nossa posição, manifestar a nossa autoridade moral, sublinhar a inquestionável superioridade da nossa visão, a única realmente inteligente. Somos "sapiens-sapiens", isso diz tudo mas não implica sapiência. Nem por sombras.

A coisa está a esticar-se. Cada vez mais há gente a deslocar-se para os extremos da corda com uma vontade redobrada de a puxar com o máximo de violência que forem capazes. Os que vão ficando no meio olham para um lado e para o outro como galinhas tontas sem saberem o que fazer, sem perceberem a que ponto da corda se deverão agarrar ou, sequer, se haverão de puxá-la. E são cada vez menos, eles que já foram tantos.

Por enquanto anda meio mundo a aturar outro meio. Tenho a impressão que a paciência está a esgotar-se rapidamente.

domingo, julho 15, 2018

Massacre

Dêem-se as voltas que se queiram dar, olhe-se o nosso tecido social do direito ou do avesso, o resultado da observação é sempre o mesmo: subalternização e esmagamento dos mais fracos perante as instituições, estatais ou privadas, tanto faz. A nossa sociedade é desigual, é injusta e não protege os mais desfavorecidos, como seria de esperar de uma sociedade que se afirma democrática.

A cada dia que passa vai crescendo o fosso em volta do castelo da riqueza, vão-se multiplicando os crocodilos que o povoam e que protegem os felizes locatários. A distribuição da riqueza produzida é cada vez mais assimétrica: os ricos muito mais ricos, os pobres muito mais tristes. Não nos venham com tretas, a luta de classes só não existe porque não é de uma luta que se trata, é um puro e simples massacre.

Vão distraindo o povo com papas e bolos, fingem ser prejudicados por políticas que lhes cerceiam a liberdade de enriquecer... mas que mais querem os ricos e poderosos? Quando saciarão a sua gula por riquezas e poder? Será necessário que tudo morra, que tudo desabe e impluda para que algo mude sem que fique tudo na mesma?

sábado, junho 16, 2018

Notas para uma reflexão


Os professores perderam autoridade na sala de aula e os encarregados de educação perderam-na na sala de jantar. Há um desprezo generalizado pela experiência de vida, cada vez mais substituída pelo Google, esse oráculo infalível capaz de todas as respostas em fracções de segundo. Os velhos são descartáveis, são chatos e não encontram um lugar confortável na hierarquia social do mundo contemporâneo.

Por outro lado, a voracidade consumista alcandorou os putos à categoria de consumidores. Desde que são capazes de influenciar os hábitos de consumo passaram a ser levados a sério. Na maior parte das situações passaram a ser levados demasiado a sério. As sociedades actuais tendem a valorizar os designados direitos do consumidor em detrimento dos direitos de cidadania. São coisas diferentes e nem sempre compatíveis. Não é nada extraordinário ver putos a berrar porque sim, a falarem por cima dos pais, a reclamarem tudo e nada só porque lhes apetece. E porque podem. Educamos as criancinhas num vazio de valores que tudo relativiza. E os encarregados de educação, muitas vezes porque perderam o pé, encontram nos professores os bodes expiatórios perfeitos para diluírem as suas próprias insuficiências.

Vivemos na sociedade da casa dos segredos e dos brunos de carvalho; uma sociedade boçal, carente de valores que possam irmanar-nos. Perdemos a religião enquanto factor unificador e não fomos capazes de a substituir por nada. A Ética não faz sentido sem uma divindade capaz de castigar os maus e premiar os bons. Ficou o consumismo. O resultado é o que está à vista. Mais adiante nem daremos conta que já não somos livres. Nem nada que se pareça.

quarta-feira, março 07, 2018

Receio

Assistimos sentados ao levantamento nazi, alfinetes a ferver que se vão espetando um pouco por todo o mapa da Europa. Como é possível isto estar a acontecer?

O povo europeu que dá força a essa besta política. Não parece ser um movimento de elites. Dá a sensação que a coisa cresce aconchegada por um certo esterco social, ali entalado entre a classe média e a média baixa, uma espinha na garganta social democrata, cada vez mais seca, cada vez mais ferida de morte.

"Esterco social", disse eu. E se a sociedade for maioritariamente nazi? Serei eu a transformar-me em esterco ou viverei numa esterqueira de facto? É difícil decidir. Entretanto vou aproveitando a liberdade de expressão (enquanto a tenho).

Por vezes penso se irei assistir ao triunfo do nazismo. E, caso isso aconteça, como irei reagir? Serei capaz de aceitar o retrocesso social e civilizacional sem fazer nada? E, se fizer alguma coisa, como deverei actuar? Com nazis não se pode discutir, apenas se pode lutar.

Espero que o triunfo nazi não seja mais que um pesadelo que vou sonhando, por vezes acordado. Gostava que a minha filha pudesse viver numa sociedade tão livre como esta em que tenho vivido. Preciso que isso aconteça para poder ter a sensação de que a minha vida teve algum sentido.

quarta-feira, maio 27, 2015

Greves a Metro

Os trabalhadores do Metro de Lisboa fazem tantas grevezinhas (de horas, de turnos, greves pequeninas, greves repartidas, greves constantes) que acabam por transformar um direito constitucional e indiscutível numa espécie de sarna social.

Não sou a pessoa mais indicada para discorrer sobre tão complexo tema. Tantas greves, greves a toda a hora, decerto exigem um conhecimento minucioso da vida da empresa a alguém que pretenda tentar imaginar as causas de tão persistente luta laboral. Convocar estas greves é trabalho de relojoeiro, aderir a estas greves será um dever dos trabalhadores, imagino eu.

A verdade é que a frequência com que damos com o nariz na porta do túnel do Metro é tão grande que já ninguém liga à coisa. Já ninguém se impressiona com a luta dos trabalhadores, antes pelo contrário. Eles fazem greve com tanta insistência que toda a gente desconfia do ardor com que aderem à luta tanto como desconfia da eficácia do movimento grevista.

A banalização da greve é como o abuso de antibióticos; perde força e efeito.

quarta-feira, março 18, 2015

A ferrugem

Andam por aí a dizer que isto ou aquilo não passam de contos para crianças. Querem dizer que são coisas parvas, coisas estúpidas, coisas que não passam de patranhas. Ilusões, enredos enganosos.

Pois, então é assim que tratamos as nossas crianças? As histórias que lhes contamos não têm outra intenção ou função que não seja menorizá-las (a elas que, por definição, já são menores)?

Na verdade, à medida que o tempo passa, as histórias infantis parecem tender para a imbecilidade graças à paranóia das pedagogias que nascem de posturas politicamente correctas. Mas as crianças não são as únicas vítimas desta plastificação da inteligência humana, os adultos também levam pela medida grossa.

Tal como nos contos infantis os lobos maus e as bruxas canibais parecem estar disfarçados de outras coisas para não traumatizar os mais sensíveis, também nos meios de comunicação social a bicharada mais peluda e de dentuça afiada, com hálito podre e merdoso, nos aparece em pose angelical e com discurso melífluo.

Andamos a pintar de fresco uma sociedade ferrugenta. Pintamos por cima sem limpar primeiro. A ferrugem continua lá, por baixo, a corroer, a corroer, a corroer...

domingo, junho 23, 2013

Hipocrisia

A Igreja Católica lidera a contestação à adopção de crianças por casais homossexuais. Os que vêm nesta possibilidade uma aberração absoluta argumentam com tradições culturais e leis naturais. A falta que faz uma figura paternal, o contra-senso que é ter duas mães ou dois pais.

No entanto, as notícias sobre abusos sexuais de menores praticados por membros da Igreja Católica que deviam, à partida, garantir o seu bem-estar material e espiritual, continuam a sair nos meios de comunicação social a um ritmo estonteante. Os órfãos à guarda de padres em instituições de solidariedade social não estão a salvo dos horrores deste mundo. Encontram crueldade predatória onde lhes prometeram amor.

Não ouço as vozes indignadas dos tais guardiões da moral e dos bons costumes, que tanto receiam ver homossexuais a cuidar de crianças, pedir o fecho dessas instituições e a condenação à prisão dos padres pedófilos. Estou em crer que muitas dessas crianças estariam bem melhor entregues a casais anti-naturais do que a homens que são impedidos, por regra religiosa, de o serem.

Sei que estou a misturar "alhos com bugalhos", homossexualidade nada tem a ver com pedofilia. Quero apenas sublinhar a hipocrisia da Igreja Católica que parece mais preocupada com as aparências do que com a essência de certas questões. Não me parece que seja o bem-estar da criançada que move os padres.

segunda-feira, novembro 01, 2010

Máximas mínimas


As pessoas anseiam por causas que substituam os ideais perdidos.
Um ideal aloja-se-nos no cérebro, uma causa infecta-nos o coração.

sexta-feira, dezembro 25, 2009

O Sexo, o Natal e a economia



Hoje é dia de Natal. Em muitos lares por este Portugal adentro a televisão substitui a lareira e é para ela que se dirigem todos os olhares das famílias reunidas em seu torno. Mais logo a TVI irá transmitir o filme O Sexo e a Cidade. Não há Pai Natal naquele filme, nem Reis Magos nem Presépio, nem nada que se relacione com a quadra festiva que aquece os nossos corações. Este (in)significante fait-divers faz pensar nas distantes origens desse canal televisivo, originalmente atribuído à igreja católica, num processo mais milagroso que transparente. Lembram-se? Eram os primórdios dos canais independentes do poder político que prometiam um mundo novo no panorama televisivo. Com 4 canais, afiançavam-nos então, teríamos diversidade, variedade e competição, benesses do mercado livre. Volvidos todos estes anos o que podemos constatar? Que os canais, na sua luta insana para captarem investimento publicitário, se acotovelam com novelas, concursos imbecis e telejornais infindáveis, numa amálgama fedorenta, uma papa indistinta e massificadora. Fomos enganados?

Esta constatação pode alargar-se a outros domínios. O poder político, por exemplo. Também aqui ficamos com a sensação de que entre os chamados “partidos do arco do poder”, o PS e o PSD, há uma sobreposição absoluta de objectivos, comportamentos e discursos. A falência das ideologias tornou-os tão semelhantes que ninguém vê grande diferença entre um e outro quando ascendem ao cadeirão do poder. Uma vez aí sentados, os líderes destes partidos abrem os dossiês da roubalheira e ficam deslumbrados, como miúdos num hipermercado em vésperas de Natal. É a economia, dizem-nos, a economia obriga a fazer isto e a esquecer aquilo, garantem-nos. Estaremos a ser ludibriados?

Afinal de contas em que ficamos? A democracia sobrepõe-se à economia? O poder político pode orientar-se por princípios humanistas ou a frieza dos números tudo justifica? Fica a sensação de que a massificação boçal é o único caminho possível para a nossa sociedade. Sejamos boçais, se não nos resta outra opção. Pode ser que O Sexo e a Cidade não seja tão mau filme quanto isso e sempre constitui uma alternativa ao velho James Stewart franzindo a testa em Do Céu Caiu Uma Estrela.

domingo, setembro 27, 2009

Hoje votámos (mais uma vez)


Cheguei há umas horas de Viseu. Fui até lá com o meu irmão. Fomos exercer o nosso direito fundamental no sistema político em que vivemos. Votar é um momento. Mas é um momento enorme de tão especial. Sinto sempre uma imensa serenidade, um estranho prazer, quando faço aquela cruzinha. Aquela cruzinha faz-me acreditar intensamente em qualquer coisa que não sei muito bem explicar que coisa é. A primeira projecção tornada pública pelas televisões é a da abstenção que terá sido entre 37 e 40 e qualquer coisa por cento. Uma barbaridade. Uma estupidez, uma irresponsabilidade difícil de compreender. Quanto mais a democracia avança menos são os que nela decidem participar. Estranho não é? Mas é assim. Que fazer? A resposta é simples: votar sempre que a isso somos chamados.

sábado, janeiro 19, 2008

Fumar confunde!

"A lei do tabaco é clara nos seus objectivos mas é de leitura reconhecidamente difícil." Esta afirmação de Francisco George, director-geral de saúde por estas bandas, mostra bem o que é uma lei em Portugal.
Não é apenas esta lei a permitir interpretações sectárias. Cada cabeça sua sentença; uma leitura feita em determinada perspectiva acaba por encontrar, com toda a nitidez, autorização para o que se deseja e proibição daquilo que se não gosta. Entretanto anda tudo maluco e confuso. Que se pode fumar se, que não se pode nunca mesmo que ou então que há tantas excepções quantas as necessidades excepcionais. Uma choldra!
Todos os dias o Sr. Francisco George aparece em conferência de imprensa a esclarecer, corrigir e ajeitar um pouco mais a leitura da famigerada lei. Mas ninguém se entende, a começar por ele. O texto de uma lei pode ser assim tão confuso e propenso às mais díspares interpretações? Pode. Então como será possível aplicar a lei? É virtualmente impossível e assim ficamos à mercê dos agentes da "autoridade" que uns dias multam, outros nem por isso ou pode ser que nos façam o jeito. É assim, fazendo leis absurdas, que se destrói um Estado de Direito e a confiança nas instituições (que deverá ser a base de uma sociedade democrática) pura e simplesmente não existe.
Não me lembro de ler ou ouvir qualquer notícia sobre uma condenação em tribunais portugueses que não acabe com a informação que o advogado do condenado vai recorrer ou já recorreu da sentença. Ou os juízes são uma cambada de incompetentes mal intencionados ou o nosso povão é uma verdadeira legião de anjinhos incompreendidos.
Entretanto e por enquanto o melhor mesmo é fumar no meio da rua. Isso ainda não é proibido... acho eu!

sexta-feira, dezembro 21, 2007

O que é o Natal?

O Natal é realmente uma coisa estranha.
No supermercado cá do bairro há uma pouco usual fila de velhinhos e velhinhas com caixas de Ferrero Rocher debaixo do braço, alinhadinhos, defronte a um balcão improvisado onde uma moçoila com bochechas rosadas e um aspecto levemente tresloucado vai fazendo embrulhos. Como se fosse uma "empacotadeira".
Mais para o fim da tarde, talvez noite (estava escuro), há uma pouco usual fila de carros de aspecto infinito, a atirar para o apocalíptico, nos caminhos que vão dar ao centro comercial. Tem a sua beleza. Luzinhas vermelhas dos que vão, branquelas, dos que vêm. Uns movem-se, outros nem por isso.
Na FNAC surpreendentes filas de pessoas de meia idade, com aspecto de serem da classe média e dispostas a gastar para aí metade dos ordenados em livros, DVD's, CD's e essas coisas que ali se vendem às pazadas nesta época festiva.
O Natal é a época das filas estranhas!

sábado, dezembro 15, 2007

Feliz Natal, pessoal!


Anda tudo doido! As pessoas parecem ventoínhas, parecem abelhas, beija-flores, esvoaçando em redor das montras, entrando nas lojas e tocando a mercadoria com dedinhos gulosos, sonhadores. As pessoas andam numa lufa-lufa de deixar os ajudantes do Pai Natal em estado de medo pânico. As pessoas querem, elas desejam, elas almejam tudo o que vêem e o que não sabem ainda que desejam mas, decerto, irão desejar ainda. O mais tardar amanhã vão desejá-lo. E comprarm e embrulham a compra para mais tarde a oferecerem a alguém que a desembrulhe. Anda tudo doido. Consumindo, consumindo, consumindo. Consome-se a vida como se fosse fumada. Como se fosse um charuto cubano na boca do Pai Natal, a sorvê-la de uma vezada com aqueles pulmões poderosos de tanto fazer Oh-oh-oh. O mundo roda mais rápido nestes dias. Deve ser isso que põe tudo doido. E como estamos doidos andamos mais depressa e o mundo mais rápido. E ficamos tontos e andamos mais depressa... quando tudo terminar vamos perceber que nada disto adiantou grande coisa. Que a nossa vida não mudou com aquilo que saiu do embrulho. Que aquilo que saiu do embrulho é, afinal, muito diferente daquilo que imaginámos que lá tínhamos enfiado.
Espero que, como de costume, as pessoas estejam um pouco mais felizes no dia dos embrulhos do que o costume nos outros dias. É para isso que serve esta merdice toda. Esta tontice, esta sofreguidão, este consumismo desalmado, tudo isto é apenas vontade de amar e ser amado. Só mais um bocadinho, por uma vez que seja.
Feliz Natal pessoal!

quinta-feira, novembro 01, 2007

Mania da supremacia

O episódio degradante protagonizado pelos elementos da Arca de Zoe que tentavam "importar" crianças directamente do Chade para França sob o pretexto de lhes oferecerem um nível de vida muito superior ao que poderiam sequer imaginar caso continuassem em África ilustra bem o significado da palavra "chauvinista" que, normalmente, surge associada aos compatriotas de Astérix. Claro que não são apenas os franceses a estarem convencidos de que vivem numa parte do planeta que merece o lugar mais alto do pódio na competição das civilizações humanas.
Quando seremos capazes de aceitar a possibilidade de haver quem seja completamente feliz vivendo de um modo absolutamente diferente do nosso? Quando seremos capazes de deixar cada um escolher livremente o seu destino sem olharmos para os que são diferentes de nós com aquele arzinho trocista de quem se imagina o maior do mundo?
Nesta triste história há um pormenor que me deixa um tanto arrepiado. Li no jornal que os simpáticos benfeitores aliciavam as crianças com doces e promessas de as levarem à escola, argumentos de peso que garantiam a simpatia dos catraios. Talvez os mensageiros de Zoe pudessem investir algum dinheirito na criação de escolas no Chade. Assim estariam a contribuir para melhorar as condições de vida no local ao invés de pretenderem transformar os pequenos chadianos em franceses, cidadãos da União Europeia.
Se na verdade somos uns sortudos por termos um certo modo de vida, talvez fosse mais solidário criar condições para que os outros descubram o seu próprio, sem lhes pretendermos impingir o nosso, raptando-os. É que eles podem não gostar de vir para cá e depois será demasiado tarde para desfazermos a asneira.

quarta-feira, junho 27, 2007

Educando os animais


Li algures que não se deve deixar a uma criança a responsabilidade de educar um cão. O desconhecimento das crianças sobre os mecanismos educativos seria nocivo para o animal, deixando-o confuso. Uma festa na cabeça depois de um chichi no canto da sala ou uma sapatada após uma boa acção canina iria contribuir apenas para confundir o pobre animal e desregulhar-lhe os desejados bons costumes. A educação do animal é responsabilidade demasiada para ser entregue a quem não tem ainda bem definida uma conduta de vida pautada pelo rigor ético que caracteriza um adulto.

Olhando para os acontecimentos recentes no nosso país sou levado a concluir que a educação cívica e politica do nosso povo está a ser descurada por termos um 1º ministro que se comporta de forma infantil e um presidente da república que já nasceu velho. Os sinais enviados pelos nossos dirigentes supremos são frequentemente contraditórios. Premeia-se a mediocridade, aplaude-se a mesquinhez e ignora-se a falta de ética, como se a ética fosse um mal que tem de ser suportado apenas quando não há outra hipótese, mas o discurso oficial é de sentido contrário. Quem andar distraído ficará confuso com certas aventuras ideológicas e trapacices processuais que se vão tornando o pão-nosso de cada dia.

Se não nos organizarmos, se não estivermos atentos nem protestarmos quando há razões para isso, vão fazer-nos a folha e nem migalhas havemos de aproveitar. A Democracia não nos é oferecida pelos que estão no poder. Bem antes pelo contrário. Temos de conquistá-la CONTRA eles. É triste mas quer-me parecer que é a realidade.

domingo, maio 27, 2007

Em greve!

Temos um governo de esquerda que governa como se fosse de direita.
Temos um primeiro ministro capaz de praticar falcatruas inqualificáveis com coisas tão simples como um diploma. O que será ele capaz de fazer com coisas mais complicadas? O que anda ele a fazer com os negócios do país?
Temos um presidente da república incapaz de produzir uma ideia, de ter um gesto que nos dê alguma esperança, de tomar uma atitude em nossa defesa perante os desmandos totalitaristas do governo.
Temos ministros incapazes que, de cada vez que abrem a boca em público, mostram a qualidade das decisões que tomam.
Temos uma assembleia da república com uma maioria absoluta que obedece ao governo de forma canina.
Estamos entregues a nós próprios.
As instituições do poder estão coniventes umas com as outras e defendem não se sabe o quê. Sabe-se apenas que não defendem os direitos de quem trabalha, bem antes pelo contrário. Assistimos diáriamente à transformação da nossa democracia num monte de esterco por acção de uma classe política vendida e nítidamente ao serviço de interesses que não são os nossos.
O país está mais uma vez a saque e as patorras que o saqueiam querem também tapar-nos a boca, os olhos e os ouvidos.
Ou ficamos a assistir a tudo isto impávidos e serenos como ovelhas num redil ou tentamos marcar posição e mostrar a esta gentalha que não podem mandar em nós como se fôssemos coisas amorfas e sem vontade.
Será pouco o que podemos fazer. Mas será muito menos se o fizermos sozinhos.
A solução está numa atitude global. Se muitos de nós aderirem à greve geral o pouco que podemos fazer ter-se-à transformado em algo muito maior.
Eu faço greve.
Não fiques a lamentar-te num canto, adere também.
Vamos mostrar ao governo o nosso descontentamento e a nossa força.
Dia 30 estamos em GREVE!

Informações sobre a greve Geral em http://www.cgtp.pt/grevegeral/index.php?option=com_content&task=view&id=2&Itemid=4

terça-feira, maio 22, 2007

Reprise

O texto que se segue é o de uma carta que enviei ao Director do Público em Abril de 2005. A carta foi publicada no jornal. Hoje, após o comentário do Olaio ao post anterior, recordei-me dela e resolvi editá-la aqui em reprise. Penso que mantém a actualidade.

O sonho muda
As deslocalizações de empresas, o fim anunciado do Estado Social, a extrema fraqueza da União Europeia, a agressividade americana, a ascensão chinesa... tudo isto são sinais de que algo está a mudar na geografia económica, política e social do nosso planeta. E está a mudar muito depressa.
O modelo social europeu não parece ter forças para aguentar a pressão que vem do Oriente. A maioria das empresas procuram outros locais para estabelecer os seus centros de produção. Aos direitos adquiridos pelos europeus, os asiáticos contrapõem massas operárias com ambições miseráveis, segundo os nossos padrões. Salários ridículos por mais horas de trabalho fazem as delícias de qualquer empresário que esfrega as mãos de contente na perspectiva de lucrar ainda mais com o seu negócio. Não é que tenha prejuízo com a fábrica instalada na Europa, antes pelo contrário. Mas se ganha apenas 100 e pode ganhar 1000 não há que hesitar! Os custos sociais da deslocalização de empresas não são contabilizados, não interessam nem ao Menino Jesus. Numa primeira fase os novos países da União dos 25 são o Eldorado. Mão-de-obra qualificada ao preço da chuva promete níveis de produção interessantes e margens de lucro apetecíveis. Mas a China é muito grande e cresce a um ritmo alucinante. A única hipótese de competir economicamente será “chinesizar” o modo de vida dos trabalhadores europeus. Baixar os salários, reduzir os investimentos na Segurança Social, enfim, fazer marcha-atrás no nosso modelo social, reduzindo a qualidade de vida do grosso das populações por forma a equilibrar os pesos na balança comercial planetária.
As utopias modernistas do século XX, decorrentes da industrialização e dos modelos políticos de inspiração socialista e social-democrata estão a dar as últimas. A retumbante vitória do capitalismo, louvada pelos neoliberais, associada à entrada da China neste jogo, não vai deixar pedra sobre pedra na construção europeia. O “sonho americano” também não parece resistir à pressão económica do gigante asiático e, se retirarmos aos EUA a supremacia militar, pouco resta. Começamos a assistir ao nascimento do “sonho chinês”. Ainda não compreendemos muito bem os contornos deste sonho. Por enquanto é, para nós, europeus, mais um pesadelo do que um sonho. Teremos de nos conformar com o facto de deixarmos de ditar as regras num mundo globalizado. Iremos seguir outros faróis civilizacionais, tentar a adaptação a novos modos de vida.
O fim do império americano está a chegar e a Europa vai na enxurrada. Dentro de algumas décadas Beijing será a capital cultural e Nova Iorque uma outra Paris, cheia de classe mas um tanto “démodé”. Os líderes chineses serão reconhecidos em todo o planeta e vamos aprender a pronunciar correctamente os seus nomes. Já a aprendizagem da língua e da escrita há-de trazer mais complicações mas não é nada que não se faça com dedicação e esforço.
O Mundo está a mudar. Após séculos de supremacia Ocidental parece chegada a hora da Ásia. China e Índia serão o novo espaço económico dominante, ditando regras e nós, desta vez, é que vamos ter de nos adaptar.
O Mundo não acaba para nós. É apenas o sonho que muda.

E as crianças?


Os números relativos à taxa de cobertura e ocupação de jardins de infância em Portugal mostram bem o fosso que existe entre os ricos, os mais-ou-menos ricos e os pobres, neste campeonato os verdadeiramente pobres nem sequer são chamados.

O Estado continua incapaz de oferecer este serviço essencial à estruturação democrática da sociedade. Os infantários públicos são inacreditavelmente escassos e, para os frequentar, as crianças são inscritas ainda antes de nascerem (muitas delas ainda não são meninos ou meninas). Mesmo assim os encarregados de educação não sabem se terão hipóteses de "arranjar" lugar para o seu rebento. Virá o dia em que o casal, na preparação para o acto sexual, preencherá uma ficha de inscrição para o berçário da zona em que reside, sendo isto considerado um preliminar altamente motivador e excitante.

Claro que há uma rede de infantários privados à qual se pode sempre recorrer em última instância mas os preços praticados são proibitivos para a esmagadora maioria das famílias daquilo a que chamamos classe média baixa, eufemismo que não vou sequer dissecar.

Neste panorama temos então as famílias mais capazes em termos económicos a resolverem o problema educacional dos filhos com relativa facilidade (o dinheiro não é fonte exclusiva de felicidade mas ajuda bastante nalgumas situações) e as outras, a esmagadora maioria, a recorrer à imaginação prodigiosa que, segundo consta, é característica essencial do povo português sempre que se trata de resolver problemas impossíveis. No caso dos jardins de infância este célebre "desenrascanço" nem sempre resulta, ficando muita criança fora do sistema durante demasiado tempo.

Os ricos frequentam escolas privadas até à saída para a Universidade e, nessa altura, finalmente resolvem aceder ao ensino público. Toda a gente sabe que, em Portugal, o Ensino Superior Público é de muito melhor qualidade que o privado. Seria interessante promover um estudo em que se comparassem números relativos à percentagem de alunos que entram no Ensino Superior Público que fizeram todo o seu percurso escolar anterior em instituições privadas. Seria, eventualmente, esclarecedor das enormes desigualdades que a nossa sociedade democrática ajuda a fomentar e se mostra incapaz, sequer, de compreender ou, pelo menos, de encarar de frente. É um paradoxo que as Universidades privadas, mais caras e com propinas mais altas sejam frequentadas por alunos provenientes de camadas sociais menos poderosas(esta afirmação carece de comprovação científica sustentada em sondagens credíveis mas é uma conclusão perfeitamente plausível em termos conceptuais).

A situação do ensino em Portugal continua repleta de incongruências e injustiças visíveis sem que nada seja feito em concreto para a alterar.

Muitas declarações políticas, fogo de vista e frases lindas para cabeçalhos noticiosos, muita demagogia e falsas intenções mas, na verdade, as famílias continuam descalças na tentativa de resolverem o problema de facultarem um ensino razoável aos seus filhos. A coisa cheira ainda pior quando estamos a falar dos mais pequeninos.

É lamentável.

quinta-feira, abril 05, 2007

Viva o Gato!

O cartaz dos Fedorentos é uma agradável surpresa. Já sabíamos que eles são atentos e interventivos. Agora ficamos a saber que não têm qualquer receio em assumir publicamente as suas convicções. O humor dos Gato Fedorento ganha (ainda mais) credibilidade.
Viva o Gato!!!