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terça-feira, junho 30, 2026

Devaneio à hora do almoço

     Para alguém que sinta a pulsão criativa, a necessidade de criar e comunicar, a liberdade de expressão é como se fosse oxigénio. Aqueles que, ainda que sejam amantes da liberdade, vivam de comercializar as suas criações, talvez não considerem a liberdade de expressão tão absolutamente necessária. Seja como for, estou em crer que uns e outros (e todos os demais) serão muitíssimo mais felizes caso vivam num sistema de organização sócio-política que preserve as liberdades fundamentais com a liberdade de expressão bem visível, protegida e enaltecida.

    Aliás, penso também que um sistema como esse é o que mais aproxima os cidadãos de uma sensação de felicidade (ou, pelo menos, faz com que acreditem nessa possibilidade). Mesmo que não tenhamos uma definição standard de "felicidade", ainda que cada um de nós sonhe com um amanhã cantor diferente do do vizinho, a perseguição de uma fada torna a nossa vida menos cinzenta. Perseguir uma nuvenzinha colorida através de um bosque de árvores que são, na verdade, flores gigantescas é mais motivador do que perseguir maços de notas numa floresta de betão (onde os animais te perseguem). Ou então não.

    Ou então habitamos um mundo onde os humanos são apenas aparentemente iguais, um mundo no qual apenas os sacos de pele e ossos que carregam os nossos cérebros e as nossas almas são semelhantes entre si. Dentro dos sacos viajam coisas completa e absolutamente dissemelhantes. Talvez que os princípios fundamentais do Zoroastrismo não sejam tão abstractos quanto possam parecer.

    Vou já em velocidade de cruzeiro e dirijo-me para lugar nenhum, como é meu hábito. Decido guinar em direcção à margem do discurso, encosto a barcaça e salto para terra firme. Talvez beba uma imperial na esperança de matar o calor. 

terça-feira, março 10, 2026

Tempos modernos

     Alarvidade e javardice: eis duas palavras mágicas desconhecidas dos adoradores de tiquetoques que, no entanto, definem o universo em que movem as suas mentes. Nota-se um ambiente cada vez mais agreste e menos limpo nos pátios da escola, uma coisa entre a barba por fazer e a mão suja por ter com ela limpado o rabo.

    Os putos crescem no meio da javardice e transformam-se em autênticos alarves. Não me lembro bem se, quando fui puto, as coisas aconteceram do mesmo modo. Não me lembro dos pormenores mas penso poder afirmar que a coisa também não era particularmente limpa. Talvez que crescer na porcaria faça parte da condição humana, o estrume alimenta as raízes das flores mais coloridas e faz as delícias dos escaravelhos mais reluzentes.

    O que nos choca talvez seja o facto de esta alarvidade não ser a nossa e de esta javardice nos parecer exagerada (por estarmos já um bocado velhotes), talvez a coisa não seja assim tão radical. Se pensarmos bem, o mundo que agora construímos e nos parece adequado, fruto do nosso labor, haveria de parecer extraordinariamente agressivo e peludo aos olhos nossos avós, um mundo repleto de alarvidades e muita javardice.

segunda-feira, dezembro 08, 2025

Loucura e culpa (2)

     Leio entrevistas, ouço doutores a reflectir sobre a questão e mais comentadores do que os necessários tentando encher minutos de programação com palratório incessante sobre as razões que estão na origem deste movimento aparentemente imparável que é o que vem corroendo e destruindo a Democracia e o Estado Social na Europa. Citam-se autores, académicos, estudiosos, analisam-se tabelas, folhas de excel e sondagens, reflecte-se muito longamente para produzir informação que, caso pudesse ser colocada numa balança, decerto corresponderia a muitas toneladas de coisa nenhuma.

    Fala-se, fala-se, fala-se e os nazi/fascistas avançam inexoravelmente, conquistando as mentes dos jovens, um mistério inexplicável que talvez tenha explicação. É que os analistas ou são demasiado eruditos e não conhecem a baixa cultura popular, a versão actualizada da Pop Art, ou são demasiado burros e centrados em si próprios, o que os torna incapazes de verem o que está ali mesmo à frente das respectivas nariguetas. 

(continua mais uma ou duas vezes, talvez três) 

quarta-feira, dezembro 03, 2025

Loucura e culpa

     A culpa é dos políticos, dos partidos políticos, das suas políticas, dos jornalistas e do jornalismo, principalmente das redes sociais. A culpa é, sobretudo, das redes sociais e da maneira como a informação surge e se move nas redes sociais: no Tique Taque, no Instagram, no Facebook e por aí fora, todos canais possuídos por tenebrosos capitalistas, verdadeiros vampiros, autênticas personagens de Banda Desenhada, da categoria dos génios loucos ou dos simplesmente loucos, daqueles que, caso fossem pobres, seriam internados numa instituição qualquer e por lá esquecidos ou andariam a pedir esmola nas estações de metro e a comer ratazanas ao pequeno-almoço, génios com aquela loucura que os faz imaginarem-se capazes de dominar o mundo.

    A culpa da imparável ascensão de ideologias que repugnam pessoas da minha idade não é culpa fácil de atribuir. Aponta-se a Educação ou a falta dela, a aparente falência do sistema democrático, a incapacidade de distribuir a riqueza, a solidão de indivíduos que se fecham em suas casas e se vão transformando num híbrido, parte humano, parte vegetal, que vai perdendo a capacidade de sentir empatia, essa coisa já declarada horrível por Elon Musk, esse ser vivente que respira e tem a mioleira mais frita que uma batata belga. A culpa, desta vez, não pode ser atribuída ao macaco.

(continua)

segunda-feira, junho 05, 2023

Seria um prazer

     Visto sob a perspectiva de quem anda por aqui a fazer pela vida, o nosso sistema sócio-político é uma coisa odiosa. Já muitas vezes expliquei que me considero um tipo com sorte. Por nunca ter passado fome que não fosse por opção, por nunca ter tido frio que não fosse por descuido, por ter uma saúde razoável. A tudo isto posso somar o facto de nunca ter tido faltas de dinheiro dramáticas. Enfim, sou aquilo que alguns designam por "nababo". Se bem que em pequena escala.

    "Então, se és um nababo, ainda que em pequena escala, de que te queixas" podes tu perguntar, velho amigo leitor (ou velha amiga). Queixo-me não por mim, mas por outros que vivem vidas de merda por serem, tal como eu, comidos por parvos pelas forças do capital. A diferença é que eu, depois de bem rapado e chupado pela vampiragem ainda vou ficando com uns trocos que me permitem comer bem e beber melhor. Nada de luxos desnecessários até porque, na sua maior parte, são inalcançáveis. E, sinceramente, estou-me bem a cagar para os luxos de um modo geral. Petinga, arroz de feijão e uma boa garrafa de tinto já fazem mim algo próximo de um paxá.

    Mas a verdade é que a forma como somos roubados à descarada pelos bancos e pelas geringonças das finanças não é nada agradável, muito menos justa, absolutamente imoral. Os ordenados miseráveis que auferem largas fatias da população, gente que trabalha para ser pobre, as rendas, os juros, os impostos, as taxas, tornam para mim um mistério a vida destes meus concidadãos. Daí que sinta alguma vontade de lixar a vida aos cabrões que nos lixam a nossa.Seria um prazer.

segunda-feira, março 20, 2023

Águas mornas

     

    A conversa não é fácil nem sequer muito clara. Discute-se uma eventual diluição da fronteira entre territórios políticos, uma terra de ninguém entre "esquerda" e "direita". Para João Miguel Tavares será uma espécie de "terra prometida" que o Deus do Bom Senso reservou aos liberais, o povo eleito. É aí que se vai construindo o discurso equilibrado merecedor de constituir o evangelho socioeconómico que nos levará à redenção enquanto projecto de sociedade. Apesar de normalmente tomar banho com água muito quente até posso concordar com parte substancial do discurso de JMT.

    O problema é quando a nossa reflexão é feita em abstracto, principalmente se formos pessoas com uma vida razoavelmente confortável que, apesar da inflacção e dos salários baixos, ainda conseguimos pagar as contas e ter dinheiro de sobra ao fim do mês para comprar um livro ou ir a uma sala de teatro. É que há uma multidão que não se pode dar a estes "luxos”. São os tais deserdados que nunca tiveram herança que não fosse fome e miséria. São os tais que, apesar de trabalharem, não conseguem ganhar dinheiro suficiente para pagar a renda de casa e poder comer decentemente uma vez por outra. E o tempo é curto.

    A morte de Rui Nabeiro veio lembrar a todos nós que a solução se encontra na redistribuição da riqueza. Não há que abominar o capitalismo. Há que abominar os abutres, as sanguessugas e os vampiros que se aproveitam da nossa incapacidade para encontrarmos o tal lugar sem fronteiras onde todos seremos (mais ou menos) felizes.

   carta enviada ao Director do jornal Público

sexta-feira, março 18, 2022

O mundo de relance

     Vivemos durante anos imaginando que as nossas sociedades democráticas evoluem continuamente em direcção a uma certa ideia de perfeição. Essa perfeição engloba, entre outros valores e ideais, a defesa das minorias, a liberdade religiosa e de expressão, o estado social, uma distribuição da riqueza progressivamente mais justa.

    A justiça básica destes valores parece-nos inquestionável, logo irrefutável. A esmagadora maioria dos cidadãos estaria de acordo com esta evolução em direcção ao paraíso na Terra. Assim sendo, tornou-se quase desnecessário lutar por aquilo em que acreditamos. O natural desenrolar da História haveria de encarregar-se de ir colocando cada coisa no seu devido lugar.

    Mas, na verdade, nunca foi bem assim. Há uma luta constante, uma imparável necessidade de estar atento, reivindicar, questionar, tomar partido e nunca desistir de fazermos aquilo que é, para nós, correcto. Surpreendentemente, ou talvez não, surgem todos os dias adversários que põem em causa a justeza dos nossos ideais e dos nossos valores. Mais surpreendentemente ainda esses adversários são eleitos pelas populações. 

    Temos, espalhados pelo mundo, autocratas e candidatos a tiranos que governam a vida de milhões, que são apoiados e idolatrados pelos que os elegem, que são inimigos dos nossos ideais e dos nossos valores. Põem em causa os direitos das minorias, segregando-as, impõem uma religião perseguindo aqueles que acreditam noutros deuses, calam e reprimem as vozes discordantes, fomentam a desigualdade social e concentram a riqueza nas mãos de supostas elites que vampirizam literalmente milhões de deserdados da sorte.

    As democracias estão em perigo.

quinta-feira, março 04, 2021

Uma choldra

 Não gosto de bater no ceguinho mas, por vezes, o ceguinho merece e... aí vai disto! Hoje estava a ver televisão, era quase a hora da papa. Na TVI dois apresentadores meio mongas iam desfiando os casos do dia: um rapaz que matou o pai à facada, uma idosa que havia falecido num lar ilegal que tentou ocultar o facto aos familiares da defunta. Este com direito a ligação em directo ao local onde um repórter ia começar a debitar as banalidades do costume, começando por repetir exactamente aquilo que havia sido dito em estúdio. Este é o género de televisão que me repugna e mudei de canal.

Fui cair na SIC e, qual não é o meu espanto, também aqui se estava a discutir o caso do filho que esfaqueou o pai. Outros apresentadores (também um homem e uma mulher, imagino que seja necessária a paridade para garantir as boas intenções da estação), outros comentadores (tal como na TVI uns camelos arrogantes a arrotar postas de pescada, como se fossem anjos vingadores). Ainda não estava eu refeito da surpresa de encontrar o mesmo tema quando, mudando de assunto, lá vêm com a história da velhinha e do lar ilegal e ainda, suprema coincidência, ligam em directo para o repórter no local.

Que merda é esta!?

Depois haverá de aparecer um apresentador de telejornal com cara de cu e ar enjoado a dizer que os casos de ansiedade e sofrimento psicológico têm aumentado de forma assustadora entre a população portuguesa. Claro que nos explicam que isso se deve ao confinamento e à puta da pandemia. Duvido que sejam as únicas causas. Esta televisão vampírica há-de ter muitas culpas no cartório e o pior é que, mesmo depois de a pandemia ser controlada e o confinamento ter acabado, esta porcaria vai continuar a sugar os sentimentos das pessoas, contribuindo para o mal-estar generalizado. Com grandes audiências.

Os telespectadores são como os zombies da série The Walking Dead, doidinhos por fincarem o dente em carne fresca. As estações televisivas são como bordéis onde as meninas são oferecidas, não às carícias, mas à dentuça dos consumidores.

Uma choldra.

segunda-feira, fevereiro 22, 2021

Pedagogia do cócó

Andamos todos tão enfronhados nesta coisa da pandemia do Covid que certas notícias de assinalável gravidade nos passam ao lado como bêémedablius a assapar na autoestrada. É ou não inquietante que, segundo estudo recente "cujos dados são relativos a 2020, 67% dos jovens consideram legítima a violência no namoro, dos quais 26% acham legítimo o controlo, 23% a perseguição, 19% a violência sexual, 15% a violência psicológica, 14% a violência através das redes sociais e 5% a violência física."? Caramba, quem é esta gente? São os miúdos que se sentam à minha frente na sala de aula?

Como é isto possível, com tantas campanhas de várias instituições estatais, com aulas de educação sexual, com a proibição de cantar o "atirei o pau ao gato" nos infantários, com vigilância constante sobre os conteúdos dos programas infantis nos canais televisivos, com psicólogos trabalhando em permanência  nas escolas, como é isto possível? Como é possível que tantas crianças que fazem cócó em vez de cagarem sejam tão permissivas à sordidez da violência no namoro?

Fico a pensar que algo tem corrido mal, que talvez estejamos a errar na forma como encaramos a infância. Fico a pensar nos resultados que um estudo deste género teria obtido se tivesse sido feito quando eu era miúdo. Na verdade, fico a pensar que, tal como o outro, "quanto mais conheço os homens (e as mulheres) mais gosto do meu cão". E eu não tenho cão.


segunda-feira, dezembro 02, 2019

Esboço de manifesto

Ver crianças e adolescentes nas manifestações pelo clima com os seus cartazes, o seu entusiasmo, a sua capacidade de acreditar, dá um aperto no coração. Mas, por outro lado, faz despontar uma sementinha de orgulho. A luta é ainda mais desigual do que a luta que David travou contra Golias.

Acreditar em causas é próprio da juventude. Ter fé desmesurada numa ideia que sentimos ser justa está-nos na massa do sangue. Quem nunca teve uma fúria destas dentro de si deve consultar um psicólogo ou dirigir-se ao padre da paróquia para tentar perceber o que está errado.

Talvez devido à queda de cabelo e à profusão de rugas na face, sinto uma pequena angústia quando observo a juventude em delírio sonhador. Isto porque a vida teima em deixar-me um tanto desanimado, céptico, vai-me fazendo venenoso. Cada dia que passa mais tenho dificuldade em acreditar numa mudança positiva.

No entanto, apesar de não conseguir acreditar, estou longe do ponto em que irei desistir de fazer a vida negra aos que considero como filhos-da-puta e à sua voragem animalesca. Posso estar desanimado mas não estou morto. 

quinta-feira, novembro 21, 2019

Mais e menos

Pretender nivelar a sociedade é tarefa que nem mesmo Deus, Nosso Senhor, encara com entusiasmo. A complexidade da coisa deixa os cabelos em pé a um careca. Mas há quem acredite ser possível, há quem tente organizar-se, há quem insista e não desista da ideia de que é possível construir uma sociedade mais justa.

Aqui reside uma das subtilezas da ideia. Não sei quando aconteceu mas já é raro ouvir falar em "sociedade justa", o conceito foi substituído por "uma sociedade mais justa" e é na palavra "mais" que encontramos a chave do portão.

O tal "mais" implica que o objectivo não seja aniquilar a injustiça mas sim debelá-la, poderíamos mesmo pensar que o grande sonho, o sonho capaz de nos aproximar do Paraíso na Terra é o de construir uma sociedade menos injusta.

E chegamos à dura e cruel realidade. A chave não é, na verdade, a palavra "mais" mas sim a palavra "menos".

Dir-me-ão que "menos injustiça" corresponde a "mais justiça". Pois bem, não estou certo disso. Creio que poderemos reduzir enormemente a injustiça e, ainda assim, ficarmos bem longe da justiça mínima exigível a uma sociedade humana digna e que ainda é para lá que caminhamos, a passo de caracol.

quarta-feira, janeiro 23, 2019

Tweets, posts e likes

A perfeição sempre foi uma miragem mas, agora, neste "tempo detergente", quando as redes sociais exigem das figuras públicas uma correspondência absoluta entre o seu comportamento e as expectativas de todo o "Zé da Esquina" e respectiva "Zeza dos Ovos", a perfeição entrou definitivamente na categoria alegórica de "unicórnio".

A proximidade é tanta que podemos ouvir as pessoas mais distantes a pensarem dentro da nossa cabeça. São tweets, são posts, são likes, são emojis, são mensagens de todas as formas e feitios a caírem constantemente nas redes que cobrem todo o planeta como imensas spider webs. Falta saber com exactidão quem é a spider de atalaia nas webs que frequentamos e ajudamos a tecer.

A coisa é muito complexa. Somos, em simultâneo, as aranhas que tecem a rede e as moscas incautas que nela vão ser aprisionadas e transformadas em recurso alimentar para suprir alguma fome futura. Nem sei se o que digo faz algum sentido, de tal modo ando confuso.

Voltando ao princípio: a perfeição moral e o comportamento impoluto passaram para a esfera do Divino; literalmente. Já nenhum de nós pode aspirar à admiração geral pois a forma como coçamos a cabeça ou o modo pouco humano como nos referimos às focas bebés podem provocar uma onda de rejeição que não conseguimos antecipar.

Cada um de nós é, à sua maneira e escala, uma figura pública. Estamos sujeitos a um policiamento implacável feito por entidades virtuais, trolls sem face, policiamento esse capaz de gerar sofrimento a qualquer momento. A violência dos ataques à personalidade de cada indivíduo (tal como as manifestações de admiração e de amor) é directamente proporcional à sua popularidade e visibilidade social.

Pode ser um like mal interpretado, um emoji desajustado ou a partilha de alguma cena menos recomendável. Andamos por este mundo como cegos que não têm capacidade de perceber quão próxima está a escarpa que se  precipita na garganta do inferno.

terça-feira, outubro 16, 2018

Sapiens-sapiens

Anda meio mundo a aturar outro meio.
Falamos deste lado, respondem-nos aos gritos do lado de lá, ecoamos com gritaria redobrada, a comunicação está difícil. Uma vez por outra ouvimos com clareza o que nos é dito pelos que compõem o outro lado mas isso apenas serve para aumentar o nosso grau de indignação. E vice-versa. A discussão cresce de tom.

Ouvir é equivalente a olhar, são acções que não implicam, obrigatoriamente, reflexão. "Entra por um ouvido sai pelo outro" é um ditado da família do "boi a olhar para o palácio". Mesmo quando se estabelece diálogo não parece haver vontade de debate. Queremos apenas marcar a nossa posição, manifestar a nossa autoridade moral, sublinhar a inquestionável superioridade da nossa visão, a única realmente inteligente. Somos "sapiens-sapiens", isso diz tudo mas não implica sapiência. Nem por sombras.

A coisa está a esticar-se. Cada vez mais há gente a deslocar-se para os extremos da corda com uma vontade redobrada de a puxar com o máximo de violência que forem capazes. Os que vão ficando no meio olham para um lado e para o outro como galinhas tontas sem saberem o que fazer, sem perceberem a que ponto da corda se deverão agarrar ou, sequer, se haverão de puxá-la. E são cada vez menos, eles que já foram tantos.

Por enquanto anda meio mundo a aturar outro meio. Tenho a impressão que a paciência está a esgotar-se rapidamente.

domingo, julho 15, 2018

Massacre

Dêem-se as voltas que se queiram dar, olhe-se o nosso tecido social do direito ou do avesso, o resultado da observação é sempre o mesmo: subalternização e esmagamento dos mais fracos perante as instituições, estatais ou privadas, tanto faz. A nossa sociedade é desigual, é injusta e não protege os mais desfavorecidos, como seria de esperar de uma sociedade que se afirma democrática.

A cada dia que passa vai crescendo o fosso em volta do castelo da riqueza, vão-se multiplicando os crocodilos que o povoam e que protegem os felizes locatários. A distribuição da riqueza produzida é cada vez mais assimétrica: os ricos muito mais ricos, os pobres muito mais tristes. Não nos venham com tretas, a luta de classes só não existe porque não é de uma luta que se trata, é um puro e simples massacre.

Vão distraindo o povo com papas e bolos, fingem ser prejudicados por políticas que lhes cerceiam a liberdade de enriquecer... mas que mais querem os ricos e poderosos? Quando saciarão a sua gula por riquezas e poder? Será necessário que tudo morra, que tudo desabe e impluda para que algo mude sem que fique tudo na mesma?

sábado, junho 16, 2018

Notas para uma reflexão


Os professores perderam autoridade na sala de aula e os encarregados de educação perderam-na na sala de jantar. Há um desprezo generalizado pela experiência de vida, cada vez mais substituída pelo Google, esse oráculo infalível capaz de todas as respostas em fracções de segundo. Os velhos são descartáveis, são chatos e não encontram um lugar confortável na hierarquia social do mundo contemporâneo.

Por outro lado, a voracidade consumista alcandorou os putos à categoria de consumidores. Desde que são capazes de influenciar os hábitos de consumo passaram a ser levados a sério. Na maior parte das situações passaram a ser levados demasiado a sério. As sociedades actuais tendem a valorizar os designados direitos do consumidor em detrimento dos direitos de cidadania. São coisas diferentes e nem sempre compatíveis. Não é nada extraordinário ver putos a berrar porque sim, a falarem por cima dos pais, a reclamarem tudo e nada só porque lhes apetece. E porque podem. Educamos as criancinhas num vazio de valores que tudo relativiza. E os encarregados de educação, muitas vezes porque perderam o pé, encontram nos professores os bodes expiatórios perfeitos para diluírem as suas próprias insuficiências.

Vivemos na sociedade da casa dos segredos e dos brunos de carvalho; uma sociedade boçal, carente de valores que possam irmanar-nos. Perdemos a religião enquanto factor unificador e não fomos capazes de a substituir por nada. A Ética não faz sentido sem uma divindade capaz de castigar os maus e premiar os bons. Ficou o consumismo. O resultado é o que está à vista. Mais adiante nem daremos conta que já não somos livres. Nem nada que se pareça.

quarta-feira, março 07, 2018

Receio

Assistimos sentados ao levantamento nazi, alfinetes a ferver que se vão espetando um pouco por todo o mapa da Europa. Como é possível isto estar a acontecer?

O povo europeu que dá força a essa besta política. Não parece ser um movimento de elites. Dá a sensação que a coisa cresce aconchegada por um certo esterco social, ali entalado entre a classe média e a média baixa, uma espinha na garganta social democrata, cada vez mais seca, cada vez mais ferida de morte.

"Esterco social", disse eu. E se a sociedade for maioritariamente nazi? Serei eu a transformar-me em esterco ou viverei numa esterqueira de facto? É difícil decidir. Entretanto vou aproveitando a liberdade de expressão (enquanto a tenho).

Por vezes penso se irei assistir ao triunfo do nazismo. E, caso isso aconteça, como irei reagir? Serei capaz de aceitar o retrocesso social e civilizacional sem fazer nada? E, se fizer alguma coisa, como deverei actuar? Com nazis não se pode discutir, apenas se pode lutar.

Espero que o triunfo nazi não seja mais que um pesadelo que vou sonhando, por vezes acordado. Gostava que a minha filha pudesse viver numa sociedade tão livre como esta em que tenho vivido. Preciso que isso aconteça para poder ter a sensação de que a minha vida teve algum sentido.

quarta-feira, maio 27, 2015

Greves a Metro

Os trabalhadores do Metro de Lisboa fazem tantas grevezinhas (de horas, de turnos, greves pequeninas, greves repartidas, greves constantes) que acabam por transformar um direito constitucional e indiscutível numa espécie de sarna social.

Não sou a pessoa mais indicada para discorrer sobre tão complexo tema. Tantas greves, greves a toda a hora, decerto exigem um conhecimento minucioso da vida da empresa a alguém que pretenda tentar imaginar as causas de tão persistente luta laboral. Convocar estas greves é trabalho de relojoeiro, aderir a estas greves será um dever dos trabalhadores, imagino eu.

A verdade é que a frequência com que damos com o nariz na porta do túnel do Metro é tão grande que já ninguém liga à coisa. Já ninguém se impressiona com a luta dos trabalhadores, antes pelo contrário. Eles fazem greve com tanta insistência que toda a gente desconfia do ardor com que aderem à luta tanto como desconfia da eficácia do movimento grevista.

A banalização da greve é como o abuso de antibióticos; perde força e efeito.

quarta-feira, março 18, 2015

A ferrugem

Andam por aí a dizer que isto ou aquilo não passam de contos para crianças. Querem dizer que são coisas parvas, coisas estúpidas, coisas que não passam de patranhas. Ilusões, enredos enganosos.

Pois, então é assim que tratamos as nossas crianças? As histórias que lhes contamos não têm outra intenção ou função que não seja menorizá-las (a elas que, por definição, já são menores)?

Na verdade, à medida que o tempo passa, as histórias infantis parecem tender para a imbecilidade graças à paranóia das pedagogias que nascem de posturas politicamente correctas. Mas as crianças não são as únicas vítimas desta plastificação da inteligência humana, os adultos também levam pela medida grossa.

Tal como nos contos infantis os lobos maus e as bruxas canibais parecem estar disfarçados de outras coisas para não traumatizar os mais sensíveis, também nos meios de comunicação social a bicharada mais peluda e de dentuça afiada, com hálito podre e merdoso, nos aparece em pose angelical e com discurso melífluo.

Andamos a pintar de fresco uma sociedade ferrugenta. Pintamos por cima sem limpar primeiro. A ferrugem continua lá, por baixo, a corroer, a corroer, a corroer...

domingo, junho 23, 2013

Hipocrisia

A Igreja Católica lidera a contestação à adopção de crianças por casais homossexuais. Os que vêm nesta possibilidade uma aberração absoluta argumentam com tradições culturais e leis naturais. A falta que faz uma figura paternal, o contra-senso que é ter duas mães ou dois pais.

No entanto, as notícias sobre abusos sexuais de menores praticados por membros da Igreja Católica que deviam, à partida, garantir o seu bem-estar material e espiritual, continuam a sair nos meios de comunicação social a um ritmo estonteante. Os órfãos à guarda de padres em instituições de solidariedade social não estão a salvo dos horrores deste mundo. Encontram crueldade predatória onde lhes prometeram amor.

Não ouço as vozes indignadas dos tais guardiões da moral e dos bons costumes, que tanto receiam ver homossexuais a cuidar de crianças, pedir o fecho dessas instituições e a condenação à prisão dos padres pedófilos. Estou em crer que muitas dessas crianças estariam bem melhor entregues a casais anti-naturais do que a homens que são impedidos, por regra religiosa, de o serem.

Sei que estou a misturar "alhos com bugalhos", homossexualidade nada tem a ver com pedofilia. Quero apenas sublinhar a hipocrisia da Igreja Católica que parece mais preocupada com as aparências do que com a essência de certas questões. Não me parece que seja o bem-estar da criançada que move os padres.

segunda-feira, novembro 01, 2010

Máximas mínimas


As pessoas anseiam por causas que substituam os ideais perdidos.
Um ideal aloja-se-nos no cérebro, uma causa infecta-nos o coração.