quinta-feira, novembro 14, 2019

Fábula da Sabedoria

Sentados em redor da mesa rectangular, uns de frente para os outros, continuamos a debater o aspecto que tem o espaço vazio. A nossa percepção da coisa é recolhida através do olhar. Olhamos o espaço vazio com tanta força, tanta concentração (alguns chegam mesmo a semicerrar os olhos) que dificilmente nos conseguimos aperceber daquilo que estamos a ver realmente.

Estamos a ver o plano de fundo; vemo-lo desfocado, impreciso, no entanto procuramos explicação para aquilo que somos incapazes de compreender. Vale o esforço, falham os resultados, sobra-nos o mundo que temos.

Pobres daqueles que ignoram o vazio, são tomados por tolos.

As pessoas inteligentes não têm dúvidas e nunca (ou raramente) se enganam. Toda a hesitação é por elas resolvida recorrendo à sua inexcedível inteligência. A cada problema resolvido corresponde tempo ganho, dinheiro em caixa, riqueza adquirida e sabedoria... sabedoria... sabedoria!?

Entre o tolo e o inteligente ergue-se uma torre enorme e sem nome, paredes lisas como marfim, apenas uma abertura, uma frincha estreita que é a porta. Dentro da torre não há nada, apenas o tal vazio e, além do vazio, existe a ausência de luz, a mais completa escuridão. Na verdade esse vazio é percepcionado como sendo a essência do Universo pelas pessoas inteligentes que, por serem inteligentes, são consideradas sábias. A ausência de luz permite uma maior concentração aos sábios e provoca algum desconforto naqueles que são tolos.

As pessoas inteligentes, os sábios, afirmam ser capazes de compreender o espaço vazio (na verdade não vêem nada, muito menos no interior da torre) ao ponto de proporem modelos que traduzam essa ausência  em algo palpável, normalmente recorrendo a complexas conjugações de algarismos, números e símbolos cabalísticos. É coisa só para iniciados.

Na verdade esses sábios, pessoas inteligentes que conhecem a magia dos números, estão a construir modelos do interior de si próprios e não daquilo que julgam estar a ver. Quando muito conseguirão proporcionar um vislumbre da forma como percepcionam o plano de fundo, até mesmo aos tolos que manifestem interesse suficiente em tais assuntos. Poderemos sempre questionar o espelho como fez a Rainha Má.

Esta fábula não tem fim porque sempre que surge um sábio há, pelo menos, um tolo que o persegue ou admira ou tenta compreender. Sempre que um novo modelo é oferecido ao mundo que pretende explicar há uma multidão de basbaques prontos para tudo: acreditar, duvidar e refutar. Assim o processo é reiniciado, o vazio volta a merecer toda a atenção. História sem fim enquanto houver Humanidade.

Ao tolo cabe um estranho papel.

terça-feira, novembro 12, 2019

A vida como ela é

É um bocadinho assim-assim, incomoda-me! Ouvir uma coisa dessas e ficar impassível, sem rir ou sem barafustar... é complicado. Apetece-me logo dizer "pois, pois, conversa da treta, é o que é" ou algo do género que um gajo tem dificuldade em calar a revolta cá dentro, não vá o esforço provocar alguma hérnia. Mas, prontos, um gajo tem de comer e calar. É a sina do povo.

Um tipo come e cala, cala e come, come e cala, cala e come, não é vida que se deseje para ninguém quanto mais para si próprio. De tanto comer e calar um gajo aproxima-se do abismo da revolta e fica a pensar seriamente na possibilidade de saltar e cair lá bem no meio da luta. Mas hesita-se que uma pessoa tem medos, um gajo tem receios. Vai ficando a cirandar por ali, à beirinha do precipício. Mas saltar... já é outra conversa.

Um gajo tem os tomates para usar quando são necessários e aplicá-los naquilo para que servem. E quando se depara com uma injustiça daquelas ou uma incompetência como esta é difícil ficar impassível, sem rir ou sem barafustar... é complicado.


domingo, novembro 10, 2019

Amigos

Os amigos não são melhores nem piores. Como podemos ter um "pior amigo"?

Os amigos são tudo o que temos.

sábado, novembro 09, 2019

Eternidade

Tudo estava devidamente inerte. Era essa a ordem natural daquelas coisas que, imóveis, absorviam a luz, absorviam os sons, coisas que quase chegavam a respirar, como se estivessem vivas. Olhá-las era arriscar a sanidade. Ignorá-las era como perder a razão de viver. O que fazer, então?

Decidiu não fazer nada. Absolutamente nada. De olhos fechados avançou pela inóspita paisagem. Cada passo carregava um universo de possibilidades. Sabia que avançava (ou recuaria?) mas isso era apenas um detalhe sem a mínima importância.

À medida que caminhava, olhos fechados, coração apertado, apercebeu-se de uma estranha rigidez que lhe ia tolhendo os músculos, uma secura desconhecida na boca, quase sentia terror, mas porquê? Cada novo passo era mais pesado que o anterior, cada momento era mais longo, até que parou por completo, incapaz de avançar. Assim ficou.

A tentação foi mais forte que a razão, a voz que lhe impunha o fechamento das pálpebras hesitou por um momento e ele abriu-as revelando o extenso vale de areia azul. Também ele era, agora, uma daquelas coisas. Estático compreendeu que assim permaneceria até que o tempo lhe dissolvesse a vida.

sexta-feira, novembro 08, 2019

Melancolia

Na escuridão o mundo é outra coisa. Sem luz não há cores e, sem cores, as coisas são tão diferentes! Na escuridão, a menos que sejas cego, reina a dúvida; a escuridão é o império da incerteza. Em terra de cegos a escuridão é clareza de espírito?

Ah, as palavras, as coisas estúpidas que elas nos obrigam a dizer.

Uma estranha melancolia percorre-me o peito. É como uma brisa soprada dos lados do deserto, um suave sopro que passeia dentro de mim com uma indolência insultuosa. Tento ignorá-la mas nada, não sou capaz. Afinal ela passeia-se lá muito dentro de mim, no fundo do meu coração, na escuridão inacessível do meu ser. E, na escuridão, o mundo é outra coisa.

Sorrio na direcção do meu interlocutor. Ele continua a falar. Apercebo-me de que não se havia interrompido. As palavras brotando da sua boca como água de uma fonte. Compreendo que lhe basta o meu sorriso, um ou outro gesto de assentimento que lhe garanta haver da minha parte alguma conexão com o seu discurso. Fraca garantia o satisfaz.

E é assim: palavras e mais palavras, sons que ecoam na realidade dos objectos circundantes e me devolvem a verdade distorcida; uma verdade que me enforma e auxilia na construção do mundo tal como julgo vê-lo. Até do meu olhar eu já duvido pois sei bem que quando a luz se vai e se instala a escuridão o mundo é outra coisa.

quinta-feira, novembro 07, 2019

Um búzio

Os dedos dos pés na areia húmida traziam-lhe recordações de infância a cada passo que dava. Um búzio de dimensão generosa parecia aguardá-lo mais adiante; estático, como se se banhasse, ora visível ora escondido na espuma que o mar ia babando sobre a praia. O búzio parecia chamá-lo.

Respondendo ao apelo avançou, baixou-se, a perna esquerda esticada, em equilíbrio sobre a flexão da perna direita, apanhou o búzio. Tomou-lhe o peso, sentiu-lhe a textura e encostou-o ao ouvido para ouvir a voz do mar (coisa estúpida de se fazer ali, com os pés dentro de água e o mar todo a falar-lhe tão perto).

Mas o que ouviu foi estranho, foi como um grito, não foi aquele murmúrio surdo que esperava, a voz habitual dos búzios, nada disso, foi uma coisa aguda, um som que lhe alfinetou a alma, que o inquietou, que lhe causou um arrepio tremendo. Olhou espantado a abertura do búzio que lhe havia largado dentro do ouvido aquele som horripilante.

Atirou o búzio para longe, restituindo ao mar aquele segredo estridente. Ele que ficasse com aquilo, que raio! Voltando as costas às ondas continuou a caminhar. Os dedos dos pés na areia húmida traziam-lhe recordações de infância a cada passo que dava.

quarta-feira, novembro 06, 2019

Discurso directo

Nunca te aconteceu, amável leitor, sentires que aquilo que tens para dizer é urgente e verdadeiro mas que, quando o disseres, nem todos os que te ouvirem vão ficar agradados? É claro que sim, que já te aconteceu, faz parte da vida de todos nós. É a opção entre falar ou ficar calado.

Agora imagina um dado adicional; aqueles que te vão ouvir de nariz torcido têm poder sobre ti. Aqueles que vão sentir as tuas palavras como alfinetes espetados debaixo das unhas podem decidir sobre assuntos que te interessam e podem impedir-te de vires a ser um pouco mais feliz (ou menos infeliz, é como naquela cena do copo meio cheio ou meio vazio).

Vão dizer-te que não se morde a mão que te dá de comer. Pessoalmente respondo: depende.

domingo, novembro 03, 2019

Contra o chumbo, marchar, marchar!


Assistimos à enésima arremetida ministerial contra as retenções no ensino básico. A redução espectacular dos chumbos que se verificou desde que Brandão Rodrigues é ministro não basta, queremos mais, queremos melhor! Enquanto houver uma retenção que seja, descanso e auto-satisfação não serão opções.

Novos estudos fornecem velhas conclusões: a retenção é selectiva, é precoce e cumulativa, levando na enxurrada do insucesso os filhos de famílias mais pobres, menos estruturadas e com menor capacidade de acesso a bens culturais. Haja esperança, até ao final desta legislatura o salário mínimo aumentará para 750 euros.

Velhas conclusões sugerem velhas soluções: acompanhamento individualizado, sistematização de programas e currículos, envolvimento activo dos diferentes actores educativos mas, sobretudo, apostar no empenho de professores e directores escolares reforçando a sua autonomia. Desta vez é que é!

Nas salas de aula continuarão a reunir-se turmas demasiado numerosas, os programas e currículos serão, como sempre, extensíssimos e desajustados, a carga burocrática do trabalho dos professores continuará kafkiana e com tendência a contribuir para o enlouquecimento de uma classe profissional envelhecida e, dizem, desmotivada.

Não obstante, no final da legislatura os resultados serão animadores, verificar-se-á que as taxas de retenção diminuíram, que o abandono escolar recuou e o ministro poderá sorrir, confiante de ter realizado um bom trabalho.

No universo dos números e das percentagens tudo está bem quando acaba bem. Verificar se a luta contra a ignorância e a estupidez teve sucesso será algo mais difícil de avaliar e não interessa a (quase) ninguém.


Carta enviada ao Director do jornal Público a 3 de Novembro de 2019

Escrito na rua

 Grito, Novembro de 2019



Quando sinto a esperança a fugir de dentro de mim faço um desenho.

Alguns dos meus desenhos são como abraços com os quais tento retardar a fuga da esperança. Outros são rasteiras, são murmúrios, são gritos.

Os meus desenhos são feitos de esperança que, como sabemos, é a última coisa a morrer. Mas a esperança, como todas as coisas, no fim morre também.

segunda-feira, outubro 28, 2019

Batalha final

É um rumor, um som distante, uma batida, tum-tum-tum, uma batida que se aproxima, tum-tum-tum, cada vez mais próxima, marcial, uma batida que marca o presente, obstinada na marcação do futuro, tum-tum-tum...

Impossível ignorar esta marcha implacável. Os marchantes não se vislumbram ainda mas é com angústia (e talvez algum terror) que se adivinham. Já vejo a poeira que levantam erguendo-se acima da linha do horizonte, eles estão aí. Tum-tum-tum, são tambores guerreiros anunciadores dos exércitos que se aproximam.

Do lado contrário chega-me aos ouvidos um outro rumor, ban-ban-ban, outra batida, não menos marcial, se vai afirmando e se aproxima. Inexoravelmente. Ban-ban-ban, de um lado, tum-tum-tum do outro. Dois exércitos em marcha sincopada movimentam-se na direcção exacta do local onde me encontro.

Olho o pulso. O relógio está parado. É hora.

quinta-feira, outubro 24, 2019

Trípticos

Nascer, crescer, morrer. Este é o ciclo de vida para tudo o que existe. Sejam animais, estrelas ou nações; tudo nasce, tudo cresce, tudo acaba por morrer. Talvez mesmo o Universo esteja sujeito a este tríptico existencial.

Veio esta reflexão a reboque de estar eu a relembrar o ciclo dos "estilos artísticos" tendo por modelo o estudo da arte grega que é habitualmente dividido em três períodos: arcaico, clássico e helenístico.

Sendo o período arcaico o do nascimento e aprendizagem, a busca de uma linguagem própria (com forte influência egípcia); o período clássico o do estabelecimento dos cânones que representa o apogeu da arte grega, a afirmação das características distintivas e grandiosas que irão perdurar na memória histórica; finalmente o período helenístico, marcado pela degradação dos cânones, pela ultrapassagem dos dogmas, pela inventividade individual em oposição às regras uniformizadoras estabelecidas no período clássico.

É interessante comparar este ciclo dos estilos à vida e desenvolvimento de um ser humano: a infância e a adolescência como períodos de aprendizagem mais intensa; a idade adulta como período de afirmação e convencimento de se ter chegado a algum lado, de sermos capazes de encontrar conclusões convincentes para a definição daquilo que somos; finalmente a 3ª idade.

Aqui, a comparação da recta final da nossa vida com o período helenístico talvez não seja a coisa mais óbvia mas não deixa de ser uma proposta aliciante: fazermos dos nossos últimos tempos tempos de rebeldia e transgressão relativamente àquilo que imaginámos ser anteriormente. 

terça-feira, outubro 22, 2019

O Canibalismo Cósmico

Reagindo à hipocrisia dos cultivadores da bondade industrial enlatada que a vendem à semelhança das antigas bulas papais, suportados em esmagadoras campanhas publicitárias, surge uma nova vontade sinuosa que emana lentamente do lixo gorduroso das cidades, do lixo tecnológico indestrutível, que se eleva serpenteante dos ambientes anormais dos micro-climas poluídos e das mutações genéticas aberrantes por eles provocadas. É uma vontade quente que envolve os objectos em auras luminosas semelhantes a auréolas divinas, retirando-lhes frieza, enquanto renova o seu sentido mágico valorizando mensagens simbólicas que lhes são inerentes.

No aspecto criativo essa vontade manifesta-se numa iconologia caótica que decorre naturalmente do súbito crescimento desmesurado dos dados disponíveis e captáveis, produzidos freneticamente pelo mundo tecnológico moderno. Trata-se da procura constante da reconstrução de processos simbólicos e narrativos. Reinventam-se métodos e objectivos.

Os criadores do actual fim-de-século que habitam  a sociedade tecno-industrial não aguardam o futuro, vivem-no tão intensamente no dia-a-dia que este se embrenha no passado, formando um tempo único e compacto. Assim é perfeitamente possível hibridizar na arte contemporânea sinais temporalmente tão distantes como as obras de Jheronimus Bosch e Jackson Pollock ou Mozart e Frank Zappa. É um método criativo que mistura e adapta todos os tipos de técnicas e informações extraordinariamente variadas.

Gera-se uma arte subversora do Belo que se metamorfoseia até ao infinito na busca do objectivo primordial: a Universalidade Mágica.

O Canibalismo Cósmico é um ritual criativo baseado na libertação dos dogmas e na crença de que a hibridização anárquica é a suprema forma organizativa.

Rui Silvares
Novembro 1989

sexta-feira, outubro 18, 2019

Uma coisa na ponta dos dedos

Olhar para um écran de televisão e ver o que se vai passando na Catalunha deixa-me uma estranha sensação alojada no peito. Ontem dei por mim a pensar baixinho que, se estivesse em Barcelona, decerto seria um dos muitos milhares que povoavam as ruas. Mesmo não sendo catalão, decerto estaria ali.

A questão não é legal, a questão é política. É uma questão de Liberdade para decidir. Escrevo estas palavras e percebo que tenho o coração na ponta dos dedos, que, se calhar, as coisas são muito mais complicadas, que não percebo nada do que se passa, que haverá explicações racionais capazes de desarmar os meus sentimentos com a facilidade de quem rouba um chupa-chupa a uma criança. Mas não há nada a fazer. Coração é coração.

Em miúdo, li o Spartacus, de Howard Fast. O livro marcou-me para a vida. Mais do que A Ilha do Tesouro ou As aventuras de Huckleberry Finn, outras das obras que me aconchegaram a adolescência. A luta dos escravos pelo direito de serem livres impressionou-me, mas o que mais me deixou a pensar foi a sua derrota e o castigo absoluto que sofreram.

Na minha mente juvenil formou-se uma coisa que nunca mais me abandonou. Não sei explicar bem o que é mas sei que é essa coisa que me leva o coração para a ponta dos dedos quando escrevo que a questão catalã é uma questão de Liberdade.

quinta-feira, outubro 17, 2019

Comunistas? Fascistas?

Podemos nós olhar para Kim Jong-un, o príncipe coreano,  montado no seu cavalo branco, rodeado por neves místicas e ver nele um comunista? 

Podemos nós olhar para a China de Xi Jinping e ver um país comunista?

Porque ficam tão indignados os militantes do Partido Comunista Português sempre que alguém põe em dúvida a bondade de Vladimir Putin, esse ser que resulta do cruzamento entre um czar e um ogre? 

E Maduro, lá na sua gaiola dourada venezuelana, a esbracejar desesperado, governando ao sabor de paixões pessoais, a sobreviver muito mais do que a deixar viver? É ele o rosto da utopia comunista?

São todos personagens tão diferentes, com orientações políticas tão personalizadas e patrióticas que, a meu ver, nada os une. Vejo-os tão semelhantes uns aos outros como vejo Trump e Bolsonaro semelhantes a Órban e a Kaczinsky. Vejo homenzinhos perdidos nos seus labirintos individuais. 

Não vejo comunistas, nem fascistas, vejo apenas gente que não compreende os outros, gente que não ama, muito menos é amada, gente que imagina a sua loucura como sendo a expressão máxima do Ser Humano. 

Vejo neles escumalha, ausência de expressão do Ser Humano.

terça-feira, outubro 15, 2019

Memória de passarinho

Afiar as navalhas pareceu-lhe uma boa ideia. Abriu a gaveta e percebeu que já lá não estavam. Lembrou-se que tinha mudado as navalhas de lugar mas não conseguiu recordar o novo poiso. Caramba, e agora? Olhou pela janela. As nuvens cinzentas iam avançando lentamente na direcção do horizonte. Onde estavam as navalhas!? Um cão ladrou lá fora (ou teria sido uma gaivota?) e ele, sem as suas queridas navalhas por perto, sentiu-se triste, um pouco desamparado. As nuvens estavam cada vez mais longe, pareciam puxar lentamente o cobertor da noite que vinha para cobrir a cidade. Os candeeiros da rua ligaram-se. Pensando bem as navalhas não lhe faziam falta. Pelo menos por enquanto.

domingo, outubro 13, 2019

Dúvida

Pode um cristão ser cristão sem acreditar em Deus?
É complicado mas vale a pena tentar.

segunda-feira, outubro 07, 2019

Sonho de uma manhã de Outono

Será possível a um país sobreviver no mundo globalizado sem obedecer de forma canina às (pouco) subtis orientações economicistas que orientam  a generalidade das opções políticas e sociais tomadas pelos vários governos? Será possível organizar as nossas vidas tendo como foco central o ser-se humano? Talvez...

Não será fácil pensar nas pessoas e no meio ambiente antes de pensarmos no consumo ou pensarmos no consumo em função das pessoas e do meio ambiente. A relação directa entre consumismo e riqueza monetária é o cancro que corrói as nossas vidas e faz um inferno do espaço que habitamos. Temos uma tendência doentia para valorizarmos o enriquecimento sem olharmos às consequências por ele potenciadas.

Segundo o senso comum instalado é melhor possuir do que ser, impingem-nos essa perspectiva a toda a hora e nós acreditamos porque, quando funcionamos em manada, somos estúpidos. Se cada um de nós parar para pensar um pouco sobre aquilo que está a fazer, se cada um de nós compreender a compulsão que o impele a ser um destruidor e não um construtor, decerto ficará apreensivo com as conclusões a que chegou. Agarremos essa apreensão e façamos com ela uma ideia nova.

Uma ideia nova é algo completamente diferente.


sexta-feira, outubro 04, 2019

A sombra

"Já nem sequer me assusto" disse ele para o botão das calças, o único que lhe restava capaz de ter uma conversa, "sinto-o aqui atrás, parece-me estar mesmo sobre o meu ombro, mas já nem sequer me assusto". Continuou concentrado no jornal sem registar com grande rigor a informação que ia ingerindo juntamente com o ar que respirava misturado num café amargo como a vida.

domingo, setembro 29, 2019

Dada

Disse um Dada: todos os dias acumulo cá dentro uma coisa selvagem que transformo em sossego, uma pulsão de morte que transmuto em sentido de vida. Por estranho que possa parecer acredito ser amor, essa coisa que surge do que fica dentro de mim.

Respondeu-lhe um Outro: se encontras um sentido para aquilo que constróis é porque viver consiste, quase sempre, na necessidade que tens de distrair a morte. Digo "quase sempre" porque no fim será a morte que encontras.

Concluiu o primeiro Dada: vou beber um café sem açúcar.

sexta-feira, setembro 27, 2019

O coração da Coisa

Começam a ouvir-se algumas vozes que admitem termos ultrapassado o ponto de não-retorno. Pessoas que falam alto nos media, que afirmam que não há volta a dar-lhe, que, apesar de estarmos a empurrar o nosso sistema de sociedade global em direcção ao abismo esse mesmo sistema permitiu reduzir (e muito) a pobreza. Apesar de aumentar as desigualdades, as diferenças entre ricos e pobres, apesar disso reduzimos muito a pobreza. Estamos de parabéns?

Estas pessoas compreendem a angústia, a fúria e o desvario dos que se revoltam contra a crescente poluição ambiental mas, dizem, e dizem-no alto, nos mass media, é impensável mudar o que quer que seja assim de um momento para o outro, sem provocar uma convulsão social e política de tal magnitude que o mundo, tal como o habitamos, acabasse por se devorar a si próprio. Não é bonito de ser visto mas tem de ser assim. Tem muita força.

Compreendo. Compreendo que os jovens se revoltem, compreendo que os tipos de meia-idade se acomodem e compreendo os velhos agarrados à saudade que têm da juventude perdida, parece-me que sou capaz de compreender esta malta toda. Ok, podem ficar tranquilos, todos têm razões suficientemente fortes, razões suficientemente válidas que justifiquem essas ideias que lhes estão a passar pela cabeça. Todos os seus actos são aceitáveis apesar de contraditórios. Vivemos numa sociedade livre... vivemos, não vivemos?

A reflexão fica por aqui, salto directo para a conclusão: estamos a trabalhar arduamente para a extinção, não da espécie humana mas do sistema capitalista enquanto paradigma sócio-económico. Enquanto a coisa foi mais ou menos localizada, mais ou menos parcial (a Coisa é a exploração capitalista, exploração dos seres vivos e dos recursos naturais com o fim absoluto do enriquecimento de uma casta de cabrões enxertados numa outra, de filhos da puta) o mundo apenas vacilou. A partir do momento em que a Coisa se globalizou, já fomos! Não há retrocesso nem , como dizem as tais vozes que referi lá mais atrás, volta a dar a isto sem que tudo acabe a ruir à nossa volta.

Assim, o melhor, é deixarmos andar, ir aproveitando enquanto pudermos viver como vivemos, os que vierem depois de nós é que se fodem.

terça-feira, setembro 24, 2019

Melancolia (esboço)

Por vezes não sei se sinto raiva se compaixão. É uma pressão que se me instala entre o peito e o estômago e ali fica, a pressionar-me os sentimentos ou lá o que é. Após uns momentos de pressão a coisa começa a transformar-se em angústia. Inspiro, sustenho a respiração, tento expelir aquela sensação através dos poros, pelas narinas, pelos ouvidos, nem sei que faço!

Quando nos sentimos encurralados reagimos por instinto, as nossas acções fazem um certo sentido que, naquele momento, nos escapa. Debatemo-nos.

Se porventura consigo expulsar de dentro de mim aquele feto de demónio (surgiu-me agora mesmo essa imagem, aquela pressão ser provocada por um ser maligno que começa a crescer cá dentro, tipo o Alien do filme de Ridley Scott), se consigo expulsá-lo (até hoje sempre consegui) fico melancólico.

A melancolia provém do facto de perceber que os demónios existem e vivem dentro de nós. Embora vá conseguindo vencê-los percebo facilmente que muitos de nós sucumbem à angústia e aceitam que a bestiola se instale, alimentam-na e deixam-na crescer. Nestes casos é frequente que o demónio acabe por substituir a pessoa e lhe substitua a alma por um espírito maligno.

Quando o demónio é muito poderoso e ambicioso transforma-se numa pessoa poderosa e ambiciosa, um gestor de empresas, um explorador de seres humanos. Quando ascendem a lugares de chefia tornam-se capazes de semear a angústia nos corações de centenas, de milhares, de milhões de pessoas, proporcionando um ambiente favorável ao surgimento de centenas, de milhares, de milhões de demónios.

Ao contrário do que muita gente acredita os demónios nem sempre são agressivos como os pintam. Cada demónio tem a sua personalidade própria. Quando o demónio é fracote e cobardolas transforma a pessoa numa verdadeira filha da puta. Este é o demónio mais comum.

segunda-feira, setembro 23, 2019

Se Midas cagasse...

... transformava todas as sanitas do mundo em objectos de ouro, tal qual a sanita engendrada pelo Maurizio Catellan que foi roubada aqui há uns dias de um palácio inglês onde havia sido montada para exposição. Midas não podia tocar em nada que não endurecesse e ficasse brilhante e consistente como é apanágio do ouro. Não consta que o toque de Midas fosse exclusivo da ponta dos seus dedos, daí que quase tivesse morrido à fome (nem quero pensar no que seria cagar ou mijar para este  imbecil absoluto).

Mas isso é outra história, a sanita de Catellan, cuja instalação toma o nome de América, possui o fascínio que sempre acompanha todo o objecto que luz e é de oiro fino. Objectos brilhantes atraem os corvos, objectos de ouro atraem gente a dar para o abutre ou para a hiena, pobres animais incompreendidos porque necrófagos. Estes objectos correm o risco de serem roubados.

América tem algumas vantagens em relação a A Fonte, de Duchamp, desde logo porque uma sanita é, em potência, mais polivalente do que um urinol. Outra razão de peso é a da matéria prima: de um lado ouro, do outro loiça industrial. O valor material dos objectos é nitidamente desequilibrado. Já quanto a um suposto valor artístico a coisa pia mais fino.

Chegamos aqui ao pormenor curioso, diria mesmo, pitoresco: então não é que um pedaço de loiça pode ser mais valioso que um pedaço de oiro bem mais volumoso e pesado? Depende da perspectiva que orienta a avaliação. Imagino que a Teoria da Relatividade ande mais ou menos por estes caminhos mas é quando me meto nestas andanças que percebo aquela pintura do Brueghel, do cego a guiar outros cegos.




quinta-feira, setembro 12, 2019

Felicidade

Descontos, vales de oferta, negócios mirabolantes: oportunidades, oportunidades, oportunidades! Há ali fora um mundo de oportunidades que se te oferece, queridíssimo leitor, um mundo que se rege por uma única regra: fazer-te feliz! Em nome da tua felicidade o carapau vende-se ao preço da uva mijona, a varinha mágica é praticamente oferecida e o corte de cabelo!? Valha-te Deus, que mundo este, que loucura!

Comes o carapau acompanhado por um batido desfeito com a nova varinha enquanto miras de soslaio o teu novo corte de cabelo no espelho da cozinha. Continuas pouco feliz. O problema deve ser teu. Decerto não aproveitaste todas as oportunidades que tão gentilmente te ofereceram. Tens de regressar ao Templo e desejar a felicidade com mais fervor, de carteira mais aberta.

O problema só pode ser teu!

quarta-feira, setembro 11, 2019

Da inutilidade

Parecemos cansados. Mais: parecemos enfastiados. Alguma daquela informação poderia ser passada em mandarim, soaria exactamente ao mesmo. Após assinadas e carimbadas e validadas, as actas poderiam ser enviadas para a República Popular da China, os resultados seriam, decerto, muito semelhantes.

Olho em volta discretamente. Somos apenas um grupo formado por gente moderadamente só a fazer de conta que o Caos pode organizar-se um bocadinho. Sinto-me inútil.

terça-feira, setembro 10, 2019

Ir indo

Acabo de compreender que para se ter uma grande história não é preciso nada de especial. Uma grande história é sempre uma viagem. Só precisamos ir.

quinta-feira, setembro 05, 2019

Especial

Não sei como é contigo, amigo leitor, a mim, as lojas personalizadas provocam-me engulhos. Detesto ir comprar café  e ter uma senhora extraodinariamente simpática a oferecer-me uma chaveninha de um novo produto, uma coisa excelente. Não gosto de estar a mirar uma coisa qualquer e ter de suportar a aproximação solícita de quem ali trabalha a perguntar-me se preciso de alguma coisa, que esteja à vontade, que faça de contas que estou em minha casa. Que coisa mais parva!

Se fosse o dono da mercearia, ainda vá que não vá, o gajo quer que eu lá volte, faz uma atençãozinha, tenta cativar-me com o jeito característico do merceeiro. Ok, lícito e límpido como água da chuva. Já uma miúda daquelas que trabalham nas lojas do centro comercial... soa a falso, tal como o merceeiro, mas sem aquela limpidez. É um "sentimento" de plástico. Desagrada-me. Tento não ser rude mas é difícil.

Parece-me ser uma estratégia mais ou menos comum, fazer com que o cliente se sinta especial. Mas é tão artificial! Talvez seja isso, talvez que ser-se especial seja uma absoluta artificialidade. Não dizem certos credos religiosos e certos credos políticos que somos todos iguais, seja perante Deus ou perante a Lei?

segunda-feira, setembro 02, 2019

A cabeça e as suas orelhas

O tempo vai passando, e a tua vontade de mudar o mundo vai-se transformando. Já não é aquele ímpeto avassalador que te fez acreditar piamente que a razão era toda tua, já não é aquele discurso estruturado e lógico que encurralava os argumentos dos teus adversários fazendo brilhar a visão do Mundo que professas, muito menos é a perspectiva do grupo com o qual te identificas uma vez que há ali muitas falhas que tentas ignorar para poderes fazer parte, sentires-te integrado.

Com o tempo nasce dentro de ti uma outra coisa, um misto de irritação, fastio e desencanto, um bicho informe que te rói o pensamento e te faz azedo aos olhos dos outros. Começas a creditar que, afinal, não há volta a dar a esta merda, começas a acreditar que foste ingénuo, que sonhar é coisa frágil. Quando chegas a este ponto estás lixado.

Que fazer, então? Como podes conviver com o tal bicho que, na verdade, és tu, um reflexo de ti? Não sei. Não tenho respostas para tais questões. Pessoalmente opto por ir alimentando o bicho na esperança de que, mais adiante, haja ainda outra coisa, uma salvação qualquer que de momento nem sequer posso adivinhar qual seja.

Como diz a canção: "cá se vai andando co'a cabeça entre as orelhas".

quinta-feira, agosto 29, 2019

Casamento falhado

Poderá a nossa espécie alguma vez recuperar o rumo que, aparentemente, havia tomado quando a Democracia se assemelhou a algo justo? O casamento da Democracia com o Capitalismo já corria mal, o pior foi quando o casal pariu a estirpe de governantes democraticamente eleitos, com merda no lugar dos miolos, que se vão assumindo os cadeirões do poder.

Percebia-se que Trump e Bolsonaro (e Duterte e Órban, etc.) eram coisas más mas estava-se longe de imaginar que fossem uma infecção tão radicalmente mortífera. O resultado será, inevitavelmente, a morte do sistema económico-social que ainda se vai aguentando no mundo global. Isto será dramático para o mundo ocidental e, estou em crer, para o mundo inteiro.

Um mundo desregrado, governado ao sabor dos caprichos destas alimárias, será ainda mais injusto e perigoso do que já era. Talvez seja necessário passar por uma fase de terrível agitação para que, no futuro, algo diferente (para melhor) possa surgir. Para ser sincero, este desejo não me desperta qualquer entusiasmo.

Não consigo acreditar que depois da tempestade que estamos a viver venha bonança capaz de nos reconciliar com a vida humana. Mas isso sou eu a imaginar o Futuro com a minha cabeça limitada. Talvez Deus exista...

terça-feira, agosto 27, 2019

Civilidade virtual

Pretender que uma comunidade humana se paute por princípios de respeito mútuo absoluto entre os seus membros é um desejo situado nas margens do ridículo.

O insulto gratuito e soez ganhou foros de cidadania nos fóruns virtuais. Imaginar que coisas como o Facebook, o Twitter ou as caixas de comentários nos jornais online seriam espaços de debate e iluminação do pensamento revelou-se algo do domínio do absurdo.

Resta-nos fingir que somos civilizados.

domingo, agosto 25, 2019

O Grande Dada

Fui, de súbito, iluminado por um relâmpago que me atingiu em cheio no meio das trombas: Deus é dadaísta! Ou, melhor: o Grande Dada é Deus! Resumindo, para explicar a coisa às almas mais simples e aos que não têm a tromba toda fo... toda chamuscada por terem sido atingidos pelo raio que os parta: Dada é Deus, Deus é Dada.

Um gajo pode andar a vida toda sem perceber patavina e, quando menos espera, ser submetido à mais arrasadora das revelações. Imagino que, para muitos de nós, a Revelação seja o fim da linha. Quantos não irão parar ao hospício da paróquia logo após a visita do Anjo? No meu caso a coisa foi, mais ou menos, pacífica. Mantive-me em casa e fui preparar um cafézinho.

Posso garantir-te, amável leitor, que saber que Deus é o Grande Dada e vice-versa, explica tudo e a vida continua, fazendo muito mais sentido. Experimenta e vais ver.

sexta-feira, agosto 23, 2019

Graal

Quando me deparei conscientemente com a questão da liberdade individual, aí pelos meus doze ou treze anos, deixei de acreditar em Deus. Era para mim impossível aceitar a ideia da Sua existência enquanto polícia, juíz e carrasco da Humanidade. Um ser omnipresente metediço e repressor omnipotente não encaixava com o ideal libertário que começava a tomar forma na minha mente.

Passei a adolescência convicto da superioridade absoluta dos meus pontos de vista apesar da fragilidade dos seus alicerces e da ignorância característica dessa idade. Apercebo-me agora que estava apenas preocupado em viver cada dia como se fosse uma promessa de algo que, então, não me passava pela cabeça, algo que viria no dia seguinte ou no outro, algo bom e completo que fizesse sentido e me permitisse uma sensação de plenitude.

Continuo à espera de perceber que coisa era essa.

Hoje já não acredito tanto que chegue a encontrar esse meu Graal pessoal e particular, ficaria satisfeito se conseguisse perceber, mesmo que apenas vagamente, os seus contornos, quanto mais a sua essência!

Chego à conclusão de que, de certo modo, nunca ultrapassei a adolescência (terei ultrapassado a infância?) e que a idade adulta é uma abstracção absoluta. Ou será a idade adulta esse tal Graal?

domingo, agosto 18, 2019

Eternidade

Demasiado ocupado a fingir não saber quem era, a fingir não pensar na morte, tropeçou numa frase imprudente e caiu numa poça de infelicidade movediça.

A lama infeliz era densa mas puxava-o para baixo. Cada nova palavra, cada gesto que imaginava redentor, só agravavam a situação e ele sentia-se engolido, desconfortável, por vezes irritado. Ficar quieto e calado afigurava-se a solução ideal, ainda que isso significasse o esquecimento absoluto, uma tristeza infinita.

Hirto como um prego, deixou-se ficar. Foi afundando, afundando... encontrara a Eternidade.

terça-feira, agosto 13, 2019

Muros

Um muro implica com a nossa posição neste mundo. Existindo, encontramo-nos de um lado ou do outro. Havendo um muro já não temos todo o espaço à nossa disposição de modo a podermos circular livremente, podemos evitá-lo, podemos ignorá-lo, não olhar para ele mas não é por isso que desaparece. O muro está lá.

Há milhões de muros por esse mundo fora. Pequenos muros, murinhos, muretes, simples cercas de madeira, barreiras com arame farpado, muros altos, muros baixos, a variedade é imensa. O território fica todo recortadinho, marcam-se itinerários em volta de muros ou através deles. Todos os muros têm portas, portões ou meras passagens que podem, ou não ser, guardadas

Além dos muros físicos, como era, por exemplo, aquele que dividia Berlim, há muros psicológicos, muros culturais, muros religiosos, há muros de todas as formas e consistências que ultrapassamos de acordo com a nossa vontade ou a nossa capacidade. Podemos desprezar um muro, não lhe darmos a mínima importância; isso acontece quando a existência da barreira não interfere directamente com a nossa vida nem ofende as nossas convicções. É fácil ignora-se um muro que incomode apenas o vizinho.

A existência dos muros justifica-se ou não: esse é o "tal" debate que não pode fazer-se em abstracto, pois cada muro é coisa demasiado concreta.

domingo, agosto 11, 2019

Barrigas simbólicas

Devo andar a passar por uma cena daquelas que têm a ver com a idade, uma crise qualquer, decerto já estudada e registada em revistas da especialidade e em revistas de curiosidades. Esta manhã dei por mim a reparar nas barrigas dos homens que iam passando. Grandes barrigas!

A minha atenção para as referidas barrigas foi atraída, decerto, por ter reparado na minha própria pança logo após a banhoca matinal. Está a ficar insistentemente proeminente, uma redondeza balofa a querer marcar posição no meu corpo. Vejo-a, penso nela, não gosto de a transportar mas, verdade seja dita, não faço nada de especial que a contrarie e a barriga vai ficando.

Voltando atrás, reparava eu nas barrigas. Contas arriscadas e feitas por alto, anotei mentalmente aí uns 80% de barrigudos. Isto entre novos e velhos e mais ou menos, a barriga não parece escolher idades. Ali estava eu, com a minha barrigota, a reparar nas dos outros. Burgueses como eu, pessoas sem aparentes problemas de subsistência, produtos acabados de um certo modo de vida que assenta no consumo, muito para lá da satisfação das necessidades básicas.

Dei por mim a pensar que estas nossas barrigas são imagem, ícone e reflexo da forma como vamos exaurindo o planeta. As barrigas simbolizam a morte lenta da Terra?

sexta-feira, agosto 09, 2019

Dor fantasma

O mundo revela, por vezes, uma capacidade surpreendente de amarfanhar o coração a um gajo. Não tem de haver nada de especial, não tem de acontecer nada de extraordinário, basta não sei o quê, uma coisinha indistinta... alguma coisa deverá acontecer para que, de repente, aquela sensação incómoda desaconchegue o coração e o ponha fora do sítio.

Um gajo põe-se a magicar: que raio aconteceu? Mas não encontra resposta, não vislumbra razão nenhuma para ter ficado assim, bisonho, meditabundo, a descortinar bolor em cada canto e tristeza em todos os sorrisos. É como uma pedrada na testa, uma coisa de fantasmas.

Não há remédio para esta sensação pois não se percebe o que seja, não há estratégia que reponha o coração no sítio. Resta esperar que passe. Um gajo tem esperança que, tal como surgiu, a coisa se vá e não volte tão depressa.

terça-feira, agosto 06, 2019

Números redondos

Ando a ler um livrinho intitulado As 10 invenções de Picasso. É interessante e dinâmico, bastante razoável... mas, o que me leva a escrever este texto não é o livro, em si, é o número "10".

É aquela suposta magia do número redondo. Porquê 10 invenções? Não terá havido mais uma? Ou menos outra? Ou duas para trás e quatro para a frente da fronteira mítica do número 10? Que raio, estará a autora a torcer os números por forma a chegar ao redondinho que faz o título da obra?

Os números redondos infectam a informação e lixam-nos o imaginário. Ele são os 100 dias de governação que servem para medir o sucesso ou a popularidade de um governo recém-empossado, o Top 10, 30, 50, o Top 100 das músicas mais ouvidas, os 500 filmes que fazem a felicidade de uma vida de cinéfilo, etc. Os exemplos de arredondamento numérico são mais que muitos.

Quantos filmes de merda foram enfiados à força na tal lista para termos 500? Que autores interessantes ficaram fora da lista de best-sellers de modo a não estragar a redondeza numérica? Qual o problema dos números angulosos e agudos, que mal poderá vir ao mundo se uma lista de excelência for composta por 11 títulos ou 23 ideias geniais?

Assim se constrói um mundo artificial.

segunda-feira, agosto 05, 2019

Ler

Ler não é remédio mas alivia a solidão e pode ajudar a manter a estupidez à distância.

Sou um leitor muito lento, quase um caracol, tal o ritmo a que leio. Este ano resolvi fazer uma lista do títulos que vou lendo. Constato que não são mais nem menos do que imaginava. Os temas e os autores são tão díspares que nem eu compreendo qual a lógica das minhas escolhas. Melhor, ao passar os olhos pela lista percebo que não há qualquer lógica nas escolhas.

Romances, crónicas, ensaios, temas históricos, contos, novelas, passa tudo. A única regra é ter sempre um livro para ler. É essa a lógica!

O meu avô materno tinha um pequeno azulejo na parede da cozinha que dizia "Livros e amigos, poucos e escolhidos", nunca esqueci essa frase mas, sinceramente, não oriento a minha vida por ela. Principalmente no que diz respeito aos livros.

Apesar da lentidão com que avanço nas páginas impressas, acumulei centenas de livros nas estantes e recorro com frequência a bibliotecas públicas, muitas vezes por questões de racionalidade económica e de espaço físico. E o meu cérebro? Estarão todos os livros que li guardados nele?

terça-feira, julho 30, 2019

Passeio na praia

Hoje de manhã fui até à praia. Bem cedo, pouca gente, muito vento. Resolvi passear a favor da ventania. Pessoas para trás, pessoas para a frente, aqui e ali uma gaivota, mais adiante um verdadeiro ajuntamento desta passarada.

Nesta conjuntura o pensamento espreguiça-se e vai andando mais à frente, por vezes atrasa-se, sinto-me uma espécie de autómato.

Foi então que reparei que tenho 56 anos e ainda não aprendi quase nada. Preciso de espaço para viver a minha vida mas não percebo muito bem como vivê-la. Haverá regras? Linhas gerais de orientação? Objectivos?

Sempre fui mais de fazer do que de reflectir, assim à maneira daqueles cowboys do velho Oeste, que disparavam primeiro e perguntavam depois. Vou deixando as coisas que faço, uma pista de bolinhas de miolo de pão; talvez um dia pretenda fazer o caminho de regresso.

Olho as gaivotas. Talvez elas comam as bolinhas e eu perca a noção do caminho de regresso. Não há volta a dar, resta-me avançar, ir fazendo, reflectindo... caminhei demasiado.

Quando fiz meia volta a minha atenção foi captada por outras coisas, outros pensamentos se formaram e esqueci tudo aquilo até que, sentado em frente ao teclado do computador escrevi isto.

É assim, a vida vai-se vivendo. Estou convencido de que é feita muito mais de esquecimentos que de recordações. Posso estar enganado. Na verdade nada disto interessa.

quinta-feira, julho 25, 2019

Arte plástica

A designação "artes plásticas" começa a tornar-se algo incómoda. Falar em "plasticidade" dos materiais não soa lá muito bem. São designações que enobrecem... o plástico!

Numa época em que o plástico se tornou numa espécie de super-vilão imbatível, o super-vilão que veio para conquistar o planeta transformando-o numa lixeira quase eterna, "artes plásticas" soa mal.

Há, no entanto, algumas obras que fazem justiça à designação. E não me refiro apenas a Rauschenberg. Será isto algum género de justiça poética?

quinta-feira, julho 18, 2019

Cultura


Quando Picasso viu, pela primeira vez, máscaras africanas ficou siderado. A partir daí a história da pintura deu uma cambalhota e a grande arte do Ocidente revolucionou-se milhentas vezes. A pintura europeia é superior à pintura africana? Ridículo! Existe apenas “pintura”, independentemente do tempo e do local onde foi (e é) criada, fruto das circunstâncias que cada pintor vivencia. 

A cultura é uma coisa informe que vamos moldando ao longo da nossa existência. É permeável, influenciável, mutante. As fronteiras culturais existem apenas como indicadores, marcações abstractas que ajudam a arrumar ideias em prateleiras e a enfiar princípios em gavetinhas. As fronteiras culturais são invenções potencialmente perversas que mais não fazem que gerar sofrimento. 

Quantos deuses foram únicos e senhores absolutos? Quantas guerras santas já arrasaram o planeta em nome da bondade e da verdadeira fé? 

O tema é inesgotável porque é universal. Não pretendo ter razão.