quinta-feira, julho 18, 2019

Cultura


Quando Picasso viu, pela primeira vez, máscaras africanas ficou siderado. A partir daí a história da pintura deu uma cambalhota e a grande arte do Ocidente revolucionou-se milhentas vezes. A pintura europeia é superior à pintura africana? Ridículo! Existe apenas “pintura”, independentemente do tempo e do local onde foi (e é) criada, fruto das circunstâncias que cada pintor vivencia. 

A cultura é uma coisa informe que vamos moldando ao longo da nossa existência. É permeável, influenciável, mutante. As fronteiras culturais existem apenas como indicadores, marcações abstractas que ajudam a arrumar ideias em prateleiras e a enfiar princípios em gavetinhas. As fronteiras culturais são invenções potencialmente perversas que mais não fazem que gerar sofrimento. 

Quantos deuses foram únicos e senhores absolutos? Quantas guerras santas já arrasaram o planeta em nome da bondade e da verdadeira fé? 

O tema é inesgotável porque é universal. Não pretendo ter razão.

terça-feira, julho 16, 2019

Manas siamesas

Já o afirmei muitas vezes, aqui, no 100 Cabeças, ali, na escola, aos meus alunos, aos meus colegas professores, acoli, na mesa da tasca em conversa com amigos ou, apenas, conhecidos: o maior de todos os problemas é a ignorância, irmã siamesa da estupidez. Partilham o mesmo cérebro, estão unidas pela cabeça.

Haja quem faça a operação, primeiro é necessário separá-las. Depois... aceitam-se sugestões.

quinta-feira, julho 11, 2019

Toque de Midas

É estranho. Quanto maior é a capacidade de difusão de informação menos claro se torna o "diálogo". Na verdade não é tão estranho assim. Estava a dramatizar. De que estávamos nós à espera? A verdade é que imaginámos que a Internet seria algo muito diferente daquilo que, na verdade, é.

Aconteceu algo vagamente semelhante com a televisão. À partida acreditou-se que se tornaria um veículo de difusão cultural mas depressa caímos na realidade e percebemos que é, preferencialmente, um difusor de lixo variado.

A nossa sociedade de consumo tem esta espécie de toque de Midas, transformando em merda tudo aquilo que toca. 

terça-feira, julho 09, 2019

Racismo

O racismo, o racismo, o racismo!!! Afinal de contas em que ficamos: há racismo, não há racismo, acaba-se com o racismo, não se acaba com o racismo? Luta-se, fica-se, muda-se, estuda-se? A minha cabeça rodopia e não consigo fixar uma ideia que seja.

Penso que não sou racista mas, lendo e ouvindo tantas opiniões, disparadas de todos os lados, não tenho tanto a certeza. A minha convicção é abalada.

Sei que tenho preconceitos relativamente a certas pessoas mas quase posso assegurar que esses preconceitos são ditados muito mais pelas atitudes que pela cor da pele. Não gosto de pessoas que me pareçam estúpidas, que me pareçam más, que me pareçam demasiado arrogantes, enfim, pessoas com essas "qualidades" há-as de todas as cores.

Por vezes penso que havendo dinheiro na carteira, principalmente se for dinheiro em abundância, o racismo também se dilui um bom bocado. A condição económica marca tanto como a cor da pele?

Enfim, quero acreditar que o racismo é uma questão de educação, que é uma consequência da ignorância e da estupidez que atulha com facilidade cabeças pequeninas com ideias de merda. Mas posso estar enganado.

segunda-feira, junho 24, 2019

Macacos

Há quem diga, quem pense, quem acredite: a vida não pode ser só isto! Tem de haver algo mais; outra vida após a morte? E essa vida implicará nova morte e assim por diante, vida e morte reflectido-se eternamente uma na outra e a nossa alma a ricochetear sem cessar, até à eternidade?

Mas pode ser outra coisa, a vida pode ser outra coisa que não podemos imaginar, uma coisa tão diversa daquilo que percepcionamos que não temos capacidade para imaginar o que seja. A vida pode mesmo não ser nada.

Entretanto, neste quotidiano delirante, vamos vivendo (!?), preocupamo-nos com coisinhas de nada, com merdices, ou preocupamo-nos com coisas importantes, com merdas determinantes, cenas que, se a vida for só isto, são deveras notáveis e grandes. Cada macaco no seu galho, todos os macacos pendurados na Árvore da Vida.

sexta-feira, junho 21, 2019

Desígnio

Ultimamente tem-se falado por aí da ausência (e da necessidade de a suprir) de um ideal que possa amalgamar vontades desavindas no sentido de conferir um sentido comum ao pulsar do coração lusitano. Frase complicada, não?

Resumindo de forma directa: fala-se para aí que falta um ideal que una os tugas em torno de um desígnio comum.

A coisa saltou para a arena do falatório após a leitura em voz alta do discurso do Dia de Portugal, este ano da responsabilidade do jornalista João Miguel Tavares.

Que isto, que aquilo, que é de direita, que não tem autoridade nem saber, que sim, que não, que foi mal escolhido, que não sabe o que diz, bocas a torto e a direito, umas no alvo, outras nem por isso. Pessoalmente posso dizer que gostei do discurso, que gosto do João Miguel apesar de discordar dele em muitos pontos e em muitos aspectos.

Gosto dele porque me parece inteligente e honesto. Como sou um gajo de esquerda estou habituado a pensar que inteligência e honestidade são qualidades exclusivas do meu pessoal. É assim, um gajo pensa certas coisas sem pensar nelas! Não é preciso muito tempo de reflexão para perceber que estas qualidades não são exclusivas de nenhum campo político. Há demasiados filhos-da-puta no mundo e seria uma coincidência mágica que se amontoassem todos de um dos lados da barricada ideológica.

Penitência feita.

Mas a questão do ideal unificador ficou-me a dançar na cabeça e, já agora, proponho um: lutar contra a ignorância. Ficaria muito feliz se declarássemos aberta a época da caça à estupidez sem termo certo. Seria uma caçada eterna, assim à maneira da das divindades nórdicas lá no mundo onde se divertem.

quarta-feira, junho 05, 2019

Como poderás tu saber!?

Não há que tentar dar a volta à coisa, contornar, ir por fora, fingir que não é bem assim: um gajo ou está de um lado ou fica do outro. Ninguém consegue equilibrar-se sobre uma linha imaginária que, ainda que dividindo, está longe de separar o que quer que seja. Chego a temer que a coisa seja mesmo tipo "bem contra mal", "certo contra errado" e pronto, espero que isto chegue e seja ponto final nas dicotomias que nos moldam o quotidiano.

Não quero acreditar nisto, que as coisas possam ser postas de modo assim tão simples mas... tenho a impressão que a maioria (esmagadora) das pessoas só é capaz de ponderar uma situação, analisar um problema e, Deus nos valha, imaginar uma solução se acreditar que está certa, que é boa, que não dá a mínima hipótese ao estúpido do otário que se senta ao seu lado. A tal linha divide, não separa.

Não há maneira de chegar a uma conclusão satisfatória. Certo, bom, mau, errado, certo, mau, bom, errado, etc. e por aí fora; baralha, volta a dar... estou em crer que tudo depende do buraco a partir do qual observas a situação. Como poderemos alguma vez ter a certeza!?

quarta-feira, maio 22, 2019

Porque vou votar nas europeias


Debateu-se recentemente a possibilidade alargar a fronteira do direito de voto para os cidadãos com 16 anos de idade. Uma larga maioria de deputados da Assembleia da República rejeitou a proposta e mantém-se tudo como dantes, quartel-general em Abrantes. 

Decerto que a maturidade dos eleitores foi argumento tido em conta nesta questão mas, pensando um bocadinho, percebemos que a maturidade não é automática. O chip da maturidade não é activado no preciso momento em que completamos a 18ª Primavera.

Muitos dos que têm direito a voto cultivam o hábito da abstenção, ainda mais quando se trata de eleições europeias. 

Os argumentos que alguns eleitores maduros apresentam para justificar a sua abstenção são dos mais variados: que a Europa é lá longe, que os políticos são todos iguais, que não fazem nada, que só estão interessados em auferir os ordenados escandalosos (pornográficos), que nós, eleitores, somos uma espécie de idiotas que servem apenas para caucionar a existência dessa corja de mamões inúteis que vão aquecer os cadeirões do parlamento em Bruxelas. 

Sinceramente, discordo da maior parte destes argumentos e, quando me deparo com discursos deste calibre, atrevo-me a imaginar que o direito a voto poderia ser oferecido todos os cidadãos que soubessem ler e escrever, independentemente da idade, e a partir dos 18 anos, para todos mesmo, incluindo os analfabetos.

Eu vou votar nas eleições europeias do próximo Domingo porque ainda acredito no Valor da Democracia.

Carta enviada ao director do Público

terça-feira, maio 21, 2019

Outra profecia merdosa


A Deus não tenho nenhum pedido a fazer, nem sequer que me deixe em paz. Na minha adolescência a sensação de ausência de futuro derivava da Guerra Fria, do temor da Bomba, mãe do Apocalipse. Era o tempo do chamado "movimento punk".

Olho para os dias de hoje e o "no future" está aí, mais presente do que nunca; visível, palpável, irrespirável.

Nada a fazer, o nosso modo de vida definha de forma irreversível. Penso que é tempo de começarmos a preparar as gerações futuras para aquilo que aí vem. Basta de alienação. A sobrevivência da espécie exige lucidez. Ou então será a Noite dos Tempos.

sexta-feira, maio 17, 2019

Escumalha


Não podemos ignorar o facto de que falhámos. A sociedade que construímos terá já entrado em fase de degradação geral sem que o pico máximo atingido, no que diz respeito à qualidade do Ser Humano, possa ser motivo de orgulho. Longe disso.

Misturámos Democracia com Capitalismo e o resultado não poderia ser outro: o Capitalismo é um cancro no corpo da Democracia. Não há cura conhecida e os médicos estão mais focados em curar unhas encravadas e flatulência, maleitas que afectam o Capitalismo, do que em tentar desenvolver terapias que permitam debelar o cancro que corrói a Democracia e a faz definhar a olhos vistos.

Não me venham com a treta de que as coisas são assim por que têm de ser, que não há alternativa... não me lixem.

As coisas são assim porque os capitalistas, em 99% dos casos, não prestam para nada que não seja explorar pessoas, locais e sociedades inteiras. As coisas são assim porque os capitalistas se estão a catar para o mal que provocam desde que com ele recolham benefícios que possam gozar enquanto por aqui andam a espalhar a sua fá na livre circulação de capitais. Alguns sentem remorsos, é o máximo que a consciência de classe lhes permite.

A Miséria é uma coisa necessária, a Pobreza e a Morte são inevitáveis; convencem-nos de que é esta a ordem natural do mundo. Sim, é a ordem do mundo, mas não é natural, a ordem natural aplica-se à biosfera, é uma ordem artificialmente criada e aperfeiçoada ao longo de milénios em benefício de uma casta especial de bichos-homens constituída pela escumalha da sociedade à qual, ironicamente, chamamos elite.

Os ricos e poderosos são o pior que há entre nós. Aceito que haja excepções mas terão de ser provadas com factos.

segunda-feira, maio 13, 2019

Profecia óbvia

Li algures que estamos a viver tempos de uma militância sem esperança. Uma militância desesperada, portanto. Concordo.

A questão central prende-se com a constatação de que o crescimento económico, característico do sistema capitalista globalizado, consome tudo com uma voracidade inaudita e já teremos ultrapassado o ponto de não-retorno (começo a tornar-me repetitivo?). É simplesmente impossível imaginar que os nossos netos, para já não falar dos nossos filhos, possam viver numa sociedade semelhante a esta.

Aquilo que designamos por níveis de bem-estar são, em grande parte, resultado do consumo excessivo dos recursos planetários e, pior do que esse consumo, provocam níveis descontrolados de poluição. Poluição atmosférica, dos solos, das águas, poluição sonora, das mentes e, digo eu, da própria ideia de Humanidade.

Imaginámos que a Humanidade evoluiria em direcção a uma espécie de estado de semi-divindade. Não pensámos que poderia existir um ponto na curva evolutiva que marcasse o início da sua descida, o início do declínio. Talvez estejamos a viver próximos, muito próximos mesmo, desse ponto.

Com o declínio da Humanidade virão outros tipos de degradação em diferentes graus: social, civilizacional, "you name it". Os nossos descendentes passarão a viver em condições muito diferentes daquelas em que nasceram, eventualmente diferentes para pior... ou talvez não.

Como já disse em muitos posts neste 100 Cabeças: "a esperança é a última coisa a morrer", mas também morre.

terça-feira, abril 30, 2019

O Grande Banquete

É preciso estar atento. Anda por aí tanto lobo a balir que já se confundem alcateias com rebanhos. Há lobos vestidos de ovelhas e ovelhas que aspiram à condição carnívora; vivemos tempos complexos.

Os lobos que se apresentam com a dentuça a brilhar sob os holofotes, sem necessidade de aparentarem uma certa santidade: lobos machos, lobos de barba rija, esses garantem à restante bicharada que não trazem o apetite descontrolado. Estão aí para reclamar aquilo que lhes pertence por direito. Tudo segundo as regras.

O problema reside, precisamente, naquilo que a lobalhada entende por direito. No imaginário daquela malta há um direito específico para os que comem e outro para os que são comidos. Sendo que o direito dos comidos é uma espécie de anedota que provoca gargalhadas entre os comedores. O seu plano, o seu desígnio, a sua missão divina, bem vistas as coisas, é alterar as regras.

Para operarem essa alteração, os lobos precisam de chegar aos cadeirões do poder (de preferência sem comerem demasiados cordeiros), de mansinho, se possível for. Será então tempo para os que andam disfarçados deixarem cair as peles de ovelha que lhes apertam os tomates e, todos os lobos juntos, celebrarem o Grande Banquete.

Como diz a grande fábula de Orwell (mais coisa menos coisa): "os animais são todos iguais... mas uns são mais iguais que os outros".

segunda-feira, abril 29, 2019

Arrastando a asa

Quanto mais reflicto sobre as designadas questões ambientais pior vejo o futuro; e não o vejo nada luminoso, antes pelo contrário. A cada dia que passa tenho a sensação (sensação cada dia mais vincada ainda que no dia anterior, vincada até ser um sulco na minha mente, uma ruga profunda na esperança que me resta) de que nos afastamos do Ponto de Não-Retorno. A oportunidade de salvarmos a Humanidade de si própria já passou há tanto tempo que nem vale a pena procurá-la. Está perdida.

Esta sensação é já uma certeza.

O pior de tudo é que todos os dias convivo com dezenas, centenas de crianças que, como todas as crianças, têm aquela energia vital extraordinária, aquela maravilhosa capacidade de serem felizes como bichinhos selvagens. E eu tento acompanhá-los nessa corrida que fazem em direcção ao seu futuro, tento influenciá-los positivamente, fazê-los acreditar... em quê, exactamente? Que irão ter uma vida boa? Não gosto nada de mentir.

Ando para aqui a arrastar a asa.

quarta-feira, abril 24, 2019

Acordar com a cara ao lado dos olhos

Um gajo pensa: não pode ser apenas isto! Mas, logo depois, as horas passam, os dias, os meses, um gajo esquece a pergunta que fez; um gajo distrai-se.

De súbito, sem razão aparente, volta a pensar: é apenas isto? E, mais uma vez, a questão se perde. A verdade é que o Mundo se disfarça, hesita, confunde, faz de morto, o Mundo tudo engendra de modo a evitar que um gajo pense e verbalize a pergunta: não há mais nada? O Mundo quer fazer de nós seus poetas.

Pois, parece que não, que não há mais do que isto. Mas um gajo não quer acreditar. O Mundo promete sempre muito mais do que pode oferecer de facto. Um gajo agradece pois não consegue imaginar nada mais deprimente do que haver resposta concreta para a teimosa questão: afinal qual é o sentido da vida? Nós somos os poetas do mundo.

Um gajo imagina que, talvez mudando de lugar, talvez indo em frente, ou voltando para trás por outro caminho... um gajo tem a ilusão de que o movimento impede que as coisas percam sentido (ou que o adquiram) e então vai. Um gajo é até capaz de acreditar que há um unicórnio ao fundo da floresta. Um gajo acredita até que há uma floresta.

Por vezes imagino que esta vertigem suicida em que mergulhámos todos (este mergulho a pique), esta voragem consumista, esta destruição da Natureza que executamos de forma sistemática, é, na verdade, uma vingança sórdida. Imagino que seja a nossa resposta para a tal questão. Mas também isto acabo por esquecer. Não há tempo para merdas destas, a maior de todas as urgências é viver.

terça-feira, abril 23, 2019

Observações (no Museu e na Sé)

Santo Estêvão, no Museu de Grão Vasco, em Viseu

Transcrevo do meu caderninho de apontamentos:

"O tempo roeu-lhe a tromba" - olhando uma estátua jacente em pedra, no túmulo de um bispo depositado no claustro da Sé de Viseu. "Aquele gesto de mãos impossível" - como é norma nas representações pictóricas de arte antiga. "Uma Virgem apoia os pés numa barca que navega uma nuvem pequenina"; "Alguns têm os dedos dos pés mais compridos que os dedos das mãos" - as estátuas em madeira dos evangelistas, no Museu de Grão Vasco sustentam esta observação mas também nas pinturas se encontra essa estranha interpretação da anatomia humana. "O Santo Estêvão parece ter uma poia no meio da testa"; "Tenho muita dificuldade em aceitar que certos enquadramentos sejam os originalmente concebidos pelos artistas. O Calvário, de Grão Vasco, por exemplo: como acreditar que o manto da personagem em primeiro plano, do lado esquerdo da composição, tivesse sido cortado propositadamente pelo Mestre? Não faz qualquer sentido. É um enquadramento de tipo fotográfico de instantâneo recolhido por um amador pouco cuidadoso."

Fecho o caderninho.

quinta-feira, abril 18, 2019

Tripa mole

A manhã estava límpida. Eu atravessava o Bairro Alto em passo sossegado, pouquinha gente, aquele sol que só há em Lisboa e duas meninas, pequeninas, talvez seis anos, por aí assim, a serem levadas, imaginei, para a escola.

Uma levada pela mãe que, na outra mão, segurava a trela de um cão branco. O cão e o modo como a senhora o orientava fez-me lembrar um aspirador a limpar as pedras irregulares do chão do Bairro. A segunda menina, lenço cor-de-laranja amarrado no topo da cabeça a fazer de conta que era um grande laçarote, vinha trazida por uma outra senhora, esta de cara enrugada, óculos escuros, semblante duro, senhora que não transparecia qualquer emoção.

As meninas ficam felizes pelo encontro. Sorriem. Aproximam-se. O cão resolve cagar. A menina que vai com a mãe nem repara no cócó, a outra menina tampouco. A senhora da cara fechada manteve-se impassível enquanto a dona do bicho se debruçou, saquinho de plástico na mão e "bom dia." A caca do cão é pouco consistente, quase liquída, de tom esverdeado.

Já passei pelo grupo e a cena deixa de estar no meu campo visual. Imagino a velha a responder um seco "b'dia", as meninas a sorrirem e a dizerem coisinhas, a senhora do cão a ter muita dificuldade no ensacamento da merda. Ser cidadã exemplar custa muito caso se tenha um cão. E custa muito mais caso o cão tenha a tripa avariada.

segunda-feira, abril 08, 2019

Vazio e inconsequente

As acções vazias e inconsequentes infectam-nos a existência. Não me parece que seja absolutamente imprescindível estarmos em permanente estado de vigília criativa. Não. A preguiça e o acto espontâneo são coisas de grande valor. O mal infeccioso reside nas acções vazias e inconsequentes que nos são impostas com o fato de gala da obrigatoriedade. Merdas...

Um gajo sente-se irritado, arrisco mesmo afirmar que um gajo se sente violado! Se aquilo não serve para rigorosamente nada, se exige tanto esforço e concentração sabendo todos de antemão que não é mais que faz-de-conta, porque raio havemos de cumprir, obedecendo?

Obriga-nos um código de conduta desenhado de modo a fazer de nós canídeos de duas patas. E nós deitamos, nós rebolamos e damos a patinha ao dono. Que se está bem a cagar. Para nós e para as acções vazias e inconsequentes que nos obriga a executar com a mera finalidade de manter as aparências de um mundo que, na verdade, está podre.

quinta-feira, abril 04, 2019

Prova provada

Não saber o que fazer, eis uma questão com a qual me vejo confrontado em momentos de ócio. Tantas vezes desejo não ter que fazer e tantas outras sinto o embaraço de me ver assim, desamparado perante todas as possibilidades que me são proporcionadas pelo facto de- não ter nada da concreto dentro da cabeça, nada que tome a vaga forma de uma vontade que desponta.

Ora, porra!

Forço a imaginação sabendo que a preguiça é o que me dita a acção. Como acreditar que a preguiça pode levar-me a algo que valha a pena fazer? Não funciona, muito menos resulta.

Prova disso é este texto.

sábado, março 30, 2019

Dignidade republicana


Andamos todos a olhar para o dedo que nos aponta a lua. O problema dos laços familiares entre membros do actual governo será o da diminuição da capacidade de decisão independente e ponderada que um cargo governativo deveria implicar. 

Imagina-se o pai a dizer à filha: “faz assim”, e ela a fazer; o marido a dizer à mulher (afinal de contas vivemos numa sociedade patriarcal): “quero assim”, e ela a obedecer. Como já alguém sugeriu por aí, as coisas resolver-se-ão à mesa durante um jantar de família e isto não é maneira digna de se gerir a República! 

Pessoalmente, há muito que me incomoda a forma como funcionam os grupos parlamentares na Assembleia da República. Ali, apesar de não existir essa promiscuidade familiar, os deputados obedecem com grande naturalidade à direcção da bancada a que pertencem. Não é tanto a relação pai-filha ou marido-mulher que orienta as decisões, é mais um tipo de relação senhor-vassalo ou dono-escravo: "faz assim" e o deputado faz; "quero assado", e o deputado obedece. 

Se não obedece é penalizado, muitas das vezes, se insiste em ter opinião diversa, é simplesmente corrido. 

Neste universo as coisas resolver-se-ão durante um jantar entre líderes. Os deputados menores sentam-se em redor de outra mesa, como se faz com os putos nos tais jantares de família. Esta sim, é a forma digna de se gerir a República. 

A quem poderá interessar que o poder seja entregue a pessoas que pensem pela sua própria cabeça, pessoas que tenham sido eleitas pelo povo de acordo com o credo democrático?

Carta enviada ao director do Público

quarta-feira, março 27, 2019

Poeira

Tenho tanta saudade de milhentas coisas que esqueci que nem me apercebo do que sofro por isso. Bem que tomo apontamentos (ando sempre com um caderninho daqueles enfiado no bolso e caneta acompanhante), releio escritos antigos, experimento inventar menemónicas complicadíssimas que, como seria de esperar, esqueço no momento seguinte.

Não consigo manter o passado actualizado, constato que a sua relação com o presente é de tal modo misteriosa que nem parecem membros da mesma família.

Mais uma vez tenho esta sensação: o momento que vivemos é como uma nuvem de poeira que levantamos no caminho, uma nuvem que transporta ainda um pouco dos passos anteriores e já nos vai envolvendo com algo semelhante ao terreno que viremos a pisar. Não existe diferença significativa entre o que foi, o que é e o que será, é tudo tempo.

Isto pareceu-me simples mas sei que, daqui a nada já terei esquecido a razão porque me pareceu tão claro, tão evidente, tão esplêndido. No meio da poeirada perco-me todos os dias e, todos os dias, me volto a encontrar.


domingo, março 24, 2019

Marcha lenta

Não sei bem o que fazer desta manhã que me entra pela janela feita brisa suave. Posso fazer o que quiser? Talvez não me apeteça fazer nada. E fazer nada, é fazer alguma coisa?

Vivemos este tempo pacífico num espaço morno, batido por um sol que pretende vestir o fatinho leve da Primavera. Por cá andamos envolvidos nas nossas guerras do Alecrim e da Manjerona.

Ontem desfilei descendo a Avenida em manifestação de professores supostamente encolerizados. Mas era tudo tão pacífico, tão suave, era tudo aparentemente tão leve... milhares de professores caminhando em quase silêncio apesar dos apelos dos "speakers" incitando, na medida do possível, ao grito e à palavra de ordem.

Quase nada. A sensação que fica é a de quase nada se ter passado. Apenas mais uma tarde soalheira nesta capital do império da modorra que é a magnífica cidade de Lisboa, submersa por vagas de turistas com os quais, nós, os professores, nos confundimos ontem, descendo a Avenida pela enésima vez.

Até mais ver, camaradas!

quarta-feira, março 20, 2019

Brilho no olhar

A minha memória é como um campo de minas após a passagem de uma manada de gnus em correria. Por vezes esforço-me por recordar algo, sinto a coisa mesmo ali, a surgir um bocadinho, a quase ganhar forma, mas... caraças, lá se vai outra vez, ralo abaixo, a esconder-se num daqueles buracos de mina rebentada, impossível descortinar qual.

Preciso ser paciente comigo próprio.

Quantos livros li, quanta informação admiti no meu cérebro!? Quantos filmes, músicas, quadros, obras de arte, paisagens, rostos, sensações tácteis, olfactivas, quantas vezes esforcei os meus defeituosos ouvidos na tentativa de perceber melhor uma melodia, um ruído, um riso!?

O mundo pode não ter fim.

Apercebo-me que sei imensas coisas das quais é virtualmente impossível que me lembre.

Por vezes surgem-me informações e memórias inesperadas ao virar de alguma esquina viscosa do meu cérebro. Imagino que esses encontros inesperados sejam pequenos acidentes neuronais, uma luzita ou outra que me ilumina a caverna craniana por um nanossegundo.

É isso o que nos faz brilhar os olhos?

sábado, março 16, 2019

Artistas invisíveis

Ouvi dizer que, em Portugal, para alguém ser artista, na maior parte dos casos, precisa de ser  outra coisa em simultâneo. Qualquer coisa que lhe garanta o sustento. A arte, pelos vistos, não se transmuta em casa-pão-e-roupa-lavada.

Para lá de uma mão-cheia de consagrados e outra mão-cheia de personagens corajosas, o resto dos artistas situar-se-à entre o amador e o curioso. Cá se vai andando...

Fica a sensação e o desejo de que a arte se confunda com a vida, que sejam uma só coisa, uma espécie de milagre ético. Se for assim podem viver mais convictamente os artistas invisíveis, aqueles que nunca passarão da adolescência no mundo da validação artística mediática.

Seremos felizes quando, durante o dia de trabalho, imaginarmos o passo seguinte da obra que ficou em suspenso, aguardando o momento em que a ela possamos regressar. O amor tem destas coisas.

terça-feira, março 12, 2019

Errático

De vez em quando é necessário olhar o espelho com alguma atenção. Será? Parece que sim.

Reparar nos pormenores do nosso rosto, perceber os contornos do corpo que arrastamos connosco e que nos arrasta também sobre a crosta deste mundo; bem vistas as coisas é a imagem que exportamos, aquilo que os outros vêem quando orientam os olhos na nossa direcção.

Mas, aí está uma questão pertinente: vemo-nos com os nossos olhos, somos incapazes de compreender o olhar alheio ("o mundo de cada um é os olhos que tem"), entrar na pele de alguém e calçar-lhe os sapatos é tarefa digna de fantasmas, coisa própria de espíritos errantes.

O espelho é uma superfície, aquilo que nele vemos é superficial. A coisa pode ganhar outros contornos se focarmos a atenção nos olhos. Os olhos são como portas, entras e e sais da alma que te anima. Tens a certeza que é por aí que queres ir?

Temos o corpo e o espelho (a superfície) e temos os olhos e alma (o profundo interno), no meio de tudo isto o cérebro, a tentar compreender, a tentar ver, a tentar ser. Temos o mundo (superfície e profundo interno em simultâneo) sobre ele, dentro dele, em seu redor, milhões de milhões de cérebros de todas as espécies; vida.

Tempos houve em que pensava na Vida como sendo uma permanência, algo infinito, eterno, uma coisa assim. Agora não tenho a certeza disso. Bastante pelo contrário.

sexta-feira, março 01, 2019

Notícia falsa (?)

Os cientistas do Belo, os Estetas, descobriram que a Arte Contemporânea se esconde dentro de cada um de nós.

Uns pensam que se trata de uma espécie de entidade esquiva, algo vagamente semelhante a um parasita que se nos aloja no cérebro alimentando-se da nossa imaginação, outros sustentam a tese de que é como um algoritmo que é activado quando nos deparamos com um objecto artístico.

Outros ainda, menos dados a prescindir da sua autoridade científica, consideram-se detentores das chaves de interpretação correctas, chaves essas que não estarão assim tão disponíveis a qualquer um; para estes apenas a sua opinião poderá validar a natureza artística (ou não) seja lá de que objecto for.

A notícia desta descoberta não tem sido suficientemente divulgada. Continua a haver milhões de seres humanos que desconhecem esta sua capacidade inata e se julgam incapazes de compreender algo que depende em larga escala deles próprios para ser compreendido.

Seja uma entidade (um fantasma ou génio particular) ou um conjunto de dados combináveis (como se fôssemos máquinas que se limitam a computar), a verdade é que todos os seres humanos nascem e morrem com a coisa alojada no cérebro.

quarta-feira, fevereiro 27, 2019

Futuro próximo

Virá o dia em que uma máquina (um algoritmo altamente sofisticado) saberá melhor do que tu aquilo que te convém, o que é melhor para ti.Uma máquina capaz de tomar as melhores decisões que te proporcionem a maior das felicidades.

Como será o mundo nesse dia (não muito longínquo)?

Virá o dia em que aceitaremos em definitivo o óbvio: as máquinas são mais eficazes do que nós numa série de situações da vida quotidiana e, como tal, teremos de lhes entregar muitas mais responsabilidades.

Diz-me algoritmo, que roupa devo vestir hoje?

A dúvida é: somos nós uma espécie de máquinas de menor potência, eventualmente defeituosas? Ou serão as máquinas uma espécie de seres humanos melhorados (ou piorados, dependendo da perspectiva de quem pensa no assunto)?

Diz-me algoritmo, como devo responder à questão que me foi colocada?

Este admirável mundo que há-de vir (em breve) será mais radioso que o mundo de hoje ou permanecerá, simplesmente, diferente?

Diz-me algoritmo, o que sou eu?

domingo, fevereiro 24, 2019

Em que pensava eu ainda agora?

Há um ruído contínuo. Umas vezes lá ao fundo, outras vezes cabeça dentro; é como uma matraca mas uma matraca por vezes a bater em superfície acolchoada. O silêncio, nas cidades, tornou-se um bem, é produto de luxo ao alcance apenas de uma minoria. Ainda assim é preciso desejá-lo.

O ruído de fundo ininterrupto molda as pessoas. Se, porventura, esse ruído sofre interrupção, logo sobrevém a incómoda sensação de desconforto provocada pela impressão de alguma ameaça eminente. Silêncio implica catástrofe. É como quando as aves desaparecem do céu e se adivinha a proximidade da borrasca.

Viver na cidade exige a aceitação do ruído constante. O ruído faz parte do pacote, nem sequer se coloca a possibilidade de ser recusado. Viver na cidade é aceitar o ruído.

A pessoas como eu, que viveram a infância em ambiente rural e que têm, esporadicamente, a possibilidade de regressar a esse espaço mítico de paisagens verdejantes e montanhas azuladas pela distância; a imposição grandiloquente de um ruído benfazejo não constitui sedução suficiente ao ponto de evitar uma certa náusea, uma certa vertigem, uma quase rejeição muscular.

Por vezes dou por mim a reparar na barulheira, lá por detrás do cérebro e penso: em que pensava eu ainda agora? Lembro-me de uma frase que escrevi num "diário gráfico" dos meus primeiros tempos de estudante, quando troquei a pasmaceira dos espaços que habitei durante a minha infância e adolescência pela Babilónia incansável que é a Grande Cidade; escrevi então "traz-me todo o silêncio que encontrares e pendura-o nessa parede".

Só agora, quase 40 anos volvidos, compreendo o que quis dizer então, só agora alcanço o valor do silêncio.

quarta-feira, fevereiro 13, 2019

Fogo!

A beleza é algo fulgurante, coisa que reconforta a alma... até que a incendeia.
Uma alma a arder não é exclusivo do inferno.

domingo, fevereiro 10, 2019

Revelação

Oh, a obra de arte contemporânea! Ao convocar o espectador no processo de validação do próprio objecto artístico, a obra de arte contemporânea interpreta um papel demiúrgico (Deus está em todas as coisas).

Se um objecto aparenta não ter nada de extraordinário mas consegue transportar o observador para uma dimensão reflexiva transcendente, estamos perante uma Revelação (a obra de arte tem o poder de nos fazer transitar entre diferentes dimensões).

A Revelação é um estado de consciência superior que nos permite penetrar um espaço que, não sendo onírico, é habitado por entidades incorpóreas e que não é regido pelas leis da Física nem da Lógica; um espaço no qual a Física e a Lógica são diferentes ou são a mesma coisa, a dimensão das Coisas antes de terem um Nome. É para aí que vamos quando mergulhamos de cabeça numa Revelação.

Voltando atrás, que já me estou a esticar: a obra de arte contemporânea faz do observador um elo significativo na cadeia de comunicação "emissor-objecto-receptor", invertendo-a, torcendo-a, remisturando-a. Exemplificando: o artista cria o objecto, o objecto transporta um significado potencial que se completa no espectador. Não tendo uma leitura fechada o objecto permite a cada um de nós a construção de uma narrativa individualizada (A Fonte de Duchamp será a semente de tudo isto).

Assim sendo, o observador torna-se, também ele, um artista. A arte contemporânea permite a construção de uma utópica sociedade de artistas, criadores ininterruptos de significados, que é, afinal, aquilo que todos nós somos desde que Deus criou Adão. A Arte é a nossa Eva, o objecto artístico é Deus, a arrancar-nos constantemente costelas e a fazer com elas seres virtuais que nos acompanhem na travessia do paradisíaco deserto que é a nossa vida.

sexta-feira, fevereiro 08, 2019

Divindades raquíticas

Tal como uma obra de arte, também a imagem que concebemos de Deus depende muito de quem a infere e constrói. Os Antigos teriam uma divindade específica para os merceeiros. Tão difícil seria para eles imaginarem um Deus único como, ainda por cima, imaginá-lo como um autêntico merceeiro, capaz de vender benesses (quanto mais elevado o preço pago pelo crédulo mais agradáveis os favores).

As igrejas evangélicas (todas elas?) vendem esta patranha aos incautos e desprotegidos que nelas procuram um lugar de pertença. Quem cobra aos seus fiéis não é de fiar.

Um Deus que especule com o preço das almas como se especulasse o preço do barril de petróleo ou da saca de batatas tem lugar garantido na Barca do Inferno. Os parvos que acreditem em semelhante bufão podem, ainda que vagamente, aspirar a um lugarzinho na Barca do Paraíso.

quinta-feira, fevereiro 07, 2019

Santidade de pacotilha


Kevin Hart

Confirma-se que a cerimónia de entrega dos Óscares deste ano não vai ter apresentador. Não sei se é a primeira vez que acontece nem isso me faz doer a alma. 

O último a declinar o convite para proceder à função foi Kevin Hart, ao que consta por terem sido desenterrados alguns tweets de teor homofóbico publicados pelo actor há oito anos atrás. Aquilo que me provoca alguma tristeza é o facto de não haver ninguém suficientemente puro para apresentar uma coisa tão farsola como os Óscares da academia de Hollywood. 

A malha de observação sobre os candidatos é tão apertada que nenhum ser humano é considerado digno para debitar umas graçolas perante a fina-flor da intelectualidade industrial cinematográfica. Até para fazer aquilo é necessário ter certidão de santidade absoluta. Será que algum dos que se sentam na plateia poderia aspirar a tão elevado estatuto? Parece-me patético. 

Talvez com tempo possa ser criado um avatar computorizado para apresentar a cerimónia. Um ser virtual, sem carne nem osso nem opiniões próprias seja a única coisita à altura.

sexta-feira, fevereiro 01, 2019

Vazio de sentido

Quando as paredes do mundo desabarem vais continuar sentado. Que mais poderás tu fazer? Correr? Fugir?

Mas para onde fugirás tu em louca correria se é o mundo que à tua volta se esboroa, que podes tu fazer? Pois, tenho cá a impressão que o melhor será que continues bem sentado, o melhor será esperares que a estrela negra cante de novo a sua estranha canção, aquela canção que ilumina o céu ao contrário.

Recapitulando: as paredes do mundo já não suportam mais o peso dos buracos e das fissuras que as atormentam e desistem de serem erectas, as paredes do mundo, cansadas, desabam... brrrrrrum!!!

E tu, estupefacto perante o espectáculo, tu não estás surpreendido (já sabias que a coisa ia acontecer), estás absolutamente espantado. Estás fascinado e aterrado. O mundo a desfazer-se é um espectáculo magnífico ao qual preferias nunca ter assistido.

O fim do mundo é tão vazio de sentido.


sábado, janeiro 26, 2019

Consumição

Não sei bem quando foi que aconteceu, quando foi que os electrodomésticos deixaram de ter arranjo para passarem a ter garantia? Quem diz electrodomésticos diz automóveis ou esse objecto-fetiche, tão recente, o smartphone (os inglesismos têm vindo a ser substituídos pelas expressões em inglês puro e duro).

A garantia é, por norma, de dois anos. Terminado esse período de tempo (tão curto!) nada nos garante que o objecto continue a funcionar de acordo com as características excepcionais que nos levaram a adquiri-lo. Diz-se por aí que os objectos já são fabricados de acordo com o tempo de vida mais curto, que os dois anos são uma espécie de velhice tecnológica, tão rápida é a evolução destas espécies. Talvez seja boato.

A verdade é que, nos tempos que correm, quando um objecto deixa de funcionar parece lógico depositá-lo num daqueles caixotes enormes que aparecem nos estacionamentos dos centros comerciais devidamente identificados para o efeito. Depois subimos nas escadas rolantes e vamos à loja comprar outro. É a lógica consumista.

Esta discreta alteração dos nossos hábitos trouxe consigo outra transformação insidiosa: a do cidadão que se torna consumidor. Os direitos de cidadania a serem substituídos pelos direitos do consumo. A vida a ser consumida mais do que a ser vivida?


quinta-feira, janeiro 24, 2019

Ser e parecer



André Ventura é uma daquelas personagens que não se acanham. O teor das suas afirmações públicas não coincide com o manifesto que juntou às assinaturas recolhidas com a finalidade de fazer aprovar o Chega, esse projecto de partido que gatinha graças à exposição mediática conseguida por Ventura nos espaços de debate futebolístico da CMTV. 

Perante os juízes do Tribunal Constitucional, Ventura faz luzir sobre a cabeça uma auréola de santinho respeitador da Constituição, cá fora, quando lhe é oferecido o espaço mediático, não se coíbe em mostrar os dentes e afirmar aquilo que não se atreve a registar no manifesto. André ora é bom ou mau, afável ou agressivo, tudo depende. Sendo contido numa certa comparação zoológica pode-se considerar que André é um camaleão.

A Democracia tem destas coisas, permite que germinem no seu seio personagens que a odeiam e que tudo farão para acabar com ela. Personagens como André Ventura chegam montadas em cavalos brancos, prometendo isto e aquilo, de acordo com o que lhes pareça ser o sentimento mais larvar e profundo que germine no descontentamento de certas tribos mais ou menos marginais à inteligência humana. 

Na maior parte dos casos, estes napoleões de pacotilha não conseguem desmontar do cavalo, não têm estofo para cavalgar outra coisa que não seja a desgraça e o descontentamento o que acaba por levá-los numa correria louca em direcção ao abismo do esquecimento quando o logro que é o seu completo vazio se revelar aos olhos de todos, correligionários incluídos. 

André Ventura quer ser uma coisa parecendo outra e vice-versa; Ventura é uma excrescência na Democracia. Pim.

quarta-feira, janeiro 23, 2019

Tweets, posts e likes

A perfeição sempre foi uma miragem mas, agora, neste "tempo detergente", quando as redes sociais exigem das figuras públicas uma correspondência absoluta entre o seu comportamento e as expectativas de todo o "Zé da Esquina" e respectiva "Zeza dos Ovos", a perfeição entrou definitivamente na categoria alegórica de "unicórnio".

A proximidade é tanta que podemos ouvir as pessoas mais distantes a pensarem dentro da nossa cabeça. São tweets, são posts, são likes, são emojis, são mensagens de todas as formas e feitios a caírem constantemente nas redes que cobrem todo o planeta como imensas spider webs. Falta saber com exactidão quem é a spider de atalaia nas webs que frequentamos e ajudamos a tecer.

A coisa é muito complexa. Somos, em simultâneo, as aranhas que tecem a rede e as moscas incautas que nela vão ser aprisionadas e transformadas em recurso alimentar para suprir alguma fome futura. Nem sei se o que digo faz algum sentido, de tal modo ando confuso.

Voltando ao princípio: a perfeição moral e o comportamento impoluto passaram para a esfera do Divino; literalmente. Já nenhum de nós pode aspirar à admiração geral pois a forma como coçamos a cabeça ou o modo pouco humano como nos referimos às focas bebés podem provocar uma onda de rejeição que não conseguimos antecipar.

Cada um de nós é, à sua maneira e escala, uma figura pública. Estamos sujeitos a um policiamento implacável feito por entidades virtuais, trolls sem face, policiamento esse capaz de gerar sofrimento a qualquer momento. A violência dos ataques à personalidade de cada indivíduo (tal como as manifestações de admiração e de amor) é directamente proporcional à sua popularidade e visibilidade social.

Pode ser um like mal interpretado, um emoji desajustado ou a partilha de alguma cena menos recomendável. Andamos por este mundo como cegos que não têm capacidade de perceber quão próxima está a escarpa que se  precipita na garganta do inferno.

segunda-feira, janeiro 21, 2019

Estupidez

As tristemente célebres fake news são como vírus que infectam os seres humanos e, consequentemente, empestam as relações sociais degradando por completo a coisa pública. A doença contrai-se com surpreendente facilidade. Basta aparecer uma atoarda qualquer  numa rede social e... zzzzzzt, propaga-se como incêndio num palheiro.

Na maioria das situações a notícia falsa é fácil de desmontar. Bastaria uma busca um pouco mais transversal ou ligeiramente mais profunda e a verdade viria ao de cima. Mas dá algum trabalho, o Saber não é completamente gratuito. É muito mais fácil ser-se estúpido.

É assim que participamos com um misto de alegria e indignação na corrupção do corpo social a que pertencemos: deixamo-nos infectar pela estupidez e, ficando estúpidos, passamos à acção agressiva, praticamos a maledicência, explodimos em indignação, as mais das vezes injustificada.

As designadas redes sociais contribuem em grande parte para esta embaraçosa desorganização do pensamento humano. Os computadores, por si sós, não fazem de nós animais mais inteligentes. Isso é que era doce!

É este o nosso admirável mundo novo. Um mundo em que as máquinas nos ajudam a ser muito mais burros do que seríamos capazes sem a sua colaboração.


sexta-feira, janeiro 18, 2019

Expor

Eu próprio junto a "Le Philosophe" desenho com canetas de gel sobre papel Fabriano, 210X150cm

Inaugura hoje uma exposição de desenhos da minha autoria. Poderia dizer que é "mais uma" mas, para ser sincero, uma nova exposição nunca é "mais uma". Antes de mais, apesar dos meus 56 anos de idade e de uma produção razoável de objectos com pendor artístico, a minha actividade expositiva é notóriamente modesta em número.

Um certo acanhamento e uma espécie larvar de modéstia (também em termos de influência) aliados a uma razoável dose de preguiça terão contribuído para que os anos tenham passado e a minha capacidade de expor trabalho publicamente se tenha revelado tão limitada. Quando penso nisso noto apenas como a intensidade dos sonhos se altera com a idade. Não me sinto injustiçado nem reconhecido. Na verdade não sinto nada de especial.

A coisa que mais me preocupa é quando perco instinto criativo, quando fico algum tempo sem sentir vontade nem impulso para voltar à ilusão de fazer um desenho ou uma pintura ou escrever um texto que me anime.

Para já tenho uma selecção de trabalhos (posso dizer que sou comissário de mim próprio) criteriosamente colocados sobre as paredes do Quarteirão das Artes, em Almada. São trabalhos realizados com esferográfica e canetas de gel sobre papel com dimensões que variam entre 50X65cm e os 210X150cm.

Quando li "Narciso e Goldmund", de Hermann Hesse, interiorizei uma possibilidade relacionada com a criação artística que me faz reflectir com frequência  sobre a possibilidade de tudo isto não passar de mera exibição de vaidade. A minha educação católica faz-me envergonhar, corar um pouco, a minha experiência de vida como agnóstico leva-me a perguntar: Sim... e depois?

Fica bem que eu também.

terça-feira, janeiro 15, 2019

Reciclagem

Os miúdos são barulhentos, confusos, desorganizados; quando se encontram numa sala de aula, quando estão no recreio. Imagino que sejam assim na maioria das situações que vivem. Reproduzem constantemente a javardeira que os rodeia na cidade que habitam. 

O silêncio incomoda-os, fá-los sofrer, quando o ambiente fica silencioso os miúdos sentem-se inquietos como se fosse um mau presságio. Na ausência de ruído fica a sensação de que algo perigoso se aproxima. Talvez um monstro tenha chegado às portas da cidade, não tarda o silêncio agoirento será rasgado por gritos desesperados, o horizonte recortado pela silhueta de um Godzilla patudo a destruir tudo a cada passo. Imagino que seja algo assim, talvez pior.

Há uma cada vez mais complexa fusão entre o Inferno e o imaginário infanto-juvenil, o que gera personagens estranhíssimas: coisas fofinhas com dentes afiados como facas ou coisas horrendas com cauda de coelhinho lãzudo. 

Se pretendemos manter abertas as vias de diálogo com a putalhada precisamos de reciclar profundamente as nossas galerias de heróis e respectivas correspondentes de vilões. 

domingo, janeiro 13, 2019

Humanidade

Os olhos, por si sós, não vislumbram a alma das coisas; como fariam os cegos para poderem saber? Falta o coração, junta-se-lhe a mente, de tudo junto se constrói a máquina que vê, com mais ou menos peças, um ou outro método de funcionamento. Eis a poderosa possibilidade de haver deslumbramento.

As coisas mais banais, as aparentemente simples, as artificialmente complexas ou afectadas, o mundo abarca tudo com as nossas almas lá dentro. O mundo é constituído pelas coisas que podemos perceber e por aquelas que, sem o sabermos, nos escapam. Nessas coisas também estamos nós.

Compete-nos viver.

terça-feira, janeiro 08, 2019

Tecnologia de estimação

O meu telemóvel não é dos mais faladores, por vezes passa dias inteiros que está calado. Como um rato. Mas isso não impede que me sinta ligeiramente angustiado caso me esqueça dele poisado algures, entregue à suavíssima queda do pó que encobre o mundo.

Estranha relação esta, que estabelecemos com certos objectos tecnológicos. É quase como se fossem bichos, animais de estimação. Como se tivessem caprichos, sonhos, necessidades. Como se respirassem o mesmo ar que respiramos.

No outro dia resolvi deixar o telemóvel em casa de forma premeditada. Só para ver como seria. Foi bom. A verdade é que me senti muito mais leve. Não me roeu aquela sensação de culpa pois desta feita não me esquecera dele. Também me sossegou saber que não estava a abandoná-lo, que iria voltar a casa e ele lá estaria, fiel, à minha espera. Enfim, umas horas de liberdade sabem bem.

Certos objectos tecnológicos têm uma irritante capacidade de nos tiranizarem o dia, como se fossem animais de estimação que estragámos com demasiado mimo. Nada que uma martelada não resolva.

segunda-feira, janeiro 07, 2019

Naufrágio

A Europa afoga-se todos os dias um pouco mais nas águas do Mar Mediterrâneo. O projecto europeu confunde-se com um negócio feito na sombra de gabinetes luxuosos por tipos engravatados sem pingo de sensibilidade social. Vendem-se vistos "gold" que garantem a cidadania europeia a centenas de ricaços que nem precisam de justificar a origem da sua riqueza; paga-se a bandos de facínoras no norte de África para que impeçam os que tentam alcançar a Europa de meterem, sequer, os pés num barco onde arrisquem a vida mais uma vez; é assim que se alimenta a alma da União Europeia?

Velhos aliados mudam de face e tornam-se vagas ameaças. A Europa democrática vê-se inesperadamente deixada a sós pelos EUA e começa a voltar a cabeça na direcção da China(?). Os Direitos Humanos também são bens transaccionáveis.

Não há nada que una os países da União a não ser o amor e a reverência que lhes merece o deus-dinheiro. Vivemos zombificados, arrastando as nossas convicções pela lama, penosamente.

A Europa afunda-se todos os dias um pouco mais no mar das suas contradições.

sábado, janeiro 05, 2019

Magia de Ano Novo

O dia 1 de Janeiro é, afinal, um dia como outro qualquer. O calendário não tem propriedades mágicas. Se, porventura, alguma coisa muda com a passagem de ano, isso fica a dever-se a uma eventual vontade de mudança que trazemos dentro de nós.
A haver alguma magia nesta coisa, a magia somos nós.