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quarta-feira, janeiro 22, 2014

Aparição

Ao meu lado surgiu uma senhora que tinha cara de cadáver. Pálida como uma folha envelhecida pelo amarelo do tempo, deixou escapar na minha direcção um olhar meio assustado ou, pelo menos, um olhar apreensivo. Seria a senhora uma ressurreição?

Rodou os olhos para fora da janela. Parecia estupidificada, sem compreender o que fazia ali, como se regressasse ao mundo dos vivos após uma breve estadia no Além. Exalava tristeza por todos os poros ao ponto de criar uma névoa breve que lhe envolvia a expressão facial.

Escrevi estas palavras no meu bloco de notas e, quando olhei de novo, a senhora já lá não estava. Desaparecera do mesmo modo que surgira, num silêncio sepulcral. Fiquei a duvidar dos meus sentidos.

terça-feira, janeiro 08, 2013

Saúde!

Manoel de Oliveira está de regresso a casa. Com 104 anos de idade o velho cineasta continua a desenvolver projectos ininterruptamente e não parece haver maleita que o atrase.

Fascina-me a longevidade lúcida de certas pessoas. Continuar a dirigir projectos cinematográficos aos 104 anos de idade mostra que não há prazo de validade para as nossas capacidades criativas. O exemplo de Manoel de Oliveira é inspirador: a paixão pelo trabalho é como água da Fonte da Juventude.

Este homem dá sentido à esperança.


quarta-feira, dezembro 12, 2012

Olha para mim


Há pessoas a quem a necessidade de atenção obriga a fazer coisas estranhas.

Aquele rapaz caminhava com os gestos gingões que deve ter visto nos maus da fita de um qualquer vídeo de hip hop de quarta categoria, um vídeo daqueles, cheio de gajas boas e cantores atarracados sob o peso de correntes de ouro, anéis enormes e bonés colocados às três pancadas, encavalitados no cucuruto forrado com lenço colorido. 

É um passo em cadência embriagada, ao ritmo de uma música imaginária, que lhe desorganiza o peso dos pés e das pernas, que confunde aos nossos olhos a força da gravidade. Desloca-se enredado na teia daquele complexo jogo de forças invisíveis, a serpentear dos calcanhares às nádegas, das nádegas à ponta dos ombros, a parecer que cai, mas não cai, a pisar o chão com demasiada força após um movimento da perna que parecia suave e gracioso.

Esse rapaz acompanha um outro que, não sendo tão estiloso no andar, tem uma característica complementar. Vai agarrado a um telemóvel, debruçado para dentro dele, teclando furiosamente com o polegar direito. Fala alto, como se tivesse um megafone incorporado e tem um aspecto algo patusco de aspirante a presidiário, uma dureza construída à força e demasiado óbvia. 

São dois bonecos de um museu de cêra dos horrores domésticos, dois animais de estimação a quem falta o dono, a quem falta quem lhes dê atenção e os leve a mijar no fim de mais um dia sem outra coisa que não seja exibir o aspecto duvidoso, como se isso fosse uma grande (e única) qualidade. 

Olho para eles e penso "nunca ninguém lhes disse que eram bonitos, nem mesmo quando foram pequeninos". E não vou ser eu quem lhes diz isso. Eles nunca vão ser bonitos. Se era atenção que eles queriam, aqui a têm.

quarta-feira, junho 29, 2011

Bondade monstruosa

Nosso Senhor castigou-lhe a tremenda soberba com uma sensibilidade própria de um Cristo lamechas cruzada com a raiva furiosa de um Barrabás assustador. O tipo, normalmente, mete medo mas também pode comover quem o observa na forma obsessiva como se entrega às pessoas que experimenta amar. Também aí, no amor assolapado, e exactamente por isso, o tipo mete medo.
Como se sentirá um gajo que, mesmo quando ama, repele mais do que atrai? Aquele gajo é um oásis fedorento no meio de um deserto perfumado, um desrto com o chão repleto de pétalas amarelas. Aquilo não pode ser fácil. A vida dele é uma tortura pois o bicho compreende o que se passa, não quer que as coisas assim aconteçam e, no entanto, a vida é o que é e ele o monstro mais desconcertante dez mil quilómetros em redor.
Sente bem fundo como a sua bondade é uma coisa montruosa e compreende que ser covarde é muito mais gratificante do que ter coragem.

quarta-feira, junho 08, 2011

Momento de glória


A rapariga era demasiado bonita. O rapaz imaginava. Sentia o mundo todo atirado para dentro do seu coração. Os olhos dela podiam passar por ele apenas como um pano de pó que limpa com desinteresse o tampo de uma mesa de café. Mas, na imaginação do rapaz, aqueles olhos enfiavam-lhe o mundo todo dentro do coração que mais parecia o tambor dos Cramps. E ele a fazer de herói, a exagerar na bravura.

O rapaz era um matulão pleno de coragem infantil a fintar os adversários. Um, dois, com menos dois palmos que ele e, ainda, a fintar um terceiro, apenas imaginário. Finalmente lá estava ele defronte à baliza, a desferir um remate potentíssimo perante um guarda-redes pequenino, como um passarito caído do ninho. O remate estoirou e o guarda-redes de boca aberta, olhos fechados, cabeça encolhida, esticou os braços com timidez, sentindo apenas o silvo abrasador da bola que passou por ele e entrou baliza dentro a voar como um míssil Tomahawk.

E o rapagão sempre a imaginar que os olhos da menina, bonita como o sol, a imaginar que os olhos dela vêem o mesmo que os dele, agora fechados, saboreando a glória, a imaginar que os olhos dela vêem o mesmo que os dele imaginam.

O rapagão convicto que ela sente o mesmo que o seu cérebro em brasa vai cravando, a fogo apaixonado, no seu próprio imaginário: um herói completo! Parte Hellboy, parte Batman, parte Wolverine, com um toque bem visível de Spongebob Squarepants, que a maturidade não dá para aguentar tanto músculo nem tanto potencial de malvadez.

O rapaz festeja o golo. Braços erguidos em "V", uma corrida sinuosa, os gritos da multidão atroam-lhe os ouvidos. Quando regressar verá que a menina já se foi embora e que os outros jogadores estão, apenas, profundamente irritados e desgostosos de tão evidente supremacia. Mas ele não vai compreender nada por tudo ser tão real!

terça-feira, maio 31, 2011

Personagens (1)

O rapaz comporta-se como se estivesse sob vigilância constante de uma câmara de filmar manuseada por um grande realizador que fizesse um documentário sobre a sua vida. A vida daquele rapaz, aparentemente banal mas que, na realidade, poderia servir de argumento para todo o género de filmes. Desde filmes de acção a filmes de mistério e espionagem, por aí fora, até uma pungente comédia romântica que ainda não aconteceu na vida daquele rapaz mas que irá colorir a sua existência, mais dia menos dia. Fatal como o destino!

E vê-se tudo isto no seu olhar semicerrado, na sua postura arrogante, na cabeça atirada para trás, no gesto afectado do seu braço esquerdo que parece combater o direito na busca de uma expressão física que retrate toda a magnificência incógnita que o caracteriza mas que apenas pode ser captada pela tal câmara escondida, pela genialidade do tal realizador que discretamente o acompanha. Mas nem esse génio cinematográfico é capaz de compreender toda a grandeza desta personagem. Nada nem ninguém poderá alguma vez abarcar nem uma ínfima parte da complexidade do seu ser.

Como ele, todos os outros. Todos os rapazes são estrelas do seu próprio filme. Estrelas esquecidas na imensidão do firmamento que é a cidade e os que nela habitam as horas. E evitam os minutos.

quinta-feira, junho 17, 2010

Um gajo


Conheço um gajo meio estranho. É um gajo que tem uma necessidade incontrolável de comunicar. Aquilo é quase uma doença!

Já falei com ele dessa sua obsessão (esta frase desliza como um skate!), tentei explicar-lhe que, por vezes (demasiadas vezes, na minha opinião) aquela torrente de ideias e imagens que ele larga para fora da cabeça, acaba por incomodar as outras pessoas. Ele concorda comigo e promete tentar controlar-se. Mas ainda hoje o encontrei a pregar, autenticamente. Assim à maneira do Santo António a pregar aos peixes. Olhei discretamente as caras que o rodeavam e notei que estavam todos de boca aberta. Uns com ar de enfado, outros pareciam espantados. Espantados apenas e mais nada. Senti alguma pena dele, mas o gajo é completamente descontrolado.

Disse-me um dia que, quando começa a falar, é como se as ideias lhe ganhassem corpo dentro da boca e precisasse de as deitar fora, só para poder continuar a respirar. Explicou-me que o mundo só faz sentido quando verbaliza. E que verbalização dali vem!

As coisas que diz são consistentes e fazem sentido, mas ele descreve uma espécie de Apocalipse constante. Acaba por chatear. Lá no fundo aquele gajo é um chato de primeira. Mas, pensando bem, qual é o problema? As outras pessoas podem sempre virar costas e ir embora. Se o ouvem é porque há ali qualquer coisa que faz sentido.

O conselho que lhe dei foi que tentasse desenhar ou pintar, algo do género. Ele prometeu-me que vai tentar. Entretanto continua a falar. Fala, fala, fala... o discurso interminável dos loucos.