terça-feira, abril 30, 2019

O Grande Banquete

É preciso estar atento. Anda por aí tanto lobo a balir que já se confundem alcateias com rebanhos. Há lobos vestidos de ovelhas e ovelhas que aspiram à condição carnívora; vivemos tempos complexos.

Os lobos que se apresentam com a dentuça a brilhar sob os holofotes, sem necessidade de aparentarem uma certa santidade: lobos machos, lobos de barba rija, esses garantem à restante bicharada que não trazem o apetite descontrolado. Estão aí para reclamar aquilo que lhes pertence por direito. Tudo segundo as regras.

O problema reside, precisamente, naquilo que a lobalhada entende por direito. No imaginário daquela malta há um direito específico para os que comem e outro para os que são comidos. Sendo que o direito dos comidos é uma espécie de anedota que provoca gargalhadas entre os comedores. O seu plano, o seu desígnio, a sua missão divina, bem vistas as coisas, é alterar as regras.

Para operarem essa alteração, os lobos precisam de chegar aos cadeirões do poder (de preferência sem comerem demasiados cordeiros), de mansinho, se possível for. Será então tempo para os que andam disfarçados deixarem cair as peles de ovelha que lhes apertam os tomates e, todos os lobos juntos, celebrarem o Grande Banquete.

Como diz a grande fábula de Orwell (mais coisa menos coisa): "os animais são todos iguais... mas uns são mais iguais que os outros".

segunda-feira, abril 29, 2019

Arrastando a asa

Quanto mais reflicto sobre as designadas questões ambientais pior vejo o futuro; e não o vejo nada luminoso, antes pelo contrário. A cada dia que passa tenho a sensação (sensação cada dia mais vincada ainda que no dia anterior, vincada até ser um sulco na minha mente, uma ruga profunda na esperança que me resta) de que nos afastamos do Ponto de Não-Retorno. A oportunidade de salvarmos a Humanidade de si própria já passou há tanto tempo que nem vale a pena procurá-la. Está perdida.

Esta sensação é já uma certeza.

O pior de tudo é que todos os dias convivo com dezenas, centenas de crianças que, como todas as crianças, têm aquela energia vital extraordinária, aquela maravilhosa capacidade de serem felizes como bichinhos selvagens. E eu tento acompanhá-los nessa corrida que fazem em direcção ao seu futuro, tento influenciá-los positivamente, fazê-los acreditar... em quê, exactamente? Que irão ter uma vida boa? Não gosto nada de mentir.

Ando para aqui a arrastar a asa.

quarta-feira, abril 24, 2019

Acordar com a cara ao lado dos olhos

Um gajo pensa: não pode ser apenas isto! Mas, logo depois, as horas passam, os dias, os meses, um gajo esquece a pergunta que fez; um gajo distrai-se.

De súbito, sem razão aparente, volta a pensar: é apenas isto? E, mais uma vez, a questão se perde. A verdade é que o Mundo se disfarça, hesita, confunde, faz de morto, o Mundo tudo engendra de modo a evitar que um gajo pense e verbalize a pergunta: não há mais nada? O Mundo quer fazer de nós seus poetas.

Pois, parece que não, que não há mais do que isto. Mas um gajo não quer acreditar. O Mundo promete sempre muito mais do que pode oferecer de facto. Um gajo agradece pois não consegue imaginar nada mais deprimente do que haver resposta concreta para a teimosa questão: afinal qual é o sentido da vida? Nós somos os poetas do mundo.

Um gajo imagina que, talvez mudando de lugar, talvez indo em frente, ou voltando para trás por outro caminho... um gajo tem a ilusão de que o movimento impede que as coisas percam sentido (ou que o adquiram) e então vai. Um gajo é até capaz de acreditar que há um unicórnio ao fundo da floresta. Um gajo acredita até que há uma floresta.

Por vezes imagino que esta vertigem suicida em que mergulhámos todos (este mergulho a pique), esta voragem consumista, esta destruição da Natureza que executamos de forma sistemática, é, na verdade, uma vingança sórdida. Imagino que seja a nossa resposta para a tal questão. Mas também isto acabo por esquecer. Não há tempo para merdas destas, a maior de todas as urgências é viver.

terça-feira, abril 23, 2019

Observações (no Museu e na Sé)

Santo Estêvão, no Museu de Grão Vasco, em Viseu

Transcrevo do meu caderninho de apontamentos:

"O tempo roeu-lhe a tromba" - olhando uma estátua jacente em pedra, no túmulo de um bispo depositado no claustro da Sé de Viseu. "Aquele gesto de mãos impossível" - como é norma nas representações pictóricas de arte antiga. "Uma Virgem apoia os pés numa barca que navega uma nuvem pequenina"; "Alguns têm os dedos dos pés mais compridos que os dedos das mãos" - as estátuas em madeira dos evangelistas, no Museu de Grão Vasco sustentam esta observação mas também nas pinturas se encontra essa estranha interpretação da anatomia humana. "O Santo Estêvão parece ter uma poia no meio da testa"; "Tenho muita dificuldade em aceitar que certos enquadramentos sejam os originalmente concebidos pelos artistas. O Calvário, de Grão Vasco, por exemplo: como acreditar que o manto da personagem em primeiro plano, do lado esquerdo da composição, tivesse sido cortado propositadamente pelo Mestre? Não faz qualquer sentido. É um enquadramento de tipo fotográfico de instantâneo recolhido por um amador pouco cuidadoso."

Fecho o caderninho.

quinta-feira, abril 18, 2019

Tripa mole

A manhã estava límpida. Eu atravessava o Bairro Alto em passo sossegado, pouquinha gente, aquele sol que só há em Lisboa e duas meninas, pequeninas, talvez seis anos, por aí assim, a serem levadas, imaginei, para a escola.

Uma levada pela mãe que, na outra mão, segurava a trela de um cão branco. O cão e o modo como a senhora o orientava fez-me lembrar um aspirador a limpar as pedras irregulares do chão do Bairro. A segunda menina, lenço cor-de-laranja amarrado no topo da cabeça a fazer de conta que era um grande laçarote, vinha trazida por uma outra senhora, esta de cara enrugada, óculos escuros, semblante duro, senhora que não transparecia qualquer emoção.

As meninas ficam felizes pelo encontro. Sorriem. Aproximam-se. O cão resolve cagar. A menina que vai com a mãe nem repara no cócó, a outra menina tampouco. A senhora da cara fechada manteve-se impassível enquanto a dona do bicho se debruçou, saquinho de plástico na mão e "bom dia." A caca do cão é pouco consistente, quase liquída, de tom esverdeado.

Já passei pelo grupo e a cena deixa de estar no meu campo visual. Imagino a velha a responder um seco "b'dia", as meninas a sorrirem e a dizerem coisinhas, a senhora do cão a ter muita dificuldade no ensacamento da merda. Ser cidadã exemplar custa muito caso se tenha um cão. E custa muito mais caso o cão tenha a tripa avariada.

segunda-feira, abril 08, 2019

Vazio e inconsequente

As acções vazias e inconsequentes infectam-nos a existência. Não me parece que seja absolutamente imprescindível estarmos em permanente estado de vigília criativa. Não. A preguiça e o acto espontâneo são coisas de grande valor. O mal infeccioso reside nas acções vazias e inconsequentes que nos são impostas com o fato de gala da obrigatoriedade. Merdas...

Um gajo sente-se irritado, arrisco mesmo afirmar que um gajo se sente violado! Se aquilo não serve para rigorosamente nada, se exige tanto esforço e concentração sabendo todos de antemão que não é mais que faz-de-conta, porque raio havemos de cumprir, obedecendo?

Obriga-nos um código de conduta desenhado de modo a fazer de nós canídeos de duas patas. E nós deitamos, nós rebolamos e damos a patinha ao dono. Que se está bem a cagar. Para nós e para as acções vazias e inconsequentes que nos obriga a executar com a mera finalidade de manter as aparências de um mundo que, na verdade, está podre.

quinta-feira, abril 04, 2019

Prova provada

Não saber o que fazer, eis uma questão com a qual me vejo confrontado em momentos de ócio. Tantas vezes desejo não ter que fazer e tantas outras sinto o embaraço de me ver assim, desamparado perante todas as possibilidades que me são proporcionadas pelo facto de- não ter nada da concreto dentro da cabeça, nada que tome a vaga forma de uma vontade que desponta.

Ora, porra!

Forço a imaginação sabendo que a preguiça é o que me dita a acção. Como acreditar que a preguiça pode levar-me a algo que valha a pena fazer? Não funciona, muito menos resulta.

Prova disso é este texto.