domingo, setembro 27, 2026

Meter água (na história)

     As diferentes religiões (todas ou quase todas) criadas e recriadas nos quatro cantos deste mundo, concebem um Criador. Alguém ou alguma coisa que construiu este mundo e nele criou a vida e nele colocou o ser humano, que tem mais ou menos relevância no conjunto da criação, conforme a origem do mito em análise. 

    Deus é quase sempre um construtor, um arquitecto ou então um masturbador, um fecundador de céus ou de oceanos. Dependendo da sofisticação da civilização que o cria, cada deus é mais isto ou mais aquilo, mais selvagem ou mais urbano, mais atento ou distraído, pacífico ou aterrador. Não há regra absoluta, estamos a falar de desuses, são os amigos imaginários da Humanidade.

    Veio isto a propósito de ter lido algures que até mesmo entre os tupi-guarani, o mundo no qual habitamos actualmente resulta do renascimento social de uma espécie anteriormente dizimada por um dilúvio. As semelhanças entre esta história e o dilúvio de Gilgamesh ou o descrito no livro do Génesis são, eventualmente, perturbadoras.

sábado, setembro 26, 2026

Enigma preguiçoso

     Entretanto, a notícia é a de que ainda não morremos todos. Vamos morrendo. Um hoje, outro amanhã e enquanto por aqui andamos podemos continuar a comover-nos com a beleza, a lacrimejar um pouco quando ouvimos The Tower of Song, a sorrir de espanto quando olhamos um tríptico de Bosch, a sentir a pele arrepiar-se perante um filme magnífico. Como somos nós capazes de produzir tanta beleza e, na sombra dessa glória, produzimos tanta merda miserável. Não sou capaz de me decidir se isto faz ou não faz sentido.

    Entretanto, a notícia é a de que ainda somos capazes de amar. Vamos amando. Hoje amamos, amanhã odiamos. Odiamos verdugos e tiranos, a mentira e a trafulhice, amamos a justiça e o sopro de uma brisa qualquer capaz de nos refrescar os sonhos. Como somos nós capazes de odiar tão sinceramente e amar em simultâneo. Somos animais esquizofrénicos!?

    Entretanto escrevo estas palavras. Não sei para quê, mas escrevo-as. Não reconheço grandes qualidades a este texto, não sou capaz de me decidir se era preciso escrevê-lo ou se teria sido melhor ficar quieto. Vou escrevendo, tal como vou vivendo, tal como odeio, como amo. Tudo isto me parece fruto da respiração, da batida cardíaca, de um corpo que vai funcionando, coisa quase mecânica. Mas não sei o que é, não sei o que seja, o que venha a ser. Não sei.

 

sexta-feira, setembro 25, 2026

A maior de todas as histórias

    Alguém haverá de assistir ao fim do mundo. Um ser humano aqui, outro ali, outro ainda mais além, os últimos do fim da fila da extinção da espécie observando, já derrotados, o derradeiro suspiro de uma civilização vítima da sua húbris. Quanta melancolia, que terrível beleza!

    Aquele ali, desalentado, exprime com palavras poderosas as coisas que vê, descreve de forma magnífica o espectáculo a que assiste e do qual faz parte, autor e actor da desgraça absoluta. Que tragédia, oh, deuses, que tragédia comovente: a Humanidade a contorcer-se de dor num planeta que para ela se tornou demasiado selvagem.

    Aquele ali regista num papel toda esta história, escreve um poema que é lamento desassombrado e epitáfio. Mas não haverá ninguém que o leia, não terá os aplausos merecidos pela obra grandiosa que acaba de criar. Aquele papel, contendo a maior de todas as histórias, vai perder-se algures, levado pelo vento, comido pela chuva, engolido pela terra.

    Não restará ninguém para ler a maior de todas as histórias.

quinta-feira, setembro 24, 2026

Metáforas baratuchas

     Termos noção do espaço que ocupamos no universo é tarefa dura. Alguns de nós encontram obstáculos dificilmente transponíveis quando se trata de encarar com um mínimo de rigor aquilo que somos, quando avaliados como elementos isolados do colectivo animal a que pertencemos. Há hierarquias diferenciadas, aplicáveis conforme as situações.

    Um gajo pode ser a maior vedeta do mundo mas, no funeral de um pai dificilmente terá primazia no coração do filho do defunto quando colocado numa fila constituída pela mãe, pela irmã, pela tia (que é peixeira) ou pelo tio. Nessa hierarquia o vedetismo embaça, o estatuto  reordena-se, o mundo é outro. A vedeta terá de perceber que não é dela aquele palco. No mundo real os corações batem de facto.

    O passar do tempo coloca curvas apertadas no caminho do auto-conhecimento. Nem todos temos mãozinhas para segurar o volante e manter o veículo da nossa existência a rolar no asfalto da vida sem que sofra sobressaltos. Há pessoal que despenca a cada curva e se esbardalha contra tudo o que seja obstáculo. São normalmente pessoas que se distraem com o reflexo da própria testa no retrovisor. A verdade é que há muitos acidentes nessa estrada. Talvez demasiados.

terça-feira, setembro 22, 2026

Lá vai o Jorge

     Estava eu ontem a reflectir de forma um tanto parva sobre a posteridade e eis que faleceu o Jorge Palma. Conhecia-o e estive várias vezes com ele. Um gajo mesmo fixe, um daqueles gajos de quem nos tornamos amigos por ser tão fácil. E faleceu ontem, vítima de paragem cardio-respiratória. E hoje todo o país presta merecida homenagem ao Jorge. E que fez ele para que isso aconteça? A resposta é simples e cristalina: foi o Jorge. Foi isso que ele fez para alcançar a posteridade.

    Até um dia destes, pá. 

segunda-feira, setembro 21, 2026

Promessas desejadas

     Pode um gajo preocupar-se com aquilo que os outros venham a pensar a seu respeito no dia em que patinar lá para o outro lado? Deve um gajo pensar em manter uma certa postura, cultivar aquela imagem, querer ser melhor que a galinha da vizinha, tendo em conta a posteridade?

    Verdade seja dita, estando a fazer tijolo tanto se me dará que pensem bem de mim ou mal ou mais ou menos. Esticado o pernil passo a ser banquete para minhocas ou coisa que as valha. Perdida a consciência, perdida a sensibilidade, perdida a vida, em suma, que incómodo poderei sofrer por me ter peidado a despropósito ou ter mandado aquela velhinha para a puta que a pariu? Incómodo népias!

    Há, no entanto, uma hipótese que começou a ganhar forma dentro da minha cabeça vai para coisa de um quarto de hora, talvez mais. E se a morte for a passagem de um estado de consciência para outro, no qual manteremos presentes as coisas que dissemos, as coisas que fizemos e pensámos enquanto para aqui andámos a fazer de conta que somos? Ou seja: e se o peido e o insulto à velhinha não forem apagados, se, antes pelo contrário, forem lembrados e cobrados?

    Penso que este tipo de coisas seja algo que um tipo imagina à medida que vai avançando em direcção ao tal dia. Um tipo começa a sentir saudades da vida ainda ela promete oferecer-lhe coisas que provavelmente não tem. Um tipo engana-se a si próprio e deseja ardentemente que a mentira, por mais estapafúrdia que pareça ser, tenha lá dentro de si uma sombrazinha de verdade.

domingo, setembro 20, 2026

Um livro sonhado

     Tenho meia-dúzia de boas histórias que posso contar (presunção?). São histórias de algum modo relacionadas com Artes Plásticas (escrever estas palavras com maiúsculas causa-me uma certa comichão no céu da boca). Já chega de parêntesis! 

    Desde a minha famosa teoria sobre A Fonte de Duchamp até à visão dantesca de uma sala repleta de esculturas gregas no Museu do Louvre ou a constatação de que muita gente olha sem ver, penso que poderei narrar factos, invenções e maravilhas com alguma leveza, escrevendo textos que não pesem na caixa craniana do leitor ocasional.

    Nem eu sou um erudito, nem o meu eventual leitor será versado em grego antigo ou aramaico. É um sonho que vai ganhando contornos cada vez mais definidos no meu imaginário. Serei capaz de alguma vez me atrever a fazer tal coisa? Temo que sim. Haja lata e falta de preguiça. 

segunda-feira, setembro 14, 2026

Momento exacto

     Entre uma notícia e a próxima, entre uma angústia nova e outra, velha, eis que os obituários marcam a passagem do tempo na sua cadência implacável. Morre mais um, falece mais outra. Excepto naqueles casos em que as pessoas são levadas por alguma doença repentina ou por acidente imprevisto, a morte vai-se encarregando de cumprir a função que lhe está destinada com a eficácia e a frieza dos funcionários competentíssimos. Deus só pode estar satisfeito com a sua produtividade.

    Um gajo vai envelhecendo. Cai o cabelo, cresce a barriga, umas coisas compensam outras. Instala-se uma certa saudade (não sei não é tristeza). Fico com a sensação de que poderia ter feito muito mais coisas, que poderia ter sido muito diferente, a minha vida, eu próprio, tudo muito diferente. Depois penso que se tivesse vivido essa diferença, essa vida paralela, talvez estivesse agora a suspirar por esta. Sim, porque quando pensamos que as coisas poderiam ter corrido de outra maneira, que poderíamos ter vivido uma vida que não esta, não pensamos que estaríamos, eventualmente, a sonhar com esta que vivemos agora. É confuso? Não me parece.

    Imagino que nos vamos habituando à presença da morte. Cada vez mais vão pessoas que conhecemos mais ou menos bem, pessoas que tinham a nossa idade (era um rapaz tão novo), os nossos mais velhos. Vão morrendo um atrás do outro, a morte a cumprir o plano da burocracia da vida; este morreu por isto, aquele foi por aquilo e nós ali sentados, na fila, sabemos que haverá de chegar a nossa hora. O nosso minuto. Melhor, haverá de chegar o micro segundo, aquele momento exacto em que vamos desta pra melhor (esperamos nós que seja pra melhor).

sexta-feira, setembro 11, 2026

O chato das botas

     Pensar na vida não é recomendável. Dizendo de outra forma: não é recomendável pensar na vida. Quero dizer, seja qual for a perspectiva ou a forma de abordar a questão, pensar na vida não é pêra doce. Nem um pouco mais ou menos.

    Será que a coisa se apresentou do mesmo modo quando se insinuou nas reflexões dos nossos antepassados? Quero dizer, pensar na vida em pleno século XXI terá o mesmo peso e o mesmo sentido que teve no século XV ou no século XIX? Ou, se não o mesmo peso e o mesmo sentido, qualquer coisa semelhante? Não me apetece esclarecer esta dúvida, parece-me reflexão para levar demasiado tempo consigo e tempo que é coisa que me falece.

    Sou um homem do século XXI. Talvez coloque essa dúvida a uma chatbot. 

quinta-feira, setembro 10, 2026

Ai, caramba!

     Não te suicides já, espera mais um bocado. Pode ser que aconteça o que não é para acontecer, pode ser que o destino tropece. Não te suicides ainda, há esperança. A esperança pode morrer mas só quando já não houver quem a alimente. Depois de a esperança falecer nem deus resta. Nada.

quarta-feira, setembro 09, 2026

O futuro

     É uma sensação estranha esta, a de ver o mundo a desmontar-se peça por peça mesmo defronte dos meus olhos. Não falo do planeta, falo do mundo, que são coisas bem diferentes, não vale a pena estar para aqui a explicar.

     Talvez mais tarde o mundo seja de novo montado com uma organização diferente destas mesmas peças, talvez venham a ser incluídas na montagem peças até aqui inexistentes, é como naquele poema do Camões que fala de o mundo ser composto de mudança. O Futuro não pertence a ninguém, nem mesmo a Deus (seria necessário que Ele existisse).

     A civilização tal como actualmente a concebemos está por um fio. Mais dia menos dia pode cair no abismo sobre o qual balança perigosamente... 

    Durante algum tempo haverá caos e desordem, choro, saudade e lamentação. Mas, se tudo se desenrolar segundo as boas leis da existência das espécies, logo, logo haverá outra forma de se ser humano e dentro de uns milhares de anos este mundo será uma curiosidade arqueológica.

 

domingo, setembro 06, 2026

Afinal qual é o problema?

     Sabes como é, é como quando a realidade não coincide com aquilo que sonhaste, como quando há um desfasamento entre o que preencheu um sonho que tiveste no passado e aquilo que vives no presente. Este dia que não chega a ser um eco daquele sonho que nem sequer foi sonho particularmente grandioso. E vem a tentação de pensar: é isto? Afinal a vida é isto? Só isto? Pois.

    Talvez o tal desfasamento não seja um problema ou, pelo menos, não seja "o" problema. Talvez "o" problema seja outra coisa, talvez se coloque de outro modo, tenha uma formulação mais simplória do que aquela que imaginas deveria ter uma questão de tão suma importância. 

    Estamos a falar do sentido da vida? 

quinta-feira, setembro 03, 2026

Merda até ao pescoço

     Haverá alguma coisa que eu possa fazer? Tenho a impressão de que lá na ONU os small bosses andam a atapetar os corredores com as toalhas que atiram ao chão. Enquanto isso, os big bosses esfodaçam esta merda toda sem qualquer tipo de problema nem peso na consciência. O futuro não é deles, portanto estão-se bem a cagar. Venha o clima enlouquecido, vamos fazer uma festa!

    Nas escolas ensinamos as crianças a respeitar o planeta, a amar os bichinhos, a reciclar o lixo e a regar as plantas com peso conta e medida, a água é um bem precioso. Mas, se olharmos a realidade com os nossos olhos de adultos, as coisas não estão nada bonitas. Estão mais feias do que alguma vez estiveram e a tendência é para que piorem. Toda a gente vê o problema mas poucos de nós estão dispostos a abdicar do que quer que seja de modo a mitigar a merduncha em que nos enterramos a cada dia que passa. Ateamos a fogueira que nos grelha com entusiasmo e boa disposição.

    Se é para rebentar, que rebente em grande estilo! 

    Apesar de me sentir impotente, apesar de saber que sou incapaz de inverter o curso dos acontecimentos, apesar de compreender que os meus gestos são invisíveis mesmo que analisados ao microscópio, apesar de tudo, estou disposto a fazer umas coisitas que me permitam continuar a dormir descansado.