Um estudo daqueles estudos que nos põem a olhar para coisas que não nos lembraríamos de ver se não fossem, precisamente, esses estudos, vem revelar que o consumo de televisão em Portugal aumentou brutalmente no ano que expirou aqui há três dias atrás.
Tentando explicar os dados recolhidos, relaciona-se o consumo de TV com a crise económica e a falta de dinheiro para aceder a outros bens culturais (partindo do princípio que a TV pode ser considerada um bem cultural, assim, por atacado).
Os portugueses vão (ainda) menos ao teatro, ao cinema, assistem a menos concertos, viajam menos, fecham-se mais em casa e abrem a janela da TV para olhar o mundo. Já não eram grandes leitores mas, com o dinheiro a desaparecer no pagamento de impostos e de contas mensais, a venda de livros também tem descido vertiginosamente.
Podemos concluir que a crise nos empobrece das mais variadas formas sendo o empobrecimento cultural um facto inquietante. A pobreza do espírito poderá abrir as portas do céu mas isso só importa depois de morrermos, na hora de prestar contas ao Criador. Enquanto por cá andamos, a indigência cultural aproveita, principalmente, a quem pretende aproveitar-se de nós.
Um povo embrutecido, agarrado às telenovelas e aos reality shows, que recolhe informação preferencialmente nos telejornais e que é bombardeado com anúncios publicitários, tende a criar narrativas perigosamente simplistas do mundo que o circunda.
Um povo assim está pronto para a faca, carne fresca para ser retalhada pelos gulosos que, depois, ainda nos roerão os ossos, caso estejam com disposição para isso. A crise é um autêntico tsunami social.
Mostrar mensagens com a etiqueta televisão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta televisão. Mostrar todas as mensagens
quinta-feira, janeiro 03, 2013
sábado, dezembro 03, 2011
Faces
Não deve haver nada pior que a obrigação de simpatia, a necessidade profissional de afivelar um sorriso quando a vontade é estar com a cara que temos e não aquela que outros nos querem ver trazer agarrada ao cimo do pescoço.
Vem isto a propósito daqueles programas que passam na TV nestes inícios de tarde de fim-de-semana, onde os canais televisivos promovem os seus produtos comerciais (telenovelas, programas de "famosos" e outras coisas do género) com "entrevistas" às personagens que fazem as caras dos seus écrãs.
Toda a gente conhece toda a gente, toda a gente é absolutamente bonita e especial e toda a gente tem coisas fôfas a dizer de toda a gente, desde que faça parte da respectiva "família" que é a do tal canal de TV, seja público ou privado.
A coisa é tão forçada que apenas encontro paralelo nas caras que fazemos quando, sentados na sanita, nos vemos e desejamos para descarregar a tripa. Corados, meio desfigurados, ao sentir aquele desprendimento magnífico, estamos capazes de assegurar ao mundo como o amamos por nos sentirmos tão mais leves.
Nesses curtos momentos a felicidade é visível e não é necessário fingir um sorriso tão rígido que, vendo bem, é apenas um esgar desesperado, nem dizer aquelas banalidades estupidificantes que os tais programas nos impingem com imagens de carinhas sorridentes, de um "kisch" assustador, que nos ilustram o écrã.
Nauseante.
Vem isto a propósito daqueles programas que passam na TV nestes inícios de tarde de fim-de-semana, onde os canais televisivos promovem os seus produtos comerciais (telenovelas, programas de "famosos" e outras coisas do género) com "entrevistas" às personagens que fazem as caras dos seus écrãs.
Toda a gente conhece toda a gente, toda a gente é absolutamente bonita e especial e toda a gente tem coisas fôfas a dizer de toda a gente, desde que faça parte da respectiva "família" que é a do tal canal de TV, seja público ou privado.
A coisa é tão forçada que apenas encontro paralelo nas caras que fazemos quando, sentados na sanita, nos vemos e desejamos para descarregar a tripa. Corados, meio desfigurados, ao sentir aquele desprendimento magnífico, estamos capazes de assegurar ao mundo como o amamos por nos sentirmos tão mais leves.
Nesses curtos momentos a felicidade é visível e não é necessário fingir um sorriso tão rígido que, vendo bem, é apenas um esgar desesperado, nem dizer aquelas banalidades estupidificantes que os tais programas nos impingem com imagens de carinhas sorridentes, de um "kisch" assustador, que nos ilustram o écrã.
Nauseante.
segunda-feira, junho 27, 2011
Farto de fatos
Rebentei! Estou farto de fatos e de factos. Estou farto dos factos comentados por fatos com gravata e umas cabeças falantes a saírem pelo colarinho da camisa. Pátátá, pitititi, falam, falam, falam. Todos eles sabem tudo, têm perspectivas inteligentíssimas sobre todo e qualquer tema, não lhes escapa nada. Ocupam milhentos espaços informativos em vários canais televisivos. Podem ser vistos a toda a hora, debitando toneladas de ideias magníficas. Saturam o imaginário colectivo, inundam o espaço público com palavras. Comentam tudo, sabem tudo e, no entanto, não resolvem nada. Como é possível haver tantos homens (e algumas mulheres, pouquinhas) tão sábios e não se encontrar uma solução credível nem para o problema do cócó de cão nos passeios públicos? Estou farto destes gajos, dos seus fatos e dos factos que continuamente comentam, analisam, dissecam e... e nada! Caraças, que raio de coisa é esta?
sexta-feira, dezembro 25, 2009
O Sexo, o Natal e a economia

Hoje é dia de Natal. Em muitos lares por este Portugal adentro a televisão substitui a lareira e é para ela que se dirigem todos os olhares das famílias reunidas em seu torno. Mais logo a TVI irá transmitir o filme O Sexo e a Cidade. Não há Pai Natal naquele filme, nem Reis Magos nem Presépio, nem nada que se relacione com a quadra festiva que aquece os nossos corações. Este (in)significante fait-divers faz pensar nas distantes origens desse canal televisivo, originalmente atribuído à igreja católica, num processo mais milagroso que transparente. Lembram-se? Eram os primórdios dos canais independentes do poder político que prometiam um mundo novo no panorama televisivo. Com 4 canais, afiançavam-nos então, teríamos diversidade, variedade e competição, benesses do mercado livre. Volvidos todos estes anos o que podemos constatar? Que os canais, na sua luta insana para captarem investimento publicitário, se acotovelam com novelas, concursos imbecis e telejornais infindáveis, numa amálgama fedorenta, uma papa indistinta e massificadora. Fomos enganados?
Esta constatação pode alargar-se a outros domínios. O poder político, por exemplo. Também aqui ficamos com a sensação de que entre os chamados “partidos do arco do poder”, o PS e o PSD, há uma sobreposição absoluta de objectivos, comportamentos e discursos. A falência das ideologias tornou-os tão semelhantes que ninguém vê grande diferença entre um e outro quando ascendem ao cadeirão do poder. Uma vez aí sentados, os líderes destes partidos abrem os dossiês da roubalheira e ficam deslumbrados, como miúdos num hipermercado em vésperas de Natal. É a economia, dizem-nos, a economia obriga a fazer isto e a esquecer aquilo, garantem-nos. Estaremos a ser ludibriados?
Afinal de contas em que ficamos? A democracia sobrepõe-se à economia? O poder político pode orientar-se por princípios humanistas ou a frieza dos números tudo justifica? Fica a sensação de que a massificação boçal é o único caminho possível para a nossa sociedade. Sejamos boçais, se não nos resta outra opção. Pode ser que O Sexo e a Cidade não seja tão mau filme quanto isso e sempre constitui uma alternativa ao velho James Stewart franzindo a testa em Do Céu Caiu Uma Estrela.
sexta-feira, fevereiro 06, 2009
O cupido de Santa Comba

Depois desta série nunca mais poderemos olhar Salazar do mesmo modo. Algumas imagens passam a ter outra dimensão. De cima para baixo: com Carmona, com aquela rapariguinha e com Franco. Afinal o homem era um cupido de seta sempre pronta!
Ainda não estreou mas já promete ser a maior mistificação dos últimos tempos. "A Vida Secreta de Salazar" está aí a romper e vai oferecer aos olhos de todo um povo estupefacto uma imagem do Botas absolutamente inesperada. Afinal de contas, o mito do homem púdico, temente a Deus e que só se apercebia que tinha uma pixota de cada vez que não se distraía com alguma oração especial quando ia mijar, não passa disso mesmo: um mito.
Ainda não estreou mas já promete ser a maior mistificação dos últimos tempos. "A Vida Secreta de Salazar" está aí a romper e vai oferecer aos olhos de todo um povo estupefacto uma imagem do Botas absolutamente inesperada. Afinal de contas, o mito do homem púdico, temente a Deus e que só se apercebia que tinha uma pixota de cada vez que não se distraía com alguma oração especial quando ia mijar, não passa disso mesmo: um mito.
Desenganem-se os que pensavam que Salazar era um velho carcomido pelo ódio à existência e à liberdade humana. Qual quê! Aquele ser vivo não era nenhuma pileca, antes um verdadeiro garanhão que cobria todas as fêmeas que lhe passassem à distância de um braço.
Veja-se uma frase promocional da coisa: «Esta mini-série de 180 minutos (dividido em dois episódios de 90’) resulta do choque entre a narrativa propagandística, que a francesa Christine Garnier popularizou em livro, e as diferentes tramas amorosas protagonizadas pelas outras mulheres cujos corações foram atingidos pela flecha do Cupido de Santa Comba Dão.» Caramba! Já tinha ouvido chamar muita coisa ao velho das botas, mas "cupido de Santa Comba Dão", essa é muito forte e completamente nova.
Enfim, a coisa promete. Um Salazar cheio de vigor (quem diria?) envolvido com mulheres muito mais belas do que alguma vez ele sonhou que pudessem existir (veja-se aqui, meu deus!!!), que mais nos falta descobrir na constante descoberta que é a vida reescrita dos bandidos deste nosso Portugal? Que surpresas nos reservam ainda os produtores de audiovisual dos canais privados? Cenas escaldantes entre o Cardeal Cerejeira e o seu amigo Cupido de Santa Comba? O Anjo de Portugal a ser sodomizado pelo Demónio feito gente que, ao que parece, foi, afinal, o velho António de Oliveira, enquanto debita um rosário completo? Perante uma surpresa deste calibre tudo podemos esperar. Ou não?
Etiquetas:
quotidiano delirante,
televisão
sábado, dezembro 06, 2008
Um Mundo Catita
Quando me preparei para escrever este post a minha intenção era desancar na inenarrável versão do "Bem Bom" que faz parte do novo álbum a solo do Rui Reininho. Enquanto procurava no You Tube um vídeo que pudesse ilustrar este meu ódiozito de estimação dei de caras com uma série de vídeos de "Um Mundo Catita", a série que passa actualmente no canal 2 da RTP. Imediatamente mudei de tema. É que esta série tem-me proporcionado inesperados momentos de profundérrimo prazer e tem-me feito rir com vontade, coisa boa que cada vez menos acontece de forma espontânea.
"Um Mundo Catita" é uma espécie de biografia romanceada do grande (sob vários aspectos) Manuel João Vieira. Quem o conhece sabe que é uma personagem desopilante, capaz do melhor e do pior. Uma personagem real que constrói para si própria um mundo de faz-de-conta que se adapte à sua visão escatológica do universo circundante. As máscaras de João Vieira (ou será antes Lelo Marmelo?) estão sempre presas por arames e "Um Mundo Catita" é o lugar ideal para olharmos de frente toda essa mascarada.
Manuel João Vieira foi aluno da Escola Superior de Belas-Artes na mesma época que por lá andei. Já nos idos de 80 era um gajo estranho e exagerado que fazia rir ou nem por isso. Foi na época em que surgiram na escola os Ena Pá 2000 mas também os Mler If Dada. Tempos muito pouco modernos.
Assistir agora a esta série (passa aos Domingos, já lá vão 2 de 6 episódios) é um exercício de memória curioso. Lá surgem uma série de personagens que já havia esquecido. Surgem em pessoa ou disfarçados de "catitas". É uma série com uma qualidade assinalável tanto nos cenários como na fotografia e no argumento. Uma óptima surpresa que tenciono continuar a desfrutar até ao fim, devagarinho, com volúpia.
segunda-feira, setembro 08, 2008
BOMBA!!!

Uma pequena bomba a participação deste tal Russell Brand (nunca tinha ouvido falar do chavaleco) na entrega dos prémios MTV. A forma como este comediante inglês entrou pela política americana dentro teve a elegância de um elefante a desmanchar uma loja de porcelanas. Sem dúvidas. Aqui encontra-se uma versão legendada em português. Ainda estou meio de boca aberta. Nem sei se acredite.
Qual será (qual foi) a reacção das autoridades americanas a tão descabelada (o termo aplica-se) intervenção deste rapaz? Vale a pena ver. É uma muitíssimo estranha situação!
segunda-feira, maio 12, 2008
Este gajo (já) não tem graça nenhuma
Herman José já me fez rir a bom rir. Muitas vezes. Há muito tempo atrás. Desde que se convenceu que tinha outras qualidades para lá da representação humorística começou a decair e a definhar a olhos vistos. Os seus talk shows eram cada vez mais deprimentes, a sua incapacidade para perceber a fronteira entre a inteligência e a indigência intelectual cresceu, cresceu, cresceu e, finalmente, rebentou. Herman transformou-se num palhaço mau e sem graça. Um chato da pior espécie. Da espécie de chatos que pensam que os outros todos é que o são. Aquela espécie de chato que se considera muito bom, grande, incomparável.Caído no esquecimento, ultrapassado em popularidade por todos os humoristas que fazem humor, Herman é hoje um tipo ressabiado e com maus fígados, com sorriso forçado e riso de plástico. Um dia destes vai regressar como apresentador de um concurso televisivo, mas isso não disfarça a sua falta de capacidade para compreender que a fazer o que faz agora não presta. Herman não perde uma oportunidade para mostrar a sua imbecilidade infinita. Esta noite, na gala dos Globos de Ouro na SIC, foi chamado ao palco para entregar o prémio ao melhor intérprete musical masculino. Decerto porque o concurso que vai apresentar tem qualquer coisa a ver com música mas ele vai transformá-lo numa imensa celebração da sua miséria intelectual, como de costume. E foi isso que Herman fez de novo, esta noite. Jorge Palma receberia o Globo de Ouro mas teve o azar de ser o palhacito a passar-lho para as mãos.
O que se passou no palco foi miserável. Herman José não sabe deixar-se ficar no seu lugar e está em permanente over-acting. Jorge Palma bem tentou disfarçar a porcaria que o suposto humorista provocou. Mas era impossível. Herman quis pegar-lhe ás cavalitas mas fê-lo cair sobre os cotovelos. Palma tentou manter a compostura fazendo os agradecimentos deitado no palco mas Herman estava imparável na sua boçalidade e, incapaz de conter a sua ânsia de ter alguma graça, por muito pouca que fosse, agarrou o cantor pelas pernas e tentou puxá-lo para fora de cena. Não parou um segundo de fazer coisas parvas... inconcebivel, um espectáculo deprimente, como se fosse uma criança habituada a ser o centro das atenções mas que cresceu e se tornou um adolescente com borbulhas a pingar pus, Herman foi o mais imbecil dos imbecis que já vi fingirem ter graça.
Pacman, dos The Weasel, veio ao palco alguns minutos depois para receber um Globo e sentiu necessidade de afirmar a grandeza de Jorge Palma no panorama musical em contraponto à pequenez do ex-humorista. Só lamento que Jorge Palma se tenha visto envolvido nesta exibição lamacenta de falta de charme e ausência de qualidade. Quando vejo Herman a ser ele próprio, compreendo que o que me fazia rir não era ele. Era outra coisa que ele já não tem: gajos que lhe escrevam textos capazes de lhe disfarçar a falta de graça.
domingo, fevereiro 10, 2008
Onde pára a BD?


A (não) publicação de revistas de Banda Desenhada é um dos grandes fiascos culturais com que nos debatemos. Ao longo dos anos ora surgiram ora sumiram os mais variados títulos com vida cada vez mais curta à medida que os anos foram passando. O Tintin, O Mundo de Aventuras, O Falcão, O Jornal do Cuto, foram revistas que me ocuparam o universo mental e moldaram o meu imaginário. Nos anos 70 a TV não oferecia grandes alternativas e o cinema não era capaz de elevar a fasquia da espectacularidade visual por se debater com dificuldades tecnológicas enormes. Era na BD que se encontravam os mais interessantes dos heróis e as mais espampanantes das aventuras.
Mudam-se os tempos e já se sabe, nada fica como dantes. Nos tempos que correm se perguntarmos a 100 crianças na casa dos 11-12 anos que BD gostam de ler as respostas poderão ser estranhas. Raros são os que lêm BD para lá do Tio Patinhas. Astérix é a personagem mais popular e Lucky Luke já é só para os mais intelectuais do grupo. Nem todos relacionam o Homem-Aranha ou o Batman com o suporte revista. É como imaginar um frango real quando só se conhecem os que se compram no supermercado devidamente limpos e tudo o mais, sem cabeça, nem patas, nem unhas, nem bicos, nem aquele aspecto de atrasados mentais. Olhando apenas para o cadáver embalado com celofane é complicado imaginar o animal verdaeiro.
Meio de comunicação de massas por excelência ao longo dos anos 70/80, a BD viu-se ultrapassada pelo cinema e pelas séries televisivas. Aliás, a BD, nomeadamente os Comics americanos, fornecem muitas personagens para os écrans com o sucesso que se conhece.
Mas, apesar de tudo, a BD não morreu, antes pelo contrário. Quer dizer, em Portugal está morta, mais uma vez, mas podemos sempre encontrar publicações espanholas, francesas, inglesas, norte-americanas, etc., isto é, podemos comprar BD em Portugal mas raramente se pode comprar BD em Português. Muito menos BD portuguesa. Enfim, temos a FOX para tirarmos a barriga de misérias e as séries televisivas vieram substituir as colecções de Banda Desenhada.
Não há nada que bata um écran nos dias que correm. Qual será o suporte que há-de destronar o écran? Existirá algum capaz dessa proeza?
Etiquetas:
Banda Desenhada,
televisão
terça-feira, novembro 13, 2007
A guerra

http://www.rtp.pt/index.php?article=302442&visual=16 porque há coisas assim vale a pena espreitar de vez em quando a televisão. A série documental A Guerra de Joaquim Furtado é um documento imprescindível, um trabalho jornalístico de grande valor. A guerra colonial continua muito mal ilustrada no nosso imaginário colectivo. Esta série vem colmatar uma enorme lacuna. A não perder. Vou terminar rapidamente este post pois o episódio de hoje está quase a começar e não quero perder nem um minuto.
Até mais logo.
sexta-feira, outubro 05, 2007
Querida televisão
A minha televisão é a única companhia com que posso contar. É com ela que tomo o cházinho e com ela converso sobre as questões que incomodam o dia-a-dia que a mim já nada me incomoda a não ser a solidão. A jarrinha com flores serve-lhe de chapéu. Dá-lhe um aspecto bem patusco. Mas ela não se importa, encaixa bem a brincadeira. Sabe o apreço que por ela tenho. É quase amor. Sei que não se ama um objecto da mesma forma como se ama uma pessoa. Mas já não há pessoas reais na minha vida, só as pessoas que me visitam através do écrã da minha televisão. Ofereço-lhes uma xícara de chá, um bolinho, dois dedos de conversa. Por vezes sinto que a televisão me olha e se enternece comigo. É uma boa amiga. Fiel, discreta no trato e conversadora incansável. Conta-me histórias e eu retribuo com atenção e silêncio. É uma relação perfeita. Sem segredos nem mistérios. Dias a fio ali estamos, uma em frente da outra, esperando que o tempo passe. E que um dia me leve.domingo, junho 03, 2007
O Grande Não-Há-de-Ser-Nada

Afinal era tudo uma espécie de mentira! O Grande Dador não passava de uma estranha e pouco usual manobra mediática para atrair as atenções na direcção dos problemas provocados pela escassez de doações de órgãos para transplante que afligem doentes e médicos, por essa Europa fora e, imagino, no resto do mundo onde se tentam resolver certos problemas recorrendo mais à medicina do que à magia tradicional.
Pessoalmente confesso-me surpreendido. Acreditei que tudo aquilo era verdade e que havia produtores de TV suficientemente macacos para apostarem num programa tão selvagem. Mas não. É tudo boa gente e a Holanda recupera um pouco do brilho que esmorecia nos nossos imaginários.
Pelos vistos não fui só eu a acreditar nesta "brincadeira" (a doente terminal era uma actriz contratada mas os doentes a precisarem do rim continuam a sê-lo, mesmo) e há por aí muito boa gente visivelmente irritada. Não sei se por se ter deixado enganar se por encontrar em tão esquisito método promocional traços de ilegalidade ou contorcionismo das boas normas de funcionamento da sociedade de consumo capitalista. Seja como for, toda a situação se enquadra num inopinado quadro legal. A ver vamos qual o desenlace de toda esta história que, apesar de tudo, me continua a parecer de bastante mau gosto. Mas, enfim, o mau gosto tornou-se um modo de vida e é produzido em quantidades industriais, todos os dias e nas mais variadas formas.
Não há-de ser nada.
quarta-feira, maio 09, 2007
Educação infantil
Japão, Palestina, States... 3 exemplos de como, afinal de contas, andamos todos preocupados com a merda que fazemos.
segunda-feira, abril 02, 2007
Heroísmo pós-moderno
Ainda não tinha ouvido falar muito da personagem. Acho que lhe tinha passado os olhos por cima e ao de leve nalgum zapping mas deve-me ter parecido igual a muitas outras coisas que se mastigam e deitam fora depois de perdido o sabor. Notei o nome quando, num questionário mais ou menos informal que fiz aos meus alunos de Arte e Comunicação do 7º ano de escolaridade (idade média 12 anos), aparecia insistentemente: "Qual a tua série de TV preferida?" Dr. House, Dr. House, Dr. House... foram tantos os pirralhos que escreveram o nome do Dr. House que fiquei curioso. Evidentemente. Na primeira oportunidade vi um episódio mais ou menos completo.Ainda estou meio confuso; o que terá o Dr. House de tão apelativo para a criançada? Não seria de esperar que tivessem outro tipo de preferências? Algo mais dirigido a eles? Há tanto "pedopsicólogo", tanto especialista em marketing e universos juvenis envolvidos na criação de conteúdos televisivos para aquela maltinha e logo haviam de se tomar de amores por uma série que não me parece, de todo, a eles dirigida! Mistério.
O Dr. House é vaidoso, convencido, assertivo, coxo e, como se tudo isto não bastasse, fala de coisas incompreensíveis, questões médicas estranhíssimas e farta-se de meter o nariz onde, à partida, não parece ser chamado. Estas qualidades da personagem poderiam parecer defeitos mas não parecem incomodar a catraiada, antes pelo contrário.
Lá vai a Era dos Heróis, do Tarzan e do Texas Jack, do Zorro e do Robin Hood, em que as aventuras se passavam ao ar livre, em tempos idos ou locais exóticos. O Herói dos "meus" miúdos passa o tempo fechado num enorme edifício, uma clínica ou hospital ou lá o que é aquilo e, em vez de um par de colts ou um arco-e-flechas anda apoiado na sua bengalinha a abanar seringas e sacos de soro.
Não há dúvidas que atrás dos tempos vêm tempos mas, depois de uma cena destas, sou incapaz de imaginar que outros tempos hão-de vir!
segunda-feira, março 26, 2007
O cú da Europa

FINAL DE DO PROGRAMA "OS GRANDES PORTUGUESES" O NOSSO AGRADECIMENTO A TODOS OS QUE PARTICIPARAM
No passado Domingo, dia 25 de Março os telespectadores escolheram entre os 10 finalistas o "Grande Português". E foram os seguintes os resultados da votação:
1º António de Oliveira Salazar - 41,0%
2º Álvaro Cunhal - 19,1%
3º Aristides de Sousa Mendes - 13,0%
4º D. Afonso Henriques - 12,4%
5º Luís de Camões - 4,0%
6º D. João II - 3,0%
7º Infante D. Henrique - 2,7%
8º Fernando Pessoa - 2,4%
9º Marquês de Pombal - 1,7%
10º Vasco da Gama - 0,7%
A fazer fé nos resultados da votação para o programa de TV "O Maior Português de Sempre" só posso concluir que o triunfo de Salazar enquanto déspota batoteiro e mal intencionado deu frutos de tal modo envenenados que a maioria da população ainda não recuperou, não havendo clínica de recuperação nem desintoxicação que lhe valha.
Não deixa de ser irónico que a "eleição" de Salazar tenha coincidido com a comemoração do 50º aniversário da assinatura do Tratado de Roma, momento fundador da União Europeia. O Botas de Santa Comba, que tudo fez para fazer de Portugal o olho do cú da Europa e alcançou plenamente esse objectivo, deve estar a rir-se com os demónios que o vão torturando no Inferno.
Um gajo que aniquilou sistemática e doentiamente todos os adversários políticos, que falseou resultados eleitorais com a sobranceria dos que sabem estar acima da Lei por serem intelectualmente corruptos , acaba incensado no altar mediático de uma sociedade democrática como uma espécie de santidade profana talhada no mais carunchoso dos paus infectados pela podridão da maldade. É de força.
Dizia Almada que "se o Dantas é português eu quero ser espanhol" digo eu que "se os portugueses são Portugal eu quero ser um país indepedente". Em boa verdade custa-me a acreditar que esta "votação" reflicta o Portugal actual mas não deixa de ser um sintoma de estupidez boçal algo preocupante. Por ali andou "mãozinha da reaça" e, mais uma vez, se percebe como a Democracia se dá mal quando abre a perna a grupos organizados de extrema direita.
Fica a imagem deplorável de haver a possibilidade de um povo acarinhar um ditador que o estropiou de forma aparentemente irremediável. Salazar cegou Portugal e Portugal agradece-lhe a cegueira. E, como é certo e sabido, "o pior cego é aquele que não quer ver"!
Temo que, na verdade, nunca deixemos de ser o cú da Europa. Um cú mal lavado, ainda por cima.
Etiquetas:
portugal,
povo português,
televisão
terça-feira, março 13, 2007
Que bela merda!

Imagine oito Mulheres de cortar o fôlego, e que acima de tudo gostam de se olhar ao espelho¿ Imagine 8 Homens muito inteligentes¿mas cromos e com pouco jeito para lidar com o sexo feminino¿
Começa assim a explicação no site da TVI da sua nova criatura mediática que dá pelo nome de "A Bela e o Mestre" na versão para o Zé Portuga. Dá para imaginar. E prossegue, mais adiante:
Mais do que um reality-show, ¿Beauty & The Geek¿, é uma ¿social experience¿, em que se pretende provar que estes homens e mulheres, com características tão específicas e diferentes, podem trabalhar em conjunto, tornar-se melhores pessoas, mais tolerantes e confiantes.
Assim mesmo. Os textos em itálico são resultado de copy-paste, estão tal e qual os podemos encontrar no dito site. Informa ainda que:
Eles vão ter que as educar e Elas vão ter que os treinar¿ o insucesso de um será o insucesso do outro¿ Boa disposição, lágrimas, ranger de dentes, alegria e tristeza tudo junto num programa que vai pôr Portugal a vibrar!
Imagino toda a vibração que uma coisa tão grotesca como esta irá provocar entre os papalvos do costume. O princípio do programa é uma desgraça. As feministas devem dar pinotes de raiva e indignação perante esta imagem da mulher burra, mas boa como o milho, para consumo televisivo.
O nível atingido na primeira emissão (de que vi algumas fatias) é abaixo de cão (ou de cadela, como parecer melhor a vossa excelência). Há um júri composto por personagens improváveis como Clara Pinto Correia, Rui Zink e Carlos Quevedo e uma personagem aparentemente adequada, no caso, Marisa Cruz. O apresentador é o incontornável Zé Pedro que até poderia atingir outros patamares caso não tivesse um umbigo tão largo que dá para fazer uma piscina olímpica. Há ainda uma apresentadora que não sei bem quem é e que meteu água suficiente para encher a dita piscina.
Confesso que não segui todo o programa mas os excertos que vi foram dignos dos Tesourinhos Deprimentes dos Gato Fedorento. Houve de tudo (nem imagino como terá sido o programa na totalidade) desde manifestações de ignorância gloriosa até embrulhadas com contas, passando por tiradas infelizes de todos os presentes e, imagino, de muitos dos ausentes. Pelo que percebi correu quase tudo conforme o previsto e é isso que é espantoso. Aquilo é para ser mesmo mau, não há outro objectivo! Os elementos do júri pareciam surpreendidos com algumas situações de tão inacreditavelmente estúpidas.
Enfim, a TVI no seu melhor (que é o que há de pior em televisão) faltando apenas os gritos estridentes de Júlia Pinheiro para a festa ser completa.
Para uma perspectiva mais avisada pode o leitor consultar o link que se segue. Haja Deus!!!
segunda-feira, março 12, 2007
Uma série em DVD
Foi oferta de Natal mas só agora acabei de ver os 12 episódios de "Roma". A coisa já tinha passado no Canal 2 da RTP (onde mais poderia ter passado?) e assistira a um número considerável de episódios, perdendo outros. Com a caixa de DVD's na mão dei-me ao luxo de ir vendo a série com tempo e com calma, confirmando a excelente impressão com que ficara dos episódios vistos na TV.Uma reconstituição histórica que me parece extraordinária (não sou um especialista da História de Roma mas...) e um conjunto de personagens agradável, apoiam um argumento ficcionado que cruza factos com pura imaginação. O resultado é eficaz e deveras interessante do primeiro ao último minuto.
A versatilidade do argumento nunca permite que o espectador se desinteresse, antes pelo contrário. A deslumbrante reconstituição da mítica Roma de Caio Júlio César, das ruas, dos "grafittis" (!!!), dos interiores das domus e das insulae, as roupas, os penteados... tudo contribui de forma objectiva para fazer desta série um objecto muito curioso a vários níveis.
A não perder, caso se ofereça a oportunidade de ver.
sexta-feira, março 09, 2007
Aniversário - um tanto falso
A RTP faz 50 anos e não se cansa de sublinhar as suas qualidades. Esquece os tremendos defeitos de que sempre padeceu. Mas nem outra coisa seria de esperar, a autocrítica não faz parte dos nossos hábitos, nem um pouco mais ou menos. A RTP nunca primou pelo arrojo ou pela inovação. Sempre foi um Maria-vai-com-as-outras a partir do momento em que teve companhia. A única coisa boa que teve (e continua a ter) é o Canal 2, de longe o único que dá para ligar e deixar ficar sem que o dedinho salte de botão em botão no zapping-nosso-de-cada-dia.Enfim, vá lá, parabéns à merda da RTP por ser aquilo que não sonha nem consegue ser. Isto faz algum sentido? Não me parece mas também não faz mal.
domingo, outubro 15, 2006
Degradação da espécie
Para quem pensasse que programas como Big Brother ou A Quinta das Celebridades tinham mostrado até que ponto a televisão pode ser um veículo para as manifestações mais degradantes do significado de "ser humano" existe um novo programa que vem provar que o fundo do poço ainda não foi atingido e podemos esperar cada vez pior sempre que for necessário aumentar as audiências.
Eu sei que há coisas como Fiel ou Infiel, as Escolhas do Professor Marcelo, Dança Comigo ou o Telejornal da TVI, mas este Canta Por Mim bate tudo aos pontos. A exploração da miséria alheia com fins comerciais é descarada, as vedetas convidadas fazem um papel miserável (até que ponto não serão obrigadas a alinhar, mesmo a contragosto, por exigências contratuais?). Em comum com os programas citados em 1º lugar neste post, Canta Por Mim tem a apresentadora, essa espécie de cromo impossível na colecção dos tipos humanos que dá pelo nome de Júlia Pinheiro.
Além de feia (facto de que não pode ser responsabilizada) esta coisa com pernas tem um mau gosto aflitivo (culpa da produção?) e denota uma falta de escrúpulos ao nível de um Al Capone (isso já é culpa dela ou de quem a tenha educado). É incoveniente, malcriada e, acima de tudo, tem uma inesgotável capacidade de explorar a miséria alheia que deveria valer internamento compulsivo numa instituição de requalificação social.
Palavras que escreva nunca poderão fazer justiça à baixeza do Canta por Mim. Acima fica o link para que os mais corajosos se atrevam a espreitar o nível da coisa. Fica, no entanto, u aviso: tenham medo... tenham muito medo!
sábado, outubro 07, 2006
Televisão
Sofre mais que no WC"
Estes versos maravilhosos eram cantados por João Grande, vocalista dos Táxi (quem se recorda?) e estão bem como ilustração para o que se segue.
A SIC celebra 14 anos de existência com um desfile grotesco Avenida da Liberdade abaixo. Auto-intitulando-se como "a televisão do povo " e tendo em conta as personagens que ornamentam o desfile muito está dito mas pretendo apenas acrescentar qualquer coisinha.
Quando, há 14 anos atrás, surgiram as televisões privadas, um dos argumentos que mais entusiasmavam o pessoalinho era a miragem da diversidade. Habituados a uma RTP refém dos poderes políticos e outros de natureza menos evidente, os portugas viam com alguma ansiedade a possibilidade de terem ao seu dispor algo completamente diferente.
A coisa começou logo inquinada com a atribuição de um canal à igreja católica, mas o povão virava-se, principalmente, para a SIC já que da igreja não esperava nada que não tivesse já comido até ao vómito.
Passados 14 anos constatamos que não podia ter havido maior ilusão! Afinal a diversidade era um engano grosseiro já que as diferentes televisões adoptam uma estratégia de marcação cerrada. Se um canal transmite novelas ás 7 horas o outro responde com o mesmo tipo de produto e por aí fora até termos clones horrendos em constante actividade nos écrãs, 24 horas por dia.
Basta dar uma olhadela às programações no jornal. O chamado horário nobre, a parte do dia em que a população portuguesa pasta e rumina programas de televisão, os canais abertos passam mais ou menos o mesmo tipo de produtos. Concursos, novelas, telejornais, uns por cima dos outros, tudo a mesmíssima merda. A diversidade era uma mentira calculada.
Doses cavalares de publicidade, uma imbecilização despudorada, o elogio da boçalidade são aspectos característicos da oferta televisiva. Para um povo de brutos programas feitos à medida. À brutidão oferece-se embrutecimento e assim, num crescendo vulcânico, teremos um dia uma explosão tal de rasqueirice humana que o país ficará submerso em merda por séculos e séculos fazendo jus ao destino que traçou para si próprio desde o 1ª dia. É a felicidade prometida.
Poderia estar para aqui a bater no ceguinho o dia todo mas, como eu próprio faço parte do ceguinho fico-me por aqui. Estou a precisar de ir ali, ao quarto de banho.
Subscrever:
Mensagens (Atom)



