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domingo, janeiro 13, 2019

Humanidade

Os olhos, por si sós, não vislumbram a alma das coisas; como fariam os cegos para poderem saber? Falta o coração, junta-se-lhe a mente, de tudo junto se constrói a máquina que vê, com mais ou menos peças, um ou outro método de funcionamento. Eis a poderosa possibilidade de haver deslumbramento.

As coisas mais banais, as aparentemente simples, as artificialmente complexas ou afectadas, o mundo abarca tudo com as nossas almas lá dentro. O mundo é constituído pelas coisas que podemos perceber e por aquelas que, sem o sabermos, nos escapam. Nessas coisas também estamos nós.

Compete-nos viver.

domingo, junho 05, 2016

Dúvida existencial

Ter convicções pode tornar-se cansativo. Uma maçada! Talvez o melhor seja fechar os olhos, suspirar, atirar a cabeça para trás e deixar a indiferença a ocupar-lhe o lugar.

Incomodo-me de cada vez que sou levado a reconhecer que os meus inimigos até podem ter razão num ou outro ponto, por vezes um ou outro ponto muito importante. Que fazer nestas circunstâncias? Admitir a visão alheia? Rebater, mesmo que sem convicção? Foda-se esta merda.

Ser Humano é a coisa mais complicada com que um Ser Humano se debate. De momento essa é a minha única certeza.

Hoje não quero pensar mais nisso. 

sexta-feira, junho 29, 2007

Pessoas

Honoré Daumier, Third Class Carriage 1862

As pessoas têm uma necessidade de comunicação impossível de explicar. Sentadas em volta de uma mesa jogam palavras, olhares, gestos, sempre à procura de reconhecimento, esperando um pouco de amor. Mesmo quando não há laços particularmente fortes e a situação que as reune é algo formal, a conversa deambula em busca de pequenas portas, frestas de entendimento mútuo, possibilidades de comunhão. Se, por acaso, a oportunidade se oferece e as coisas ganham uma limpidez inesperada é ver as barreiras ruirem, os preconceitos a derreter no calor das palavras, o mundo a reogarnizar-se num sentido completo, como as raízes de uma árvore que encontram o lugar exacto que garante a vida e o crescimento do tronco, dos ramos, a encontrar a forma de dar vida às folhas e às flores da próxima Primavera.
Estou a falar de pessoas simples, como é a maioria das pessoas, sem falsidades escondidas no fundo dos bolsos nem espertezas saloias no risco do penteado. Hoje estou em maré de acreditar que é possível ser-se humano sem mais nada, só assim, coração nas mãos e vontade de gritar uma canção no final de cada frase. Gostava mesmo de saber cantar.

sexta-feira, maio 11, 2007

Homem-Macaco-Homem


Tal como nós, também o chimpanzé começa a ser (é agora) reconhecido por muitos como um patamar evolutivo em direcção a uma espécie mais desenvolvida. A nossa espécie não pode ser o "fim do caminho" da inteligência animal. Isso seria demasiado cruel.

Os chimpanzés estão aí para nos permitirem sonhar com algo melhor do que nós próprios. «Os chimpanzés têm vocalizações para assinalar estados emocionais, identificar frutas, situações de ameaça ou para se referirem a outros chimpanzés, como se os chamassem pelo nome próprio. "até têm vocalizações para saudarem um indivíduo que não viam há muito tempo", conta a primatóloga Catarina Casanova. "Está-se a descobrir que eles têm uma linguagem."»
Na minha desavisada opinião basta acreditar que isto é possível para que não levemos muito tempo a incluir os chimpanzés na grande família humana. E há opiniões bem mais avisadas a afirmá-lo sem vacilar. As provas da sua inteligência são mais que muitas e só o velho preconceito que nos coloca no Éden com um Deus barbudo, vestido com uma combinação cor-de-rosa, como o do tecto da Capela Sistina, a dizer-nos que criou aquilo tudo para nós curtirmos pode evitar que olhemos os nossos irmãos chimpanzés com olhos de familiares simpáticos, ainda que desconfiados. Se os chimpanzés são humanos talvez tenhamos que recriar o estereótipo da imagem divina... mas isso já é conversa de outra aventura.

«O que se julgava ser característico dos Homo Sapiens foi-se descobrindo nos chimpanzés(percebeu-se, por exemplo, que fabricam ferramentas e organizam guerras genocidas!) , ao ponto de a comunidade científica começar a considerá-los humanos.» Lindo. Utilizam plantas como medicamentos e passam esse conhecimento de geração em geração. «Em más condições de cativeiro, desenvolvem patologias do foro psíquico como os condenados a prisão perpétua(...) Sofrem da mesma maneira que nós e têm percepção da dor.»

Etc., etc., as semelhanças são tantas que até se observa que «Os chimpanzés têm danças rituais da chuva, só feitas em alturas de grandes trovoadas. Talvez estejam a agradecer a chuva por trazer mais frutos.» É bonito, mostra gratidão! «É uma proto-religião. Provavelmente foi assim que surgiu a religião entre os nossos antepassados humanos.» Alguém duvida que tenha sido qualquer coisa deste género que trouxe até nós Deus e os restantes deuses?

Basta olhar as divindades egípcias para perceber como os fenómenos naturais e os animais selvagens, representativos das forças bestiais da natureza, estão na base da crença humana em seres fantásticos que lhes são superiores e organizam o andamento das coisas do Universo inteiro. E o cristianismo é bem um clone das antigas religiões da beira do Nilo em alguns aspectos dos quais a crença na vida para lá da morte não será o menos evidente. Oferecer uma forma humana a estas forças misteriosas não é mais que uma cortesia de civilizações mais requintadas e narcisistas, como a nossa.

Este post é baseado no artigo "Eles já são humanos" de Teresa Firmino, saído na edição do P2, o suplemento diário do jornal Público de 10 de Maio que termina explicando que [os chimpanzés são, pelo menos, humanos como nós?]«Humanos, no sentido em que devem pertencer ao género Homo, mas de uma espécie diferente da nossa» diz Catarina Casanova.
Estou tentado a acreditar que há por aqui um fundo de verdade. Tu não?