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terça-feira, abril 11, 2017

La vida loca



As viagens de finalistas ao sul de Espanha funcionam como uma espécie de ritual contemporâneo de passagem à idade adulta da juventude lusitana. Tal como noutras épocas e noutras culturas, os nossos jovens são colocados à prova numa situação em que, muitos deles, estão pela primeira vez entregues a si próprios, longe do ambiente familiar, confrontados com a sua capacidade de responder a preceito a questões desafiantes. Talvez aquilo a que vamos assistindo nestas viagens, ano após ano, seja um reflexo da sociedade que construímos. O excesso, a boçalidade, a ausência de espírito crítico, a vontade de explodir, de ultrapassar os limites, sejamos justos, não são exclusivos desta geração, sempre fizeram parte da condição da adolescência. Apenas têm crescido de intensidade.

Desde que se tornaram um alvo para as campanhas publicitárias que excitam a vontade de consumir, os jovens são bombardeados com mensagens cada vez mais excessivas. O apelo à plenitude absoluta do prazer, a associação do prazer a situações extremas, são factores corriqueiros no quotidiano mediático, há uma idolatria da loucura que potencia comportamentos esquizoides. A coisa vai-se entranhando num crescendo ansioso, as expectativas da viagem de finalistas vão sendo colocadas em patamares altíssimos, a necessidade de viver tudo o que ainda não foi vivido no curto período de uma semana faz com que os filtros sociais sejam desligados; aqueles dias têm de valer a pena, têm de ser experienciados como se não houvesse amanhã!

Depois há a amplificação mediática (outra característica do tempo actual) e as notícias são marteladas em ritmo de hip-hop, a toda a hora, uma e outra vez, com especial ênfase na espectacularidade alarmista. Os meios de comunicação comportam-se como aqueles jovens: pintam manchetes com frases bombásticas, atiram os factos para dentro de serviços noticiosos que os mastigam como se fossem chiclete, todos os jornais se transformam em correios da manhã. Dentro de alguns dias tudo será esquecido, outros escândalos irão ocupar o espaço mediático, os jovens regressarão à vida académica, agora pressionados pela aproximação dos exames nacionais. Se tudo tiver corrido bem, as memórias destes dias loucos irão contribuir para que se entreguem com maior afinco ao estudo. Afinal de contas agora são adultos, já cumpriram o ritual.

quarta-feira, abril 15, 2015

Raios de sol

São, um pouco, como os caracóis. Com o sol a afirmar-se e o calor a chegar, doces vagas de turistas inundam a cidade. Alguns vêm meio vestidos, vêm meio despidos, outros apresentam-se estranhos, simplesmente estranhos.

Custa a crer que aquela mulher use todos os dias aquela flor espetada numa espécie de torre de cabelo que equilibra no cimo da cabeça com um gesto ligeiramente oblíquo, ou que aquele homem use os shorts tão apertados quando vai trabalhar e a camisa sem mangas a descobrir uns ombros ossudos e pálidos. Aquelas coisas só podem ser incómodas. Passam divertidos, conscientes das suas máscaras. Levam-me o olhar, deixam em mim um sorriso.

Os turistas provocam-me um inveja doce, uma nostalgiazinha de trazer por casa. Parecem tão livres de constrangimentos, tão capazes de ligeiras infracções, tão leves, tão bem dispostos...

quinta-feira, janeiro 02, 2014

Roma


Palazzo, chiesa, pizza, spaghetti, spaghetti, pizza, chiesa, palazzo. Haverá país no mundo com mais igrejas do que Itália? Sendo Roma a capital, haverá cidade no mundo com mais igrejas do que Roma? Pizzarias e spaghetterias. Palácios... caramba, quantos palácios tem Roma?

Ruas estreitas, igrejas e palácios. Ristorantes aos molhos e milhares de turistas caminhando. A cidade está repleta de pormenores artísticos. É uma coisa esmagadora e deslumbrante. Palácio, igreja, igreja, palácio. Entrar numa igreja ou outra, assim, ao acaso, é uma experiência estonteante. Encontram-se coisas magníficas! E, de vez em quando, um rasto de Deus.

O Panteão, as piazzas, bom, as piazzas... a Piazza Navona é uma feira permanente, a Piazza dei Fiori é uma feira ocasional, a Fontana dei Trevi não percebi o que é. Fiquei com a impressão que é um portal para outra dimensão mas não posso afirmá-lo com toda a certeza.

Enfim, alguns dias a percorrer as vias romanas deixaram-me com vontade de o fazer de novo. Um dia voltarei e talvez veja o Papa. Desta vez fui ver a Capela Sistina. Para a próxima vou fazer-te uma visita, Chico, fica combinado.

Arrivederci Roma.

domingo, dezembro 29, 2013

Ver



Três magníficas obras em Veneza

Ontem vi pinturas de Tintoretto na Galleria dell'academia em Veneza. Vi outras obras de grandes artistas mas foram as pinturas de Tintoretto que me preencheram. A pintura deste gajo parece mentira, parece milagre, parece extraterrestre. É deslumbrante.
Esta figura flutua, literalmente, sobre o altar da capela

Hoje estou em Roma e fui à capela Sistina. Se esquecer o facto de me ter sentido como sardinha em lata ou ovelha num rebanho pastoreado por gajos maus (no photo, no video, go the left e sei lá que mais) posso dizer que vi outro milagre.

Diz o ditado católico que "ver é pecar", é mas é o caraças! Ver é uma dádiva divina quando se vêem coisas como as que vi ontem e vi hoje. A viagem já valeu a pena, mas isso já eu suspeitava.

quinta-feira, setembro 06, 2012

Regresso a casa

Começo a recuperar o sentido do tempo tal como ele é marcado nos relógios de minha casa. Os primeiros dias, após uma viagem intercontinental, são sempre um tanto hipnóticos. É meia-noite e é como se fossem horas de jantar. Tudo indica que devia estar a dormir mas só acordado as coisas fazem uma réstea de sentido.

Entretanto o corpo vai cedendo ao cansaço, os sonos reorganizam-se de acordo com os movimentos indolentes do sol e da lua e percebemos que podemos declarar estarmos de regresso. Casa só volta a ser casa quando conseguimos dormir outra vez no tempo certo da noite.

Isto pode fazer com que coisas muito simples sejam complicadas e muito, muito irritantes. O quotidiano parece um donut cor-de-rosa derretido a um canto da sala ou um ramo de flores que ficou quinze dias na jarra com água e agora a água cheira a podre e as flores estão secas mas também molhadas. Vamos regressando mas nunca regressamos de uma assentada. É um processo parcelar e muito pouco metódico.

No primeiro dia sente-se um deslumbramento estranho. A televisão parece quase um teatro renascentista e a vizinha velhota do rés-do-chão é como se tivesse saído de uma super produção óliudesca de um filme de zombies tristonhos que, no entanto e apesar de serem zombies, falam com uma voz fininha que até parece que estão a atirar agulhas com uma pistola de vácuo.

Após uns quantos dias a estranhar as coisas mais banais sinto que, finalmente, regressei ao meu corpo. Sim, estou outra vez dentro de mim próprio. Estou mais gordo.

quinta-feira, agosto 30, 2012

NYC

Nos últimos dias tenho tido esta imagem na janela do quarto. Nova Iorque, rua 46 com a nona avenida. Nova Iorque, a cidade das ruas perpendiculares às avenidas (o contrário também é válido), pejadas de gente em movimento e táxis amarelos. Gente que resume o mundo todo dentro desta cidade, gente de todas as cores, formas e feitios, gente com todos os aspectos e imagens. Nova Iorque.
Amanhã é dia de viajar no regresso a Portugal. Viagem longa e demorada que me vai pôr a cabeça um tanto retorcida. Quando se voa de um continente para outro o tempo fica confuso e quem paga é a nossa cabeça.
As férias aproximam-se do seu fim, voando sobre as nuvens.

segunda-feira, agosto 29, 2011

Não morri (na blogosfera) estive de férias

Após uns dias de férias na cidade de Paris, França, estou de regresso a casa e ao 100 Cabeças.
Paris, a Grande, a Enorme, a desmesurada cidade imperial das avenidas infinitas e dos milhentos palácios. Paris, a cidade do Louvre e de centenas de museus e catedrais e dos comedores de baguettes, Paris, capital, apenas, de França e não do mundo inteiro como por vezes os parisienses parecem imaginá-la.

Este regresso à Cidade Luz permitiu-me revisitar locais e rever objectos dos quais já só guardava memórias. Memórias agora reavivadas, memórias revigoradas que irão, com o passar do tempo, perder outra vez o seu brilho e voltar ao estado de vagas recordações que é a forma como conseguimos recuperar à distância o que guardamos nas prateleirazinhas do nosso cérebro.

Uma das coisas que trouxe de volta no avião foi a constatação de que prefiro a arte que é janela à arte que é espelho. Prefiro portas que se abrem no espaço e no tempo a objectos que me devolvem o olhar e me fazem reflectir sobre o que vejo sem me oferecer a contemplação de algo mais, algo mágico para lá do objecto.

Este é um tema que pede mais conversa e exige novos posts sobre ele. Por agora fico-me assim mesmo, a curtir apenas o regresso que é uma das grandes conquistas que se fazem quando viajamos.

quinta-feira, agosto 26, 2010

Eco


Imagem de um inesperado e barulhento cortejo de samba numa movimentada ruela de Tóquio

Dizem que uma das coisas boas que as viagens têm é o regresso a casa. Esta ideia tem o seu fundo de verdade. Regressar ao meu espaço privado é sempre gratificante. Reencontrar os objectos, os ambientes familiares, refazer os trajectos habituais é, agora e durante alguns dias, uma espécie de banho frsco em água limpa que me deixa o espírito calmo e revigorado.

As primeiras impressões são revestidas por um olhar mais atento do que o habitual. Os defeitos e as virtudes das coisas parecem mais evidentes, há um distanciamento adocicado, uma benevolência meio sonâmbula, uma paz interior que se vai diluindo com a passagem do tempo. Há um eco de memória...

Comparar o que vi do Japão com aquilo que vejo em Portugal é como tentar perceber se um doce de amêndoa é melhor que uma bifana de porco. São coisas tão diferentes que qualquer comparação pecará sempre por defeito ou por excesso, nunca se chega a compreender.

Gosto de viver aqui.

segunda-feira, agosto 23, 2010

Voar e rolar


As férias podem ser cansativas. Imaginamos sempre um tempo de descanso quando chega o dia mágico em que o trabalho fica em lista de espera mas, como tenho feito desde esse dia, podemos optar por entrar numa corrida desenfreada. E o descanso é mais psicológico do que físico.

Uma viagem entre Lisboa e Tóquio leva bem um dia de vida ao viajante. É o (pequeno) preço a pagar pelo atrevimento de ir tão longe e, depois, regressar para tão perto. Quanto tempo teriam os viajantes de outras eras que oferecer aos deuses das estradas, dos mares e das montanhas, antes de os deuses dos ares e das nuvens terem garantido o quase monopólio do negócio?

Para nós, aeronautas contemporâneos, um dia a voar, com ligeiros poisos aqui e ali, em diferentes aeroportos que, no fundo, são quase iguais, parece uma coisa extrema, uma aventura descabelada que põe em risco os nossos níveis habituais de comodidade. Quando sentimos isso, Vasco da Gama deve dizer palavrões e chamar-nos uma coisa que não sei qual seja, a coisa que antigamente se chamava àqueles que hoje chamamos de "mariquinhas" (o políticamente correcto que vá dar uma volta :-).

Depois de 4 horas no ar e mais 3 em terra, outras onze a voar ininterruptamente entre Londres e Hong Kong, mais outra espera e, finalmente, saltar em direcção ao aeroporto de Narita para, finalmente, apanhar um autocarro que nos levasse até ao hotel, em Tóquio, faz com que as horas se tornem coisa estranha. Ora dilatam, ora diminuem, de acordo com as nossas sensações e estados de espírito.

Já cheguei a Portugal há alguns dias (viajei imediatamente mais umas centenas de quilómetros conduzindo o meu carro, para lá e para cá) mas o relógio continua a mentir-me e eu a ele. O Japão começa a tomar aquela forma que as recordações ganham passado algum tempo. Os pormenores perdem intensidade e apenas as fotos e as notas que registei me permitem recuperar alguns momentos agradáveis que, de outro modo, acabariam perdidos na imensidão das gavetinhas no meu cérebro.

Isso fica para um outro post que este já vai longo de tanto voar e rolar na memória das viagens.

quarta-feira, agosto 18, 2010

A lógica da rendinha


Aeroporto da Portela, London Heathrow, Hong Kong, aeroporto de Narita, Tóquio; 24 horas de viagem, mais coisa menos coisa, entre tempos de vôo e tempos de espera para ligações aéreas. Tudo a horas, à beira da perfeição possível em situações deste género.

Em Tóquio apanhámos um autocarro entre Narita e o hotel. Os apoios para a cabeça eram feitos de renda. Depois reparámos que os táxis tinham também este estranho adereço, uma rendinha branca, muito branquinha mesmo, para ser mais exacto.

Numa cidade gigantesca como Tóquio (30 milhões de habitantes), a limpeza surpreende. Ruas limpíssimas, zonas específicas para fumar com cinzeiros evitam cigarros fumados e espalmados nos passeios, nem um papelito esquecido... assombroso! Raríssimos grafittis, túneis subterrâneos brilhantemente iluminados e limpos, túneis que cheiram a limpeza.

Pede-se às pessoas que que aceitem cumprir as regras com gentileza; que evitem fumar em andamento; que evitem comer ou beber nas ruas fora dos locais a isso destinados. E as pessoas cumprem religiosamente as indicações. Fica a dúvida sobre o que acontecerá caso as regras sejam desrespeitadas mas estou convencido que não acontece nada de especial e, talvez por isso, as regras são cumpridas por quase 100 em cada 100 pessoas. Esta capacidade de organização é estonteante para um gajo como eu, vindo de um país onde ninguém parece interessado em cumprir indicação nenhuma, por mínima que seja.

O sistema de transportes ferroviários, metro e comboios de superficíe, tem as mesmas qualidades. Limpeza e pontualidade absoluta. Os comboios sucedem-se constantemente, cruzam-se em diferentes níveis, passam lado a lado, sobem, descem, aproximam-se e afastam-se, num bailado mecânico com o rigor de um relógio suíço. Um português não está habituado a ser tratado com tanto respeito!

A tão afamada simpatia dos japoneses é um facto. Chega a ser embaraçosa a forma como os habitantes da cidade se mostram disponíveis e simpáticos, sempre a fazer vénias e mostrando sorrisos abertos, aos quais tentamos corresponder com algum atabalhoamento (o tempo haveria de ir corrigindo a nossa forma de responder a tamanha cortesia).

Um dos maiores receios dos habitantes de Tóquio parece ser o de induzir em erro quem lhes pede auxílio ou indicações. O inglês deles é esforçado mas resulta pavoroso, o que dificulta a comunicação. No entanto, a disponibilidade e vontade de colaborar acabam por compensar a barreira da língua e só se perde em Tóquio quem não for capaz de sorrir.

Li algures que a máxima aspiração de um japonês é fazer um trabalho bem feito. Após os primeiros contactos com os habitantes de Tóquio fiquei plenamente convencido de que isso corresponde à verdade.

Organização, asseio, polidez respeito pelo próximo... foi amor à primeira vista. Tóquio parecia uma cidade quase perfeita. As minhas dúvidas escondiam-se precisamente na sombra desse "quase". Não é possível que tudo seja assim tão "clean", tão certinho. Numa metrópole como aquela tem de haver esqueletos no armário e monstros no fundo da sanita. O facto de serem tão difíceis de encontrar agradou-me bastante mas gostaria de os vislumbrar, talvez mesmo dar-lhes uma valente olhadela.

A primeira impressão de Tóquio foi a de estar perante uma imensa rendinha branca.

domingo, janeiro 03, 2010

Encontro casual em dia de tempestade


Desde há uns quantos anos que nutro pela obra pictórica de Francis Bacon uma admiração fanstasmagórica. Vi uma grande exposição dos seus trabalhos em Serralves, depois tive a sorte de voltar a admirar pinturas de Bacon quando estive em Nova Iorque e agora, nesta minha visita a Dublin, voltei a cruzar-me com o bonacheirão pintor irlandês.

Foi na Dublin City Gallery, The Hugh Lane, onde está patente ao público Francis Bacon, A Terrible Beauty. Trata-se de uma exposição com alguns aspectos bastante curiosos, destacando-se a recriação do estúdio do pintor com toda a sua inacreditável confusão e lixaria, uma imagem de marca. Tentam também mostrar alguns dos elementos de trabalho e inspiração do mestre Bacon, nomeadamente extensas colecções de fotos de onde se destacam as de Muybridge.

Telas recortadas, telas inacabadas, rabiscos parecidos com desenhos (muito poucos, Bacon não desenhava?), recortes de revistas e lixo. Muito lixo. Perante aquela profusão de coisas meio escanifobéticas não resisti e saquei da máquina fotográfica para uma fotozinha (a ilustrar este post). Não havia mais ninguém na sala mas, mal premi o botão, apareceu um gajo pequenino e mal penteado que me disse numa voz fininha "no pictures, sir"(vá lá, sempre me tratou por 'sir'). Eu ainda tentei um "I'm using no flash" (qualquer coisa assim que o meu inglês não desliza com grande perfeição, nem no gelo de Dublin). O gajinho manteve a cara fechada como um molusco viscoso e continuou a abanar a cabeleira oleosa. Pronto, o que tem de ser tem muita força.

Continuei a minha visita sem fotos mas sempre fiquei um pouco mais íntimo de Francis Bacon, um dos meus heróis da pintura.

sábado, janeiro 02, 2010

Longa se torna a espera (na sequência do post anterior)


Já estou em casa. O vôo da Aer Lingus acabou por saír de Dublin com 6 horas de atraso. Tivemos sorte, acho eu, outros vôos foram cancelados o que é muito mais chato do que estar a secar sabendo que, no fim da espera, havemos de olhar a passarada de cima, para lá do negrume das nuvens.

Dentro do avião as hospedeiras de vôo executam aqueles gestos explicativos do funcionamento dos cintos de segurança e da localização das saídas de emergência, uma exibição de bailado contemporâneo que já não via há uns tempos, desde que algumas companhias aéreas passaram a utilizar vídeos e aviões mais modernaços que este onde viajei.

A espera prolongou-se, dentro do avião, até à exaustão. Havia muitas crianças que, quando entrámos, cantarolavam alegremente, decerto entusiasmadas por uma certa agitação de sinal positivo dada pelos adultos, aliviados por saberem que, mais tarde que cedo, haveriam de deixar o frio aeoroporto irlandês. Mas, passado algum tempo, como as rodas do avião se mantinham quietas e coladas ao solo, a nervoseira foi ganhando terreno e as cantorias foram sendo substituídas por pequenos ensaios de choradeira que ameaçavam choro massivo.

Esta situação levou-me a reflectir sobre os mecanismos da impaciência e as flutuações do estado de espírito provocadas pela espera. Como tinha desligado o telemóvel fiquei sem relógio e o tempo foi perdendo sentido. Teriam passado 10 minutos ou uma hora? Impossível saber. É como sermos analfabetos num mundo mediatizado e repleto de mensagens escritas. Para ali estamos, sentados, com um cinto de segurança meio estúpido que não podemos desapertar sem que uma senhora fardada nos venha admoestar como se fossemos miúdos apanhados a cometer alguma asneira.

Quando finalmente o avião levantou para voar de regresso a Portugal senti uma espécie de alívio. Afinal os frágeis mecanismos de um mundo civilizado e mais ou menos previsível ainda funcionavam. A incerteza da barbárie continua apenas do lado de lá da porta. À espera de entrar.

sexta-feira, janeiro 01, 2010

Preso no aeroporto

Escrevo este post no aeoroporto de Dublin onde me encontro a secar por causa do mau tempo. Este teclado nao tem acentos nem cedilhas nem nada daquelas coisinhas bonitas que caracterizam a nossa escrita artistica. Bom, o que se passou para estar aqui com esta conversa da treta? Nevou. caiu um nevao sobre Dublin e, segundo o taxista que me trouxe ate aqui numa velocidade que mais parecia estarmos a atravessar uma ponte suspensa sobre um precipicio, nao havia memoria de tal coisa. Agora para aqui estou sem saber ainda se voo hoje de regresso a casa. Tenho 1 min e alguns segundos para terminar este post. sempre vou dizendo que as ruas de Dublin sao prodigas em chicletes fossilizadas, luvas perdidas das suas irmas e guarda chuvas destruidos. Dublin detesta guarda chuvas.