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segunda-feira, junho 04, 2018

Morreu a senhora do 1.º esquerdo

Depois do Inverno da vida... puf, lá vamos. Com as pessoas não há cá a regeneração primaveril nem regressam os calores do estio. Temos direito a provar uma coisinha de cada vez e chega. Nada da alambazanços que a vida é como cozinha gourmet, criação de chef.

Ainda assim, é com a nossa assinatura individual que leva. Afinal de contas somos nós quem a vive, não é o vizinho do lado, que esse tem os seus próprios problemas; sonhos, pesadelos e pequenos-almoços.

A conversa vai meio parva. Não tenho coragem de cortar a direito para aquilo que estou a pensar. Custa-me dizê-lo, seja oralmente, seja por escrito. É a constatação de um certo óbvio horrendo que não valerá muito a pena estar a sublinhar com tinta fluorescente e a atirar para a frente dos teus olhos, camarada leitor.

Na verdade todas estas linhas são absolutamente inúteis... como tantas outras coisas.


terça-feira, janeiro 02, 2018

Uma dúvida existencial



Estive a rever os meus desenhos de 2017. Foi um ano de grande produção, desenhei como raras vezes me lembro de o ter feito. Provavelmente foi o ano da minha vida de maior produção artística,criei dezenas de peças, ultrapassei, seguramente, a centena. Porquê?

Sim, por que razão se passou isto em 2017? Não é um número redondo, fiz 54 anos, não tive nenhuma exposição especial... o que me levou a desenhar tanto e de forma tão continuada?

De há uns anos para cá que, quando penso no tempo que já vivi, constato uma coisa óbvia: já lá vai muito mais de metade do tempo que tenho guardado na caixinha do meu destino. Já lá vão dois terços ou mais, como saber o tempo que me resta?

É essa dúvida que começa a mexer com os motores da minha existência quotidiana e me torna um pouco ansioso, quase muito, no que diz respeito à produção artística que imaginei ser capaz de conceber e transformar em objectos palpáveis? Será por isso que 2017 foi um ano tão produtivo?

Mal posso esperar por 2018.

quarta-feira, novembro 01, 2017

Afectos

Muito se tem por aí falado de afectos nos últimos tempos. A questão da forma como os políticos reagiram à tragédia contínua dos incêndios e das mortes por eles provocadas é uma questão muito pantanosa.

Costa não mostrou consternação adequada, já Marcelo foi autêntica Madalena  e muito comoveu o nosso povo. Encontrou-se ali uma nesga de oportunidade para desenvolver duvidosa narrativa com os afectos como pano de fundo.

Nunca gostei de velórios nem de funerais. Talvez porque não tenho a certeza de como é suposto comportar-me nesses momentos de dor. Tenho lágrima fácil e comovo-me com facilidade perante a dor alheia mas não sei medir se é muita dor ou se é poucochinha.

Quer-me parecer que esta história é coisa que mete muita lágrima de crocodilo. Não confio em pessoas que choram com excelência e no momento exacto. Os crocodilos usam gravata preta.

terça-feira, maio 31, 2016

Nojo

Já nem se nota. Morreram mais umas mãos cheias de pessoas afogadas no Mar Mediterrâneo mas os jornais já quase não ligam. As pessoas já quase não ligam. É uma fatalidade, uma nova lei da natureza. Que se há-de fazer?

A comunidade ocidental já se fartou de chorar por estes mortos. A comunidade europeia já mostrou que não está disposta a recebê-los vivos. Até é preferível que morram no caminho. Assim poupam-se à desilusão dos campos de refugiados improvisados, aos insultos xenófobos, à angústia de estarem tão perto do sonho e perceberem que, afinal, é apenas um outro pesadelo... enfim, resta-lhes a consolação de morrerem esperançados num futuro melhor.

Isto mete nojo.

terça-feira, dezembro 29, 2015

Fim de ano

2015 vai dando os últimos suspiros. Estes dias finais são estranhos. É como se  o calendário tivesse poderes mágicos, como se os dias obedecessem a números alinhados num papelito. Nada mais errado. São dias como os outros.

Morreram-me dois amigos nestes dias. Inesperadamente, foram-se como o vento. Desapareceram. 2015 acaba negro e frio. Para o António e para o Marcelino foi o fim da vida. O ano acaba negro e frio.

sábado, agosto 15, 2015

Genuinidade democrática


Qualquer cidadão de qualquer nacionalidade é elegível para obter o “golden visa”, basta-lhe ter dinheiro suficiente para pôr a salivar certos agentes económicos e as portas da Europa ser-lhe-ão abertas de par em par. Entretanto, no Mar Mediterrâneo, continuam a naufragar outros aspirantes a habitar este espaço genuinamente democrático que é a comunidade europeia. É tudo uma questão de capacidade de investimento. 

Os que morrem no Nosso Mar investiram tudo o que tinham para comprar o seu lugar miserável num bote mortífero, às mãos de traficantes sem escrúpulos. Os que compram moradias de luxo negoceiam com outro género de traficantes, nem por isso mais escrupulosos do que os outros mas os riscos que correm são praticamente nulos. 

É tudo uma questão de quantidade. Se forem podres de ricos, os aspirantes a um lugar deste lado do mar não encontram obstáculos. Se forem pobres têm assegurada uma aventura inesquecível: ondas, enjoo, muros, arames farpados, centros de detenção, anilhas e pulseiras, fome medo e, caso sobrevivam, talvez consigam um buraquito qualquer onde aconchegar o que restar das suas pessoas e dos seus entes queridos.

Esta diferença na atribuição de autorizações para habitar o espaço europeu é o retrato perfeito daquilo que somos, enquanto projecto social e político comum. O dinheiro impera, o dinheiro é deus, o dinheiro justifica tudo, limpa tudo, limpa-se a si próprio e limpa os crimes cometidos por aqueles que o acumulam. 

Nem quero pensar que algum do capital aplicado a comprar casas de luxo em Portugal seja proveniente do tráfico de emigrantes no Mediterrâneo ou do comércio de armamento nas guerras que os obrigam a navegar para a morte.

Se é isto que temos para oferecer aos países não democráticos ou a democracias pouco genuínas, não admira que nos odeiem e nos combatam com quanta força têm.


sábado, dezembro 15, 2012

Massacres

Os massacres de inocentes sucedem-se a um ritmo estranho nos EUA (ver aqui lista). Os assassinos, nitidamente loucos varridos, dedicam a sua fúria desconcertante para os mais variados grupos.

Em Agosto um gajo abateu seis cidadãos e feriu outros três, cuja particularidade, inquietante para a sua mente perturbada, era o uso de turbante sikh. Pouco tempo antes, em Julho, um outro maluco assassinara a tiro de metralhadora 12 espectadores de um cinema no Colorado (e feriu mais 59) que se preparavam para assistir à estreia do mais recente filme do Batman.

Os assassinos suicidam-se, são abatidos ou apanhados e condenados, isso não interessa muito para o caso. A questão é: porque acontece isto tão regularmente em território norte americano?  A resposta parece ser óbvia: porque um gajo pode ir, por exemplo, ao barbeiro e, entre um corte de cabelo e uma manicure, comprar uma arma automática com munições sem ter que explicar a ninguém o desejo de possuir tão macabro brinquedo.

É conhecido o poder dos fabricantes de armas nos EUA (se fosse só nos EUA...) e a sua inacreditável capacidade para perpetuar a venda livre de pistolas, metralhadoras e bazucas lá na terra deles. O argumento económico pesa, e de que maneira, para manter esta situação selvagem.

Tudo isto configura uma metáfora poderosa do estado civilizacional a que chegámos. A morte é fácil mas o dinheiro flui... já a vida parece demasiado cara para ser preservada. A morte é, de longe, mais barata e lucrativa do que a vida.

quarta-feira, dezembro 21, 2011

Kim III

Eu sei que não sei grande coisa sobre o que se passa na Coreia do Norte. Eu sei que, para um gajo que vive neste lado do planeta, é complicado compreender o que vai nas cabeças dos norte-coreanos quando choram assim, como madalenas arrependidas, baba e ranho, perante as imagens dos seus queridos líderes feitos múmias ou, mais simplesmente, transformados em memórias. Eu sei.

Além do que acima fica escrito também me faz confusão que os comunistas que conheço fiquem todos eriçados quando se fala mal da Coreia do Norte. Agora que o mundo contemporâneo se torceu todo de fora para dentro e de dentro para fora, resta-lhes este cadáver político e social como âncora ideológica, o que não deixa de ser paradigmático da fome doutrinária que passam.

Como pode ser comunista um país onde o poder é hereditário, passando de pai tirano para filho? Qual  a sustentação ideológica para esta situação aberrante? Como designar o regime norte-coreano? Monarquia?

Deixem-me finalizar este post meio macaco dizendo que a morte de Kim II me tocou tanto como a do Kim que o antecedeu na cadeira de rei da Coreia do Norte. Dois gordos que governaram com pata de ferro um país de pobres escanzelados e  que agora têm em Kim III um herdeiro gordo e seboso como eles.


domingo, outubro 23, 2011

Não ver

Consegui não ver as imagens do assassinato do tirano líbio.

Kadafi apareceu algumas vezes aqui, no 100 Cabeças, principalmente na sua qualidade de amigo dos líderes mundiais. Eram fotos glamourosas que mostravam um homem bem vestido e arrogante abraçado ou apertando a mão dos poderosos das democracias ocidentais. Nalgumas atestava-lhes, até, umas beijocas!

A forma como caíu em desgraça e acabou, abatido como um rato de esgoto, mostram bem a fragilidade da condição política no mundo em que vivemos. Hoje és um gajo poderoso, amanhã és um cadáver sujo de sangue e de merda. Hoje vales tudo o que imaginas e, se calhar, até um pouco mais, amanhã não vales mesmo nada. É a vida... e a morte.

Não sei bem como aconteceu mas li algures que as imagens da morte de Kadafi eram indecorosas. Acreditei e não vi, muito menos as procurei. Não quero vê-las, não quero saber, a exibição da morte enoja-me. Enojaram-me as imagnes das execuções de Saddam Hussein e de Ceausescu, certamente iria acontecer o mesmo com Kadafi. Morreu, está morto. Espero que o enterrem.

Não deixa de ser irónico que Kadafi e Saddam tenham sido ambos apanhados enfiados em buracos, como bichos.

domingo, março 13, 2011

Nas costas do cão


Coisas como aquela que aconteceu no Japão deixam-me desarmado. Não tenho palavras, não consigo pensar em nada de jeito. Sinto-me como uma pulga que vive nas costas de um cão que está a dormir e que. de vez em quando, se coça ou estremece.
No Verão passado estive no Japão e saí de lá embevecido com tudo o que por lá vi e por lá vivi.
Se deus existe...

O filho da puta do cão está com insónias.

Madoka, você está aí?

quarta-feira, outubro 13, 2010

33 Lázaros


Acabo de ver imagens do resgate de um dos 33 mineiros chilenos. São imagens comoventes de um homem que sai do cilindro que o foi buscar à barriga da terra que se preparava para o digerir lentamente.

É o triunfo da tecnologia humana sobre a morte anunciada. Não tão radical quanto a ressurreição de Lázaro narrada na Bíblia, mas suficientemente impressionante para nos deixar a sorrir de boca aberta com os olhos cravados no pequeno écrã do computador.

domingo, junho 20, 2010

Nem todos te amam depois de morreres (se o teu nome for Saramago)


No post anterior fiz uma pequena reflexão sobre o efeito purificador que a morte tem nas vidas que vivemos como se, sendo o fim, resultasse como uma espécie de desinfecção, uma derradeira limpeza, antes de saírmos de cena.

Mas, depois de ler o que escreveu o pasquim do Vaticano (ler e ver aqui) sobre José Saramago, percebi que não é bem assim.

Os católicos apregoam o perdão e a reconciliação entre os homens mas nem sempre o praticam. Deus não os livra da mesquinhez e da vingançazinha quando a podem exercer. Talvez porque, como tantas vezes nos fez notar Saramago, a mesquinhez vingativa é um traço bem vincado na divindade de Jeová. Se o pai deles é assim porque haveriam os filhos de ser diferentes?

Por cá tivemos a atitude do nosso presidente (ler aqui), o cidadão Cavaco Silva, católico recurvado e papista servil, que, a pretexto de ter prometido à família uma visita guiada às maravilhas naturais dos Açores, considerou ter alibi suficiente para justificar a sua ausência no funeral do escritor.

Saramago tinha afirmado em entrevista televisiva que Cavaco é "um campeão da banalidade". Se alguma prova faltasse para lhe dar razão, a atitude do presidente aqui está para mostrar como, mais uma vez, foi ajustada a sua análise. Cavaco teve a sua vingançazita, pequenina e infantil, bem à medida da personagem que tão mal representa. Hoje podia ter mostrado grandeza de espírito mas apenas conseguiu evidenciar que não tem estatura para ocupar o cargo para o qual foi eleito. Se um presidente é o espelho do povo que o escolhe, ai Jesus, valha-me Nossa Senhora!

Concluo reconhecendo o meu erro no post anterior. Nem toda a gente te ama depois de morreres se o teu nome for José Saramago. Compreensívelmente.